História Beyond - Capítulo 4


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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jeongguk (Jungkook), Jung Hoseok (J-Hope), Kim Namjoon (RM), Kim Seokjin (Jin), Kim Taehyung (V), Min Yoongi (Suga), Park Jimin (Jimin), Personagens Originais
Tags Angst, Drama, Lemon, Menção!taekook, Mistério, Suji, Yoonmin, Yoonmin!flex
Visualizações 78
Palavras 4.841
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Ficção Científica, Lemon, LGBT, Luta, Mistério, Policial, Romance e Novela, Sci-Fi, Survival, Suspense, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


EU VOLTEEEEEEEEI e nossa, esse capítulo saiu com mais facilidade porém foi complicado escrever, apaguei 3 vezes com cerca de 2/3k de palavras pra recomeçar tudo de novo, quase chorei :') mas ele está aqui e é o que importa <3

Então, esse capítulo está um pouco mais... calmo? Acho que posso definir assim zkjsz um personagem que já foi citado começa a aparecer mais, tá aí o spoiler, galera.

AH, E POR FAVOR LEIAM AS NOTAS FINAAAAAAIS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! [ênfase no finaaaaaaaais]

Boa leitura!

Capítulo 4 - Aliados


 

 

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-o-

 

O silêncio carrega mais do que podemos imaginar. Seu suposto vazio ecoa dentro de cada um que o pratica de modo diferente, escorrendo pelas paredes emocionais de acordo com o que estamos compactuando através dele. Às vezes pode desabar gritos desesperados, em outras passear como conforto através de brisa morna.

Naquela manhã, o silêncio ao redor da mesa durante o café da manhã trazia duas consequências em Yoongi. A primeira, vinda da falta de palavras de seus pais, trazia desconforto por estar na mira de desconfianças. Sunhee não disfarçava os olhares de esguelha, os suspiros ansiosos como se esperasse por algo, qualquer coisa. Aquele tipo de expectativa mesclada de pressão que apenas uma mãe conseguiria colocar no filho, aquele tipo de desconfiança que nem mesmo um carrasco carregaria no olhar. A sensação de estar sendo analisado apavorava Yoongi. A segunda consequência ressoava internamente por causa do próprio silêncio, espalmando suas mãos sujas de sangue em suas paredes frágeis, trazendo o terror único de sua culpa, o perseguindo incansavelmente e perguntando-lhe, usando o tom de voz de Taehyung, o porquê, por que continuava parado? Aquilo fazia com que apertasse com mais força a alça da xícara enquanto bebia leite morno, descontando no objeto o pouco do tormento que reverberava aos prantos dentro de sua cabeça. Os impulsos de adrenalina corriam densos por suas veias, quase o obrigando a levantar e fazer alguma coisa, iniciar seus planos, vingar.

Vingar Taehyung.

Já o silêncio na cidade trazia outras consequências nos habitantes, nas construções pequenas, no ar que respirava conforme descia a rua até a loja. O ambiente era repleto de melancolia, um tom soturno ocupava os olhares de todas as pessoas que encontrou em seu caminho, como se enxergasse por breves segundos algo diferente, uma humanidade desconhecida que aparecia sempre que um desaparecimento ocorria. Naquela ocasião, Yoongi parecia sentir os sussurros ao seu redor, aqueles que o vento trazia, que as paredes soltavam. Era como se houvesse tinta resplandecendo coloridas, secas em forma de mãos, pegadas, na calçada, nas casas, em tudo, gravando em cada espaço quem passou, quem viu, quem pediu ajuda. Algumas daquelas marcas eram de Taehyung e Jeongguk. Eles ainda estavam ali, dentro de alguém, dentro de si, marcando suas paredes finas com sangue carmim morno.

O silêncio, em todas as suas formas e angústias e alívios, era perturbador. Aterrorizante e inquieto, cavando dentro de tudo ao redor todo o resquício de vida que existia. Aquela falta de palavras despontava com mais intensidade conforme as horas passaram naquele dia. E naquela situação, todos conheciam bem o prelúdio que a ausência delas assumia.

Jeon Jeongguk nunca seria encontrado.

