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História Beleza: dádiva ou maldição? - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Com a leitura vocês perceberão que os nomes padrão Disney não combinariam com a história que me propus a escrever, por isso, para aqueles que conhecem o conto a partir do filme eu advirto que resolvi criar meus próprios nomes, com base em características de cada personagem. Deixo aqui alguns desses nomes.
Belten – primeiro filho (Mestre)
Baloric – juiz raivoso (Zangado)
Gimral – coração alegre (Feliz)
Harlond – amigo leal (Dunga)
Torror – alma enigmática (Dengoso)
Garsitili – parente de urso (Soneca)
Bolbere – esconde com a mão (Atchin)
Bekest – passagem caverna (Mina)

Capítulo 1 - Capítulo Único - Efeitos.


Fanfic / Fanfiction Beleza: dádiva ou maldição? - Capítulo 1 - Capítulo Único - Efeitos.

Era uma vez uma linda garotinha, “que nasceu sob a mais terrível nevasca que uma noite de inverno poderia proporcionar...” não, não era eu, eu nem se quer estava lá. Essa parte da história me foi narrada pela primeira vez mais de vinte anos depois, porém com o passar dos anos a ouvi tantas vezes que parece que presenciei toda a cena.

O tão sonhando primogênito do rei havia finalmente nascido, no entanto, era uma menina. Uma linda garotinha de cabelos negros como corvos, lábios rosados como a mais perfumada das flores e pele tão clara quanto a neve, que se aglomerava na enorme janela da mais alta torre do castelo.

O tão esperado nascimento não resolvia o principal problema do reino de Aztlan, onde as garças batem asas, pois na ausência de um filho homem quando o rei e a rainha morressem o reino seria incorporado ao reino fronteiriço de Coatlan, onde as serpentes trocam a pele.

Não poderia haver desgraça maior para o grande monarca do que perder suas terras para o maior inimigo. O problema era simples de se resolver, bastava terem um filho varão, entretanto a rainha havia ficado bastante debilitada com as complicações do parto e temia a possibilidade de nunca mais poder gestar uma criança.

Amom era contestado há anos pelo vizinho, Reagan, por não ter nenhum herdeiro em dez anos de casamento. Quando notificado pelas criadas sobre o sexo do recém-nascido o rei nem queria vê-lo. O que o fez entrar no quarto e conhecer a filha foi o chamado frágil da rainha, que ele venerava como uma deusa encarnada, não apenas ele, todos os cortesãos. Hadassa era a personificação da beleza e da bondade, ninguém que a visse duvidaria disso. Por ela entrou no quarto e se permitiu olhar a pequena criatura envolta em um manto vermelho, mas quando tomou a filha no colo não pôde resistir a perfeição daquele ser angelical, afinal era fruto do amor que sentia pela esposa.

– Como vamos chama-la? – Perguntou Hadassa.

Amom olhou ternamente os olhos da esposa, depois para a neve que caia violentamente lá fora e respondeu:

– Branca, assim como a neve.

Esse foi o nome dado a pequena princesa, em seguida seu nascimento foi anunciado aos quatro cantos do mundo conhecido. Festas foram dadas em sua homenagem e seguindo a tradição presentes foram enviados por todos os quatro reinos vizinhos: Quetzalan, onde a ave sagrada repousa, Quimichian, onde os ratos fazem morada, Tozanian, onde a toupeira se esconde, e Coatlan.

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A menina crescia em inteligência, graça e beleza, todos aqueles que a rodeavam apaixonavam-se por sua formosura. Aos cinco anos, depois da rainha ter dado à luz a um menino morto, o rei deu-se por vencido e na falta de um filho homem começou a ensinar a filha o manuseio de uma espada de madeira. Antes dos sete ela já dominava a arma, sabia ler e escrever, sabia também cantar, dançar e tocar na arpa todas as músicas clássicas da corte. Era gentil e feliz, trazendo alegria ao castelo e a todo o povo do reino.

No dia de seu sétimo aniversário Branca recebeu a notícia de que a mãe estava grávida novamente, ficou tão feliz que não cabia em si, mas com o passar dos meses as coisas começaram a se complicar, a mãe parecia cada vez mais debilitada.

Quando o momento do parto chegou, os gritos ecoaram pelas paredes do castelo por dois dias, até que finalmente cessaram. A menina não tinha permissão para ir até onde estava a mãe, mas sentia em seu coração que algo estava errado, por isso esgueirou-se pelos corredores mal iluminados até chegar a grande porta vermelha do quarto real. A movimentação no local a assustou, ela imediatamente entendeu o que se passava ali, sua mãe assim como o tão esperado irmão, estavam mortos.

