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História Beastars - A Vil Loba - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Carne nova no pedaço.


Era a madrugada mais fria registrada em quatro anos na cidade de Cherryton. Juno envolveu a pelugem do rosto com sua capa para poupá-la da chuva fina que caía. A corrente de ar fez com que fechasse os olhos firmemente e segurasse o tecido pesado que compunha a capa de chuva. As ruas da cidade estavam estranhamente vazias; apenas as solas emborrachadas de seu coturno e a sua mala de rodinhas ecoavam ao andar sobre as poças de água nos paralelepípedos; e o sussurro constante do vento. O céu cinzento parecia contrastar muito bem com o clima daquele dia, e Juno parecia misturar-se àquilo com uma facilidade assustadora, mesmo quando levantava os óculos delicadamente sobre o focinho na tentativa de enxergar melhor, apesar das gotas de chuva na lente. Tinha os traços angustiados e a expressão determinada estampada nos olhos lilás, embora estivesse apenas caminhando. Mas, aqueles que soubessem de seu passado, saberiam que Juno não caminhava, tão somente. Mas fugia. Do quê? De quem? Suas ações visavam um objetivo maior e aquela não se excluía da categoria: procurava abrigo.

Juno forçou-se a parar e pegar fôlego antes de retomar a caminhada, então encostou numa parede de tijolos molhados e escuros. Não sabia, exatamente, onde estava - a não ser pelo aviso no começo da cidade em que dizia "Sejam bem-vindos à cidade Cherryton!". A rua cheirava à carne...podre, com sutis notas de folhas verdes."Daqueles que só comem grama", pensou consigo mesma. Aquele aroma fez com que seu focinho retorcesse antes mesmo de recuperar seu fôlego. Respirar parecia uma tarefa torturante. Nunca, em toda sua vida de garota do interior, sentira tal cheiro. Avançou para dentro da viela a fim de descobrir de onde aquele mal cheiro vinha.
— O que faz por essas ruas tão tarde da noite, minha jovem? Seu lugar não é aqui, longe do centro. — murmurou uma voz rouca e envelhecida que se recusava a sair das sombras, embora seus pelos sujos e ignorandos pela sociedade fossem denunciados pela luz da noite de lua cheia. Um sem-teto. 
— Eu não... eu não sou da cidade. Procuro abri... — tentou responder, hesitante. Sacou do bolso da calça um maço de cigarro e um isqueiro.
— Uma forasteira, huh? Cherryton tem carne nova no pedaço, enfim. — debochou. — Então, me diga, de onde vem? 
— De longe. — pendeu o cigarro no canto da boca e acendeu o isqueiro de encontro à ponta do fumo. A luz da chama fez-se iluminar a figura do que antes era desconhecido. Deu alguns passos para trás quando seus olhos miraram em um par de patas sem dedos, preços em partes do corpo e um dos olhos faltando. Ficou atônita. Era a primeira vez que via um herbívoro vendendo partes de seu corpo para carnívoros. "A cidade grande era perigosa."
— Está com fome, minha jovem? Acredita que um dedo ou dois satisfariam a dor da fome, a urgência pela carne, huh? — dedilhou - com os dedos que lhe restavam - a parede do beco onde a luz batia enquanto aproximava-se, quase um carnívoro prestes a dar o bote. Mas era só uma capivara. — Aproveite! Restam poucos exemplares. 
— E-Eu... — engoliu em seco, afastando-se. Já não via mais a saída da viela, somente o clarão do que parecia um comércio ainda mais adentro do beco. Um passo atrás do outro sem tirar os olhos da capivara a fazia andar de costas, amedrontada com a visão grotesca. O cheiro de carne parecia intensificar e seu focinho ardia, embora sua boca salivasse. 
— O senhor já é bem ciente das leis de sugestionar a ingestão de carne para adolescentes, não é mesmo? Suma antes que chame as autoridades responsáveis para cuidar de você. — Juno bateu suas costas num corpo largo, musculoso e muito mais alto; a capivara já tinha desaparecido, engolida pelas sombras de onde saiu. — Meu nome é Gohin. Terapeuta aqui no Black Market.
— Black Market? — Juno indagou, virando-se rapidamente de frente para o panda com o rabo entre as pernas trêmulas. Finalmente pôde dar um trago no cigarro. 
— Você não é mesmo daqui. O Black Market é essa pequena área abrigada principalmente por carnívoros. Aqui hospeda a venda e distribuição de mercadorias ilegais, como sangue de outros animais, vários tipos de carnes, etc. — Gohin explicou, guiando a relutante loba para o pequeno edifício mais próximo. — Venha, está frio aqui fora.

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— Então quer dizer que você é um terapeuta para carnívoros? — a loba sentou-se num divã de frente para uma poltrona grande onde se aconchegou Gohin. 
— Precisamente. — assentiu com a cabeça, orgulhoso. Cruzou as pernas. — O que você faz por Cherryton?
— Procuro um lugar para morar.
— Você não estuda? Quantos anos você tem, pirralha? 
— Vinte. Não, eu... 
— Não tem família?
— Não. — era notável o ressentimento na voz de Juno.
— Vou encaminhá-la ao internato.
— Internato? — franziu o cenho.
— Cherryton Academy. Nome completo? — Gohin puxou seu laptop para o colo. Seus dedos enormes digitavam com rapidez enquanto suas perguntas à loba eram respondidas com ligeireza. 
— Juliet North. Mas pode me chamar de Juno. — tirou a capa de chuva molhada, levantando-se para pendurar no cabideiro.
— Amanhã cedo tomarei as providências para que ingresse na faculdade do internato, está bem? Uma adolescente não pode ficar... perambulando pela cidade sozinha essas horas. Você pode ser carnívora como nós, mas não sabe da maldade do mundo aqui fora. Tome. — Gohin aproximou-se de Juno para entregar-lhe uma troca de roupas quentinha e um cobertor. — Durma. Amanhã será um dia cheio. 
— Gohan? — Juno chamou. O panda acabara de pegar seu mastro de bambu, pronto para ir aos seus aposentos.
— Gohin. — corrigiu, impassível. — Sim?
— Por quê? 
— Gostei de você, Juno. — escorou-se no batente da porta sem virar-se novamente para a loba. Olhava o teto do corredor vazio que acendera graças ao sensor de presença. — Anos andando por esse extenso beco me permitiram o dom de enxergar seres de bom coração. Além do mais, você precisa estudar. Ou arranjar um trabalho. Entretanto, dada a sua visível falta de experiência nessa selva de pedra chamada vida, amanhã visitaremos sua nova casa. Capiche?
— Obrigada. — respondeu antes de ouvir a porta se fechar num estrondo. Juno riu, aquecendo-se envolta no cobertor. Sabia que era quase impossível para um panda daquele tamanho ter a delicadeza de um animal menor.



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