 

 

 

A loja era decorada em tons pasteis que na maioria das vezes enlouquecia Yoongi. Não havia outras cores predominantes ali, muito menos tons fortes o suficiente para tirá-lo da inércia que entrava toda vez que olhava atentamente para a parede creme. Nesses dias, os minutos passavam devagar e o calor parecia se intensificar gradualmente. Mesmo estando naquele estado quase vegetativo-emocional, se obrigou a prender seus pensamentos nas lembranças da noite anterior. Era quase quatro da manhã quando chegara em casa, os sapatos sujos de lama, o coração batendo rápido demais para conseguir dormir bem o restante da noite. Jimin havia conversado consigo, honestamente, expondo uma ferida mútua sem medo de como elas reagiriam quando se chocassem. As palavras dele ainda passeavam por seus ouvidos, o deixando também alerta para seus próximos passos. Juntos. Por Taehyung.

Quando o sol já estava quase se pondo, foi surpreendido por Jimin. Arregalou levemente os olhos enquanto o observava atravessar o ambiente até chegar ao balcão, dando um sorriso simples assim que cessou seus passos. Ficou alguns instantes admirando aquela nova cor de cabelo nele, pensando no que ela significava. Era um tom vivo de laranja que deixava as mechas mais alegres, a aparência alheia mais jovial.

— Você está bonito. — foi a primeira coisa que disse, tentando conter a própria vontade de fazer o mesmo em seus fios que carregavam aquele tom padrão de preto.

Yoongi conhecia a pessoa em sua frente a ponto de concluir o que aquela mudança no visual significava. Jimin costumava pintar o cabelo de acordo com seu humor e estado de espírito. Até a noite anterior, ele estava em um tom esbranquiçado e sem vida, tão desinteressante quanto a sensação pastel que a decoração da loja lhe trazia. O novo tom vibrante mostrava que alguma coisa havia mudado, que um fio de esperança aparecia no silêncio e o guiava como um farol para sair daquela agonia. Era nele que Yoongi se apegaria a partir dali. Sentiu o coração recebendo ondas calmas de passividade enquanto esperava pela resposta alheia.

— A tinta estava guardada há muito tempo nas minhas coisas. — comentou distante, tomando coragem para dizer o que realmente havia sido gatilho para ir até ali.

Jimin sabia que as palavras implícitas em cada atitude que vivenciaram na noite anterior eram sérias, mais do que isso, sentia uma necessidade constante de iniciar um plano, qualquer coisa que o deixasse mais próximo de Taehyung e da verdade. Havia passado o restante da noite e as horas do dia até ali pensando em Jeongguk, na nova oportunidade que poderiam ter de descobrir o que havia acontecido. E Yoongi era a única pessoa que toparia levar adiante aquela decisão, que entenderia a urgência de encontrar uma redenção. Era por isso que estava ali, com o cabelo carregando uma cor diferente, tentando reconstruir aos poucos os fragmentos que o renovariam para um futuro diferente. Por enquanto, seu ex namorado fazia parte dele. Por algumas semanas, por algumas atitudes arriscadas, ele seria a única pessoa que confiaria.

— Yoongi, precisamos conversar sobre ontem. — voltou a proferir, suspirando ansioso em seguida.

— Vou fechar a loja em poucos minutos. Pode esperar aqui se quiser.

 

-o-

 

 

Um flash de luz iluminou parcialmente o rosto de Yoongi, o obrigando a fechar os olhos por causa da dor repentina em sua retina. Com uma careta inconsciente, esperou que o autor daquela ação desligasse a lanterna pequena e sorriu complacente quando os fios alaranjados apareceram em seu campo de visão.

— Oi. — Jimin saudou em seguida, colocando o objeto pequeno no bolso de trás da calça jeans folgada que usava.

— Oi. — Yoongi retribuiu sentindo a própria lanterna lisa demais entre seus dedos por causa do suor, que acumulava cada vez mais pelo nervosismo de estar novamente naquela situação.

Haviam muitas pessoas no começo da floresta, incluindo seus pais e a família Park, que havia acabado de chegar. Não parecia que tinha visto Jimin poucas horas antes, nem que haviam conversado por alguns minutos sobre a noite anterior sem sentir desconforto ou iniciarem uma briga. O céu tornava-se cada vez mais escuro conforme a noite avançava e os habitantes que compunham o local estavam esperando as ordens policiais para prosseguirem com as buscas. A família Jeon estava ao redor de um dos carros de polícia, falando com o xerife em um tom baixo. Grande parte dos habitantes de Suwon estavam ali no momento, cochichando entre si sobre suposições, conclusões precipitadas, comparações com o caso anterior.

Kim Taehyung também não havia sido encontrado. Aquilo acabaria sem resposta. A polícia ainda insistia em reunir a população para iniciar buscas em uma floresta densa e traiçoeira? Yoongi ouvia cada indagação com o estômago revirando de raiva, medo, culpa. Mesmo que as condições fossem diferentes naquele momento, mesmo que Jimin estivesse ao seu lado com mais receptividade e menos segredos que antes, ele ainda sentia o mesmo peso da perda tomando conta de seu coração.

