História Beca e Nick - Capítulo 2


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Categorias Histórias Originais
Tags Amizade, Amor, Casal, Comedia, Drama, Musica, Ódio, Recomeço, Rivalidade, Romance, Termino
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Palavras 3.687
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Basicamente, eu não consigo pensar em como juntar os dois no mesmo lugar de novo kkkk que não seja uma coincidência

Capítulo 2 - Atropelando Problemas


A vida é uma sucessão infinita de obstáculos nos quais estamos sempre tropeçando. Às vezes, conseguimos ficar em pé, manter o equilíbrio, e fingir que nada aconteceu. Outras vezes, não há nada a ser feito e simplesmente caímos de cara no chão.

A questão era que, há seis meses, eu não conseguia mais manter o equilíbrio, quando eu tropeçava, ia direto para o chão.

Mudei do meu antigo apartamento para a casa de uma amiga, Juliana. Nos conhecemos na faculdade e foi amizade à primeira vista. Tínhamos muito em comum e, mesmo que tivéssemos personalidades diferentes, ela me completava de um jeito esquisito e maluco.

Também tinha Mia, a namorada de Juliana que também morava com a gente. Ela era impossivelmente louca para alguém que trabalhava como psicóloga. Foi uma espécie de anjo milagroso na minha vida, depois que terminei com Rick. Ela sempre sabia exatamente do que eu precisava em todos os momentos.

Como elas não sabiam que um dia me hospedariam, a casa delas tinha apenas dois quartos, um que elas dividiam e o outro era o quarto dos entulhos – Julie dissera que elas arrumariam aquele quarto para que eu pudesse usá-lo, mas já fazia cinco meses e o lugar ainda era um contêiner de tralhas –, de forma que eu dormia no sofá-cama da sala. As minhas coisas, quase todas, ainda estavam em caixas espalhadas pela casa e, aos poucos, eu ia me organizando. Mas não importava muito, porque nem Julie e nem Mia eram pessoas organizadas, tampouco ligavam para bagunça.

 Eu era extremamente metódica em relação a organização, por isso, vira e mexe eu arrumava a casa. Também como forma de agradecimento, já que elas não me permitiam pagar um aluguel, apenas a conta de água. Eu não achava justo, mas não importava o quanto eu insistisse, elas simplesmente recusavam um aluguel. Mas eu sempre buscava ajudar de outras formas, limpando, arrumando, fazendo compras, até cozinhando. Embora eu sempre tivesse sido péssima nisso. Isso não importava antes, porque Rick cozinhava muito bem...

Mesmo depois de seis meses, a maioria das minhas coisas permaneciam encaixotadas porque eu era quase incapaz de abri-las. As lembranças ainda me atormentavam, como gnomos chutando minha canela. Não sei ao certo porque pensei nessa analogia. Acho que era porque, agora, depois de tanto tempo, não era mais uma dor excruciante, mas um incomodo chato.

Passei tantas semanas chorando e me lamentando, ficando dias sem levantar da cama, enfiada debaixo das cobertas, quase não comendo nada. Depois bebi, fui a festas ridículas para me animar, transei com estranhos para esquecer.

Doeu tanto por tanto tempo.

Mia dizia que eu tinha que fazer as coisas no meu tempo. Um passo de cada vez.

Esse era o dia de dar mais um passo.

Peguei uma caixa e me sentei no chão. Praticamente apunhalei o papelão com a tesoura, o que não podia ser um bom começo. Abri a caixa e vi vários livros empilhados. Livros, ótimo, não podia despertar nenhuma lembrança.

Oh! Como eu estava errada.

Peguei o primeiro livro, que era muito pesado e grosso. Era um exemplar de IT – A Coisa, de Stephen King, o meu livro favorito de todos os tempos. Abri o livro em uma página qualquer e aproximei meu nariz, sentindo o aroma maravilhoso de papel e tinta impressa. Mas cometi um erro ao abrir a capa na primeira página e ver a dedicatória de Rick.

