História Between Two Worlds - Capítulo 2


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Categorias Eldarya
Personagens Erika, Ewelein, Ezarel, Jamon, Keroshane, Leiftan, Mery, Miiko, Personagens Originais, Valkyon
Tags Ação, Amor, Anjos, Assassinato, Aventura, Brigas, Bruxas, Demonios, Dor, Drama, Eldarya, Fantasia, Guerra, Hetero, Lobisomens, Loucura, Luta, Magia, Medo, Mistério, Morte, Namoro, Ódio, Personagens Originais, Revelaçoes, Romance, Sangue, Sentimentos, Sobrenatural, Sobrevivencia, Songfic, Suspense, Tragedia, Triste, Vampiros, Vingança, Violencia
Visualizações 35
Palavras 13.425
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Fantasia, Luta, Magia, Mistério, Misticismo, Musical (Songfic), Romance e Novela, Saga, Shounen, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Nudez, Spoilers, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Créditos da imagem ao jogo "The Untold Legacy".
Ah e, aliás, algumas palavras estarão enumeradas no decorrer do capítulo, estando o significado destas, nas notas finais... Enfim, boa leitura! <3

Capítulo 2 - UNhappy Birthday


Fanfic / Fanfiction Between Two Worlds - Capítulo 2 - UNhappy Birthday

It's my party and I cry if I want to
Cry if I want to, cry, cry, cry
I'll cry until the candles burn down this place
I'll cry until my pity party's in flames.
***        

Caminhando pelas ruas pouco movimentadas e frias -sendo que, tal temperatura, provavelmente se devia à suave neblina que estava sobre a cidade tranquila- junto de minha mãe, mesmo que não demonstrasse, eu sentia uma certa inquietação começando a me dominar mais e mais -e, mesmo que eu expressasse esse sentimento em minha face, ainda assim, seria impossível de percebê-lo, uma vez que, o mesmo estaria protegido… Detrás de minha máscara azulada com minuciosos detalhes dourados-... Não havia tido contato com Ichiru o dia inteiro e, levando em conta o quão próximos éramos -afinal, o ruivo era meu companheiro de infância, além de ser, provavelmente, o meu melhor amigo-, o fato do rapaz não ter ido para a escola naquele dia e nem mesmo respondido minhas mensagens de texto e nem retornado meus telefonemas era, no mínimo, preocupante.
            “Ele está bem? Será que adoeceu? Ele… Se esqueceu?” Pensamentos como esses rondavam em minha mente enquanto lançava meu olhar para o céu noturno enfeitado por estrelas que pestanejavam a todo momento e também decorado pela grandiosa e imponente, mas, ao mesmo tempo, formosa, lua cheia, ainda andando ao lado de minha matriarca que estava focada no caminho que tínhamos de seguir.
            “Não… Ele não poderia ter esquecido…” Pensei comigo mesma mais uma vez… E, realmente, não tinha como o rapaz ter, simplesmente, esquecido do nosso aniversário… Então… Por que, justo naquele dia tão especial para nós dois, ele sumiu sem mais e nem menos?... Talvez seu desaparecimento tivesse relação com o seu comportamento atípico e estranho no dia anterior? Uma coincidência?     Algo mais sério?... De qualquer maneira, eu estava sentindo sua falta, afinal, nós nos víamos, praticamente, todos os dias… E mesmo que alguns colegas de sala, mais cedo, tivessem, no final das aulas, organizado uma pequena festa para comemorar meus dezoito anos -tendo aproveitado bastante o fato de ter sido o nosso dia de fazer a faxina¹ na sala de aula-, eu senti que não consegui aproveitar totalmente a festividade -que, embora simples, ao meu ver, tinha sido parcialmente agradável- por conta da ausência de Ichiru… Eu até mesmo tinha ido até sua casa, com a intenção de bater em sua porta para visitá-lo mas não houve resposta por parte dele e isso era… Um tanto desesperador, eu diria.
            -Crystal.
            Voltei meus olhos, cuja coloração era indecifrável devido à máscara que utilizava, à mais velha que era iluminada, não apenas pela luz da lua, mas também por alguns postes de luz que clareavam a nossa trajetória, deixando de lado o plano negro de beleza exuberante acima de nós e, consequentemente, também deixando, mesmo que de modo parcial, os pensamentos sobre o ruivo de lado… Naquele momento, acabamos, ambas, por parar de caminhar até nosso destino.
            -Feliz aniversário novamente, minha filha.
            E então, na ponta dos pés -uma vez que eu era mais alta que minha progenitora-, a mulher que me criou, depositou um beijo no topo de minha cabeça… Mesmo que não fosse visível, não pude evitar de colocar um pequeno sorriso em meu rosto ao sentir o carinho materno transpassado quando os lábios dela tocaram meus cabelos arroxeados que, embora presos em um coque, ainda assim pareciam dançar com a mansa brisa que soprava por ali.
            A responsável por mim poderia até mesmo não ter feito uma comemoração para meu aniversário ou coisa do gênero -algo justificável, levando em conta nossa situação financeira que, a medida que não era precária, a mesma também não era espetacular… Conseguíamos manter a nossa morada, pagar pelas despesas médicas, alimentícias e mesmo escolares no meu caso… Mas, fazer uma festa “digna” de dezoito anos já era algo mais complicado, uma vez que, no máximo, seria uma comemoração trivial com alguns amigos… E eu, particularmente, não me importo com esse tipo de coisa… Se tem festa ou não, eu não ligo muito, afinal, nunca fui do tipo mimada e exigente… No final, o importante para mim é estar com aqueles que amo-, mas, o carinho e afeto que ela compartilhava comigo era mais valioso do que qualquer festa de aniversário por aí.
            -Obrigada.
            Subitamente, todavia, suavemente, envolvi meus braços no corpo da menor que logo tratou de retribuir o abraço, fazendo o mesmo.
            -...Obrigada por ser essa mãe incrível e amorosa que você é e sempre foi.


            Embora um tanto distraída no meu próprio mundo de pensamentos, percebi que não demorou muito para chegarmos na Casa de Chá que havia contratado nossos serviços naquela noite… Eu e minha mãe trabalhávamos como gueixas -na realidade eu era, mais especificamente, uma maiko e realmente gostávamos do que fazíamos, embora, eu, de maneira particular, preferia fazer uma outra coisa no lugar de… Simplesmente dançar, cantar e entre vários outras coisas, para o público que desejava se entreter com nossas apresentações preparadas com antecipação.
            Podia sentir os olhos vidrados da platéia sobre nós duas enquanto, com movimentos graciosos, eu executava uma bela coreografia, seguindo, de modo sincronizado, o ritmo estabelecido pelos lábios de minha matriarca que proferiam uma canção harmoniosa em sua, praticamente angelical, voz suave e dócil que não desafinava em momento algum e que acompanhava o melodioso som que o instrumento que tinha em mãos produzia ao ter suas cordas sendo dedilhadas pela mais velha que tinha uma expressão serena no rosto.
            Apesar da beleza e leveza nos passos da calma dança que estava a fazer -e que, consequentemente, fazia meu quimono, a veste que eu, bem como minha mãe, como gueixa, tinha de, obrigatoriamente, utilizar nas apresentações, se esvoaçar um pouco-, eu tinha uma leve impressão de que aqueles que estavam a nos assistir se encontravam mais focados em mim mais pelo fato eu estava a utilizar uma máscara -um acessório um tanto incomum para se utilizar numa perfomance- do que pelo entretenimento de ver meu corpo, juntamente de meu traje, se mover no palco de acordo com o que a mais velha, um pouco mais afastada de mim, cantava e tocava em sua lira… Me recordava de que minha progenitora, por vários anos, quando tínhamos alguma apresentação no dia do meu aniversário -afinal, em um dado momento de minha vida, executar perfomances, que foram citadas anteriormente, mesmo na data em que eu envelhecia um ano, acabou se tornando algo bem… Trivial, na realidade-, suplicava para que eu retirasse aquele acessório azulado -afinal, nem todos aqueles que nos contratavam para que proporcionássemos entretenimento para um público em específico eram tolerantes ao ponto de me deixar utilizar aquela máscara atípica… O que, felizmente, não era o caso naquela situação-, todavia, depois de um tempo, tendo eu, demonstrado certa relutância quanto a realizar o pedido da mulher que me criou, a menor, aparentemente, acabou por perceber o quão importante era utilizar a tal máscara e o que o uso da mesma simbolizava para mim, tendo ela parado de insistir nisso… Mas, de qualquer forma, eu não me importava com os olhares sutilmente, contudo, ao mesmo tempo, nitidamente curiosos e interessados em saber como era o meu rosto que estava oculto detrás do item, eu apenas… Profissionalmente, continuei a dançar do mesmo modo que estava a fazer desde o início, sem perder o ritmo ou mesmo a postura.


            Tudo estava correndo bem naquela apresentação que era tão normal como qualquer outra… Mas, mesmo que, diferente das outras vezes em que eu estava ali, demonstrando minhas habilidades artísticas, eu estivesse pensando nele e na falta que o mesmo fez naquele dia em que não nos falamos e, muito menos, nos vimos, não deixei que meus pensamentos angustiantes e preocupados com relação a Ichiru afetasse meu desempenho naquele momento, tentando, desse modo, me manter parcialmente otimista naquela situação, justificando mentalmente sua ausência de diversas formas, tentando me manter aliviada com as hipóteses positivas que criava no meu cérebro, com a intenção focar no que estava a fazer -afinal, ficar aliviada era bem melhor para a concentração se comparada à sensação de preocupação-, mas então… O que era para ser apenas mais uma perfomance corriqueira e monótona…
            ...Acabou por se tornar um grande desastre.
            O espaço onde estávamos inseridas, outrora tranquilo e pacífica, começou a ficar extremamente tenso quando, subitamente, sem explicação alguma, no mesmo momento, portais de coloração negra começaram a se materializar em diversas partes daquele ambiente, sem um intervalo específico entre um e outro e sem nenhum aviso prévio das criaturas -sendo que, a maioria delas tinham um formato humanóide- que sairiam daquelas estruturas em formatos em espiral que flutuavam pelo aposento, e o caos que os seres jamais vistos causariam naquele lugar… Na verdade… Não apenas por lá, mas sim, ao que parecia…
            ...Na cidade inteira.