Um ano antes, era o nome de Kim Taehyung que as vozes bradavam entre as árvores. Um ano antes, a polícia estava de olho nas pessoas que haviam o visto pela última vez no festival, e Yoongi ainda podia sentir o olhar deles queimando suas costas, perguntando o que mais ele poderia saber. Um ano antes, as pessoas desconfiavam de si e de Jimin, e fofocavam sobre um homicídio juvenil demais para ser interpretado sem nenhum sentimento de indignação.

Mas naquele momento, as coisas pareciam diferentes – mesmo que carregassem a mesma carga de adrenalina e negativismo. Jimin estava ao seu lado, ambos ouvindo as ordens do policial Jung, que comandava aquele grupo de buscas. Gritaram pelo nome de Jeon Jeongguk, o eco das vozes espalhava-se pelas árvores, acumulando-se na floresta silenciosa. Não havia resposta. Não havia nada além das luzes que as lanternas produziam passeando entre os troncos finos dos pinheiros, nem alguma descoberta para os olhos que procuravam incessantes entre os galhos ou desníveis de terra coberta por musgo e umidade. Uma camada fina de névoa começava a se instalar rasteira sobre o solo, tornando o ambiente um local que repelia qualquer pessoa de bom senso. Haviam limites que não podiam ser ultrapassados na floresta, e estavam próximos deles conforme davam seus passos lentos. O grupo de pessoas em que estava começava a chegar mais perto da cabana abandonada, o som da correnteza do rio aumentava conforme continuavam seus caminhos. Sentia seus músculos tensos a cada passo dado em direção a pequena construção de madeira velha, sua mente lhe pregava peças sobre o que poderia ter acontecido com Jeongguk, se assim como Taehyung, ele também havia desaparecido na floresta. Sozinho, sem amigos. Talvez com um grito engasgado de socorro preso na garganta pelo sangue acumulado. Talvez sob o olhar de um serial killer. Qual teria sido seu último pensamento? Será que ambos tiveram uma última visão do céu com poucas estrelas antes de fechar os olhos para sempre? Yoongi engoliu em seco quando conseguiu imaginar perfeitamente a cena; Jeongguk com os olhos arregalados, os cabelos sujos de terra seca, a boca entreaberta após o último suspiro, o corpo inerte sendo coberto pela brisa fresca da noite, respingos do líquido carmesim no tronco das árvores ao redor... tão fragilizado quanto Taehyung poderia ter ficado. Brutalmente assassinado. Desaparecido para sempre.

— Yoongi? — saiu dos pensamentos amedrontadores e respirou fundo, notando que os pulmões já ardiam pela letargia esmagadora que obteve com sua mente cada vez mais perdida dentro daqueles dois casos. Voltou seu olhar para o dono da voz serena que o chamou, sentindo o semblante preocupado dele tomando conta de suas emoções e as tornando mais calmas.

Até então, não havia trocado nenhuma palavra com Jimin. Talvez a situação pesasse do mesmo jeito no coração dele também. Para Yoongi, passar pela mesma aflição novamente era revisitar um museu de dor dentro de si mesmo. Havia certa nostalgia implicada em cada ação, desde aumentar o tom de voz para chamar alguém desaparecido até segurar a lanterna com força demasiada para descontar a frustração, e aquilo o irritava. Ainda lembrava da conversa que havia tido com o ruivo horas antes, das coisas que planejaram, das suposições que fizeram. Estar ali era uma das coisas que haviam prometido tentar. Precisavam ter a certeza que com Jeon Jeongguk seria diferente, de que com ele tentariam descobrir a verdade até o último recurso. Era uma forma de se redimir com Taehyung.

— Está tudo bem? — Jimin voltou a perguntar, olhando ao redor por alguns instantes antes de retomar o contato visual com Yoongi.

— Sim. — respondeu com a voz levemente trêmula. — Eu vou ficar bem. É que estar aqui...

Não conseguia terminar a frase. Haviam muitas pessoas de seu grupo andando ao redor, os olhares acusadores ainda os perseguiam mesmo depois de um ano. Jimin abriu a boca para responder algo, mas foi interrompido pela voz alta de Jung Hoseok, que os instruiu a continuar a caminhada após dar um olhar quase complacente para os dois.

