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História Behind Those Gray Eyes - Capítulo 1


Escrita por: e mindokyu


Notas do Autor


Oiee, meus xuxus!! Tudo bom com vocês??? Primeira fanfic minha escrita para esse projeto maravilhoso, com pessoas maravilhosas que eu já amo de paixão. Obrigada pela oportunidade! <3 Obrigada Viih (@XFairy) pela capa maravilhosa! Obrigada Tâmara (@2minym) pela betagem! Boa leitura!

Capítulo 1 - Capítulo Único: Let me see the world with those eyes


Verão de 2004

Seoul
Orfanato Jang

 

As mãozinhas de dedos finos estavam pálidas de tanto apertar o grosso edredom que o cobria, deixando apenas uma pequena parte do cabelo e os olhinhos de jabuticaba amedrontados de fora. Segurava um grito na garganta a cada trovão ouvido do lado de fora, rezando para deuses que nem sabia se existiam mesmo para que ninguém pudesse ouvi-lo. As janelas velhas da grande casa batiam com o vento forte que a chuva trazia consigo; as luzes piscavam como nos filmes de terror, deixando tudo um breu por alguns minutos antes de voltarem a acender. 

Jeon Jeongguk odiava chuvas, principalmente tempestades com ventos e barulhos assustadores que não o deixavam dormir. 

 

Mas, não era apenas da chuva que o menino de 7 anos tinha medo. A voz que ressoava no corredor era mais alta que os trovões do lado de fora. Jeongguk reconheceria aquela voz que o aterrorizava em qualquer lugar, “até mesmo no escuro”, pensara ele. 

Era a voz da Sra Jang, a dona do orfanato que Jeongguk morava desde que nascera.

A porta do dormitório dos meninos foi aberta com um estrondoso barulho, sem a menor cautela por parte da mulher. Sra Jang entrou no quarto para se certificar de que todos estavam dormindo, mas ao olhar para a cama do menino Jeon, percebeu que o outro tremia, encolhido debaixo das cobertas. Ela não tolerava qualquer quebra de regras naquele orfanato. Não admitiria mais uma birra do menino que ela menos gostava ali. Se aproximou da cama, vendo-o encolher ainda mais. 

 

— Posso saber o que faz acordado ainda, Jeongguk? — A voz mais grossa que os trovões que o mantinham acordado dizia bem perto de si. Jeongguk sentiu uma enorme vontade de chorar. 

— E-eu… Eu estou com medo, Sra Jang. — disse com a voz trêmula e abafada.

— Fala direito, moleque insolente! 

— Eu estou com medo! — disse Jeongguk, fazendo um grande esforço para deixar a voz menos trêmula. 

— Isso não é desculpa para estar acordado. — As grandes mãos da mulher puxaram com força a grossa coberta que mantinha o menino quentinho durante a noite, que o cobria dos medos que vinham de fora. 

— M-mas, eu tenho medo da chuva! — Sem sua proteção, não restava nada além de olhar para a face horrenda da mulher que o tirava da cama a força, secando as teimosas lágrimas que escorriam por seu rosto pálido. 

— Por isso é um maricas, por isso não tem amigos! Onde já se viu ser um menino e ter medo de chuva! Uma chuvinha de nada. — Enquanto falava, ia arrastando a criança para fora do quarto, um caminho no qual Jeongguk já estava acostumado a fazer. Um trovão ressoou bem perto da casa, a forte chuva chacoalhando as janelas.

Quando algum dos moradores do orfanato desobedeciam qualquer regra imposta pela Sra Jang, eles pagavam castigo no quarto da vergonha, um cubículo sem luz e sem janelas, pequeno como uma caixa para gatos. 

— E-eu… Desculpe, Sra Jang. E-eu v-vou tentar dormir. — O desespero era nítido na voz do pequeno Jeon, que só conseguia deixar-se ser levado para seu pior pesadelo. Ele odiava com todas as forças aquele lugar que era sempre levado, sempre se perguntando o que tinha feito para ser uma vergonha.

— Não me venha com essa, insolente. A hora de dormir já passou faz mais de hora — A mulher destrancou a porta, o barulho das chaves entrando para a lista de “barulhos do medo” de Jeongguk. — Como sempre testando a minha paciência, Jeon Jeongguk. Até parece que você ama esse quartinho, vou colocar até seu nome na porta de tanto que vem ‘pra cá. 

 

Jeongguk não amava aquele lugar escuro e frio. Ele não amava ser uma vergonha, mas aparentemente ele era uma.

 

A mulher, sem cuidado algum, jogou o menino dentro do quarto e fechou a porta, deixando mais escuro do que antes. O medo se instalou novamente no peito de Jeongguk, que se apertava em terror. As lágrimas já não tinham mais porque ficarem guardadas, saindo livremente pelos olhinhos tristes do menino, enquanto ele se encolhia no chão e voltava a pedir para alguém o salvar daquele inferno.

 

Os minutos pareciam horas, que pareciam dias e meses naquele lugar horrível. Jeongguk nunca conseguiu entender os motivos de ser rejeitado por todos no orfanato, por ser rejeitado pela dona do lugar, um lugar feito para acolher as crianças como ele. Jeongguk não entendia porque fora rejeitado por aqueles que foram programados para o amar, que o deram a vida.

 

A criança de olhos cinzentos e tristes não conseguia se lembrar se algum dia já fora feliz. 

Nem ao menos sabia se seria feliz algum dia.


 

-x-



 

O sol entrava ameno pela janela aberta do quarto, fazendo com que a leve brisa quente de verão bagunçasse alguns pôsteres presos na parede. O relógio nem mesmo havia despertado, mas o jovem deitado na cama já estava desperto e com um largo sorriso no rosto. Observava o tom laranja que o sol tinha quando nascia em sua pele e nunca esteve tão grato por ter tudo o que tinha na vida, afinal, hoje ele daria início a um de seus maiores sonhos. 

Taehyung levantou-se animado que só ele, andando até o banheiro para se preparar para o grande dia que o esperava. Desceu os degraus da escada dois por vez, quase esbarrando em sua avó, que levava algumas coisas para a cozinha. O cheiro de café era o aroma favorito de Taehyung, e isso o deixou ainda mais animado. 

— Bom dia, halmeoni! O café já está pronto? — segurou a pequena senhora entre os braços, dando um daqueles abraços característicos de Taehyung, bem apertado.

— Sim, meu filho, já está pronto. 

— Tem bolo, vó? Daquele de chocolate que eu tanto amo? — Os dois adentraram na larga cozinha, deparando-se com a linda mesa posta, cheia de frutas e comidas típicas de café da manhã. 

Aish, menino! Nem parece que tem 22 anos, parece ainda aquele pequeno TaeTae que se sujava com o bolo da vovó. — A senhora Kim ria enquanto servia uma caneca cheia de café com leite para seu querido neto. 

— Ah, vó! Eu ainda sou! Só cresci um pouquinho demais — dizia ele, sorrindo. Os olhos de Taehyung fecharam em deleite com a primeira mordida em seu bolo favorito. — Continua uma delícia como sempre, halmeoni. Obrigado. 

— Tudo para fazer meu neto feliz, meu eterno bebê. 

 

Busan era uma cidade quente, praiana e tranquila, aos olhos de Taehyung. Ele tivera que se mudar para lá por conta dos pais que mais trabalhavam do que ficavam em casa. Resolveu ir então morar com a avó que tanto amava e foi a melhor decisão que tomou na vida. Conseguiu passar na faculdade de Artes de Busan e não poderia estar mais feliz, tudo caminhava perfeitamente. Tinha tudo o que um jovem de 20 anos poderia querer, amigos, uma família que o apoiava e um sonho em suas mãos para chamar de seu. 

Chegando na faculdade logo avistou Jimin que saiu correndo de onde estava para abraçar Taehyung. 

— Tae! Feliz primeiro dia de aula! — O pequeno menino o abraçava com força, tão animado quanto o outro pelo primeiro dia de aula.

Taehyung e Jimin se conhecem desde que se entendem por gente, sempre estudando na mesma sala desde pequenos. Claro que na faculdade não poderia ser diferente. 

— Feliz primeiro dia, Minnie! — Tae olhava encantado ao redor do campus, que parecia ter saído de um filme. — Já fez alguma amizade com alguém da turma de matemática? — Por mais que Taehyung tentasse entender, nunca saberia como alguém tão amável como Jimin escolheu um curso tão meh para fazer. Matemática? Sério? 

— Já sim! — Os dois começaram a andar em direção aos prédios de licenciatura. — Antes de vir te esperar eu passei na sala para ver como era e tinha um menino lá. 

— E sendo um raio de sol lindo como você certeza que já amigou, não é? — Jimin ria e dava tapinhas de leve no braço do amigo que o conhecia tão bem. 

Aigo, Tae! Eu não sou um raio de sol, você que é! — entrelaçou o braço do amigo assim que se aproximaram do prédio onde teriam aulas. — Mas sim, eu amiguei, oras! O nome dele é Yoongi e ele parece um gatinho. 

— Além de amigar já está flertando, é isso mesmo produção? — Taehyung colocava a mão livre na orelha como se estivesse falando com alguém.

— Para de ser bobo, Tae! É o primeiro dia de aula não começa!

— Como se isso fosse algum empecilho para Park Jimin, o mais paquerador de todos. 

Os dois sabiam que não era empecilho algum, Jimin era uma alma tão boa que conseguia fazer amizade até mesmo com a parede. E isso tornava Park Jimin uma das pessoas mais especiais em sua vida, que Taehyung agradecia ao universo diariamente por tê-lo junto consigo.

 

O primeiro dia de aula foi incrível, como Tae esperava que seria. Fez amizades, adorou as matérias que teria durante o ano letivo, anotou com cuidado e carinho todos os materiais artísticos que precisaria comprar. E ao final do dia, se despediu de Jimin, que iria para o outro lado da cidade e pôs-se a andar em direção a sua casa, dando passos calmos e apreciando tudo ao redor com um sorriso pequeno nos lábios. Ao virar a rua de sua casa, uma pequena rua sem saída, percebeu algo que não estava lá quando acordara naquele mesmo dia. Um caminhão de mudança estava parado ao lado de sua casa. Olhou desconfiado, ninguém morava naquela casa há anos, já tinha se acostumado com a casa vazia, mas pelo jeito isso estava prestes a mudar. 

Ao abrir a porta de casa percebeu que sua avó estava na cozinha, terminando de fazer uma deliciosa sopa para o jantar 

— Vó, cheguei! — tirou os sapatos e largou a mochila no chão, andando diretamente para a cozinha, pelo cheiro delicioso era ali que ela se encontrava. Deu um beijo estalado na bochecha da senhora na beira do fogão antes de sentar-se à  mesa. 

— Como foi seu dia, querido? Gostou da faculdade? 

— Vó! É incrível! — Os olhinhos brilhavam ao falar sobre seu dia. — Jimin está no mesmo prédio que eu, já que ambos estamos cursando licenciatura. E vó, o campus parece que saiu de um filme, daqueles de Hollywood, sabe? Eu estou realmente amando. 

A feição da avó era de puro carinho ao ver a felicidade do neto ao falar sobre a faculdade que tanto queria cursar. Só ela sabia o quão foi difícil para ela e sua filha manter a vida que tinham. Os pais de Taehyung sempre trabalharam muito para dar uma vida boa ao garoto. Claro que Taehyung sente falta dos pais, assim como a senhora Kim sente falta da filha. Mas tudo veio se ajeitando e nada conseguiria tirar a alegria que o menino levava consigo para a vida. 

— Fico muito feliz, Tae. De verdade. — saiu de perto da pia, se aproximando do menino que estava sentado na mesa. — Eu te amo tanto, menino. Espero que saiba o quanto é bom poder te ver feliz. 

— Eu sei vó, eu também te amo. — A mulher abraçou o menino ainda sentado, acariciando os cabelos castanhos com as mãos. — Ah, vó. Tenho uma pergunta. O que é aquele caminhão na rua?

A senhora limpou a mão no avental, olhando pela janela para ver se enxergava alguma coisa e afastou a cortina, o sol laranja de fim de tarde banhando toda a cozinha, deixando o clima ainda mais acolhedor ainda. 

— Caminhão? Que caminhão, Taehyung? — Depois de se certificar que não vira nada do lado de fora, olhou para o menino séria, pensando ser alguma brincadeira do neto. — Pare de graça, menino. Não tem caminhão nenhum aqui. 

— Tem sim, vó. Vem aqui! — segurou na mão macia e enrugada da senhora e a levou até a porta da casa do lado de fora, ficando parados no começo da escada. E alí estava ele, o caminhão de mudança.

— Oh! Tae, teremos vizinhos! — As mãozinhas da senhora foram até a boca, cobrindo um largo sorriso, bem parecido com o de seu neto. — Aigooo, faz tanto tempo que essa casa está abandonada, finalmente uma movimentação nesse bairro pacato. 

— Sim, vó! Sim! — Ainda perto da avó, percebeu que do lado do caminhão acabara de parar um carro, e de dentro saíram três homens; dois aparentemente mais velhos e um mais novo. Taehyung podia jurar que eles tinham a mesma idade. 

— Olha, Tae! Um menino que nem você! — Ela olhava para o neto rindo. — Finalmente você vai ter um amigo na rua. Lembra quando você reclamava quando criança que não tinha um vizinho para brincar?

Aish, halmeoni! Faz tempo isso — repreendeu a sua avó na brincadeira, entrando no jogo da mais velha. — Mas eu adoraria ter tido um vizinho para brincar. 