            Após exclamações surpresas por parte de todos ali dominarem o local, gritos de puro desespero e terror foi tudo que pude ouvir após a chegada das criaturas que eu nunca havia visto na minha vida… De início, eu fiquei pasma, paralisada, diante daquela agitação -que acabou se intensificando quando, em questão de segundos, após a inesperada chegada dos seres jamais vistos, uma das pessoas que se encontravam, anteriormente, assistindo nossa apresentação foi morta através dos convidados indesejados que estavam todos armados com os mais diversos tipos de arma-, mas, então, ao perceber que, naquele ambiente que aos poucos, sem justificativa ou razão lógica alguma, se tornava o palco de uma verdadeira chacina -sendo que, observar, incapaz de fazer nada graças ao medo que me corrompia da cabeça aos pés, as vidas daquelas pessoas inocentes sendo retiradas causou algumas pontadas de aflição e dor em meu peito-, discretamente, porém, ao mesmo tempo, de maneira acelerada, um homem de orelhas levemente pontudas e caninos, estranhamente salientes, que eram possíveis de se notar apenas porque o mesmo, que tinha uma grandiosa espada em mãos, tinha um sorriso que exibia seus dentes e que demonstrava tanto satisfação quanto serenidade… Assim que percebi sua aproximação, não hesitei em, apreensivamente, recuar.
            “O que está acontecendo?! O que… O que são eles?!” Mesmo que a confusão e e é o horror que sentisse dentro de mim fossem, indescritivelmente fortes, me controlei e não sucumbi a nenhuma dessas sensações, logo procurando, rapidamente, com o olhar, algum objeto que eu pudesse utilizar como arma ou mesmo como escudo -visto que, embora eu tivesse habilidades excepcionais em luta corpo a corpo e soubesse disso, eu tinha consciência da desvantagem gritante que teria caso fosse utilizar minhas técnicas de combate corporais contra ser vivo que estava armado, então, o mais prudente a se fazer no meio-tempo em que ele se aproximava de mim, seria procurar algum objeto que me auxiliasse no provável confronto que logo teria, e, em último caso, se não conseguisse executar o que tinha em mente, eu utilizaria minhas técnicas de combate ao meu favor-, buscando evitar ver as grotescas cenas de sangue inocente sendo derramado, embora isso fosse, praticamente, impossível, uma vez que, eu estava cercada pelo vermelho vívido que escorria dos corpos das pessoas que estavam morrendo naquela situação imprevisível… Mas então…
            ...Eu relembrei que minha mãe também estava no meio daquele genocídio.
            Enquanto procurava, com meus olhos escondidos pelo acessório de detalhes dourados, por algum item que pudesse utilizar para defesa ou ataque -como citado antes-, quando meu olhar se fixou na mais velha, que se encontrava, consideravelmente, distante de mim, e que tinha uma mesa de madeira em mãos -tendo sido aquele objeto de madeira, utilizado para algumas pessoas tomarem chá, estando, o líquido, assim como os pequenos cacos de bule e xícaras, espalhados pelo chão-, com a qual, mesmo sendo, evidentemente, pesada para si, se defendia dos ataques de uma mulher com orelhas extremamente pontudas, que carregava uma alabarda em suas mãos e que possuía um sorriso cruel nos lábios que honrava sua aparência deveras sombria… E então, sem nem pensar duas vezes, tentei correr para ajudá-la a derrotar a oponente citada… Afinal, eu não poderia, de modo algum, deixar aquela que me criou e amou, -sendo que, o sentimento de afeto que a mesma me dava, era, explicitamente, recíproco- em uma situação perigosa e mortal sozinha! Eu tinha de protegê-la de alguma forma! Mas então…
            ...Senti meu braço, de maneira agressiva, ser segurado e puxado para trás com força, coibindo, desse modo, o movimento que queria executar.
            -Para onde pensa que vai?
            Arregalei os olhos.
            Eu havia ficado tão distraída com a situação de minha mãe que esquecera completamente da aproximação da figura masculina, demonstrando, de certa forma, que eu, em primeiro lugar, me importava mais com minha família do que comigo mesma, todavia, de qualquer maneira, voltando ao assunto focado…
Bruscamente, tratei de virar meu rosto mascarado, milésimos depois de sentir aquele toque em uma de minhas longas luvas, cujo tecido beijou minha pele mais ainda por conta da pressão que foi feita sobre o acessório.
            -Apenas uma mordida não fará mal, certo?
            Antes que eu pudesse ao menos tentar soltar meu braço -sendo que as chances de sucesso eram bem baixas, levando em conta sua força sobre-humana que me deixou chocada e incrédula- ou tentar, com qualquer outra parte livre de meu corpo -como, por exemplo, os pés, o outro braço, a cabeça e entre vários outros exemplos- golpear meu oponente que parecia querer retirar uma das luvas que eu estava a utilizar, enquanto aproximava seus lábios, lentamente, de meu braço, após um som forte de pancada vindo do meu lado, sons de passos ligeiros e desesperados puderam ser ouvidos e então, em questão de poucos momentos, eu pude ver…
            ...Minha mãe empurrando o homem de modo que ele ficasse distante de nós, utilizando a mesa que ainda carregava para executar o afastamento da criatura que ficou atordoada por determinados momentos, embora, no final, após ter sido jogado para longe de mim, em meio àquela adrenalina e terror todo, eu só consegui, depois do feito corajoso desta, encarar minha matriarca que tinha os olhos repletos de horror e receio, desfocando do cenário sanguinário atrás de si e apenas focando naquela que me criou.
            -Crystal, nós temos de fugir! Ráp-
            O barulho e a cena de uma lâmina metálica cortando a pele e carne de um ser vivo de maneira agonizante e dolorosa… Eu nunca me esqueci daquela imagem atroz que, mesmo atualmente, ainda vem constantemente ao meu cérebro, e muito menos do som infernal que, até nos dias de hoje, parece zunir em meus ouvidos, me atormentando.
            -Entenda seu lugar, humana inútil.
            Eu demorei um tempo para compreender o que estava acontecendo diante dos meus olhos… No final das contas, tudo estava ocorrendo tão rápido que parecia até mesmo que eu não tinha sequer a chance de respirar o ar que eu tive a impressão de se tornar rarefeito por um momento em específico… Mas, então, eu, finalmente, mesmo que com um pouco de dificuldade para aceitar aquela realidade tão cruel e injusta, entendi a imagem que se projetava à minha frente…
            ...Minha mãe estava com uma espada -sendo o dono da arma o mesmo rapaz que, momentos antes, a mulher havia afastado- fincada em seu peito, onde o seu sangue fluía com abundância.
            Naquele momento, apenas seus cabelos presos em um coque que eram movidos minimamente pelo vento, tendo o seu corpo se tornado inerte, bem como seu rosto cujos olhos azuis só tiveram a chance de expressar seu desespero e sua boca escancarada, que sequer teve a oportunidade de emitir um grito por conta da rapidez com que tudo aconteceu, demonstrar sua dor e agonia.
            Naquele momento, mesmo que estivesse horrorizada com aquele fato que era difícil de se aceitar, senti alguma coisa em meu coração mudar… Naquele momento, foi como se orgão que estava guardado em meu peito tivesse sido golpeado por uma  espada também, e aquele “corte” em meu coração pareceu permitir a entrada de um novo sentimento…
            ...O ódio.
            Aquela emoção ardente começou a se espalhar por todo meu corpo, me corrompendo, mas, ao mesmo tempo, me dando coragem…
            ...Me dando coragem para lutar. Me vingar.
            No momento em que sucumbi àquele sentimento tão pouco presente na minha vida, sequer tive tempo para chorar com aquela perda impactante, já tendo partido para o ataque contra o rapaz que largara o cadáver daquela que me criou no chão num balançar de espada.
            Utilizando ao meu favor técnicas de combate corpo a corpo -principalmente karatê- que aprendi, praticamente, durante minha vida inteira, rapidamente, golpeei o rapaz que não esperava pelo ataque com um soco no rosto, e, já sem perder tempo, logo após esse movimento, sentindo a fúria tomar conta de cada célula de meu corpo, deixei meu pé -revestido por minhas botas-, rapidamente, entrar, de maneira rápida e agressiva, em contato contra o estômago daquela criatura atroz, o que o fez, desequilibradamente, cambalear um pouco para trás, se afastando de mim dessa forma… Sem esperar pela revanche de meu oponente contra minhas ações ofensivas, me preparei para executar o golpe que o derrubaria e o deixaria “submisso” com relação a mim... Definitivamente.
            Aproveitando a certa distância entre eu e o loiro, logo, tomando impulso com um dos pés, saltei e, direcionando o outro para a face de meu inimigo, o acertei -tendo eu, executado, basicamente, o golpe yoko tobi genri²-, tendo o chute forte entre aquela parte de meu corpo e sua pele caucasiana, acabado por derrubá-lo num piscar de olhos.
            Quando meu corpo, que passou milésimos no ar, voltou ao solo, com as minhas pernas firmes nele, logo tratei de, impiedosamente, pisar no abdômen do homem com força, o impedindo de partir.
            -C-Como?! É impossível uma huma…
            Uma vez tendo puxado a espada -que mesmo sendo previsivelmente pesada, ainda assim, felizmente, me adaptei de modo rápido ao seu peso- de sua mão, desarmando-o, com a ira da perda de uma pessoa que realmente amava, de minha família, não tive sequer a inútil compaixão de deixá-lo completar sua frase, visto que, eu acabei, sem nem pensar duas vezes, fincando a lâmina afiada em seu peito, atravessando o tecido epitelial, a carne, e, por fim, o coração, o retaliando dessa forma, enquanto observava gotículas de seu sangue que transbordava da parte ferida, se espalharem pelo ar, tendo uma pequena parte daquele líquido carmesim manchado meus calçados.
            Eu, provavelmente, teria causado mais dano àquele corpo se me deixassem ali, sozinha, com o mesmo, contudo, ao escutar passos acelerados detrás de mim e um barulho metálico de algo riscando o chão desesperadamente, num giro, me virei, brandindo a arma que acabei tornando como minha naquele momento, e cujo cabo eu segurava com força, determinação e com um pouco de tremor até por conta do ódio que sentia e fazia meu corpo reagir daquele modo, sendo que, assim que me virei, as faíscas e som de metais colidindo se tornaram, nitidamente, presentes no meio daquele ambiente cercado de mortes.
            A mulher de orelhas extremamente pontudas e pele inacreditavelmente escura, da qual minha mãe, outrora se defendia, tentou me atacar com sua alabarda, todavia, eu consegui, felizmente, me defender com a arma “roubada”.