Assim que chegaram até a cabana, Jung pediu para que parassem de andar um pouco para descansar. A madrugada se iniciava sem dar trégua, e a neblina começava a cobrir com mais densidade o local, subindo leves pelos troncos até os galhos da vegetação. Ainda não entendia o motivo de terem optado por estender as buscas diurnas até a noite, mas se era assim que o departamento de polícia desejava trabalhar, não poderia fazer nada. Desligou a lanterna e olhou para o rio, percebendo com o canto de olho que Jimin estava ao seu lado. Ficaram em silêncio por alguns segundos, tentados a ir até a cabana e entrar, talvez em uma ilusão passageira de que poderia existir alguma pista ali, algo que não poderiam ter visto na noite anterior.

— Senhor Min. — Yoongi voltou o olhar para a figura uniformizada que o chamava. Jimin o acompanhou, ambos com o coração agitado pelo o que viria depois. — É bom que esteja ao lado dele, senhor Park. Eu ia ligar, mas já que estamos aqui fica mais fácil. Podem ir até a delegacia amanhã para responder algumas perguntas sobre o desaparecimento do Jeon? — o policial concluiu, observando atentamente a reação dos dois adolescentes.

Yoongi pensou em responder, mas não conseguia. A sensação de impotência se unia à memória torturante da última vez que havia pisado na delegacia. Olhou para o policial por alguns segundos, tentando assimilar a pergunta de novo e de novo até encontrar uma resposta plausível que o livrasse da vontade de sair correndo.

— Claro. Nós vamos juntos amanhã de manhã. — Jimin respondeu por si, a voz soando mais confiante do que imaginava que seu emocional estava. Sabia que não tinham culpa sobre Jeongguk, mas responder novamente as perguntas de Jung Hoseok implicava em retomar memórias e confirmar mentiras que nem se lembravam mais.

— Imagino que seja difícil estarem aqui novamente. — Hoseok disse em um tom mais baixo, aproximando poucos passos até os dois. Era impossível não se solidarizar com a situação, o policial ainda lembrava do choro intenso que Jimin havia tido após contar que se encontrava com os amigos ali durante a noite. — Acham que conseguem continuar a ajudar nas buscas por mais alguns minutos?

Yoongi engoliu em seco, a conversa que havia tido com Jimin percorrendo sua mente novamente. Talvez pudessem descobrir algumas informações para terem um ponto de partida oficial, algo que os dessem uma pista do que poderia ter acontecido, ou do que poderiam procurar primeiro. E a oportunidade perfeita estava bem em sua frente, o olhando com o cenho franzido e certo pesar enquanto aguardava sua reação.

— Sim. — Yoongi respondeu já recuperado, o receio pairando sobre seu corpo. — É horrível passar pela mesma situação novamente, mas faremos isso pelo Jeon. — acrescentou pouco depois. — Acha que existe alguma possibilidade de haver uma conexão entre o desaparecimento do Taehyung e do Jeongguk? — perguntou tentando disfarçar o nível de interesse que tinha naquela questão. Sentiu o corpo de Jimin retesar ao lado do seu enquanto aguardavam por uma resposta.

— Honestamente... existe uma possibilidade. — Hoseok respondeu, dando uma olhada rápida nas pessoas ao redor por breves instantes antes de continuar. — Os pais dele deram algumas informações e citaram Taehyung. E vocês.

Jimin segurou a respiração, levando a ponta dos dedos até a mão de Yoongi, instintivamente pronto para entrelaça-los até conseguir sentir um pouco do conforto que o ex lhe passava com aquele ato. Mas se forçou a parar a ação quando sentiu a pele quente alheia por breves segundos.

— Como assim? Nós não conversávamos com Jeongguk. — Yoongi omitiu o fato de terem se falado brevemente através de Taehyung em alguns momentos.

— Bom, isso nós vamos resolver amanhã. — Hoseok concluiu mais sério. Respirou fundo e apaziguou os próprios pensamentos e hipóteses antes de continuar. — Acho melhor pedirem para os seus pais levarem vocês embora. Está tarde.

 

 

-o-

 

Jimin estava sentado em uma das cadeiras de madeira rentes à parede quando Yoongi chegou. Trocaram um olhar breve, um desejo de boa sorte adiantado, e aguardaram serem chamados ao lado de seus pais preocupados. O coração batia cada vez mais acelerado, as lembranças da última vez que estivera ali presa em sua cabeça rondando sua sanidade com calma, passo por passo, e a destruiria se não mantivesse controle. Demorou mais alguns minutos até ser chamado, evitando olhar novamente para Yoongi enquanto se levantava e ia em direção à sala de interrogatório.

