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História Bad Medicine - Capítulo 16


Escrita por: e Noona-Taetae


Capítulo 16 - On your knees


— Yo! — Taehyung cumprimentou com um aceno. Yoongi coçou os olhos, mas não era uma miragem, Kim Taehyung realmente estava ali, com uma mochila nas costas e montado na sua moto. — Você não estava esquecendo alguma coisa? — Ele encaixou a chave na ignição.

— Ah… ah… eu… — Yoongi olhou para os lados sem nem saber o que procurar. Uma despedida não estava nem nunca estivera no seu script.

— Escuta: é minha intuição que é muito boa ou é você que é muito previsível pra eu saber exatamente que você ia fazer isso?

— Isso… isso o quê?

— Isso! — Taehyung apontou um dedo indicador e acusativo para as mochilas de Yoongi. — Dar no pé, vazar, é isso que você faz, não é?

— Eu… — Ele suspirou e coçou a cabeça, sem chances de se defender. — Você vai fazer a mesma coisa, não? — Apontou para a bolsa em suas costas. — Foi o que me disseram.

— Não, eu não pretendo ir embora, eu só vou… — Parou uns segundos, ponderando. — Dar um tempo.

— Dar um tempo? — Ergueu as sobrancelhas.

— É, dar um tempo. Dar um tempo dessas caras conhecidas, rodar por aí e pensar um pouco.

Yoongi murmurou em resposta, e daquele murmúrio se seguiram arrastados minutos de silêncio constrangedor. Taehyung batucava no capacete entre suas pernas, pensando no que dizer, e Yoongi olhava para todos os lugares que não fossem Taehyung, à procura de uma nuvem cinza no céu para poder falar do clima, talvez, mas finalmente Taehyung pigarreou e então Yoongi se lembrou de algo que gostaria de perguntar, caso fosse a última vez que se vissem.

— Então… no que deu, ãh… essa confusão toda?

— Meu tio e meu primo foram presos. — Respondeu, apático. — Pegaram uns meses aí, não ouvi direito.

— E a sua família…

— Vão dar um jeito de pagar a liberdade deles, com certeza. Não tem ninguém ali no meu time.

— Deve ser difícil para você.

— O quê? Não chamar aqueles idiotas de família? Nem um pouco. — Ele batucou os dedos nervosamente no capacete. — Eles achavam que minha mãe era só mais uma caipira que acabou morrendo sufocada na cidade grande e pensam ser um milagre eu ainda estar vivo, já que pra eles eu também sou um roceiro nato só por ter passado as férias na fazenda dos meus avós, mas meu pai nunca ligou para isso, e eu também não dou a mínima.

— Queria ter conhecido seu pai. — Yoongi comentou, tão espontaneamente que arrancou de Taehyung uma breve risada. — É sério.

— Eu acredito. — Se desculpou. — Só não acho que ele teria gostado de te conhecer.

— Por quê?

— As tatuagens. — Ele apontou para Yoongi como um todo, coberto de tatuagens até as mãos.— E os piercings; ele tinha sérios problemas com essas coisas, nós brigávamos muito por causa disso. — Passou a mão pelo pescoço, sobre as tatuagens de hibiscos. — “Se é para tatuar flores, tatue lírios pelo seu pai” — Sorriu, nostálgico. — Foi o que ele me disse, depois eu entendi o porquê.

Yoongi sorriu sem ânimo e ficou em silêncio por um minuto, como que em respeito pela memória do senhor Kim, à qual Taehyung não fez objeção.

— É para lá que você vai? — Perguntou, sem se preocupar de demonstrar interesse em saber. — Para a fazenda dos seus avós?

— É, é para lá. — Esticou as pernas, se equilibrando sobre a moto e voltando a fincar os pés no chão. — É um lugar legal. — Girou a chave na ignição, de repente, mas Yoongi não demonstrou surpresa.

Ficou ali, quieto, ouvindo o barulho de motor aquecendo, experimentando os segundos como se fossem horas de desconforto.

— Você realmente vai voltar? — Ouviu-se perguntar, num tom carente, quase triste, mas nem tentou concertar.

— Eu vou precisar devolver sua moto, não? — O motor roncou, pronto para o impulso dos pés do piloto. — E se você não estiver me esperando aqui, e exatamente aqui, eu não vou te procurar em outro lugar.

Os olhares finalmente se encontraram e ali ficaram, e ambos o sustentaram até que Yoongi cedesse ao impulso de largar as bagagens no chão e correr para extinguir a longa distância entre seus lábios e os de Taehyung.

As bocas ávidas se perdiam e se encontravam em molhados estalos de desespero numa silenciosa conversa entre almas que só sabiam falar de esperança, pois era de esperança que, apesar de tudo, Yoongi e Taehyung estavam cheios.