            Empurrando firmemente os objetos cortantes um contra o outro, ficamos naquele impasse -que, naquele momento, se tornara o porto seguro para nós duas, uma vez que, qualquer movimento mal pensado que executássemos e que nos tirasse daquela posição poderia nos trazer graves machucados ou mesmo a morte- por um curto período de tempo, uma vez que, ainda guiada pelos impulsos daquela emoção, rapidamente, me arriscando, desviei para o lado, deixando a lâmina da espada deslizar horizontalmente pelo cabo da alabarda que, sem mais a grande pressão que minha arma trazia anteriormente, teve sua parte cortante descendo com uma rapidez inacreditável, conseguindo, até mesmo, antes de eu ficar totalmente fora do foco da arma, cortar de raspão o meu ombro, onde eu senti um grande ardor vindo da pequena ferida, cujo sangue logo começou a escorrer… Mas, naquele momento, dominada por sensações que me sentia incapaz de controlar, pouco me importei com o machucado, aproveitando o fato de estar fora do alcance da parte afiada da pesada alabarda que estava sendo erguida novamente por sua portadora que se preparava para seu próximo ataque, fui mais veloz e, em apenas um movimento, cortei, profundamente, a lateral de sua barriga, demonstrando a eficácia da espada que manipulava… A criatura de cabelos brancos que cobriam parcialmente seu rosto sombrio, com os dentes cerrados, grunhiu com a dor de ter seu corpo cortado por uma espada, semelhante a um papel que é separado por uma tesoura.
            Quando a mulher balançou sua arma -que, embora a manipuladora dessa fosse rápida e ágil, devido ao peso do objeto utilizado no combate, seus movimentos eram, minimamente, lentos- com a intenção de cortar meu pescoço com a mesma, logo tratei de desviar, me abaixando segundos antes do item poder me atingir naquela região mortal.
Uma vez agachada, não perdi tempo e dei uma rasteira em minha inimiga, a derrubando no frio piso, tendo a mesma, acidentalmente, deixado sua arma também cair para longe de si, a desarmando, dessa forma.
            E então, me levantando num pulo, deixei um de meus pés pisarem, com força e agressividade, na perna da figura feminina obscura -com o intuito de impossibilitar movimentos com aquela parte do corpo que pudessem livrá-la de meu domínio-, enquanto isso, deixei o outro tapar os lábios de minha oponente que se encontravam curvados numa expressão de ira, bem como os seus olhos e rosto em si, tendo a intenção de evitar comentários idiotas e gritos desnecessários vindos de sua boca -que, ao ser, subitamente, calada, a mulher logo tratou de segurar, com todas as suas forças, minha perna, querendo retirá-la dali enquanto se debatia, mas não conseguindo por conta de minha nítida vantagem-, enquanto já me preparava para cravar a lâmina com respingos escarlate que cintilava mesmo com a pouca luminosidade do local, em seu estômago…
            ...E assim o fiz.
            Quando cravei a espada naquela parte citada de seu corpo que deixou o líquido carmesim que saía abundantemente de lá, respingar em minhas vestes, pude perceber que a criatura de orelhas salientes começou a se debater com mais desespero, como se implorando, alopradamente, por sua vida… Porém, sem dó alguma daquela que me machucara, logo tratei de, rapidamente, rasgar, continuamente, a pele e carne de sua barriga até seu peito, a matando, dessa maneira.
            Ao me certificar de que a moça já não mais respirava, logo saí de cima de seu cadáver, dando às costas ao mesmo e à cena sangrenta que continuava ao fundo, caminhei até onde o corpo de minha mãe jazia, sem vida alguma, e, uma vez tendo chegado até ele, deixei-me desabar de joelhos ao seu lado, largando a espada manchada pelo carmesim vívido, e, quando isso aconteceu, coloquei, cautelosamente, sua cabeça gelada sobre meu colo.
            -Mãe, eu o matei. Eu lhe vinguei, vê? Agora tudo está bem… 
            Como se pudessem alcançá-la e trazê-la de volta, as palavras saíram mansas de meus lábios ocultos pela máscara… No momento em que falei tal coisa, eu senti que minha mente estava vazia -não conseguindo, dessa forma, pensar em nada-, bem como meu coração -não tendo a capacidade, desse jeito, de sentir nada- e meus sentidos não foram exceção -tendo meus ouvidos sido incapazes de ouvir os gritos de terror das pessoas que, gradualmente, iam diminuindo naquele aposento, à medida que mais eram assassinadas a sangue frio-... E então, ao perceber o que havia acabado de pronunciar oralmente…
            ...Arregalei os olhos.
            Só naquele momento, falando em voz alta, eu havia percebido os meus feitos… Eu…
            ...Eu havia matado, com minhas próprias mãos, duas pessoas.
            Ao notar tal fato, senti uma tensão me consumir e que me fez tremer da cabeça aos pés, incontrolavelmente…
            O que eu fiz tinha sido certo? Aquilo que era executar a justiça com as próprias mãos? Minha mente, repleta de dúvidas, estava confusa, e eu… Estava em estado de choque, assustada com tudo o que havia acontecido e que ainda estava a ocorrer.
            E então, no meio daquele dilema, minha visão, que se encontrava embaçada por conta das lágrimas que exprimiam minha confusão e medo -demonstrando a humanidade que tinha dentro de mim-, acabou por se focar no rosto assustadoramente sem vida de minha progenitora, e então, sentindo meu coração se quebrar em milhões de pedacinhos, eu encontrei minhas respostas, e, no final…
            ...Eu estava certa… Por todo o sofrimento infligido a mim e àquela que me criou, eu fiz o que era correto… O que era justo, ao tê-los matado.
            Naquele momento, eu parei para refletir que eu havia perdido a única família que me restara naquele mundo cercado pela crueldade, minha matriarca, uma pessoa especial e insubstituível e que… Eu nunca mais poderia ver, viva, apenas, é claro, nas nostálgicas lembranças que criamos juntas, desde o dia em que eu nasci, chorando de maneira excessiva e pedindo pelo seio daquela que me gerou, até aquele momento em que eu estava mantendo seu corpo frágil junto de mim, tudo, sem exceção alguma, estava cercado de memórias que, outrora, ao relembrá-las, as mesmas, me faziam rir, mas que, naquele momento, quando chegaram com tudo em minha mente, só intensificaram as lágrimas de pura melancolia que começaram a escorrer pelo meu rosto escondido… No final, aquela frase que havia ouvido em algum dia e em algum lugar qualquer era verdade…
            ...Nós apenas valorizávamos as pessoas quando já era tarde demais.
            Não era como se eu não tivesse dado a mínima para aquela mulher cheia de amor para dar quando em vida, pelo contrário, eu a amava do fundo do meu coração e não tinha medo de admitir tal coisa para ninguém, mas… Olhando as coisas do jeito que estão… Com um pequeno aperto no coração enquanto olhava para sua face que, aos poucos, parecia perder sua cor, eu tive uma leve impressão de que poderia ter dito mais “eu te amo” nos seus dias árduos em que trabalhava como mãe, dona de casa e gueixa… Eu… Deveria ter dito mais vezes o quanto eu a apreciava e admirava pelo que a mesma era e fazia… Mas, não é como se eu tivesse uma máquina do tempo para poder voltar atrás e fazer tudo o que gostaria de ter executado e poder, até mesmo, tê-la livrado da morte tão… Imprevisível.
            -...D-Descanse em paz…
            Num sussurro com a voz chorosa e trêmula, tendo gaguejado por conta de um soluço que saiu de meus lábios contorcidos em dor, falei aquelas três palavras, enquanto arrumava uma mecha de cabelo arroxeado -a única coisa que parecia “vívida” em seu corpo- atrás de sua orelha com uma mão, e, com a outra, fechei seus horrorizados olhos verdes que já tinham perdido o seu brilho.
            Se dependesse de mim, eu poderia ficar ali, ao seu lado, chorando por sua morte que era, definitivamente, marcante e dolorosa para mim, durante a eternidade, todavia, então, eu me recordei das palavras de minha mãe que diziam, basicamente que, nós duas, tínhamos de fugir… E rápido.
            -Eu não vou te deixar para trás… Mãe.-
murmurei novamente para o cadáver, pegando-o com delicadeza e, jogando-o, cuidadosamente, por cima de meu ombro ferido -tendo eu sentido uma pequena dor suportável ao executar tal ação-, sendo que, apesar de minha força, demorou um pouco para que eu pudesse me reerguer, uma vez que, eu nunca tinha carregado um corpo morto na minha vida inteira -sendo aterrorizante a sensação de fazê-lo-, logo, vi dificuldades em fazer tal coisa, mas, mesmo assim, eu dei o meu melhor… Pela minha mãe.
            Antes de me levantar, tratei de pegar pelo cabo negro, a espada -parecida com um sabre- que havia feito como minha arma temporariamente para o caso de eu me envolver em alguma batalha no caminho, embora, eu fosse optar por evitá-las enquanto eu ia, levando a arroxeada junto, para nossa casa.
Uma vez em pé, não pude deixar de olhar por cima do ombro que a mais velha não se encontrava ocupando e observar a grande quantidade de pessoas que foram mortas -tendo alguns cadáveres, machucados terríveis feitos pelos mais diversos tipos de armas de curto-alcance, enquanto outros tinham estranhas marcas de mordidas pelos seus corpos-, assim como uma porção média de pessoas que estavam vivas, porém, que tinham seus pulsos atados por cordas e a pequena quantidade daqueles que estavam vivos e livres e que tentavam alcançar a saída -tendo conseguido contar, no máximo, três deles-, e, levando em conta tais coisas, não demoraria muito até aquelas criaturas -que eu, particularmente, tinha vontade de matar todos de maneira lenta e dolorosa, mas, eu, infelizmente, por mais que quisesse, não tinha condições de fazer tal coisa, afinal, seriam oito seres de destreza, habilidade e rapidez sobrenaturais contra mim!- virem atrás de mim, e então, o mais rápido que podia em minhas circunstâncias e condições, corri até a porta que daria na saída daquele inferno, tomando todo o cuidado para não derrubar o objeto cortante que usaria tanto para me defender quanto para atacar e, principalmente, o corpo feminino que carregava, e então, mesmo tendo consciência que, com aqueles movimentos bruscos havia chamado a atenção da maioria, se não de todos, dos seres vivos que haviam aparecido subitamente, não parei de correr nem por um momento, como se minha vida dependesse de manter minhas pernas se movendo naquela velocidade alta sem parar… O que não deixava de ser verdade, afinal, levando em conta todas as mortes que aquelas criaturas bárbaras causaram, as probabilidades de virem me assassinar eram bem grandes na realidade, então… Sem olhar para trás, eu, assim como minha matriarca pedira…
            ...Consegui escapar.