— Senhor Min Yoongi, pode vir também. — Hoseok acrescentou ainda parado no batente da porta entreaberta. Jimin olhou para trás confuso, mas continuou seu caminho até uma das duas cadeiras ao lado da mesa quadrada. Dedicou os poucos segundos seguintes a analisar o gravador preto no meio dela, os botões rentes e a fita pequena que conseguiu identificar através do plástico transparente que cobria a parte de cima do objeto.

Travou o maxilar por causa do nervosismo e sentiu a fricção que os dentes faziam pela pressão que os mantinha naquele gesto. Hoseok sentou do outro lado da mesa, o olhar calmo, expressão tão serena quanto. O calor de Yoongi o acordou para a realidade, o que realmente estava acontecendo ali. Não havia pensado de forma coerente até então, desde que tinha acordado havia agido no automático, se trocou com os pensamentos perdidos na noite anterior, na despedida simples que tivera com o garoto ao seu lado, nas perguntas confusas que os próprios pais haviam feito quando contou sobre o compromisso que vivenciava naquele instante.

Então como um choque, um estalar de dedos, estava ali. Novamente sob o olhar aristocrático de Jung Hoseok. Yoongi estava ao seu lado, e mesmo que aquilo lhe trouxesse algum conforto, ainda sentia a tensão percorrendo o ambiente e ficando presa na sala pequena, o sufocando lentamente.

— Então, aqui estamos novamente. — Hoseok iniciou a conversa, levando o indicador até um dos botões do gravador e pressionando até que um clique quase inaudível ressoasse do aparelho. Um pontinho de luz vermelha acendeu no canto do objeto, tomando a atenção de Jimin por alguns instantes. Eles estavam sendo gravados. Imediatamente repassou todas as mentiras que havia dito no caso de Taehyung e torceu para que Yoongi estivesse fazendo o mesmo. — Chamei os dois para conversar porque são perguntas adicionais para o caso, não significa que são suspeitos. Não precisam se preocupar. — Jimin retesou o corpo contra a cadeira dura e evitou movê-lo mesmo com o desconforto que sentia naquele momento. Era inevitável não pensar na última tarde que havia passado ali.

“Então não o viu mais depois que saiu do festival?” A voz de Hoseok soava acusadora, em um tom intimidante que tomava sua cabeça com força.

“Eu já disse antes. Não vi Taehyung depois que acabei iniciando uma briga.”

“Muitas pessoas viram uma discussão entre vocês e garantiram que você deu um soco em Min Yoongi.”

“Eu perdi a cabeça. Não me orgulho disso.”

 “E não viu mais Kim Taehyung.” Hoseok insistiu mais uma vez.

— Podemos começar? — a voz do policial o trouxe para a realidade novamente. Jimin sabia que era uma técnica torturante insistir na mesma pergunta e no mesmo assunto várias vezes até conseguir uma confissão. Havia se safado no caso de Taehyung, e não havia nada que o culpasse com Jeongguk. Mesmo assim, uma sensação de ansiedade e receio comprimiu seu estômago quando acenou positivamente com a cabeça, concordando com a sugestão. — Soube que Jeon Jeongguk conversava com Kim Taehyung. Vocês eram amigos.

A sala foi tomada por um silêncio breve. Yoongi ajeitou o corpo sobre a cadeira e curvou o tronco para frente sem notar, apoiando as mãos entrelaçadas sobre a madeira fria.

— Nós conversamos algumas vezes. Raras. Muito raras. — respondeu com a voz calma. — Mas fora isso eu nunca falei com ele.

— Jimin? — o policial voltou a olhar para ele, o incentivando a prosseguir com o seu depoimento.

— Também nunca falei pessoalmente com ele. Taehyung era como uma ponte entre nós. Depois que ele desapareceu... — a última palavra pesava em sua língua e lhe trazia náusea. — ... acho que nunca mais falei com o Jeongguk. — concluiu. O olhar antes atento a figura esguia do policial em sua frente se perdeu e desfocou na parede cinza atrás dele.

