1. Spirit Fanfics >
  2. Believer >
  3. Fio Vermelho

História Believer - Capítulo 2


Escrita por:


Notas do Autor


Em breve sairá um booktrailer dessa fic <3

Papo sério aqui, é muito difícil divulgar esse tipo de fanfic e encontrar alguém que realmente goste, portanto, eu peço todo o apoio que vocês puderem dar. Sem mais delongas, boa leitura.

Capítulo 2 - Fio Vermelho


Fanfic / Fanfiction Believer - Capítulo 2 - Fio Vermelho

Guarde a experiência como um tesouro.

— Kimi No Nawa

            O alvorecer cintilava as margens dos arranha-céus de Busan. Dentro de um dos prédios luxuosos, havia profissionais dividindo o mesmo espaço físico, de modo que pudessem trabalhar em equipes.

Chung-Ae saiu às 8h da manhã e solicitou ver Dong-Sun, seu advogado. Ela absorvia as palavras dele, dispersas no ar; sabia o quão confiável e prestativo ele estava sendo em abundantes assuntos, no entanto, ela não era tão firme quanto ele.

A mulher não se preocupava em deixar MinHee e Hak-kun sozinhos em casa, visto que educara seus filhos desde cedo a se virarem em sua ausência. Certa inquietação nela era proveniente do dinheiro de emergência ter sumido.

            Parte da racionalidade de Chung-Ae dizia que foi fruto de sua imprudência. Ela poderia ter perdido o dinheiro na hora das limpezas do armário. A outra parte agia sensitivamente; gritava nos pés do ouvido dela falando que foi roubada de alguma forma.

            Ela faria compras mais tarde no mercado e agradeceu a Deus por ter dinheiro para isso. Um dia antes, Hyun disse que tinha que resolver problemas pessoais e nunca se explicava em detalhes a alguém.

            No trabalho, Chung-Ae entrava em contato mensalmente com o fornecedor do Pier e negociava as mercadorias precisas. O varejo (MinHee e ela) calculava a necessidade e enviava os pedidos ao fornecedor. Elas faziam a Reposição Contínua — compras com frequência, mantendo redução de custos com estoque, a diminuição de perdas materiais, seja por compra errada de produtos ou por outra coisa.

            — Entendo a tamanha preocupação que deve estar sentindo agora — disse o advogado, e Chung-Ae agiu como se tivesse sido abordada por um fantasma, pois sua mente estava longe. — Pedir conselhos a um perito em casos difíceis foi, sim, o melhor a se fazer. No seu lugar, eu investigaria cuidadosamente todos os moradores da casa. Filhos, quem visitou a casa no dia do desaparecimento, marido, seja o que for. Não acuse nem se descontrole, apenas fique atenta. Observe os passos de cada um, quem costuma ir constantemente ao seu quarto, se você já pegou alguém mexendo nas suas coisas...

            “E não se esqueça de reparar se alguém aparecer com algo caro para você. Um presente ou até uma coisa que a pessoa comprou para ela mesma. Tenho um palpite: é plausível você esconder documentos atrás de outros objetos, assim como o dinheiro dentro ou embaixo de algo pesado. Se realmente estão te roubando, adote a ideia de verificar se a pessoa está mentindo através dos sinais do seu corpo. Veja se ela olhará diretamente em seus olhos. Não a persiga, pelo contrário, mostre ser inteligente sem ter que se arriscar muito.”

            Chung-Ae aquiesceu. Parecia perturbada com alguma coisa além da ajuda pedida.

            Em algum lugar dentro dela ainda doía desejar dias melhores sem Hwan. Era como se ela não pudesse ter uma vida normal após a morte dele, mas tentava se conformar com a situação usando todas as suas forças.

            — Há algo lhe importunando? — perguntou Dong-Sul. — Nossos segredos serão ditos e alojados dentro dessas quatro paredes.

            — Estou pensando em uma pessoa — disse Chung-Ae, a voz embargada e a garganta dolorida pela friagem. — Meu atual companheiro, Hyun. Estamos há 3 anos juntos e doei minha confiança a ele. Sei que ele fez o mesmo por mim. No entanto, minha mente me tortura dizendo com convicção que ele está agindo estranho. Mas ele não seria capaz de praticar furtos. Estou levantando suspeitas de ter sido alguém de fora, algum ladrão invadindo minha casa à noite enquanto eu e meus filhos dormimos.

            — Qual reflexão levou a senhora a pensar sobre esse homem estar estranho?

            Chung-Ae pensou em sua irmã, Hee-Young, mãe do pequeno Chin. A fim de apresentar Hyun à irmã mais nova há 3 anos atrás, Chin estranhou de imediato a presença do homem e chorou. É um menino que apronta bastante, o oposto de Hak-kun quando novinho. Enquanto Chung-Ae e a irmã conversavam sozinhas, Chin permanecia no colo da mãe brincando com seus cabelos ruivos e com os cabelos negros de Chung-Ae. Ele a adorava e detestava Hyun.

            Hee-Young vivia contando a respeito da alta percepção de Chin — ver quem era uma boa pessoa ou não. Porém Chung-Ae descartou a informação, pois Chin é apenas uma criança sensível e birrenta. E Hyun nunca fez mal a Chin — embora ter uma tatuagem de serpente exposta bem no pescoço fosse motivo o suficiente para assustar uma criança.

Chung-Ae oscilava em apreensão, cheia de dúvidas. O fragmento da frase de Dong-Sul flutuava no ar: no seu lugar, eu investigaria cuidadosamente todos os moradores da casa.

            Naquele escritório fechado de advocacia, ele entrelaçou suas mãos acima da mesa transparente de vidro, aguardando a resposta de sua cliente.

            Chung-Ae nada disse.

            — Não lhe obrigarei a me contar — disse o advogado pacientemente. — Está óbvio que tem motivos. Então vou lhe pedir mais uma coisa: fique de olho neste homem. Na hora de mentir, todos se tornam profissionais.