Seu pai passou os primeiros meses isolado do mundo, a garota ficando assim aos cuidados da governanta do palácio. Os reinos de Quimichian e Coatlan aproveitando o abandono em que se encontrava o povo diante da debilidade do rei, começaram a remarcar suas fronteiras, tomando para si povoados inteiros que até então pertenciam a Aztlan.

Quando enfim Amom reergueu-se para reaver o que era seu, já não tinha nem vassalos suficientes para formar um exército, por isso, preocupado com o futuro da filha e de seu precioso reino, foi forçado a pedir ajuda a uma bela feiticeira. Como pagamento a bruxa lhe pediu o trono a direita do seu, como sua nova rainha.

Nada se sabia sobre a mulher, exceto que sua beleza deixava os homens de joelhos e que vinha de algum lugar além mar.

– Se sua magia funcionar, tudo que me pedir te concederei em gratidão.

– Assim seja, vossa majestade.

A mulher de longos cabelos cor de cobre deixou o salão do trono e em seguida o castelo, adentrou a floresta que o cercava e desapareceu, voltando apenas meses depois para cobrar seu pagamento, quando uma doença desconhecida havia dizimado metade da população dos reinos inimigos. Como combinado Amom ordenou a seus servos os preparativos para realização de seu casamento. Em menos de uma semana tudo estava preparado, porém, contrariando os costumes, ninguém de fora de Aztlan foi convidado.

O povo recebeu com choque e preocupação a notícia de que teriam uma nova rainha, afinal muitos ainda estavam de luto pela perda da adorável Hadassa, mas como não cabia aos súditos questionar as ações do rei, simplesmente seguiram suas vidas sem se importar realmente com o que se passava no castelo, desde que não interferisse diretamente em suas existências miseráveis.

Aos poucos, cada servo leal ao rei e a princesa foi substituído. Amom era visto cada vez menos por seus cortesãos, enquanto a rainha Nefertiti assumia cada vez mais o protagonismo pelo governo do reino.

Branca, que pouco vira o pai desde o casamento, passava cada vez mais tempo fora da fortaleza, saindo escondida por túneis estreitos e sujos que a levavam a cidadela e de lá às vilas de camponeses. Descobriu logo em sua primeira saída que era perigoso ser uma garota em meio a lugares desconhecidos, desde então passou a usar nessas situações roupas de meninos, que surrupiava dos filhos dos criados e escondia no túnel principal para poder se trocar, deixando lá suas vestes de princesa.

Chegava em casa suja e suada pouco antes de escurecer, as vezes se metia em brigas com meninos de rua e chegava machucada, mas como ninguém mais parecia lhe dar atenção, continuava a sair em suas aventuras.

Um dia ao chegar notou uma movimentação estranha nos corredores, sabendo que a madrasta não gostava de sua presença, não deu atenção, preferindo ir para o quarto se preparar para o jantar.

Depois de se banhar e vestir tentou esconder o lábio recentemente cortado com um soco de um garoto mais velho, mas ao tentar sair do quarto foi barrada por um dos guardas de Nefertiti, enquanto o acompanhava a sala do trono, soube por instinto que estava sozinha no mundo, seu pai havia morrido.

Seu primeiro pensamento foi fugir de volta às ruas, mas com o guarda a conduzindo parecia impossível, precisava ter calma para planejar o que fazer.

– Majestade, sua alteza real a princesa Branca de Aztlan... – Começou o homem, mas foi interrompido por um acenar de mãos da soberana.

– Deixe-nos – ordenou ela do alto de sua imponência real, a menina nunca foi próxima dela, ainda assim admitia a si a beleza e o poder que emanavam da mulher. – Quando cheguei a esse castelo me falaram de sua formosura e inteligência, nunca as achei grande coisa, mas devo admitir que não é burra – Branca corou sem saber se era de raiva ou vergonha. – Sabe porque está aqui?

– Majestade – disse a princesa fazendo uma reverência formal – meu pai está morto.

Nefertiti deu um sorriso de canto em resposta.

– Sabe o que isso significa?

– Que eu sou sua herdeira?

