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História Beca e Nick - Capítulo 18


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Notas do Autor


Mais um capítulo de quarentena.
Espero que gostem <3

Capítulo 18 - Minha Verdade Sobre Você


   – Eu vou atrás da Malu. – anunciou Julie, quebrando o silêncio pesado e denso que tinha se instalado naquela sala. – Você sabe, pra evitar que ela saia do país ou coisa parecida.

Isso não seria tão absurdo vindo de Malu.

Antes de sair, ela foi até Mia e a beijou brevemente. Se ficou surpreso, Nick não demonstrou nem por um segundo. Então, Julie saiu porta à fora, deixando eu, Nick e Mia ali.

Mia ajeitou seus grandes óculos e veio em minha direção. Ela fixou seus olhos castanhos analíticos em mim, como se pudesse identificar minhas emoções em meu rosto. Eu apenas devolvi o olhar, em silêncio.

 – Você está bem, amor? – ela perguntou, cheia de preocupação.

Forcei um sorriso e balancei a cabeça.

 – Não se preocupe, eu vou ficar bem.

Meus olhos se desviaram dela e pousaram em Nick, que estava logo atrás de Mia, ainda sem saber ao certo o que fazer, se permanecia parado, ou se ia embora.

Mia seguiu meu olhar e notou Nick ali novamente. Ela o fitou por um longo momento, depois a mim, então, Nick de novo e decidiu deixar sua atenção em mim, por fim.

 – Eu... vou fazer um bolo pra alegrar o dia. – Mia me encarou, buscando minha aprovação e assenti, incentivando-a. Um bolo seria legal. Ela beijou o topo da minha cabeça e lançou um último sorriso a Nick, antes de sorrateiramente cruzar a sala em direção à cozinha, fechando a porta com um click que ecoou pela quietude. Agora, Nick e eu estávamos sozinhos.

Eu não fazia ideia do que dizer a ele. Já tinha passado tanta vergonha na frente de Nicolas que não havia muito a ser dito à essa altura.

 – O seu celular – Nick esticou o braço e o ofereceu a mim.

Peguei o celular de sua mão e ofereci um sorriso constrangido para ele. Remexi o celular em minhas mão sem saber o que fazer agora. Tentei ligar o aparelho, mas estava óbvio que tinha acabado a bateria. Ou isso, ou ele tinha morrido igual minha dignidade.

 – Como descobriu onde eu moro? – perguntei, olhando pra Nick.

 – Teresa me falou.

 – Ah, é? Ela simplesmente deu meu endereço assim?

 – Sim, por quê?

 – É que... – dei de ombros – Ela acha que a gente se odeia e quer se matar. Você podia ter vindo pra botar fogo na minha casa, não teria como ela saber.

Nick riu. Ele começou a tatear os bolsos, repentinamente.

 – Droga, esqueci meu isqueiro.

Aquilo me fez sorrir, apesar de tudo que tinha acontecido poucos minutos atrás.

 – Me desculpe pelo que você presenciou, não era pra... você ver isso. Você deve achar que a gente é louca.

 – Se serve de consolo – ele se aproximou de mim – eu já achava que você era louca antes.

Nós nos olhamos por um breve instante, então começamos a rir.

 – Que tal darmos uma volta? – Nick se virou na direção da porta e fez um gesto com o queixo para que eu o seguisse. – Andar me ajuda a pensar um pouco. Talvez ajude você.

Minha roupa de ficar em casa não era ridícula nem nada, mas não me deixava empolgada com a ideia de sair andando pelo bairro. Ainda assim, calcei um chinelo e fui atrás dele. Era domingo e provavelmente não tinha ninguém na rua.

Andamos lado a lado pela calçada. Como eu havia suposto, a rua estava vazia.

 – Por que veio me entregar o celular hoje? Não podia esperar até amanhã, na segunda?

 – Eu não vou para o CAC essa semana, tenho uns shows e outras coisas para fazer.

Pisquei os olhos, estranhamente surpresa. Eu não o veria por uma semana. Por alguma razão obscura, não senti o alívio que achei que sentiria por me ver livre dele por tanto tempo, na verdade, o sentimento estava mais para o oposto disso. Fiquei horrorizada.