 

Amor da minha vida,

Vi esse livro na livraria e achei que você iria adorar. Sei que você ama Stephen King e os livros bizarros dele. Na verdade, eu fico um pouco preocupado com seu gosto peculiar por coisas bizarras. Eu espero, de coração, que eu não seja uma delas.

Enfim, achei que esse livro era a sua cara. Mas nada de ficar me contando histórias sobre palhaços demoníacos. Você sabe que eu sou sensível.

Sempre com amor, seu Rick.

 

Fiquei um tempo encarando a letra bonita e delicada de Rick que manchava o papel. Toquei a tinta com a ponta dos dedos, como se pudesse sorver aquelas palavras.

Rick, sempre quando passava em frente à uma livraria, entrava e comprava um livro pra mim, escrevia uma dedicatória e o deixava na cama, ou no sofá, ou na mesa da cozinha, até mesmo em cima da privada, em qualquer lugar que eu fosse encontrar. Eu sempre sorria quando achava e abria o livro, ansiosa, em busca de sua dedicatória.

De repente, alguma coisa pingou no livro, borrando a tinta. Coloquei a mão no rosto e senti as lágrimas rolando por minhas bochechas. Ah não.

Larguei o livro na caixa e a chutei para longe.

Fiquei um tempo parada, em pé, chorando, encarando a caixa como se ela fosse o inimigo.

Olhei para o meu relógio de pulso...

 – Puta merda! – gritei.

 

Devo ter buzinado para, pelo menos, três pessoas diferentes. Uma delas foi um cachorro que atravessou a rua.

Estava atrasada para o meu primeiro dia no novo emprego, que beleza! E estava dirigindo feito uma maluca. Em parte, porque eu estava completamente histérica e chorando, o que fazia minha visão ficar turva, algo que envolvia extrema periculosidade.

Ver aquela dedicatória mexera com algo extremamente profundo que, há muito, muito tempo, eu estava enterrando para o fundo do meu ser. Mas que agora emergia me sacudindo totalmente para a realidade.

Aquilo me lembrava como eu amava Rick, como éramos bons juntos e como ele me fazia feliz. Até ele dizer que não estava apaixonado por mim e me chutar.

Eu não o via há cinco meses, desde que me mudara e ele fora para São Paulo fazer uma pós-graduação. Foi uma coisa boa se separar definitivamente, não só emocionalmente, como geograficamente. Teria funcionado mais, se eu não ficasse perseguindo ele nas redes sociais, vendo suas fotos e o quanto ele parecia feliz na casa nova, no novo emprego, em sua nova universidade. Em sua nova vida. Sem mim.

Dei seta para virar à esquerda. Ou, pelo menos, eu achei que tivesse dado. Puxei o volante para virar o carro e, foi nesse momento que esfreguei meus olhos inchados com as costas da mão.

Bati em alguma coisa e freei o carro no mesmo instante, completamente apavorada. Eu atropelei alguém? Ah meu Deus! Não seja um cachorro, não seja um cachorro! Nem uma criança!

Puxei o freio de mão e desliguei o carro, puxando a chave com os dedos trêmulos. Abri a porta com uma lentidão admirável. Quando tentei descer, algo me puxou para o assento de volta e percebi que não tinha tirado o cinto. Fiz três tentativas, até me desprender e saltar para fora do carro, as pernas bambas.

Sequei minhas lágrimas com um safanão nas bochechas e ajeitei minha postura.

Havia um homem na frente do meu carro, apoiado em um dos joelhos, analisando um rasgo em sua calça.

Apressei-me até ele, estiquei as mãos para toca-lo, mas pensei bem e recuei.

 – Você está bem?

Ele ergueu a cabeça e me fulminou com o olhar, havia tanta raiva que até me fez recuar mais um passo. O homem se levantou e, se ergueu a minha frente como uma coluna de ossos e carne. Era tão alto, que eu tinha que erguer o queixo para olha-lo e, no meu caso, isso era estranho já que eu era uma mulher alta, com pouco mais de um metro e setenta.