– Exatamente! Não se atreva a sair de dentro desses muros, eu saberei se der mais uma de suas escapadas para encontrar aqueles maltrapilhos – a jovem alarmou-se, mas nada disse. – Eu sou a rainha, mas como sou a segunda esposa e não tenho herdeiros a lei garante a você a coroa quando completar a maioridade. Caso uma de nós venha a morrer antes disso, Reagan assumira o trono de seu pai.

– Sim, vossa majestade. Posso... ver meu pai?

– Ele está morto, não há nada mais para ver. Agora vá para seu quarto e fique lá até que eu mande chama-la.

Pensou em protestar, mas a rainha tinha razão. Sem opção, ela obedeceu.

Conforme os anos iam passando Branca passou a ser tratada cada vez menos como princesa e mais como um objetivo decorativo, Nefertiti a deixava livre para fazer o que quisesse desde que fosse dentro da fortaleza, assim, passava os dias lendo, tricotando e quando possível treinando esgrima, com os filhos dos guardas.

Vez ou outra tentava uma fuga para as vilas da cidadela, mas a cada tentativa falha era pega pelos guardas, a passagem trancada com enormes pedras e a fujona castigada pela madrasta com dois dias trancada no quarto sem comida.

Quando necessário a soberana a chamava ao salão principal, entregava roupas limpas e ordenava que se arrumasse, geralmente porque haveria alguém importante visitando o castelo.

Próxima de completar quatorze anos a princesa foi chamada para um banquete especial, onde revelou-se a realização do casamento da rainha com o rei Seule de Tozanian, dessa noite em diante a menina passou a ser mantida trancada em seu quarto, até o dia da cerimônia.

No dia marcado para o matrimonio real, a garota acordou cedo, com um desconforto no ventre e uma macha escura sujando seu saiote e o lençol, por sua pouca informação sobre o assunto a jovem demorou a descobrir que se tratava de sua primeira menstruação. Ela não era mais uma menina.

Uma criada trouxe-lhe um lindo vestido azul e amarelo, ajudou em seu banho e escovou seus cabelos, ao ver-se no espelho a moça achou-se quase irreconhecível de tão bela.

Desceu ao salão e cumprimentou educadamente todos os presentes, recebendo olhares encantados por sua beleza, principalmente do jovem herdeiro de Quetzalan. Não o via há muitos anos, mas lembrava-se de que ele se chamava Hamdan, assim como o pai.

Enquanto a noiva entrava para a solenidade, todos voltaram-se para a ruiva, porém bastou um cruzar de olhos com ela para Branca sentir um calafrio na espinha. Nunca foram amigas, mas nunca havia sentido tanto ódio em um único olhar direcionado a si, ela precisava sair dali o mais rápido possível.

Pouco antes do fim da festa, quando os convidados começavam a ir embora, a jovem pediu licença para recolher-se aos seus aposentos. Sabendo que a madrasta estava entretida com seus convivas, ao invés de ir para o quarto se enfiou na cabine da primeira carruagem que encontrou, escondendo-se em meio às peças de caça e outras bagagens sob um assento de passageiros. Quando seu dono chegou, ela rezou para não ser descoberta até estar longe o bastante das garras da feiticeira.

Branca acabou por pegar no sono, acordou assustada com um solavanco que indicava a parada do coche. Ao contrário do que imaginou, não havia amanhecido ainda, o passageiro, um homem corpulento, não estava ali dentro, por isso ela aproveitou para tentar sair de baixo do banco.

Espiando pelas janelas viu que o homem estava urinando em um arbusto, não viu o cocheiro, mas imaginou que pelo ângulo ele não a veria. Abriu uma pequena fresta na porta contraria a que o homem estava, verificou se não havia outra carruagem por perto e escorregou para o chão, correu o mais silenciosamente que pode mata adentro, sem se quer olhar para trás.

A floresta era fria e escura, as árvores se prendiam a sua vestimenta de luxo, rasgando o tecido e machucando sua pele, mas ela nunca se sentiu tão livre em toda a vida.

Quando os raios de sol começaram a penetrar o denso arvoredo depois de ter corrido pelo que lhe pareceram horas, ela caiu desmaiada, exausta e pegajosa, em uma campina verdejante.

Acordou quando o sol já havia cruzado o céu, rodeada por animais da floresta e criaturas até então desconhecidas, que pareciam homens barbados, mas tinham pouco mais de um metro de altura. Todos os quatro carregavam ferramentas que ela não sabia nomear, além de pequenas armas que pareciam suficientemente afiadas, por isso retraiu-se contra a árvore mais próxima, temendo o mal que poderiam lhe fazer.

