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História Beast | taekook - Capítulo 11


Escrita por:


Notas do Autor


Oii amores, voltei rapidinho dessa vez. Um milagre aconteceu, e eu tive inspiração pra escrever. Espero que gostem do capítulo :)

Quero agradecer muito por os favs e views!!! *choro* Eu não gosto de me prender a views e favs pra atualizar, mas é mt legal saber que tem quem goste da fic. Independente disso, vou continuar atualizando assim que terminar de digitar e revisar, mas muito obrigada!

Capítulo 11 - Apaixonados e suas loucuras de amor


Fanfic / Fanfiction Beast | taekook - Capítulo 11 - Apaixonados e suas loucuras de amor

O dia estava apenas começando, pelo menos para alguns. Eram por volta de oito da manhã, e o sol começava a se erguer para um ponto mais alto no céu, beijando a pele pálida do pintor em seu descanso. 

No castelo, os serviçais já estavam acordados há horas, preparando as refeições para o café da manhã e deixando cada cantinho tão lustroso quanto um cristal; os guardas que pareciam nunca dormir, vigiavam os corredores de ponta a ponta como aranhas em suas teias. Às vezes, Jeongguk pensava o quão chato devia ser o cotidiano de um guarda, apenas ficar parado o dia inteiro não se mostrava a melhor profissão do mundo. O pensamento logo era repreendido por si mesmo, se não fosse pelos guardas, a segurança não existiria.

Como um filhote de cachorrinho, o ômega acastanhado gemeu de satisfação quando seus pés tocaram a água geladinha que corria na fonte do jardim. Sentia-se rebelde fazendo aquilo,  pois sabia que se algum membro real resolvesse dar as caras, ele ficaria envergonhado e se atormentaria por horas. Enquanto os pés nadavam no líquido cristalino, ele massageava os dedos do pé de Jimin com extrema precisão, sabendo exatamente quais pontos tocar. 

— Você é bom nisso, Gguk. Continue. — ordenou o mais velho, recostado na escultura da fonte e lendo o seu jornal de todos os dias. Era por isso que sempre estava antenado em tudo, não perdia um folheto de notícias locais sequer. Haviam relatos da guerra em Daegu por todas as partes, as pessoas estavam ansiosas para saber qual fim aquilo teria. — Acho que posso escalar uma montanha depois dessa massagem. 

— Você diz isso toda semana, mas a verdade é que é mais sedentário do que um bicho preguiça. 

Jeon estava de olhos fechados, aproveitando os raios de sol matinal que batiam em seu rosto. Nada como uma vitamina D para revigorar a beleza. Era intrigante como o tempo parecia fechar quando estava prestes a acontecer algo ruim, aquela tempestade de guerra diziam muito sobre, ou talvez fosse apenas uma paranoia sua. A paz acabou quando ele sentiu um tubinho de papel lhe acertar no osso da bochecha.  

Ele abriu os olhos. 

— Você não compreende. Estou me preparando bem para isso, pois quero ter um retiro espiritual daqui a alguns dias. Definitivamente irei escalar em breve.

— É claro. — rebateu o mais jovem, sem de fato acreditar que o amigo fosse mesmo escalar alguma das montanhas do reino. 

—  Por falar em retiros espirituais, como está o Tae? 

— No último sono, eu espero. 

Mais cedo, o pintor subiu até o penúltimo andar do castelo na ponta de seus pés, ignorando os guardas em seus estranhos chapéus  e roupas azul marinho que o lembravam dos uniformes escolares, péssima época. Ele abriu ligeiramente a porta branca de madeira, observando pela fresta um homem agarrado em seus travesseiros como se estivesse agarrando à vida; seu rosto estava amassado, os machucados ficavam avermelhados e inchados durante o sono, mas estavam cicatrizando bem. 

Taehyung parecia tranquilo, por isso decidiu deixá-lo acordar por conta própria e no horário que desejasse. 

Era o seu terceiro dia no castelo. Ele já conseguia se movimentar com um pouco mais de fluidez, podia subir e descer escadas num ritmo lento e tomar banho sozinho. Era uma sorte para ele  ser alfa naquele momento, as horrendas feridas causadas pelas flechas e espadas levariam cinco vezes mais para se curar em um ômega ou beta. 

— Hyung, você realmente parece tenso. Não são apenas os pés rígidos como um tronco, mas toda a sua postura — comentou Jeongguk. — Está preocupado com algo? Isso tem haver com Yoongi? 

— Por que está supondo que tenha algo haver com Yoon? 

— Por causa da guerra, oras. 

— Jeongguk, você sabe que ele está seguro no castelo. Não tenho com o que me preocupar, pois sei que a guerra está quase vencida — O alfaiate guardou o jornal em seu bolso depois de dobrá-lo em um pedacinho. — Mas sua pergunta pareceu muito específica. 

— Olha, eu.. eu não quero parecer intrometido ou incomodar você, eu sei que está com o Hobi há muito tempo e que vocês estão felizes, mas notei uma aproximação diferente entre você e o príncipe; o outro, neste caso — Jeon tentou conter a sua língua, porém falhou. — Acho que descobri o seu padrão. 

— Seu moleque! Não tem nada a ver com classes sociais, é apenas uma coincidência — protestou ele, esticando seu outro pé para continuar recebendo a massagem. — Eu estava esperando que você fosse questionar isso, é um assunto complicado. 

— Tente descomplicar. Talvez eu possa ajudar.

— Eu… eu gosto muito do Hoseok, estamos juntos desde pequenos. Crescemos como amigos e depois nos apaixonamos, amo nossa história e amo tudo sobre nós, mas algo está diferente ultimamente. 

— O que exatamente está diferente?

— Já não sinto mais as borboletas no estômago quando o vejo, embora fique muito feliz por ter a presença dele. Por outro lado, basta apenas olhar para Yoongi e consigo perceber minha alma sair do corpo por um momento — Os movimentos dos dedos magros do pintor cessaram, ele subiu vagarosamente o olhar para seu hyung e franziu as sobrancelhas.

— Não me diga que…

— Eu tentei negar isso para mim mesmo quando me dei conta, mas sou um adulto, sei muito bem o que está acontecendo. 

— É realmente muito complicado. Você já pensou em conversar com ele sobre isso? Com eles? Yoongi já deu algum indício de que o sentimento é mútuo? — indagou o ômega, sentindo-se um guru do amor. Sequer sua vida amorosa estava em perfeito estado, mas ele adorava dar conselhos sobre isso. 

— Não! Eu não tenho coragem o suficiente para conversar com nenhum dos dois. Yoongi é muito reservado e Hoseok muito sensível, tenho medo de magoá-lo. Não suporto vê-lo chorar — Pensar no príncipe alegre e divertido, triste por sua causa, lhe partia o coração. — Eu ainda o amo, eu sinto isso. Gosto quando nos beijamos, adoro fazer carinho em seus cabelos, mas sei que estou desenvolvendo sentimentos por Yoongi. 

— E o que vai fazer para resolver isso?

— Nada. Vou esperar até que passe, ignorar, continuar fazendo o que gosto. A vida não é só sobre amores, posso conviver com isso.

— Tudo bem, só espero que não magoe a si mesmo, caso contrário eu irei te jogar da torre mais alta deste castelo… ou colocá-lo em uma carruagem e te mandar para a Escócia, para que viva com a família que estava reclamando no mês passado. 

Jimin riu. Sempre estava fazendo ameaças engraçadas ao se preocupar com o garoto, mas ele era bem criativo ao fazê-las.

— Está duvidando? — Jeongguk beliscou o pé do mais velho. — Você consegue ver o tamanho dos meus múscul-

Antes que pudesse terminar a frase, o som de uma corneta soou em algum lugar do jardim, o que chamou a atenção de todos que estavam por perto. 

Jimin rapidamente calçou suas botas e correu em direção a entrada do castelo, onde um dos guardas tocava a corneta repetidamente. Jeon fez o mesmo depois de sacudir os pés molhados,  enxugá-los com o casaco que fazia parte de seu conjunto de roupas, já que não havia outro tecido, e calçar os sapatos. Iria se lembrar de colocá-lo para lavar depois. 

Cornetas só eram usadas para dar avisos muito importantes e de maneira rápida. Desde que Jeon passou a morar no castelo, aquela era a segunda vez que presenciava aquilo; a primeira foi para anunciar o baile de ano novo lunar. 

