História Belo Desastre Iminente - Limantha - Capítulo 2


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Categorias Malhação: Intensa como a Vida, Malhação: Viva a Diferença
Personagens Adalberto dos Santos (Deco), Anderson Rodrigues, Augusto Sampaio Neto (Guto), Clara Becker Guttierez, Cristina Yamada (Tina), Ellen Rodrigues, Felipe Soares Lacerda, Gabriel Romano, Heloísa Gutierrez (Lica), Katharine Xavier (K1), Keyla Maria Romano (K3), Lia Martins, Michel Borovski Júnior (MB), Moqueca, Samantha Lambertini, Vitor Machado
Tags Belo Desastre, Desastre Iminente, Heloísa Gutierrez, Lica, Limantha, Malhação Viva A Diferença, Samantha Lambertini
Visualizações 299
Palavras 6.860
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Crossover, LGBT, Luta, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yuri (Lésbica)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Bem é aqui que a história começa ou talvez não... 😕

Capítulo 2 - Sinal de Alerta


Fanfic / Fanfiction Belo Desastre Iminente - Limantha - Capítulo 2 - Sinal de Alerta

Era como se tudo naquela saída berrasse para mim dizendo que ali não era o meu lugar. As escadas se desfazendo, aquele alvoroço de clientes briguentos, e o ar, uma mescla de suor, sangue e mofo. As vozes viravam borrões enquanto as pessoas gritavam números e nomes, num constante vaivém, acotovelando-se para trocar dinheiro e gesticulando para se comunicar em meio a tanto barulho.

Passei espremida pela multidão, logo atrás da minha melhor amiga.

— Deixe o dinheiro na carteira, Samantha! — K1 gritou para mim.

Seu largo sorriso reluzia mesmo sob aquela fraca iluminação.

— Fiquem por perto! Vai ficar pior assim que começar! — MB avisou, bem alto para ser ouvido.

K1 segurou a mão dele e depois a minha, enquanto MB nos guiava em meio àquele mar de gente. O som agudo de um megafone cortou o ar repleto de fumaça. O ruído me deixou alarmada. Tive um sobressalto e comecei a procurar de onde vinha aquela rajada sonora. Uma mulher estava em pé sobre uma cadeira de madeira, com um rolo de dinheiro em uma das mãos e o megafone na outra, colado à boca.

— Sejam bem-vindos ao banho de sangue! Se estão em busca de uma aula de economia... estão na merda do lugar errado, meus amigos! Mas se buscam O Círculo, aqui é a meca! Meu nome é Tina. Sou eu que faço as regras e convoco as lutas. As apostas terminam assim que os oponentes estiverem no chão. Nada de encostar nos lutadores, nem ajudar, nem mudar a aposta no meio da luta, muito menos invadir o ringue. Se quebrarem essas regras, vocês serão esmagados, espancados e jogados para fora sem nenhum dinheiro e isso vale para vocês também, meninas. Então, não usem suas putinhas para fraudar o sistema, caras!

MB balançou a cabeça.

— Que é isso, Tina! — Ele gritou para a mestre de cerimônias, em clara desaprovação à escolha de palavras da amiga.

Meu coração batia forte dentro do peito. Com um colete de renda rosa e brincos de pérola, me sentia uma velha professora nas praias do Rio de Janeiro. Eu havia prometido a K1 que conseguiria lidar com o que quer que acontecesse com a gente, mas, naquele lugar imundo, senti uma necessidade urgente de agarrar seu braço magro com ambas as mãos. Ela não me colocaria em perigo, mas estar em um porão com mais ou menos cinquenta universitários bêbados, sedentos por sangue e dinheiro... bem, eu não estava exatamente confiante quanto às nossas chances de sair dali ilesas.

Depois que K1 conheceu MB durante a recepção aos calouros, com frequência ela o acompanhava às lutas secretas que aconteciam em diferentes porões da Universidade Grupo. Cada evento era realizado em um local diferente, que permanecia secreto até exatamente uma hora antes da luta.

Como eu frequentava círculos bem mais comportados, fiquei surpresa ao tomar conhecimento do submundo da Grupo; mas MB já sabia daquele mundo antes mesmo de ter se juntado a ele. Lica, a prima e colega de quarto dele, participara de sua primeira luta sete meses atrás. Como caloura, os rumores diziam que ela era o competidor mais letal que Tina tinha visto nos três anos desde a criação do Círculo. Quando começou o segundo ano, Lica era imbatível. Juntos, ela e MB pagavam o aluguel e as contas com o que ganhavam nas lutas, fácil, fácil.

Tina levou o megafone à boca de novo, e os gritos e movimentos aumentaram em um ritmo febril.

— Nesta noite temos um novo desafiante! O lutador de luta livre e o astro da Soares da Rocha, Roberto Tavares!

Seguiram-se aplausos e gritos eufóricos da torcida. A multidão se partiu como o mar Vermelho quando Roberto entrou na sala. Formou-se um círculo, como uma clareira, e a galera assobiava, vaiava e zombava do concorrente. Ele deu uns pulinhos para se preparar e girou o pescoço de um lado para o outro; o rosto estava sério e compenetrado. A multidão se aquietou, só restando um rugido abafado. Levantei as mãos depressa para tampar os ouvidos quando a música começou a retumbar, altíssima, nos grandes alto-falantes do outro lado da sala. 6

— Nosso próximo lutador dispensa apresentações, mas, como eu morro de medo dela, vou apresenta-la  mesmo assim! Tremam nas bases, rapazes, e fiquem de quatro, meninas! Com vocês, Lica “Cachorra Louca” Gutierrez!