– Não tenha medo criança – disse o que parecia ser o líder, ou pelo menos o mais velho deles, já que tinha todos os fios de cabelo e barba grisalhos – não vamos machucá-la.

– Fale por si mesmo Belten, mulheres são perigosas, devíamos matá-la agora mesmo e nos poupar problemas futuros – disse o mais alto deles, o que pareceu a garota o mais amedrontador.

– Não fale assim Baloric, você a está assustando – disse um ruivo de sorriso gentil no rosto.

– Diga criança, quem é você e o que veio fazer em nossas terras? –Disse o “homenzinho” chamado Belten.

– E-e-eu... Branca.

– De onde você vem Branca?

– Az-Aztlan.

– O que veio fazer aqui?

– Eu... eu... me perdi.

– Ninguém que se perde chega vivo por aqui – resmungou o moreno, aparentemente chamado Baloric.

Ela estava faminta e cansada, não conseguia pensar em uma história para convencê-los a não matá-la naquele exato momento, assustou-se quando um careca, o menor e mais afastado deles, lhe estendeu um pedaço deformado que se assemelhava a um pão. Nem pensou, apenas agarrou a forma retorcida e levou-a a boca, devorando-o com certo desespero para aplacar a fome.

– Está com fome meu bem? – Perguntou o ruivo – Coma, temos muito mais de onde veio esse – lhe estendendo um cantil – Beba, vai precisar.

Ela aceitou tudo de bom grado, não importava se estivesse envenenado, desde que preenchesse seu estômago vazio.

– Venha criança, deve estar exausta.

– Ficou louco? Não pode levar uma estranha para nossa casa!

– Baloric, ela é apenas uma criança.

– Quem são vocês? – Perguntou a jovem ainda ressabiada.

– Oh, verdade, peço desculpas pela nossa falta de educação criança. Sou Belten, – disse o mais velho – esses são meus irmãos Baloric, Gimral e Harlond – apontando para o zangado, o ruivo sorridente e o careca que lhe deu o pão, respectivamente – somos o que restou do clã de anões das Minas de Bekest.

Feitas as primeiras apresentações eles entraram por uma abertura no troco de uma árvore gigantesca, lá dentro havia tudo que era essencial a uma casa, simples, porém confortável, todos os móveis e utensílios eram proporcionais ao tamanho deles.

Branca descobriu que havia ainda mais três anões, Torror, Garsiliti e Bolbere, todos foram muito amáveis e gentis com ela. A impressão inicial que teve deles foi que primeiro era a pessoa mais tímida que já conhecera na vida, o outro parecia viver constantemente sonolento e o último estava resfriado.

Enquanto comia a princesa ouvia os homens que lhe contavam um pouco de sua história. Eram mineiros de pedras preciosas, haviam sido um grande clã um dia, mas depois de entrar em conflito com um grupo de três feiticeiras estrangeiras, que invadiram sua terra encantada por causa de suas minas e da magia presente ali, uma peste acabou por dizima-los, restando apenas os sete, sendo Harlond o único sobrevivente da peste, as custas de seus cabelos e de sua voz.

Quantos às bruxas, eles por vingança pediram ajuda dos elfos artesãos e das fadas da floresta, juntos fizeram colares tóxicos e enviaram de presente as três. Devido a beleza das joias, duas delas caíram na tentação de experimentar os colares e acabaram mortas pela toxina. Com a morte das irmãs a terceira perdeu grande parte de seu poder, sendo forçada a abandonar aquela região e a viver em uma floresta de outro reino próximo dali. A última notícia que tiveram dela foi que havia se casado com o rei daquele lugar.

A jovem quase engasgou com o choque.

– Como se chama essa feiticeira?

– Nefertiti – responderam os seis em uníssono desprezo, os sete cuspindo no chão em seguida, como se a simples menção do nome lhes desse asco.

Se possível ela estava ainda mais branca que seu nome, os gentis anões percebendo sua reação a interrogaram novamente sobre sua origem e motivação.

– Meu pai era o rei de Aztlan... – começou ela, revelando a eles tudo o que viveu até o momento em que os encontrou naquela tarde.

– Por que não fugiu logo que o rei faleceu? – Questionou um deles.

– Eu estava segura, enquanto ela precisasse de mim, mas no momento em que se casou com outro rei eu me tornei dispensável, sabia que ela me mataria se continuasse lá, então fugi para o mais longe que pude.