— Seu… covarde… — Taehyung falava entre os beijos, ofegante. — Cachorro, vira lata…

— Eu sinto muito… — Sentia a necessidade de se desculpar, como se colar um beijo atrás do outro nos lábios vermelhos fossem sua redenção. — … por tudo…

— Você é hétero… nunca deveria ter me metido com você… — Mordeu o lábio de Yoongi com força, vingativo. — Nunca…

— Se eu fosse hétero…

— Não estaria aqui me beijando? — Riu. — Já ouvi essa. — Passou a língua sobre o lábio no qual acabara de abrir uma ferida com os dentes, satisfeito de sentir o gosto metálico invadindo seu paladar.

— Eu só não queria te afundar comigo nas minhas incertezas… — Continuou beijando Taehyung, mesmo com a boca sangrando. — Não quero te machucar mais…

— Você é um covarde e eu sou um idiota. — Segurou o rosto de Yoongi entre as mãos, beijando-o com mais intensidade. — Quis tentar um relacionamento com você… e me fudi… porque você é um babaca.

— Nunca foi minha intenção te chatear… Eu só...

— Você só pode se gabar de ter armado pra mim. — Passou a língua pela ferida aberta mais uma vez. — Sim, eu caí na sua que nem um pato, parabéns, mais um coração quebrado pra sua coleção, feliz?

— Você sabe que não é isso…

— Mentiroso do caralho, só cala a boca, tá? — E fincou nos lábios machucados mais um beijo quente e necessitado, a língua afiada entrando, invasiva e sem pedir licença.

Yoongi prendeu a respiração, concentrado em retribuir aquela troca que prometia ser a última antes de meses de abstinência, só recuperando o fôlego completamente quando Taehyung se separou sem dó e por maldade.

— Vou sentir sua falta. — Sussurrou, ainda rente aos lábios inchados de Taehyung.

— Vai nada. — Empurrou Yoongi pelo peito, pôs o capacete, chutou o chão e saiu pelo portão dos fundos do Bad Medicine, no qual Yoongi estava condenado, agora percebia, a cumprir uma longa, talvez perpétua, sentença de prisão.

***

A sineta da porta da frente tocou, anunciando a chegada do primeiro cliente daquela noite.

— Bem vindo. — Jackson sorriu atrás do balcão, ao que Namjoon respondeu mostrando suas covinhas. — Você sempre some quando a coisa fica feia, ou é só uma ilusão minha?

— Posso ter sumido, mas estou bem informado. Hm… Vodka.  — Ele se sentou ao balcão. — E aí, aonde está o novo dono desse boteco?

— No lugar que lhe é devido. — Jimin saiu da cozinha, carregando uma caixa com novas garrafas de saquê. Jackson deixou a vodka de Namjoon pela metade e correu para ajudar. — Jackson, você está tão prestativo, isso é simplesmente bizarro demais.

— Agora você é meu chefe, não há o que fazer. — Falou, brincando, enquanto já se adiantava em repor as prateleiras da estante de bebidas.

— Sei… — Jimin terminou de preparar a vodka para Namjoon, lhe passando o copo e descansando os cotovelos à sua frente. — Mais alguma coisa, meu bem?

— Por enquanto é só, obrigado. — Apoiou-se melhor sobre o balcão, ficando mais próximo do rapaz com os cabelos tão belamente descabelados que harmonizavam perfeitamente com o despojado lenço vermelho amarrado ao pescoço. —  Jiminnie… o Yoongi… — Falou baixo, como quem pede por uma informação de precioso sigilo. Jimin sorriu ao perceber a preocupação, maneando a cabeça para o lado, fazendo Namjoon olhar naquela direção.

Yoongi vinha descendo a escada de metal escurecido naquele instante. Cabelos verdes desbotados, piercings no rosto, tatuagens lhe cobrindo a pele pálida desde o pescoço até as costas das mãos: tudo normal, não fosse pela camisa social branca, com as mangas dobradas até os cotovelos, o suspensório, a calça e os sapatos sociais, pretos. Rebelde, maduro, despojado mas tão estranhamente elegante que era de tirar o fôlego de qualquer um.

Ele atravessou o salão, distraído, ou talvez tão concentrado nos próprios pensamentos que nem notou os olhares de Jimin, Namjoon, Jackson, de Lisa e Chaelin o seguindo até chegar ao piano. Com o tampo da cauda já levantado, ele levantou o tampo menor, que cobria os teclados, se sentou, respirou fundo, fechou os olhos e começou a tocar.

A música, que se podia ouvir da calçada, era como um encantamento, um sutil convite para entrar, ouvir, apreciar, e bater palmas para aquele espetacular pianista. Yoongi estava naquele ofício, de apinhar o Bad Medicine com a sua platéia, já faziam algumas semanas. Pela manhã e durante a tarde trabalhava no estúdio de tatuagens, voltava para o bar à noite e tocava por horas inteiras, até os dedos cansarem. A rotina o mantinha entretido, longe de sentimentos desagradáveis, mas por vezes sentia que os ambientes que frequentava inevitavelmente o traiam, já que estavam impregnados pelas memórias com Taehyung. O primeiro beijo no estúdio de tatuagens; quando fizeram amor naquele piano; na sala, onde se abraçaram e se atracaram mais de uma vez; o balcão, à entrada do Bad Medicine, quando se conheceram.

