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História Beastars - A Vil Loba - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Perdoa-me, Pai, pois eu pequei.


A ala masculina ficava totalmente do lado contrário da diretoria. "É pertinho", Gon disse em sua despedida. Da porta fechada da diretoria ouvia-se o bate boca entre grandes amigos, embora na cabeça de Juno só pensasse nos machos que conviveria do outro lado da faculdade. 
— P-Pedimos mil desculpas, querida. — Greta iniciou um diálogo tímido e desajeitado. — É que, hum...
— Está tudo bem. Sério. Fui criada por três irmãos.  — Juno interrompeu. — Você não imagina como é ser a irmãzinha do Alfa.
— Então a liderança está em seu âmago, no seu instinto. Pode concorrer esse ano como Beastar. 
— Veremos. — Greta equilibrava-se em dois saltos altos com a graciosidade de uma Rainha da Selva. O tempo que a loba passou observando o caminhar da felina - e "aquela bunda naquela saia lápis..." - fez com que sentisse inveja por mais que seu coturno surrado bastasse. Juno sempre prezou pelo conforto invés dos olhares atrevidos dos machos de sua antiga alcateia sórdida. E por falar em sujo, sua camiseta preta do The Cure grudava-lhe nos pelos devido o suor nervoso, que escorria por uma linha fina de seu pescoço. "Um banho que não faria mal nenhum. E um vinho.". Aparentando ou não, Juno precisaria muito mais do que uma pequena garrafa de Cabernet Sauvignon que trazia consigo para afogar seu passado, e não pretendia fazê-lo longe de uma cama limpa e quentinha sem colegas de quarto para torrar-lhe a paciência.
— Chegamos. — a leoa anunciou com um sorriso. Guiou Juno com o olhar até que encontrasse a plaqueta 702 presa à porta de seu dormitório. Àquela altura todos os que não participariam de Álgebra III estariam em direção aos seus dormitórios, segundo as explicações de Greta depois de entregar o itinerário obrigatório de aulas. — Você pode passar com Gohin para decidir seu teste vocacional, sim?
— Uh... certo. Obrigada. — girou a maçaneta e admirou o quarto com uma espécie de beliche, só que com camas embutidas na parede. — Mal vejo a hora de bater a cabeça no concreto, porra. Mas que quartinho privilegiado, huh? Eu tenho meu próprio banheiro!

A comemoração não era para menos. Um erro na planta de arquitetura fez com que o 702 ganhasse um banheiro privativo. Os machos lutavam pra merecer aquele quarto enquanto Juno pôde apreciar da água quente percorrendo por seu corpo em total privacidade. “Posso me acostumar bem com isso.”

Não tinha falado e nem olhado para ninguém enquanto passava pelos corredores, e isso causava uma perna balançando inquieta - fervendo em ansiedade, sentada à cama inferior, a mala aberta jogada no quarto. Vestia uma regata preta e calça de flanela vermelha quando abriu a garrafa do tinto seco com os dentes afiados. Sentia falta de se sentir pertencente à um grupo, pensou entre uma golada de vinho e outra - direto do gargalo -, mas tinha a responsabilidade de arcar com suas ações descabidas. A porta aberta foi o maior descuido e só se deu conta disso assim que um labrador bege respirava com a língua de fora no batente da porta.

— Olha, novata, eu não quero ser essa animal... longe de mim! — levantou as mãos como um rendido assustado. — Mas acredito que você esteja na ala errada. 
— Aparentemente as carnívoras chegaram à lotação. — Juno concluiu, estendendo o braço com a garrafa de vinho já pela metade, em oferecimento. 
— V-Você não foi avisada sobre as regras sobre álcool e d-drogas dentro do internato? — mesmo assim, suas patas foram de encontro ao vidro com líquido abençoado por Dionísio. Deu um gole ínfimo e fez careta. Vinho seco não era seu tipo, Juno presumiu. — Qual o seu nome?
— Pode me chamar de Juno. — tomou a garrafa de volta para suas patas. 
— Eu sou o Jack e... — ajeitou a gravata do uniforme. Sentia-se intimidado na presença de uma loba tão perto de seu dormitório. Era quase como se sua privacidade fosse invadida feromônios sedutores. — Não pode beber. Muito menos fumar. Nadica de nada. 
— Jack, conversando sozinho? Você sabe que o 702 está vag... — era um tigre de bengala enorme que se apoiou nos ombros labrador. — Olá, doçura. O quarto das meninas é para aquele lad...

— Não tem vagas, Bill. — Jack explicou, tomando fôlego. Fêmeas inesperadas com cara de brava tiram o ar de canídeos menores muito fácil. Juno caminhava em direção do corredor pois sentia sede. Rapidamente os rapazes, boquiabertos com a informação, lhe deram espaço sem hesitar.  Ela vai ficar aqui.