– Precisa partir, se ficar aqui trará a bruxa até nós – disse Baloric.

– Por favor, me deixem ficar – implorou. – Sozinha na floresta morrerei. Posso ser útil, sei lavar, limpar e cozinhar...

– Cozinhar? – Repetiram cinco vozes excitadas. – Se sabe cozinhar pode ficar. – Baloric virou o rosto irritado com os irmãos e Harlond por impossibilidade não disse nada, mas seus olhos brilhantes e sorriso gentil indicavam que concordava com os irmãos.

Por fim Branca ficou, fazia todo o serviço da casa enquanto seus anfitriões trabalhavam nas minas do raiar ao pôr do Sol. Todas as noites treinava o uso da whurdol, uma espécie de espada feita de ferro, pequena e leve, ideal para anões e para ela que era pequena e esguia. Cada noite um dos sete era responsável por treina-la, mas ela secretamente preferia as vezes em que Baloric a treinava, por ser o mais irritadiço era sempre o que pegava mais pesado no treino e consequentemente era quem mais a fazia evoluir.

A princesa se sentia feliz e acolhida pelos pequenos, era quase como ter uma família de novo, mas a felicidade durou pouco, apenas alguns meses. Enquanto os anfitriões mineravam, a moça saía para buscar algumas frutas no bosque dos arredores e fazer compotas para eles, as maçãs eram suas preferidas. Em uma dessas saídas ela estranhou não encontrar nenhuma fruta madura nas macieiras e voltava pela trilha estreita um pouco menos alegre que o normal.

De longe avistou uma senhora muito idosa sentada em uma pedra com uma cesta de maçãs vermelhas, por um momento achou estranho encontrar outro humano ali, mas vendo a fragilidade da senhora, descartou o pensamento e baixou a guarda.

Passando pela trilha lateral cumprimentou a pobre velhinha, que respondeu com um sorriso, já puxando assunto. Em alguns minutos de conversa já tinha lhe contado que morava numa aldeia próxima dali e que vinha ao bosque buscar frutas para vender aos aldeões, Branca por sua vez não revelou sua morada.

A velha parecia bastante debilitada e pediu ajuda para atravessar a parte mais íngreme da trilha que dava acesso a campina, a jovem, muito educada lhe deu o braço. Ao fim da trilha a idosa lhe ofereceu em agradecimento a mais bela maçã da cesta, Branca recusou inicialmente, mas acabou por aceitar e depois de muita insistência, acabou por provar a fruta ali mesmo.

Assim que engoliu o primeiro pedaço, a princesa sentiu a garganta se fechando e o ar não conseguia mais chegar aos seus pulmões, arranhou a garganta desesperada e tentou pedir socorro a pobre mulher, mas a última coisa que viu antes de apagar foi o lindo rosto da ruiva que tanto lhe fez mal.

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Acordou assustada tentando puxar o ar que parecia queimar ao entrar por suas narinas. Havia um rosto masculino muito próximo ao seu, percebeu isso ao tentar se levantar desajeitadamente e quase se chocar com ele.

Quando finalmente se acalmou, já sentada após ser amparada pelo homem, as lembranças vieram a sua mente de forma vertiginosa. Se deu conta de que deveria estar morta e quase deixou que o desespero a inundasse.

– Não sei se vai se lembrar de mim, sou Hamdan, príncipe de Quetzalan, nos vimos pela última vez no casamento de sua madrasta, a rainha Nefertiti... – Começou ele, assim lhe contou tudo que aconteceu enquanto esteve desacordada.

Se passaram quase sete anos desde que comera a maçã oferecida pela velha. Os anões a encontram caída no chão e aparentemente morta, devido a sua beleza acharam que seria um pecado enterra-la em uma cova escura, por isso fizeram para ela um caixão de cristal e a colocaram em uma espécie de altar de pedra no centro da colina, onde seria tocada pelo sol todos os dias e eles passavam para lhe deixar flores.

O príncipe veio parar na campina por acaso, cerca de um ano antes, quando seu cavalo se assustou com alguns lobos próximos a estrada principal e se embrenhou na floresta desenfreado. Desde que vira pela primeira vez o caixão nunca mais conseguiu afastar-se dali, vindo quase todos os dias visita-la, até que naquele dia tomou coragem para abrir o caixão e provar seus lábios, o que nunca teve coragem de fazer em vida.

