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História Better than revenge - Capítulo 13


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Notas do Autor


Não vou comemorar o fato de poder estar aqui postando esse capítulo por causa da quarentena. Não posso comemorar quando uma pandemia está acontecendo por ai, quando pessoas estão morrendo e outras se aproveitando da situação para lucrar.

Só peço que, por favor, permaneçam dentro de casa. Fiquem seguros. Tentem segurar os membros de sua família que são membros de risco dentro de casa.

É isso.

Espero que estejam todos seguros, longe da possibilidade de serem infectados. Beijos 💜

Capítulo 13 - Um registro dos destroços da minha vida


Mike acorda com alguém dando suaves tapinhas no rosto dele. Resmungando, ele esconde o rosto no travesseiro, chateado com a pessoa que o está importunando naquele breve momento de paz na vida dele.

"Você é sobrinha dele! Sobrinha dele e nunca me disse nada?!"

"Eu sou sobrinha da minha tia! Dele eu não sou nada..."

"Não acredito em uma palavra que sai da sua boca!"

Engoliu em seco, garganta e boca ressecadas com a súbita lembrança que o recepcionava de volta a realidade. Depois da noite anterior, Mike sentia que tinha caído de cabeça em um balde de cerveja, tamanha era a ressaca que o assolava.

Mas os problemas dele não envolvia álcool. Nenhuma gota de álcool estava envolvida naquela situação toda. O problema dele era uma El Hopper. Jane Ives. Eleanor Jane Ives Hopper Brenner. Quem quer que fosse ela... Era a causadora da ressaca arrasadora dele.

Estava tudo acabado, destruído antes mesmo de existir alguma coisa de verdade. Excelente, hein? Primeiro o tio destruíra a vida dele e agora a sobrinha vinha e tentava pisotear no que ele estava tentando reerguer.

Ela havia se aproximado dele, conquistado a confiança dele lentamente para quê? Por que? Por que era igual ao tio? Por que estava ajudando o tio? Essas eram as únicas respostas coerentes que vinham a mente dele para justificar o fato dela ter escondido o fato de estar inclusa na árvore genealógica de Martin Brenner.

Se mexeu quando novos tapas são dados na cabeça dele, mais exigentes dessa vez.

"Me deixa, Henderson. Não estou no clima hoje."

"Papai?"

Levantou a cabeça do travesseiro mais rápido que o vento contra um avião em pleno voo, a rapidez o fazendo ficar zonzo e alimentar a ilusão de que Liv estava ali, parada do lado da cama dele, o olhando com seus olhos bonitos e exigentes.

Piscou. A dor de cabeça dele era insistente demais para aquilo ser uma alucinação ou um sonho. Ele não havia bebido nada na noite anterior, então estava sóbrio como nunca. Não era um truque da mente dele. Liv estava realmente ali.

Liv estava ali.

Ignorando momentaneamente a falta de lógica que o fato da filha dele estar ali evocava, Mike se senta na cama, puxando a menina para um abraço esmagador. A risada que ela solta é o que basta para ele saber que ela não está incomodada com a intensidade com a qual ele a aperta.

Beijou os cabelos negros da filha uma, duas, três... Vezes o suficiente para perder a conta e ainda assim não se sentir satisfeito.

"Bom dia, papai!" Olívia alegremente o saúda ainda presa nos braços dele. "Surpresa!"

"E que surpresa, hein, baixinha?!" Beijou o cabelo dela de novo. Ela ainda tinha um cheirinho agradável de bebê. "O que você está fazendo aqui, bebê?"

"Visitando o papai e o Tio Dusty" Ela exclama alegremente. "E a tia Holly. Tia Holly escapou. Ops!"

As risadinhas de Liv melhoram o humor dele, elevam a tristeza o suficiente para ela se tornar uma melancolia enfadonha.

Ajeitou a filha nos braços, ouvindo atentamente, pela primeira vez, o som que ecoava do lado de fora do quarto. Holly, Nancy e Dustin. As duas irmãs dele pareciam estar envolvidas em uma discussão acalorada, suas vozes altas ecoando pelo pequeno apartamento dele como se fossem alto-falantes de vendedores ambulantes que se recusavam a ser ignorados.