— Quem sabe você não consegue um agora. Antes tarde do que nunca.

Os três homens, que nem sabiam que estavam sendo observados pelo moradores da casa do lado, entraram calmamente na casa, levando apenas as malas consigo.

— Sim, halmeoni! Talvez eu finalmente faça um amigo na casa do lado.

 

-x-


 

Verão de 2015

Seoul
Orfanato Jang

 

O jardim do lado de fora do Orfanato Jang era banhado pelo sol forte do verão, não havia uma nuvem no céu para deixar o clima mais ameno. O verão sempre castigava Jeongguk, seja com as chuvas tempestuosas e inesperadas, ou até mesmo o insano calor que o abatia. O corpo cansado do então adolescente de 18 anos andava pelo jardim, juntando alguns brinquedos deixados pelas crianças mais novas. Ele era encarregado de arrumar a bagunça que os outros não arrumavam, limpar o que não limpavam. Mesmo depois de anos um sorriso não era visto no belo rosto do então quase homem Jeongguk. 

A esperança de um dia sair do orfanato e ter uma família era nula, sabia que a única solução seria trabalhar no lugar para ter onde morar, já que acabara de completar seus 18 anos e o abrigo não tinha mais obrigação de lhe dar um teto.

 

Jeongguk continuava cinza e sem ninguém.

 

Sem família e sem amigos, o que restava para o menino de cabelos pretos como a noite era trabalhar no lugar que menos gostava na terra para se manter vivo. 

 

Colocou os bonecos e carrinhos surrados dentro da caixa, tentando fazer tudo o mais rápido possível para fugir do calor escaldante de Seul no momento. Andava apressado, olhando cada canto do lugar para garantir que o trabalho seria feito direito e que Sra Jang não chamaria sua atenção. Mesmo quase idosa a mulher pegava no pé dele como antes, e isso ainda aterrorizava Jeongguk como a criança que um dia fora.

Entrou às pressas, guardando todas as caixas de brinquedos nos devidos lugares, enquanto as crianças corriam e bagunçavam a sala interna lugar que tinha acabado de arrumar. Respirou fundo, tentando não perder a paciência e o resquício de vida que lhe restava. 

A verdade era que Jeon Jeongguk não aguentava mais. Ele não aguentava mais a vida que levava, o lugar que morava, as pessoas ao seu redor. Até que, em meio ao devaneio de sua mente triste e confusa, ouviu a voz da Sra Jang o chamar. 

 

— Jeongguk, venha a minha sala agora. — chamou do alto da escada. Essa era uma frase temida por todos, principalmente por Jeon. Sabia que boa coisa não era, não poderia ser, não com ele.

— Estou indo. — terminou a tarefa que estava fazendo e começou a subir as escadas em direção a sala da mulher, sem saber o que esperar de tal encontro. 

Assim que abriu a porta percebeu que a Sra Jang não estava sozinha, e sim acompanhada de mais dois rapazes que aparentavam ser muito mais velhos do que ele. Confuso, olhou para a mulher sentada em seu lugar, seu semblante fechado enquanto esperava na porta. 

— Pode se sentar, Jeongguk. Puxe a cadeira que está ali atrás e sente-se, por favor. — Ao ouvir a palavra “por favor” ser proferida pela outra, sabia que algo muito estranho estava acontecendo. Sempre que o direcionava a palavra era com xingamentos e nomes feios, nunca com educação. Mas, não querendo abusar da sorte, andou até o fundo da sala e fez como foi lhe pedido. Posicionou a cadeira um pouco longe dos outros dois, que o olhavam atentamente sem perder um movimento sequer. Jeongguk não era bom com sentimentos e não sabia ler o que se passava na mente dos dois, só sabia que ninguém nunca havia lhe olhado daquele jeito. 

— Jeongguk, esses são Lee Sungmin e Cho Kyuhyun, eles vieram aqui saber sobre você. 

Jeongguk não respondeu, abaixou a cabeça sem saber o que fazer com a informação que recebera. O que lhe importava quem eram? Será que eram trabalhadores novos do orfanato e ele teria que ajudar os dois de alguma maneira? Não teria outro motivo, teria? 

— Jeongguk, olhe para mim — disse, dessa vez soando mais ríspida. — Não seja mal educado, moleque. Eles vieram aqui para te conhecer e você age assim? 

— Conhecer por quê? — a voz saiu rouca, pelo pouco uso dela em seus dias naquele lugar. Jeongguk quase não falava com ninguém. 

— Viemos aqui para te conhecer, querido. — disse um dos moços, olhando nos fundos dos olhos de Jeongguk, que agora o encarava espantado. Nunca ninguém lhe direcionou a palavra com tanto carinho. — Nós… Queremos te dar um lar, uma família. 

Os eternos olhos de jabuticaba se arregalaram, deixando Jeon com um semblante beirando ao cômico.

— O quê? — disse fraco. 

— Nós queremos te adotar, Jeongguk. — A voz do outro homem era mais grossa, soava mais séria aos seus ouvidos, porém ele não conseguia acreditar no que lhe era dito. 

— C-como assim?

— Eles querem ser seus pais, Jeongguk. — Era a Sra Jang que falava. — Eles entraram em contato comigo, procurando uma criança, mas quando chegaram aqui semana passada acabaram vendo você no jardim e me questionaram. 

— O quê? Mas eu… — O espanto era claro como água cristalina e Jeongguk só poderia estar sonhando. — Mas eu não posso mais ser adotado. 

Era o que ele pensava, afinal já havia completado 18 anos e não havia nenhuma chance disso acontecer. Era isso que sua mente sempre o dizia quando deitava para dormir. 

 

— Mas nós podemos, e vamos, se você nos permitir. — dizia o homem de voz mais fina, que provavelmente se chamava Sungmin, se sua memória não falhava. — Já que você é maior de idade temos que saber se primeiro você quer ir conosco. Te adotaremos com a sua permissão.

— E-eu… — Jeongguk apertava a camiseta velha que vestia, as mãos começando a suar e tremores correndo pelo seu corpo. Fora pego de surpresa com essa informação e não estava conseguindo entender tudo, assimilar tudo. — Eu não sei… Vocês não vão me querer. 

Sungmin levantou de onde estava sentado e se ajoelhou na frente de Jeongguk, nivelando seu olhar com o do menino e segurando sua mão trêmula. 

— Nós nos encantamos com você, Jeongguk. Eu e Kyuhyun sabíamos que seria você nosso escolhido assim que te vimos semana passada. — O aperto ficou mais forte assim que o menino baixou o olhar. — Nós queremos ser seus pais, nós queremos te dar um lar e uma família, não importa quantos anos tenha. Você merece ter um lar, Jeongguk, basta você nos aceitar. 

O olhar do menino, perdido e confuso, foi direto para o outro homem, que via a cena com ternura. Kyuhyun apenas sorriu e passou a mão pelos ombros de seu marido, deixando um leve aperto no local. Depois, lentamente observou a Sra Jang, que via tudo com ar de superioridade, um olhar severo em sua face. 

— Os papéis estão prontos e eles já estão aprovados pelo governo, Jeon, basta você aceitar. — era o que ela dizia, mas não era o que seus olhos mostravam. 

 

Talvez ela não quisesse mesmo que Jeongguk fosse feliz. 

 

Jeongguk se levantou num súbito, quase fazendo Sungmin cair no chão. O coração acelerado pedia por ar, pedia para sair da sala que começava a sufocá-lo.

— E-eu… Eu preciso pensar. Eu… 

— Claro, querido. — Sungmin levantou-se do chão, segurando na mão de Jeongguk mais uma vez. — Você tem todo tempo do mundo, estaremos aqui te aguardando. 

 

Jeongguk não demorou a sair correndo da sala direto para seu quarto, que já não era mais dividido com um monte de gente. Ele tinha seu próprio cantinho, pequeno, porém dele. Sentou-se na cama e começou a chorar, o coração apertado, beirando o desespero. Não sabia se era de susto ou de alívio, mas uma pulguinha atrás da orelha não o deixava em paz, aquele pensamento constante o atormentando. 

— E-eu não mereço isso, mereço? — disse em voz alta. — E-eu… eu não mereço ter um lar, eu f-fui abandonado. — As lágrimas eram tantas que escorriam até a gola de sua camiseta suja. 

Ele não merece ser feliz. Então por que isso está acontecendo agora?

 

Ouviu um barulho do lado de fora, passos apressados andando pelo corredor e logo em seguida parando em frente a sua porta. Provavelmente era Sra Jang querendo logo a resposta. Ela queria se livrar dele desde sempre, não é? 

— Jeongguk? — A voz não era da mulher atroz que o perseguia em seus sonhos, e sim de Sungmin. — Posso entrar? 

Limpou as lágrimas, respirou fundo e foi até a porta, abrindo-a para que o homem mais velho entrasse em seu quarto. 

— Desculpe a bagunça, eu não tive tempo de arrumar — era Jeongguk quem falava, sempre se desculpando por algo que nem era lá sua culpa. Voltou a se sentar na cama, os olhos fixos nas suas pernas cruzadas. — E-eu… não sei… Eu… 

Sungmin olhava atentamente ao redor, reparado em cada detalhe daquele quarto cinza e frio tão pequeno para um rapaz de 18 anos. Era vazio e não tinha nada que apontasse que um adolescente morasse ali, nenhum livro, cd ou pôster. Nada. 

Não conseguia saber ao certo, mas sentia a dor e o sofrimento que emanava do menino. Os olhos custavam a não transbordarem em lágrimas, ele queria ser forte por Jeongguk. Desde a primeira vez que ele e o marido viram o menino no jardim, trabalhando com tanto esmero, regando as plantas, sabiam só de se encararem que seria ele o escolhido pelo casal. 

— Posso conversar com você? — era uma pergunta simples, mas com um significado e poder tão intensos que chegava a ser palpável. 

— Pode. — Jeongguk soava fraco, secando algumas lágrimas que ainda teimavam em cair. 

Essa resposta mudou sua vida.

 

-x-


 

Taehyung e Jimin estavam jogados na cama, terminando de arrumar algumas coisas para levarem ao parque, onde faziam piquenique quase todos os sábados. Jimin terminava de arrumar a mochila quando percebeu o melhor amigo levantar e ir para a janela. Taehyung colocou as mãos no parapeito e ficou a observar a casa do lado, como fazia quase todos os dias. 

— Já faz quase um mês, Minnie, e eu nunca vi uma movimentação na casa. — Os lábios do menino faziam um grande bico, não aparentando nada os 22 anos de vida que tinha. 

— Relaxa, TaeTae, eles devem estar ocupados fazendo a mudança. — Assim que terminou de arrumar as coisas para o piquenique, Jimin se juntou ao outro na janela. — Eles vão aparecer logo mais, tenho certeza. 

— Mas, Minnie! Não poderia ser que nem nos filmes? Os vizinhos novos sempre levam comida para o outro, não é? — Jimin percebeu onde o menino estava querendo chegar e riu abertamente. 

— Então quer dizer que você só quer comida e não realmente conhecer seus novos vizinhos? Você não vale nada, Tae-ah! — deu um leve soquinho no braço do seu melhor amigo, ambos rindo da eterna fome de Taehyung. 

— Claro que eu quero conhecê-los, mas também quero comer, oras! — debruçou-se em cima dos braços, ainda observando a casa solitária. — Mas eu também queria ver o menino. 

— Que menino?

— O menino da casa do lado. 

— Tem um menino? Eu ouvi sua avó dizer apenas sobre um casal. — Cansado de ficar na janela, Jimin jogou-se na cama novamente, dando uma leve espreguiçada. — Você nunca me disse de menino algum. 

— Tem um menino, Chim! Um casal e um menino, talvez… seja irmão? Não sei. 

— Hum… Interessante. — Taehyung mantinha-se virado para a janela e não pode ver o sorriso sapeca que Jimin tinha estampado no rosto. — Tae, eu já vou indo para casa. Nos encontramos no parque em três horas?

— Claro, claro, Minnie. Eu levo as coisas. — virou-se para abraçar o menino e o acompanhar até a porta. 

 

Taehyung estava largado no sofá da sala, lendo seu primeiro livro pedido pela faculdade. Estava tão concentrado que nem percebeu o tempo passar. Olhou para o relógio em cima da prateleira e levou um susto, pois já estava quase na hora do combinado com Jimin. Prometeu a si mesmo que leria só mais uma página e logo já sairia para encontrar o melhor amigo, quando de repente ouviu a campainha tocar. Os passos apressados de sua avó podiam ser ouvidos de longe pelo menino. Sua avó estava esperando por alguém? Não sabia de nenhuma visita que teria hoje. 

Animada, a senhora abriu a porta sem nem mesmo espiar pelo olho mágico. Ela já sabia quem estava ali, pelo jeito.

— Sejam muito bem-vindos à residência dos Kim, espero que se sintam em casa no nosso querido bairro. — dizia ela, toda animada e com o sorriso que alcançava os olhos. 

— Muito obrigado, senhora Kim. Muita bondade de sua parte convidar nossa família para vir a sua casa. — A voz que Taehyung ouvia era desconhecida, deixando o menino ainda mais curioso. 

Como num estalo, a ficha caiu. Eram os vizinhos novos, só poderiam ser eles. 

Largou o livro em cima da pequena mesa e pôs-se de pé para correr até a porta, que nem ficava tão longe assim, mas a euforia de conhecer a família nova era imensa. Ao virar-se para porta, percebeu três pessoas cumprimentando sua avó, um casal de homens e um menino, aparentemente bem mais novo que os dois. O coraçãozinho alegre de Taehyung pulava de alegria por algum motivo desconhecido por si. 

