História Black and Blue - Capítulo 1


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Categorias Harry Potter
Personagens Draco Malfoy, Hermione Granger
Tags Dramione, Pos Hogwarts
Visualizações 84
Palavras 5.595
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Hentai, Romance e Novela, Survival, Violência
Avisos: Álcool, Estupro, Insinuação de sexo, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Essa história é uma coletânea songfics dramione com inspiração nas letras da cantora Sia. Todas as partes terão nomes de músicas e são inspirados por uma. Estou postando aqui, além do Nyah! porque já queria fazer isso há algum tempo e devido ao fato de que a última parte está em processo de escrita.

Espero que gostem ;)

ATENÇÃO: em momento algum o estupro de que trata a história será romantizado. É um ato repugnante, que não merece ser diminuído em razão de qualquer outra coisa.

Capítulo 1 - Black and Blue


ATO I

Sentiu os olhos pesados quando os abriu pela primeira vez. Por algum motivo, não conseguia mantê-los abertos, apesar do esforço mental que empenhava para isso. Viu de relance, pendurado no teto, enorme e completamente iluminado, um lustre luxuoso. Também reparou que o teto era feito com vigas de madeira grossa, escura e envernizada, as quais se destacavam contra as paredes de pedra clara e uniforme.

Não conhecia aquele lugar, foi sua primeira conclusão. O medo a tomou de forma repentina, da mesma forma que o balaço pega o artilheiro de surpresa, embora tivesse a impressão de que estivesse à espreita, esperando para fazer-se presente. Tentou se mexer, sentindo sob si o colchão de penas macio, além dos lençóis confortáveis, mas a dor em algum ponto de seu pescoço foi tão aguda que a obrigou a fechar os olhos novamente.

Dessa vez, enquanto sentia as pálpebras vacilando, como se não tivesse controle algum sobre seu próprio corpo, a sensação de impotência a atingiu fortemente. Queria saber o que estava fazendo ali, como havia chegado àquele lugar completamente diferente de qualquer outro onde já estivera, queria... Queria... Hermione já não sabia o que queria...

Break down, tears fall to the ground

Tell myself: Do it, nothing can be found

When you're a fighter

You're a fighter

You're a fighter, fight on baby

ATO II

Havia sussurros dessa vez. Baixos demais para que pudesse distinguir o que se passava há apenas alguns passos da cama. Ainda sentia os olhos pesados, como se seu inconsciente se recusasse a abri-los para encarar o mundo exterior, mas esforçou-se para notar que, então, o ambiente se encontrava em quase completa escuridão.

A luz da lua cheia lá fora adentrava pelas grandes janelas de vidro sem pedir permissão fazendo com que os móveis produzissem sombras disformes no quarto e a brisa fria assolasse sua pele, como se seus poros reclamassem da atenção que fazia com que as cortinas finas e claras esvoaçassem. Era quase torturante, era incômodo, era frustrante lidar com todas essas sensações enquanto não tinha ideia de onde estava.

Esforçou-se a manter-se acordada e remexeu-se na cama, sentindo o peso da manta grossa sobre suas pernas e tronco. Novamente a dor no pescoço manifestou-se e, quando tentou levantar-se, ao menos para tentar enxergar as pessoas que se encontravam ali, ainda parecendo conversar energicamente em tons baixos, sentiu-a espalhar-se por todo o corpo, como se um fio invisível a estivesse transportando rápida e intensamente tornando cada músculo seu impróprio para sustentar o próprio peso.

Então, após todo o empenho movido pela curiosidade e, principalmente, pelo medo deixou-se cair contra os travesseiros novamente, fechando os olhos ao sentir cada parte do corpo fisgada por mil anzóis de pontas afiadas. Os sussurros, aparentemente, cessaram. Supôs estar muito sensível, pois conseguia até mesmo ouvir os passos suaves contra o piso de madeira, aproximando-se cada vez mais.  