            ✦

            Há coisas que perdemos a coragem de contar na hora certa ou na hora errada. O que nos manda avisos é o subconsciente, aquela mensagem oculta em nosso interior que nos cala quando necessário.

            MinHee já acordou caindo da cama. Gritos preencheram seu quarto e a primeira imagem embaçada vista pela garota foi a de Chung-Ae entrando no cômodo, boquiaberta e encostando a porta.

            — Kim MinHee — sussurrou. — O que diabos aconteceu com o restaurante? Eu fui lá agora há pouco, tudo estava aparentemente normal do lado de fora. Eu esperava encontrar as coisas arrumadas como sempre, mas... Pelo amor de Deus, havia pratos e copos rachados, cadeiras derrubadas, o que aconteceu ali?

            MinHee sabia que estava certo não ter contado a verdade ontem à noite, e vendo a mais velha amanhecer assim a machucava. Ela pretendia mostrar a verdade junto à mãe, que assistissem às filmagens das câmeras do Pier e conversassem calmamente. Mas por onde MinHee começaria a se explicar? Dizendo que quase levou um tiro na cabeça, para não ser acusada totalmente de culpa do Pier estar deplorável?

            — Mãe. — Ela levantou do chão sonolenta, o edredom florido enroscado em seu quadril. — Eu posso explicar. Eu estava fechando o restaurante e um homem me forçou a abrir o caixa, ele iria levar o seu dinheiro embora... e eu não permiti.

            Chung-Ae sacudiu a cabeça como se estivesse ouvindo coisas.

            — O que você disse? O restaurante foi assaltado e você atacou um criminoso? Esses homens invadem estabelecimentos na maioria das vezes armados!

            — Bom, eu não falei nada de atacar — disse MinHee, sentada na cama e os cabelos em pé. — Juro que não fiz por mal, eu sabia o quanto você estava preocupada com suas economias acumuladas por meses, aí eu quis me defender. Na verdade, nos defender. Tentei tirar a arma dele — ela tremia se lembrando da cena e gesticulando —, mas ele lutou comigo... — E um cara com máscara de coelho me salvou, pensou ela.

            — Você tem ideia do que fez? — interrompeu Chung-Ae e pôs as mãos nas têmporas, como se estivesse com dor de cabeça. — Fez tudo isso por causa de uma porcaria de dinheiro? Eu devia ter mandado Ji-hoon fechar o restaurante ontem. Eu vivia lhe falando para não reagir se algo sério acontecesse, para não arriscar sua vida, para pedir socorro... mas você não me escuta! POR QUE VOCÊ TEM QUE SER IGUAL AO SEU PAI?

                MinHee ficou em choque com o alto e dolorido tom da outra, tentando processar as palavras dela e encará-la — havia manchas escuras de cansaço em volta de seus olhos.

Chung-Ae raramente ficava descontrolada. Parecia um milagre a palavra “Pai” e o nome “Hwan” vir à tona depois de meses.

            — Mãe...

            — Você não vai mais me ajudar até uma segunda ordem. — Agora Chung-Ae não olhava mais nos olhos da filha. — Se tivesse feito o que o bandido pediu, se tivesse permitido que perdêssemos nosso dinheiro, talvez o Pier não tivesse ficado nesse estado.

            — EU FIZ ISSO PELA MINHA FAMÍLIA — gritou MinHee de repente. Chung-Ae teria saído se não se impressionasse com a resposta dela. — Eu me lembrei das suas preocupações se precisássemos de um médico urgente, se faltasse comida na mesa, senti na pele nossas dificuldades! Você nem perguntou se eu estou bem e se sofri um arranhão. Você prefere dar atenção a quem não dá a mínima para nós — Chung-Ae, incrédula, recua quando a garota começa a andar até ela. — Isso mesmo, a Hyun! Enquanto ele está por aí enchendo a cara, eu poderia ter morrido!

            — Pare de falar desse jeito, MinHee! — A voz dela embargou. Devia ser por isso que seu tom anterior estava rude: para ocultar o seu medo de escutar a verdade.

            MinHee sentia seus nervos à flor da pele e seu coração murchando. Ela ergueu a cabeça, ficando ereta.

            — Estou chateada, mãe. Você apenas disparou acusações e críticas, nem demonstrou ter medo de me perder. Mas saiba de uma coisa: eu posso ter errado muito, mas pelo menos eu prefiro morrer pelo bem da minha família do que por algo que não valerá a pena.

            Chung-Ae a encarou pasmada. Abria e fechava a boca, perdendo as palavras pela mente. A figura mais nova à sua frente tinha as bochechas coradas de raiva, como duas maçãs puramente vermelhas.

            — Não aja desse jeito — disse a mulher em um fio de voz. — Era exatamente assim que você ficava quando não podíamos ir à praia com seu pai.

            MinHee sentiu algo empurrando suas lágrimas para fora dos olhos. Por que ela tocava no nome do papai agora? pensou.

            — Eu ajo — retrucou MinHee fracamente. — Você está com outro. Não ouse fingir que sente falta do meu pai. Eu vejo como está sorridente perto de Hyun.

            Chung-Ae parecia vazia de alma, apertando os lábios secos, como se neles não pudesse existir nenhum sorriso.

            — Sabe quando você ama alguém — murmurou — e acha que esse alguém não morrerá nunca? Que se ele morrer, você também deverá morrer, pois a dor destrói a sua fortaleza e vontade de viver? Aí você ridiculamente pensa que é possível encher lugares no coração, que pessoas substituem pessoas, que um amor antigo deixará de reinar um dia...  Chega uma hora em que ser tratada como lixo não importa mais. Você se apoia mesmo assim em qualquer pessoa, porque se ela for embora, você saberá que vai despencar de novo no precipício. Você não confia mais na própria força. Então cai a ficha bem acima das nossas cabeças... nada vai trazer Hwan de volta. Aquelas chamas o levaram com elas.