— Sim! Sim! Eu sabia que conseguiríamos! — Jimin festejou de repente, erguendo os braços para cima com o maior dos entusiasmos. 

Jeongguk demorou um pouco mais para conseguir ler o que estava escrito com tinta vermelha fresca sobre o pergaminho, e demorou ainda mais para processar a mensagem em seu cérebro. Estava lento desde que acordou perdido em seu próprio quarto, tendo que aguardar cinco minutos inteiros para se dar conta da realidade. 

“A família Wang levantou bandeira branca pela madrugada desta segunda-feira. Após perderem grande parte de seus soldados e aliados, eles enfim desistiram de seu ideal de luta. Como tal, as terras continuarão a pertencer à família Min.” 

— Desistiram de seu ideal de luta — O ômega sibilou sem sequer prestar atenção no que estava dizendo, olhando fixamente para um ponto cego e ao mesmo tempo para o nada. — Eles desistiram de seu ideal de luta! Nós vencemos! 

— É o que eu estou dizendo! 

— Nós vencemos! Vencemos! — repetia alegremente, sentindo que poderia explodir de felicidade. A guerra não tinha qualquer relação direta consigo, não perderia ou ganharia nada com aquela vitória, tampouco agregaria algo em sua vida, mas significava que Taehyung não havia lutado em vão. Ele era um verdadeiro guerreiro e iria poder contar aquilo para os filhos no futuro, aquilo era muito bom. — Preciso dar a notícia para o Tae! 

Jeon amarrou o casaco de qualquer jeito em seu pescoço e passou a correr para dentro do castelo. Os demais comemoravam a vitória a todo o vapor, os guardas cumprimentavam uns aos outros alegremente e os serventes mostravam-lhe sorrisos genuínos ao passarem por si. Certamente haveria uma grande festa mais tarde. 

Ele queria aproveitar o momento de euforia e retribuir todos os sorrisos, mas encontrar o alfa de olhos esverdeados parecia muito mais interessante.

Estava prestes a subir a escadaria principal, quando um homem desconhecido o impediu, surgindo de repente em sua frente.

Era um estrangeiro, visivelmente um estrangeiro. 

Sua pele tinha a tonalidade de uma rara pedra de ônix, parecia ser feita de veludo; os olhos eram castanhos claros como os seus próprios olhos, e seus cabelos tão escuros quanto café. Ele era alto, uma questão de três ou quatro centímetros mais alto que ômega. Emanava uma fragrância cítrica muito gostosa; um alfa. 

Era um jovem muito lindo, tanto que uma expressão de surpresa imediatamente apareceu no rosto do Jeon. 

— O-Olá? 

— Olá. Me desculpe pelo incômodo, estou procurando pelo rei. — Ele disse em um coreano quase perfeito, podia-se notar um sotaque forte, no entanto. 

— Tudo bem, senhor. Não sei lhe informar sobre o paradeiro exato do rei, mas posso levá-lo até a sala dele, se desejar. 

— Excelente! — O indivíduo passou sua mala da mão esquerda para a direita. Ele usava calças de linho escuro e uma camisa caramelo com botões dourados pregados; as botas da mesma cor rangiam com seus movimentos. — Aliás, muito prazer, eu me chamo Bernard Heroux — Ele estendeu sua mão livre simpaticamente. — Sou um pesquisador e escritor, venho da Europa para participar do concurso de artes. E quanto a você?

— Jeon.. Jeongguk. O prazer é todo meu, senhor Heroux. Sou um pintor. — Um pouco desconcertado, ele retribuiu o cumprimento. — Perdão pela curiosidade, mas de que país vem?

— Tudo bem. Sou afro-europeu, nasci na França e morei no reino de Lesoto, na África, por sete anos. — A boca do pintor se tornou um O. Jeon era mestre naquela expressão. 

— Uau. Parece legal. 

— Encantado, Jeon. Aparentemente a beleza realmente reina por essas terras. — Seu olhar para o acastanhado era sugestivo, havia um ar de segundas intenções por trás de seu sorriso bonito. Ele apertava a mão do menor com mais garra do que o necessário. 

— Muito o-obrigado — sorriu ele, timidamente. — Além disso, o que você quer dizer com concurso de artes?

— Refiro-me ao concurso de artes que acontece todo final de ano. Você irá competir, já que é um pintor, certo? Se as obras forem tão belas quanto o artista, tem grandes chances de ganhar. 

— A-Ah, eu ainda não sei ao certo, mas muito obrigado pelo elo- 

— Com licença. — Uma voz grave soou no pé de ouvido de Jeongguk, que se assustou ao virar o rosto e dar de cara com um Kim Taehyung a centímetros de distância de si. 

Ele deu dois passos para trás, morrendo de medo de que alguém, além de Bernard, tivesse visto aquela  abordagem desnecessária. 

— Taehyung? O que está fazendo aqui? — Desde que se lembrava, aquela era a primeira vez que o alfa descia para o primeiro andar. Ele se sentia desconfortável demais para transitar livremente no castelo, o que era compreensível já que adoravam pintá-lo como um monstro. — Desceu sozinho? 

— O rei avisou que faz questão de ter minha presença no café da manhã, então estou aqui — O mais velho descaradamente passou o braço direito pelo pescoço do ômega e o trouxe para perto outra vez, fitando com seriedade aquele homem desconhecido dos pés à cabeça. — E sim, eu desci sozinho. 

— Oh! Senhor Heroux, esse é Kim Taehyung… e Tae — Jeongguk o olhou dentro dos olhos esverdeados, reprovando as atitudes ousadas que ele estava tendo. — Esse é o senhor Bernard Heroux. 

— De onde você é? — A pergunta mal educada fora feita de propósito. 

— Tae! — murmurou o mais novo dos três, apertando discretamente a mão de Taehyung. — Perdão. Ele está um pouco temperamental hoje, tenho certeza que terão uma apresentação melhor outra hora. Bom — Jeon se afastou novamente. — Prometi levar o senhor  Bernard até a sala do rei, então te encontro em breve na copa, Ta-

Taehyung emitiu um forte gemido de dor e colocou a mão sobre as bandagens no abdômen, se contorcendo e semicerrando os olhos. 

— Hyung?! Você está se sentindo bem? — O pintor levou a destra até as costas do amorenado, preocupado. Sabia que ele não deveria ter descido todas aquelas escadas sozinho, podia ter pedido ajuda.

— Estou com um pouco de dor, acho que não conseguirei chegar até a copa por mim mesmo. 

Sem pensar duas vezes, Jeongguk chamou uma serva que passava por ali e pediu para que ela levasse o pesquisador até a sala do rei. O homem aceitou a ajuda, mas pareceu insatisfeito em não ter a companhia do ômega. 

— Eu carrego você.  — Ele instruiu Taehyung a subir em suas costas, que fez sem pestanejar, abraçando o ômega pelo pescoço e deitando o queixo em seu ombro largo. Um sorriso astuto adornava seus lábios. — Vou te levar rápido, aguente um pouco mais.

Taehyung visivelmente pesava bastante, afinal era um homem de quase um metro e oitenta de altura, mas Jeongguk conseguia carregá-lo sem precisar fazer muito esforço. Tendo recebido tantos comentários negativos e subestimação vindo de alfas durante sua vida, havia treinado tanto que estava musculoso e mais forte do que os outros ômegas. Carregar uma pessoa nas costas não era nada.

A copa ficava no andar de cima, o que levou Jeon — enquanto subia os degraus atentamente, para não tropeçar — a conclusão de que o alfa em suas costas era um intruso, que o viu conversando com Bernard e decidiu descer até lá ao invés de ir direto para onde deveria. 

Os dois passaram por um corredor largo de teto baixo, que felizmente não era tão comprido. Taehyung aproveitava a viagem tranquilamente, fingindo sentir dor para não precisar se desgrudar do mais novo. Aparentemente, aquela era a única forma de ter um contato mais íntimo com ele. Estava sendo uma tortura ter que agir como seu primo. 

“Estamos quase chegando” 

Foi o que Jeon disse alguns minutos atrás, embora ele ainda estivesse dobrando corredores posteriormente. Eram tantos corredores que já havia se perdido em sua conta, se perderia facilmente caso precisasse voltar sozinho. 