            Mas, assim como na casa de chá -ou até mesmo pior-, o cenário que se estendeu à minha frente assim que saí da propriedade, foi, sem dúvida alguma, desagradável e, até mesmo, perturbador.
            O terror havia sido instaurado em minha cidade natal.
            Civis gritando e correndo de maneira desesperada por toda parte, postes destruídos e sem funcionar, veículos, prédios e casas em chamas impiedosas que engoliam tudo o que se encontrava contíguo a elas e transformavam, gradualmente, as coisas que tocavam em cinzas… Sem dúvida alguma, o caos havia dominado aquele lugar que, antes da chegada dos convidados indesejados, era, simplesmente, maravilhoso e incrível, onde eu, sem dúvida alguma, criei tantas lembranças boas e agradáveis… E que, naquele momento, estava sendo destruído com uma provável indiferença por parte daqueles que, instantaneamente, se tornaram meus inimigos após todo sofrimento e horror que infligiram tanto a mim, quanto a todos naquela pacata cidade… Porém, apesar de tudo, sem ter tempo para lamentar por tudo o que estava ocorrendo, tudo o que eu fui capaz de fazer naquele momento, pela minha segurança, foi continuar com os passos acelerados, torcendo internamente para que as pessoas que ainda estavam respirando naquele exato momento, tivessem a oportunidade de sobreviver àquele ataque imprevisto.
            Mesmo com as pernas levemente doloridas e a respiração ofegante do tanto que eu corri, sentindo o meu coração bater de maneira veloz, eu prossegui, eu não desisti… Eu…
            ...Eu tinha de chegar à minha casa.
            Mas então, um fato, repentinamente, veio à minha mente e que, no mesmo instante, me paralisou, me fazendo, também, arregalar os olhos com temor...
            Ichiru.
            No meio daquela confusão toda, eu me esqueci do meu querido amigo de infância que se fizera ausente naquele meu dia.
            Rapidamente, fiz meus pés, mesmo cansados, mudarem de direção, fazendo-os percorrer o trajeto para a casa dele… No fundo do meu coração, eu ansiava que ele estivesse bem, em segurança, que nada de mal tivesse ocorrido ao mesmo, eu… Eu não suportaria perdê-lo também no meio daquilo tudo, embora, no final, sem nem mesmo querer, eu só conseguia pensar no pior… No que poderiam ter feito com o ruivo com o qual eu construí uma amizade duradoura…
            “Por favor Ichiru… Que você esteja bem…” Desejei com o coração apertado e, as lágrimas que já haviam sumido de meus olhos inchados de tanto chorar, logo voltaram a reaparecer.


            Desviando de qualquer conflito que pudesse ter a frente, eu, finalmente, depois do que pareciam horas, cheguei diante da residência onde o rapaz que, por ser emancipado, morava sozinho.
            -Ichiru! Abre a porta! Rápido!
            Com o punho que segurava a espada -uma vez que, minha outra mão estava mais ocupada, levando em conta que eu havia envolvido a mesma ao redor do peso morto que estava sobre meu ombro-, repetidamente, bati com força contra o pedaço de madeira que se encontrava em minha frente e que, provavelmente, me separava do meu melhor amigo.
            “Vamos Ichiru, abra…” Implorei mentalmente… Eu me recusava a acreditar que ele havia morrido, então… Eu apenas continuava persistindo de maneira desleixada, sem sequer olhar para trás para ver se tinha uma daquelas criaturas nojentas por ali… E, se fosse necessário, eu até mesmo arrombaria aquela porta!... Coisa que, após várias batidas que pareciam ter sido em vão, eu quase executei, contudo, a porta da casa acabou se abrindo, revelando seu interior escuro.
            -Ichiru?...
            Um tanto desconfiada e assustada com aquilo tudo, chamei por seu nome, hesitante quanto a entrar naquele breu de cabeça, mas então…
            -Eu estou aqui, Crystal! Entre, rápido!
            Meu coração, de imediato, se aqueceu ao ouvir sua voz, mesmo que horrorizada, a falar comigo… Ao que parecia, a direção de onde sua voz vinha denunciava que o mesmo havia abrido o grande pedaço de madeira e se escondido atrás da mesma e, por isso, eu não o estava vendo naquele exato momento, em minha frente.
            Assim que o escutei, sem mais pestanejar, adentrei no cômodo que conhecia como sendo a sala de estar de sua moradia -embora a mesma estivesse um pouco mais sombria do que o habitual-, sendo que, assim que eu entrei, pude ouvir uma batida forte detrás de mim que não foi nada mais e nada menos do que o ruivo fechando a porta que logo foi trancada pelo próprio também.
            -Ichiru, está tudo bem? Você não se feriu?
            Depositando, delicadamente, o cadáver de minha progenitora sobre o sofá macio do recinto, de modo rápido, me voltei para o mais alto, com uma certa preocupação na voz enquanto procurava, visualmente, pelo seu corpo qualquer ferida que pudesse haver por lá.
            -Sim, felizmente, está tudo bem, mas…
            Mesmo estando escuro, pude perceber quando o rapaz lançou seu olhar para a mobília onde o cadáver de minha matriarca repousava.
            -Está tudo bem com você, Crystal?...
            Por um momento, um silêncio amargo dominou a sala… Antes de se ouvirem sons de passos acelerados contra o piso, o barulho da arma que tinha em mãos cair, desleixadamente, no mesmo chão que pisava com determinação, e eu pular sobre Ichiru, acabando por derrubá-lo por conta do movimento inesperado, mas, também abraçando-o com todas as forças que me restavam, expressando, naquele gesto afetivo, toda a dor guardada no meu coração em luto, sem fazer o mínimo de esforço para cessar o rio de lágrimas que fluía pelo meu rosto latente e que, naquele momento, não duvidava que estaria vermelho, levando em conta o quanto eu havia chorado apenas naquelas últimas horas.
            -Eu… Eu… Não estou nada bem, Ichiru… As coisas estão tão confusas… Eu… Eu estou com medo…
            Minha voz demonstrava toda a tristeza, temor e confusão que estava sentindo em meu interior e que eu, até aquele momento, não pude desabafar para ninguém além de mim mesma, então… Exprimir, tão deliberadamente, minhas emoções para o rapaz de olhos azuis, cuja coloração se assemelhava com o límpido céu diurno que costumávamos assistir a clarear quando o garoto de cabelos rubros ia passar as noites em minha casa -sendo que, ele ficava tanto tempo lá, comigo, que era como se ele fizesse parte da moradia onde residia, e, por extensão, de minha família e, até mesmo, parte de mim, de quem eu era-, era, simplesmente, aliviante e, poder sentir seus braços envolvendo, reconfortantemente, meu corpo, tornando, desse modo, o abraço que estava a lhe dar, uma ação recíproca, fazia um bem indescritível para meu coração ababelado.
            Minha mente se encontrava em um estado tão conturbado que eu demorei para perceber algumas coisas… Diferentes no meu companheiro de infância… Eu não sabia explicar como, contudo, de alguma forma, eu… Sentia que seu toque era… Atípico… Embora tivesse sido deveras aconchegante para mim antes, no momento de recaída emocional, a partir do segundo em que percebi tal coisa, a maneira como ele me abraçava se tornou bem… Esquisita ao meu ver…
E então, naquela situação inusitada, eu acabei notando outra coisa sobre Ichiru…
            ...Ele estava sem sua máscara justo naquele dia em que prometemos usá-la sempre e sempre.
            “Por que? Não faz sentido algum Ichiru quebrar a promessa, então…” Fui privada de terminar o meu raciocínio lógico, incapacitada de juntar as peças do quebra-cabeça quando o inesperado aconteceu.
            Com uma risada baixa, senti os braços daquele que, outrora me servira como arrimo, me apertando com bastante força, como se tivesse a intenção de me deixar ali, presa, consigo… E, é claro, a primeira coisa que fiz, foi tentar me livrar de suas mãos, me debatendo e empurrando seu tórax -tendo eu, facilmente, retirado minhas mãos que, momentos antes, estavam sob suas costas, imprensadas contra o chão-, querendo me soltar dele, desejando me afastar, mas, por incrível que pareça, mesmo que eu estivesse sobre o ruivo, o mesmo havia, realmente, conseguido me manter sob seu domínio a partir de sua força sobrenatural, e, embora estivesse ciente de tal coisa, não me deixei abater e continuei relutando, ansiando apenas me livrar de seus braços… Mas, isso não poderia sequer ser comparado pelo que estava por vir.
            -Ichiru, o que você está fazen…?!
            Subitamente, em meio aos meus explícitos protestos sobre meu estado de “submissa”, observei, perplexa, aquele que era meu amigo começar a se tornar uma criatura horrenda, uma espécie de fera antropozoomorfica… O momento da revelação me fez ficar sem fôlego por alguns segundos… Apesar de tudo, eu estava incrédula… Aquilo era, realmente, a pessoa com quem eu convivi por dez anos? O rapaz que sempre procurava alegrar os meus dias e que eu tentava sempre buscar fazer tal coisa por ele também?... Parte de mim se recusava a acreditar que aquele era meu amado companheiro de infância, a medida que a outra, embora não tivesse aceitado-a por completo, já tinha consciência daquela amarga realidade, insistindo em intitulá-lo como traidor… Como as coisas haviam ficado daquele jeito?... Por que aquilo estava acontecendo comigo?
            Virei meu rosto coberto pela máscara para o lado, me recusando a observar sua face bestial, enquanto o mesmo se levantava, ainda me aprisionando contra si, porém, naquele momento, com seus braços peludos e mais robustos do que antes.
            Por um curto período de tempo, por conta do choque, eu fiquei calada e imóvel, deixando a fera me carregar para onde quer que a mesma quisesse -e, no caso, ao que parecia, seu destino era ir lá fora, através da porta que trancara em sua forma humana-... Minha cabeça e coração estavam um caos, explodindo tanto de informações quando de sofrimento ao ponto de eu não conseguir reagir àquela situação tão… Inusitada… Mas então…
            ...Eu lembrei de minha matriarca.
            “O que ela faria caso estivesse aqui?” Perguntei a mim mesma, enquanto o ser de pelagem negra já estava a poucos centímetros da entrada… E então, tão rapidamente quanto a pergunta se formulou em minha mente, a resposta também veio.