Um frio repentino tomou conta de sua pele, a arrepiando de imediato. Tentou lembrar da última vez que tinha visto Jeongguk, mas tudo o que se passava em sua mente era o velório doloroso, o olhar pesaroso das pessoas para a família Kim, o caixão vazio e a foto sorridente de Taehyung em um porta-retrato ao lado. Era tudo tão distante lá também. O espaço parecia grande demais, as pessoas ainda olhavam desconfiadas para si, a culpa corroía seu peito com mais força do que deveria. Mesmo que houvesse um atestado de óbito comprovando aquilo, não conseguia acreditar que ele estava morto. Não o garoto de sorriso quadrado largo da foto, não enquanto analisava a vida que ele refletia em seus olhos brilhantes. A sensação de estranheza era difícil de lidar e rotular, porque havia o visto pela última vez alguns dias antes. Ele segurou suas bochechas com as duas mãos quentes, respirou contra seu rosto, tocou seus lábios com os próprios e o ar percorria seus pulmões de forma descompassada por causa da adrenalina. A suposição da morte de Taehyung o intimidava de um jeito inédito, como se o colocasse contra a parede e lhe pedisse para escolher um lado, vida ou morte, como iria se posicionar? Aquilo não parecia real. E quando trocou um olhar com Jeongguk e o perdurou por mais tempo do que deveria, teve a certeza de que ele acreditava no mesmo.

Taehyung não poderia estar morto.

“Taehyung!” Jimin gritou enquanto observava o amigo correndo até a ponte e atravessando sem olhar para trás.

“Vai correr atrás dele agora?” Yoongi havia gritado consigo, a frase ecoando ao redor, o som da chuva forte contra o telhado, as copas das árvores balançando pela tempestade, o vento gelado entrando pela porta escancarada. “Por que estava o beijando?” O tom de voz soou sofrido, embargado pelo choro. Jimin passou mais alguns segundos olhando para a ponte já vazia antes de virar para Yoongi e vê-lo chorar.

“Eu... eu não sei.” Respondeu sincero, tentando recobrar os próprios sentidos e sensatez depois do momento de fúria que teve. “Ele só me viu e me beijou. E então você chegou...” Jimin sabia que a desconfiança que sentia percorrendo suas veias tinha um motivo. Ele sabia que Taehyung corria perigo. Precisava ir atrás dele.

“Jimin, por favor me perdoa. Eu fui um idiota.” Yoongi fungou ao terminar a frase, tentando se aproximar. O corpo estava trêmulo pelo frio, os olhos pesados pelas lágrimas. Mas antes que Jimin pudesse responde-lo, o som único chegou até eles.

Tudo parou de passar rápido demais.

— O que sabem sobre a amizade entre eles?

— Eles conversavam sobre o universo. — Yoongi respondeu, sendo honesto pela primeira vez dentro daquele lugar. Hoseok o observava com o cenho levemente franzido, o olhar cauteloso. — Não sei de muita coisa além disso, acabei me afastando de Taehyung nos últimos meses antes do desaparecimento.

— Por quê?

Jimin estava assustado. Verdadeiramente perdido e amedrontado sobre o que estava acontecendo. Yoongi estava ao seu lado novamente, na mesma sala, com a culpa antiga mostrando suas raízes muito bem fixadas em seu âmago. Se sentia pequeno diante de tudo, até mesmo de suas decisões. Havia conversado com o outro no dia anterior, prometido tentar, dar um passo além juntos. Responder aquelas perguntas era como reviver sua inutilidade perante o assunto, porque eram apenas dois adolescentes fragilizados bancando os detetives e aquilo era tão, tão fútil. Sentia como pudesse gargalhar a qualquer momento pela ironia de suas conclusões. Nunca foi por trair ou ter sido traído. Era pelo “e se”. E se tivessem ido atrás de Taehyung, e se tivessem contato a verdade antes, e se não fossem malditos covardes perante a situação que engatilharam.

E se descobrir a verdade fosse a única condição para conseguirem encontrar seus caminhos novamente?

Por breves instantes, não se reconheceu. Estava indo contra tudo o que imaginava, contra sua vontade de ficar longe de Yoongi, contra seus medos, contra o que acreditava ser necessário para sua sanidade, e mesmo com a exposição de seu egoísmo mais intrínseco, não conseguia deixar de pensar sobre como Kim Taehyung e Jeon Jeongguk haviam lhe tirado tudo com suas ausências. Como a falta de alguém poderia arrancar a vitalidade de outra pessoa? Era grande demais para entender. E Jimin continuava pequeno demais para alcançar aquela resposta. Dependente demais do destino para conseguir se reerguer.

Talvez desistir fosse sua melhor opção.

— Ele estava muito próximo do Jeongguk. — Jimin fugiu das próprias memórias e retomou o assunto, tomando a frente e respondendo a pergunta direcionada ao outro. Sentiu o olhar deles pesando sobre si, sobre o seu tom mais confiante de voz. — E nós preferimos dar esse espaço aos dois. — acrescentou firme. Mencionar seu namoro com Yoongi era arriscado demais, não sabia até onde as intenções do policial em sua frente eram puramente profissionais. Ele poderia contar para seus pais e as coisas não ficariam nada bem.