Juno não esperava que antes mesmo de chegar ao bebedouro fosse parada por patas enormes com cheiro de gatinho convencido. Sentiu uma força de patas pesadas que empurravam seus punhos contra a parede e tentavam segurar a mandíbula da loba para que pudesse analisar todos os traços de seu rosto. O corredor inteiro parou. Era de conhecimento geral da fama de Bill com carnívoras menores, mas nunca imaginaram algo tão abrupto - principalmente nos dormitórios.
— Você fede à caixinha de areia. — Juno semicerrou os olhos. Ao seu lado direito, Jack ria baixinho encostado à porta 702. Ninguém nunca tinha deixado o tigre de bengala numa posição tão frágil. Desvencilhou-se da imobilização de suas patas e empurrou Bill. — Pspspspsps, deixe-me tomar água.

O orgulho de felino impedia de magoar-se com um fora. Embora nunca tivesse levado um. Abriu passagem, encarando a todos os meninos parados que permaneciam boquiabertos. 

— O que foi, Bill? O gato comeu a sua língua? — ouvia-se ao fundo.

— O que estão olhando?! Vão caçar o próprio rabo. — o felino ameaçou, esbravecido. 
— Foi um prazer em conhecê-lo, Jack. — esperou pacientemente que o cachorro explicasse novamente para o restante dos carnívoros sobre a lotação na ala feminina e é por isso que ele tinha uma vizinha loba agora e ela era sua amiga.
— O prazer foi todo meu, ahn, Juno. Né? Acertei? Espere só até conhecer o meu amigo lobo, o Legoshi! Nós somos amigos desde a infância, então nós nos conhecemos há muito tempo, se você fizer as contas. Então, o Legos... — encolheu-se em seus ombros, medroso. Não queria ser o próximo a levar um fora. Mas foi o primeiro que Juno fechou a porta bem no focinho. 
— Jack fala demais. Legoshi, hum? Nome estranho. — dedilhou sobre os móveis do quarto. A escrivaninha era pequena e de ferro, mas servira bem. O guarda-roupa embutido era perfeito para as poucas roupas que Juno trouxera consigo na fuga. O tapete enorme era gostoso ao toque de suas patas inferiores. Inspirou profundamente, sentiu o ar invadir seus pulmões antes de expirar. "Nova vida, nova Juno. É disso que eu estava falando".

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Estava chovendo no dia que seus pais morreram num acidente de carro; mal se via um palmo à frente do automóvel, que dirá a árvore no meio do caminho. O ocorrido chegou até mesmo a ser manchete do jornal na manhã de terça-feira. Eles deixaram na Terra quatro filhos. O mais velho, batizado de Sebastian, herdou a posição de Alfa e Juno, a pequenina mais nova, no auge de seus 16 anos, focava-se nos estudos, nos livros de contos e na sua ambição de se tornar escritora. Sonhava em cursar algo como linguística na faculdade, mas não existia faculdade numa cidade pequena como aquela.  

Gostava de sentar-se do lado de fora da cafeteria ao lado do campo de flores para observar o pequeno movimento que uma cidade interiorana tem a oferecer. Era o que mais gostava de fazer nos finais de tarde. Passou um ano inteiro olhando o sol se pôr na linha do horizonte com cheirinho de grãos de café moídos na hora. Lia grandes coleções, desde Jane Austen a Edgar Alan Poe. Tomava seu café e comia seu bolo de veludo vermelho religiosamente. Era quando seus olhos lilás encontravam com os daquela zebra que folheava o jornal de todos os dias. Liam. Mal sabia que fazer amizade com um grupo de herbívoros fãs de enrolar um baseado lhe traria problemas sérios. 

FLASHBACK ON.

Adentrou o local sagrado e seguiu pelo corredor, cabisbaixa, para evitar reconhecimento. Os boatos na cidade corriam rápidos, as paredes tinham ouvidos. Sem mais delongas, Juno vestiu-se de uma capa de chuva preta e pesada acompanhada de uma única mala de viagem, seguindo mais adiante no corredor e parando apenas para curvar-se sobre a cruz. A sala do confessionário era tão silenciosa quanto o resto da catedral. Soltou um suspiro fundo e amargurado.

— Perdoa-me, Pai, pois eu pequei. — e pela primeira vez em muito tempo não estava mentindo. As garras sujas de rubro não a deixavam mentir.  — Eles sabem. Ela sabe. A alcateia sabe e me banirá assim como todos os outros criminosos. Diga que não me procurem. Estarei longe já ao anoitecer.

FLASHBACK OFF.



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