            “Sim… É verdade…” Concordei comigo mesma sobre a resposta para a questão ser realmente aquela, no final das contas…
            ...Minha mãe, de certo, me defenderia e tentaria, a todo custo, me tirar dos braços daquela fera que Ichiru havia se tornado, mostrando o seu lado naquela confusão toda, uma vez que, a mesma temia pela minha vida, ela…
            ...Não queria que eu morresse… E eu…
            ...Eu não me deixaria morrer, mesmo que meu assassino fosse meu melhor amigo pelo qual eu nutri tanto carinho… No final, eu precisava honrar a minha falecida progenitora e seu provável desejo de me ver vivendo naquele mundo frio, comparável, até mesmo, ao clima daquela noite taciturna.
            Estando a milimetros do grande pedaço de madeira, de maneira veloz, decidi esquecer, mesmo que, momentaneamente, de todos os problemas que ocupavam meu cérebro e peito cansados de tantas dores e agonias, e, logo me foquei no meu corpo e nos movimentos que executaria para sair daquela situação, e então, acabei, no impulso, fazendo, praticamente, a primeira coisa que veio em minha cabeça.
            Com convicção, empurrei fortemente, com a palma de minha mão, o seu queixo, fazendo com que o rosto daquele em que eu, um dia, tanto confiei, acabasse por ser, subitamente, jogado para cima e, graças ao ataque inesperado de minha parte, pude sentir suas mãos se afrouxando um pouco ao meu redor e então, aproveitando a oportunidade, sem perder tempo, logo deixei-me, forçadamente, escorregar por seus pelos crespos -que possuíam um odor não muito agradável-, caindo, por fim, no piso escuro, tendo acabado por bater minha cabeça no chão naquele processo apressado onde a criatura imponente apenas foi tentar recuperar a força de seu agarro quando eu não mais estava lá, apenas o ar.
            Com um rosnar furioso que pareceu estremecer a casa, quando seus olhos totalmente pretos me encararam com todo aquele ódio que parecia, até mesmo, atravessar a máscara que escondia minha face, não me dei tempo sequer para normalizar minha respiração agitada por toda aquela adrenalina e, rolei para o lado, ficando fora de seu alcance -tendo ele tentado me pegar, de modo agressivo no local onde antes me encontrava- momentaneamente, tendo sido, apenas um instante, o suficiente para eu, desajeitadamente, me erguer e, mesmo que tropeçando em meus próprios pés -sem nunca cair, felizmente- de maneira afobada, correr até o único objeto decisivo e que seria capaz acabar com tudo aquilo…
            ...O sabre.
            Tendo de me agachar um pouco para tê-lo em mãos novamente enquanto acelerava os passos só para pegá-lo… Meus batimentos cardíacos apenas se aceleraram ao ter a arma que poderia terminar com tudo ali, naquele exato momento, em minha mão trêmula.
            -Ichiru! Para trás! Eu não… Eu não quero te machucar, então, fique longe!
            Eu tentei parecer o mais determinada e segura possível, mas, sob aquelas circunstâncias, de longe, não estava capacitada de conseguir alcançar as emoções que desejava que transparecessem… No final, naquele momento, meus sentimentos se encontravam frágeis e instáveis, sendo que, as únicas coisas que pude demonstrar naquela situação tensa, onde eu apontava a lâmina de uma espada para uma besta, cuja coloração quase se mesclava com a escuridão do interior do aposento e que, outrora, havia sido meu amigo, foram o meu nervosismo e medo com relação a como aquela situação acabaria… Eu não sabia ao certo o que pensar daquela situação, tudo, mais uma vez, estava ocorrendo tão rápido que eu não tive a oportunidade de refletir sobre tal coisa de maneira tão aprofundada quanto eu queria ter feito.
            Ao ouvir aquelas minhas palavras e perceber que a arma que segurava estava brandida em sua direção, logo notei uma súbita falta de movimento de sua parte, como se…
            ...Como se ele tivesse desistido de avançar.
            Um alívio percorreu todo o meu corpo quando isso aconteceu… Apesar do fato dele, provavelmente, querer me matar e de eu nem mais saber se tudo o que vivemos, nossa amizade em si, havia sido real, por algum motivo, eu ainda sentia que, dentro daquela fera desenfreada, existia o amigo que sempre fez questão de cuidar de mim, bem como eu também fazia, mas então, por manter minha guarda baixa, acreditando que ele não mais se aproximaria…
            ...Fui surpreendida com um avanço, inesperadamente veloz da criatura de pelagem negra que, enquanto se aproximava de mim mais uma vez, tomava toda a cautela de não deixar a parte pontiaguda da arma imóvel atingir-lhe… Porém, instintivamente, sentindo que estava em perigo, ameaçada, sem conseguir pensar direito no ato que fizera, balancei horizontalmente o sabre…
            ...E o degolei.
            Naquele momento, minhas pernas se tornaram bambas, incapazes de me manter de pé após ver, sentir e ouvir o que havia acabado de fazer… E eu, sem resistência alguma, semelhante a um castelo de cartas deixado ao vento feroz, desmoronei, impotentemente de joelhos no chão -tendo sentido uma leve dor nessas partes de meu corpo que, no final, eu decidi, simplesmente, ignorar-, erguendo meu pescoço e, como consequência, encarando o teto sobre mim, através da máscara que, naquele momento, tinham gotas de um líquido carmesim que eu estava, praticamente, farta de ver naquela noite, me recusando a observar a cena que eu mesma havia causado, e então, refletindo…
            ...Acerca do fato de eu não ter mais nada naquela vida.
            Aquele mundo insensível, em apenas uma noite, conseguiu retirar de minha miserável vida, as pessoas mais importantes para mim, as pessoas que eu realmente amava e…
            ...As pessoas com as quais eu convivi tempo suficiente para me apegar e criar bons momentos, sendo esse, um dos motivos para justificar a dor que perturbava minha alma vazia e carente de amor e arrimo… Mas, também, em meio àquele sentimento sufocante que me trazia memórias que eu criei junto daqueles dois, eu acabei percebendo uma coisa…
            ...Eu não poderia confiar em mais ninguém.
            Naquele momento, além de ter descobrido o terrível segredo -que eu, de maneira iludida, pensei que não tínhamos tal coisa um com o outro, mas, diante da situação, era inegável o meu ingênuo equívoco- de Ichiru, eu estava sozinha. Eu não tinha amigos. Eu estava sozinha no meio daquele projeto de fim do mundo. Eu…
            ...Estava por conta própria.
            E a única pessoa em que eu deveria confiar era em mim mesma, afinal, a realidade na qual antes vivia e conhecia, simplesmente, desapareceu em meio ao derramamento de sangue.
            No final, após pensar de maneira profunda sobre as coisas pelas quais havia passado e ainda estava passando, vagarosamente, de pouco em pouco, me reergui, tentando, apesar de tudo, procurar forças e coragem para sobreviver e existir naquele planeta cruel, mas, mesmo que eu estivesse fraquejando e não encontrasse uma razão, eu tentaria prosseguir com vida no meio daquela confusão toda… No final, de certo, aquilo seria o que minha mãe queria que eu fizesse, e, talvez, até mesmo…
            …O que Ichiru desejaria que eu executasse.
            Ao pensar nisso, balancei minha cabeça de um lado para o outro, ciente de que, tendo isso em mente, eu, provavelmente, estaria apenas enganando a mim mesma… Afinal, ele era um traidor… E eu tinha visto aquilo com meus próprios olhos.
            Dando as costas para o cenário grotesco que eu mesma havia produzido, me direcionando até onde o gelado corpo de minha mãe repousava, por um momento, desejei poder fazer o mesmo com todos aqueles acontecimentos recentes e memórias de agradáveis momentos que passamos juntos que, de alguma forma, dilaceravam mais ainda meu coração quebrado em milhões de pequenos pedaços… Mas, no final, lá no fundo, eu sabia…
            ...Eu sabia que não poderia, simplesmente, dar às costas para tudo aquilo… Tinha consciência de que aqueles fatos virariam meus grilhões, meus demônios… Meu fardo… E que, os mesmos, levariam tormento até o meu túmulo… No final, não era como se eu pudesse apagar tudo o que existia em minha mente e nem fechar meus olhos para aqueles ocorridos que, definitivamente, não poderiam ser ignorados, tendo em conta sua gravidade.
            Pegando o cadáver de minha progenitora, ainda com a arma em uma das mãos, o joguei, com delicadeza, novamente, por cima de meu ombro, cujo corte ainda estava aberto, porém, o sangue já havia coagulado, tendo o mesmo, como consequência, parado de escorrer pelo membro citado, e então, com a mão envolvendo a cintura da mais velha e de cabeça erguida, me recusando a olhar para o que estava no piso…
            ...Segui para a porta com uma tranca -que não seria complexa de se abrir- que me faria ir para fora daquele lugar sufocante, cujo oxigênio pareceu se tornar escasso após tudo o que aconteceu.


            Mesmo cansada, eu obriguei minhas pernas a percorrerem todo o trajeto que me levaria até em casa, o único abrigo que eu havia pensado para passar durante aquela espécie de apocalipse, mas, quando cheguei lá…
            Fogo.
            O amarelo ardente estava ateado em minha morada, consumindo, sem dó alguma, as estruturas de meu lar e, mesmo que a vontade de, mais uma vez, por parte de minhas pernas que tremiam, desabar no chão, fosse imensa, eu me controlei e, mesmo diante da dor de não ter mais para onde voltar, um local para chamar de “meu” e…
            ...De não ter mais nada sobrando naquela vida injusta.
            E então, subitamente, enquanto encarava a construção ser queimada, senti um calafrio percorrer minhas costas... A tensão tomou conta de mim e eu, exasperadamente, me virei, apontando, de modo inquieto, a espada contra meu oponente… Mas, o que eu não esperava era que, o mesmo, aproveitando a situação em que eu havia baixado a guarda devido às circunstâncias, puxou o corpo de minha matriarca, o largando no chão, bem à sua frente.
            O fato de seu cadáver inerte estar estirado no chão me distraiu bastante no quesito visual, visto que, eu tinha, rapidamente, abaixado minha cabeça ao perceber o que meu inimigo havia feito, me desfocando, totalmente, da batalha na qual havia acabado de adentrar… E então, agindo por impulso, de modo rápido, me agachei -abaixando, por extensão, o braço com o qual eu empunhava minha espada contra a criatura com chifres encaracolados- para recolher seu corpo de novo, contudo, de maneira repentina, tive de parar minha ação na metade, afinal…
            ...Uma fria lâmina havia sido apontada contra meu pescoço.