 – Se estou bem? – ele retorquiu – Você acabou de me atropelar! Tá maluca? Por acaso comprou a merda da sua carta de motorista? Você ao menos sabe dirigir? Ah, merda, eu não precisava disso hoje.

Fiquei um pouco espantada por sua reação. Eu realmente não esperava por isso. É claro que eu o atropela-la, mas sua rudeza me pegou totalmente desprevenida.

 – Olha isso! – Ele passou o dedo pelo rasgo recém formado em sua calça e a olhou com extrema indignação. – Minha calça já era! A culpa disso é toda sua.

Aquilo me deixou irritada demais. Eu já estava muito emotiva e, a grosseria daquele cara me deixou imensamente furiosa.

Minha indignação cresceu quando eu reparei que ele estava usando calça preta rasgada nos joelhos. A calça dele já era rasgada, o que era um rasgo a mais? Isso me fez reparar mais no homem que estava a minha frente. Ele tinha cabelo preto liso que estava meio preso em um coque e o resto caia em seus ombros. Os braços dele eram cobertos por tatuagens, dos mais variados tipos, caveiras, rosas, dragão e mais que eu não consegui identificar na hora. E seus olhos eram de um verde claro, que parecia até vidro em um tom que eu jamais vira... Ele soava familiar. Eu tinha a estranha sensação de já tê-lo visto antes.

 – Me desculpe, tá bem! Eu não te atropelei de propósito! Foi um acidente! – gritei, indignada.

Um sorriso cínico se abriu em seu rosto. Parecia quase diabólico.

 – Ah, isso resolve tudo mesmo, que bom que você não me atropelou de propósito.

 – Eu já pedi desculpa! Além do mais, você não viu meu carro? Não olhou para atravessar?

 – Você é doida? Você me atropelou! Por acaso, você não me viu? Você sequer deu seta, como diabos eu iria saber que você iria virar? Eu não sou profeta, maluca! – ele pronunciou todas as palavras “você” com ênfase pejorativa.

Ah, então eu não tinha dado seta.

Ele me deu as costas e começou a andar na direção contraria. Mas eu não podia permitir. Legalmente, quando se atropela alguém deve prestar socorro. Eu deveria chamar a polícia, manter o carro no local e chamar uma ambulância, ou algo assim. Tinha feito autoescola há muito tempo, já não me lembrava mais das leis de transito.

Corri até ele e o contornei, ficando a sua frente e bloqueei sua passagem. Ele arqueou uma das sobrancelhas pra mim e torceu a boca.

 – O que você quer? Já não bastou ter me atropelado?

 – Eu preciso te levar no hospital.

Ele fez um som com os lábios de puro desdém, o que só serviu para me deixar ainda mais irritada, mas tentei manter a calma. Ele tentou sair de perto de mim, mas me movi para ficar à sua frente, todas as vezes.

 – Quer sair da frente? – ele falou entredentes – Eu tenho que trabalhar. Você já me atrapalhou demais.

 – Escuta – tentei dizer o mais calmamente possível, mas soou como um rosnado – Eu preciso te levar para o hospital. É o protocolo. Não posso simplesmente te deixar ir. Você pode estar machucado ou com algum sangramento interno.

 – Eu estou bem. Sai da frente.

Até então, todos os carros que estavam virando naquela rua, desviavam do meu carro, que estava parado no meio da faixa de pedestre. Mas, naquele momento, um carro passou e buzinou para mim, o que fez meu sangue ferver.

 – Entra na droga do carro, inferno! – gritei, histérica.

 – Eu não vou entrar no seu carro. Tá na cara que você não sabe dirig... – Os olhos dele, gradativamente, se arregalaram e ele me olhou, totalmente perplexo. – Você está chorando!?

 – Claro que não! – Mas eu estava chorando sim e sequer conseguia controlar. Eu levei as mãos ao rosto e o sequei furiosamente. – Quer entrar na porcaria do carro para eu leva-lo ao hospital?