Hoseok fechou os olhos, levando os dois indicadores até as têmporas e massageando o local. Após um suspiro derrotado, apertou outro botão do gravador e a luz vermelha apagou. A sala ficou quieta repentinamente, como se aquele ato trouxesse o verdadeiro sentido e peso daquela situação para dentro novamente. Uma seriedade estranha e quase tímida tomou conta do olhar do policial antes de prosseguir.

— Ontem você me perguntou sobre existir alguma conexão entre os dois desaparecimentos. — Hoseok disse em um tom ameno. Jimin engoliu em seco e esperou que ele continuasse. — Os pais de Jeongguk disseram que ele estava fissurado em algumas coisas recentemente. Disseram que ele tinha um diário e que não o largava nem para dormir. Estou dizendo tudo isso porque também quero encontrar uma resposta para o que está acontecendo. — acrescentou como um aviso. Não precisava ser mais claro: aquela conversa precisava ser mantida em segredo entre os três. — Eu fui até o quarto dele e vi algumas coisas penduradas nas paredes. Mapas, para ser mais exato. Mas não encontrei o diário.

— Acha que isso tem alguma coisa a ver com o desaparecimento? — Yoongi questionou curioso.

— Não sei. Por isso preciso da ajuda de vocês para obter mais informações. Taehyung possuía o mesmo interesse pela... pela nossa cidade?

Silêncio.

Jimin e Yoongi tentaram forçar suas memórias para responde-lo, mas não encontraram uma resposta. Talvez não conhecessem Taehyung como acharam que conheciam.

— Acho que não. — foi Jimin quem respondeu. Trocou um olhar preocupado com Yoongi antes de continuar. — Por que está perguntando isso?

— O xerife quer encerrar as investigações por falta de provas. Isso significa–

— Afirmar que Jeongguk morreu. — Yoongi interrompeu com os olhos marejados. — E aparentemente quer continuar investigando, por quê?

— Porque tem alguma coisa errada, e eu sei que vocês também acreditam nisso. — Hoseok respondeu de imediato, recebendo o olhar surpreso dos adolescentes.

Jimin processou a informação por alguns instantes. Demorou um pouco para perceber que estavam recebendo o apoio – e talvez ajuda – do policial que era um dos motivos de seus pesadelos meses atrás. Tudo se tornava cada vez mais intragável e irreal.

— Precisamos encontrar o diário. — Yoongi voltou a dizer. Jimin ofegou indignado.

— Não.

— Jimin...

— Não! Está sugerindo invadir o quarto do Jeongguk! E sabe por que isso vai dar errado? Porque um policial — deu ênfase na última palavra — quer nos ajudar a cometer um crime. — concluiu olhando para Yoongi e depois para Hoseok. O último permanecia com um olhar impenetrável. Não entendia seus motivos para querer ajuda-los, mas não confiava nele.

— Sei que não acredita em mim. — Hoseok disse baixo. — Eu sou um adulto tentando me unir a dois adolescentes, nem eu estou confiando nas minhas escolhas ultimamente. Mas se cheguei até aqui é porque não tenho mais alternativas senão descobrir tudo por mim mesmo. E sei que vocês pensam assim também. Não foi apenas Taehyung ou Jeongguk. Muitas pessoas desapareceram. E eu não aguento mais ver todos os casos arquivados no armário ao lado da minha mesa. Eu prometo para vocês que vou protege-los e dar todo o respaldo caso façam algo... ilegal.

— Por que acha que faríamos algo ilegal? — Jimin questionou irritado.

Hoseok ponderou alguns instantes antes de responder. Estava mesmo dando um passo no escuro e se arriscando junto deles. A situação era uma medida desesperada, mas compartilhava do inconcebível em sua cabeça. Seu coração bateu mais pesado, as palavras saindo com mais dificuldade do que imaginava, como se as proferir confirmasse a realidade intrínseca que viviam. Era como contar um segredo, algo que guardava bem no fundo de suas entranhas.

— Porque talvez as respostas disso tudo vá muito além do que imaginamos.

O ruivo respirou fundo e tentou acalmar o próprio coração. Yoongi o olhava com expectativa, como se a responsabilidade daquela conversa fosse desaparecer caso tudo desse errado, afirmando a inconsequência que sempre carregara consigo. O mesmo que aconteceu com Taehyung iria se repetir, e aquilo começava a romper toda a linha de raciocínio que Jimin estava tentando manter.