            Lentamente, comecei a erguer meu rosto, tomando todo o cuidado para a ponta afiada não penetrar em minha garganta -uma vez que, tal coisa, na pior das hipóteses, poderia causar minha morte-, tendo o intuito de encarar aquele que havia me deixado à sua mercê -sendo que, enquanto erguia meu olhar, eu percebi algo que não notara antes… Ele, assim como todas aquelas criaturas, estavam utilizando uma espécie de farda de coloração escura, sendo que, todas as vestes tinham, estampadas na região de seus peitos, um símbolo de um animal canino… Só que, um tanto mais tenebroso do que um normalmente seria-, e então, ao encarar aqueles odiosos e frios olhos cor turquesa…
            ...Um zunido passou próximo ao meu ouvido de modo tão rápido ao ponto de eu não ter conseguir entender o que havia acabado de ocorrer.
            -Não precisa gastar suas flechas, Venka. A humana já está sob meu domínio.
            O rapaz de curtos cabelos azulados olhou por cima do ombro, tirando sua atenção de mim e pousando a mesma sobre, aparentemente, uma mulher que quase ia me acertando com uma flecha -tendo sido o único vestígio da mesma, o zunido citado anteriormente.
            Não me dei o trabalho de olhar para a pessoa com a qual o meu “dominador” estava a conversar… Na realidade, aproveitei o fato do mesmo estar distraído e, com um movimento brusco da mão que ainda segurava meu sabre, rapidamente, de modo arriscado, deixei o mesmo tilintar contra a lâmina de meu oponente, a empurrando para o lado, e, por sorte, acabei não me ferindo no processo e, mesmo que tivesse, de certo, era uma ferida superficial e que eu conseguiria suportar até que sarasse.
Uma vez não tendo algo pontiagudo contra minha nuca, logo tratei de, com velocidade elevada, me arrastar pelo chão, de modo que eu ficasse longe o bastante do homem que, depois de alguns momentos atordoado por conta de meus rápidos movimentos, logo se prontificou para vir atrás de mim, para me erguer novamente e logo começar a correr.
            -Eu irei te buscar, mãe… Eu prometo.
            Olhando por cima do ombro, observando minha progenitora sendo pisoteada por seres insensíveis que não davam a mínima para sua morte -e que eu, particularmente, por estar dominada pela fúria e pela parcial falta de sanidade depois de tudo, gostaria de acabar com as miseráveis vidas, contudo, uma parte racional de mim sabia que eu não teria chance alguma contra aquela espécie de exército que eu pude ver apenas de relance e, logo alertou sobre a probabilidade de minha morte e, mesmo que eu já não tivesse mais nada em minha vida que, de um dia para o outro, se tornou vazia, eu queria sobreviver-, joguei essas palavras sussurradas ao vento que, naquele momento de correria, agitava meus cabelos de um lado para o outro, até que, em minha fuga…
            ...Eu me esbarrei contra alguém.
            Instintivamente, recuei alguns passos para trás, logo brandindo minha espada contra seja lá quem fosse, antes mesmo de olhar para a pessoa com a qual eu havia chocado meu corpo... E então, ao, ainda apontando minha arma para o rapaz, dar uma olhada rápida, mas, ao mesmo tempo, minuciosa, no homem cujos olhos verdes que me encaravam e expressavam confusão se assemelhavam a duas esmeraldas e que eram, parcialmente, cobertos por sua franja de coloração mista, uma vez que, a mesma contava com a presença do loiro e do negro, bem como o seu cabelo em si, preso por duas pequenas tranças, percebi que o mesmo, diferente daqueles que me perseguiam, não tinha, além de suas vestes um tanto quanto exóticas e a espada bastarda que tinha em mãos, nada de anormal que indicasse que o próprio era um daqueles que estava me perseguindo... Mas, mesmo assim, embora ele aparentasse ser alguém normal, assim como eu, optei por não baixar a guarda em sua presença… No final das contas, eu não poderia confiar em ninguém além de mim mesma, sem falar que as aparências enganavam e eu havia aprendido tal coisa há pouco tempo atrás, do pior modo, na casa de Ichiru.
            -Leiftan, o que hou-
            Aparentemente acompanhando o primeiro -cujo nome, ao que parecia, era Leiftan-, se pronunciou um rapaz -que, diga-se de passagem, pareceu ligeiramente sem reação e ababelado com o fato de eu estar brandindo uma arma contra o seu companheiro- abaçanado de médios cabelos brancos que lembravam a neve pura do inverno e olhos dourados, de vestes, igualmente, chamativas e que tinha em mãos um enorme machado de guerra que eu, particularmente, de maneira honesta, tinha dúvidas se teria a capacidade de carregá-lo, levando em conta minha força -no final das contas, eu era forte, mas, não era como se eu fosse capaz de aguentar o peso de uma arma tão pesada-, o que demonstrava que, no quesito físico, o moreno tinha bem mais força do que eu -um fato importante para o caso de eu, em algum momento, pensar em atacá-lo num combate corpo a corpo-, sendo que, o mesmo tinha uma voz firme e grave.
            -Ela é uma humana, certo?
            Levando em conta que o rapaz, cujo olhar âmbar que, por um momento, enquanto proferia sua frase com sua voz rígida, foi direcionado para mim e, logo depois, para o intitulado como Leiftan, assim como os outros, se referiu a mim como “humana”, percebi de cara que o mesmo também era uma daquelas criaturas, embora, não estivesse explícito em questões de fisionomia e nem em suas roupas que, embora esquisitas, não chegavam nem perto de se parecer com as das criaturas que retiraram a vida de minha dócil mãe e que estavam a me perseguir, provavelmente, com a intenção de me matar também.
            -Sim, mas eu não consigo compreender o porquê dela estar armada… Ainda mais, aparentemente, com uma espada do exército inimigo.
            Ao escutar os sons apressados de passos se aproximando cada vez mais e mais se mesclando à voz suave do rapaz de pele caucasiana, acabei por me desfocar da conversa que aqueles dois estavam tendo -sendo que, ambos pareciam ignorar minha existência ou, até mesmo, haviam esquecido que eu estava ali, na presença de ambos e que eu sabia falar e ouvir- e, rapidamente, deixando de lado minha posição ofensiva para com aqueles que, até aquele momento, não haviam me apresentado perigo, me virei para ver meia dúzia de homens e mulheres uniformizados vindo para onde eu me encontrava, sendo, ao que parecia, liderados pelo rapaz de chifres longos que havia me apontado uma lâmina momentos antes, uma vez que, era ele quem estava mais a frente.
            -Você acha que ela?...
            -Não, no final, é bem óbvio que, no caso de um ser humano aparecer no reino deles, os mesmos são tratados apenas como escravos e gado, não como soldados.
            Embora estivesse com o olhar pousado nas seis criaturas que se aproximavam cada vez mais, confesso que o diálogo daqueles que estavam atrás de mim me desconcentrava bastante, e então...
            -Ugh...
            Cerrei os dentes quando uma flecha disparada, atingiu, de raspão, o meu braço, já sentindo um pouco de sangue escorrer da ferida ardente que se abriu assim que minha pele entrou em contato com o objeto citado… Eu precisava fugir, despistar e me esconder de todos aqueles seres.
            -Parece que temos companhia.
            Pude escutar a voz tensa do maior detrás de mim, provavelmente notando todas aquelas criaturas que avançavam sem hesitação e das quais eu me preparava para fugir, mas, quando me virei e comecei a movimentar minhas pernas para me locomover…
            -Leiftan! Valkyon! Nó-
            ...Eu me esbarrei novamente contra outro rapaz -que, aparentemente, conversava com os outros dois
            “Droga! Essas criaturas não param de aparecer do nada!” Reclamei mentalmente, me afastando de modo rápido do homem com o qual havia trombado, já me movendo para o lado com a intenção de continuar com minha fuga, porém, quando fui examiná-lo de relance -bem como o outro que o estava acompanhando que se encontrava tão ababelado quanto o próprio com a situacão-, fiquei paralisada…
            ...Antes de apontar, instintivamente, sem nem pensar duas vezes, meu sabre contra o pescoço do rapaz de curtos cabelos negros como aquela noite sombria, um olho cinza -estando o outro coberto por um tapa-olho- e cujas orelhas levemente pontudas me recordavam daquele que assassinara minha mãe.
            -Mas o que?!
            Um rapaz de longos cabelos azulados como o mar -bem como seus olhos arregalados- e orelhas bem maiores que as do moreno logo reagiu diante de meu movimento brusco que podia, a qualquer momento, matar o seu colega que se encontrava boquiaberto, mostrando em sua boca, afiadas presas, puxando uma espécie de florete da bainha que se localizava pendurada em seu cinto.
            -Ezarel, ela é apenas uma humana! Temos problemas bem maiores aqui!
            Mesmo escutando a voz mansa de Leiftan junto do som de metais colidindo detrás de mim -provavelmente aqueles seres já haviam nos alcançado e já estavam a lutar contra os dois que estavam mais à frente-, me sentindo ameaçada pela espada que foi apontada para mim, de maneira rápida, sem pestanejar, lancei a lâmina de minha espada de perto da garganta do moreno até a mão do azulado que segurava sua arma, fazendo por lá um corte profundo, além de ter conseguido fazê-lo largar o florete que, momentos antes, provavelmente, pretendia utilizar para me atacar.
            -Droga!
            O rapaz que parecia ter a mesma altura que a minha, resmungou com a dor de ter seu tecido epitelial rasgado e então, quando, rapidamente, fui voltar minha atenção para a figura masculina de tapa-olho que, se minha memória, não falhava, estava armado com uma gládio…
            ...Ela já não estava mais lá.
            Arregalei os olhos assim que senti -com um pouco de dificuldade- uma presença e respiração discreta atrás de mim, mas, antes que eu pudesse me virar para ferir o que era, provavelmente, o rapaz de caninos salientes…
            …Um gás espesso de coloração acinzentada que me distraiu, logo começou a preencher o ambiente.
            -Fujam! Agora!- exclamou aquele chamado de Ezarel e logo comecei a sentir os braços de alguém me envolvendo, como se fosse me levantar e me levar nos braços, mas, então, antes que eu pudesse reagir, uma pessoa, rapidamente, correu pelo meu lado e, logo pegou meu pulso, me puxando para sua correria da qual eu queria me libertar, sendo, praticamente, arrastada pela figura maior irreconhecível por conta da fumaça… As coisas estavam acontecendo tão rápidas de novo que eu não me encontrava entendendo tanto quanto gostaria, mas, de qualquer forma, eu queria trilhar meu próprio trajeto para escapar, logo, ofereci resistência com relação a ir com seja lá quem estivesse me guiando pela mão que segurava o sabre e, como consequência, não pude usá-lo naquele momento e era provável que, se eu pudesse enxergar -ação que eu era, praticamente, incapaz de fazer por conta do gás que só me deixava distinguir poucas coisas através da visão- as coisas com precisão, eu já teria me libertado daquela mão razoavelmente forte que estava grudada no meu pulso, revestido tecido de minha longa luva.