            Foi realmente revelado. Hyun estava tratando-a mal desde sempre. Não só fazia isso com Hak-kun e MinHee. Chung-Ae escondia suas vulnerabilidades para viver numa mentira amarrada em sua garganta há 3 anos.

            O corpo de MinHee esquentou ao relembrar da história sobre o fogo dourado e irreal que resplandeceu em seus olhos infantis naquela época, pela primeira vez. A história do Pássaro de Fogo.

            Ela saiu do próprio quarto. Não teria coragem e falta de educação de expulsar sua mãe de lá. Achou melhor sair correndo, trancar-se no banheiro e chorar.

            ✦

            Hak-kun escovava os dentes, estudando seu reflexo no espelho.

            Os cabelos escuros desgrenhados estavam tortos principalmente na franja grande. Apesar de Chung-Ae e MinHee terem o couro cabeludo liso, ele puxara o lado do pai e ganhara ondulações.

            Hak-kun se perguntava a razão do diretor idoso da High School arrumar tantas reuniões com os pais ou professores para contar suas ideias — digamos que infalíveis para a evolução da escola. Era chato. O garoto muitas vezes tinha que desviar do diretor para não ser pego numa conversa de duas horas seguidas.

            Hoje Hak-kun não teve aula pelo possível Conselho de Classe que está sendo realizado. Chung-Ae já estava avisada. Ela disse a ele que visitaria Hee-Young, que se encontrava doente e precisava de ajuda para cuidar de Chin.

            O menino cuspiu a pasta de dente na pia e franziu o cenho. Pensou em estar ouvindo sua mãe gritando e rapidamente lavou a espuma em torno de seus lábios para que não molhasse o chão.

            E foi para o corredor da casa, encostando na parede branca e cruzando os braços sobre o moletom rosa.

            Machucava ser a testemunha de brigas familiares, inclusive quando sua mãe e sua irmã encenavam que estava tudo bem. Sempre mentiam. Não seria mais fácil serem honestas e justas com ele?

            Tudo bem, ouvir a conversa dos outros não é certo, porém ele se preocupou com as duas mulheres da casa. Será que MinHee tinha feito algo de errado?

            Após um tempo, ele foi ouvindo tudo. Ouviu sobre o Pier ter sido prejudicado, sobre o pai biológico que não se lembrava, sobre saudade, sobre Hyun, sobre amor, e fez um esforço para não entrar naquele quarto. MinHee podia ser implicante às vezes, mas se dedicava para ser um exemplo. Imagine o aglomerado de julgamentos para suportar calada, porque se você não é a adulta, mas está na fase de amadurecimento, tem que aceitar os sermões dos adultos.

            E ela não abaixava a cabeça tão facilmente para essas regras.

            Ele também seguiu o único grito dela, algo que por dentro o deixou orgulhoso. Hak-kun poderia ser imaturo, no entanto queria se transformar numa pessoa decidida como MinHee. Proteger a família acima das dificuldades... é assim que as coisas devem funcionar.

            Porém, lá no fundo, ele não se sentia bem com as discussões.

            Assim que elas terminaram, ele viu MinHee. Lá estava ela, os cabelos bagunçados e as roupas grossas amassadas. Ela parecia uma criança traumatizada e ferida, correndo para o banheiro sem olhar para ele. Hak-kun acompanhou os movimentos dela e fechou os olhos, o som da porta batendo com força.

            Esse era o caos: o caos que Hyun causou nos Kim.

            Hak-kun sentou no chão do outro lado da porta do banheiro. Viu Chung-Ae ir na direção oposta do banheiro e sair do corredor com sua bolsa, rumo às ruas. Ele ficou ali, ouvindo os soluços amontoados da irmã — que lutava contra o choro. Ela odiava chorar e dizia a ele que mostrar fragilidades era uma escolha ruim; as pessoas gostam de tirar proveito de você nesse momento.

            Hak-kun se lembrou de uma outra MinHee, uma que empinou o nariz assim que ela, ele e Hyun brigaram escondido na semana passada.

            — Pare de nos tratar assim, senão eu conto tudo para ela — grunhiu MinHee, sentada no sofá enquanto Hyun atrapalhava a visão dos irmãos na frente da TV. — Há uma televisão no seu quarto.

            Hyun bufou e sorriu.

            — Você não quer deixar a sua mãe triste, ou quer? — disse ele. — Me dê a merda desse controle e saiam logo daqui.

            — Eu e meu irmão não vamos a lugar algum — MinHee sorriu. — Venha me tirar se for homem o suficiente.

            Por um momento, Hyun pareceu virar um cão raivoso e querer partir para cima dela. E foi nesse momento que Chung-Ae chegou em casa que ele pôs de volta a máscara de bonzinho.

            MinHee fazia de tudo por Hak-kun. Então, atualmente, ele sussurrou:

            — Quer ver Boku No Hero comigo, maninha?

            A voz dele saiu com ternura, como se fosse o mais velho agora. Aquele tipo de irmão que sabe de cor e salteado como animar a irmã mais nova.

            Boku No Hero se tratava de um anime bastante famoso no Japão. Ele contava a história de Izuku Midoriya, um dos poucos da população sem Individualidade/Poder em um mundo onde a maioria dos cidadãos nasceram com esse privilégio. Isso levantava a questão de que, se Midoriya sonhava em ser um super-herói competente, como ele seria se a natureza não o beneficiou?

            — Q-quero.

            MinHee soou o nariz e eles se levantaram do chão simultaneamente. Na ocasião em que ela saiu do banheiro, eles entrelaçaram suas mãos.

            “Vamos ver no meu quarto”, Hak-kun dissera antes de ficarem empolgados com a ideia. O garoto tinha precisado inclinar a cabeça para baixo para falar com a irmã.

            Sentados em frente à escrivaninha, Hak-kun ajeitou os óculos redondos, ansiando pela a cena que viria a seguir.

            — Essa é a melhor parte do episódio — disse ele. — Não me canso dela, mesmo que eu já tenha visto cinco vezes.