— Esse é meu neto, Taehyung. — colocou a mão enrugada nas costas do menino, dando um leve empurrãozinho para ele se apresentar. — Ele estuda na faculdade daqui, faz Artes, inteligente que só. 

Taehyung ficou vermelho com os elogios da avó, era de praxe a senhora ficar elogiando o neto e isso nunca falhava em deixar Taehyung envergonhado.

— Muito prazer, eu sou Kim Taehyung — esticou a mão para cumprimentar os dois adultos e fez uma pequena reverência. — Sejam muito bem-vindos ao nosso bairro. Não é a grande Seul, mas é tão legal quanto. 

Taehyung amava conhecer gente nova, sua personalidade quente e brilhante se mostrava com força total. O sorriso quase não cabendo no rosto. 

— Muito prazer, Taehyung-ssi. Eu sou Sungmin, esse é Kyuhyun, meu marido — O outro homem acenou com a cabeça. — E esse aqui atrás escondido é Jeongguk, nosso filho. 

Ao ouvir tal informação, Taehyung ficou boquiaberto. Não poderia ficar mais perfeito do que estava e ele se segurava para não assustar as visitas com tanta animação. 

— Muito, muito prazer. — Ele olhava entre as pessoas, sempre com sorriso aberto, até reparar a cara fechada do menino mais novo, que agora sabia se chamar Jeongguk. Não entendeu muito bem o porquê, mas continuou falando. — Se precisarem de mim para qualquer coisa é só chamar. 

— Muito obrigado, Taehyung — dizia Kyuhyun. — Vamos precisar de ajuda para fazer Jeongguk se abrir e fazer amigos. — o homem que falava olhou de relance para o filho, fazendo com que este apenas abaixasse mais a cabeça. 

— C-claro… claro! — disse Tae. Tentava a todo custo fazer contato visual com Jeongguk, sem sucesso algum. Talvez poderia tentar uma primeira aproximação logo de cara, vai que timidez do outro diminuísse um pouco, né? — Hey, Jeongguk-ssi, vou ao parque com meu amigo hoje, gostaria de ir com a gente? 

Era como se a pergunta fosse feita a uma parede, já que o menino de roupas largas e olhar perdido nem sequer o olhou nos olhos, nem mesmo fez parecer que ouviu a pergunta. Tae deixou o sorriso lhe escapar os lábios, tristonho. Por que será que ele não o respondeu? 

— Jeongguk, querido. Ele te fez uma pergunta. — Apenas quando Sungmin lhe dirigiu a palavra ele levantou os olhos, fazendo um sinal de não com a cabeça. — Bom, acho que deixaremos o passeio para outra hora, não é mesmo? — continuou, Sungmin, um pouco sem graça com a situação. 

— Sim, é… Sem problemas. — Taehyung nunca viu alguém agir que nem o menino, mas não deixaria um pequeno detalhe estragar seu dia. — Talvez só esteja cansado da mudança, voltaremos a nos falar em breve. 

E por um breve momento Jeongguk levantou a cabeça e olhou o menino que não parava de falar e sorrir, e com isso Taehyung percebeu como os olhos do menino pareciam tristes, cinza e sem vida. 

 

Logo estavam todos na mesa tomando um café com o bolo que os vizinhos trouxeram — que nem nos filmes —,  enquanto Taehyung pegava a cesta para encontrar Jimin. Disse tchau para as pessoas na sala, tentando pela última vez chamar atenção de Jeongguk, mas ele nem sequer pareceu o escutar novamente, permanecendo com o olhar cabisbaixo. 

Ao fechar a porta, a única coisa que rondava a mente do menino de cabelos castanhos era Jeongguk e seu jeito estranho de ser. Taehyung nunca vira alguém assim na vida antes, e isso só o deixava ainda mais curioso para se aproximar e conhecer o menino.

 

Ele não desistiria tão fácil. 


 

As paredes da casa dos vizinhos novos de Jeongguk eram alegres e coloridas, com fotos e mais fotos por toda parte. Jeongguk via muitas delas com um casal e uma criança, às vezes uma senhora mais idosa estava junto a eles. 

Ao adentrar a casa realmente, ele reparou em como a senhora falava sem parar de sorrir e como seus pais respondiam com o mesmo entusiasmo, coisa que nunca vira antes acontecer em seu antigo orfanato. Por mais que já faziam quase 2 anos que saíra de lá, algumas memórias permaneciam frescas. A diferença de ambiente era explícita e mesmo preferindo mil vezes morar com seus pais adotivos, ainda não conseguia se sentir completamente à vontade com outras pessoas ao redor.

O jovem Jeon não sabe por quanto tempo ficou perdido em seus devaneios, mas ao ouvir Sungmin chamar sua atenção, ficou envergonhado por mais uma vez ter viajado nas ideias, como sempre diziam que ele fazia. 

Ele não queria estar ali, ficar perto de pessoas não o fazia bem. Pessoas não o fazia bem. As memórias vinham com uma força gigante que ele não conseguia de maneira alguma controlar. 

— Talvez só esteja cansado da mudança, voltaremos a nos falar em breve.

Ao ouvir essa frase seus olhos levantaram automaticamente, um sentimento estranho em seu peito. Franziu o cenho ao cruzar o olhar com o menino em sua frente. Era o menino da foto com toda a certeza. O menino que na foto tinha um pai e uma mãe que cuidaram dele e provavelmente o amou com toda força. Fechou o semblante, não aguentando tanta quentura que o outro passava. Ele sempre se deixava levar pelos pensamentos, sempre. Essa história de “nos falamos depois” é apenas mais uma mentira contada para ele, dentre muitas e muitas que já ouviu. 

Na mesa, enquanto tentava inutilmente comer o bolo que fora posto em sua frente, olhou de novo para o menino que o chamara tanto atenção, mesmo que ele jurasse o contrário. Ele saía pela porta carregando uma cesta, sorrindo e falando tchau para todos ali. Esse menino, Taehyung, ele emanava um calor mesmo estando de longe, até mesmo Jeongguk conseguia sentir isso, por mais que não entendesse como ele conseguia essa proeza. 

Por debaixo da mesa, Jeongguk tocou as mãos, colocando uma palma contra a outra.

Frias, elas estavam.

Tudo em Jeongguk era frio e sem vida. 

Sem cor.

 

Muito diferente de Taehyung com seu calor e suas paredes coloridas.

 

-x-

 

Todos os dias pela manhã uma das primeiras coisas que Taehyung fazia logo depois de se levantar era olhar pela janela de seu quarto. Estava tão ansioso para encontrar com o vizinho assim que soube que teriam pessoas reais morando ali, que nem mesmo o semblante fechado do menino mais novo o desanimava. Porém, toda vez era recebido pela janela do menino fechada, não importava a hora que ele colocava a cabeça para fora, ela permanecia intacta, como se ninguém abrigasse aquela casa. 

Por mais que tentasse se convencer de desistir, algo em si não deixava e ele continuava olhando fixamente para casa em todas as chances que tinha. Quando saía para a escola, quando voltava da escola, quando saía com Jimin. Até seu melhor amigo dizia que era para Taehyung parar de só olhar e ir fazer algo, mas Tae sabia que não seria tão simples assim. 

 

Um belo dia, não muito tempo depois, viu Jeongguk tirando o lixo no exato momento que voltava da escola. Um calor o tomou por completo e logo que o olhar do menino mais novo caiu sobre si ele acenou e sorriu, como normalmente se faz com pessoas conhecidas. Não foi de seu espanto perceber que fora completamente ignorado. Taehyung apenas deu de ombros enquanto o menino correu para dentro de casa.

No dia seguinte o mesmo se repetiu. E no outro. E no outro. Cada mínima tentativa indo de mal a pior, mas nunca desanimando Taehyung. Sabia que não forçaria o menino a nada, não queria se aproximar sem permissão ou pelo menos qualquer sinal de que Jeongguk o queria por perto. Então ele continuava tentando, dia após dia toda vez que via o menino no jardim dos fundos ou pegando correspondências ou jogando o lixo.

Ele acenava, sorria e até o chamava, perguntando como tinha sido seu dia. 

 

Até que depois de um tempo Jeongguk não apareceu mais.  


 

Era estranho, pensava Jeongguk. O que estava acontecendo com seu estômago? Provavelmente comeu rápido demais ou até mesmo consumiu alguma coisa estragada. Mas não era apenas seu estômago que agia estranho, não. Seu coração também. Ele acelerava, e não era de raiva ou tristeza ou desespero, como sempre era. Ah, e também tinha algo específico para isso acontecer, não era a qualquer hora não. Era quando ele ia tirar o lixo, e também quando pegava a correspondência. Ele apertava as mãos em sua barriga, parecia que tinham umas mil borboletas e ele não conseguia compreender o que estava acontecendo. 

Será que tinha a ver com o menino que acenava todas as vezes quando o via? Jeongguk passou a ajudar seus pais quando mudou-se para Busan, ele já fazia algumas coisas na outra casa, mas essa por ser maior precisava de alguma atenção, e já que não conseguia ainda estudar ou arrumar um trabalho, ficava em casa e fazia alguns afazeres ali. 

Ao pegar a correspondência um dia, ouviu:

— Hey, Jeongguk, tudo bem? Como foi seu dia? — Era Taehyung e seu aceno incansável de sorriso aberto. Claro que Jeongguk ignorou, ele não se sentia bem perto do menino. Apenas saiu correndo segurando as cartas em seu peito acelerado. 

Por dentro, uma bagunça. Por fora, um olhar calmo e sem emoção. Jeongguk sentia, mas não conseguia demonstrar. Ele sabia o que era raiva, sim. Tristeza, ele sabia muito  bem também. 

Mas essas borboletas no estômago? Ele não fazia ideia do que tinha acontecido para elas estarem ali.


 

O céu azul cheio de sol era o ânimo que faltava para aquela bela segunda-feira. Por mais que Jimin estivesse puto por ter que acordar cedo, toda a animação de Taehyung passava para si, era impossível resistir ao menino.

— Quase um mês de aula, Chim. Passou tão rápido não é? — Ambos caminhavam para o campus, carregando suas mochilas nas costas. Taehyung levava a pasta grande de desenhos nas mãos, já que segundas eram dias de aulas práticas. Talvez seja esse o motivo de tanta animação. A brisa morna bagunçava as madeixas marrons de Taehyung.

— Sim, Tae! Eu pisquei e, baam, um mês de aulas se passaram. Logo mais chegam as provas bimestrais e aí a gente senta e chora. 

— Relaxa, Chim, você é muito inteligente. — Os portões da faculdade já podiam ser vistos ao longe. — E você tem aquele seu… amigo… para ajudar. — A pausa dramática na palavra “amigo” fez Jimin revirar os olhos. 

— Tae-ah! Yoongi é só amigo mesmo, eu te juro de dedinho. 

— Aham. Tá bom. Eu vou fingir que acredito que toda vez que você fala nele suas bochechas não ficam vermelhas. — Taehyung levou a mão que estava vazia até as tais bochechas fofas de Jimin, dando um leve aperto. 

Aish, Tae! Não fala assim que fico com vergonha — Jimin escondeu o rosto nas mãos, forçando o amigo a se distanciar um pouco de si. — Vamos mudar de assunto, me conte você. Como anda o vizinho?

Ao mencionar o menino de olhos cinzas, o sorriso que antes adornava o belo rosto de Taehyung sumira. 

— Eu não o vejo faz tempo, Chim. — Taehyung contou brevemente para Jimin como foi o primeiro encontro com o menino Jeongguk e sobre todas as pequenas tentativas que vieram depois.

— Mas você não foi falar com ele? Se ele é tão tímido que nem conseguiu olhar na sua cara, Tae… Talvez você tivesse que ir até ele. 

— N-não sei, Minnie. Ele não me pareceu muito feliz em estar ali. — A conversa fluía tão fácil que mal perceberam quando entraram no campus, os dois seguindo o mesmo caminho para os armários. 

— Mas você é Kim Taehyung, oras! O sol que ilumina a vida de todos. — disse Jimin, cutucando seu amigo com o braço. — Você não vai nem tentar? Mesmo?

Taehyung respirou fundo, não sabendo o que responder para o amigo. 

— Chim, Minnie, meu soulmate eterno, eu não sei o que fazer! — estava bem claro para ambos que fazer amizade com Jeongguk era algo que Taehyung queria muito, só faltava um pequeno empurrão para isso acontecer.

— Eu sei que você fez todos aqueles sinais estranhos quando via ele e tudo mais, mas Tae! Você tem que tentar falar com ele. Sabe? Falar mesmo.

— E se der errado?

— Pelo menos você tentou — segurou as duas mãos do melhor amigo. — E você pode ter certeza de que eu vou estar do seu lado sempre, não importa o que aconteça, né?

 

Era tudo o que Taehyung precisava ouvir.


 

Se era a pior decisão que Taehyung já tomara na vida, não sabia, mas por enquanto estava sendo uma das piores. 

Taehyung estava parado na porta de Jeongguk, os pés em cima do carpete limpinho recém colocado ali. Os dedos nervosos brincavam entre si, esperando um sinal do universo para saber qual seria o melhor momento para tocar a campainha. O céu azul de verão, o sol se pondo, o dia estava exatamente do jeito que Taehyung gostava, mas nem isso acalmava o coração acelerado do menino. 

— Vamos, Tae. Jimin está certo, você precisa pelo menos tentar. — respirou fundo pelo que parecia ser a décima vez e tocou a campainha. 