Houve uma explosão de sons quando Lica apareceu do outro lado da sala, sem camisa, de top, relaxada e confiante. Foi caminhando a passos largos até o centro do círculo, como se estivesse se apresentando para mais um dia de trabalho. Com os músculos firmes estirados sob a pele tatuada, cumprimentou Roberto, estalando os punhos cerrados nos nós dos dedos do oponente. Lica se inclinou para frente e sussurrou algo no ouvido de Roberto, que fez um grande esforço para manter a expressão austera. Ele estava muito próximo de Lica, pronto para o combate. Os dois se encaravam. A expressão de Roberto era assassina; Lica parecia achar um pouco de graça em tudo aquilo.

Os adversários deram uns passos para trás, e Tina fez o som que dava início à luta. Roberto assumiu uma postura defensiva e Lica partiu para o ataque. Fiquei na ponta dos pés quando perdi a linha de visão, apoiando-me em quem quer que fosse para conseguir enxergar melhor o que estava acontecendo. Consegui ver alguns centímetros acima, deslizando por entre a multidão que gritava. Cotovelos golpeavam as laterais do meu corpo e ombros esbarravam em mim, fazendo com que eu ricocheteasse de um lado para o outro, como uma bolinha de pinball. Quando consegui ver o topo da cabeça de Roberto e Lica, continuei abrindo caminho na base do empurrão.

Quando enfim cheguei lá na frente, Roberto tinha agarrado Lica com seus braços grossos e tentava jogá-la no chão. Quando ele se inclinou para fazer esse movimento, Lica deu uma joelhada no rosto de Roberto. Antes que ele pudesse se recuperar, Lica o atacou — repetidas vezes, os punhos cerrados socavam o rosto ensanguentado de Roberto.

Senti cinco dedos se afundarem em meu braço e virei à cabeça para ver quem era.

— Que diabos você está fazendo aqui, Samantha? — Disse MB.

— Não consigo ver nada lá de trás! — Gritei em resposta.

E então me virei bem a tempo de ver Roberto tentar acertar Lica com um soco poderoso, ao que esta se virou. Por um instante, achei que ela tinha desviado de outro golpe, mas ela fez um círculo completo e esmagou com o cotovelo o nariz do adversário. Cotas de sangue borrifaram o meu rosto e se espalharam no meu colete. Roberto caiu no chão de cimento com um som oco, e, por um breve momento, a sala ficou totalmente em silêncio. 

Tina jogou um quadrado de pano vermelho sobre o corpo caído de Roberto, e a multidão explodiu. O dinheiro mudou de mãos novamente, e as expressões se dividiam entre orgulhosos e frustrados.

Fui empurrada com todo aquele movimento de gente indo e vindo. K1 gritou meu nome de algum lugar lá atrás, mas eu estava hipnotizada pela trilha vermelha que ia do meu peito até a cintura.

Um pesado par de botas pretas parou diante de mim, desviando minha atenção para o chão. Meus olhos foram se voltando para cima: jeans manchado de sangue, músculos abdominais bem definidos, um peito tatuado ensopado de suor e, finalmente, um par de cálidos olhos castanhos. Fui empurrada, mas Lica me segurou pelo braço antes que eu caísse.

— Ei! Cuidado com ela! — Ela franziu a testa, enxotando qualquer um que chegasse perto de mim.

A expressão séria se derreteu em um sorriso quando ela viu minha blusa. Limpando meu rosto com uma toalha, ela me disse:

— Desculpe por isso, Beija-Flor.

Tina deu uns tapinhas na nuca de Lica.

— Vamos lá, Cachorra Louca! Tem uma galera esperando por você!

Os olhos dela não se desviaram dos meus.

— Uma pena ter manchado seu colete. Fica tão bem em você...

No instante seguinte, ela foi engolfada pelos fãs, desaparecendo da mesma maneira como tinha aparecido.

— No que você estava pensando, sua imbecil? — Gritou K1, me puxando pelo braço.

— Vim até aqui para ver uma luta, não foi? — Respondi, sorrindo.

— Você nem devia estar aqui, Samantha — disse MB em tom de bronca.

— Nem a K1 — retruquei.

— Mas ela não tenta pular dentro do círculo! — Disse ele, franzindo a testa. —Vamos!

K1 sorriu para mim e limpou meu rosto. 

— Você é um pé no saco, Samantha, mas mesmo assim eu te amo! Ela me abraçou e fomos embora.

K1 me acompanhou até o quarto, no dormitório da faculdade, e olhou com desprezo para minha colega, Keyla. Imediatamente tirei o colete e o joguei no cesto de roupa suja.

— Que nojo! Por onde você andou? — Keyla perguntou, sem sair da cama.

Olhei para K1, que deu de ombros.

— Sangramento de nariz. Você nunca viu os famosos sangramentos de nariz da Samantha?

Keyla ajeitou os óculos e balançou a cabeça em negativa.

— Ah, então vai ver — ela disse, dando uma piscadela para mim e fechando a porta depois de sair. Nem um minuto tinha se passado e ouvi o som indicando uma mensagem de texto no meu celular. Como de costume, era K1 me enviando uma mensagem segundos depois de nos despedirmos.