– Espero não ter tornado as coisas difíceis pra você e sua namorada. – falei subitamente, lembrando-me de Débora, que aparecera tão repentinamente no apartamento de Nicolas.

Ele franziu o cenho, olhando pra mim.

 – Que namorada? – Nick quis saber.

 – Débora.

Nick soltou uma gargalhada alta.

 – Débora!? Meu Deus, ela não é minha namorada. Ela é minha irmã.

Senti como se um nó tivesse se desfeito, aliviando uma pressão que eu nem sabia que existia em meu peito.

 – Isso faz mais sentido. – concluí – Você teria que namorar a pessoa mais equilibrada do mundo, para que ela não surtasse quando visse outra garota em seu apartamento logo cedo.

 – Com certeza. E eu sempre preferi as desequilibradas.

Eu ri, novamente ficando chocada com o quão fácil era conversar com Nicolas, a pessoa que, não fazia muito tempo, costumava tornar os meus dias infernais.

 – Suas amigas são muito... fãs. – ele comentou, depois de alguns segundos de silêncio.

Suspirei.

 – Ah, é. Eu não sabia que elas gostavam tanto assim de você. Foi assustador de ver. – estremeci ao me lembrar dos olhares maníacos de Julie, Mia e Malu.

 – Imagina pra mim. Achei que elas nunca mais fossem me soltar.

 – Isso deve ser bem irritante pra você.

Nick estava com as mãos enfiadas nos bolsos da calça, chutando uma pedrinha desprendida do chão. Ele deu de ombros com indiferença.

 – Eu meio que já me acostumei. Suas amigas foram até que gentis. Existem fãs piores e mais... invasivas. Taradas, igual você bêbada.

Dei um tapa no braço dele, o que fez Nick rir.

 – Você não é.

 – O que? – perguntei.

 – Minha fã. Nem me reconheceu a primeira vez que nos vimos.

 – Você queria que eu fosse? – Olhei pra ele com as sobrancelhas erguidas e com um sorriso provocativo nos lábios.

 – Isso talvez fizesse você ser mais doce comigo. – Ele piscou seus olhos e sorriu de forma caricatamente amável.

 – Porque você é um verdadeiro amor, não é, Nick? – Revirei os olhos.

Caminhamos por um tempo em silêncio. Cruzei meus braços sobre meu peito, assim que me lembrei que não estava usando sutiã, o que me fez me sentir exposta.

Aquela quietude me fez pensar novamente na minha briga com Malu. O humor de Nick tinha tirado meu foco da realidade, mas subitamente ela voltou, deixando-me em queda livre com meus pensamentos turbulentos. As coisas que ela me disse e as coisas que eu disse para ela voltavam à minha mente feito uma gravação. Apertei mais minhas mãos em meus braços e tremi levemente. Eu e Malu tínhamos problemas, ela me irritava constantemente, era irresponsável e egoísta, mas... ainda era minha irmã. A única irmã que eu tinha.

Não consegui evitar um soluço de escapar da minha garganta. Virei o rosto para o mais longe possível de Nick, mesmo que não tivesse derramado nenhuma lágrima e meus olhos permanecessem secos.

Primeiro, Rick, depois minha mãe, agora, Malu? Qual seria o próximo passo? Brigar com meu pai, Julie e Mia? Até não me restar mais ninguém e eu ficar completamente sozinha. Será que eu era tão problemática que simplesmente não conseguia manter ninguém por perto?

Eu senti um imenso vazio, uma solidão claustrofóbica. Era como se eu estivesse voltando há sete meses atrás, pouco depois do término, quando estava em meus dias sombrios. Senti meus olhos se encherem d’água e um nó se formar em minha garganta, tornando difícil a respiração. Estremeci, sentindo um frio gélido me envolver, mesmo que o dia fosse quente.

– Beca... – ouvi a voz tensa de Nick chegar aos meus ouvidos, sobressaltando-me – Sua irmã falou aquelas coisas da boca pra fora, não foi sério. – ele falou com uma afabilidade atípica.

 – Não falou, não. – retruquei – Porque eu não falei. E tudo que ela disse é a mais pura verdade. Eu sou a porra de um fracasso ambulante. E sempre me achei superior a ela em todos os sentidos, mas... Malu estava certa, eu sou ridícula. Eu... eu...