Distraiu-se por um momento em sua própria inconsciência e, quando conseguiu colocar-se acordada novamente, finalmente o viu. De pé, ao lado da cama, encarando-a seriamente, os braços cruzados contra o peito. Draco Malfoy. Sentiu o coração bater descompassado pelo susto, pela intensidade com que, pensava ela, o homem a olhava. E lá estava novamente o medo. E lá estava novamente a dor. Entretanto, de todas as dores que perpassavam por seu corpo naquele instante, só poderia imaginar, em seu estado de completa inércia, por que a que mais lhe atormentava era aquela entre as pernas. 

Some days I'm sure I've lost the faith

Some days I cannot find my faith

But I just fight on

I just fight on

I just fight on baby, baby

ATO III

O quarto se encontrava claro e arejado. Engoliu em seco, sentindo a garganta protestar pela falta de água, mas ao mesmo tempo sua cabeça se encontrava pesada como chumbo. Fechou os olhos novamente, embora o medo de render-se ao sono a fizesse temer o ato, mas surpreendentemente conseguiu manter-se consciente. Olhou ao redor, tentando ignorar todas as dores que ainda maltratavam seu corpo e, principalmente, a ardência entre as pernas que tanto a incomodava, percebendo, com surpresa, que podia ouvir o ruído de algum riacho correndo por perto.

“Merlin, onde estou?”

Conseguiu, com algum esforço, jogar as cobertas para o lado e firmar os pés no chão atapetado, mas parou ao perceber as manchas em tons de roxo, verde e amarelo que cobriam vários pontos em toda a extensão de suas pernas. Realizou que vestia um conjunto negro de short e blusa que não era seu e, com relutância, ergueu as mangas da peça para perceber que marcas difusas rodeavam seu pulso e seu antebraço.

Sua respiração falhou e ela abaixou as mangas com pressa, com medo de olhar os sinais que sequer sabia onde conseguira, mas que deviam ter alguma relação com... Draco Malfoy. Levantou os olhos, rápida e relutante de que ele estivesse por perto, espreitando-a novamente com aquele olhar estranho, como na outra noite e... Hermione soltou o ar, frustrada. Sequer sabia se Draco Malfoy estava realmente ali ou se tudo de que, supostamente, se lembrava, era um devaneio de enfermiça.

Ainda sentada, esfregou uma perna contra a outra na tentativa de diminuir a ardência em sua vagina. Sentiu lágrimas embaçarem seus olhos quando finalmente colocou-se de pé, pois a dor aguda e insistente que a acometia era quase insuportável. Entretanto, tendo a respiração rasa, conseguiu dar alguns passos em direção à porta de madeira escura entreaberta onde supôs ser o banheiro, mas não contava com o enorme espelho emoldurado que ia do chão ao teto e lhe mostrava um reflexo de si que desconhecia.

“O que aconteceu comigo?”

Hermione observou a palidez que descoloria seu rosto a deixando com um aspecto doentio. Bolsões roxos ao redor dos olhos lhe apontavam sintomas de noites mal dormidas e os ossos de sua face um tanto mais proeminentes sinalizam alguns quilos a menos. Porém, isso não foi o que mais lhe chamou a atenção no rosto jovem e antes corado que lhe olhava de volta com tanta determinação: três profundos arranhões vermelhos e disformes lhe descompunham a bochecha esquerda, do canto dos lábios à orelha.

  Fungou, sentindo novamente as lágrimas voltarem aos olhos, com raiva de si mesma por não conseguir lembrar-se como conseguira ficar naquele estado. Apoiou-se contra os pés da cama, feitos de ferro maciço e entrelaçado, da mesma forma que a cabeceira, apertando com as mãos o metal frio o máximo que conseguia enquanto tentava se conter, pois Hermione não era esse tipo de pessoa. Ela não era aquela que se deixava abalar.