As vozes alteradas recordam-no, de forma involuntária, de quão alterada estava a voz dele na noite anterior. Porra, ele se lembra de El, sempre imponente e poderosa, se encolhendo uma ou duas vezes diante dos gritos dele. Mike não se orgulhava disso, de gritar com uma mulher, de fazer uma mulher confiante como El se encolher como de ele fosse um monstro.

Droga, ele realmente não havia reagido bem.

"Você é sobrinha dele?! Sobrinha do desgraçado que destruiu a minha vida e nunca me disse nada?!"

Não esperou pela resposta ou para ver a expressão que existia no rosto dela. Eles estavam longe dos convidados da festa, em um canto reservado, mas ele queria ir muito mais longe. Ele queria distância dela.

De repente era como se olhar para aquele rosto bonito causasse uma sensação estranha no estômago dele — desgosto, nojo. Confusão.

Marchou para fora, ignorando completamente a chuva que caia sobre ele. Mike pode ouvir o som dos saltos dela, tinindo enquanto ela tenta alcança-lo.

"Eu sou sobrinha da minha tia. Dele eu não sou nada." Ela balbucia atrás dele. "Se você pelo menos me escutasse..."

Parou de repente. As pernas dele queriam andar, mas a mente dele queria ficar e encarar El. Jane. Quem quer que ela fosse. Aliás, Mike sentia que se não fosse pelo fato dela estar genealogicamente relacionada com Brenner talvez ele pudesse olhar para a cara dela. Mas esse não era o caso.

"Escutar o quê? Mentiras? Ou supostas verdades que eu não sei se são realmente verosímeis? Nada que saia da sua boca agora vai me parecer verdade!"

"Então é isso?! Agora eu sou culpada pela minha tia estúpida ser casada com esse babaca?!"

Se virou para olhar para ela, não suportando falar coisas sem olhar fundo nos olhos castanhos que ele queria acusar.

A maquiagem perfeita se fora, o vestido bonito estava encharcado, o cabelo arrumado estava colado na pele dela. El tremia e ele não sabia dizer se era por raiva ou pela frieza da água. Mike sabe que o tremor dele vem da raiva.

"Você é culpada por não ter me dito a verdade! Não dizer a verdade muda tudo, tira qualquer credibilidade que você possa ter conquistado comigo nos últimos dias." Passou a mão no cabelo, jogando-o para longe dos olhos. "Como vou saber que você está falando a verdade quando escondeu que você é sobrinha do idiota que me colocou na cadeia?! Você pode muito bem estar trabalhando com ele... Eu não sei, tramando para de alguma forma fuder ainda mais com a minha vida..."

CLAP!

O rosto dele ardeu como fogo, quente, formigando quando a mão dela se afasta do rosto dele. El não recua, ela avança e agarra pela gola da camisa, furiosa. Parece que ela poderia arranhar a cara dele, arrancar a pele e comer naquele instante.

"Você é o maior imbecil que eu já tive o desprazer de encontrar na minha vida, Michael Wheeler. Quer que as pessoas acreditem em você, mas quando alguém pede que você acredite em algo você sequer pensa duas vezes antes de acusar." Ela empurra o peito dele, fazendo-o recuar. "Se você se fosse inteligente o suficiente para ouvir poderia saber que eu nunca faria nada para ajudar Brenner. Prefiro morrer."

"Eu não acredito em nenhuma palavra que sai da sua boca." Bufou em resposta, petulante. O sangue corria quente pelas veias dele.

El não segue o script e não volta a bater nele ou o empurrar. Como uma menina mimada, ela bate o pé no chão e grita.

"Pois não acredite, porra! Morra sendo um paranoico infernal que não pisca duas vezes antes de tirar conclusões precipitadas."

"Quer conclusão maior do que o seu tio te apresentando num palco?!" Gritou, ciente de que ninguém os ouviria naquele temporal e com o barulho da festa.

El abraça a si mesma, se encolhendo em si mesma. Um soluço quebra pela garganta dela, alto e dolorido. Parecia verdadeiro. Talvez fosse verdadeiro. Mike estava quente demais para diferir o verdadeiro do que não era.

Liv cantarola no colo dele, perdida em sua música infantil ou pelo menos Mike acha que ela está perdida, essa concepção mudando bruscamente quando ela pega a mão dele e começa a acariciar como se fosse um cachorrinho fofinho e carente.