Nick segurou meu braço para que eu parasse e me virou em sua direção. Eu fugi os olhos para longe do rosto dele, mas ele segurou meu queixo, forçando-me a encarar seus olhos verdes claros e afiados feito vidro.

 – Beca, você sabe que não é nada disso. Você e sua irmã só tiveram uma briga, vão se entender.

Abaixei novamente o rosto, desvencilhando-me da mão dele. Eu estava sentindo um vácuo preencher meu peito e senti que poderia facilmente voltar para o fundo do poço, de onde eu estava tentando tão bravamente sair já faziam meses. Fechei meus olhos com força, tentando impedir as lágrimas de rolarem por meu rosto.  

O que se seguiu naquele instante, foi provavelmente a coisa mais absurda que poderia acontecer. Senti as mãos de Nick segurarem meu braço gentilmente, então, ele me puxou para si e me envolveu em um abraço carinhoso. Inicialmente, meu corpo se retesou por inteiro, como se até mesmo minhas terminações nervosas soubessem que aquilo era esquisito. Mas, quando senti seu calor me envolver, seus braços ao meu redor como se pudessem me impedir de desabar, relaxei, apoiando a cabeça em seu ombro e retribuindo o gesto, abraçando-o de volta.

Inspirei aquele aroma amadeirado da colônia de Nick, deixando que lágrimas silenciosas escorressem por minhas bochechas, sentindo minha respiração se normalizar aos poucos e uma leveza extraordinária me envolver. 

 – Você está mesmo me abraçando? – questionei, um tanto perplexa com a situação.

 – Quando vai parar de ficar tão surpresa, Beca? – Ele deslizou uma de suas mãos por minhas costas para acariciar meu cabelo. Um arrepio intenso tomou conta da minha nuca, quando senti seus dedos em meu couro cabeludo. Mas era bom.

Enfiei o rosto no ombro dele e funguei audivelmente.  

Lentamente, ele afrouxou o abraço e se afastou minimamente.

 – Agora, sim, eu já te vi em todos os seus piores momentos – Nick comentou, quando nos afastamos e olhamos para o rosto um do outro. Ele estava com seu característico sorriso de canto de boca, debochado, que sempre me fazia querer bater nele.

Não pude evitar rir, desvencilhando-me dele completamente. Embora estivesse calor, senti minha pele se arrepiar quando me afastei de Nick, como se meu corpo protestasse.

 – Tudo bem... Rebs? – O sorriso dele se alargou. – Foi assim que sua irmã te chamou.

 – Você definitivamente não vai me chamar de Rebs. Só a Malu me chama assim e é uma coisa nossa... – Ou era. Eu já não tinha mais certeza. – Você tem mais irmãos? Digo, além da Débora. – perguntei apenas para mudar de assunto.

Nick balançou a cabeça.

 – Sim, tenho quatro irmãos, contando com a Deb. Dois mais velhos e dois mais novos.

 – Vocês são próximos? – eu quis saber.

 – Já fomos mais. – Nick era sempre absurdamente conciso quando falava sobre sua vida.

 – E por que não são mais? – insisti, querendo desvendar o mistério que era Nick De Santis.

Nós nos sentamos em um banco de um ponto de ônibus deserto, observando a rua vazia a nossa frente, onde havia duas pombinhas andando pelo asfalto despreocupadamente.

 – Porque meu trabalho é mais difícil do que achei que seria e minhas relações familiares nunca foram muito boas.

 – Sabe, Nick, eu admiro sua capacidade de falar um monte de palavras e não dizer absolutamente nada.

Ele sorriu de forma enigmática e cravou seus olhos verdes claríssimos em mim.

 – O que quer que eu diga?

 – Que tal algo genuíno sobre você. – Cutuquei seu braço, que era mais duro do que eu esperava, incentivando-o. – Eu já falei um monte de coisa sobre mim.

Nick riu nervosamente e esfregou as mãos em sua calça escura, parecendo meio perturbado com a ideia. Ele desviou o olhar e olhou para a rua, que se estendia de ambos os lados, como se pretendesse fugir correndo. Eu podia supor que ele não se sentia à vontade falando sobre si mesmo. Mas eu estava disposta a fazê-lo falar, já que Nick sabia tanto sobre minha vida, era mais do que justo que eu soubesse algumas coisas também.