Naquele instante, sentia-se sozinha, sensível, magoada... Algo estava machucado dentro de si e tratava-se das dores físicas que a incomodavam desde que conseguiu ficar consciente. Podia sentir seus pés contra a textura confortável e fofa do tapete que cobria boa parte da extensão do piso de madeira polida, mas tinha a impressão de que até isso estava fazendo com que se contraísse de dor naquele instante, sentindo todo o corpo latejar.

Foi quando percebeu, ao olhar de relance para o espelho, em uma rápida passada de olhos quando os cachos compridos afastaram-se de forma bagunçada em um movimento brusco. Seu pescoço estava coberto de hematomas muito piores do que aqueles que cobriam as outras partes visíveis de seu corpo. Foram feitos, principalmente, do lado esquerdo e sumiam embaixo do tecido da blusa que usava, mas, ao puxá-la, percebeu que terminavam no topo de seu seio direito e estendiam-se a uma parte do esquerdo. Eram grandes demais, avermelhados demais... Violentos demais.

Antes que pudesse emendar sua linha de raciocínio, entretanto, a porta foi aberta devagar e sua atenção foi toda voltada à pessoa que a mirava com aqueles mesmos olhos azuis e frios da outra noite. Não havia sido um sonho ou delírio. Draco Malfoy realmente estava ali. Franziu o cenho rapidamente, atenta a presença do homem com quem não trocava uma palavra sequer há anos.

"O que ele faz aqui?"

Cada pergunta parecia cada vez mais complexa a Hermione, todavia, e essa sequer conseguira pronunciar devido à garganta seca pela falta de uso. Inesperadamente, porém, ele adiantou-se.

- Granger, claramente não está em condições de manter-se em pé.

Antes que ele pudesse aproximar-se demais, entretanto, Hermione levantou uma mão, parando-o e deixando a ambos confusos. Sequer sabia por que o fizera, mas algo lhe dizia para mantê-lo longe e tinha a impressão de que essa tarefa seria bastante complicada no estado em que estava. Merlin! Tentou, inutilmente, evitar uma careta enquanto ajeitava-se contra o metal dos pés da cama. Todo o seu corpo doía e Draco Malfoy estava ali por algum motivo e... Seus olhos relancearam novamente pelos vergões em seu pescoço no reflexo do espelho.

Então, em uma torrente as imagens vieram a sua mente de forma desordenada. Sentiu o ar faltar em seus pulmões e fechou os olhos, como se assim pudesse evitar que as lembranças a atordoassem de forma tão crua. Completamente em vão. Como se estivesse naquele mesmo beco novamente, ouvindo os mesmos ruídos, sentindo as mesmas dores imediatas, Hermione sentiu a ânsia de vômito dominá-la, mas sua cabeça pesou e o mundo girou, tirando o chão de seus pés.

And I am a wounded warrior

And now that the enemy is close and in

I am a wounded warrior

Looking for someone to let me in

ATO IV

A tempestade caía de forma violenta contra seu rosto. As gotas frias escorriam por sua pele em uma carícia suave que tentava inutilmente aplacar a ardência. O lado direito do rosto formigava em um castigo que prometia mais enquanto sentia as mãos rudes rasgando a blusa de seda branca que vestia.

Tinha o conhecimento vago de que seu casaco jazia jogado no chão sujo e molhado aos seus pés, assim como a varinha e a bolsa, mas toda sua atenção se encontrava no homem que pressionava seu corpo de forma violenta contra a parede antiga e irregular do prédio antigo e sem janelas, machucando suas costas contra a pedra ao manter uma das pernas entre as suas.

Tentara batê-lo, empurrá-lo, unhá-lo. Todavia, tudo que conseguira com isso fora apurar sua raiva, sua vingança e seu desejo. Vira-o rir ao vê-la implorar para que parasse, pois estava machucando-a e não apenas fisicamente. Ouvira-o rir enquanto mantinha os olhos fechados, quase sem forças para tentar empurrá-lo, pois as mãos que seguraram seus braços contra a parede dura eram mais fortes e incansáveis. Ouvira-o rir, novamente, deliciando-se com sua vingança, ao mergulhar língua e dentes contra a pele sensível de seu pescoço e tudo que pode fazer foi soluçar.