O corredor pelo qual estavam passando era escuro e silencioso. Diferente dos demais, não se podia ver o fim ou o começo depois de entrar nele, de tão comprido que era, no entanto, o que fez uma ideia repentina surgir na cabeça de fios negros como a noite, foi o fato de que não havia nenhum guarda por perto. 

Taehyung deixou escapar uma risadinha sacana, então Jeongguk imediatamente parou de caminhar, percebendo que havia sido enganado direitinho. 

Ele não estava sentindo dor alguma, só havia encenado.

— Não acredito! Eu vou te matar. 

Sentiu o mais velho pular de suas costas, então virou apressado para lhe dar uma bofetada na costela, mas foi impedido quando Taehyung lhe pegou no colo estilo noiva, dando meia-volta de onde estavam. 

— Taehyung! Me coloque no chão agora! — protestou, sendo ignorado. — Você não pode pegar peso.. além do mais, alguém pode nos ver. Por que você tem que ser tão teimoso?

— Aprendi com você. Se não tivesse invadido minha casa algum dia, eu não estaria neste castelo te roubando para poder ter um momento a sós com você.

O alfa caminhou mais um pouco e abriu uma porta na lado esquerdo do corredor, empurrando-a com o pé, já que as mãos estavam ocupadas. Para sua sorte, não era o quarto de ninguém, mas apenas uma sala comum. 

Jeongguk nunca tinha entrado no local. Ainda havia muitos lugares para explorar naquele enorme castelo. A sala parecia estar abandonada, já que estava cheia de pó e teias de aranha. 

Só depois de trancar a fechadura, Taehyung largou o acastanhado. 

A distância não durou mais que quinze segundos, pois logo em seguida ele estava envolvendo o ômega com seus longos braços, fazendo-o encostar na parede bege. Jeongguk demorou quase um minuto inteiro para relaxar o corpo e retribuir o abraço, repousando seu rosto na clavícula marcada. 

— Bom dia — Taehyung sussurrou, deliciando-se no bálsamo de morango que Jeon emanava. — Eu estou com saudades.

— Nós nos vimos todos os dias desde que você voltou da guerra.

— Estou com saudades disso. — Ele o apertou um pouco mais. — Quando você apenas fazia questão de me provocar, eu não tinha tanta vontade de te abraçar ou te beijar, mas a noite do baile mudou tudo. 

— E você tinha esses desejos antes do beijo? — O pintor arregalou seus olhos.

— Jeongguk, você é atraente. Deve haver algumas dezenas de pessoas que te desejam somente por te olhar — fechou a expressão, enciumado. — Inclusive aquele senhor Xerox.

— É Heroux, Taehyung — Jeon gargalhou. — E como sabe disso?

— Eu escutei as palavras repletas de segundas intenções. Ele é muito bonito e galanteador, não é? 

— Realmente. Eu fiquei surpreso, não é comum ver estrangeiros por aqui, apesar das terras terem sido colônia de europeus. Ainda mais afro-europeus. — respondeu o pintor. Taehyung havia se afastado ao falar sobre Bernard, mas Jeon ignorou e voltou a abraçá-lo. Ele jamais conseguiria explicar o quão confortável se sentia naquele abraço, talvez fosse efeito do vínculo que tinham. — Você soube que venceram a guerra? 

— Sim, todos estão falando sobre isso. 

— Não está feliz?

— É claro, mas não sei se estou preparado para lidar com o que virá depois. Você sabe, estou acostumado a viver nas sombras. 

— Mas será bom para você. — Jeon insistiu.

— Isso se os líderes desse reino não descobrirem quem eu sou. Preciso voltar para casa logo.

Alguns minutos em um silêncio estranho se passaram. 

Jeongguk ainda se sentia culpado por ter feito parte do grupo que o condenou um dia. Já havia se redimido — embora Taehyung não o culpasse por nada — lhe dando algumas novas experiências, mas precisava realmente dissipar aquela mentira que permanecia acerca dele. O problema se dava quando o alfa não lhe contava quase nada, estava sempre fugindo de suas perguntas e o deixando na escuridão. Jeon tinha noção de que ele estava escondendo algo de si, mas evitava tocar no assunto para não deixá-lo desconfortável. 

— A propósito, bem... no café da manhã surgem muitos assuntos distintos. Alguns desses assuntos são sobre..

— Sobre mim. — Taehyung concluiu o óbvio.

— Sim, e você deve imaginar que não são de uma forma boa. Eu tentarei evitar o máximo, mas caso não consiga, ainda assim estarei ao seu lado. Seja forte. Nós sabemos que não existe nada de ruim sobre você; que não existe e nunca existiu sangue de inocentes em suas mãos, sim?

Taehyung notou o coração doer com a pergunta. Havia tantas coisas para contar para Jeon, mas ele não tinha coragem o suficiente para aquilo. Estavam começando a consolidar um relacionamento, seu coração já estava dando indícios de algo maior do que “gostar”, não queria que tudo fosse por água abaixo. 

— Precisamos ir agora.

— Não consigo ser tão forte depois de tanto tempo sem os seus beijos.

Jeongguk riu.

— Teimoso.

[...] 

Após um longo tempo de espera, quase uma hora inteira, o alfa de olhos esverdeados finalmente observou os membros da família real passarem pela grande porta da copa. Ele rapidamente endireitou a postura desleixada e colocou uma feição séria e formal em seu rosto, procurando algum conforto no estofamento vermelho da cadeira. 

Estava sentado ao lado de Jeon, que por sua vez tinha o pesquisador de pele negra à sua frente. Os dois haviam entrado em uma conversa extremamente entediante aos ouvidos de Taehyung, sobre lontras marinhas do pacífico, onde por diversas vezes foram ditas palavras maliciosas direcionadas ao ômega. Ele não podia protestar, primeiro pela mentira de seu falso parentesco com o mais novo, e segundo simplesmente porque não queria demonstrar ciúmes, mas estava desconfortável. 

Conseguiu se conter durante o tempo, apesar de seus globos oculares rolarem disfarçadamente vez ou outra. 

— Bom dia a todos. 

Jeongguk segurou a mão do amorenado ao seu lado por debaixo da mesa, acariciando e tentando acalmá-lo. 

Era um pouco assustador como ele não se parecia nada com o Taehyung que era consigo, seu olhar afiado e rude observava as pessoas sentarem em seus devidos lugares, enquanto ele dizia roboticamente “bom dia, vossa alteza” conforme havia sido instruído. 

Jimin sentou ao seu lado direito, o rei e a rainha em cada extremidade da mesa, os dois príncipes a sua frente e a princesa ao lado esquerdo do pintor. Ao todo havia nove pessoas na copa, com exceção dos guardas e serventes.

Aquela era a primeira vez que Taehyung tomava café com tanta companhia. Costumava brincar que as formiguinhas eram suas convidadas quando era pequeno, mas claro que a situação era diferente, as formigas não o tratavam como um monstro. 

O café da manhã começou como de costume, ausente de palavras e preenchido por música. Todos se deliciaram com suas variedades de refeições gostosas da melhor forma, exceto o Kim, que timidamente beliscou apenas um pedaço de cada coisa.

Tudo estava indo de acordo com o planejado, até que o rei decidiu começar com sua série de questionamentos. O primeiro alvo foi, obviamente, Taehyung, que quase se engasgou com um pedaço de manga ao ouvir seu nome ser entoado.

— Senhor Jeon Taehyung, para um primo de Jeongguk, vocês dois não possuem muitas semelhanças, na verdade. Eu sinto que já te vi antes. 

Jimin escondeu os lábios, contendo uma risada. O rei havia o visto no dia do baile, mas não o suficiente para se lembrar totalmente de seu rosto.

— Somos primos distantes, vossa alteza. — respondeu ele. Sentiu quando Jeongguk enlaçou os próprios dedos aos seus. Ele era tão cuidadoso consigo. 

— Compreendo. Gosto da tonalidade dos seus olhos, se me permite. 

— São realmente lindos — Jeon comentou involuntariamente, admirando as esmeraldas que jaziam nos olhos de seu amado. Quando se deu conta do desvio de atenção, contornou a fala. — Uma pena eu não ter herdado também. 

— Muito obrigado, alteza. 