Vou ficar com o Michel te vejo amanhã rainha do ringue

Dei uma espiada em Keyla, que me olhava como se sangue fosse jorrar do meu nariz a qualquer instante.

— Ela estava brincando — falei.

Keyla assentiu com indiferença e depois baixou o olhar para a bagunça de livros espalhados na cama.

— Acho que vou tomar um banho — falei, pegando uma toalha e meu nécessaire.

— Vou avisar os jornais — ela respondeu, sem emoção alguma na voz e mantendo a cabeça baixa.

No dia seguinte, fui almoçar com MB e K1. Eu queria ficar sozinha, mas, conforme os alunos foram entrando no refeitório, as cadeiras à minha volta foram ficando cheias de amigos da fraternidade do MB e de membros do time de futebol. Alguns estavam na luta, mas ninguém mencionou minha experiência na beira do ringue.

— Michel — disse alguém que passava.

MB assentiu, e tanto K1 quanto eu nós viramos e vimos Lica se sentando em um lugar na ponta oposta da mesa. Duas voluptuosas loiras tingidas com camiseta da Sigma Kappa a acompanhavam. Uma delas se sentou no colo dela, e a outra lhe acariciava a camisa.

— Acho que acabei de vomitar um pouquinho — murmurou K1.

A loira que estava no colo do Lica se virou para ela:

— Eu ouvi o que você disse, piranha.

K1 pegou um pãozinho e o jogou, errando por muito pouco o rosto da garota. Antes que a loira pudesse dizer mais alguma coisa, Lica abriu as pernas e a garota caiu no chão.

— Ai! — Disse ela em um grito agudo, erguendo o olhar para Lica.

— A K1 é minha amiga. Você precisa encontrar outro colo pra se sentar, Lex.

— Lica! — Ela reclamou, esforçando-se para ficar em pé.

Ela voltou à atenção para o prato, ignorando a garota, que olhou para a irmã e bufou de raiva. As duas foram embora de mãos dadas.

Lica deu uma piscadela para K1 e, como se nada tivesse acontecido, enfiou mais uma garfada na boca. Foi aí que notei um pequeno corte na sobrancelha dela. Ela e MB trocaram olhares de relance, e então ela começou uma conversa com um dos caras do futebol do outro lado da mesa.

Embora a quantidade de pessoas à mesa tivesse diminuído, K1, MB e eu ficamos lá ainda um tempo para discutir nossos planos para o fim de semana. Lica se levantou como se fosse embora, mas parou na nossa ponta da mesa.

— Que foi? — MB perguntou em voz alta, colocando a mão perto do ouvido.

Tentei ignorá-la quanto pude, mas, quando ergui o olhar, Lica estava me encarando. 

— Você conhece ela, Lica. A melhor amiga da K1, lembra? Ela estava com a gente na outra noite — disse MB.

Lica sorriu para mim, no que presumi ser sua expressão mais charmosa. Ela transbordava sexo e rebeldia, com aqueles antebraços tatuados e os cabelos castanhos com franjinha. Revirei os olhos à sua tentativa de me seduzir.

— Desde quando você tem uma melhor amiga, K1? — Perguntou Lica.

— Desde o penúltimo ano da escola — ela respondeu, pressionando os lábios enquanto sorria na minha direção. — Você não lembra, Lica? Você destruiu o colete dela.

Ela sorriu.

— Eu destruo muitos coletes.

— Que nojo - murmurei.

Lica girou a cadeira vazia que estava ao meu lado e se sentou, descansando os braços à sua frente.

— Então você é a Beija-Flor, né?

— Não — respondi com raiva —, eu tenho nome.

Ela parecia se divertir com a forma como eu a encarava, o que só servia para me deixar mais irritada.

— Tá. E qual é seu nome? — Ela me perguntou.

Dei uma mordida no que tinha sobrado da maçã no meu prato, ignorando-a.

— Então vai ser Beija-Flor — disse ela, dando de ombros.

Ergui o olhar de relance para a K1, depois me virei para o Lica:

— Estou tentando comer.

Ela topou o desafio que apresentei.

— Meu nome é Lica. Heloísa Gutierrez.

Revirei os olhos.

— Sei quem você é.

— Sabe, é? — Ela falou, erguendo a sobrancelha ferida.

— Não seja tão convencida. É difícil não perceber quando cinquenta bêbados entoam seu nome.

Lica se endireitou na cadeira, ficando um pouquinho mais alta.

— Isso acontece muito comigo.

Revirei os olhos de novo e ela deu uma risadinha abafada.

— Você tem um tique?

— Um quê?

— Um tique. Seus olhos ficam se revirando.

Lica riu de novo quando olhei com ódio para ela.

— Mas são olhos incríveis — ela disse, inclinando-se e ficando a pouquíssimos centímetros do meu rosto. — De que cor eles são? Chocolate?

Baixei o olhar para o prato, criando uma espécie de cortina entre a gente com as longas mechas do meu cabelo cor de caramelo. Eu não gostava da forma como ela me fazia sentir quando estava tão perto. Não queria ser como as outras milhares de garotas da Grupo, que ficavam ruborizadas na presença dela. Não queria que ela mexesse comigo daquele jeito. De jeito nenhum.