            — Se eu tivesse poderes, explodiria Hyun — comentou MinHee, pensativa. — Imagina só o explodir e as tripas dele voando para todos os cantos!

            Hak-kun gargalhou tanto que pensou que fosse fazer xixi na calça de moletom. Admirava o cinismo de MinHee, apesar de não gostar de desejar a morte alheia.

            — Esse é o melhor anime de todos os tempos — disse Hak-kun, encantado. Na tela do computador, cenas de lutas na Academia de Super-Heróis prendiam a atenção de MinHee. — O universo conspira contra você e contra os seus sonhos, mas você mesmo assim enfrenta bravamente a própria natureza, porque a crença em seus objetivos deve ser superior que as barreiras.

            — Você tem 14 anos, mas fala como se tivesse 20.

            Foi prazeroso ficar horas maratonando Boku No Hero. Eles acabaram a terceira temporada rapidamente e Hak-kun limpou uma lágrima insistente. Ele pensara que MinHee não tinha visto, mas ela viu e olhou para qualquer canto, sorrindo fechado, e deixou a cabeça cair no ombro esquerdo do caçula.

            ✦

            Segundos se passaram para o barulho de uma pancada dar um susto nos irmãos. Os dois soluçaram e se entreolharam.

            Hyun.

            Somente Hyun chegava assim. A maioria das coisas não quebradiças eram arremessadas no ar, e elas eram dos Kim, então Hyun pouco se importava se danificaria algo. Antes de Chung-Ae voltar, ele mandava Hak-kun arrumar tudo e MinHee levaria a pior se o ajudasse.

            MinHee suspirou e pediu para Hak-kun ficar no quarto em segurança. Ele, hesitante, acabou concordando e deixando a irmã assumir a cautela — todo esse receio e cuidado porque não queriam ser alvos fáceis de uma pessoa desequilibrada.

            A garota calçou os chinelos, abrindo a porta do quarto e saindo devagar. Logo se deparou com a seguinte cena: Hyun tropeçando, apoiando-se no braço do sofá da sala e resmungando; a cópia das chaves da residência estavam caídas.

            MinHee sentiu algo arder em seu sangue... algo muito parecido com a fúria. Ela se lembrou, ah, e como se lembrou do criminoso dizendo que estava no Pier a mando do padrasto dela.

            Então aproveitou-se do estado dele e se aproximou. Vamos ver se agora você saberá mentir, ela pensou, não ligando se estaria agindo precipitadamente.

            Hyun parecia que ia vomitar a qualquer momento e essa reação estava aumentando só de ver uma das mulheres que detestava em sua frente.

            — Oh, vejo que está feliz por me ver — disse MinHee.

            — Não me provoque hoje, garota — respondeu Hyun arrogantemente. — Vá para algum lugar longe de mim. Olhar para a sua cara me irrita.

— Acho que ficará ainda melhor quando souber que seu fiel lacaio foi preso ao invadir o restaurante da minha família — disse MinHee, sem se importar.

            O ambiente ficara inquietante. Hyun levantou depois de algumas tentativas e ficou reto, exibindo um sorriso que MinHee sabia que não era real.

            — Você deve estar ficando louca. — Ele deu uma risada fraca. — Se alguém invadiu o restaurante, deve ter sido por culpa da sua falta de atenção, não? E não tenho lacaios, já falei que não roubei ninguém.

            — Dae Jun-Ho confessou, seu miserável — MinHee rangeu os dentes. Em seguida, endireitou a postura para não perder seu autocontrole. — Ele estava prestes a me matar e foi muito imbecil ao dizer quem era seu patrão. Você deve ter andado pelos bares desta cidade contente pensando que se daria bem novamente às nossas custas. — Ela fez um bico. — Mas não foi dessa vez. Estou com uma peninha...

            Hyun mudou de expressão como um robô. Ele visivelmente transbordava exaspero ao saber que estava correndo risco de ser descoberto — não só por Chung-Ae, uma presa dócil, mas pela polícia, que já estava na cola dele antes.

— Você não contaria...

             — Ah, Lee Jung Hyun... Não, lógico que não. Eu vou prosseguir com o teatrinho e dizer que é um bom padrasto até virar um papagaio, quando na verdade é um imprestável. Cara, nem útil você consegue ser. Agir bondosamente com o próximo seria impossível.

            Hyun encarou o chão e seu semblante estava desenfreado — o maxilar duro feito pedra e a boca em constantes movimentos, como se por dentro ele não aceitasse ser insultado por MinHee. Então disse:

            — Percebeu onde está se metendo? Você é apenas uma cadelinha que implora por sustento e não sabe se proteger sozinha, mas pensa que sabe. Aparentemente, a sorte fica do nosso lado, e do nada ela se vai. Se daquela vez você não saiu do meu caminho, hoje é o seu grande dia de azar.

            Hyun parecia sóbrio ameaçando MinHee. Ela diria “desperdício de palavras”, mas se calou assim que o maior arrancou brutamente a fita vermelha do cabelo dela — a mesma fita que enlaçava os cabelos negros e que agora os soltava. Ela não só sentiu uma dor pelo puxão, mas também gritou de espanto, como se uma parte de Hwan tivesse sido ferida. A fita foi presente dele.

            E Hyun sabia que foi.

            Nesse momento, MinHee se lembra brevemente de seu passado na Praia de Haeundae e na frase que Hwan disse a ela em um sonho: as boas lembranças nunca mudam. Por isso as carregamos conosco.

            Ela via a imagem dele todos os dias. Não havia uma noite em que ele sumia de seus sonhos.

            Em 2019, a fatalidade completava 13 anos. Ela foi a matriz para MinHee declarar-se ateia, pois ficou totalmente bloqueada de ter crenças no divino e de aceitar o que aconteceu naquele velho apartamento — algo que nem seus amigos sabiam.

            A casa dos Kim foi comprada alguns meses após a tragédia. Seria inadmissível continuar a morar naquele lugar.