— Conte-nos sobre como você acabou na guerra em Daegu, por favor. — Seojoon pediu, limpando suas mãos sujas de pão com um guardanapo. 

— Bom, eu… sou um amigo próximo do príncipe Yoongi, nos conhecemos ainda na infância, quando meu pai ofereceu suas tapeçarias ao rei de Daegu — Taehyung inventou no último minuto, ele era bom em improvisar. Se Jimin e Jeongguk não o conhecessem, acreditariam facilmente na mentira. — Não pude deixar de oferecer minha ajuda em um momento tão complicado como este. 

— Meus parabéns pela vitória.

— Sim, parabéns, belo rapaz. — Uma voz feminina soou do lado direito da mesa. Taehyung direcionou os seus olhos para a rainha, que sorria genuinamente para si. De alguma forma ela não parecia nada soberba como seu marido, mas era gentil. 

— Pelo que vejo, é um cavalheiro tão valente quanto Jeongguk. Ele disse que enfrentou um monstro nos primeiros dias em que chegou aqui? — O rei indagou com naturalidade. — Naquele momento, soube que tínhamos feito a escolha certa. 

O alfa mordeu seu lábio inferior com força, percebendo uma súbita raiva começar a despontar dentro de si. O aperto em sua mão aumentou. 

— Sim, Jeongguk é alguém muito corajoso. 

— Ainda assim, não descobrimos nada sobre aquele sujeito cruel. Deve ser um rapaz hoje em dia. Temo que nunca consiga colocá-lo nas masmorras do castelo e impedir que ele faça uma próxima geração da família Kim, este foi o último legado de meu pai; cortar o mal pela raiz.

O comentário cheio de más intenções fez os três homens do lado direito da mesa cerrarem o maxilar, aquilo não era nada bom. 

Então o verdadeiro propósito de Park Seojoon, era mandar Taehyung para trás das celas e evitar que ele tivesse filhos. A julgar por seu perfil, ele parecia disposto a realizar o desejo a qualquer custo. 

— Perdão pela insolência, alteza — Jeongguk interrompeu antes que ele pudesse voltar a compartilhar suas asneiras. A voz estava mais grave e pesada, carregada por um senso de justiça que ele trazia desde o berço. Taehyung tentou impedi-lo de se prejudicar com um assunto que não o envolvia diretamente, apertando sua mão, mas ele não se importou. — Mas como pretende prendê-lo sem um motivo plausível? 

— Assassinato é um motivo bem plausível, ao meu ver. — Seojoon ergueu a sobrancelha desafiadoramente. 

— Existem evidências? 

— Você está tentando defender aquela aberração, Jeon? — Taehyung fechou seus olhos, respirando fundo. 

Embora Jeon desejasse se livrar do bolo de palavras amargas que estava preso em sua garganta, ele apenas engoliu e respondeu a contragosto: — Não, era somente uma dúvida. 

— Estou alienado sobre o assunto. — O pesquisador falou pela primeira vez, interessado a respeito do que acabou de ouvir.

— Como um pesquisador, eventualmente teria que te contar alguma hora. Tenho bons planos para você, Sr. Heroux. 

— Bom — O Kim se levantou de sua cadeira, atraindo a atenção de todos. — Ainda não estou me sentindo bem fisicamente. Foi uma honra participar de um café da manhã  na companhia do rei e a rainha de Montibus, mas, se me permitem, eu preciso descansar. 

O rei apenas acenou com a cabeça e voltou ao seu assunto com o europeu. Jeongguk, sem poder demonstrar mais do que deveria, assistiu o alfa se distanciando cada vez mais até sumir atrás da porta da copa. 

Aquele café da manhã definitivamente não havia sido uma boa ideia.

[...] 

Reino de Daegu; castelo real. 

— Uau! É como se eu estivesse em um sonho. Tio, você viu a entrada?! Você viu aquele lago gigante?! — Beomgyu perguntava freneticamente, enquanto tocava as paredes de mármore do corredor com uma surpresa imensa. O alfa mais velho já estava começando a ter dor de cabeça com o tanto de vezes que fora chamado. Jovem tagarela. 

Os olhos brilhavam ao irem de encontro com com os vários lustres em ouro, pendurados no teto, onde havia desenhos entalhados aos montes. Sob seus pés, um tapete de veludo vermelho se estendia até onde sua vista não era mais capaz de enxergar. Ele esgueirava o pescoço o máximo que podia, curioso acerca de cada detalhe naquele castelo.

— Tio! Tio! Aquilo é… u-uma escultura de diamante? — O garoto apontou para o outro lado do corredor. Deu um passo discreto para o lado, mas foi impedido de se afastar quando a mão áspera segurou seu pulso.

— Nem pense! — Taewoo protestou. — Fique quieto e seja educado. Nós somos os próximos da fila. 

As pessoas que sobreviveram ao bombardeio na antiga prisão, e agora não possuíam mais um lar, foram encontradas na floresta por guardas reais após o fim da guerra. O príncipe Yoongi havia ordenado para que os trouxessem para o castelo o mais rápido possível, e era assim que os dois haviam parado ali; três, contando com Yeonjun, que ainda encontrava-se grudado a eles.

— Você é um bisbilhoteiro, sabia? — O dito cujo riu divertido com o entusiasmo alheio. 

— Claro que sim! Você não entende, eu vivi a vida inteira em meio à pobreza. Primeiro em uma casa que quase caía aos pedaços, depois em um presidiário abandonado. Enquanto você sempre esteve rodeado por lustres de ouro e estátuas de diamante. Não tem o direito de dizer nada. 

— Beomgyu! Eu lhe pedi para ser educado, quer ser expulso por tratar um membro real dessa forma? 

— Perdão, tio — se desculpou rapidamente, voltando-se para o príncipe novamente e retornando a insultá-lo mais uma vez, porém em um tom que apenas ele pudesse escutar. — O que ainda está fazendo aqui? Quer receber um conjunto de cobertores e roupas também? 

— Você é tão engraçado — respondeu o mais velho, sem demonstrar qualquer sinal de que realmente havia achado graça. — Começarei a compensá-los por salvarem minha vida a partir de agora. 

— Hum?

— Próximos. — O guarda que estava distribuindo tecidos os chamou. Ele tinha os olhos pequenos e um nariz engraçado, em sua placa de identificação estava escrito seu nome, Kang Jihoon — Oh, sua alteza? 

— Sim. Eu poderia lhe pedir um favor? 

— Claro. O que deseja, vossa alteza? 

— Providencie um dos principais quartos para esses dois cavalheiros, por favor. — Yeonjun pediu dotado de educação, observando um sorriso crescer gradativamente no rosto do ômega acastanhado e tagarela ao seu lado. Revirou os olhos, sabendo que ele o bajularia pelos próximos dias. 

— Certo. Providenciarei o quanto antes. Estes cobertores são para as famílias que receberam quartos no segundo andar, portando, os senhores não irão precisar. 

— Beleza! — Beomgyu levantou seu polegar infantilmente, puxando seu tio para longe em seguida. 

— Eu vejo vocês no jantar. — O príncipe avisou. Tinha certeza de que iria levar um sermão daqueles quando encontrasse seus pais. Haviam tido um desentendimento no dia em que a guerra se iniciou, então ele pegou um livro qualquer e decidiu explorar as cavernas do reino. Eles deveriam estar preocupados. 

— Espere. — O mais velho dos três pediu, antes que aquele moleque dorminhoco pudesse ir embora. — Muito obrigado por isso, alteza. 

— Não precisam agradecer, jamais. Se não fosse por vocês, talvez eu não estivesse mais aqui. Isso é apenas o começo, então espero que aceitem, estou fazendo de bom coração. 

— Vamos aceitar! Não se preocupe. — respondeu Choi. 

Yeonjun gargalhou, fazendo uma pequena reverência antes de se virar e ir embora. 

— Tio Woo! Vamos dormir em uma cama gigante e macia, em um castelo. Isso é tão incrível! — Beomgyu festejou. Seria ignorância sua verbalizar, mas estava mais alegre com o fato de que iria ter dias de príncipe do que com o fato de terem vencido a guerra. 

— Sim. — As palavras saíram mórbidas, sem qualquer ânimo. O mais jovem deixou os ombros caírem, desapontado.