Sentia o cheiro fétido dele, ocre e azedo, misturando-se com o odor repugnante que exalava do próprio beco e teve vontade de vomitar ao senti-lo apalpá-la por baixo da saia com suas mãos sujas, apertando como se estivesse manuseando um pedaço de carne. A essa altura, não poderia distinguir as lágrimas das gotas de chuvas, pois ambas escorriam por seu rosto de forma contínua e lamentável, assim como o sangue do ferimento que ele lhe fizera ao tentar enfrentá-lo.

- Por favor, pare... Por favor...

Lembrava-se de ter murmurado baixinho, mas ouvira-o rir novamente. Ele a faria pagar, foi o que disse em seu ouvido ao alcançar sua intimidade por baixo da calcinha, como a vadia que era. Guinchou alto de dor ao ser invadida. O sutiã completamente destruído. Os seios assolados pela boca daquele homem asqueroso. A saia levantada e uma das pernas mantida à força ao redor da cintura de Fenrir Greyback. Realmente uma vadia. 

Ele distraiu-se com o próprio zíper, ela livrou as mãos. Ela o empurrou, ele a bateu. E então, no instante seguinte, sentia o pênis dele duro contra sua bunda, a calcinha afastada para o lado sem cuidado, machucando-a tanto quanto os dedos nojentos e de unhas compridas que apertavam seus seios após mantê-la presa por um feitiço.

Assim, Greyback empurrava-se contra Hermione, duro e grande. A intimidade se esforçava para fechar-se para ele, mas apenas se machucava mais. Ele ria. Hermione chorava. Ouvia-o gemer, sentia-o vibrar violentamente contra si enquanto aliviava-se. Hermione choramingava ainda sentindo a chuva contra a própria cabeça, os dentes contra seu pescoço, como se ele tivesse a intenção de mordê-la a qualquer segundo.

Então, tudo aconteceu tão rápido que, tendo o rosto contra a parede, sequer pôde apurar. Houve um ruído de feitiço. Greyback, abruptamente, fora jogado contra a outra parede e Hermione, mantida em pé apenas pelas mãos do homem, foi ao chão de joelhos, sentindo-se tremer e arquejar.

Ouviu os passos contra as poças de água e lama e não demorou a ser coberta pelo, ela demorou a raciocinar, seu próprio casaco sujo. Porém, não conseguiu olhar para a pessoa que estava ajudando-a, pois tudo que sentia, naquele momento, eram vergonha e asco de si mesma. Como se houvesse sido culpada de alguma forma. Foi levantada com cuidado, mas não tinha forças para suportar o peso do próprio corpo. Provavelmente desmaiara ainda no beco, concluiu.

O que restava, agora, além das dores físicas e humilhação, era o fato de que Hermione já não gostava mais de tempestades.

Black and blue, I'm begging you

Take me in, I'm surrendering

Black and blue, but if I'm with you

If I'm with you, I'll live to fight althrough

ATO V

Era Stratford-upon-Avon, Costswolds, casa de campo da família Malfoy.

Fazia uma semana.

Ela não chorava. E não se olhava no espelho.

Eles não conversavam.

Havia um elfo chamado Roxy que lhe levava suas refeições e Malfoy a visitava uma vez ao dia, provavelmente para checar se estava viva.

Suspirando, deixou-se encostar contra a espuma macia da poltrona azul em estilo clássico e de aparência pesada. Não perguntou sobre Harry e Ron e o loiro não fizera questão de mencioná-los, como se sequer se lembrasse de que ela ainda fazia parte de um trio. Eles estariam preocupados e cobertos de razão, racionalizou, mas não estava preparada para vê-los e explicar tudo, como provavelmente quereriam.