Mike conhece a filha dele como a palma da própria mão (aquela que ela está alisando). Ele sabe cada pequeno detalhe da personalidade dela, sabe como ela age quando quer algo, dando arrodeios e agora nesse exato momento ela está fazendo isso. Arrodeando ele com uma questão que a incomoda.

Fora do quarto as vozes de Holly e Nancy ficam mais baixas, a discussão acalorada caindo para uma discussão mais civilizada, próxima da resolução final.

"Papai tá triste" A filha dele declara depois de um tempo. "Por que?"

"Não, querida, claro que não..."

"Triste" A menina determina sem espaço para discussões. "Triste. Triste."

Respirou fundo. Ele não sabe de quem exatamente, mas Liv havia herdado em sua personalidade a insistência e também uma grande empatia.

Pensando bem, ela havia herdado isso da mãe. Mike não tinha muita empatia dentro de si. A noite anterior e a falta de paciência dele para ouvir os argumentos de El eram tudo o que ele precisava para saber isso.

Pegou a mão de Liv na dele, surdo para os argumentos altos que Nancy e Holly soltavam na sala de estar (e também para a voz nervosa e assustada de Dustin). Ele mede o tamanho da mão da filha em comparação com a dele. Pequena. Pequena, macia e delicada. Mike pensa no que ele sentiria se alguém gritasse com Liv da mesma forma que ele havia gritado com El na noite anterior.

Sim, ele definitivamente não devia ter se descontrolado daquela maneira bárbara. Por mais que estivesse confuso, gritar e ser bruto com El não deveria ter sido a resposta dele.

"Acho que errei, querida" Confessou para a filha. "Acho que errei feio"

"Com a sua namorada?"

Mike balança a cabeça suavemente, mesmo que ele não saiba como Liv tem conhecimento sobre a história de capa dele e El serem namorados.

"Sim, com a minha namorada, Liv" Traçou padrões na pequena mão da menina. "Mas ela também errou. Nós dois erramos."

El mentiu e Mike gritou sem ouvir os argumentos dela. Os dois estavam errados.

"Pede desculpa" Liv o aconselha, muito embora sua voz soasse mandona o suficiente para parecer a ordem de uma pequena general.

Não respondeu a isso, incerto se deveria ou não pedir desculpas.

A filha dele, falando daquela forma, fazia parecer tão simples. Não é tão simples assim, a mente dele sussurra. Muitas coisas estavam envolvidas no meio daquilo tudo. Raiva, mágoa, orgulho (Deus, eles dois eram orgulhosos) e desconfiança. Havia também aquele sentimento que Mike vivia empurrando, se negando a dar atenção pois tornaria tudo real demais. Esse mesmo sentimento agora estava sangrando no peito dele, ganindo como cão ferido. Mas ainda estava ali e sequer dava sinais de que estava disposto a ir embora. O que isso significava?

Fechou os olhos, tentando abandonar a si mesmo e a todos os sentimentos que tinha no peito, afastando-se de si mesmo por alguns segundos para se tornar neutro e menos irracional. Pensando como uma pessoa neutra, como se ele não fosse o protagonista daquela história, mas, sim, um conselheiro. Supondo que fosse Dustin no lugar dele (não que fosse possível o amigo dele vacilar assim) ele aconselharia a ter uma conversa civilizada, a escutar e discutir sobre tudo. Sem mais chiliques. Sem mais surtos raivosos e irracionais.

Era isso, não é? Ele tinha que conversar racionalmente com El. Colocar todas as cartas na mesa e avaliar se ele queria ou não acreditar na palavra de que ela e o tio não tinham nada em comum.

Ainda com Liv no colo, se arrastou para pegar o celular em algum lugar debaixo do travesseiro.

"Vai ligar, papai?"

"Não, querida. Ela deve estar dormindo agora." Justificou, mesmo que não fosse verdade. Já era um grande passo estar fazendo aquilo, então fazer por ligação diminuiria a grandiosidade. Tinha que ser pessoalmente. "Vou mandar uma mensagem."

"Coloca coração. E florzinha."

"Certo, meu amor." Riu para a filha.

Estava fora de cogitação colocar corações e florezinhas na mensagem, mas Liv não precisava saber disso.