            -Caso queira sobreviver, por favor, me acompanhe.
            E então, pela voz serena e calma, logo percebi que quem estava me puxando consigo era o loiro, o tal do Leiftan e, admito que, saber que era ele quem me arrastava não melhorou nem um pouco a situação e, eu, provavelmente, teria prosseguido relutante se o mesmo não tivesse falado uma palavra que me chamou a atenção…
            Sobreviver.
            Ao que parecia, segundo suas palavras, eu poderia durar mais tempo com vida naquela cidade destruída, e, sem dúvida alguma, eu ansiava por aquilo… No final das contas, não morrer se tornou o meu único objetivo, a única convicção para mim, uma pessoa que perdeu tudo. Seu lar. Seus entes queridos. Tudo…
            Então, eu acabei acelerando o meu ritmo de caminhada e consegui acompanhar a velocidade do rapaz, cujos olhos esverdeados não tinha a capacidade de observar… Mas não era como se eu confiasse nele, afinal, caso o mesmo demonstrasse querer me causar algum mal, eu acabaria com o homem um pouco mais alto do que eu, com minhas próprias mãos…
            Definitivamente.


            Após correr bastante, junto de Leiftan e os outros rapazes, acabamos por chegar até à parte de trás de um mausoléu antigo e, consideravelmente, distante de onde estávamos anteriormente e, diferente da cidade no geral, a imponente construção estava intacta, sem nenhum arranhão… Existiam algumas lendas e mitos sobre aquela enorme propriedade funerária, mas, no final, todas elas faltavam com a verdade… Bom… Ao menos…
            ...Era isso o que eu acreditava antes.
            -Leiftan, gostaria que você me respondesse uma coisa e somente uma coisa… Por que trouxe essa humana conosco?
            Assim que o rapaz de cabelos mistos soltou meu pulso, aquele intitulado como Ezarel, me lançando um olhar de desdém,perguntou para o rapaz de rosto com feições suaves.
            -É verdade que ela pode nos ser útil em determinadas situações, como, por exemplo, para distrações, mas acredito que a humana também atrapalhará nossa busca, logo, não vale a pena levá-la junto.
            Valkyon, com uma tonalidade neutra e uma expressão impassível, alegou seu ponto de vista e como eu, particularmente, não estava nem aí para o que os garotos conversavam, fui, cuidadosamente, espiar para ver se havia a presença de alguma criatura que desejasse me ferir.
            -Eu acredito que seria cruel de minha parte deixar a humana sozinha para morrer, então, acabei salvando-a.
            Ao escutar a fala do loiro, de imediato, virei minha cabeça para encará-lo por detrás de minha máscara.
            -Eu não precisava ser salva. Eu poderia ter dado meu jeito de sair daquela situação.
            Deixei as palavras frias saírem amargamente de meus lábios que não eram visíveis… Mas, o que havia acabado de proferir era verdade, apesar de tudo, eu acredito que tinha a capacidade de me virar sozinha, mas, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, já estava sendo puxada por Leiftan.
            -Então por que você não fez isso e se deixou ser levada por ele?
            Quando o rapaz de orelhas extremamente pontudas, ainda com sua arrogância, perguntou aquilo de modo um tanto provocativo… Optei apenas por ignorá-lo e voltar a observar de modo furtivo se vinha algum indivíduo indesejado ou não, com a intenção de, no final, tentar fugir daqueles quatro estranhos que, felizmente, até aquele momento, não me feriram.
            -Vamos focar no que viemos fazer aqui? Eu e o Ezarel procuramos por, praticamente, todas as partes da cidade e não encontramos nada de valor que eles poderiam querer… Não há mais nenhum lugar para ser explorado.
            Uma nova voz se pronunciou e eu, suspeitava que era a do moreno que, até aquele momento, não havia falado nada.
            “Então eles querem alguma coisa daqui, huh?...” Pensei comigo mesma, ainda sondando os arredores com a visão… Mas, a única coisa que eu gostaria de saber, se aquele fosse o caso, era o que aqueles bárbaros ansiavam alcançar naquela cidade que, por anos, se manteve pacata e sem nada de incomum ou especial.
            -Uau… Realmente não esperava isso de você, Nevra… Pensei que seria o primeiro a se pronunciar sobre essa humana-sem-nome.- falou o rapaz de roupas engomadas, se referindo de maneira sarcástica ao fato de eu não ter me apresentado e eu, honestamente, não me importei com seu comentário e personalidade em si, desagradável ao meu ver.
            -Embora seja raro de se acontecer, eu consigo perceber quando não sou bem-vindo… Principalmente quando apontam uma espada contra meu pescoço.
            A voz do homem que utilizava um tapa-olho saiu orgulhosa na primeira parte e acabou se tornando um tanto quanto cômica no final.
            -E no entanto, você tentou me levar nos braços alguns momentos atrás…
            Especulando que aquelas mãos que estavam a me envolver antes de Leiftan passar rapidamente ao meu lado, me puxando pela mão, falei indiferente, sem sequer olhar para as figuras masculinas, uma vez que, estava ocupada, me certificando se estava tudo bem sair ou não.
            -O Nevra tem razão. Temos de focar em nossa missão, mas, do jeito que as coisas estão, infelizmente, teremos de voltar com as mãos vazias, senão, iremos correr mais riscos do que já estamos a correr nessa cidade que está sendo dominada por eles, sendo que, já procuramos por toda parte.
            Ao que parecia, antes de Nevra poder comentar qualquer coisa acerca de meu argumento, Leiftan se pronunciou… Então eles estavam ali para cumprir a missão de encontrar o que o exército -que, aparentemente, seus membros eram os inimigos dos quatro rapazes-, que foi responsável pela morte de minha matriarca, queria com minha cidade?... Deixei isso anotado em uma parte de minha cabeça, contudo, uma vez tendo percebido que não havia nenhuma daquelas criaturas bárbaras, logo me levantei -visto que, antes, eu me encontrava agachada-, me preparando para ir embora, mas então…
            ...Senti meu braço ser agarrado.
            De imediato, me virei e, com o outro braço livre, brandi minha arma, a encostando levemente sobre o peitoral de Leiftan, aquele que estava me segurando, mas sem machucá-lo, tendo feito aquilo apenas para ameaçá-lo no caso dele ousar tentar fazer algo contra mim.
            -Se você voltar para lá, com certeza irá morrer. Venha conosco.
            Um pouco desconfiada, baixei o sabre aos poucos -parando, dessa forma, de apontar para o rapaz que alegava querer me ajudar a sobreviver- e, por cima do ombro de Leiftan que deixou as palavras saírem de seus lábios calmamente, pude ver as expressões perplexas dos seus outros três companheiros… Valkyon, Nevra e Ezarel.
            -Você enlouqueceu, Leiftan?! Sei que você é muito gentil e atencioso, mas, para tudo tem um limite! Ela é perigosa e você sabe muito bem disso! Ela até mesmo chegou a cortar minha mão com esse maldito sabre… Sem falar que, a humana seria apenas um inútil peso morto no nosso mundo! Não duvido que ela esteja mais em perigo por lá do que aqui… No final, nenhum ser humano que esteve por lá nunca chegou a sobreviver tempo suficiente para voltar.
            Lancei um olhar indecifrável de ódio para o azulado que parecia ser o mais crítico dali e que parecia ter uma língua muito… Solta… Embora, no final, eu não tivesse feito mais nada além de encará-lo, uma vez que, o termo “no nosso mundo” ocupou um grande espaço de meu cérebro, me tornando, até mesmo, incapaz de pensar numa ação para executá-la em seguida com relação ao homem que tinha os cabelos presos em um rabo de cavalo -sendo que, os meus próprios, depois de tanto correr, já haviam se desfeito do coque e se encontravam soltos e agitados-... O que ele quis dizer com aquilo?
            -Tenho de concordar com Ezarel. É uma péssima ideia levá-la junto conosco.
            O maior de todos dali -e que parecia ser o mais calado- concordou com o azulado.
            -Eles têm razão, é muito imprudente de sua parte fazer isso, Leiftan… O que a Miiko dirá quando ver que você a levou daqui para Eldarya? Sem falar que, levando em conta a situação da Guarda de Eel, ela acabaria por ficar sem voltar para cá por muito tempo!- argumentou o moreno, um tanto quanto receoso com a escolha daquele que, por algum motivo, queria me levar junto deles.
            “Eldarya, huh?...” De algum modo, o nome me soava familiar, embora, não fizesse a mínima ideia do que se tratava aquele termo e nem sabia onde eu, aparentemente, já o tinha ouvido antes… Provavelmente, na época em que eu escutei aquela palavra, eu não devo ter dado muita importância, tratado como irrelevante ou, até mesmo, ter acontecido da mesma ser falada há muito tempo atrás, justificando, desse modo, o fato de eu não ter me recordado de onde eu havia deixado aquele nome entrar por meus ouvidos e penetrar em minha mente.
            -Primeiro, não é a primeira vez que uma humana vai parar em Eld-
            -Mas é a primeira vez que levamos uma, diretamente, até lá!- retrucou Ezarel, interrompendo a fala do loiro.
            -Posso continuar?
            O azulado apenas suspirou diante da pergunta da figura masculina de olhos verdes e sua resposta para tal foi o silêncio.
            -Enfim, como eu dizia, não é a primeira vez que um ser humano acaba por parar em Eldarya, sem falar que, ela tem uma espada do exército inimigo intacta em mãos, então, levando em conta que, sempre que qualquer um de nós, da Guarda de Eel, tocamos nas armas deles, elas simplesmente desaparecem, a humana pode sim, ser útil, uma vez que ela poderá levar o sabre para o Quartel General, onde poderemos examiná-lo e saber de suas propriedades mágicas, além do material com o qual é feito, podendo isso auxiliar bastante a nossa Guarda.
            Mantendo a mesma calmaria de sempre, Leiftan explicou o seu ponto de vista para os três que, diante de seus argumentos, ficaram -pelo menos, a maior parte deles- sem jeito e ainda um tanto incomodados com sua ideia… Uns mais do que os outros, claro.
            -Dado as circunstâncias, nesse caso, acredito que talvez possa vir a ser benéfico ter essa bela dama no nosso QG.