— Está preocupado com Kim Taehyung, não é? — indagou. — Tenho certeza de que ele deve estar bem, afinal ele tem o seu sangue. Demorei dois dias inteiros para engolir a ideia de que tenho um irmão postiço, mas já estou lidando melhor com isso. 

— Esse é o menor problema, criança. — O alfa acariciou os cabelos castanhos dele. 

Estavam seguindo os demais desabrigados para algum lugar. Já haviam dobrado alguns corredores, até chegarem à frente de uma escada, que se estendia e se tornava mais larga à medida que desciam. 

— Taehyung deve me odiar mais do que qualquer outro. Eu o abandonei, a mãe o abandonou. Nós o deixamos sofrer sozinho as consequências de um erro que nenhum de nós tivemos culpa. Eu entenderei se ele não quiser me ver nem pintado de ouro. 

— Tio, acho que você não entende o que significa alguém pintado de ouro. É uma proposta tentadora. 

— Você é bem espertinho para sua idade, não? 

— Tive o melhor professor. Aliás, nós sabemos que não foi uma escolha sua, tio. Mesmo que você esteja certo, ele não pode te odiar para sempre — Beomgyu desceu mais um degrau. Uma forte luz refletiu em seus olhos. Era um grande salão, estava lotado de cadeiras e havia um palanque no centro, onde o príncipe Yoongi podia ser visto. Ele provavelmente iria discursar. — E o senhor cuidou muito bem de mim até agora. A menos que ele seja um antipático, frio e sem coração, entenderá que não há outro culpado em toda essa história, senão a realeza de Monbitus. 

— Você tem razão, criança, mas o nome do reino é Montibus, não Monbitus. 

— Monbitus é mais legal. 

Os dois se sentaram em uma das primeiras fileiras de cadeiras. Eles aguardaram os demais receberem seus conjuntos de tecidos e se dirigirem para o salão. A espera durou cerca de quinze minutos, dos quais Beomgyu utilizou para continuar verbalizando o quanto tudo no castelo era belo e longe de sua realidade, Taewoo fingia escutar tudo para não aborrecê-lo, mas na verdade estava prestando atenção no príncipe. 

Yoongi estava em um trono vermelho-sangue, como a maioria dos objetos ali. Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo alto e adornado com um acessório dourado, que imitava um galho frondoso. Ele não estava nada mal, apesar dos machucados na pele alva e a maçã do rosto roxa. Realmente tinha se esforçado na guerra. Poucos eram os membros reais que participavam fisicamente em uma batalha. 

— Tio, você está me escutando?

— Oi? Ah, eu me distraí um pouco. Sobre o que estava falando? 

— Sobre como os detalhes da-

— Boa tarde a todos — A voz parcialmente baixa ecoou pelo salão. O príncipe se curvou até a altura dos joelhos, mostrando respeito ao povo. — Em primeiro lugar, peço perdão por minha incompetência para com aqueles que faleceram durante o bombardeio inesperado. Desejo minhas sinceras condolências às famílias. Não deixaremos de preparar um memorial digno para todos. 

Yoongi parecia envergonhado e realmente havia tristeza em sua voz, mas o que surpreendeu a todos os súditos ali, fora o seu gesto seguinte. Ele se ajoelhou no chão lustroso do palanque e curvou suas costas até que a testa tocasse o mármore. Permaneceu assim por algum tempo. 

O burburinho que tentava soar discreto, não passou despercebido pelos ouvidos de Taewoo. O Min era, de fato, um príncipe e futuro rei que todos os reinos desejavam. Não era nada como seu pai. Ele podia amedrontar com seus olhos frios e a cicatriz no rosto, mas não havia nenhuma autoridade real com seu senso de justiça e empatia. 

— Suponho que estejam receosos quanto à moradia, o alimento e o trabalho. Apenas, permaneçam despreocupados. Como sabem, serei coroado em breve, no terceiro mês do ano. Ainda não possuo o poder para fazer tudo o que desejo, mas tenho planos de construir casas apropriadas para todos e acabar de uma vez por todas com a desigualdade no reino. Enquanto isso, vocês poderão residir no palácio…

Beomgyu esbugalhou os olhos maior do que qualquer outra vez. O alfa ao seu lado não pode deixar de rir contido ao ver tamanho espanto.  De certa forma, Taewoo não via com tanta grandiosidade morar em um castelo, para ele, ter um teto para repousar a noite, alimento e água bastavam. 

— Estimo que as construções demorem cerca de sete ou oito meses para serem finalizadas, até lá, espero que consigam se acomodar. Eu me certificarei de que não faltará nada para ninguém. Vocês poderão ter acesso a todos os andares do castelo, exceto o último. As crianças terão aulas com professores especializados, para que sejam devidamente alfabeti-

— Vossa alteza — Uma voz desgastada soou no fundo do salão. Todos os olhares foram rapidamente para a senhorinha que ousou interromper o príncipe. Ela tinha os olhos vermelhos por conta das lágrimas. — Perdoe-me por ser tão intrusa, mas simplesmente não posso ser ingrata. Em toda minha história de vida, esta é a primeira vez que vejo uma atitude tão solidária vinda de um membro da corte. Viva ao rei Min Yoongi! 

— Sim, viva ao rei Min Yoongi!

Outros repetiram a frase posteriormente, até que todos estivessem vibrando as palavras sem parar. Yoongi não pode deixar de se sentir grato com a cena, desde muito jovem, ele se preparava para ser um bom rei e governar seu reino da melhor forma possível, não havia nada mais gratificante do que ter súditos que ainda acreditavam em si. 

— Muito obrigado — agradeceu ele mais uma vez, quando as vozes se foram. — Porém, para um bom convívio nos últimos meses, peço que sigam as normas que serão apresentadas amanhã. Além disso, as principais regras são: respeito ao próximo, compreensão, honestidade e humildade. Essa é a base para que todos vivam em união. Minha sala estará sempre aberta para caso ocorra algum desentendimento.

A quantidade de pessoas era pequena, não mais de cem. Ele não achava que haveria alguma desavença entre eles, já que costumavam morar juntos no velho presidiário, mas reforçar o básico era importante. 

Ninguém se opôs. 

— Então, isso é tudo. Vocês serão encaminhados para seus respectivos quartos, para que possam descansar dos dias difíceis que tivemos. Somos todos os vencedores e donos dessas terras, por isso, ao final da semana, faremos um baile de confraternização. Vamos diminuir a diferença entre nós. 

Beomgyu não poderia estar mais feliz naquele momento. Se sentia um grande aventureiro ao passar por tantas ocasiões e morar em lugares completamente distintos. Para completar sua bagagem, ele ainda participaria de um baile real. Era realmente o paraíso.

— Espero que sintam-se em casa.

[...]

Reino de Montibus; castelo real.

Se passava um pouco mais das sete horas da noite. 

Jeongguk estava louco para encontrar Taehyung e poder confortá-lo das palavras duras que tinha escutado mais cedo, entretanto, optou por dar um tempo para ele. Não queria sufocá-lo com seu excesso de preocupação.

Durante a outra metade da manhã, ele pintou um quadro que estava em sua lista de pedidos há um bom tempo. Uma fruteira de ouro que transbordava diversas frutas. Segundo o joalheiro que encomendou, ele precisava dar um toque a mais em sua sala de jantar, e o ômega sugeriu algo diferente do que estava acostumado a pintar. 

Havia feito o esboço da fruteira alguns dias antes de entrar na época do cio, então retomar ao trabalho não foi tão complicado. Ele se divertia muito misturando as cores, fazendo as sombras, os pontos de iluminação e dando os toques finais. Ao se afastar e enxergar o quão lindo a sua obra estava, conseguia lembrar-se perfeitamente o porquê de ter escolhido aquela profissão. Ele amava aquilo desde sempre. 

As laranjas, cachos de uvas, bananas, maçãs e kiwis pareciam tão realistas que, à uma hora da tarde, sua barriga mostrou sinal de que estava com fome. Ele não participou do almoço, por vontade própria, então desceu até a cozinha e se serviu separadamente. 

Após comer, Jeongguk se sentou no gramado do jardim e passou a ler o diário do rei. Estava quase no final, e para ser sincero, aquela parte lhe fazia abrir a boca por muitas vezes de tão entediante. Nada mais era do que o rei contando sobre seus prestígio, méritos e riquezas; contando sobre o que os guardas lhe disseram após seguirem a rainha — mesmo que ela já tivesse o deixado há um tempo — e como a barriga dela continuava crescendo. Ele estava obcecado, e não conseguia aceitar que havia acabado, que não poderia mais torturá-la. 