— Nem pense nisso, Lica. Ela é como uma irmã pra mim — K1 avisou.

— Baby — MB disse a ela —, você acabou de lhe dizer não. Agora é que ela não vai parar.

— Você não faz o tipo dela — K1 disse, mudando de estratégia.

Lica se fez de ofendida.

— Eu faço o tipo de todos!

Lancei um olhar para ela e sorri.

— Ah! Um sorriso. Não sou uma canalha completa no fim das contas — ela disse e piscou. — Foi um prazer conhecer você, Flor. 

E, dando a volta na mesa, ela se inclinou para dizer algo no ouvido de K1.

MB jogou uma batata frita na prima.

— Tire a boca da orelha da minha garota, Lica!

— Conexões! Estou criando conexões — Lica foi andando de costas, com as mãos para cima em um gesto inocente.

Algumas garotas a seguiram, dando risadinhas e passando os dedos nos cabelos na tentativa de chamar sua atenção. Ela abriu a porta para elas, que quase gritaram de prazer.

K1 deu risada.

— Ah, não. Você está numa enrascada, Samantha.

— O que foi que ela disse? — Perguntei, temerosa.

— Ela quer que você leve a Samantha ao nosso apartamento, não é? — Disse MB.

K1 confirmou com um sinal de cabeça e ele negou com outro.

— Você é uma garota inteligente, Samantha. Estou te avisando. Se você cair no papo dela e depois acabar ficando brava, não venha descontar em mim e na K1, certo?

Eu sorri e disse:

— Não vou cair na dela, Michel. Você acha que eu pareço uma daquelas Barbies gêmeas?

— Ela não vai cair na dela — K1 confirmou, tranquilizando Michel e encostando no braço dele.

— Não é a primeira vez que passo por uma dessas, Katherine. Você sabe quantas vezes ela ferrou as coisas pro meu lado por causa de transas de uma noite com a melhor amiga da minha namorada? De repente, vira conflito de interesse sair comigo, porque seria confraternizar com o inimigo! Estou te falando, Samantha — ele olhou para mim. — Não venha me dizer depois que a Katherine não pode ir no meu apartamento nem ser minha namorada porque você caiu no papo da Lica. Considere-se avisada.

— Desnecessário, mas obrigada — respondi. 

Tentei tranquilizar MB com um sorriso, mas o pessimismo dele era resultado de muitos anos de prejuízo por causa da Lica.

K1 se despediu de mim com um aceno, saindo com MB enquanto eu seguia para a aula da tarde. Apertei os olhos para enxergar sob o sol brilhante, segurando com força as tiras da mochila. A Grupo era exatamente o que eu esperava, desde as salas de aula menores até os rostos desconhecidos. Era um novo começo para mim. Finalmente eu podia andar em algum lugar sem os sussurros daqueles que sabiam — ou achavam que sabiam — alguma coisa do meu passado. Eu era tão comum quanto qualquer outra caloura ingênua e estudiosa, sem ninguém para me encarar, sem boatos, nada de pena ou julgamento. Apenas a ilusão do que eu queria que vissem: a Samantha Lambertini que vestia coletes sem nenhum resquício de insensatez.

Coloquei a mochila no chão e desabei na cadeira, me curvando para pegar o laptop na mochila. Quando ergui a cabeça para colocá-lo na mesa, Lica se sentou sorrateiramente na carteira ao lado.

— Que bom. Você pode tomar notas pra mim — disse ela, mordendo uma caneta e sorrindo, sem dúvida com o máximo de seu charme.

Meu olhar para ela foi de desprezo.

— Você nem está matriculada nessa aula...

— Claro que estou! Geralmente eu sento lá — disse ela, apontando com a cabeça para a última fileira.

Um pequeno grupo de garotas estava me encarando, e percebi que havia uma cadeira vazia bem no meio delas.

— Não vou anotar nada pra você — eu disse, ligando o computador. Lica se inclinou tão perto de mim que eu podia sentir sua respiração na minha bochecha.

— Me desculpa... ofendi você de alguma maneira?

Soltei um suspiro e fiz que não com a cabeça.

— Então qual é o problema?

Mantive o tom de voz baixo.

— Não vou transar com você. Pode desistir.

Um lento sorriso se formou em seu rosto antes dela se pronunciar.

— Não pedi para você transar comigo — pensativa, os olhos dela se voltaram para o teto —, ou pedi?

— Não sou uma dessas Barbies gêmeas, nem um de seus fãs ali — respondi, olhando de relance para as garotas atrás de nós. — Não estou impressionada com as suas tatuagens, nem com o seu charme de garotinha, nem com a sua indiferença forçada, então pode parar com as gracinhas, ok?

— Ok, Beija-Flor.

Ela ficou impassível diante da minha atitude rude, de um jeito que me enfureceu.

— Por que você não passa lá no meu apê com a K1 hoje à noite?

Olhei com desdém para ela, que se aproximou ainda mais.

— Não estou tentando te comer. Só quero passar um tempo com você.

— Me comer? Como você consegue fazer sexo falando assim?

Lica caiu na gargalhada, balançando a cabeça.

— Só vem, tá? Não vou nem te paquerar, prometo.

— Vou pensar

O professor Ernesto entrou a passos largos, e Lica voltou à atenção para frente da sala. Resquícios de um sorriso permaneciam em seu rosto, tomando mais nítida a covinha da bochecha. Quanto mais ela sorria, mais eu queria odiá-la, e, no entanto, era esse o motivo pelo qual odiá-la era impossível.