 – Construir a minha carreira foi algo muito trabalhoso e cansativo. Eu nem sabia que era meu sonho até viver isso, sabe? Eu sempre gostei de fazer música e, tornar isso minha profissão, foi maravilhoso, eu fiquei tão empolgado. Fama, dinheiro e música, não tinha nada melhor. Só que pensei que fosse ser... mais fácil. – Ele suspirou pesarosamente e apertou suas mãos uma contra a outra com força, sobre seu colo. – Com o passar do tempo eu comecei a me sentir muito cansado com os shows, as gravações, turnês... Nossa, acabavam comigo, era como se sugassem toda minha vitalidade. Eu acabei achando um jeito de me sentir melhor, usando certas... substâncias que me deixavam acordado e alerta. Algumas pessoas da minha família não gostaram da pessoa que eu estava me tornando e se afastaram. Alguns por conta própria e, outros fui eu mesmo que afastei. – Ele colocou uma mecha de cabelo, que tinha se desprendido de seu rabo-de-cavalo, atrás de sua orelha. Não olhou pra mim em nenhum momento enquanto falava. – A Deb é a única pessoa que não desistiu. Por enquanto.

Eu podia sentir o pesar de Nick como se fosse o meu próprio. Pude perceber a emoção empregada em cada uma de suas palavras, pela primeira vez. Ele era solitário e, por isso quando eu olhava pra ele sentia uma certa empatia, desde os primeiros momentos em que nos vimos, porque eu também me sentia assim, ainda mais agora. De repente, Nick começou a fazer mais sentido pra mim.

Estiquei o braço de forma hesitante e deslizei minha mão sobre a de Nick, segurando-a. Meu coração acelerou, porque pensei que ele fosse rejeitar meu contato, fiquei esperando ansiosa que ele me repelisse. Mas me enganei, ele permitiu. Entrelacei os dedos nos dele e apoiei a cabeça em seu ombro, ficando em silêncio, deixando que minhas ações pudessem dizer mais do que palavras. Nick deitou a cabeça na minha e expirou profundamente, como se estivesse prendendo o ar até aquele momento.

Queria dizer alguma coisa pra ele, mas não achei que Nick quisesse ouvir qualquer coisa nesse momento. Eu podia senti-lo tenso ao meu lado, mesmo agora. Achei que provavelmente aquilo não fosse algo que ele dissesse com facilidade.

 – Eu também não te odeio.

 – O que? – Nick ergueu a cabeça e pude sentir que ele me encarava.

Olhei pra ele, enquanto ainda segurava sua mão.

 – Você disse que não me odiava. E eu estou dizendo agora que também não te odeio. – expliquei.

Nick ficou um instante inteiro apenas olhando pra mim, como se me reconhecesse. Então, ele sorriu, um daqueles seus raros sorrisos que não era nada mais do que isso, sem deboche, sem malícia, sem desdém, sem ironia. E eu retribui o sorriso, sem conseguir evitar.

De repente, Nick soltou minha mão bruscamente. Meu coração disparou de novo e me senti prender o fôlego. Estava certa de que, o que quer que tivesse acontecido entre nós, tinha acabado naquele instante.

Ele enfiou a mão no bolso da calça, alcançando seu celular. Alguém estava ligando pra ele naquele exato segundo. Nick ficou em pé, de costas pra mim e atendeu o aparelho.

 – Renata!... Merda, eu esqueci, desculpa... Antes que você diga qualquer coisa eu sei... Eu sei!... Não acho que seja momento pra sermão, eu já estou indo... Chego em uns quinze minutos... Vinte no máximo... Ok! – Ele encerrou a ligação e começou a mexer o dedo freneticamente na tela de seu celular, provavelmente para chamar um carro.

Assim que terminou, ele guardou o aparelho novamente no bolso e se virou. Olhou para mim, erguendo as sobrancelhas, como se lembrasse que eu ainda estava ali.

 – Eu tenho que ir pro aeroporto.

 – Ah, sim – Levantei-me e passei as mãos em meus cabelos, ajeitando-o com os dedos. – Hum... Obrigada por trazer meu celular, seria um pesadelo ficar sem ele por uma semana. E... Você sabe, por tudo mais que aconteceu.