            Convencido pelas explicações do rapaz de olhos esverdeados, Nevra, meio que soltando uma espécie de flerte direcionado a mim -que eu, particularmente, resolvi fingir que nem havia ouvido- concordou sobre me levarem para o tal mundo chamado de Eldarya.
            -Tanto faz… Mas, se ela morrer antes da primeira semana, não digam que eu não avisei!- resmungou Ezarel com um ar de desdém, duvidando de minhas capacidades.
            -Caso a maioria esteja de acordo, acredito que podemos sim levá-la, contudo, ainda não acho uma boa ideia que ela vá conosco… É como Ezarel disse, afinal, embora possa ser útil em certos aspectos, a humana pode se demonstrar fraca e inútil em outros, podendo levá-la à morte.
            Tentando ao máximo me controlar para não perder o controle e não ser impulsiva, me limitei a cerrar os dentes e os punhos, expressando, implicitamente, a frustração de ser menosprezada por aqueles dois -Ezarel e Valkyon.
            -Mas, acima de tudo… Você quer vir conosco?
            Aquela havia sido a primeira vez que um deles se demonstrou preocupado em saber minha opinião acerca daquela situação toda, mas, no final, depois de tudo o que aconteceu, eu me sentia incapacitada de sentir ou expressar contentação ou satisfação.
            -Tanto faz.
            A indiferença foi visível em minha voz seca, enquanto puxava meu braço que Leiftan segurava, o libertando dessa forma… No final, eu já havia perdido tudo, não tinha para onde correr, então, ir para um suposto mundo alternativo, mesmo que houvessem chances de eu não voltar nem tão cedo para aquele lugar onde eu me encontrava -e que, naquele momento, estava tão envolto no caos que eu sentia meu peito doer… Tudo em minha cidade natal se encontrava morrendo de maneira cruel e veloz, até mesmo seus habitantes, e esse fato incontestável era impossível de ser ignorado, embora, no final, mesmo sendo um tanto egoísta de minha parte, eu apenas desejava fechar os olhos para aquilo e não sofrer com tamanho horror infligido àquele local e cidadãos que tanto apreciei e amei-,  provavelmente não seria o fim do mundo… Contudo, se um daqueles quatro demonstrassem a mínima intenção de me ferir, eu não hesitaria em utilizar minhas habilidades com a espada ou, até mesmo, as de combate corpo a corpo para dar-lhes a paz… Afinal, eu não confiava neles.
            -Pois bem… Me siga então.
            E então, agindo conforme suas palavras, o mesmo foi caminhando de modo silencioso na frente de todos, enquanto, o homem de cabelos platinados, sem falar nada, tratou de segui-lo e então, Ezarel -que me lançou um olhar de quem julgava um livro pela capa- e Nevra -que me olhou com um ar entretido- logo fizeram o mesmo, tendo eu, hesitantemente, sido a última a se deixar ser guiada pelo loiro que parecia andar até a entrada da grande propriedade, onde acabamos todos por adentrar através do velho arco de madeira rústica que continha, no alto, algumas teias de aranha com poucas moscas e que brilhavam ao luar.
            De início, fiquei um tanto confusa com relação ao porquê de estarmos naquele lugar, mas, posteriormente, acabei descobrindo.
            O lugar, por dentro, como esperado, era deveras espaçoso, tendo, por lá, além de vários itens -provavelmente os da falecida-, um único caixão com um nome gravado.
“Kanase Hotaru” Li mentalmente o nome da pessoa que se encontrava morta, repousando no objeto de madeira.
            Muitos diziam que a moça que estava lá dentro, na realidade era uma phoenix que tinha perdido sua vida numa guerra que aconteceu entre os humanos e as criaturas dos “contos de fadas”... Mas, no final, eu nunca acreditei nisso e, achava que, até mesmo quem contava tal mito, não conseguia crer no mesmo de tão surreal… Contudo, naquele momento, depois de tudo o que havia visto e presenciado, eu já não sabia mais no que acreditar.
            Continuando a seguir os rapazes por aquele lugar de aparência antiga e escuro, sendo o mesmo iluminado apenas pela luz da lua que passava pelas enormes janelas, logo acabamos por dar de cara com uma parede de madeira comum como todas as outras… Bom, ao menos, isso foi o que pensei de início.
            Não demorou muito para perceber um imenso quadro que se encontrava encostado nesta e que conhecia do início -a fronteira entre o piso e a própria parede- da parede até sua metade, tendo o mesmo sido, em questão de segundos, retirado por Leiftan, exibindo, desse modo, uma entrada mais obscura com escadarias que levavam ao subterrâneo e, mesmo que a falta de claridade fosse um incômodo mínimo, sem nada a temer, apenas continuei a ir atrás dos quatro -sendo que, assim que adentrei na espécie de “câmara secreta”, a pedido do loiro, coloquei, sem muitas dificuldades, o quadro no lugar onde estava antes de o movermos dali-, descendo os incontáveis degraus, um a um, aos poucos, ficando cada vez mais imersa, fisicamente, na escuridão.
            Quando acabamos de descer as escadarias de arenito que pareciam ser, simplesmente, intermináveis, logo me vi no meio de catacumbas rodeadas pela escuridão que, a cada passo que dava, somente aumentava ainda mais.
            Lá dentro haviam vários caixões, todos feitos de um material que se assemelhava bastante ao mármore, além de alguns ornamentos de estilo gótico que eu não pude avaliar minuciosamente por conta da notável falta de luz… Naquele momento, até mesmo enxergar os movimentos daqueles que eu acompanhava se tornou uma tarefa árdua, tendo eu, logo, começado a ficar mais atenta à minha audição que denunciavam os passos, mesmo naquele silêncio, quase que inaudíveis para mim.
            E então, subitamente, todos pararam e eu decidi fazer o mesmo.
            Pude ouvir um som de algo áspero sendo arrastado e um movimento, praticamente imperceptível no chão antes de ser capaz de escutar e presenciar um ranger desesperado de algo muito velho sendo aberto, e então, finalmente, me encontrei capaz de utilizar so máximo minha visão, outrora parcialmente incapacitada de distinguir e averiguar uma boa quantidade de coisas.
            Após o barulho alto naquele cômodo fúnebre, pude enxergar uma fraca luz azulada que vinha de um buraco com escadas fixadas na parede feita de concreto, que, não era nada mais e nada menos do que um alçapão.
            Com a ajuda da nova iluminação, logo fui capaz de compreender o que havia acabado de acontecer.
            Aquele alçapão estava oculto sob um tapete de aparência áspera, sendo que, o último foi arrastado por um dos rapazes que logo após o feito, tratou de levantar a tampa do alçapão, deixando, desse modo, a pequena luz adentrar o recinto onde nos encontrávamos… E, levando a distância do tapete para este, o mais provável a ter executado tudo aquilo foi Nevra... Honestamente, diante daquelas circunstâncias, eu, provavelmente, não teria conseguido sequer pensar em fazer tudo o que foi executado pelo loiro e pelo moreno… Na realidade, talvez até conseguisse chegar nas “respostas” levando em conta minha teimosia, determinação e raciocínio lógico, contudo, eu, de certo, não teria conseguido resolver aquele “quebra cabeça” em tão pouco tempo e com tanta facilidade quanto eles, o que era justificável… Afinal, os garotos pareciam saber muito bem para onde ir, tendo consciência de quais caminhos deveriam tomar, diferente de mim.
            E então, logo, um a um acabaram, cautelosamente, por descer as escadas, tendo sido o rapaz de caninos salientes o primeiro, eu a segunda, logo seguida de Ezarel, Valkyon, e o último foi Leiftan que tentou arrumar o pequeno tapete na tampa do alçapão antes de, do modo mais suave possível de se fazer tal coisa, fechá-la novamente.
            Uma vez tendo encostado meus pés no chão novamente, pude sentir o quão abafado estava lá embaixo… Naquele momento, eu me perguntava se teríamos de ir mais para baixo ainda.
            No final, quando todos descemos, acabamos por caminhar através de um extenso corredor que, conforme andávamos, era preenchido ainda mais pela iluminação azul, até que…
            ...Chegamos ao nosso destino.
            Uma espaçosa sala, cheia de vida graças à formosa luz que banhava todas as partes daquele lugar, sendo, a fonte daquela forte e intensa iluminação, a coisa que mais se destacava e que se encontrava no centro do cômodo…
            ...Um portal.
            Uma espécie de redemoinho azul brilhante era a única coisa que existia naquele local de paredes altas feitas de um material que eu desconhecia, mas, que mesmo assim, tinham uma beleza inegável.
            Embora tivesse sido a primeira a me aproximar da espiral que parecia estar em constante movimento, deixei que os quatro adentrassem naquela energia tanto atraente quanto desconhecida.
            E então, tendo todos entrado e sumido no redemoinho, quando fui dar o último passo para fazer o mesmo que eles, paralisei e, logo, me peguei a refletir sobre tudo o que havia ocorrido desde o início daquele dia até aquele momento em que eu estava lá, de pé, imóvel, na frente de um portal… Apenas ali que eu parei para pensar que eu poderia realmente me arrepender de minha escolha, mas, então, ao relembrar de tudo o que eu passei, eu notei que…
            ...Eu já não tinha mais nada a perder além de minha vida no sentido literal, uma vez que, no figurado, eu já a havia perdido naquele mesmo dia.
            Eu não tinha nenhum objetivo ou convicção além de sobreviver, mas, no final, no fundo, com emoção e razão entrando em conflito, eu, de certa forma, sabia que esse meu “desejo” de existir era apenas uma justificativa que eu criei com base em minha doce mãe apenas para…
            ...Seguir em frente.
            Mas, mesmo que aquele meu anseio que motivava meu corpo, coração, mente e alma quebrados por imagens impossíveis de apagar de meu ser, fosse apenas uma desculpa esfarrapada, eu sobreviveria, eu seria forte como sempre fui, eu carregaria todo o peso das mortes em minhas costas, eu…
            ...Eu não me renderia à morte...
            ...Aquela era a única coisa que me motivava.
            E, independente do mundo ou universo onde me encontrasse, eu faria meu corpo se mover de acordo com essa vontade.
            -Feliz aniversário.
            Sem olhar para trás, sussurrei para mim mesma, erguendo a cabeça e dando o último passo, ficando, dessa maneira, imersa na energia cuja consistência, ao entrar em contato com meu corpo, parecia gelatinosa.

 


Notas Finais


¹ - Nas escolas Japonesas, são os próprios alunos quem limpam a escola.
² - Yoko tobi geri é um golpe de karatê que, consiste, basicamente, em um chute no ar.


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