Pode ouvir alguns passos vindo do lado de dentro da casa, deixando-o ainda mais inquieto, até mesmo mordia os lábios tamanha ansiedade, até que a chave foi ouvida do outro lado da porta. Não sabia se um dos pais do menino o atenderia, esperava que sim, pelo menos o começo da conversa seria mais ameno, mais amigável. Porém, a sorte não estava afim de ajudar Taehyung. 

Por uma pequena fresta que foi aberta na porta, Taehyung conseguia ver apenas metade do rosto do menino. Segurou a respiração, abrindo seu melhor sorriso para o outro. 

— Oi, Jeongguk! — disse simpático — Se lembra de mim, não é? Sou Taehyung, da casa ao lado. — por um instante nada era ouvido, nem mesmo o barulho do vento fraco que pareceu parar para ouvir a conversa mais inusitada do ano. — E-eu… Eu vim aqui te ver e… — não sabia como continuar a conversa, sendo que o menino morador da casa mantinha-se mudo, sem mover um músculo sequer. 

— Okay… O que veio fazer aqui? — Era como se nada do que tivesse falado até agora fosse absorvido pelo outro. Teria que tentar de outro jeito. 

— Eu… Eu vim aqui porque seu pai, Kyuhyun, me pediu para passar e falar com você. — Ao ouvir tais palavras, Jeongguk fechou a cara. Era uma mentira até que cabível pela única conversa que Taehyung trocou com o pai do menino no outro dia em sua casa.

— Sério? Ele não me disse nada. — Nas poucas palavras que foram proferidas pelo menino, Taehyung percebeu como a voz saia baixa, como se ele tivesse medo de falar. O corpo se mantinha firme atrás da porta de madeira, como uma proteção.

— Sim! Ele me pediu para passar aqui e conversar com você. — Já que provavelmente seria pego na mentira, iria ao menos tentar. 

Ainda ressabiado, Jeongguk abriu a porta por completo, mas sem fazer menção para o menino entrar ou qualquer coisa do tipo. Se foi seu pai quem pediu, deveria ser algo bom. Ou pelo menos não tão ruim. 

— ‘Tá, sobre o que quer falar? — disse Jeongguk. Os olhos de Taehyung se arregalaram com o rumo que a conversa estava tomando, ele tinha pelo menos aceitado conversar consigo e isso já era algo muito bom.

— Vamos… Vamos nos conhecer. Tipo... Meu nome é Kim Taehyung e eu tenho 22 anos. Agora é sua vez. — esticou a mão para o outro apertar, mesmo tendo grandes chances disso não acontecer. Levou um susto, então, quando sentiu a pele gelada tocar a sua morninha. Jeongguk segurava a sua mão como em um cumprimento, levantando o olhar e o encarando. 

— Meu nome é Jeon Jeongguk, eu tenho 20 anos. 

— Isso! Muito bom! — comemorou sem jeito, largando a mão do menino depois de balançar algumas vezes. — Eu poderia entrar? Assim a gente conversa mais e…

— Não! — Como se levasse um choque, Jeongguk foi para trás da porta novamente. 

— Desculpa, desculpa, Jeongguk, não quis te assustar. — levantou as mãos até a altura do peito, fazendo um sinal de calma para o outro. — Eu só… eu só quero te conhecer melhor, já que vamos ser vizinhos, poderíamos ser amigos. Assim como seus amigos que tinha onde morava.

— Amigos? Eu não tinha nenhum amigo. — Tal frase foi proferida com tanta naturalidade que deveria assustar Taehyung muito mais do que realmente o assustou.  

— Não? Você não tinha amigos em Seul? — Conseguiu ouvir por cima a conversa daquele dia em sua casa, os pais de Jeongguk contaram que eles vieram de Seul para Busan em busca de mais qualidade de vida. 

— Não, eu nunca tive amigos. — O coração de Taehyung errou uma batida. Como assim ele não tinha amigos? 

— Então… — Estava sem palavras, mas não podia deixar seu estado de choque tomar conta da situação. — Então podemos ser amigos, eu serei seu primeiro amigo, o que acha?

Taehyung percebeu quando Jeongguk se encolheu um pouco mais, parecendo ficar menor atrás da porta, como um cãozinho indefeso. O olhar novamente perdido procurava algo no chão que nunca acharia ali. 

— Hey, Jeongguk, olha para mim.

— Não… Não, eu não quero. — Ia fechar a porta na cara de Taehyung, ele iria fazer isso. — Obrigado por passar aqui, mesmo. Eu aviso meu pai que você fez como ele pediu, mas eu não quero. 

— Jeongguk!

— Eu não quero! — gritou o menino mais novo, assustando Taehyung. — Eu não quero, eu não preciso de amigos! — A voz alterada só mostrava o quão quebrado ele estava por dentro, porque por mais alto que ele falasse, os olhos ainda eram apáticos e sem vida. A agressividade sendo o único mecanismo de defesa do outro. 

— Tudo bem, tudo bem. Eu… Eu vou embora. — Taehyung se manteve calmo, não deixando com o que pequeno surto do outro o afetasse, deixaria tudo pior se o fizesse. 

Os dois se olharam por um momento. Taehyung ainda sem palavras começou a se afastar, descendo vagarosamente os degraus, andando sem nem olhar para trás.

 

Ao chegar em casa depois da falha tentativa de falar com Jeongguk, Taehyung correu e se trancou no quarto, avisando para sua avó que iria estudar. Mas a verdade era que ele não conseguia tirar o menino da cabeça de jeito nenhum. Os olhos cinzas e tristes, a voz fraca e trêmula. Não conhecia muito do menino, na verdade não conhecia nada! Ele apenas sabia seu nome, sua idade, que vinha da cidade grande e que não tinha amigos. E essa última parte em especial foi o que perturbou seu coração. 

Tae deu uma olhada para fora, a luz que provavelmente era do quarto do menino estava acesa. Suspirou alto, abraçando o travesseiro como costumava fazer todas as noites antes de dormir. 

— Por que você não deixa eu me aproximar de você, Jeongguk? — disse em voz alta. — Por que esse estranho aperto no peito quando penso nisso?


 

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O relógio marcava 2h45 da manhã quando Jeongguk acordou banhado em suor, os olhos amedrontados e o coração acelerado por conta de mais um pesadelo. Quase toda noite ele tinha algum. Às vezes o pesadelo era em forma de um quarto que o lembrava muito do quartinho da vergonha, outras era apenas uma voz que o amedrontava, aquela voz que o xingava sempre que podia. O terror que passou naquele orfanato deixando resquícios ainda vívidos, mesmo depois de 2 anos que fora adotado por seus pais. Estes que faziam tudo por si, davam todo o apoio e mesmo assim Jeongguk não conseguia melhorar. A vontade de chorar o abateu com força junto com a falta de ar. 

Ele precisava sair, precisava respirar.

Desceu degrau por degrau sem fazer um barulho sequer, a mão na boca para não escapar nenhum soluço de choro que já não conseguia mais segurar. Abriu a porta dos fundos, que ficava na cozinha e dava direto para o jardim que tinha ali. Por mais que em seu pesadelo a chuva caia forte, violenta como chicotadas, na realidade o céu de verão estava límpido e estrelado. Colocou as mãos no peito, sentindo o forte palpitar do coração em pânico, as lágrimas caindo como uma cachoeira de tristeza. Não segurou mais e chorou, chorou como nunca antes. Alguma coisa dentro de si doía muito, o abandono, a solidão, a raiva. Tudo doía e Jeongguk chorava alto, sem se importar muito, já que o quarto dos pais dava a rua.

 

Porém, o choro quase silencioso e desesperador foi ouvido pelo menino na casa do lado, que não conseguia pegar no sono por nada no mundo e estava acordado lendo um livro. Na calada da noite qualquer barulho virava grito, então, quando ouviu um choro sôfrego vindo da casa ao lado não exitou em levantar e sair correndo para o jardim.

Assim que chegou em seu jardim, rezando para não ter acordado sua avó, Taehyung não pensou duas vezes ao pular a pequena cerca que separava as casas, avistando com facilidade o menino ajoelhado no meio do jardim. Recuou um pouco, olhando assustado para a cena diante de seus olhos. 

O menino chorava com tanta dor, quase podendo sentir ele mesmo. 

— Jeongguk — disse fraco, com medo da reação do outro. 

Ao ouvir ser chamado, Jeongguk levantou os olhos vermelhos de tanto chorar. Não conseguia raciocinar direito, não conseguia pensar em reagir como sempre reagiria. Ele só queria alguém para dizer que vai ficar tudo bem. Sem forças para mais nada apenas chorou. Taehyung se aproximou com calma, ajoelhando na frente do menino. 

— O que que houve? — Temia encostar no outro e a reação ser exacerbada assim como dias antes. — Jeongguk, fala comigo. — Taehyung sentia os próprios olhos encherem de lágrimas. Como pode sentir tanto a dor do outro sem nem mesmo conhecê-lo? 

— Eu… Eu… — tentou dizer Jeongguk, sem sucesso. — Não sei… Tae… 

E mais uma vez naquela noite Taehyung agiu sem pensar, já que no segundo seguinte estava contornando o frágil corpo de Jeongguk com os braços, dando um leve aperto. Ele precisava perceber que não estava sozinho e que por mais que o mais novo não quisesse, Taehyung estaria com ele. 

Kim Taehyung jurava que passaram-se horas desde que abraçou o menino, mas foram apenas alguns minutos até que o choro desesperado de Jeon passasse a ser apenas suspiros entrecortados. As mãos de Tae passeavam pelas costas em um leve carinho, já as de Jeongguk agarraram na blusa do vizinho não querendo soltar mais. 

— Quando quiser falar, estou aqui. Quer dizer… Se quiser falar, senão a gente pode só ficar aqui abraçadinhos que já está bom. — riu levemente, tentando passar para o menino quase em seu colo que estava tudo bem. 

— Desculpa, Taehyung. 

— Desculpa, por quê?

— Por chorar assim, devo ter te acordado. — O rosto de Jeongguk ainda estava enterrado no pescoço de Taehyung, mas ele não ligava, apenas queria que o menino continuasse a falar. 

— Não me acordou, eu estava lendo sem conseguir dormir — O carinho nas costas do mais novo não cessou enquanto falava. — Eu ouvi alguém chorar e por algum motivo sabia que era você e saí correndo para cá. 

— Por quê?

— Por que o quê?

— Por que sabia que era eu e por que veio correndo?

Essa pergunta nem mesmo Taehyung saberia responder. Agiu por impulso, talvez? Era uma pessoa muito boa e não gostava de ver alguém chorando? Sim, isso era verdade. Mas seu coração batia em outro ritmo.

— Não sei, apenas sabia — cheirou os cabelos sedosos do menino em um impulso que passou despercebido por ambos. — Aish, não faça perguntas difíceis. Agora me diz, por que estava chorando? 

Jeongguk levantou a cabeça, soltando os braços da camiseta de dormir que o outro vestia. 

— Eu tive um pesadelo, Taehyung. Eu sempre tenho pesadelos. — O medo de encarar o mais velho nos olhos estava passando, não sabia se era por tanta insistência do outro para falar consigo, ou se era porque as borboletas em seu estômago apenas diziam que era o certo. — Eu… Eu não sou uma pessoa normal.

— Não fale assim, Jeon! Porque no caso eu também não sou normal. — esticou as mãos para tocar a pele macia do rosto de Jeon, mas ele se afastou antes que Taehyung conseguisse. — Quer dizer, ninguém é normal. Então não se preocupe. 

Jeongguk olhou ressabiado, não acreditando muito nas palavras do outro, já que ouvira a vida toda que não era normal, que não merecia ter família ou amigos. 

— Eu tive um pesadelo com a chuva e com o quartinho da vergonha — disse, desviando o olhar de Taehyung. — Eu estava preso, não conseguia sair. A chuva caía tão forte que machucava, machucava que nem ela me machucava, Tae! 

Taehyung não deixou passar despercebido o apelido que o outro usou pela primeira vez, mas não ousou interromper. Jeongguk nunca chegou a falar tanto assim perto de si. 

— E eu só queria correr e correr, porque tudo doía. As vozes gritavam e a chuva machucava meus ouvidos. — Tudo o que Jeongguk contava era em um tom monótono, como se tivesse falando o que fizera na semana passada. Taehyung segurou as mãos do menino, que começavam a ficar afoitas. — Aí eu acordei e vim para fora, eu… Eu precisava de ar e chorar, hyung. Eu precisava… 

— Tudo bem, Gukkie. Não precisa se explicar — Voltou a olhar para o menino, chamando atenção dele para si. Jeongguk começou a ficar mais afoito do que estava. Relembrar o sonho não deve ter feito bem para ele. — Eu preciso que você respire junto comigo. Pode fazer isso?

— S-sim — fixou os olhos nos de Taehyung, focando na respiração calma que o menino fazia. A repetição saia um pouco tremida por conta do coração ainda afoito, mas a mente já conseguia voltar para o lugar. 

 

Alguns minutos se passaram até que Jeongguk se acalmasse por completo. 

 

— Eu não sei nada sobre você, Jeon. Eu apenas sei o seu nome e sua idade que você me contou aquele dia. — Ambos estavam sentados um de frente para o outro, apenas deixando o céu lotado de estrelas observá-los. — Eu não quero que pense que está sozinho, por mais que você ache isso, você não está. 