A rainha havia ficado viúva novamente e se casado recentemente com o rei de Quimichian, unindo assim três dos cinco reinos conhecido sob seus domínios, começando um reinado de terror em que perseguia e matava todas as jovens mais bonitas, sendo da realeza ou plebeias. Depois que a rainha usou sua magia para adoecer a linda princesa de Cotlan, há cerca de quatro invernos, o rei Reagan pediu a ajuda de Quetzalan para vingar a filha caçula e juntos iniciaram uma guerra contra a megera.

Depois de passado o choque inicial a princesa procurou por seus amigos anões, em consenso geral todos entenderam que apesar da felicidade por sua volta a vida, do carinho e amizade que nutriam, ela não estaria segura ali, assim ficou decidido que Branca iria embora com Hamdan para seu castelo. Como presente de despedida Baloric entregou a ela seu próprio cinto e sua espada whurdol, para que pudesse se defender se necessário.

No palácio o príncipe contou aos familiares toda a história e a princesa foi muito bem recebida por todos os moradores, a final tinham um inimigo comum.

Com o passar do tempo os jovens foram se afeiçoando cada vez mais um ao outro. Quando pelas contas ela completava seu vigésimo primeiro ano de vida ele a pediu em casamento.

Um plano foi elaborado pelo conselho de guerra e todos os nobres dos reinos vizinhos foram convidados para a cerimônia, inclusive a rainha Nefertiti, a quem foi pedido uma trégua temporária. Branca também convidou seus amigos da floresta encantada, porém não exatamente para o baile, pois o que ninguém do castelo sabia era que a jovem tinha seu próprio plano especial para aquela noite.

Vestida como a princesa que era, a noiva estava deslumbrante. Ninguém conseguia desviar os olhos da linda mulher de cabelos negros, agora tão logos que chegavam a sua cintura. Nas costas um adereço inusitado brilhava no espaço do decote. Seus olhos brilharam ao encontrar sua convidada mais aguardada, se havia alguém capaz de roubar a atenção na festa tanto quanto a noiva, era ela, a rainha de Aztlan, que mal podia disfarçar seu ódio e revolta por sua rival ainda andar sobre a Terra.

As duas olharam-se por um segundo infinito, depois desviaram o olhar e seguiram fechadas em seus próprios pensamentos. Após a cerimônia um banquete foi servido e posterior a isso se iniciou o baile.

Em dado momento a princesa cruzou novamente olhares com a rainha, pedindo licença aos outros convidados adentrou um corredor lateral ao salão. Nefertiti a seguiu. Elas caminharam pelo corredor que gradativamente diminuía sua luminosidade, até que Branca parou diante de uma porta de carvalho, a abriu e entrou esperando que sua perseguidora também entrasse.

Quando a ruiva passou pela porta foi surpreendida por uma espécie de rede de malha que despencou sobre si, tentou se desvencilhar, mas graças ao efeito mágico da rede elaborada pelos elfos e fadas a mulher não tinha força para se libertar, ficando cada vez mais presa. Olhando ao redor viu que estava cercada por inimigos, sete homens de baixa estatura e no meio deles a noiva que retirava das costas uma pequena espada.

Vendo que não havia forma de sair, a feiticeira tentou valer-se de seus poderes para lançar uma última maldição.

– Aquela que impunha a espada não o fará uma única vez e a herança que receberá será maior do que poderia querer. Sua dádiva se converterá em maldição e ... – não teve tempo de terminar, pois o próprio sangue começou a engasgar em sua garganta e o metal frio que havia perfurado seu ventre foi retirado sem hesitação.

Enquanto sua madrasta caía morta no chão, Branca sentiu um leve formigamento no coração, que foi se espalhando por seus membros, como se uma energia nova se apoderasse de seu corpo.

– Está bem alteza? – Perguntou Belten preocupado.

– Sim – respondeu ela, com o máximo de segurança que conseguiu. – Por favor tirem ela daqui.

– Não se preocupe com nada, essa aqui não lhe trará mais problemas – disse Baloric, dando um pequeno pontapé no corpo envelhecido.

– Serei eternamente grata – respondeu com um sorriso gentil.

Agora que era muito mais alta que cada um deles, precisou se abaixar para abraçar carinhosamente seus amigos, já que voltariam para sua campina provavelmente não se veriam por muito tempo. Partiu seu coração ter que despedir-se de Harlond, que tinhas os olhos marejados indicando que também era difícil para ele despedir-se dela, beijou sua lustrosa careca enquanto uma lágrima fugitiva corria por sua face direita.