Uma parte em específico chamou a atenção do pintor de olhos brilhantes:  

“Devido a falta de iluminação, não fui capaz de enxergar o rosto do sujeito que teve a audácia de roubar a minha esposa, mas lembro-me perfeitamente do conjunto de roupas que ele estava usando. Uma capa de veludo preto, com traços finos e dourados que adornavam quase que completamente o tecido. As linhas pareciam brilhar, mesmo no escuro. Os detalhes estão grudados em minha mente como uma cola. Mal posso esperar para colocar minhas mãos naquele verme, farei questão de torturá-lo o máximo que conseguir e retalharei aquela maldita capa por inteiro.” 

Jeongguk se lembrou do alfa imediatamente. Nos últimos tempos, tudo parecia levá-lo indiretamente até ele, mesmo  só de olhar para o  verde da floresta ou encontrar pézinhos de hortelã no jardim. No dia do baile, Taehyung usava uma capa que batia com as descrições feitas naquela página, então julgou que talvez fosse uma coleção feita na época. 

As horas se passaram depressa e, embora ele não estivesse tão interessado em ler sobre o montante de capital real que havia no banco, acabou se emergindo nas palavras, como sempre. Quando se deu conta, já estava de noite. 

Ele deu uma pequena passada em seu quarto para guardar os livros e, posteriormente, passou a caminhar para o quarto em que Taehyung estava acomodado nos últimos dias. 

Não se importou em bater na porta. Aquele hábito estava ficando velho. 

Empurrou a madeira e apenas deslizou o pescoço para dentro do quarto mal iluminado, notando o alfa sentado em sua cama. Ele olhava fixamente para a parede, como se fosse a coisa mais interessante do mundo. 

— Estou entrando — avisou. 

Taehyung saiu de seu transe, mostrando um pequeno sorriso ao ver o ômega caminhar hesitante em sua direção. Jeongguk era como um colírio para os seus olhos; sempre tão lindo e encantador.

— Você pretende ir embora o quanto antes, não é? — questionou o dito cujo, largando seus sapatos no tapete e se deitando no lado esquerdo da cama. Não precisou se dar ao trabalho de verbalizar uma pergunta sobre a alimentação do mais velho, os talheres e louças sujas em cima da mesa de cabeceira eram uma resposta positiva. 

— Ainda hoje, de preferência. 

— Entendo. 

A ausência de palavras em seguida foi um pouco embaraçosa. 

Nenhum dos dois conseguia explicar o porquê de aquilo acontecer com uma certa frequência, algumas vezes se sentiam ansiosos na presença um do outro. 

Jeongguk começou a balançar seus pés para lá e pra cá, enquanto nervosamente brincava com seus dedos das mãos. A respiração parcialmente pesada do de olhos esverdeados ecoava como megafones em seu ouvido, ele sentia que estava sendo observado. 

Odiava ficar tão constrangido por absolutamente nada. 

— Jeongguk, você quer dizer algo? 

— Hum? — Ele tentou disfarçar seu nervosismo, olhando para Taehyung como se não o tivesse compreendido. — Não. 

— Tem certeza? 

— Absoluta. 

— Você parece um pouco tenso. 

O ômega bufou. 

— Na verdade, eu queria… eu só queria te… te abraçar e dizer coisas bonitas, mas as palavras fugiram e eu estou muito nervoso agora. Me desculpe por ser tão… esquisito. 

O alfa riu contido, deitando-se no colchão e apoiando a cabeça com a mão esquerda. Quando pensava que não havia como Jeon ficar ainda mais adorável, ele simplesmente o surpreendia com um gesto novo. 

— Hey — chamou de forma provocativa, dando alguns tapinhas em seu travesseiro. — Vem? 

Jeongguk se perdeu por um minuto inteiro enquanto assistia a mão grande de Taehyung estapear o tecido branco da fronha, então o fitou por mais um minuto inteiro para finalmente se aconchegar de uma vez, se deixando envolver num abraço gostoso. 

— Não precisa ficar nervoso ou tímido quando desejar qualquer tipo afeto. — Ele passou a fazer carinho no rosto leitoso do mais novo, permitindo seus dedos viajarem por todas as pintinhas que existiam ali. Os olhos feito bolas de gude o acompanhavam em cada movimento, com medo de perder qualquer segundinho do momento. 

— Mas você pode não estar com vontade.

— Eu sempre estou com vontade. Olha, eu gosto quando você me diz coisas bonitas, sem dúvidas, mas apenas estar assim com você é perfeito. Sou perdidamente atraído por quem você é, então não precisa se conter ou mudar nada, somente faça o que tiver vontade.

Jeongguk sorriu genuinamente. 

— Em outros tempos, eu ficaria zangado ao ouvir isso, mas hoje estou aliviado

— E por quê?

— Porque eu ainda estaria em fase de negação, ficaria surpreso por você ser tão incrível e não um grosseiro estupido, não poderia brigar com você sem motivos e por fim me aborreceria — Taehyung riu, sabendo que o Jeon teria exatamente aquela reação. — Mas agora que aceitei o meu destino, estou aliviado por ter alguém como você ao meu lado. 

— E agora que você dirá “eu te amo”? 

— Não. Eu não sou tão fácil assim. — Seu nariz se empinou, e os olhos estavam fechados. Havia o esboço de um sorriso idiota em seus lábios. — Mas você me… ama? Ainda continua somente gostando de mim ou sou algo a mais que isso? 

Ele estava receoso quanto a resposta. 

— Sou apaixonado por você. — Os olhos claros lhe fitavam com intensidade, absorvendo a beleza quase surreal do garoto. — Jeongguk, estou tentando a todo custo manter o que sinto em um ritmo agradável. Não quero burlar todas as fases e parecer desesperado. Em meus planos, eu começaria gostando de você, depois me apaixonaria e, eventualmente, te amaria, mas, se você quer saber a verdade, não demorou um mês inteiro para que meu coração simplesmente pulasse os dois primeiros passos. 

Uma estranha corrente elétrica passou rapidamente pelo corpo do mais jovem. Ele gargalhou, ocultando a surpresa que lhe atingiu ao ouvir as palavras. 

— Você é bobo. 

— Ya! — Ambas as mãos agarraram a cintura pequena dele por baixo das vestimentas, fazendo cócegas. Taehyung subiu em cima do ômega, movendo constantemente os dedos e fazendo ele gargalhar como uma criança. Não fazia a mínima ideia do que o contato direto das palmas de sua mão causavam no acastanhado. — Eu me declaro dessa forma e isso é tudo o que você tem a dizer? Admita que adorou ou eu irei te mandar para as masmorras! 

— Quais masmorras? Você irá construir seu próprio castelo? 

— Farei isso! Construirei mil castelos, comprarei todas as galerias de arte do mundo e escalarei os maiores monumentos apenas para mostrar que que posso fazer de tudo por você. 

— Não diga coisas assim, tenho um pouco de ambição dentro de mim — Jeon enlaçou os braços no pescoço do mais velho, trazendo-o para si, enquanto este acariciava a pele macia e quente. — Os outros irão pensar que você é um tolo se fizer isso. 

— Eu não me importo. Se disserem, eu saberei que é inveja; inveja por eu ter em meus braços uma arte que não pode ser comparada a nenhuma outra. 

— Tae… 

— Jeon, nem Van Gogh, Renoir, Michelangelo, Hokusai ou qualquer outro artista poderia encontrar uma beleza maior que a sua. Eu não estou brincando quando digo que você é o mais lindo do mundo inteiro. Estou feliz por poder apreciar como o vermelho dos seus lábios contrastam com sua pele; como a galáxia dentro dos seus olhos parecem tão profundas, repleta de constelações de segredos, estrelas de amor, planetas de sonhos — Ele suspirou fundo, alheio ao mundo. Aqueles olhos lhe enfeitiçavam. Desde que o viu pela primeira vez, embaixo daquela cama, ele soube que estaria encrencado. — Eu realmente sou apaixonado por você.