Taehyung era ótimo em ler pessoas, sempre foi. Mas não tinha o mesmo sucesso com Jeon Jeongguk. O rosto do mais novo mantinha-se impassível enquanto ouvia atentamente tudo o que tinha para falar. Assim que terminou, aguardou uma resposta que sabia que não viria. Então, levantou-se com calma deixou um leve selar na testa do menino. 

— Boa noite, Jeongguk. Espero que consiga ter uma boa noite de sono — Antes de começar a andar, olhou novamente para o menino ainda sentado no chão. — Quer dizer, o que resta dela, né? 

 

As costas de Taehyung era a única coisa que conseguia ver ao longe enquanto levava a própria mão a testa, onde minutos antes os lábios cheios do mais velho se encontravam.

 

Por que o pobre coração e Jeongguk batia tão rápido?



 

Vir para Busan nunca foi uma vontade real de Jeongguk, não que gostasse de Seul, muito pelo contrário, a cidade lotada deixava sua mente ainda mais atordoada. Lá ele não conseguiu nem sequer terminar os estudos do Ensino Médio. Aqui ele teria uma nova chance de recomeçar, por mais que não acreditasse que seria capaz. A casa em Busan era tudo o que ele sempre sonhou para si, tudo o que jurava que não conseguiria ter. A mente de Jeongguk era sua pior inimiga. 

Ser adotado por Kyuhyun e Sungmin foi a única coisa boa que lhe aconteceu, pelo menos é assim que pensava. No começo, quando conheceu os dois, não queria aceitar a proposta, nem mesmo sabendo que a Sra Jang queria mais do que tudo se livrar dele. A vida nunca fora boa para Jeongguk, nunca seria. Mas, por um impulso que vinha de dentro de si acabou aceitando Kyu e Min como seus pais. 

Tiveram dois anos para tentar a vida na cidade grande, mas a empresa para qual Kyuhyun trabalhava o ofereceu uma vaga de emprego ótima que não tinha como ele recusar. Quando foi questionado sobre a mudança, Jeongguk não soube o que responder. Seus pais tentavam conversar consigo todos os dias, mas sem muito sucesso e Jeongguk jurava, jurava de dedinho mindinho que tentava, mas os fantasmas dentro de si o calavam, deixando apenas algumas palavras escapar. 

 

— Estamos pensando em te matricular no último ano do Ensino Médio assim que começar o ano letivo, o que acha, querido? — Era Sungmin quem falava, terminando de colocar a mesa do jantar. Kyuhyun pegava os pratos e talheres, ajudando o marido nessa tarefa. Jeongguk já estava sentado em seu lugar, apenas esperando a comida chegar. Olhou para seus pais com um semblante bravo. 

— Não sei se quero estudar. 

— Mas, querido, você precisa, é para seu bem. — disse Kyuhyun. — Você pode começar com algum professor particular se preferir. 

— É uma ótima ideia, amor. — disse Sungmin. — O menino vizinho, como é mesmo o nome dele?

— Kim Taehyung — respondeu Jeongguk no mesmo instante, assustando os dois homens a sua frente.

— Isso… Kim Taehyung. Ele poderia te ajudar, o que acha? 

Os fantasmas presentes em sua mente berravam não, porém o coração acalentado de Jeongguk gritava sim. Isso nunca o aconteceu antes, sempre escutava o que a mente dizia, o coração ficava sempre de lado. Por que, de repente, o coração começou a falar? 

Percebendo o silêncio que reinou naquela sala de jantar, Sungmin resolveu mudar de assunto. 

— Bem… Podemos falar disso outra hora, sim? — colocava com cuidado a comida nos pratos. — O que achou do jogo novo que comprei para você? — Ao ouvir seu pai perguntar isso, um resquício de sorriso apareceu em seus lábios. 

— Eu gostei, pai. Muito obrigado. 

— Espero ter acertado, era aquele mesmo que queria? 

— Sim, era sim. Obrigado de verdade. — Jeongguk era sempre muito grato pelos bens materiais que seus pais lhe davam. Para alguém que nunca tivera nada na vida, qualquer coisa que ganhava o enchia de vida. 

E assim o jantar passou, Kyuhyun e Sungmin trocando olhares secretos enquanto seu filho, por algum motivo não conhecido por ninguém ali, começou a falar como seria legal jogar Overwatch com Taehyung. 


 

Durante uma semana Kim Taehyung passou na casa de Jeongguk para ver como o menino estava. No começo as conversas eram rápidas e não passavam do básico de uma conversa tipo de elevador. Com o passar dos dias a evolução começou a ficar um pouco mais nítida, principalmente quando Taehyung foi convidado a se sentar na escada. Achou uma graça como Jeongguk ficou vermelho ao perceber o que tinha acabado de dizer. 

— Por que está rindo? — era o mais novo que perguntava, um bico desconhecido por Taehyung aparecendo nos lábios carnudos.Assim que ele fez a tão inesperada pergunta “quer se sentar aqui na escada!!!!!”, os olhinhos de jabuticaba de Jeongguk se arregalaram espantados. Ele mesmo ficou assustado com o que disse. 

— Por nada — disse Taehyung, dando de ombros. — Eu achei uma graça você me convidando para sentar na escada. Isso foi um avanço, Jeon. 

Aish, Tae! — a cada Tae proferido por Jeon, o coração do mais velho se derretia. Taehyung forçava a acreditar que isso só acontecia por estar finalmente conseguindo o que tanto queria, que no caso era ter a amizade de Jeongguk. Era exatamente isso que Taehyung pensava. — Não fiz nada de errado, fiz?

— Claro que não, mas é que eu não esperava você me convidar para sentar. — Taehyung achava graça demais na situação. O que normalmente é algo bobo e trivial, com Jeongguk ganha outro sentido. 

— Então nem vou te chamar para jogar Overwatch comigo, senão você morre, hyung.

— Você disse Overwatch?

— Sim! Meu pai comprou para mim ontem e eu pensei em jogar com você — A sombra de um sorriso podia ser visto nos lábios de Jeongguk enquanto falava. — S-se você quiser, claro. 

O espanto do Kim era nítido como água cristalina. Quem era aquele menino e o que fez com o Jeongguk que conheceu a pouco mais de um mês? Abriu um largo sorriso, apenas respondendo:

— Claro, claro! Eu tenho esse jogo no meu computador, podemos jogar juntos. Eu trago meu computador ‘pra sua casa e a gente joga, que tal?

— Isso seria ótimo, Tae! 

 

Se Kim Taehyung dissesse que passou quase duas horas sentados do lado do menino Jeon jogando Overwatch, nem ele mesmo acreditaria. Claro que era perceptível a falta de jeito que Jeongguk tinha com as pessoas, ele ficava nervoso com pequenas coisas, como por exemplo esbarrar no pé de Taehyung. Os sorrisos não eram tão constantes, parecia que ele estava sempre em estado de alerta e os músculos tensos. Lançava olhares assustados para a porta caso algum barulho de fora fosse ouvido, mas Jeongguk estava se divertindo. Taehyung conseguia sentir isso em alguns detalhes que a mente sempre vigilante do outro deixava escapar, um leve sorriso quando ganhavam, os hyung e Tae que o outro dizia sem perceber. 

 

E para Taehyung isso já estava de bom tamanho.     



 

Um pouco antes do jantar a campainha da casa dos Kim tocou inesperadamente, assustando o pobre Taehyung que estava largado no sofá assistindo televisão. 

— Sabe quem é, halmeoni? — esperou até a senhora, que estava no outro sofá da sala responder sonolentamente. 

— Não, meu filho. Se importa de ver para a ‘vó quem é?

— Claro, claro. — Antes de se levantar, gritou. — Já vai! 

Olhou pelo olho mágico e se deparou com Sungmin na porta, abrindo-a para seu vizinho logo em seguida.

— Olá, Taehyung, que bom te ver aqui. — disse o homem parado do lado de fora da porta. — Espero não ter vindo em um horário ruim.

— Não, claro que não, Sungmin-ssi. — deu espaço para que o homem entrasse em sua casa. — Fique à vontade, estávamos só assistindo televisão antes do jantar. 

— Obrigado. 

Sua avó cumprimentou o visitante, logo o convidando para o jantar. Sungmin sabia que não seria de bom tom recusar, já que infelizmente não pensou bem no horário que viria a casa dos vizinhos. 

— O que te trás aqui, querido Sungmin? Veio apenas comer a melhor comida do bairro? — Taehyung riu quando sua avó se dirigiu a Sungmin. Ela realmente sabia cozinhar como ninguém.

— Não mesmo, minha querida. — disse Sungmin, rindo da situação. — Apenas dei sorte. Eu vim aqui conversar com Taehyung.

— Comigo? — disse Tae, espantado. Teve medo de Sungmin ter visto o que aconteceu com Jeongguk aquela outra noite, ou até mesmo pedir educadamente que o menino parasse de visitar Jeongguk. 

A preocupação aparente estava estampada em seu rosto, Sungmin balançando as mãos em negação para qualquer que fosse a besteira que Taehyung estava pensando.

— Sim, mas não se preocupe, não é nada sério. Eu vim aqui te pedir um favor, na verdade. 

— Oh, um favor? Claro, pode pedir. 

— Vamos colocar a comida na mesa e então conversamos, que tal? — A senhora interrompeu a conversa educadamente, logo fazendo com que os dois a ajudassem com a tarefa. 

Minutos depois a conversa pode ser retomada, quando os pratos já estavam cheios e os três comiam alegres a melhor comida do bairro. 

— Então, como eu estava dizendo antes, o favor. — Sungmin retomou a conversa. — Claro que eu vou te remunerar de algum jeito, mas eu acho que você seria ideal para fazer isso. 

Taehyung já era ansioso por natureza e toda essa demora estava deixando-o ainda mais ansioso. 

— E o que seria? 

— Eu vim te pedir para ser o professor de Jeongguk. — disse Sungmin. — Eu e Kyuhyun estávamos pensando nisso outro dia, de Jeongguk voltar a estudar — fez uma pequena pausa. — Mas… ele ainda não está pronto. 

Depois do que viu aquele dia, Taehyung entendia que o menino ainda não estava pronto. Todas as interações deles eram cautelosas, não conseguia imaginar o mais novo em uma sala de aula com pelo menos mais 20 pessoas consigo. 

— Sério? Eu… Mas… Eu não sei… — balbuciou Tae. Nunca tinha ensinado alguém antes, não sabia se tinha jeito para a coisa, ou se conseguiria. 

— Sim, Tae. Você seria ótimo. — sorriu Sungmin. — Não precisa ensinar nada muito complexo, apenas o básico do que você aprendeu no último ano do Ensino Médio. — pousou o garfo na mesa e voltou a falar. — Eu não sei se você sabe, Tae, mas Jeongguk teve uma vida muito difícil antes de adotarmos, e ele não conseguiu concluir o último ano. 

— Eu sei… Quer dizer, ele não me contou, mas eu consigo entender um pouco. 

— Então, ele ainda está se acostumando com essa vida nova, vamos dizer assim. E eu sei que ele confia em você, de alguma forma. — Sungmin o olhava ….. — Você pode não reparar, mas as suas visitas tem feito um bem danado para ele.

— Sério? — Foi então que o coração de Taehyung se encheu de alegria. — Mas a gente quase não se fala… Nós jogamos video game outro dia. 

— E ele não parou de falar nisso… Quer dizer, ele comentou sobre  isso no jantar, e acredite quando eu te falo, isso significa algo. 

Taehyung não conseguia esconder o sorriso que crescia em seu rosto.

— Eu fico muito feliz de saber, Sungmin-ssi. — Mesmo sentado na mesa, fez uma pequena reverência.

— E então, aceita minha proposta? 

— Sim, eu aceito. 


 

Falar que Kim Taehyung estava nervoso era a maior mentira do universo. Ele estava muito nervoso. 

Os livros e cadernos que usou no último ano do Ensino Médio estavam abertos em cima da mesa de jantar da casa de Kyuhyun e Sungmin; as canetas espalhadas por todo lugar enquanto Jeongguk escrevia algo que Tae tinha acabado de falar em seu caderno. 

Sungmin tinha razão, Jeongguk era muito inteligente e esperto. Algumas vezes conseguia se distrair com coisas desnecessárias, como por exemplo uma mosca pousando em cima do copo, mas fora isso ele era muito fácil de ensinar. Na maior parte do tempo o menino mais novo se mantinha calado, apenas ouvindo a explicação que Taehyung falava, os olhos seguiam os lábios carnudinhos do outro. Quando Jeongguk percebia tal ato, corava e desviava o olhar, mas Taehyung estava tão envolvido com a aula que esse pequeno detalhe passava despercebido. 

 

Literatura, artes e até mesmo matemática foram temas das aulas semanais que tinham, Jeongguk cada vez mais, aos poucos, se abrindo com o vizinho. Cada pequeno gesto de melhora na relação dos dois era motivo de comemoração para Taehyung. 

 

— Então quer dizer que aqui eu tenho que achar o “x”? — perguntou Jeongguk, em mais um dia de aula com Taehyung. — Como chama isso mesmo, Tae? 

— Chama equação de 2º grau, Gukkie. Não é tão complicado se você fizer assim. — puxou levemente o caderno, pegando o lápis da mão de Jeongguk, exemplificando o melhor método de resolver o problema. 

Antes Jeongguk fazia questão de sentar de frente para Taehyung, mantendo uma certa distância entre ele e seu professor. Antes Jeongguk mal olhava para Tae enquanto ele falava apaixonadamente sobre Van Gogh, preferindo verter os olhos para seu caderno e suas anotações. 