Foi apenas no silêncio que lembrou novamente dos motivos de estar ali. A culpa, a impunidade, uma chance para si mesmo de recomeçar. E ao mesmo tempo, se perguntou se valia mesmo a pena ir além naquela situação. Além do que poderiam fazer como dois adolescentes comuns, além do que haviam imaginado antes, além do que seus gatilhos haviam imposto como limite.

Olhou diretamente para o policial antes de responder.

— Já tomei minha decisão.

 

 


Notas Finais


01010011 01110101 01110011 01110011 01110101 01110010 01110010 01101111 00100000 - Sussurro

Então, já vimos que o Hoseok apareceu e tudo indica que vai continuar conosco por um bom tempo uuuuh eu amo o personagem dele com todas as minhas forças. No próximo capítulo pretendo colocar uma parte inteirinha com a visão dele sobre o que tá rolando, também haverão mais explicações do motivo dele para querer a ajuda de yoonmin hehe

Esse capítulo foi complicado porque eu narro a fanfic em terceira pessoa, e na cena final tive que colocar os 3 personagens no mesmo ambiente e dar o foco necessário no jimin, então assim, sofri um pouco porque estava acostumada a escrever tudo em primeira pessoa por causa de royal blood e outros projetos desde que terminei alvorecer :') mas com o tempo pego o jeito novamente, foco força fé

AH SIM O RECADO IMPORTANTE:

PRIMEIRO: CHEGAMOS AOS 100 FAVS EU TÔ CHOROSAAAAAAAAAAAAA OBRIGADA MEUS AMORES EU AMO MUITO VOCÊS <3 <3 <3 E A PARTIR DE AGORA VOCÊS PODEM PARTICIPAR DA FANFIC!!!!!! E ISSO NOS LEVA AO

SEGUNDO: faz parte do meu plot e preciso da ajuda de vocês, leitores lindíssimos do meu coração. Esses dias fiz uma enquete no meu tt (não sei se alguém viu, mas se viu talvez tenha achado aleatório hihi) perguntando com qual cor de cabelo o jimin fica mais bonito. As opções eram 1) castanho, 2) rosa e 3) laranja. A opção 2 e 3 empatou kkkk então escolhi laranja. É meio óbvio que foi uma escolha para a fanfic, certo? Jimin mudou a cor de cabelo yaaaay~

Então é o seguinte: não vai ser em todos os capítulos (pelo menos não é o que planejei até então), mas se acontecer de ser a gente segue o baile do mesmo jeito galera, depende muito da recepção dessa parte da fanfic. Eu farei perguntas sobre o que vai acontecer no próximo capítulo com determinado personagem ou determinada situação (relaxem, estão todas dentro do plot devidamente organizadas em cada possibilidade e consequência) e vocês vão decidir o que acontece. Como? Através dos comentários. Não precisa comentar >sobre< o capítulo caso não queira, apenas vote na sua opção preferida (se quiser, é claro).

Por exemplo: NESTE CAPÍTULO eu deixo nas mãos de vocês a decisão do Jimin. Ele deve se juntar ao Yoongi e ir atrás do diário do Jeongguk, ou deve ficar na dele e deixar o Yoongi e o Hoseok sozinhos nessa? (vamos começar com perguntas simples rs).

- quem quiser que ele aceite a proposta comenta "sim tata quero que o jimin vá com o yoongi etc etc (se quiser pode falar o motivo, enfim, fique à vontade)"
- quem não quiser que ele aceite a proposta "não tata não quero que ele vá com o yoongi etc etc"

OU

- podem comentar só com "sim quero que ele vá" ou "não". Simples. Com o tempo as decisões vão ter mais influência sobre o enredo, okay? Espero que participem e que tenham gostado da ideia :')

Eu nem preciso dizer qual é a votação desse capítulo né? Ah mas eu vou reforçar porque vai que

!!!VOTAÇÃO DESSE CAPÍTULO!!!
>>>>VOCÊ ACHA QUE O JIMIN DEVE ACEITAR A PROPOSTA DO HOSEOK OU FICAR FORA DESSA INVESTIGAÇÃO ILEGAL? (essa mensagem estará sempre no fim das notas finais pra que vocês leiam todos os meus recadinhos hoho)

É isso amores, espero que tenham gostado do capítulo <3

me encontre no twitter: https://twitter.com/cupcake_tata
gato curioso: https://curiouscat.me/pink_cupcake

Até~~


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