— Quem sabe me dizer que presidente teve uma esposa vesga e feia de doer? — Perguntou Ernesto.

— Anota isso — sussurrou Lica. — Vou precisar saber disso pra usar nas entrevistas de emprego.

— Shhh — falei, digitando cada palavra dita pelo professor.

Lica abriu um largo sorriso e relaxou na cadeira. Conforme a hora passava, ela alternava entre bocejar e se apoiar no meu braço para dar uma olhada no monitor do meu laptop. Eu me concentrei, me esforcei para ignorá-la, mas a proximidade dela e aqueles músculos saltando de seu braço tornavam a tarefa difícil. Ela ficou mexendo na faixa de couro preta que tinha em volta do pulso até que Ernesto nos dispensou. 

Eu me apressei porta afora e atravessei o corredor. Justo quando tive certeza de que estava a uma distância segura, Heloísa Gutierrez apareceu ao meu lado.

— Já pensou no assunto? — Ela quis saber, colocando os óculos de sol.

Um moreno de óculos parou à nossa frente, ingênuo e cheio de esperança.

— Oi, Lica — ele disse em um tom cantado e brincando com os cabelos.

Parei, exasperada com o tom meloso dele, e então desviei da garoto, que eu já tinha visto antes, conversando de maneira normal na área comum dos dormitórios. O tom que ele usava lá soava muito mais maduro, e fiquei me perguntando por que ele acharia que a voz de uma criancinha seria atraente para Lica. Ele continuou tagarelando uma oitava acima por mais um tempo, até que ela estava ao meu lado de novo.

Puxando um isqueiro do bolso, ela acendeu um cigarro e soprou uma espessa nuvem de fumaça.

— Onde eu estava? Ah, é... você estava pensando.

Fiz uma careta.

— Do que você está falando?

— Já pensou se vai dar uma passada lá em casa hoje?

— Se eu disser que vou, você para de me seguir?

Ela ponderou sobre a minha condição e então assentiu.

— Sim.

— Então eu vou.

— Quando?

Soltei um suspiro.

— Hoje à noite. Vou passar lá hoje à noite.

Lica sorriu e parou de andar por um instante.

— Legal. A gente se vê depois então, Flor — ela me disse. 

Virei uma esquina e vi K1 parada com Gabriel do lado de fora do nosso dormitório. Nós três acabamos ficando na mesma mesa durante a orientação aos calouros, e eu soube na hora que ele seria o providencial terceiro elemento da nossa amizade. Ele não era muito alto, mas passava bem dos meus 1,60 metros. Os olhos redondos equilibravam as feições longas e esguias, e os cabelos cachinhos loiros davam um ar de anjo.

— Heloísa Gutierrez? Meu Deus, Samantha, desde quando você começou a pescar nas profundezas do oceano? — Gabriel perguntou, com um olhar de desaprovação.

K1 puxou o chiclete da boca, fazendo um fio bem longo.

— Você só está piorando as coisas ao rejeitar a garota. Ela não está acostumada com isso.

— O que você sugere que eu faça? Durma com ela?

K1 deu de ombros.

— Vai poupar tempo.

— Eu disse pra ela que vou lá hoje à noite.

Gabriel e K1 trocaram olhares de relance.

— Que foi? Ela prometeu parar de me encher se eu dissesse que ia. Você vai lá hoje à noite, não é?

— É, vou — disse K1. — Você vem mesmo?

Sorri e fui andando. Passei por eles e entrei no dormitório, me perguntando se Lica cumpriria a promessa de não flertar comigo. Não era difícil sacar qual era a dela: ou ela me via como um desafio, ou como sem graça o bastante para ser apenas uma boa amiga. Eu não tinha certeza de qual das alternativas me incomodava mais.

Quatro horas depois, K1 bateu à minha porta para me levar até o apartamento do MB e Lica. Ela não se conteve quando apareci no corredor.

— Credo, Samantha! Você está parecendo uma mendiga

— Que bom — eu disse, sorrindo para o meu visual.

Meus cabelos estavam aglomerados no topo da cabeça em um coque bagunçado. Eu tinha tirado a maquiagem e substituído às lentes de contato por óculos retangulares de aros pretos. Vestindo uma camiseta bem velha e gasta e uma calça de moletom, eu me arrastava em um par de chinelos. A ideia me viera à mente horas antes: parecer desinteressante era a melhor estratégia. O ideal seria que Lica perdesse instantaneamente o interesse em mim e colocasse um ponto final em sua ridícula persistência. E, se ela estivesse em busca de uma amiga, meu objetivo era parecer desleixada demais até para isso.

K1 baixou a janela do carro e cuspiu o chiclete.

— Você é óbvia demais. Por que não rolou no cocô de cachorro para completar o visual?

— Não estou tentando impressionar ninguém — falei.

— É óbvio que não.

Paramos o carro no estacionamento do conjunto de apartamentos onde o MB morava e segui K1 até a escadaria. Ele abriu a porta, rindo enquanto eu entrava.

— O que aconteceu com você?

— Ela está tentando não impressionar — disse K1.

Ela seguiu MB em direção ao quarto dele. Eles fecharam a porta e eu fiquei ali parada, sozinha, me sentindo deslocada. Sentei-me na cadeira reclinável mais próxima da porta e chutei longe os chinelos.