Escondeu o rosto entre as mãos. Ainda era Chefe do Departamento Para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas, tinha um papel a desempenhar, mas tudo em que conseguia pensar era nas mãos daquele homem em sua pele, violentando-a, invadindo-a sem consenso algum em busca de sua tardia vingança.

Malfoy provavelmente mandara-o para Azkaban, pois Fenrir Greyback era um dos últimos foragidos da famigerada Batalha de Hogwarts. Queria que a prisão ainda estivesse sob o controle dos dementadores para que o homem pudesse ganhar o beijo daquelas criaturas vis e asquerosas, sugando sua alma até que ele não pudesse mais rir. Abraçou os joelhos, como uma criança assustada, lembrança dos malditos risos que ecoavam em seus sonhos todas as noites.

Não ouvira a batida na porta ou o ruído da mesma se abrindo lentamente até que Malfoy a chamasse de forma cuidadosa, analisando sua postura, como que procurando por qualquer sinal de que estivesse disposta a fazer mal a si mesma. Se não lhe faltasse vontade, teria revirado os olhos. Hermione estava inerte, isso era tudo. Ia de um lado a outro naquele quarto, lidando com a dor, lidando com os hematomas que sentia e evitava encarar espalhados por seu corpo. Em algum momento, sairia. Em algum momento, a dor e a vergonha passariam, era o que tinha em mente, era o que esperava. Entretanto, o que não admitia nem para si mesma era: e se aquela agonia, que resumira seu estado de espírito em frangalhos nos últimos dias, nunca terminasse?

- Vou buscar aqueles... – Ele pigarreou hesitante. – Potter e Weasley.  

- Provavelmente, tornaria tudo pior.

- Granger, já faz...

- Eu sei! – Quase gritou, mas não desviou os olhos das fibras acinzentadas do tapete em nenhum instante. Estava cansada de repetir aquilo para si mesma a todo o instante, cansada de pensar que todos estariam preocupados, que precisava voltar, apenas... Cansada. Suspirou, enrolando entre os dedos de forma quase distraída o cachecol que utilizava para tampar os hematomas de si mesma, até resolver voltar-se ao loiro que se encontrava acomodado perto da janela, contra uma das paredes. – Por que está fazendo isso por mim? Por que me deixa ficar na sua casa como se fôssemos amigos ou...

- Não somos. – Ele respondeu séria e firmemente. – Fiz o que faria por qualquer um que encontrasse naquela situação. O problema é que se trata de Hermione Granger e, se alguém descobrir que esteve aqui durante os sete últimos dias, estarei com problemas.

- Vou mandar uma carta aos rapazes. – Ainda sério Malfoy concordou e encaminhou-se em direção a porta para deixá-la sozinha novamente, mas Hermione resolveu levantar-se e adiantar, um tanto perdida. – Hum... Eu poderia ficar aqui, ao menos por enquanto? É o único lugar do mundo que ninguém viria procurar e... Eu realmente, realmente, não gostaria de ser encontrada no momento.

Ele a encarou parecendo remoer algo que gostaria de falar, mas, por fim, resolveu ser direto, como era de seu costume.

- Fique o tempo que precisar, Granger.

I'll let go, walking into the unknown

If I surrender, if I lay my arms down

Am I a fighter?

Am I a fighter?

Cause I've been fighting so long baby

ATO IV

Tulipas vermelhas eram as flores preferidas de Hermione. Entretanto, mesmo entre o campo de flores das quais gostava, não conseguia levantar um sorriso. O mundo ao seu redor não era o mesmo. Não quando as lembranças a atormentavam de forma persistente, jogando-a em uma espiral de sensações que não gostava de experimentar, mas que lhe pareciam inevitáveis.

Ainda estava hospedada na casa de Malfoy, trocavam apenas as palavras necessárias, e eram raros os dias em que saía do quarto. A única coisa que a convencera a sair fora a plantação de tulipas nos fundos da propriedade, mas Roxy tivera de acompanhá-la. Não se sentia segura em sair sozinha.