– Adeus menina – disse Belten, o último a deixar o local depois que os irmãos já haviam partido com o corpo.

Branca limpou a espada e a escondeu novamente no decote às costas do vestido, em seguida caminhou de volta ao salão. Toda a ação não durou sequer o suficiente para que os convidados estranhassem sua ausência.

– Está tudo bem? – Perguntou o príncipe assim que a encontrou.

– Sim, estava apenas descansando um pouco. – O sorriso resplandecente da esposa desanuviando qualquer receio do jovem marido.

Na manhã seguinte, a notícia que corria os cinco reinos era sobre o desaparecimento da rainha Nefertiti, um alivio para todos os habitantes, pois colocava fim à guerra que travaram durantes anos.

Com a rainha fora do poder Branca foi declarada a nova rainha de Aztlan e Hamdan seu rei. Juntos, os recém casados rumaram para seu novo castelo, na esperança de que a felicidade perpétua os acompanhasse.

Aqui termina minha imparcialidade, até então, tudo que narrei me foi narrado primeiro, mas o que narrarei a seguir, vi com meus próprios olhos, se é que me permitem dizer de tal maneira.

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Ao chegar em seu novo lar o jovem casal foi recebido com festa, a bruxa havia sumido e o povo comemorava o retorno de sua legítima herdeira.

A nova rainha subiu aos aposentos reais, inicialmente saudosa pelas recordações que o lugar lhe trazia, depois incomodada com o quanto Nefertiti ainda parecia presente ali. Num misto de raiva e desespero, começou a retirar do quarto tudo que pertencia ou lembrava sua antiga ocupante, até que ao tentar retirar da parede o grande espelho dourado, ficou deslumbrada por sua própria imagem refletida no objeto.

– Há muito tempo queria vê-la pessoalmente.

A jovem mulher piscou algumas vezes atônita, antes de crer no que ouvia e responder:

– Quem... quem disse isso?

– É uma honra conhecê-la alteza ou devo dizer majestade? – Respondi.

– Estou vendo coisas – murmurou.

– Ainda não fomos apresentados adequadamente minha senhora – respondi – Sou Amenófes, seu escravo.

– O que é você?

– Sou um espelho, minha senhora, que diz apenas a verdade.

– Como veio parar aqui?

– É uma longa história.

– Conte!

– Eu já fui um homem um dia – comecei – me apaixonei pela mais bela de todas as mulheres...

– Nefertiti – ela comentou.

– Sim, majestade. Como eu dizia, me apaixonei e paguei o preço dessa paixão, fiz tudo por ela e quando não precisava mais de meus poderes, me prendeu aqui para alimentar sua vaidade.

– Seus... poderes? – Perguntou franzindo o cenho. – Que poderes?

– Já fui um grande feiticeiro um dia, meu maior poder era o de ver as coisas que aconteciam longe dos meus olhos.

– Você... foi você quem contou a ela sobre mim? Sobre minhas fugas?

– Sim.

– O que mais contou a ela? – Perguntou aparentemente com raiva.

– Contei a ela no dia de sua menarca que a princesa havia roubado seu posto de mulher mais bela, assim como contei onde morava com os anões. Peço perdão, minha senhora. Como disse, só posso dizer a verdade, quando minha senhora perguntava “Mágico espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?” Tinha que responder com a verdade e mostrar onde estava a pessoa para que ela pudesse eliminá-la se fosse de sua vontade.

– Pode prever o futuro?

– Não, majestade, apenas ver o que se passa, se souber onde olhar, no presente e no passado.

– Me dê um motivo para não fazê-lo em pedaços agora mesmo?

– Não poderia fazer isso mesmo que tentasse. Apesar de ter herdado os poderes dela, apenas quem criou o feitiço pode desfazê-lo, com a morte da minha antiga ama o feitiço que protege esse espelho se tornou permanente. Sou agora uma parte desse castelo, não posso ser destruído, mas apenas aquela que possui o poder de minha senhora pode me ouvir.

– Que poder é esse de que fala?

– Quando apunhalou Nefertiti os poderes dela passaram a vossa majestade, por isso pode me ouvir e falar comigo, essa é a herança com a qual não contava.

A rainha me olhou em choque, provavelmente não havia parado para pensar na maldição lançada pela madrasta.

– Eu sou uma feiticeira? – Perguntou, olhando para a as próprias mãos como se esperasse que delas saísse algo.