Muito a contragosto e, claramente contrariado, ele se dirigiu, batendo os pés no asfalto, até o carro. Ele abriu a porta e entrou. Logo depois, eu também entrei no carro e puxei o cinto. Tive que fazer três tentativas até que, com muita calma, puxei o cinto e o prendi no engate.

Coloquei as mãos no volante calmamente e respirei fundo.

 – Sério, você sabe dirigir, certo?

Olhei irada para ele e liguei o carro.

 

O caminho até o hospital foi totalmente silencioso. Isso feriu um pouco meu instinto social, que era puxar assunto. Eu não gostava muito de silêncio, achava um pouco opressor, embora às vezes fosse relaxante. Agora, porém, era apenas opressor.

Tamborilei no volante, quando parei em um sinal vermelho. Olhei pelo canto do olho, e o cara estava sentando o mais longe possível de mim, olhando fixamente para a janela.

Estiquei o braço para ligar o rádio e terminar com aquele silêncio. O som de Savin’me de Nickelback começou a soar pelo carro todo, preenchendo cada espaço daquela quietude anterior.

 Percebi que, aquele cara, de forma provavelmente inconsciente, estava batendo os dedos em seu joelho no ritmo da música.

O sinal ficou verde e eu acelerei.

 

...All I need is you, come please, I’m callin’

And, oh, I scream for you...

 

Era incrível como as músicas começavam a fazer sentido quando estávamos em um ápice emocional. Como quando me apaixonara por Rick e, toda música melosa de amor começou a me tocar de forma diferente, não era mais uma simples melodia que eu ouvia para me distrair, havia se transformado na trilha sonora da minha vida.

 A música me atingiu como um tapa na minha cara e não pude conter um soluço.

Quando parei em outro sinal, notei aquele homem me encarando com seus olhos verdes cristalinos. Esse olhos... Eu já vi esses olhos.

 – O que foi? – perguntei, rudemente, sem tirar os olhos da rua.

 – Nada. – Então tornou a olhar para a janela.

Estacionei o carro em uma das vagas do hospital e saí junto com o estranho. Nem tinha perguntado o nome dele.

Quando já estávamos na entrada, me virei para ele e perguntei:

 – Qual seu nome?

Ele me olhou, por um breve momento, mas não disse nada, apenas empurrou a porta e entrou. Qual era o maldito problema daquele cara? Será possível que ele não tinha um pingo de educação?

Depois que ele falou com a recepção, dando seus dados, nós dois ficamos esperando na sala de espera. Achei que, apenas porque estava cheia, ele se sentara ao meu lado, já que era o único lugar vago disponível. Ele pegou o celular e focou sua total atenção na tela luminosa.

Fiquei balançando a perna, impaciente, enquanto ficava pensando o quão fudida eu estava por estar tão absurdamente atrasada à essa altura. No primeiro dia! Eu seria demitida, com certeza.

Eu tinha tanta sorte! Por que diabos fui abrir aquela caixa? Só para ficar terrivelmente abalada ao ponto de sequer notar que havia alguém na frente do meu carro? E por que, dentre todas as pessoas do mundo, eu tinha que atropelar justamente a mais mal educada? Mas, parando para pensar, talvez eu fosse a força kármica agindo na vida daquele cara. Eu estava agindo à favor do universo. Aquele homem certamente fazia coisas ruins, porque ele era ruim.

Automaticamente, virei o rosto para encara-lo. Em outras circunstâncias, eu poderia acha-lo bonito. Ele tinha um maxilar anguloso, nariz reto e pontudo, lábios rosados, cílios grandes, naturalmente curvados. Fora que, esse estilo de homem de cabelo grande e tatuado era extremamente sexy. Meu olhar, instintivamente recaiu sobre suas tatuagens. Meu lado de artista suspirou ao ver aqueles desenhos tão bem trabalhados: uma caveira rodeada por rosas repletas de espinhos cobrindo seu braço, tão brutal e selvagem, com o vermelho da rosa contrastando com o preto e branco do resto do desenho...