Suspirou, encontrando o caminho de ladrilhos que a levaria de volta a casa de pedra clara que a família Malfoy mantinha naquele pequeno vilarejo no interior do país. Hermione ainda se perguntava por que o homem a levara para lá em detrimento de Harry ou Ron ou ao hospital, que seria o natural, mas não gastava tempo suficiente para tentar responder tais questões objetivas.

Então, encarando o exemplar de tulipa vermelha que carregava entre os dedos, realizou que costumava adorar questões objetivas. Era Hermione Granger, afinal de contas. Adentrou a cozinha planejada em móveis de madeira branca, surpreendendo-se com Malfoy escorado contra o balcão com um jornal entre as mãos. Cumprimentou-o em silêncio, sentindo o costumeiro olhar analisador sobre si enquanto buscava um saquinho de chá e despejava a água fervente em uma xícara.

- Por que me trouxe para cá? 

- Por que ainda está aqui? – Ele rebateu em forma de pergunta de forma mordaz, como que para lembrá-la com quem estava lidando. 

- Não vamos entrar nesse jogo, Malfoy.

- Não mesmo.

O silêncio reinou em absoluto por tempo suficiente para Hermione perceber que ele não tinha intenção de sanar suas perguntas. Apertou a xícara de chá quente entre as mãos e desviou o olhar. Tinha a impressão de que, enquanto a encarava, Malfoy recordava toda a situação degradante que acontecera no beco e isso a incomodava, pois era exatamente o que tentava evitar constantemente.

- Ainda sinto as mãos dele sobre mim. – Ela respirou fundo, a voz embargada e os olhos firmes nos poucos matizes azuis que permeavam os olhos do outro. – Sinto aquela boca nojenta deslizando por minha pele, buscando um prazer que eu não concordei em dar a ele. Passei a detestar a chuva por que ela me lembra daquele homem... Explorando algo que jamais seria dele, se não tomado à força. Eu não consigo me olhar no espelho por que me sinto suja ao fazê-lo, como se fosse culpada por tudo isso e...

- Granger...

- Consegue entender por que ainda estou aqui? – Um sussurro ecoou, mesmo em sua voz estilhaçada. – Eu tenho vergonha de mim mesma, Malfoy.

And I am a wounded warrior

And now that the enemy is close and in

I am a wounded warrior

Looking for someone to let me in

ATO VII

A coruja marrom de olhos profundamente verdes pousou no peitoril da janela chamando sua atenção. Com um suspiro, Hermione desamarrou a carta presa à sua perna e depositou o envelope sobre uma pequena pilha formada por outros completamente iguais, mas jogou-se contra a poltrona próxima a janela encarando a noite incrivelmente estrelada do lado de fora sem sequer abri-lo.

Estava cansada de ter que repetir a mesma coisa que escrevera em todas as outras cartas: estava bem e segura; Harry e Ron não precisavam se preocupar; iria voltar o mais rápido que conseguisse; sim, acontecera algo, mas não estava pronta para falar sobre isso. Talvez nunca fosse estar, divagou vendo a coruja protestar contra sua falta de consideração ao não alimentá-la e bater as asas de forma pomposa, tal qual seu dono, para lhe dar as costas.

Stratford-upon-Avon tornara-se mais silenciosa à medida que seus pensamentos iam se tornando cada vez mais estridentes. Lidar com as lembranças do acontecido não era nada fácil, ainda mais estando sozinha, mas... Tinha tanta vergonha. Gostaria de falar com Harry e Ron, explicar a eles o que acontecera, mas tudo que conseguia imaginar como resposta eram seus olhares julgadores. Sonhava com a possível reação deles e isso apenas fazia com que decidisse permanecer mais um dia na casa de Malfoy. Vivia um dia de cada vez, mas cada dia parecia ainda mais difícil que o anterior e não o contrário, como deveria ser.

Como consegui chegar a tal ponto?