            MinHee arfou igual um passarinho com sede, os lábios entreabertos e a respiração acelerada. Viu que o presente de infância foi jogado perto da mesa da sala e tentou pegar, por isso foi arrastada e empurrada por Hyun nos ombros contra uma das paredes.

            Hyun naturalmente partia para a violência e não seria nessa hora que, estando embriagado, ele pararia.

            — Você gosta de me provocar, não gosta? — falou, apertando os dois pulsos dela. — Está implorando por uma surra desde a primeira vez que me enfrentou.

            Ele faltava cuspir na cara da garota e fazê-la desmaiar com o péssimo hálito. Ela não teve tempo de reagir; enquanto falava frases de baixo calão, Hyun a estapeou no corpo com força e a sacudiu, gritando palavrões em seu rosto.

Ele era mais forte do que Jun-Ho e MinHee sentiu essa diferença.

            — Me larga! — berrou.

            — Você e a vaca da sua mãe vão se arrepender de ter nascido — ele sibilou. — Depois do golpe final, além de ser um fardo, ela se tornaria um simples saco de lixo pronto para ser jogado fora. E você estragou os meus planos!

            Aquilo foi a gota d’água para MinHee. Ouvir aquelas ofensas a enfureceu e a conduziu pela dor de ter se desentendido com Chung-Ae. MinHee se lembrou que Hak-kun poderia ter escutado aquela discussão e se culpou; devia ter se controlado como sempre fez. Abaixar a cabeça e ficar calada para tudo não é uma boa opção, mas pelo menos evitava certas palavras a mais para saírem.

            A garota, sob os braços fortes de Hyun a segurando com força, explicou bem sua indignação apoiando sua própria força nele. Ela levantou as duas pernas e chutou simultaneamente o país baixo de Hyun. Ele urrou, levando as mãos diretamente para a região e caindo no chão.

            MinHee se ergueu e falou:

            — Quem procura, acha.

            O esforço e rigidez de Hyun estava imparável, tanto que se suspendeu do chão cambaleando e fazendo uma expressão alucinada.

            — Quem você pensa que é para lutar comigo?

            MinHee se retirou do lugar, dizendo:

            — Mulher o suficiente para lutar com você.

            Algo explodiu nos olhos foscos de Hyun, entretanto uma voz familiar detonou de maneira superior atrás dele.

            MinHee havia se esquecido da presença de Hak-kun. Hyun com certeza pensava que ela e ele estavam sozinhos. Min-Hee esbugalhou os olhos ao ver o caçula com o telefone sem fio nas mãos trêmulas, sua boca rosada oscilando.

            — Se encostar nela de novo, eu ligo para a polícia.

            O menino guerreou para não gaguejar e MinHee viu isso. Vê-lo assim era como se desferissem um soco em seu estômago. Ele estava tão decidido a protegê-la e ela tão orgulhosa que o mundo à sua volta foi excluso.

            Hak-kun parecia morrer de medo só de pensar no que Hyun seria capaz de fazer contra ele. E quando MinHee viu o adulto se aproximando dele, ela correu e se colocou na frente do irmão — os braços segurando-o por trás —, esbravejando.

            — Não ouse colocar um dedo nele!

            Ela sentiu o olhar quente de Hak-kun em sua cabeça. Ele era o mais novo, o mais sensível e o mais protetor. Não parecia, mas era, e ela sabia disso; apenas estava cansada de fingir que a situação inteira estava sob seu controle. Ela precisava de ajuda.

            Foi aí que barulhos de sirene da polícia ecoaram pelas ruas noturnas. Hyun na mesma hora encarou qualquer ponto e se desesperou, caminhando de forma conturbada para os fundos.

            De onde estava, MinHee viu a porta da saída principal se abrindo. Ela apresentava uma Chung-Ae vestindo um casaco enorme de lã e o semblante nulo. Era notório que ela havia chamado a polícia e ouviu os gritos de Hyun e MinHee.

            MinHee teve vontade de ir até a mãe e abraçá-la, mas algo a conteve. Talvez a mágoa, o orgulho ou os dois juntos. A visão da menina embaçou ao se virar e abraçar Hak-kun, aninhando a irmã em seu peito e achando que estava tudo bem, já que a polícia entrou na moradia e apanhou Hyun.

            Porém não estava tudo bem e Hak-kun notou isso ao soltar MinHee. Depois que a polícia saiu e Chung-Ae deu-lhe espaço, MinHee correu até seu quarto, vestiu-se apropriadamente e pegou a mala roxa que arrumou de manhã após a discussão. Ela já pensava em se ausentar de casa para esfriar a cabeça — mesmo se tivesse que pedir ajuda de alguns amigos —.

            Enquanto pegava suas coisas, afundava-se numa conversa antiga que teve com Hak-kun. Um dia, querido irmão, você estará sozinho. Mas você não é sozinho, entende? Um dia aprenderá a conviver consigo mesmo. Será um garoto muito responsável e ajuizado.

            Chung-Ae viu naquela tarde a verdade transmitida nas câmeras do Pier e MinHee não sabia disso. Só assim Chung-Ae ficara do lado de sua filha. Por que não tentou ser compreensiva antes? Por que precisava de uma prova viva e de agressões físicas contra MinHee para finalmente ceder?

            A mente de MinHee estava desconexa e repetia que não dava mais para ficar ali. Pelo menos por um tempo. Se tivesse que ir à polícia falar sobre Hyun, ela iria sozinha.

            Pegou sua fita de volta e depois estava carregando roupas consigo, porta-retratos, seu celular e outros objetos importantes. Odiou ter visto Hak-kun olhar disparadamente para as mulheres, visivelmente não entendendo nada, e MinHee ignorou certa pontada de dor.

            Ela só hesitou quando parou na porta e encarou a mãe de soslaio. MinHee podia receber seus pensamentos: sairá sozinha? À noite, em plena tempestade de neve? Mas MinHee acreditava em sua força e a neve não a pararia.