Podemos conversar?

A resposta não demora a vir. De certa forma é tudo o que ele espera dela.

Vai pro inferno, Wheeler.

E, por favor, apague o meu número no caminho de lá.

Revirou os olhos. Ela não iria facilitar. Ele não podia se ressentir por isso. Ele não havia facilitado para ela enquanto berrava na cara dela.

Por favor?

Sei que não fui o melhor ontem.

Só uma conversa.

Mais uma resposta rápida e cortante vem até ele.

Vou te bloquear.

Mike, que está digitando mais um insistente pedido de encontro entre os dois, para quando vê as reticências indicando que ela está digitando algo mais. Parece que ela vai xingá-lo mais uma vez pela quantidade de tempo que passa digitando, mas magicamente as reticências desaparecem e nenhuma mensagem vêm. Ela apagou.

Jogou o celular do outro lado da cama. Aparentemente ele teria que esperar que os dois se encontrassem em algum lugar para conversar com ela pois marcar um encontro não estaria acontecendo. Bem, ela estava com raiva. Chateada. Ou apenas simulando tudo isso para ele amolecer. Qualquer que fosse a resposta, ele não iria desistir antes de saber isso e também se desculpar com ela.

Deixando de lado El (mesmo que não totalmente já que ela martelava na cabeça dele como um prego impossível de ser colocado no lugar), Mike ergue Liv a frente de si como se ela fosse um saco.

"Quem quer ir ver como estão as coisas entre a tia Holly e a tia Nancy?"

A menina ri, balançando a cabeça em negação.

"Não eu! Muito barulhentas."

"Quem quer fazer cosplay de coala e ganhar uma carona nas minhas costas?" Insistiu, mudando um pouco a aplicação da frase?

"Euuu!" Liv ri, se mexendo até Mike a encaixar nas costas, esquecida o barulho das tias. "Coala!"

"Sim, meu pequeno coala."

Com a filha nas costas, consciência pesada e o coração culpado por algo que a alma dele se recusa a deixar de lado por meros segundos que sejam, Mike sai do quarto e vai até a sala.

O lugar está arrumado, assim como ele deixou na noite anterior. O único indício de bagunça é o amontoado de jornais, um conjunto de tentativas de encontrar um bom apartamento que ele e Dustin pudessem alugar juntos em um bairro mais adequado e respeitável. Não que alguém esteja se importando com os jornais, principalmente Holly já que ela está amassando os papéis com pouco respeito.

Holly e Nancy parecem estar chegando em algum ponto. Ou pelo menos é isso que parece a Mike já que as duas não estão mais esbravejando, estão abraçadas e Dustin, mais afastado, está com o rosto vermelho que usa ao ficar emocionado com filmes água com açúcar.

"Sem barulho?" Liv tenta sussurrar só para o pai, mas acaba atraindo mais atenção do que desejado quando todos os demais se voltam para ela.

"Sem barulho, coala." Mike concorda fracamente.

As duas irmãs dele se afastam uma da outra, rindo suavemente dele e de Liv. Até Dustin ri. O clima está surpreendentemente leve no ambiente — leve demais para o humor dele.

Nancy limpa os olhos azuis, afastando o que o raciocínio lógico indica serem lágrimas derramadas e que ainda desejam se derramar.

"Liv, querida, você acordou seu pai."

"O que não é um problema desde que ele estava dormindo demais" Dustin ri, fungando. Combinação estranha. "Parece um bicho preguiça."

"Como foi a festa ontem?" Holly, cujos olhos estão vermelhos, se inclina para frente em expectativa. "Noite quente com a sua namorada?"

Ajeitou Liv nas costas, evitando o olhar de Holly quando El é mencionada. Dustin e Nancy percebem isso e se Holly também o percebe ela ignora e segue tentando sondar o assunto.

"Vai, Mike. Quero saber como foi sua noite. Ela estava tão linda, parecia uma daquelas mulheres lindas de filmes. Deve ter sido fantástico. Acha que algum dia eu vou poder usar um vestido daqueles? Era quente..."

"Escuta, só para ter certeza: você cantou minha namorada ontem?" Ele pergunta já que antes de todo o desastre essa era uma questão pertinente. "Sério?!"