Antes que eu percebesse, ele estava olhando pra mim com aqueles olhos verdes tão claros, como joias preciosas. Embora fossem olhos bonitos, eles me davam uma sensação enervante.

 – Perdeu alguma coisa na minha cara?

Suspirei.

 – Será que você consegue ter o mínimo de civilidade?

Um sorriso sarcástico esticou o canto de sua boca, mas ele não me respondeu.

 – Nicolas Montês. – falou uma enfermeira ao surgir de um corredor segurando um papel.

Ele se levantou e, no mesmo instante, eu me levantei também.

Nicolas acompanhou a enfermeira e eu fui atrás dele, em direção ao corredor, onde ficavam as salas dos médicos. Tudo ali, como em todo hospital, era em cores claras; branco principalmente, mas com tons de salmão, verde claro, azul claro e amarelo.

Quando a enfermeira abriu a porta para Nicolas, ele pareceu perceber que eu os havia seguido e bloqueou a minha passagem com seu corpo enorme. Sério, ele deveria ter pelo menos um metro e noventa de altura.

 – O que pensa que está fazendo? – Ele apoiou a mão no batente, como uma espécie de barra de segurança.

 – Eu quero ver se você está bem. De um médico.

 – Nem pensar.

A enfermeira ainda estava ali, com um olhar extremamente curioso, encarando-nos. Provavelmente, pensara que éramos um casal, até agora.

Como eu não estava com cabeça para discutir com Nicolas, de novo, simplesmente me abaixei e passei por baixo de seu braço, entrando na sala. Ouvi ele bufar atrás de mim, então, o som da porta se fechando.

 – Bom dia – disse a médica com um sorriso simpático. Ela era baixa e tinha cabelo loiro curto; os olhos castanhos ficavam atrás de óculos de armação vinho.

 – Bom dia – falei, enquanto Nicolas ficou em silêncio.

Ela ofereceu a mão para mim, que a apertei, em seguida, para Nicolas, que fez o mesmo.

 – E então – ela disse quando nos sentamos – Qual o problema?

 – Bem – comecei, um pouco constrangida – Atropelei ele. Acho que não foi nada grave.

Nicolas assentiu com a cabeça, enfaticamente.

 – Certo. – A médica espalmou as mãos na mesa e se levantou. – Vamos examina-lo então. – Ela tirou o estetoscópio do pescoço e indicou a maca que ficava no fundo de sua sala. Nicolas se levantou e foi se sentar novamente na maca. – Agora, inspire e expire.

A médica levantou sutilmente a camiseta dele e enfiou o braço ali dentro, pressionando a ponta metálica de seu estetoscópio no peito dele. Nicolas obedeceu, inspirando pelo nariz e expirando pela boca, em seguida.

 – Onde foi a pancada? – ela perguntou, enquanto repetia o processo, só que com a ponta do estetoscópio nas costas dele agora.

 – Foi na coxa. – disse Nicolas, conciso.

 – Certo. – A médica tirou o braço de dentro da blusa dele e colocou o estetoscópio de volta ao redor do pescoço. – Preciso que o senhor tire suas calças para que eu possa examina-lo melhor.

Eu fiquei ali parada, encarando o símbolo do hospital bordado no jaleco da médica. Pensei que Nicolas fosse se levantar para tirar as calças, mas ele permaneceu sentado, sem fazer nada. Quando olhei para ele, Nicolas estava me encarando, totalmente incrédulo.

 – Por acaso, você está pensando em ficar aqui enquanto eu tiro minha calça? – ele falou rispidamente – Quer dizer que, além de péssima motorista, você também é pervertida?

 – Ah – saltei da cadeira, pegando minha bolsa e sentindo minhas bochechas ficarem cada vez mais quentes – Certo. Vou esperar lá fora.