            Chung-Ae parecia engolir chumbo. Ela não queria que sua filha fosse, mas também não a olhou e não a impediu.

            Aquilo foi o stopim para MinHee deixar sua casa, desviando de alguns oficiais ao passar por eles.

            ✦

            MinHee decidiu não recorrer a conhecidos, e sim a procurar a Escola Yoonsei.

            Não eram todos os praticantes de Kung Fu que estudavam nela, é claro. Havia outras escolas desenvolvidas e espalhadas pelo continente asiático, capazes de suportar uma boa soma de alunos. A principal coisa que preocupava MinHee era se a abrigariam mesmo se ela não pudesse pagar a matrícula caso fosse preciso. Tudo o que ela mais queria era se ver longínqua dos rastros de Hyun, e além do mais, a curiosidade esperneava para saber a identidade do garoto mascarado que conheceu.

            A friagem se impregnou rapidamente nas pessoas que andavam pela noite. MinHee acordou três vezes na madrugada passada, ansiosa pelo dia que estaria por vir. Ainda aproveitou a ideia recebida de procurar o endereço da tal Yoonsei e desenhou num papel o mapa visto.

            A TV não podia divulgá-lo, mas no Google Maps havia tudo em detalhes. Se você partir do Distrito de Busan, onde os Kim moram, há o caminho definido até a Escola.

            Devia ter esperado uma semana para me decidir direito, pensou MinHee. Ela não estava hesitando ao afastar-se da cidade na escuridão mediana, vendo os prédios gigantescos ficarem distantes, as lojas, Drive-Thru's e carros perdendo destaque. Entretanto ainda sentia uma incerteza, pois não sabia se o mapa descoberto na internet era antigo ou atual. Estava exausta quando foi procurar.

            Como o garoto-ninja havia dito, o destino ficava longe do centro e perto de um extenso lago. Não tinha muitos lagos em Busan, portanto o que ele mencionou devia ser importante e diferente.

            MinHee teria de dar um jeito para ser perdoada por Hak-kun, já que pensava em deixá-lo há alguns meses. A companhia do irmão adiantava, sim, todavia os momentos ruins eram o suficiente para sufocá-la.

            E Hak-kun repetidamente era colocado de fora dos planos da irmã e da mãe, não recebia informações importantes e consequentemente não podia ajudar muito pela experiência e maturidade insuficiente. Essa proteção deixava-o pior, pois era como se o mantivesse numa bolha.

            MinHee segurava o papel com força na mão direita e a esquerda arrastava a mala de rodinhas. Daria 20h e o tempo voou. Ela não estava pensando direito, se escolher confiar em suas técnicas de Kung Fu um pouco enferrujadas era a coisa certa... Na verdade, desconfiava que havia se motivado milagrosamente graças ao garoto-ninja. E detestava isso. Ela devia fazer essa escolha por vontade própria, não por ter inflado o ego ao receber elogios inesperados.

            Chegou uma hora em que a garota pressentiu estar perdida. Não tinha mais ninguém para pegar informação, havia apenas algumas moradias simples — presumivelmente abandonadas —, arbustos a seu redor e uma trilha de trem ficando próxima. Tivera ido tão longe assim? O caminho presente nem possuía áreas para estacionar carros. Droga, pensou, será que depois dessa trilha enorme eu vou encontrar o lago?

            E fez isso na esperança de também encontrar uma pessoa que conheça o lugar. Não estava com medo, mas enquanto caminhava, tinha a sensação de que a observavam — uma sensação que sumia e aparecia. Era confortante ter sido atacada por dois caras e ainda ter a impressão de ser perseguida por um maníaco.

            Flocos de neve caíam sobre o gorro de MinHee, que decidiu fazer o que as pessoas faziam nos filmes para despistar alguém: andar mais rápido. Agora estava praticamente correndo — não sabia que estava tão desesperada assim — e quase topando contra as diversas pedrinhas do chão. O sentimento de perigo aumentava e amassava seu coração, que doía devido à ansiedade arrebatada.

            Foi aí que ela se cansou e virou, ouvindo sua respiração alta e vivenciando a adrenalina. Aí gritou ao mesmo tempo que uma outra garota com uma cara infantil assustada. No entanto, não era uma criança.

            — Meu Deus! — disse a estranha, ajeitando a gola de pele do casaco acolchoado. — Me desculpe, eu não quis... eu... eu estou perdida, a vi por aqui e imaginei que soubesse onde estou.

            MinHee reparou no belo cabelo castanho-avermelhado dela e soltou o ar que acidentalmente prendeu. Após isso tirou resíduos de neve de seu desenho; o mapa da internet certamente estava desatualizado e ela não sabia a data dele. Não mostrava uma trilha de trem ali — provavelmente construíram-na depois.

            — Oh, eu preciso encontrar a Escola Yoonsei, vim enfrentar esse tempo só por causa dela. Mas se não quiser me ajudar, tudo bem, eu vou embora — acrescentou.

            — Então era isso — sussurrou MinHee. Não tinha tempo para desconfianças. — Bom — começou cuidadosa —, eu não sei explicar muito bem, porque vou para o mesmo destino e acho que me perdi. Só preciso saber o seu nome. O meu é MinHee.

            — Prazer, Chin-Sun. Não sei se fico aliviada ou nervosa por ter encontrado uma pessoa perdida como eu. — Ela parou por um momento e coçou a cabeça, meio tímida. — Que tal tentarmos encontrar essa escola juntas? É a nossa única opção. Eu trouxe o mapa de cabeça porque tive que sair às pressas...

            Até que é uma boa sugestão. MinHee preferiria isso a andar pela noite deserta desacompanhada.

            — Tudo bem.

            Chin-Sun sorriu e falou as seguintes palavras disparadamente:

            — Sabe, eu peguei um ônibus de Seul para cá, sem contar que vim escondida. Quando te vi, parecia que uma imensa luz resplandecia em você. Estou muito grata. Minha família não pode saber que estou aqui, quem dirá conversando com uma estranha.