Descobrira que Malfoy tinha uma pequena biblioteca na casa de campo e tentava distrair-se lendo, mas às vezes uma palavra, uma frase ou uma situação descrita a fazia recordar todo o terror daquela noite e então passava horas em seu quarto, sentada no chão duro de madeira, encarando o mesmo ponto desinteressante da parede e sentindo aquela agonia constante que parecia determinada a não abandoná-la.

Tudo que queria naquela noite era chegar a casa para descansar após um dia longo e exaustivo dia de trabalho no Ministério, lembrou-se. Conseguia refazer cada passo seu até adentrar o beco enfeitiçado para aparatar. Entretanto, gostaria muito de não ser capaz disso. Queria esquecer cada maldito detalhe que seu cérebro a recordava até mesmo em sonhos quando dormia.

Um ruído no andar térreo a tirou de seus devaneios, entretanto, obrigando-a a levantar a cabeça de forma tão abrupta que sentiu seu pescoço estalar. O martelar do coração acelerado em seu peito era palpável. Tarde da noite, a casa se encontrava as escuras, até mesmo Roxy já havia se recolhido. Relutantemente, buscou a varinha que fora largada de forma desleixada perto do espelho e abriu a porta do quarto de forma lenta, observando os dois lados do corredor.

Encaminhou-se para o andar inferior, ignorando o chão de madeira fria e descendo as escadas de forma cautelosa. Observou que a sala aconchegante com várias poltronas e tapetes encontrava-se deserta e fria devido ao fato de a lareira estar quase apagada àquela hora. Supunha que Malfoy ordenara que fosse acessa todas as noites, independente de sua presença naquele cômodo.

Então, com o cenho franzido, notou a iluminação fraca vindo da cozinha. Com a varinha em riste, apesar de trêmula, atravessou a sala de jantar espaçosa e, em um rompante de coragem que não tinha há dias, adentrou a cozinha apenas para encontrar Draco Malfoy sentado à mesa redonda de madeira calmamente tomando uma taça de vinho.

Ele não pareceu assustado com sua entrada abrupta. O observou levantar uma sobrancelha interrogativa e não pôde deixar de soltar um suspiro aliviado. Não sabia como lidaria se houvesse realmente um estranho ali. Perdera a varinha no duelo contra Greyback e isso a atormentava insistentemente, como se fosse sua própria mente insinuando que não era capaz de defender-se sozinha.

- Vai acabar furando o olho de alguém com isso. – Abaixou a varinha contrariadamente e o encarou.

- O que está fazendo aqui?

A pergunta em tom acusatório pegou a ambos de surpresa. Malfoy não costumava ficar mais do que o necessário naquela casa, foi o que constatou após alguns dias. E tarde da noite não era um horário propício a que ele aparecesse. O que ele estava fazendo ali? A pergunta soou em sua mente incomodamente e Hermione já fazia menção de dar meia volta para voltar ao quarto em que estava hospedada – a presença dele lhe lembrava deste detalhe – quando a voz dele chamou sua atenção.

- Briguei com minha noiva Astoria. – Isso ainda não explicava o que ele fazia ali. – E não queria ir para a casa de minha mãe, se realmente lhe interessa saber.

“Não interessava”.

- Sinto muito por isso. – Pigarreou após algum tempo, estranhando a conversa de rumo relativamente estranho que desenvolviam. – Vou voltar para o quarto.

Pois, talvez, indo até lá ele tivesse a intenção de ficar sozinho, visto que Hermione supostamente não o atrapalharia devido a sua habitual e previsível falta de interação com o mundo. Além disso, Malfoy parecia realmente chateado pela briga. Apesar de vestir seu habitual e caro terno italiano, de belo recorte e tecido refinado, seus cabelos estavam bagunçados e o rosto corado, provavelmente de raiva. Mas o homem apenas deu de ombros, sempre encarando o líquido vermelho na taça que tinha entre as mãos. Ele não estava ali por ela – e isso era o mais próximo da realidade que se permitia chegar. 