Agora Jeongguk não fazia questão da distância, colocava a cadeira ao lado de Taehyung e isso não o incomodava tanto quanto antes. Agora Jeongguk prestava atenção em cada palavra que Taehyung falava, só se distraindo um pouco pelos lábios que se moviam tão graciosamente. 

— Não é tão difícil mesmo, hyung. — sorriu ao, finalmente, entender como se resolvia aquele problema de matemática. Não era uma matéria tão difícil quando achou que fosse. Tudo ficava mais simples quando Taehyung explicava.

— Viu? Eu te disse. — Taehyung levantou e esticou os braços, alongando-se depois de tanto tempo sentado. 

Os olhos de Jeongguk seguiram pelo corpo alongado de Taehyung, coisa que nunca tinha reparado no outro antes. Na verdade, nunca tinha reparado em ninguém antes. Mordeu os lábios, rezando para não ser pego vagando os olhos pelo corpo alheio. 

— Obrigado mesmo, hyung, por ter a paciência de me ensinar. — disse Jeongguk, levantando de onde estava e abraçando Taehyung. 

— P-por nada. — respondeu Taehyung, atônito pelo ato inesperado. 

 

Ter aceitado a proposta de Sungmin estava sendo melhor do que esperava. 


 

-x-


 

O primeiro semestre da faculdade estava sendo tudo o que Taehyung sonhava que seria e muito mais, mesmo com os textos gigantes que tinha que ler de um dia para o outro, os trabalhos que começavam a tomar mais parte do seu dia do que os que tinha que fazer no colegial. Taehyung não ligava, ele estava amando cada segundo. Por enquanto conseguia achar tempo para tudo, até mesmo para as aulas particulares que dava para Jeongguk. Na verdade esses momentos eram os seus preferidos do dia. 

A cafeteria da faculdade não estava lotada como de costume, ele e Jimin conseguiram achar um ótimo lugar para sentar e comer o que trouxeram de casa tranquilamente. 

Claro que já não eram mais colegiais bobos que se importavam muito com “melhor lugar” da cantina como antes, mas esse, em especial, estava muito bom, principalmente para Jimin. 

— A visão está boa aí, né Minnie? — perguntava Taehyung, o tom de deboche transbordando de suas palavras. — Consegue enxergar muito bem o time de basquete.

— Cala a boca, TaeTae. — Por mais que mandava o melhor amigo se aquietar, não desgrudava os olhos da quadra. 

— Como pode um ser tão baixinho quanto Yoongi ser do time…

— Não!

— … de basquete! Ele é praticamente…

— Calado!

— … um anão!

— Taehyung! — Jimin desgrudou os olhos da quadra por um instante, olhando o mais bravo que conseguia para Tae. 

— Você sabe que o máximo que consegue parecer é um gatinho ‘brabo né? 

— Eu te odeio, Tae. — Sabia que o Kim só queria o importunar a vida, por isso voltou a prestar atenção em Yoongi, era algo que merecia muito mais a sua atenção. 

— Quando você vai admitir que está gostando dele?

— Eu não estou gostando dele!

— Claro, claro… Você escolhe o lugar estratégico da cantina que tem a exata e perfeita visão da quadra onde a única pessoa treinando é Yoongi; você fala nele todos os dias, você já me disse que acha ele bonito e… Quer que eu continue, tem mais!

Tae-ah~~ Eu… Eu não sei! — virou-se para frente, os olhos marejados e tristonhos. Não era bem essa reação que Taehyung queria do amigo. — Eu não posso gostar dele! E você sabe disso. 

— Chim… Não tem nada a ver isso! Por quê? — perguntou realmente preocupado. Taehyung sabia quando o assunto estava ficando sério. 

— Por que ele não vai me querer, Tae. — disse Jimin, segurando o choro. Seria muito bobo de sua parte chorar no meio da faculdade. 

— Isso é um mentira! Você é incrível e…

— Tae, por favor, vamos mudar de assunto… Por favor? 

Mesmo sem conseguir entender o motivo de mais uma vez Jimin não dar continuidade ao assunto, Taehyung parou de falar. Sempre fora muito aberto nesses assuntos de  gostar das pessoas com Jimin, eles se conheciam há tempos, afinal. Jimin sempre brincava e falava alegremente, porém dessa vez estava sendo diferente e Taehyung iria respeitar. 

— Eu te disse que estou dando aulas particulares para Jeongguk? — Sabia que mudar para o assunto Jeongguk animaria um pouco mais o clima. Jimin, mesmo sem conhecer o menino, já o adorava. 

— Mentira! Sério? — perguntou Jimin, abismado. As lágrimas que estavam prestes a cair logo esquecidas. — E como foi?

— Foi… estranhamente legal. — Não sabia ao certo como descrever o que sentiu por estar tão perto do menino quase todos os dias, mas era o mais próximo que conseguia chegar.

— Viu, Tae! Eu disse que ia dar certo, ninguém consegue resistir ao charme de Kim Taehyung. — disse Jimin rindo. 

— Aish, menino! Não fala besteira. — deu um leve peteleco na testa do amigo. — Mas, mudando de assunto mais uma vez…

— Por que nós não queremos falar de crushes, claro.

— Exatamente por isso. — disse Taehyung, sem nem mesmo pensar no que dizia.

— Então você assume que tem mesmo um crush no menino Jeon? 

— O que? Não, claro que não! — disse o Kim, quase deixando derramar o suco que estava tomando. —  Enfim… Mudando de assunto de novo… Você vai em casa hoje para me ajudar né? Preciso desenhar um rosto e eu quero te desenhar, não aceito não como resposta.

— Claro que vou, Tae. Já estava combinado. — Jimin sendo o menino sapeca que era, não deixaria essa oportunidade passar em branco. — Se bem que eu ainda acho que você poderia desenhar o Jeon. 

Aish! Você não tem jeito mesmo, Chim!


 

Mesmo quando Taehyung não estava junto consigo, Jeongguk continuava estudando o material que o mais velho deixou com ele. Uma das coisas que Jeon percebeu foi que quando estava focado nos estudos os fantasmas de sua mente o deixava em paz, e as memórias que o assombravam até mesmo de dia não apareciam com tanta frequência. 

Outra coisa que o fazia estudar era Taehyung. Percebeu como o mais velho ficava feliz a cada assunto que ele entendia e conseguia resolver, cada história que conseguia interpretar, cada enigma que conseguia resolver. O sorriso que brotava nos lábios de Taehyung era lindo. 

Jeongguk mordeu a ponta da caneta que tinha em mãos. Ao invés de memórias ruins, sua mente só conseguia pensar em algo: os lábios de Kim Taehyung. 

A primeira vez que se viu perdido na beleza do mais velho, levou um susto tremendo, fazendo as tão famosas borboletas em seu estômago voltar a bater as asas fortemente. Assustou-se, não sabendo muito bem o que era esse sentimento estranho. Até começar a sentir a mesma coisa de novo e de novo e de novo.

Toda vez que Kim Taehyung sorria, seu coração se aquecia, sua pele ficava rubra e seu estômago criava vida. Jeongguk pode nunca ter sentido o amor, mas ele já viu algumas coisas parecidas em filmes.

Um dia resolveu perguntar para seu pai Kyuhyun o que ele sentiu quando se viu apaixonado por Sungmin, só para ver se as histórias batiam e se Hollywood não estava mentindo para si. 

 

Nem sequer ficou espantado quando Kyuhyun descreveu exatamente o que Jeongguk sentia quando via Taehyung. 




 

As ruas estavam banhadas por um sol quente de verão que começava a se pôr, deixando um tom alaranjado em tudo o que tocava. A rua sem saída de Tae entrando no campo de visão dos meninos ao conforme eles se aproximavam a passos lentos. O verão deixava tudo assim, meio lento e gostoso. Taehyung amava essa estação do ano, combinava tanto com ele e sua personalidade extremamente quente. 

Viraram a rua, logo avistando a grande casa de Taehyung. Antes mesmo de conseguir raciocinar o que estava acontecendo, o Kim escutou a voz de seu amigo o chamando. 

— Tae, tem alguém na porta da sua casa. — As mãozinha de Jimin seguraram Taehyung pelo braço, apontando para a pessoa parada na porta. Sua avó provavelmente ainda não tinha voltado da aula de costura que fazia todas as sextas-feiras, então mesmo se a pessoa tocou a campainha não havia ninguém para atendê-lo. 

— Que estranho, todos sabem que minha avó só chega tarde hoje. 

Assim que se aproximaram do portão o coração de Taehyung quase parou por um instante, reconhecendo imediatamente quem estava alí, parado em sua porta. 

— Jeongguk! — disse espantado, chamando atenção do outro que olhava perdidamente para a porta de madeira. O menino mais novo olhava de Taehyung para Jimin ao seu lado. 

— Oi. — disse Jeongguk, visivelmente constrangido,  vertendo os olhos para o chão. Taehyung achou estranho, mas resolveu não questionar. Se adiantou um pouco, deixando Jimin para atrás de si. Não sabia como seria a reação de Jeongguk em ter mais uma pessoa junto com eles, estavam acostumados a ser apenas os dois. 

— Que surpresa te ver aqui! — andou a passos largos até chegar bem de frente para o outro, que neste momento olhava para Jimin, ainda parado perto do portão. 

— Eu… Eu vim… — As mãos se juntaram na frente do corpo em um sinal de timidez. — Eu volto depois. 

— Não, Gukkie — Taehyung tocou levemente a mão do outro, que afastou-se rapidamente com o toque. — Fica, eu… Aquele é o Jimin, eu já te contei sobre ele, lembra. Meu amigo da faculdade. 

Jeongguk não respondeu nada, olhando de Jimin para Taehyung mais uma vez, o semblante passando de inexpressivo para bravo. Assim que fez menção de sair dali e voltar para sua casa, uma voz pôde ser ouvida logo atrás dos meninos, muito mais perto do que esperavam. 

— Oi! Eu sou Park Jimin, melhor amigo de Taehyung, muito prazer! — A mãozinha do loiro estava esticada na frente de seu corpo, esperando que Jeon a apertasse. — Ouvi muitas coisas sobre você. 

Taehyung sabia que aquela situação estava fadada ao desastre, mas não esperava a maneira grossa que Jimin foi respondido. 

— Eu não quero saber, nem mesmo sei quem você é. — O olhar duro e acusador estava impresso na face de Jeongguk. Taehyung olhou com tristeza, sabendo que o menino estava mentindo, já que sim, já havia contado sobre Jimin para ele. 

— Hey, Jeongguk! — disse Tae, não escondendo a tristeza que sentia. Tristeza, espanto, tudo misturado. 

— Não, Tae… tudo bem… Eu… — Era Jimin quem falava, dando pequenos passos para trás. 

— Jimin, fique aí! — disse Taehyung, levantando um pouco o tom de voz. — Você fica aqui, veio me ajudar com o trabalho de faculdade e não vai embora. — Voltou o olhar machucado para Jeongguk. — E se você não sabe se comportar, é você quem tem que ir embora. 

Assim que viu os olhos de Jeongguk passar de bravos para cinza em instantes, se arrependeu de ter dito qualquer coisa. 

— Foda-se vocês! — gritou, Jeongguk. Os punhos fechados ao lado do corpo tremiam. 

— Foda-se você! — bradou Taehyung, os olhos enchendo de lágrimas. Secou os olhos com a parte de trás das mãos e assim que percebeu Jeongguk virando de costas, andando para sua casa, gritou. — Você não pode tratar os outros assim, Jeongguk. 

 

O menino já estava praticamente na porta de sua casa, quando olhou para trás e viu Jimin e Taehyung entrando no que antes era o lugar que ficou parado por quase dez minutos. Respirou fundo, o coração acelerado e a raiva tomando conta, juntamente com a tristeza. Por que ele tinha que ser assim? Por que Jeongguk não conseguia ser uma pessoa normal? Se trancou no quarto, jogou-se na cama e chorou, os fantasmas invadindo sua mente mais uma vez. 




 

Inverno de 2007

Seoul
Orfanato Jang

 

Os passos apressados das crianças podiam ser ouvidos de longe, todos correndo atrás dos casacos e luvas de neve, afinal era o primeiro dia de neve do ano. O jardim do orfanato era um manto branco, todo coberto pela fofa camada de neve, seria um dia e tanto de brincadeiras, as crianças esperavam ansiosas por esse momento. Todos estavam muito animados, até mesmo Jeongguk, o menino de 10 anos de idade, que esperava todos os colegas se trocarem para só depois fazer o mesmo. Mas não tem problema, porque Jeongguk estava feliz.

 

Afinal, Jeongguk amava o inverno, sempre foi sua estação favorita do ano.

 

Quando saiu para o jardim as crianças já faziam bonecos de neve ou jogavam bolas de neve por todo lugar. Os gritos de felicidade preenchiam o orfanato deixando um clima agradável. Jeongguk olhou para as crianças brincando, mas ao invés de ir brincar com elas, preferiu ficar um pouco mais afastado, no final do jardim. Sentou-se no chão e começou a montar o que seria seu primeiro boneco de neve. 

— Eu ainda não sei seu nome, mas você é especial por ser meu primeiro boneco de neve. — dizia a criança, no tom de voz sempre baixo que fora ensinado a falar. 

A cada forma que o boneco tomava, Jeongguk ficava mais e mais feliz, deixando escapar um sorriso ou dois ao ver como estava tudo dando certo. Pegou alguns gravetos que estava perto de si e fez os bracinhos; para os olhos pegou duas nozes que estava também caídas por aí e colocou na altura que pensou ser a certa; o sorriso fez com os dedos mesmo, riscando o rosto do boneco de neve se um lado ao outro da circunferência branca. Faltava apenas o nariz, não tendo nada perto de si para colocar no lugar. Resolveu então ir até a cozinha pra ver se tinha uma cenoura, já que era assim que faziam nos filmes que assistia na TV. 