A respiração do ômega estava mais acelerada que o normal. Ele não conseguia desviar o olhar da boca de Taehyung, não conseguia piscar ou raciocinar nada que estivesse fora daquela bolha. 

Seus rostos estavam se aproximando mais a cada segundo. As mãos ousadas de Taehyung dedilhavam toda a extremidade do torso de Jeongguk, subindo por seu abdômen malhado com os toques macios, às vezes sutil, às vezes lascivos, como se ele quisesse deixar suas marcas ali.

Eles permaneceram se encarando até os lábios delicadamente se tocarem. A textura que um arrepio causou no alfa fez ele sorrir, ao mesmo tempo em que sua destra abandonava o corpo leitoso e ia às cegas em direção ao rosto de Jeongguk, mimando-o com seus afagos. 

Depois de tantos pedidos por um beijinho, ele finalmente estava recebendo o que era seu por direito.

Embora achasse que era o mais sedento por aquilo, se surpreendeu quando o pintor entreabriu os lábios e sem qualquer cerimônia invadiu sua boca,  movimentando sua língua com calma, mas com desejo. Os dedos puxavam levemente os fios negros de sua nuca, enlouquecendo-o. 

Taehyung notou borboletas sobrevoando seu estômago, então despertou do seu estado de inércia e passou a retribuir o beijo do mais jovem com a mesma intensidade. 

O coração do pintor não se aquietava, batendo forte contra o peito do Kim, em outro momento aquilo lhe deixaria constrangido, mas estava encantado pela forma que suas línguas dançavam em conjunto, ora mais intensamente, ora apenas se acariciando, então sequer deu importância para aquilo.

Até mesmo o medo de serem flagrados fazendo aquilo havia desaparecido. Não ligaria caso o mundo desabasse naquele mesmo momento. 

Apaixonados e suas loucuras de amor. 

Almejando sentir o máximo possível de Taehyung, o ômega inocentemente desceu seus braços a fim de abraçá-lo, tocando diretamente as costas desnudas do jovem. A veste estava aberta na parte de trás, então ele podia sentir seus dedos tocarem algumas elevações. 

No mesmo momento, o mais velho se afastou para longe com brusquidão, como se tivesse recebido uma horrível carga de choque; como se os dedos do mais novo fossem cortantes ou tivessem fogo em suas pontas. 

Ele quase caiu da cama no processo, tamanho sobressalto ao ser tocado naquele local. O peito rapidamente começou a subir e descer em descontrole. Sangue se concentrava nas bochechas por conta da vergonha, ele tinha os olhos esbugalhados.

— H-Hyung, eu fiz algo errado? — indagou Jeongguk. Havia se assustado com o afastamento tão repentino. — Me perdoa. 

— N-Não, você não fez nada errado. A-Amor.. apenas, n-não toque minhas costas, tudo bem? — Ele tentou se explicar, torcendo para que o acastanhado não ficasse magoado com aquilo. Eram raras as  ocasiões em que Taehyung se embaraçava ou se envergonhava, mas naquele instante tudo o que desejava era sumir de tanto constrangimento. — Eu me sinto desconfortável. 

— Desculpe, eu não sabia. Não devia ter me empolgado tanto.

Taehyung engoliu em seco, percebendo as mãos começarem a tremer e os olhos se encherem de lágrimas. 

Ele não conseguia entender a razão de algo tão antigo lhe causar problemas até os dias atuais. As cicatrizes não doíam mais fisicamente, era óbvio, porém somente ao serem tocadas, as lembranças horrendas rapidamente apareciam. Ele as odiava tanto que desejava arrancá-las. Ao seus olhos eram feias e não mereciam a honra de serem acariciadas ou vistas por alguém tão perfeito quanto Jeongguk. 

— O problema está em mim, não em você, amor. Não precisa se desculpar — Ele fechou os botões da camisa de qualquer jeito e segurou as mãos do acastanhado. Os olhos de esmeraldas reluziam um brilho a mais, estava segurando um choro. — Eu quem peço perdão por estragar o momento, eu... 

— Tae... — Jeongguk o puxou pela nuca com extremo cuidado, deitando a cabeça de fios negros em seu colo e passando a enrolar pequenos cachinhos com os dedos. Ele  conseguia sentir a dor emocional que Taehyung estava sentindo; podia perceber o peito afundar como uma pedra em um oceano escuro e profundo. — Hyung, me deixe cuidar de você. 

A primeira lágrima rolou por seu rosto alvo quando escutou o alfa fungar baixinho, então o mais velho finalmente deixou as próprias lágrimas molharem o tecido branco da roupa de Jeon. Ele precisava de algum alívio depois das palavras amargas do rei, depois de se lembrar mais uma vez do passado que o condenava dia após dia. 

Desde o dia em que conheceu Jeongguk, prometeu a si mesmo que nunca iria se mostrar fragilizado ou derramar lágrimas perante a ele. Cada vez que escutava da boca do mais jovem, seu plano arríscadissimo de resgatá-lo daquela cruel realidade em que vivia, ele engolia a vontade de chorar e erguia a cabeça, se preenchia com um falso sentimento de que estava tudo bem, de que já estava acostumado com aquilo, mas não conseguia mais segurar. 

Estava em seu limite.

— Você não está mais sozinho, sabe disso, não sabe? — O pintor tentava dizer entre seu pranto e sensação de impotência, entrelaçando seus dedos aos do mais velho. Taehyung chorava cada vez com mais intensidade e precisava apertar a almofada para tentar amenizar a dor. Ele estava cansado daquilo tudo. Queria desistir. — Eu estou aqui com você, estarei amanhã, depois e até quando o sol parar de brilhar. 

Jeon se inclinou e desajeitadamente depositou selares no rosto do alfa, observando ele fechar seus olhos com o contato repleto de cuidado e carinho. 

O tempo foi se passando sem que os dois percebessem. O amorenado chorava um pouco mais no colo de Jeongguk, tirando o bolo amargo em sua garganta. Desejava receber um abraço, mas como não podia ter sem desencadear uma crise, ele mesmo abraçou a perna do ômega como se fosse sua vida. 

— Eu não posso imaginar como deve ter sido desesperador sofrer sozinho por tanto tempo, mas agora estamos juntos — dizia. Taehyung estava se acalmando com o passar dos minutos, sentia uma pitada de sono começando a surgir. Os cabelinhos grandes do pintor faziam cócegas em sua bochecha enquanto ele continuava a lhe encher de selinhos demorados. 

Os beijos macios como algodão, a destra fazendo um carinho bom em seus braços, a voz de anjo preenchendo seus ouvidos, ecoando em seu cérebro. Era como estar deitado sobre as nuvens do paraíso, sendo cuidado por um anjo, que aos poucos mandava a escuridão para longe. 

— Nunca mais irei permitir que te machuquem. Talvez você não tenha mais esperanças, porém eu sou um homem de palavra, estou lhe prometendo que farei o possível e o impossível para cessar de uma vez por todas essa dor…

Jeon continuou a prometer coisas e a se declarar para o mais velho por mais dez minutos inteiros. Havia se deitado atrás dele e apoiado seu rosto no pescoço quentinho. Os olhos vagavam na pouca iluminação do quarto, e a boca continuava a se mexer como se tivesse vida própria. Ele mesmo não estava prestando atenção no que dizia, ao invés disso, gradualmente se lembrava das noites entediantes em sua casa. 

O quarto era bem menor, mas nunca lhe faltou conforto. Os pais estavam em seus quartos, descansando, mas prontos para caso ele precisasse de algo; os amigos moravam por perto, tinha com quem conversar sempre que desejasse. Jeon sempre esteve rodeado de amor, carinho, compreensão e proteção. Algumas vezes, um vazio inexplicável vinha à tona, mas logo era preenchido com seus momentos felizes. 

Ele sabia que Taehyung nunca teve aquilo em sua vida, então estava disposto a fazer de tudo e um pouco mais para compensar o tempo em que ele esteve sozinho. Vê-lo chorando daquela forma lhe deixava muito entristecido, mas ao mesmo tempo agradecia ao universo por poder estar ali, confortando-o.

— … será feliz, certo? 

Nenhuma resposta concreta veio, já que o ômega escutou um ronco alto escapar dos lábios do alfa posteriormente; ele havia pegado no sono e provavelmente perdido grande parte da sua declaração. 