Em termos estéticos, o apartamento deles era mais agradável do que um apartamento típico de primos solteiros. Sim, os previsíveis pôsteres de mulheres seminuas e sinais de rua roubados estavam nas paredes, mas o lugar era limpo, os móveis, novos, e o cheiro de cerveja velha e roupa suja notavelmente não existia.

— Já estava na hora de você aparecer — disse Lica, se jogando no sofá.

Sorri e ajeitei os óculos, esperando que ela recuasse diante da minha aparência.

— A K1 teve que terminar um trabalho da faculdade.

— Falando em trabalhos de faculdade, você já começou aquele de história?

Ela nem pestanejou ao ver meu cabelo despenteado, e franzi a testa com a reação dela. 

— Você já?

— Terminei hoje à tarde.

— Mas é pra ser entregue só na próxima quarta-feira — falei, surpresa.

— Achei melhor fazer logo. Um ensaio de duas páginas sobre o Grant não é tão difícil assim.

— Acho que sou dessas que ficam adiando — dei de ombros. — Provavelmente só vou começar no fim de semana.

— Bom, se precisar de ajuda, é só me falar.

Esperei que ela desse risada ou fizesse algum sinal de que estava brincando, mas sua expressão era sincera. Ergui uma sobrancelha.

— Você vai me ajudar com o meu trabalho.

— Eu só tiro A nessa matéria — ela disse, um pouco ofendida com a minha descrença.

— Ela tira A em todas as matérias. Ela é uma droga de um gênio! Odeio essa garota — disse MB, enquanto levava K1 pela mão até a sala de estar.

Fiquei olhando para o Lica com uma expressão dúbia e ela ergueu as sobrancelhas.

— Que foi? Você não acha que uma garota cheia de tatuagens e que ganha dinheiro brigando pode ter boas notas? Não estou na faculdade por não ter nada melhor pra fazer.

— Mas então por que você tem que lutar? Por que não tentou uma bolsa de estudos? — Perguntei.

— Eu tentei. Consegui meia bolsa. Mas tem os livros, as despesas com moradia, e tenho que conseguir a outra metade do dinheiro de algum jeito. Estou falando sério, Flor. Se precisar de ajuda com alguma coisa, é só me pedir.

— Não preciso da sua ajuda. Consigo fazer um trabalho sozinha.

Eu queria deixar aquilo pra lá. Devia ter deixado, mas aquele novo lado dela me matava de curiosidade.

— Você não consegue fazer outra coisa para ganhar dinheiro? Menos... sei lá... sádica? 

Lica deu de ombros.

— É um jeito fácil de ganhar uma grana. Não conseguiria tanto assim trabalhando no shopping.

— Eu não diria que é fácil apanhar.

— O quê? Você está preocupada comigo? — Ela deu uma piscadela. Fiz uma careta e ela deu uma risadinha abafada. — Não apanho com tanta frequência assim. Quando o adversário dá um golpe, eu desvio. Não é tão difícil como parece.

Dei risada.

— Você age como se ninguém mais tivesse chegado a essa conclusão.

— Quando dou um soco, eles levam o soco e tentam me bater de volta. Não é assim que se ganha uma luta.

Revirei os olhos.

— Quem é você... o garoto do Karate Kid? Onde aprendeu a lutar?

MB e K1 olharam de relance um para o outro e depois para o chão. Não demorou muito para eu perceber que tinha dito algo errado.

Lica não pareceu se incomodar.

— Meu pai tinha problemas com bebida e um péssimo temperamento, e meus quatro irmãos mais velhos herdaram o gene da idiotice.

— Ah.

Minhas orelhas ardiam.

— Não fique constrangida, Flor. Meu pai parou de beber e meus irmãos cresceram.

— Não estou constrangida.

Fiquei mexendo nas mechas que se desprendiam do meu cabelo e então decidi soltar tudo e fazer outro coque, tentando ignorar o silêncio embaraçoso.

— Gosto desse seu lance natural. As garotas não costumam vir aqui assim.

— Fui coagida a vir até aqui. Não me passou pela cabeça impressionar você — respondi, irritada por meu plano ter falhado. 

Ela abriu aquele sorriso largo dela, divertido, meio infantil, e fiquei com mais raiva, na esperança de disfarçar minha inquietação. Eu não sabia como as pessoas se sentiam quando estavam perto dela, mas tinha visto como se comportavam. Eu estava vivenciando algo mais parecido com uma sensação de náusea e desorientação, em vez de paixonite mesclada com risadinhas tolas, e, quanto mais ela tentava me fazer sorrir, mais perturbada eu ficava.

— Já estou impressionada. Normalmente não tenho que pedir para que as pessoas venham até o meu apartamento.

— Tenho certeza disso — falei, contorcendo o rosto em repulsa.

Ela era o pior tipo de garota confiante. Não era apenas descaradamente ciente de seu poder de atração, mas estava acostumada com o fato de homens e mulheres se jogarem pra cima dela, de modo que via meu comportamento frio como um alívio em vez de um insulto. Eu teria que mudar minha estratégia.

K1 apontou o controle remoto para a televisão e a ligou.

— Tem um filme bom passando hoje na TV. Alguém quer descobrir o que aconteceu a Baby Jane?