"Sim! Totalmente sim! Acha que eu tenho uma chance caso vocês dois terminem?"

Incrivelmente, quem ruboriza naquela situação toda é ele e não Holly. A adolescente o encara com os olhos azuis vividos e desafiadores, cheios de uma chama empolgada que não estava ali quando ela chegou há alguns dias atrás.

"Acho que você deveria deixar a minha namorada em paz. Ela já está comprometida."

"Mas você me avisa se terminarem?"

Isso está causando uma crescente irritação em Mike. Ele ama a irmãzinha dele de todo o coração, mas isso dela estar claramente afim de El estava tirando ele do eixo... Algo completamente fora de contexto já que ele e El não tinham nada entre eles.

Piscou lentamente, o toque de Liv no pescoço enquanto ela tentava se manter agarrada a ele. Ele e El não tinham nada, mas ela o fazia se sentir diferente... Mais confortável consigo mesmo. Brigar com ela havia causado um buraco no coração dele, estava atormentando-o de uma forma que nenhum de seus desafetos anteriores conseguira fazer. Quando se afastara dos pais e de Nancy ele não havia duvidado de si em nenhum momento, nenhum arrependimento, em nenhuma das vezes que gritou com Nancy ele se arrependeu do que fez pois sentia que estava com a razão, mas agora...

Ele tinha motivos para ficar desconfiado, mas a culpa estava sufocando-o a cada segundo que se passava. A culpa de gritar com El, de fazê-la recuar, de fazer quase se apagar a chama ardente que o impressionava todas as vezes que ele a via. A ideia de que ele havia feito isso com ela, agora que a racionalidade estava regendo o corpo dele, era horrível e angustiante.

El era bonita, dura nos momentos certos, mas também havia se mostrado também gentil. E dona de uma presença que trazia conforto, dona de um beijo inebriante, dona de toques intoxicantes, dona de uma personalidade quente. Ela havia disponibilizado a irmã a ajudá-lo com Liv, ela havia mostrado a família a ele, deixara ele pegar informações do computador de Brenner naquela noite — se ela realmente estivesse fazendo jogo duplo não teria feito nada disso; não teria lançado a ele aqueles olhares desesperados e pedido para ele a escutar.

Ele deveria ter escutado.

A luz de tudo isso, outra coisa estava surgindo dentro da mente dele. E no peito dele. Na verdade, nada estava surgindo. Tudo estivera ali sempre. As coisas que ele vinha empurrando de lado, as coisas que ele vinha escolhendo ignorar em prol de manter a cabeça focada em Liv e em limpar o próprio nome.

Mais cedo Mike havia chegado à conclusão de que o que o chateara de fato naquilo tudo fora El mentir, mas quantas pessoas já não haviam mentido para ele em toda a vida dele? As pessoas mentiam, constantemente escondiam coisas de suas vidas para não atrapalhar seu desenvolvimento social com outras pessoas. El apenas havia feito o que outras pessoas, o que ele mesmo fazia todos os dias. Mas mesmo assim ele ficara zangado com ela.

Por que?

Por que?

Porque ele havia depositado nela sentimentos e expectativas demais. Em algum momento, ele não sabia se logo que a conhecera ou depois, ele passara a depositar nela confiança. O tipo de confiança que é cultivada em relacionamentos que prometem ser duradouros — uma amizade ou...

Ou algo amoroso.

Merda!

Era isso, não é? A causa da explosão dele era essa. Algo que ele não havia planejado. Algo que El certamente não correspondia.

Olhou para Holly, epifania longe de ser superada.

"Não vai acontecer, Holly."

Nancy cobre a boca, escondendo um sorriso ou talvez uma boca torta de desagrado. Mike nunca sabia o que dizer quando era sobre ela.

"Para de tentar roubar a namorada do nosso irmão, garota!" Nancy dá um tapinha brincalhão em Holly e Mike franze o cenho ao ser chamado de irmão. Isso quebra um pouco a magia da novidade que explodira na mente dele. "Mickey... Mike, podemos conversar por alguns segundos?"

"Eu acho melhor não, Nancy." Disse, acenando negativamente. "Não quero brigar tão cedo."

"Por favor, Mike. Sem brigas, eu juro."

Ponderou, sentindo as mãozinhas de Liv apertarem o pescoço dele quando ela o sente se retesar.