– Devo explicar-lhe como funciona? – Questionei. Ela apenas assentiu.

– Os poderes de que lhe falei não são ilimitados, ao contrário, cada feitiço exige um tipo específico de devolução ao universo – comecei. – Dependendo da intensidade do feitiço é a intensidade do pagamento – ela me olhou confusa, então expliquei. – Uma peste de grande escala lhe toma sete anos de juventude, o mesmo para qualquer feitiço de morte, por isso entre um feitiço e outro minha rainha precisava usufruir de meios mais humanos para conseguir o que queria, a beleza era afinal seu grande trunfo.

Ela franziu o cenho por um momento, como se juntasse peças em um quebra-cabeças, depois perguntou:

– Como meu pai morreu?

– Envenenado, poções são habilidades adquiridas, por isso não entram nessa conta de equivalência universal. – Ela parecia mais curiosa do que chocada.

– O mesmo para os outros maridos?

– Sim, todos envenenados em pequenas doses, dia após dia, até a morte.

– Para alguém tão poderosa, sua ama morreu muito facilmente – comentou orgulhosa.

– Ela estava impossibilitada de usar seus poderes. Com tantos anos dados em pagamento por seus feitiços ela estava ficando velha e concentrando todo seu poder para manter a aparência jovem.

– Isso explica ela não ter envelhecido desde que fugi e ter envelhecido tão de pressa quando o coração parou de bater, havia estranhado principalmente que ela não tenha reagido quando viu que eu a mataria, apesar da rede mágica, supus que nisso tudo haveria algum tipo de desafio. Me enganei.

– Ela podia retardar seu envelhecimento, mas não era imortal, assim como vossa majestade.

– Eu sou jovem, não preciso de artifícios para retardar meu envelhecimento – disse petulante.

– Sim, minha senhora, por enquanto.

Ela sorriu irônica, aproximou-se de mim e disse desafiadoramente as palavras que acreditei que nunca mais ouviria:

– Diga mágico espelho meu, existe alguém mais bela do que eu? – levantou uma sobrancelha arrogantemente.

– Não majestade, és a mais bela entre todas as mulheres.

Ela sorriu e deixou os aposentos reais, daquele dia em diante, todas as manhãs a Rainha Branca de Aztlan vinha a seu closet pessoal e me fazia a mesma pergunta, por dez anos a resposta foi sempre a mesma, porém em um dia de verão uma jovem camponesa chamada Amora lhe roubou esse posto, a garota foi trazida ao castelo pelo guarda de confiança da rainha e nunca mais foi vista, assim sucedia cada vez que a resposta se tornava negativa e com os anos a negativa se tornou cada vez mais comum.

No auge de seus quarenta anos minha ama passou a usar seus poderes para manter seu rosto jovem e atraente, mas o tempo passa para todos, até para aquelas que se recusam a perder sua juventude, ao ponto que um dia, cerca de vinte anos depois do dia em que fomos formalmente apresentados, minha senhora me procurou e novamente me questionou:

– Mágico espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?

– Sim vossa majestade, sua filha Ariela és a mais bela entre todas as mulheres – a filha caçula, única menina de seus três herdeiros, tinha finalmente chegado à puberdade, deixando se ser criança e tornando-se uma mulher.

A Rainha olhou-se através de mim, depois baixou os olhos para os próprios pés, não sorriu ou expressou qualquer opinião depois disso, simplesmente deixou a pequena sala e saiu.

Do quarto ouvi sua voz abafada perguntando ao marido onde estava Ariela.


Notas Finais


Talvez tenham percebido que eu tenho uma tendência, quase compulsiva, a quebrar a quarta parede durante a narração em terceira pessoa, quem lê minhas histórias originais percebe muito isso, em algum momento meu narrador precisa se dirigir diretamente ao público, considero isso culpa de “A menina que roubava livros”, enfim, só pra justificar caso alguém tenha achado estranho kkkk.

Enfim, espero que tenham gostado, essa ideia surgiu a partir do extinto desafio04 da @Caverna_Ryuchi, como a história tava pronta há algum tempo, acabei decidindo postar, para que todas as pessoas envolvidas no projeto saibam o quanto esses desafios são inspiradores e motivadores.

Meus agradecimentos em especial a dona @Mih6493 por sempre aguentar meus áudios cheios de ideias aleatórias e abstratas quando eu dizia que não ia escrever nada, e a dona @tiadoNarutovisk por betar essa minha história.


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