Eu me sentia idiota por estar tão sem graça por ter ficado de mãos dados com Nick segundos atrás. Era como se eu tivesse quinze anos de novo e não soubesse como agir.

Nick balançou a cabeça e se aproximou novamente de mim. Pareceu incerto do que iria fazer, mas por fim falou:

 – Você e sua irmã deveriam conversar. Sabe, se entender.

Cruzei os braços novamente sobre meu peito, empinei o queixo para cima para olha-lo melhor e semicerrei os olhos para Nick.

 – Está me dando um conselho, Nick, sobre se entender com alguém? É muita presunção.

Um carro parou próximo ao meio fio naquele exato segundo. Nick se virou para o veículo, cuja janela do passageiro havia sido aberta. O motorista se inclinou para olhar para fora.

 – Você é o Nick? – ele perguntou.

 – Sou eu. – Nick respondeu, depois voltou sua atenção novamente pra mim e piscou. – Eu sou um cara presunçoso, Bequizinha.

 

Quando voltei para casa, encontrei Mia e Julie em pé, perto da bancada da cozinha. As duas se viraram pra mim assim que entrei, vindo em minha direção. Pude ver preocupação e carinho nos olhos de ambas, quando olharam pra mim. Senti meu peito se aquecer. Eu não estava sozinha, afinal.

Assim que entrei, senti o aroma do bolo que Mia disse que iria fazer, impregnando a casa.

Nick estava certo, embora eu jamais fosse admitir isso para ele. Eu deveria conversar com Malu, ou jamais resolveria essa situação.

Vendo-as ali, eu repentinamente senti um aperto em meu peito. Olhei ao redor e não vi Malu, mas Julie tinha ido atrás dela, então... Ela tinha ido embora?

 – Cadê a Malu? – perguntei, ansiosa.

Julie apontou com o polegar para trás, provavelmente indicando o quintal dos fundos, ou um outro país que ficasse para o leste. Ou eu achava que aquela direção era o leste, mas podia muito bem ser qualquer outra.

 – Ela está lá trás. Eu falei com ela, mas não sei se serviu pra alguma coisa. – Ela encolheu os ombros, como se pedisse desculpas.

Fui até minha melhor amiga e pousei a mão em seu ombro, afagando-o ternamente.

 – Tudo bem, Julie. Pelo menos, você evitou que ela saísse do país. – Aquilo fez com que Julie e Mia rissem, o que me deu coragem. – Obrigada por tentar. Eu falo com ela.

Nos fundos da casa de Julie e Mia, havia uma churrasqueira que não deveria ser usada há, no mínimo, vinte anos, um pequeno pé de pitangueira, que não era muito mais alto que eu, além de uma cadeira de balanço de madeira que, devido a ação do tempo, rangia a cada balanço e cuja tintura da madeira estava quase que toda descascada.

Malu estava sentada nessa cadeira, os pés pra cima, abraçando suas próprias pernas.

Fui até ela e me sentei ao seu lado no banco, que estalou e rangeu com o peso de nós duas.

Um silêncio opressor pairou sobre nós duas, feito uma manta de obscuridade. Apoiei os pés no chão e balancei suavemente para trás, apenas alguns centímetros, só para que o rangido das correntes enferrujadas e da madeira velha quebrassem a quietude.

 – Eu não acho que você seja uma vadia. – falei, por fim.

 – Não? – Malu questionou, completamente cética.

Suspirei. Certo, sem mentiras.

 – Eu sou feminista, então acho que toda mulher solteira tem o direito de transar e beijar quem quiser, sem ser julgada por isso. Mas, quando você traí seus namorados e, transa com alguém só pra ter um lugar pra dormir, daí eu te acho uma vadia. – Respirei fundo. Agora que eu tinha começado, tinha que terminar. Nick se abrira pra mim e agora eu iria me abrir para Malu. – Eu te acho egoísta quando some sem avisar. Eu me preocupo com você, Malu. Te achei egoísta quando me deixou sozinha naquela festa, se não fosse por Nick, não sei se teria conseguido voltar pra casa sozinha. Sempre te achei mimada porque, não importava o que você fizesse, a mamãe e o papai nunca te puniam como eu achava que você merecia, nunca eram duros demais com você, sempre acabavam deixando o assunto pra lá. Eu achava injusto, eles sempre foram mais severos comigo. E, você tem razão, eu sempre me orgulhei de fazer tudo certo, de ser a boazinha. Eu achei que eu precisava ser assim pra não ser...