            MinHee pensou: ela é a cópia da Anne da série Anne With An E. É bem eufórica e consegue arrumar fôlego onde não tem.

            — Falando assim da sua família dá a impressão de que você tem 11 anos mas não sabe disso.

            — Ah! — disse Chin-Sun em tom de zombaria. — Minha criação foi assim. Embora eu diga que já tenho 19 anos e que sou uma mulher praticamente feita, eles riem e dizem que só vou ser uma mulher completa quando estiver casada e perita em tarefas caseiras.

            — Que horror — MinHee deixou escapar o comentário. — Hã... Que eu saiba, não vivemos mais na idade da pedra.

            Aguardando que Chin-Sun lhe repreendesse, ela não o fez, e sim parecia estar em concordância.

            — Eu vim de longe e não fiz isso à toa. Não tinha uma vocação para terminar meu Ensino Médio, então procurei por ocupações na internet e optei pelo Kung Fu. Cansei tanto de ser desencorajada pelos meus próprios pais que finalmente fugi enquanto trabalhavam fora. Eles têm o discurso de que mulher não pode lutar por direitos na ponta da língua, e eu sempre soube que seria tipo... uma ovelha negra. — Chin-Sun suspirou. — Sou fã de heroínas e admiradora de mulheres com profissões...

            — Ousadas — completou MinHee. Sentia-se embaralhada e afortunada por ter uma família sensata, tirando suas controvérsias. Não é estranho como algumas pessoas parecem parar no tempo, mesmo quando deveriam evoluir os pensamentos ao passar dos anos?

            — Não sei o que vai acontecer comigo de agora em diante. Tenho medo de esse não ser o melhor caminho — disse Chin-Sun com um olhar sombrio. — Mas, se não for, eu mesma vou pavimentá-lo.

            MinHee olhou para ela como se dissesse e eu vou ajudá-la, e foi retribuída. As duas sorriram, e ambos sorrisos soavam decisivos. Chin-Sun não era nem um pouquinho semelhante a Narae, que não pensava tanto sobre assuntos profundos.

            O diálogo foi longo o bastante para terem andado por 20 minutos desde a aparição de Chin-Sun. Juntas, elas encontraram uma ponte de aço comprida e passaram por ela com cuidado, subindo algumas escadinhas no final dela e observando atentamente o lugar. A mata aumentava de tamanho, dando indícios que as garotas estavam se aproximando de uma floresta.

            Antes de se infiltrarem ali, elas se depararam com o oceano distante de Busan rodeando a ponte — a vasta visão desfrutante de um azul escuro sob a luz da lua, o ar fresco, as ondas batendo nas rochas, detalhes que atiçaram a imaginação de MinHee, que se conteve para não ir ao parapeito e olhar para baixo — tinha um resquício de medo de altura. Criaturas como cavalos-marinhos e águas-vivas criaram vida e movimento na frente de seus olhos, dando a ela a falta que sentia por não saber nadar. Sempre negou as velhas insistências de Hwan para que ela aprendesse com ele. Hoje em dia, gostaria de achar o motivo de ter medo de entrar no mar.

            A região mal iluminada ficou fria e úmida. Isso estava relacionado à espaçosa sombra dos pinheiros da floresta. MinHee e Chin-Sun usavam luvas, agitando os músculos do corpo na investida de aquecer o sangue — dando bastante cor às bochechas delas.

            Se algum animal perigoso estivesse se escondendo, elas não tinham ideia, só escutavam chiados baixos que podiam vir de qualquer bicho inofensivo. Chin-Sun já havia se assustado uma vez, mas MinHee enroscou seu braço no dela, algo que de certa forma foi um tranquilizante.

            O ponto de vista das duas era somente um caminho florestal grande e aparentemente infinito. Depois de um tempo, Chin-Sun averiguou; parecia que havia duas vias a serem escolhidas.

            Inexpressiva, MinHee percebeu a mesma coisa e avançou para a direita. Por que perderiam tempo com aquilo se nem sabiam direito onde estavam? Resolveram simplesmente arriscar.

            A ambiência não mudou. MinHee conferiu se estavam sendo seguidas, olhando para trás, porém não viu nada além de uma repleta escuridão. Depois disso, ignorando o próprio silêncio que ela e Chin-Sun criaram, viu uma sombra se mexendo entre dois troncos de árvore muito altos. Seria o medo tentando lhe dar ilusões?

            Mesmo assim parou a trilha e abaixou-se para mexer em sua mala. Fora os itens pessoais, havia um canivete que MinHee comprara 2 anos depois de ter conhecido Hyun. O cabo dele era revestido de madeira e o design da ponta, bem afiado como ela queria. Meu canivete, pensou MinHee, eu devia ter pego ele quando achei que estava sendo seguida, mas teria ferido Chin-Sun.

            MinHee não gostava de mexer nessas coisas, embora tivesse um motivo. Só não usou a arma quando Hyun a atacou porque suspeitava que Chung-Ae chegasse em casa naquele horário, na volta da casa de sua tia. MinHee não queria nem imaginar se fosse pega com um canivete contra Hyun. Seria mais um problema complexo de resolver e explicar.

Agora estava a caminho de uma escola de artes marciais e já podia sentir a gravidade da situação: se fosse aceita, teria que lidar com a verdadeira pressão e conviver com pessoas perigosas. Pelo menos Chin-Sun faria companhia.

            MinHee fechou o zíper da mala e levantou, chutando algumas folhas do chão que entraram no sapato que calçou em seu quarto. Chin-Sun havia parado de andar e piscou várias vezes para ela.

            — É para a nossa segurança — explicou MinHee. — Se eu quisesse te matar, já teria feito isso. Pode confiar em mim.

            A dualidade dela me assusta, pensou Chin-Sun. Então assentiu, receosa, e foi relaxando aos poucos.

            Algo bem diferente de um som comum — como o vento esbarrando nos galhos das árvores — emitiu novamente lá de cima. As duas meninas quase que de imediato notaram, e MinHee intensificou o aperto da mão no canivete.