— Boneco, eu já volto. — levantou-se, limpando um pouco a calça branca de neve. — Você está ficando lindo, meu primeiro boneco de neve!

Andou apressado, olhando de soslaio para os colegas, não querendo chamar atenção de ninguém. Abriu a porta que dava direto para a cozinha, explicando para a Sra Ming, cozinheira do orfanato, para que precisava de uma cenoura. 

— É para meu boneco, Sra Ming. É meu primeiro boneco de neve! — dizia a criança, esperando a cozinheira lhe entregar o legume que tanto queria.

— Ué, mas você não estava aqui nos outros invernos? 

— Eu estava, mas sempre fazia algo de ruim e Sra Jang não me deixava sair. — disse Jeongguk como se fosse a coisa mais normal do mundo. — Ela disse que eu não merecia brincar na neve, mas agora eu posso. 

Jeongguk não entendia o porque da mulher tapar a boca como se tivesse espantada. Apenas pegou a cenoura e correu para fora. Seu boneco ficaria lindo. 

Ao chegar no local que tinha deixado o boneco prontinho, seu coração gelou. Os meninos de seu quarto estavam em volta de seu boneco, todos olhando para Jeongguk. 

— Foi você quem fez essa coisa horrível? — perguntou o mais velho deles. Jeongguk deu alguns passos para trás, começando a sentir o medo o consumir.

— F-foi sim. Você quer brincar com ele? — ofereceu, tentando ser o mais simpático que podia. — Eu fui só pegar o nariz dele. Vai ficar ótimo nele. — mostrou a cenoura que tinha em mãos, sorrindo leve. Talvez seus colegas de quarto vieram fazer companhia, talvez eles gostaram do boneco de neve e vieram brincar junto.

— Brincar? Não mesmo! Esse boneco tá horrível. — assim que o mais velho do grupo disse, todos os outros caíram na gargalhada. O menino malvado olhou para o boneco e para Jeon, que segurava as lágrimas de tristeza. — Você sabe por que esse boneco tá aqui?

Jeongguk fez que não com a cabeça, dando alguns passos para trás pois estava prestes a começar a chorar, estava pronto para correr caso precisasse.

— Porque ele não tem outra opção! — todos do bando riam como hienas histéricas. — Porque ele é fraco e solitário que nem você. Qualquer um com outra pessoa para brincar não escolheria você.

Os passos pequenos de Jeongguk ficaram mais firmes, até que encostou na árvore, fazendo com que parasse.

— N-não… — gaguejou o pequeno. — E-eu que fiz ele. Ele é meu amigo! — mesmo com medo, falou um pouco mais alto. 

— Amigo? Claro que não. — com um chute, o menino ridículo desmontou todo o boneco de neve de Jeongguk, que apenas arfou em desespero, as lágrimas escorrendo por sua pele branquinha. — Ninguém vai ser seu amigo, Jeon.


 

Por mais que Taehyung tentasse manter o foco no trabalho que tinha para fazer, sua mente vagava para outro lugar, lugar esse que não queria e nem podia entrar agora. Sabia que começar a pensar em Jeongguk era algo sem volta e que não seria resolvido agora. Agiu por impulso para defender seu amigo, ninguém nunca falou consigo assim antes. Não acha que o que ele fez foi certo, muito menos o que Jeon fez. Os dois estavam errados, mas por um motivo que ele sabia bem se sentia extremamente culpado.

— Tae, não acho que você esteja com cabeça para fazer o trabalho hoje. — Jimin reparou em como o amigo perdia o foco com facilidade, não conseguindo fazer metade do desenho que tinha se proposto a fazer. 

— Mas eu tenho que fazer, Chim. — largou mais uma vez o lápis em cima da mesa, exausto, passando as mãos pelos cabelos e deixando-os todo bagunçado. 

— Você está péssimo, Tae. Não tem como criar nada assim. — As pequenas mãos de Jimin se juntaram a de Taehyung nos cabelos castanhos. — Vá descansar. Eu vou embora, mas caso precise de mim no final de semana, só me ligar.

— Claro, Minnie. Eu te aviso qualquer coisa.

— E Tae — O loiro tirou as mãos dos cabelos do outro, levantando-se da mesa. — Quando estiver mais calmo, vai falar com Jeongguk, tá? 

Taehyung apenas concordou com a cabeça, não tendo forças nem para falar. Aquela briga, se é que podia chamar assim, com Jeongguk tinha sugado todas as suas forças. Sabia que o menino provavelmente não fez por mal e mesmo assim entrou na briga, dizendo coisas que nunca pensou que diria para alguém. 

 

A sexta-feira foi praticamente perdida, Taehyung apenas ficou jogado no sofá até a hora de sua avó chegar. Como sempre, ajudou a mulher na cozinha, preparando algo para os dois comerem antes de dormir. 

 

— Tae, seus pais ligaram hoje mais cedo, vão ficar mais um tempo no Japão, algo na empresa deles, como sempre. — O menino mal escutava o que a senhora dizia, terminando de guardar as coisas no piloto automático. 

— Hm… normal, eles passam mais tempo fora do que em casa. — Não que estivesse reclamando, era a realidade de sua vida e já estava acostumado.

— Tae, você está bem? — Não adiantava esconder nada de sua querida avó, ela conseguia saber exatamente como estava se sentindo. — Me parece abatido, comeu direito hoje?

Taehyung deixou um sorriso frouxo passar por seus lábios antes de responder a senhora. 

— Eu estou só cansado, vovó. A faculdade está começando a ficar puxada. — Não era a melhor desculpa, definitivamente, mas teria que ser essa. — Eu comi direito, mas a faculdade está começando a ficar puxada.

— Logo mais você entra no ritmo, meu filho. E sabe que sempre pode conversar comigo né? — Ambos começaram a andar para a sala. — Eu sei que você tem Jimin, mas eu também consigo te ouvir quando necessário, está bem? — deixou um beijo estalado na bochecha do menino antes de começar a subir as escadas para se retirar. 

— Obrigado, vovó. Eu te amo. 

 

Taehyung resolveu ficar vendo um filme na sala para se distrair, sabia que se subisse para o quarto passaria um tempo olhando pela janela e não queria isso. Virava de um lado para o outro no sofá, nada parecendo certo, tudo o incomodava. O filme que colocou na TV também não era o certo, trocou pelo menos umas duas vezes antes de conseguir assistir metade de um. Sempre colocava as comédias românticas para distrair a mente e hoje não foi diferente. Mas a paz que o filme trouxe para dentro de si durou pouco, até que desistiu de segurar tudo o que estava o corroendo por dentro.

— Aí, foda-se! Não aguento mais. 

Saiu para o jardim dos fundos, era igual ao que tinha na casa de Jeongguk. Tentou espiar para ver se tinha algum movimento na outra casa, porém nada aconteceu. A única indicação de que havia alguém ali era a luz do quarto do menino mais novo acesa. Não queria tocar a campainha, vai que os pais de Jeongguk ficassem bravo por ele atrapalhar a bela noite de sono da família. Até que olhou para o lado e viu uma pedrinha e teve uma brilhante ideia.

— Até que o filme serviu para algo. — pegou a pequena pedra e atirou com força mediana na janela de luz acesa. Esperou apenas alguns segundos para um Jeongguk assustado colocar a cabeça para fora, tentando descobrir que merda de barulho foi aquele. 

Sem emitir som algum, Taehyung gesticulou para o menino descer e se encontrar com ele ali, no jardim dele. Jeon apenas fechou a janela sem dar nenhuma resposta. Claro que grandes eram as chances dele ser completamente ignorado pelo menino e ficar esperando que nem um bocó, mas não foi isso que aconteceu. 

Assim que ouviu a porta ser destrancada com cautela, Taehyung passou para o outro lado, esperando o menino no mesmo lugar que se encontraram pela última vez naquele jardim. 

Os passos dado por Jeongguk era receosos, quase amedrontados, o que deixou Tae ainda com mais peso na consciência. Provavelmente o menino de cabelos escuros como a noite estava se sentindo culpado por tudo o que aconteceu mais cedo. 

— Hey — Taehyung que começou a conversa, porque do contrário não aconteceria nada ali. — Desculpa te chamar assim, a essa hora, mas eu preciso falar com você.

Jeongguk o olhou brevemente, concordando com a cabeça. Ele se abraçava, passando as mãos nos braços como se estivesse com frio, mesmo estando um clima ameno. Por mais que soubesse que a culpa não fora inteiramente sua, o peso de ver Jeongguk mal desse jeito acabava com ele.

— Eu vim aqui porque não conseguia dormir. — disse Taehyung, andando até o banco próximo de onde estava e sentando. 

— Não conseguia? — disse o outro, que não o seguiu, mas passou a encarar Tae, ainda sério. 

Foi então que o mais velho percebeu como os olhos de Jeongguk estavam vermelhos, como se tivesse chorado por horas. 

— Não — engoliu seco, com medo de como prosseguir a conversa. — Não conseguia parar de pensar.

— Desculpa, foi culpa minha. — E novamente Jeongguk baixou o olhar, juntando as mãos na frente do corpo.

Aquele Jeongguk que Tae via era tão diferente do que ele estava começando a se acostumar. Taehyung não queria perder seu Gukkie.

— Não… Quer dizer, um pouco, mas foi minha também. — disse Tae, levantando-se e parando na frente do menino. — Foi um mal entendido que eu queria entender. — fixou o olhar em Jeongguk por mais que o outro relutava em fazer o mesmo. 

— Foi culpa minha, eu… Eu não deveria ter falado aquilo. Me desculpe. 

— Gukkie, olha para mim. — Sabia que o outro não gostava de contato, mas precisava passar o que sentia de verdade. Segurou as mãos geladas de Jeongguk nas suas. — Eu quero te entender, por favor. — suplicou. 

— Não precisa… — levantou o olhar, sem forçar para soltar a mão de Taehyung. — Eu não preciso que me entendam, eu passei… Eu já passei por muita coisa. 

— São coisas que te fizeram sofrer e eu quero ajudar.

— Mas por quê? Por que você quer ajudar? — O desespero era palpável na voz do outro. — Não preciso de ajuda, eu não quero que me ajudem. 

— E por que não? Jeongguk me responde, por quê? 

— Eu não preciso de amigos. — E novamente o Kim perdeu Jeongguk para algo que não conseguia entender, o olhar do outro vagava pelo chão, afoito. — Eu não vou ser mesmo o escolhido. Não preciso de amigos.

— Mas Gukkie, todo mundo precisa de amigos! E eu quero ser seu amigo.

— É mentira — disse, voltando a olhar nos olhos de Tae. — Você não quer.

— Deixa eu te provar que quero, por favor. — Sem nem mesmo esperar por uma resposta, Taehyung seguiu o impulso que sentiu no momento e abraçou o menino que era quase da sua altura. Não era apenas a mão de Jeongguk que quer gélida, o corpo também era mais frio que o seu. — Eu só quero saber o que se passa aí dentro, você não precisa estar sozinho. Não mais. 

 

Jeongguk estava atônito, não conseguia entender o que Taehyung estava fazendo. Por que ele o estava abraçando depois de toda a merda que ele disse mais cedo? E por que sentia todo o frio que o acompanhava por anos começar a descongelar? Os braços que estavam caídos ao lado de seu corpo demoraram para reagir e abraçar o outro, enlaçando Taehyung pela cintura. 

O sentimento que o abateu era forte e nunca fora sentido antes por si, nem mesmo quando seus pais souberam que eles iriam, sim, adotá-lo e o abraçaram com todas as forças. Nem mesmo quando se sentiu acolhido em um lar, com uma família. A quentura que sentia subir pelo seu corpo, desde seus pés até a cabeça, nada se pareciam com as de colocar uma roupa quentinha no inverno, era algo muito diferente de tudo que Jeongguk já sentira na vida. 

Por isso e por seu coração acelerado, porém não de desespero, desatou a falar. 

— Eu quero pedir desculpas por gritar com você, com Jimin. Por mentir e dizer aquelas coisas horríveis, quando os fantasmas chegam é difícil controlar. — disse, ainda abraçando o outro. — Eu não consigo enxergar nada quando as lembranças vêm, Tae. Elas vêm com muita força e eu sou fraco. Sou fraco e solitário e ninguém vai querer ser meu amigo, nem mesmo um boneco de neve. — Taehyung não entendia algumas coisas, provavelmente histórias do passado conturbado que o outro teve, apenas estava ali para abraçar enquanto ele tirava tudo o que pesava seu coração. 

— Eu quero ser seu amigo, Gukkie. Acredita em mim. 

— Quero acreditar, Tae, eu quero mesmo. Eu só preciso de calma, e paciência, porque não é fácil lidar comigo. — afastou-se um pouco, conseguindo assim olhar para Taehyung sem grandes dificuldades. — Não é fácil lidar comigo, Tae. Eles sempre dizem isso de mim. Eu sou muito fraco e não consigo fazer nada certo, não é? Você tem Jimin, tem uma família, uma casa. — A cada palavra que ele dizia, Taehyung percebia estar mais uma vez naquela noite perdendo Jeongguk. — Você tem cor, não iria querer me ter por perto. Eu sou cinza e frio, eu não tenho amigos. 

— Jeongguk, olha para mim — implorou Taehyung. — Eu sou tão solitário quanto você, não vê? 