 – Como eu? – minha irmã disse friamente.

Assenti com a cabeça.

 – Eu achava que, por você ter largado a faculdade, por nunca ter um namorado ou um ficante fixo, ou um lugar pra morar, que você era uma fracassada. Mas você tem razão, a fracassada sou eu e estou merma imersa em uma auto piedade absurda. A verdade é que... Eu tenho inveja de você.

Malu me olhou com os olhos arregalados e boquiaberta, chocada.

 – Você sempre foi tão corajosa, autentica, espontânea, independente... Tudo que eu nunca fui e não acho que serei um dia. Inveja de você viver a vida que você quer e não a que os outros preferem. – parafraseei exatamente o que ela havia me dito na nossa briga, porque aquela era a verdade. A minha verdade sobre ela.

Ela estava com seus olhos caramelos fixos em mim e sustentei seu olhar com intensidade.

 – Rebs... – Malu estava com os olhos cheios de lágrimas. – Eu sinto muito, Rebs. Você não é uma fracassada e não acho que seu sofrimento pelo Rick seja drama, me desculpa. Eu só estava com tanta raiva por você ter vergonha de mim, porque você é melhor que eu, que eu simplesmente quis te atingir.

As lágrimas rolavam abundantemente pelo rosto de Malu e senti meus olhos marejarem também, mas segurei o choro, pensei que deveria ser forte por nós duas naquele momento.

 – Você não é fracassada, eu sei que sou eu. Eu que tenho inveja de você por ser o orgulho dos nossos pais, por ser tão inteligente e ter feito a porcaria de uma faculdade, por ser tão forte, por ser tão boa e tão melhor, Rebs. Você é tão melhor que eu. – Ela soluçou. – Não tem que ter inveja de mim.

Abracei Malu com força, fazendo com que o banco soltasse um rangido em protesto pelo movimento brusco. Ela rapidamente retribuiu o gesto e chorou contra meu ombro, exatamente como eu tinha feito com Nick.

 – Eu te amo, Malu. Não importa o que eu diga ou o que você ache, você só precisa saber que eu te amo e você é minha irmã mais velha, somos uma família.

 – Também te amo, Rebs. – ela falou com a voz embargada.

A cadeira soltou um último ruído assombroso, antes da corrente se desprender da madeira e ela se espatifar no chão com nós duas ali. Caímos de lado, meu braço sendo esmagado sobre o peso do meu corpo e o de Malu. Soltei um gemido de dor, no mesmo instante em que minha irmã soltou um gritinho de susto.

Nós nos olhamos e começamos a gargalhar alto. Soltamo-nos e ficamos deitadas de costas em cima dos escombros da cadeira, enquanto riamos.

 – A propósito, você deveria fazer as pazes com o papai. Ele sente muito a sua falta e se arrepende de ter se afastado. – falei, depois que finalmente parei de rir, enquanto contemplava o céu azul sem nuvens.

Pude sentir os olhos da minha irmã sobre mim, embora não soubesse qual era a expressão de seu rosto.

 – E você deveria fazer as pazes com a mamãe. Tenho certeza de que tanto você quanto ela querem isso. – rebateu Malu.

Mordi meu lábio inferior, pensativa.

Fazer as pazes com Malu era substancialmente mais fácil do que com minha mãe. Uma coisa de cada vez. Primeiro meu pai, então Malu e depois minha mãe.

Mas eu sabia que, se eu quisesse mudar minha vida para melhor, eu tinha que superar todo o ressentimento que eu tinha com a minha mãe. Não seria naquele dia que isso aconteceria e, sendo franca comigo mesma, não estava nos meus planos a curto prazo. Eu tinha medo, embora não soubesse do que exatamente.

Porém, havia ainda mais alguém com quem eu deveria me entender, além da minha mãe.

 – Não acredito! – Malu levou a mão a testa bruscamente, fazendo um estalo audível soar.

 – O que? – perguntei, preocupada.

– Esqueci de pegar o autógrafo do Nick De Santis.



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