 

Demorou aproximadamente dez minutos até que Nicolas saísse da sala. Minha perna já estava ficando cansada de tanto ficar balançando pela ansiedade. Assim que ele saiu, eu me levantei, ajeitando a alça da bolsa em meu ombro.

 – E então? – perguntei – O que a médica disse?

Subitamente, os olhos verdes de Nicolas se tornaram obscuros e ele parecia muito sério. Aquilo fez um frio percorrer minha espinha.

 – Ela disse que fraturei o fêmur. Foi um milagre não atingir a minha artéria. Sabe, ela disse que vou ter que ficar fazendo acompanhamento, para checar se está tudo realmente bem.

Senti-me empalidecer. Levei a mão ao peito. Eu tinha realmente atropelado alguém! Ferido uma pessoa por causa de uma merda de dedicatória ridícula!

Mas, de repente, Nicolas soltou uma gargalhada alta, as pessoas ao redor olharam para nós, intrigadas. Ele riu por pelo menos um minuto, até finalmente recuperar o fôlego e eu perceber que ele tinha me feito de idiota.

 – Nossa, você tinha que ter visto a sua cara! – Ele limpou as lágrimas de diversão, que se acumulavam em seus olhos, com seu indicador. Seu rosto pálido estava ligeiramente corado, o que realçava seus olhos verdes claríssimos.

 – Isso não é engraçado! – ralhei.

O rosto dele tornou a ficar sério.

 – Você não vai chorar de novo, né? Porque isso seria extremamente constrangedor.

 – O que a médica disse? – falei, entredentes.

 – Não foi nada demais, como eu disse. Ficou apenas um hematoma, mas não tem nada fraturado, porque eu consigo andar normalmente. Olha, foi uma total perda de tempo ter vindo aqui. Eu nem queria jogar na sua cara, mas já joguei. – Ele deu de ombros e enfiou as mãos nos bolsos de sua calça. – Eu tenho que ir.

As pernas dele eram muito longas, de forma que ele conseguiu cobrir uma grande área em poucos segundos. Então, tive que me apressar para alcança-lo.

 – Espera!

Nicolas cravou os pés no chão e girou para me olhar, bufando.

 – Olha só, garota, não importa que tipo de fantasia você tem de romance, mas não tem a menor chance de eu te dar meu número. Você me atropelou e isso meio que corta o clima. Apesar de você ser gostosa.

Eu tinha ficado maluca, ou ele realmente tinha me chamado de gostosa?

Olhei para ele totalmente horrorizada. Havia tanta grosseira que senti vontade de dizer para ele naquele momento, como manda-lo ir a merda. Mas me contive porque, afinal, eu o tinha atropelado e, diferentemente de Nicolas, eu era uma pessoa civilizada e educada. Ou eu tentava me convencer disso enquanto, com muita dificuldade e perseverança, tentava não socar sua cara. Não costumava levar desaforo pra casa, mas aquilo era um hospital e a culpa tinha sido irrevogavelmente minha. E eu não queria ir pra delegacia por causa de briga, de novo.

Respirei fundo, muito lentamente.

 Então, com muito esforço, me obriguei a me acalmar. Eu só queria saber em que momento pareceu que eu queria o número dele? Certo, ele era bonito, bem bonito. Mas tinha que ser absurdamente arrogante para pensar que, mesmo depois do jeito que ele me tratara, eu ainda fosse querer sair com ele.

 – Nicolas, nem eu um milhão de anos eu iria querer seu número, acredite. – Ele me olhou com um sorriso de canto de boca, claramente cético, mas ignorei. – Eu quero te oferecer uma carona pro seu trabalho, já que eu te atrasei.

Ele sorriu pra mim e, por um ínfimo segundo, eu pensei que ele fosse mostrar gratidão.

 – Nem morto que subo no seu carro de novo. E foi um imenso desprazer te conhecer – Ele deu meia volta, ficando de costas pra mim e marchou até a saída do hospital. Fiquei ali parada, vendo a porta de vidro se fechar atrás dele.

É, eu estava errada.



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