Lica se levantou.

— Eu já estava saindo para jantar. Está com fome, Flor?

— Já comi — dei de ombros.

— Não comeu, não — disse K1, antes de se dar conta de seu erro. — Ah... hum... é mesmo, esqueci que você comeu... pizza, né? Antes de sairmos.

Fiz uma careta para ela, pela tentativa frustrada de consertar a gafe, e então esperei para ver a reação do Lica. Ela cruzou a sala e abriu a porta.

— Vamos. Você deve estar com fome

— Aonde você vai?

— Aonde você quiser. Podemos ir a uma pizzaria.

Olhei para minhas roupas.

— Não estou vestida para isso...

Ela me analisou por um instante e então abriu um sorriso.

— Você está ótima. Vamos, estou morrendo de fome. 

Eu me levantei e fiz um aceno de despedida para K1, passando por Lica para descer as escadas. Parei no estacionamento, olhando horrorizada enquanto ela subia em uma moto preta fosca.

— Hum... — minha voz foi sumindo, enquanto eu comprimia os dedos dos pés expostos.

Ela olhou com impaciência na minha direção.

— Ah, sobe aí. Eu vou devagar.

— Que moto é essa? — Perguntei, lendo tarde demais o que estava escrito no tanque de gasolina.

— É uma Harley Night Rod. É o amor da minha vida, então vê se não arranha a pintura quando subir.

— Estou de chinelo!

Lica ficou me encarando como se eu estivesse falando outra língua.

— E eu estou de botas. Sobe aí.

Ela colocou os óculos de sol, e o motor da Harley rugiu ao ser ligado. Subi na moto e estiquei a mão para trás buscando algo em que me segurar, mas meus dedos deslizaram do couro para a cobertura de plástico da lanterna traseira.

Lica agarrou meus pulsos e envolveu sua cintura com eles.

— Não tem nada em que se segurar além de mim, Flor. Não solte — ela disse, empurrando a moto para trás com os pés. Com um leve movimento de pulso, já estávamos na rua, disparando feito um foguete. As mechas soltas do meu cabelo batiam no meu rosto, e eu me escondia atrás de Lica, sabendo que acabaria com entranhas de insetos nos óculos se olhasse por cima do ombro dela.

Ela acelerou quando chegamos na frente do restaurante e, assim que diminuiu a velocidade para parar, não perdi tempo e fui correndo para a segurança do concreto.

— Você é louca!

Lica deu uma risadinha, apoiando a moto no estribo lateral antes de descer.

— Fui no limite de velocidade. 

— É, se estivéssemos numa estrada da Alemanha! — Falei, desfazendo o coque para separar com os dedos os fios embaraçados.

Lica me olhou enquanto eu tirava o cabelo do rosto e depois foi andando até a porta, mantendo-a aberta.

— Eu não deixaria nada acontecer com você, Beija-Flor

Passei por ela pisando duro e entrei no restaurante. Minha cabeça não estava muito em sincronia com meus pés. Um cheiro de gordura e ervas enchia o ar enquanto eu o seguia pelo carpete vermelho, sujo de migalhas de pão. Ela escolheu uma mesa no canto, longe dos grupos de alunos e das famílias, e então pediu duas cervejas. Fiz uma varredura no ambiente, observando os pais que tentavam persuadir os filhos barulhentos a comer e desviando dos olhares curiosos dos alunos do Grupo.

— Claro, Lica — disse a garçonete, anotando nosso pedido. Ela parecia um pouco exaltada com a presença dela ali.

Prendi os cabelos bagunçados pelo vento atrás das orelhas, repentinamente com vergonha da minha aparência.

— Você vem sempre aqui? — Perguntei em tom áspero.

Lica apoiou os cotovelos na mesa e fixou os olhos castanhos em mim.

— Então, qual é a sua história, Flor? Você odeia as pessoas em geral ou é só comigo?

— Acho que é só com você — resmunguei.

Ela riu, divertindo-se com meu estado de humor

— Não consigo sacar qual é a sua. Você é a primeira garota que já sentiu desprezo por mim antes do sexo. Você não fica toda desorientada quando conversa comigo e não tenta chamar minha atenção.

— Não é uma manobra tática. Eu só não gosto de você.

— Você não estaria aqui se não gostasse de mim.

Involuntariamente, minha testa franzida ficou lisa e soltei um suspiro.

— Eu não disse que você é uma má pessoa. Só não gosto de ser tratada de determinada maneira pelo simples fato de ter uma vagina. 

E me concentrei nos grãos de sal na mesa até que ouvi um ruído vindo da direção de Lica, parecido com um engasgo.

Os olhos dela estavam arregalados e ela tremia de tanto rir.

— Ah, meu Deus! Assim você me mata! É isso aí, a gente tem que ser amigas. Não aceito não como resposta.

— Não me incomodo em sermos amigas, mas isso não quer dizer que você tenha que tentar transar comigo a cada cinco segundos.

— Você não vai pra cama comigo. Já entendi.

Tentei não sorrir, mas falhei. Os olhos dela ficaram brilhantes.

— Eu dou a minha palavra. Não vou nem pensar em transar com você... a menos que você queira.

Descansei os cotovelos na mesa para me apoiar.

— Como isso não vai acontecer, então podemos ser amigas.

Um sorriso travesso ressaltou ainda mais suas feições quando ela se inclinou um pouquinho mais perto de mim.