"Tudo bem, vamos conversar então."

"Essa é a nossa deixa, loirinha fofa" Dustin se levanta, puxando Holly pelo braço. "Vamos na padaria comprar algumas coisas para gente. Sonho? Aquele pão docinho que tem chocolate? Já sei, torta! Torta e café bem docinhos."

"Café sem açúcar para mim." Falou enquanto Dustin saia, humor alegre demais se comparado com o de Mike. "Olha, se você quer falar sobre a Holly ter fugido para cá, já falei que não tive culpa nenhuma. Ela fez isso sozinha. Só dei abrigo a ela. E evitei que ela saísse por aí naquele carro."

Agachou-se no chão, permitindo que Liv descesse das costas dele. A menina desliza como se ele fosse um escorregador, descendo até o chão e imediatamente começando a vagar pelo apartamento. Ela nunca estivera ali antes, era um lugar completamente diferente daquele que eles moravam antes, então era meio que óbvio que ela iria explorar tudo.

Nancy está observando-o quando ele ajeita a postura, saindo da vulnerabilidade que a filha sempre o fazia afundar e se afogar. Ele não está cem por cento na postura de defesa de sempre, mas também não está suficientemente exposto ao ponto de Nancy conseguir ser a caçadora que ela é o ferir.

"Eu sei. Isso não é mais uma questão, Holly e eu resolvemos tudo sobre isso, te garanto." Nancy procura uma melhor posição no sofá. "Eu estou saindo disso. Só queria que você soubesse por mim."

Cruzou os braços.

"Saindo do quê?" Tecnicamente, ele havia compreendido o que ela queria falar. Só queria ter certeza.

"Saindo do caso. Não represento mais nossos pais. Jonathan estava conversando comigo sobre isso e a coisa com Holly foi a gota d'água para mim. Não posso mais fazer isso comigo... Com você."

"Certo. Legal. Só isso?"

Mike não sabe como Nancy esperava que ele reagisse aquilo. Quer dizer... Tanto faz, não é? Não era mais como se isso importante tanto para ele como havia importado no início daquilo tudo.

"Também quero que você saiba que no que vocês precisarem pode contar comigo. Sobre o caso. Sobre a sua vida. Sobre... Qualquer coisa que seja." Nancy esconde uma mecha de seu cabelo loiro atrás da orelha. "Eu realmente quero consertar meus erros e, bom, meu maior erro foi você."

"Tudo o que um cara quer ouvir na vida." Riu, sem graça.

"Sério, Mike. Quero consertar as coisas." Ela se levanta do sofá, se aproximando. "Ver a relação do Jonathan com os irmãos dele me fez sentir saudade do que a gente tinha."

Encolheu os ombros, também se encolhendo, de alguma forma, dentro de si mesmo.

O que Nancy estava dizendo parecia verdadeiro, mas depois de tanta coisa na vida dele... Espera! Não era por causa da desconfiança aguçada dele que agora o peito dele estava doendo, que ele havia gritado com uma pessoa que antes disso tudo não havia dado nenhum indício de que queria ferir ele?

Nancy já havia falhado tantas vezes com ele antes, tantas vezes que Mike já havia perdido as contas. E agora ali estava ela, dizendo que queria consertar as coisas entre eles. Dar uma chance a ela seria um erro? Quer dizer, ele vivia desejando que as pessoas dessem uma chance a ele, que percebessem que as acusações de Brenner e a prisão dele fora injusta, mas não se sentia capaz de fazer o mesmo por outra pessoa?

Ele havia falhado com El ao não ouvir de primeira o que ela tinha a falar, as justificativas dela e agora Nancy estava falando que queria reparar os erros dela — a junção disso tudo só podia indicar que o universo estava dando a ele uma dica clara de que dar segundas chances, dar crédito às pessoas as vezes era uma boa coisa a se fazer.

Passou a mão sobre o rosto, exausto.

"Tudo bem, Nancy. Acho que acredito em você. Só... Vamos devagar, okay? Não quero forçar as coisas."

Só espero que El consiga fazer o mesmo comigo depois de ontem, pensou distraidamente, ouvidos focados no que a filha estava fazendo em algum lugar distante dele e Nancy. Por favor...



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