— Durma bem, Tae — desejou o mais novo, presenteando-o com mais um último beijo. 

Ele posicionou o travesseiro abaixo de sua cabeça e virou para o lado contrário, se cobrindo com um cobertor que havia ali. Estava impregnado com o cheiro forte de menta, já que Taehyung havia usado durante o tempo em que esteve ali. 

Passou algum tempo com o tecido no rosto, aproveitando a fragrância do amado. Não estava com a mínima vontade de voltar para o seu quarto, então iria dormir ali mesmo. 

Estavam os dois em posição horizontal na cama, mas não parecia desconfortável para Jeongguk, na verdade, ele tinha quase certeza de que aquela seria uma de suas melhores noites de sono. Seu lobo estava tranquilo, ele se sentia seguro e satisfeito. O vazio inexplicável agora tinha sumido. Jeon estava completo.

Em pouco tempo, ele também se permitiu adormecer.

[...]

No outro dia, o sol já estava nascendo atrás das montanhas. Ainda era bem cedo, mas Jeon já estava acordado, como de costume. Era um hábito seu despertar por volta das seis da manhã, todos os dias. 

Seu rosto estava amassado e inchado. Ele assistia a luz do dia aparecer timidamente pela janela. Gostava de apreciar aqueles pequenos momentos que a natureza os presenteava; ver o nascer do sol ou o céu noturno repleto de estrelas fazia ele se sentir vivo.

Taehyung o apertou um pouco mais por trás, gemendo rouco em seu pescoço. Desde que ele despertou, notou como o alfa estava grudado em si como se fosse um coala. A perna e o braço esquerdo repousavam em sua cintura; o cobertor quente e aconchegante cobriam-nos pela metade. Estava tão confortável ali, que Jeon queria apenas congelar o tempo para sempre. 

— Você está acordado? — perguntou ao mais velho. Ele respondeu com um murmúrio incompreensível. — Você é um homem de muita sorte. Além de ganhar um beijo, ainda teve a honra de dormir comigo. 

— E você é um homem de muita má sorte — Taehyung retaliou. Sua voz estava mais grave do que qualquer outra vez que Jeongguk  tivesse escutado. — Desencadeou um novo vício em mim. Agora terá que me deixar dormir com você todos os dias. 

O mais novo soltou uma risada matinal gostosa, virando-se de frente para o alfa. Ele era lindo até mesmo com inchaço nos olhos e nos lábios. Parecia estar melhor depois da situação na noite anterior. 

— Obrigado por ontem — Sua canhota alcançou o rosto do ômega. — Não queria chorar na sua frente, mas fiquei tão constrangido por ter estragado o momento. Eu lhe disse que não precisava hesitar antes de fazer algo, então quando você resolveu tomar uma iniciativa, eu o interrompi. Eu sinto muito. 

— Tae, não foi sua culpa. Gosto quando você é sincero comigo, e não quero que sofra sozinho quando sabe que eu estou aqui. Não sei ao certo o que temos, então posso estar soando patético agora, mas você pode me contar os seus segredos, os seus medos e fraquezas também. Tudo bem? 

— Não é tão fácil para mim falar sobre alguns assuntos — Taehyung desviou seu olhar para o teto, envergonhado. Tudo o que ele queria mostrar a Jeon eram os seus melhores lados; os mais bonitos e mais cativantes, mas ele não fazia a mínima ideia de que, ao esconder tanto do garoto, estava lhe fazendo se sentir um grande tapado. Mais do que ninguém, Jeongguk odiava ser ignorante em relação ao que gostava. Ele sempre desejava saber de tudo e um pouco mais. — Mas eu prometo que farei o meu melhor. 

— Fico feliz! Eu quero aprender mais sobre você, hyung. 

—  Hum, vamos começar, então. Eu contei isso para o Jimin no dia em que seu cio iniciou, porém, não sei se ele comentou algo com você. 

— Nadinha. — Ele franziu as sobrancelhas. 

— Eu sou um alfa... lúpus.  

— Tae? — Ele se sentou na cama rapidamente, bagunçando os fios de sua cabeça com as mãos. — Então é por isso que você é tão…

— Tão? 

— Tão… forte e viril. — admitiu ele, um pouco tímido. 

Taehyung gargalhou e puxou o corpo do mais novo, fazendo com ele se deitasse sobre si. Os braços rodearam a cintura alheia e ele o abraçou, previsível como sempre. Às vezes Jeongguk se perguntava se havia algum imã em sua cintura. 

— Então quer dizer que você me acha viril? Está reparando demais, não é? — perguntou provocativo. 

— Viril e pervertido — A voz soou perto demais do ouvido do alfa, que se arrepiou um pouco. 

Jeon nunca havia dado corda para as investidas maliciosas do Kim, embora as recebesse desde que o conheceu. Ele achou que estava na hora de ir um pouco mais além. 

— Taehyung, há uma coisa que estou curioso sobre.

— O quê? 

— Eu sempre me mostrei tímido e acanhado para você. Na verdade, não há como mudar isso, faz parte de quem eu sou.

— Eu gosto.

— É exatamente sobre isso — Os dedos magros do pintor tracejaram uma linha invisível, desde o abdômen até o peitoral desnudo do mais velho. A timidez queria dominá-lo, mas ele não estava disposto a deixá-la ganhar; não daquela vez. — Será que você irá gostar de ver o meu outro lado também? — Suas unhas curtas arranharam a pele do alfa, deixando marcas vermelhas ali. 

— Jeongguk? — Taehyung disse surpreso, mas um sorriso repleto de luxúria começou a despontar em seus lábios. Aquilo estava começando a tomar rumos interessantes. 

— Você sabe flertar como ninguém, hyung, e me faz ficar sem fôlego muitas vezes, mas… eu também posso te surpreender, se quer saber. 

— Estou ansioso por isso. 

Com uma coragem repentina, Jeongguk se ergueu e se encaixou no colo do mais velho da melhor forma que pôde, as pernas dobradas, uma em cada lado, não lhe pareceu desconfortável. Não queria parecer tão nervoso, então optou por balançar os pés ao invés de brincar  com os dedos das mãos. Taehyung se segurava para não tocá-lo, queria ver até onde ele seria capaz de ir. 

Assim que Jeon desabotoou o primeiro botão da veste alheia, um indivíduo entrou pela porta do quarto tão rápido quanto um raio, fechando-a com força em seguida. Ele deu um sobressalto da cama para o chão, tomado por vergonha, enquanto Taehyung permaneceu deitado, praguejando mentalmente. 

— Minha nossa — Jimin começou a gargalhar alto, alternando entre rir e conseguir respirar. Havia subido lances e mais lances de escada, corrido até o quarto do pintor e depois até o quarto do Kim. Era muito exercício para si. — Me desculpe por atrapalhar o momento, mas é que aconteceu algo muito sério. 

— A julgar por suas risadas, não parece tão sério assim. — Jeongguk disse zangado. 

— Estou rindo do seu estado de pavor, tenham decência!  Mas voltando ao assunto, Taehyung precisa ir embora agora mesmo e você precisa inventar uma desculpa convincente o quanto antes. — avisou o alaranjado. 

— E por quê?

— Parece que ontem, um dos guardas do castelo presenciou os dois pombinhos tendo um momento íntimo na antiga sala da rainha, e informou ao rei quanto a isso. Até onde sei, ele escutou parte da conversa e até teve coragem para dizer que vocês estavam se beijando. A coisa lá embaixo está feia. 


Notas Finais


Por hoje é isso!! O desafio desse capítulo foi: não dormir enquanto escrevia os taekook de chameguinho. Juro que eu emergi tanto nessa cena, fiquei tão confortável que quase dormi junto com os bebês kkkkk. Aliás, a inspiração veio através da música my gospel (que por sinal, escutei a semana inteira) (https://youtu.be/S7186D1uaX4)

Muito obrigada por lerem! Eu estava pensando em fazer uma tag pra fic, caso vcs queiram comentar sobre e etc, só que no momento eu tô sem criatividade, vou pensar em algo legal. (uma pessoinha aí desaprovou #umleopardinhoapaixonadoporumlobinho n entendi o porquê, é tão linda meo 🙄)

enfim kkkkk chega de graça. Volto com o próximo capítulo algum dia aí, blz? (spoiler: choro, pincel, tinta e desconfianças) tchau vidas.


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