— Nunca diga nunca.

— Então, qual é a sua história? — Foi minha vez de perguntar. — Você sempre foi Lica “Cachorra Louca” Gutierrez, ou isso é só desde que veio pra cá?

Usei dois dedos de cada mão para fazer sinal de aspas no ar quando mencionei o apelido dela, e pela primeira vez sua autoconfiança diminuiu.

Lica parecia um pouco envergonhada.

— Não. Foi a Tina que começou com esse lance do apelido depois da minha primeira luta.

Suas respostas curtas estavam começando a me incomodar.

— É isso? Você não vai me dizer nada sobre você?

— O que você quer saber?

— O de sempre. De onde você veio, o que você quer ser quando crescer... coisas do tipo. 

— Sou daqui, nascida e criada, e estudo direito penal.

Com um suspiro, ela desembrulhou os talheres e os endireitou ao lado do prato. Olhou por cima do ombro com o maxilar tenso. Duas mesas adiante, o time de futebol da Grupo irrompeu em uma gargalhada. Lica pareceu incomodada pelo fato de eles estarem rindo.

— Você está de brincadeira — eu disse, sem acreditar.

— Não, sou daqui mesmo — ela confirmou, distraída.

— Não, eu quis dizer sobre o seu curso. Você não parece o tipo de pessoa que estuda direito penal.

Ela juntou as sobrancelhas, repentinamente focado em nossa conversa.

— Por que não?

Passei os olhos pelas tatuagens que cobriam seus braços.

— Eu diria que você parece mais do tipo criminoso.

— Não me meto em confusão... na maior parte do tempo. Meu pai era muito rígido.

— E sua mãe?

— Ela morreu quando eu era criança — ela disse sem rodeios.

— Eu... eu sinto muito — falei, balançando a cabeça. A resposta dela me pegou de surpresa.

Ela dispensou minha solidariedade.

— Não me lembro dela. Meus irmãos sim, mas eu só tinha três anos quando ela morreu.

— Quatro irmãos, hein? Como você os mantinha na linha? — Brinquei.

— Com base em quem batia com mais força, que era do mais velho para o mais novo. Vitor, os gêmeos... Guto e Tato, depois a Clara. Nunca, nunca mesmo fique numa sala sozinha com o Guto e o Tato. Aprendi com eles metade do que faço no Círculo. A Clara era a menor, mas ela é rápida. É a única que hoje em dia consegue me acertar um soco.

Balancei a cabeça, chocada só de pensar em cinco versões do Lica em uma única casa. 

— Todos eles têm tatuagens?

— Quase todos, menos o Vitor. Ele é executivo na área de publicidade em Belo Horizonte.

— E o seu pai? Por onde ele anda?

— Por aí — disse Lica.

Seu maxilar estava tenso de novo, e sua irritação com o time de futebol aumentava.

— Do que eles estão rindo? — Perguntei, fazendo um gesto para indicar a mesa ruidosa.

Ela balançou a cabeça, claramente não querendo me contar do que se tratava. Cruzei os braços e fiquei me contorcendo, nervosa de pensar no que eles poderiam estar dizendo para deixá-la tão irritada.

— Me conta.

— Eles estão rindo de eu ter trazido você para jantar primeiro. Não é geralmente... meu lance.

— Primeiro?

Quando me dei conta do que se passava e isso ficou claro na expressão do meu rosto, Lica se encolheu, mas eu falei sem pensar:

— Eu aqui, com medo de eles estarem rindo por você ser vista comigo vestida assim, e eles acham que eu vou transar com você — resmunguei.

— Qual é o problema de eu ser vista com você?

— Do que estávamos falando? — Perguntei, afastando o calor que subia pelo meu rosto.

— De você. Está estudando o quê? — Ela me perguntou.

— Ah, hum... estudos gerais, por enquanto. Ainda estou indecisa, mas estou pensando em fazer contabilidade.

— Mas você não é daqui. De onde você veio?

— Do Rio de Janeiro. Que nem a K1.

— Como você veio do Rio parar aqui?

Comecei a puxar o rótulo da garrafa de cerveja.

— Só queríamos fugir.

— Do quê?

— Dos meus pais.

— Ah. E a K1? Ela tem problemas com os pais também?

— Não, o Marcos e a Kátia são o máximo. Eles praticamente me criaram. Ela meio que me acompanhou, não queria que eu viesse pra cá sozinha.

Lica assentiu.

— Qual é a do interrogatório? — Perguntei.

As perguntas estavam passando de uma conversa sobre assuntos gerais e partindo para o lado pessoal, e eu estava começando a me sentir desconfortável.

Diversas cadeiras bateram umas nas outras quando o time de futebol levantou. Eles fizeram mais uma piada antes de irem andando lentamente até a porta e aceleraram o passo quando Lica se levantou. Os que estavam atrás empurraram os da frente para fugir antes que Lica conseguisse alcançá-los. Ela se sentou, fazendo força para espantar a frustração e a raiva.

Ergui uma sobrancelha

—Você ia me dizer por que optou pelo Grupo — Lica continuou.

— É difícil explicar — respondi, dando de ombros. — Só parecia certo.

Ela sorriu e abriu o cardápio.

— Sei o que você quer dizer.


Notas Finais


Bem vejo vocês daqui a pouquinho no próximo capitulo xoxo


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