Mas ele não estava lá, e não era como se Yoongi não tivesse com quem compartilhar daquela insatisfação, pois, por mais que Jimin tivesse se tornado um sério, muito organizado e sensato gerente, ele mesmo, Jackson e as meninas não paravam de suspirar pelos cantos, sorrir a esmo e às vezes soltar umas tristes risadas, arrombados pelas lembranças de tantos dias seguidos com aquele Taehyung com sorriso quadrado, bandana sobre os longos cabelos e roupas desbotadas.

Não sabia se aquilo era um sentimento bom ou ruim, mas Yoongi respirava saudades a cada passo. Sim, saudades, muitas saudades, daquele amor que ele quase perdeu por livre e espontânea vontade e que agora não via a hora de rever.

Namjoon fez coro às palmas do salão cheio assim que Yoongi encerrou sua apresentação. O viu sorrir para todos, um pouco tímido, enquanto vinha andando em sua direção.

— Namjoon. — Se sentou ao seu lado, pedindo a Jackson um copo d'água. — Faz tempo desde a última vez, não?

— Faz, sim. — Lhe deu fraternos tapas no ombro. — Sabia que você ia tirar a poeira daquele piano.

— Pianos são feitos para ser tocados, afinal. — Tomou metade da água em um gole. — Mas indo direto ao ponto, você veio para se desculpar pelo nó que deu na minha vida ou só para rir da minha desgraça?

— Eu só sugeri que você viesse viver aqui e te ajudei quando consentiu. — Deu gostosas risadas. — Quem deu um nó na sua vida sempre foi você mesmo.

— Eu sei. — Suspirou. — É que é mais fácil pôr a culpa em alguém.

— Com certeza. — Sorriu. — Mas não é tão ruim assim, é? Digo, olha só para você, o coma te fez esquecer do ódio a roupas sociais?

— Talvez. — Riu. — Ou destruiu meu impulso de ser um nômade.

— É… eu juro que estava com medo de vir e descobrir que você tinha vazado, depois dessa confusão toda, só que não ver o Taehyung aqui é mais estranho ainda, bem mais do que eu imaginava.

— Sim, é bem estranho. — Passou o indicador pela borda do copo vazio, pensativo. — É bem estranho sem ele.  

Conversar com Namjoon foi ótimo, uma espécie de alívio poder conversar com um velho amigo depois de tantas coisas fora do padrão que aconteceram. Antes que Jimin o expulsasse, Namjoon lhe deu uma dica: tocar músicas do Bon Jovi no piano. Vai ser interessante pensar nesses arranjos, pensava, se despedindo de Namjoon e rumando para a escada em espiral atrás do balcão.

— Jimin, quer ajuda para fechar? — Perguntou, antes de subir.

— Não, pode ficar tranquilo, obrigado.

Jimin trancou e verificou as janelas duas vezes. Estava sozinho, finalmente. Se sentou numa cadeira qualquer, no meio do salão, olhou em volta e suspirou longamente, deixando as lágrimas virem.

Ele teve uma boa desculpa para se afastar do serviço de garoto de programa por um tempo, não estava deixando o Bad Medicine morrer, muito pelo contrário, e estava mais próximo de Jackson como nunca imaginara que conseguiria antes. Ainda assim, mesmo com muitos motivos para sorrir ele sabia que Taehyung estava, em algum lugar, a muitos quilômetros dali, chateado. Tentando amadurecer, tentando crescer, tentando desapegar e tentando superar, tentando lidar com sentimentos difíceis, mas sozinho e chateado; decepcionado, talvez frustrado, até, e muito chateado.

— Você sempre espera um momento em que esteja sozinho para poder chorar?

— Jackson! — Se levantou de um salto, assustado e tentando limpar o rosto às pressas nas costas das mãos. — Eu, você, céus, desde quando está aí?

— Desde que me dei conta de que tinha esquecido minha carteira. — Ele fechou a porta atrás de si, indo até onde Jimin estava e parando a pouquíssimos centímetros de distância dele.

Jimin deu um passo atrás, mas foi envolvido num abraço inesperado, quente e apertado que acabou espremendo o restante do choro.

— Todos nós sentimos falta dele, Jimin…

— Eu sei, mas eu sinto muita, muita falta… — Soluçou. — Parece que falta um pedaço, entende?

— E eu? — Perguntou, de repente, alinhando a testa com a do menor.

— Vo-você… você o quê? — Fungou, olhando nos olhos claros que olhavam bem fundo nos seus.

— Sei que Taehyung é seu melhor amigo, e que vocês são até meio coloridos e tal. — Jimin riu, se engasgando um pouco no choro. — E que o Tae faz uma puta falta, eu sei, eu sinto também, mas eu… — Suspirou, e Jimin suspirou também, mal acreditando que estava entendendo o que Jackson estava prestes a dizer. — Eu não sou o suficiente para você?

Naquela noite Jimin se deixou ser beijado, não por consolo e muito menos pela ambição que a muito tinha por aqueles lábios grossos, mas pela tentação de se sentir plenamente amado de volta por alguém.   



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