— Mas você tem uma família! — Esse era o fantasma que mais atormentava Jeongguk. 

— Uma família que não me vê faz anos, Gukkie! — Taehyung segurava as lágrimas o máximo que conseguia. — Eu tenho minha vó, assim como você tem seus pais, Gukkie. Nós somos mais parecidos do que imagina. 

Jeongguk tinha a respiração rápida, mas o que Taehyung disse começava a entrar em sua mente devagar, aos poucos. Eles eram mais parecidos do que imaginava, afinal. 

— Eu nem sei como consegui uma família, Tae. Todos no orfanato me odiavam, eu não sou… 

— Jeonggukie! Gukkie, olhe para mim. — Taehyung segurou com delicadeza o rosto de Jeongguk, o puxando ainda mais para perto. 

— Nenhuma pessoa me escolheu para brincar, Tae. — As lágrimas cristalinas podiam ser vistas rolando pelo rosto branquinho do mais novo. — Não perca…

— Mas eu te escolhi! — cortou o outro, tentando quebrar a corrente de pensamentos incessantes na mente de Jeongguk. — Eu te escolhi, entende? 

— Você não deveria…

 

E mais uma vez Taehyung agiu por impulso, o mesmo que o fez chegar na porta do menino e tentar conversar; o mesmo que o tirou do sofá e o fez tacar uma pedrinha na janela de Jeongguk. Esse mesmo impulso vez Taehyung colar seus lábios nos gélidos de Jeongguk. 

Apesar do frio que sentiu ao beijar o menino que ainda chorava, Taehyung percebeu como eram macios. Ficou por mais um tempo, apenas pressionando seus lábios contra o do outro, num ato desesperado para fazer o menino parar de falar.

 

Taehyung estava aqui agora, ele não tinha mais que se sentir sozinho. 

 

Se afastou devagar, ainda segurando gentilmente o rosto de Jeongguk entre as mãos. Ao se afastar completamente e abrir os olhos, percebeu que Jeon ainda mantinha os seus fechados. Um leve terror passou por sua mente. “E se ele não gostar de meninos?”, foi o que pensou, a desculpa na ponta da língua. Até que ouviu a voz do outro num suspiro:

 — Eu nunca beijei antes, hyung. 

 

Taehyung deixou escapar o ar de seus pulmões, aliviado. Acariciou levemente a bochecha esquerda, passando o dedo em uma cicatriz que existia ali. Sorriu também enquanto passava os dedos nas pálpebras fechadas do outro, pedindo com o toque para que se abrissem. 

 

— E o que achou do seu primeiro beijo? — perguntou Taehyung, ainda inseguro se foi a melhor escolha fazer isso. 

— Por mais que tenha sido apenas para eu ficar quieto, foi bom. — disse Jeongguk, as lágrimas ainda escorriam por seu rosto, mas não como antes. 

— Foi por isso também, claro. — disse o mais velho, rindo em seguida. — Mas eu também quis, talvez… Talvez eu quisesse isso desde o dia em que eu te vi. 

O silêncio se fez presente depois de ter falado tal segredo que nem ele mesmo sabia que levava consigo. 

— Eu senti… — começou Jeongguk, ainda incerto de como explicar o que sentia, era tudo novo para ele. — Eu senti um calor que eu nunca senti antes, Tae. Eu… eu não sei explicar, mas foi bom. 

— Um calor?

— Sim, Tae. Um calor e… cores. — Jeongguk estava corado de vergonha, sentia que tudo o que falava não passava de besteiras. — Eu vi cores diante dos meus olhos assim que você me tocou. 

Taehyung olhava encantado para Jeongguk. Nunca pensou que se apegaria a alguém tão rápido assim, muito menos que o calaria com um beijo. 

— E isso é bom? — perguntou Taehyung. 

— Sim, é muito bom. — disse o menino mais novo, pegando as mãos de Taehyung que ainda estavam sem seu rosto e entrelaçando com a sua. — Eu… nunca pensei que seria merecedor disso, mas talvez… só talvez, você seja a cor que eu precisava no meu mundo cinza, Tae. 

A única reação possível vinda de Taehyung no momento era um belo sorriso. Sabia que seria difícil de Jeongguk se abrir, mas ele faria de tudo para colorir a vida do menino.

— Eu… Tae, eu sofri muito no orfanato onde eu morava, eu nunca tive um amigo, ninguém nunca chegava perto de mim, por algum motivo que eu nem sei — respirou fundo. — E eu acabei acreditando nisso. Não vai ser fácil, mas… eu quero tentar ser… pelo menos seu amigo. 

— Claro, Gukkie, claro! — abraçou novamente o menino de cabelos pretos. — Vamos com calma, assim que você tiver pronto, você me conta. Se quiser contar, claro. Só… só não pense que está sozinho, por favor. 

 

E nesse momento, no exato momento em que encarou os olhos que antes era de um cinza denso, percebeu um leve brilho que antes não existia. 


 

-x-

 

Com o passar dos dias e semanas, os encontros na casa de ambos ficaram mais frequentes pela amizade que começava a nascer e não apenas pelas aulas. Jeongguk ainda se sentia estranho na presença de mais pessoas, como o dia em que estavam assistindo a um filme na sala de Taehyung. Os dois meninos estavam sentados bem perto um do outro, a mão de Taehyung descansava levemente nas pernas esticadas de Jeongguk, que quase teve uma síncope quando a avó de Taehyung entrou no cômodo perguntando se queriam algo para comer. Taehyung riu alto do pulo que Jeongguk deu, acalmando o menino em seguida que não tirava o bico dos lábios.

— É injusto isso, hyung! — choramingava ele enquanto Taehyung rolava de dar risada. 

 

Mas, apesar de ainda estar desacostumado com isso, Jeongguk passou a se abrir mais com Taehyung e a ficar mais solto quando estavam só os dois.

 

— É o seguinte, se você perder a próxima partida vai ter que me dar um beijo.

Taehyung arregalou os olhos ao ouvir a ideia vinda de Jeongguk. Sim, essa ideia tinha vindo do menino sentado na frente do computador que a um tempo atrás não conseguia nem olhar Taehyung nos olhos. 

— A é? E se você perder o que acontece? — perguntou, sorrindo de lado.

— Eu vou ter que te dar um beijo. 

A cara de pau era tanta que nem o riso fácil conseguiu ser contido pelo mais novo. 

— Essa aposta tá me parecendo furada. — disse Taehyung, enquanto o jogo começava. 

O jogo da vez era Fortnite e para a aposta valer para a rodada, Jeongguk modificou um pouco a aposta. 

— Para jogarmos de dupla e ainda assim valer a aposta, quem morrer primeiro paga, que tal? 

— Me parece uma ótima ideia, e já vai pensando em como você vai me beijar, já que você com toda a certeza vai perder essa. 

— Nem nos seus sonhos, Kim.

 

O fato é que eles nunca tinham se beijado mesmo, de verdade, sabe? Desde aquele dia no jardim, onde selaram seus lábios pela primeira vez, a única coisa que trocavam eram leve toques nas mãos e alguns selares perdidos durante o dia. Taehyung sabia que não poderia forçar nada, Jeongguk tinha que ter seu próprio tempo e assim que ele estivesse pronto, dariam os próximos passos naturalmente. 

 

Nem mesmo um minuto de partida e o boneco de Jeongguk estava caído no chão, sendo acertado por um tiro que nem sabia de onde veio.

— Injusto!!! Isso é injusto! Eu nem sei de onde eu levei esse tiro, Tae! — bradou Jeongguk, levantando da cadeira incrédulo com o jogo. Taehyung se segurava para não se revirar no riso, ainda prestado atenção no jogo. 

— Já pensou em como vai pagar a aposta? — os olhos passavam rapidamente entre Jeongguk com o bico do tamanho do mundo e a tela do computador a sua frente.

— Vai se foder, Kim. 

Jeongguk era competitivo demais pro seu gosto. 

 

Os braços de Taehyung estava cruzados na frente do corpo, sobrancelha arqueada e um sorriso querendo lhe escapar os lábios. Estava sentado com as pernas cruzadas na cama de frente para Jeongguk. O jogo logo fora esquecido, afinal, Taehyung tinha um beijo para receber. 

— Não achei justo o que aconteceu.

— Você perdeu, Gukkie. 

— Eu nem vi de onde…

— Você perdeu, Jeongguk.

— Mas não vale…

— Você tem uma aposta para pagar Jeon Jeongguk!

 

Bufou alto, o menino mais novo, competitivo que só ele. Por mais que a aposta fosse das boa, odiava perder. Alguns lados que ele nunca conseguiu desbravar em sua personalidade agora chegavam com força. 

 

— Então fecha os olhos. — disse Jeongguk, começando a aceitar a derrota.

— Okay. — disse Taehyung, animado, se arrumando na cama e fechando os olhos.


 

Jeongguk se aproximou lentamente, ajoelhado na frente do outro. Fechou os olhos e avançou, colando seus lábios nos de Taehyung. Pego de surpresa por já estar de olhos fechados, Taehyung deu um pequeno pulo, sentindo aquele friozinho na barriga que só a boca de Jeongguk o causava. Dessa vez Jeongguk não iria parar apenas nos lábios selados, esse era o intúito da aposta desde o começo. Tomou toda a coragem que tinha dentro de seu ser e começou a movimentar os lábios, finalmente dando seu primeiro beijo de verdade. Não sabia se estava fazendo certo ou não, estava apenas se deixando guiar pelo sentimento que tomava conta de si. Taehyung puxou o outro pelo pescoço, deixando sua mão ali para ditar os movimentos. Mordeu de leve o lábio inferior de Jeongguk, pedindo passagem com a língua, que logo foi cedida pelo mais novo. Era mágico o sabor que Jeongguk tinha. Tae já se sentia encantado antes de beijá-lo de verdade, agora então, estava completamente rendido.

Com cautela, enquanto as línguas se movimentavam entre si, dançando conforme o ritmo dos corações, Jeongguk lentamente se moveu, sentando no colo de Taehyung. A posição que estava antes não era das mais confortáveis e seu corpo pedia, clamava, para estar mais perto de Taehyung. O beijo era calmo, lento, como Jeon sempre imaginava que seria. Aninhou as mãos nos cabelos de Taehyung, brincando com os fios cor de madeira, puxando-os levemente enquanto tinha a boca tomada pelo outro. Para findar o beijo, Jeongguk mordeu os lábios de Tae, deixando alguns pequenos selinhos antes de se distanciar um pouco. 

— Nossa! — Foi a primeira coisa que Taehyung disse enquanto abria os olhos para encarar o menino mais lindo que já vira na vida. 

— Gostou? — Ainda incerto, Jeongguk perguntou. — Porque assim… eu topo perder mais se toda vez eu tiver que te beijar. 

— Se você está falando isso é porque valeu a pena. Você odeia perder. — abraçou o torso do menino, que ainda estava em seu colo. Olhou mais uma vez no fundo dos olhos que ainda brilhavam. — Eu amei, muito. Mas não precisa perder apostas para me beijar.

— A não? — A mão de Jeongguk ainda brincava com os cabelos do outro. 

— Não, pode fazer isso sempre que quiser. — Beijou mais uma vez os lábios que sabia estar viciado. Agora que Jeongguk deu o primeiro passo, estava mais confortável para amá-lo do jeito que o outro merece, com todo o carinho do mundo. 

 

Ficaram alguns minutos sentados do mesmo jeito, mudando de posição apenas pela perna de Taehyung começar a formigar. Deitaram-se na cama, um de frente para o outro, as mãos dadas, as pernas entrelaçadas. Enquanto conversavam sobre assuntos corriqueiros, Taehyung despejava beijos por todo o rosto do menino, principalmente em seu nariz. Taehyung amava tudo nele, mas o nariz era um ponto fraco.

 

— Obrigado, Tae. — disse Jeongguk. Fazia um tempo que eles apenas se olhavam e nada era dito.

— Por quê? — pegou os dedos branquinhos do menino e beijou um por vez, olhando-o com ternura.

— Por acreditar em mim, por me aceitar do jeito que eu sou, por ter paciência e não ter desistido. — O sorriso de Jeongguk era o mais verdadeiro que já vira, os dentes de coelhinho a mostra. — Por me dar o conforto do calor que eu precisava, a cor que eu sempre quis ter. Eu pensei que encontraria isso tendo uma família, mas eu encontrei em você. 

Taehyung ficou sem palavras diante de tal declaração inesperada. O coração se enchendo de alegria em ver como os dois faziam bem um para o outro. 

— Eu nunca iria desistir de você, porque detrás dos olhos mais cinzentos e tristes que eu já vi, eu sabia que tinha uma vida e um arco íris inteiro para viver. Nós juntos, fazemos nossas vidas melhores e é isso que importa. 

 

E assim os dias foram se passando, a cada minuto ao lado de Taehyung, Jeongguk se descobria ainda mais, abrindo seu coração e chorando todas as mágoas que já passou na vida. Descobriu um novo mundo que não era gelado como pensou que sua vida seria, descobriu cores que nunca pensou que veria, nuances da vida tão bela que era difícil até mesmo de controlar as lágrimas. Lágrimas de alívio e afeto, amor e carinho. 

 

Não precisava mais sofrer sozinho, afinal, tinha Taehyung para desbravar e colorir todo o cinza que seus olhos tinham.


 


 


Notas Finais


Espero mesmo que tenham gostado e que pelo menos uma lagriminha tenha sido derramada hahahaha. Obrigada mais uma vez por lerem. Beijos, meus xuxus! <3


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