            — MinHee... — murmurou Chin-Sun, ficando pálida.

            — Fique atrás de mim — pediu.

            Pedido e feito, MinHee prestou atenção se outro movimento surgiria, mas nada aconteceu. O brilho prateado da lâmina esticada brilhou quando a garota a ergueu, a outra mão segurando a de Chin-Sun.

            Deram um passo... e algo surpreendente aconteceu. MinHee foi bruscamente engaiolada por uma rede enorme, como aquelas que entram no oceano para capturar peixes, e Chin-Sun caiu para trás. Foi tão rápido e chocante que nenhuma das duas garotas conseguiram segurar um grito de espanto.

            — MinHee! — berrou Chin-Sun. — Você está bem?

            Lá em cima, MinHee estava numa espécie de armadilha, no entanto não era de caça. Era severa, larga e firme. MinHee se lembrou de uma vez em que assistiu um filme de guerras nas selvas, com armadilhas cheias de lanças construídas para matar inimigos.

            — Estou bem — MinHee se segurou na rede e a analisou. — Eu devo ter pisado em alguma coisa no chão que não devia. Ouvi alguma coisa distante caindo no chão com força também. Chin-Sun, independente se essa coisa já foi ativada ou não, fique parada por enquanto. Consegue ver se há alguma corda escondida no chão?

            Chin-Sun avistou insetos se remexendo entre as moitas esbranquiçadas e estremeceu. Tinha pavor de insetos. Teve que se afastar um pouquinho deles e estudou o caminho cheio de folhas com lascas de neve; fazia tanto frio à noite que ela chegou à conclusão de que qualquer objeto poderia ser oculto facilmente no chão. Dizendo aqui, aqui, achei uma corda, MinHee agora tinha certeza de que pisara nela.

            Uma roldana, disse a sua mente, tem de haver uma roldana presa em algum tronco, senão a rede não seria puxada desse jeito. Esse não é um tipo de engenhoca simples de se fazer. É uma armadilha para humanos, não para animais.

            — Entendi — disse. Ainda se apoiando na rede, suspendeu melhor o corpo a ponto de poder enxergar com dificuldade vários cipós atravessados nas árvores à sua volta. — Eu pretendo cortar a rede com meu canivete e quero te pedir para que me segure quando eu cair!

            Chin-Sun ficou insegura. Será que aguentaria o peso de MinHee? Não que ela fosse gordinha, mas era bem encorpada.

            Depois de uns bons minutos esperando o trabalho da nova amiga concluir, Chin-Sun viu alguns galhos flexíveis chacoalharem no breu da floresta e sentiu necessidade de rezar. Não acreditava em fantasmas ou em criaturas fantásticas, mas tudo era tão estranho! Por que montaram uma armadilha ali?

            Espera...

            — Eu acho que foi proposital!

            — Proposital? — repetiu MinHee, colocando força no canivete para cortar os lugares certos. Ela não alcançava o alto, então estava investindo na parte de baixo da rede imensa.

            — Sim! Um lugar solitário, possíveis “assombrações”, uma escolha errada e agora uma armadilha. Estou com a impressão de que estamos no meio de um teste, e tem mais, devem estar nos observando!

            MinHee parou o que estava fazendo. Não havia pensado nisso antes.

            — Genial! — exclamou após alguns segundos. — Agora me segura!

            — Esp... — Chin-Sun quase disse, mas teve que sair correndo desajeitadamente para salvar MinHee de uma queda dolorosa. A rede se abriu como uma boca gigante, rasgando-se no centro. Elas acabaram caindo agarradas e se machucando do mesmo jeito.

            Chin-Sun resmungou para si. Havia uma dor surgindo em seu braço esquerdo, que provavelmente ficaria com um hematoma.

            — Você não me disse se tinha um código de aviso para eu saber a hora certa!

            — Eu esqueci, desculpa. — MinHee deu uma risadinha e soltou Chin-Sun. Haviam ficado numa posição estranha, como se tivessem sobrevivido a um naufrágio. Sentada e ignorando as caretas da outra, MinHee agradeceu.

            — Ora, não foi nada. — Chin-Sun se ajoelhou, cansada. Estava impressionada pelo fato de MinHee não ter entrado em pânico nenhuma vez. — Deve estar tarde. Temos que nos apressar.

            Havia uma ponta de hesitação na voz dela, mas era de se esperar. Vai saber o que poderiam ter feito a mais por ali.

            Elas limparam ambas as roupas manchadas de sujeira e, em direção ao desconhecido, demoraram 10 minutos para finalmente encontrarem um jardim ornamentado — não só um jardim, como também uma silhueta sem rosto que falava no escuro; uma pessoa que parecia estar na espreita desde o começo da jornada de MinHee e Chin-Sun.

            — Ah, vocês chegaram — disse a sombra. — Eu estava ansioso para conhecê-las.


Notas Finais


O tamanho dos capítulos vai diminuir a partir do 5, prometo kkkkkkk muito obrigada se leram até aqui, não se esqueçam de comentar ♥

PLAYLIST DA FIC (vale a pena baixar): https://mega.nz/file/S14gSAiK#uUFl9tMGvKWxe4m8l6JDJ9jrHu8iOfqCo7YkaqgHyZw

BELIEVER ESTÁ TAMBÉM NO WATTPAD: https://www.wattpad.com/story/259164700-%F0%9F%A5%8A%EF%BD%82%EF%BD%85%EF%BD%8C%EF%BD%89%EF%BD%85%EF%BD%96%EF%BD%85%EF%BD%92-%E2%80%A2-jeon-jungkook

Galeria da fic: https://br.pinterest.com/alinefuste/b-e-l-i-e-v-e-r/

Meu perfil pessoal no Instagram: line.105 & a.f.leiturando

Meu perfil no Twitter: fleursggukie_

ATUALIZAÇÕES NAS QUARTAS E SEXTAS-FEIRAS ♥


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...