- Não queria que a vissem daquele jeito. – A voz dele soou quase baixa demais quando já adentrava a sala de jantar e Hermione sentiu os músculos de seu corpo enrijecer pela tensão tornada costumeira nos últimos dias. – Você... Não tem ideia do estado em que a encontrei, Granger. Se tem vergonha de si mesma, imagine se o mundo bruxo soubesse sobre isso, imagine como sua família passaria a olhá-la se a tivessem visto como eu vi.

Voltou-se para a figura de Malfoy, que ainda encarava desinteressadamente a taça de vinho em mãos, e apoiou-se no portal ao seu lado. Hermione sentia em cada poro seu as consequências daquele ato de Greyback, podia sentir as dores, interiores e exteriores, e reexperimentava de forma muito viva sempre que colocava a cabeça no travesseiro todas as horríveis sensações que era estar sob a tempestade naquela noite escura, em um beco malcheiroso, sendo violentada por aquele homem. Entretanto, não tinha em mente uma imagem de como era sua aparência após tudo ter acontecido. Molhada, ensanguentada, descabelada, marcada... Tudo isso ela poderia supor, mas não Malfoy. Ele sabia, ele vira, ele parecia incomodar-se com isso.

- Ao menos, me concedeu a opção de escolha. – Ele finalmente lhe encarou, franzindo o cenho. – Tempo para pensar se posso lidar com minha família ou... O mundo bruxo sabendo sobre isso. Ao mesmo tempo em que sinto que passar por tudo sozinha torna as coisas mais difíceis, eu... Sei que, no momento, não conseguiria encará-los.

- Não poderá fugir para sempre. – Hermione concordou.

- De qualquer forma, estou grata pelo que fez por mim.

Black and blue, I'm begging you

Take me in, I'm surrendering

Black and blue, but if I'm with you

If I'm with you, I'll live to fight althrough

ATO VIII

“… Estarei de volta em breve e, então, poderemos esclarecer todo este mal entendido. Novamente, estou bem e não há nenhuma necessidade de preocuparem-se”.

Selou a carta com cuidado e despachou a coruja marrom de olhos esverdeados, a qual já possuía certo ar de indignação ao encará-la. Harry e Ron a estavam deixando esgotada com suas cartas-respostas e até mesmo Hermione se sentia pressionada com as palavras de ambos, por isso gostaria que suas últimas palavras fossem verdadeiras.

Voltaria em breve?

Observou a coruja alçar voo e planar com as asas abertas contra o céu azul límpido da noite. Estava agindo de forma extremamente covarde e, às vezes, quando Malfoy a encarava com seu típico semblante analisador, quase podia ouvir seus pensamentos julgando-a. Ela teria de voltar em algum momento, mas não queria ter de lidar com seus amigos perguntando-a incessantemente o que acontecera até que fosse vencida pelo cansaço; não queria conviver com a Sra. Weasley lhe bajulando como se tivesse estado doente, pois não era o caso – ao menos, não literalmente; ou com Ginny e seus olhares reprovadores pela “atitude extrema” de ter sumido por alguns dias.

Sentia falta de todos eles, mas não queria encará-los com o sentimento de culpa ainda latente em seu corpo e mente. Queria estar bem para que eles não tivessem de questioná-la, para que supusessem que houvesse presenteado a si mesma com alguns dias de folga... Tudo, menos aqueles olhares, aquela insistência, aquela preocupação que fazia com que Hermione sentisse ânsia de vômito ao realizar que eles a fariam reviver tudo ao contá-los. De alguma forma, conseguiriam e não queria sentir-se coagida novamente, não depois de tê-lo sido da pior forma que uma mulher pode ser coagida. 

Escondeu-se em baixo dos lençóis, encolhida em posição fetal, enquanto sua mente trabalhava para imaginar todas as situações as quais seria exposta quando voltasse. Nunca fora uma questão de “se”. Voltaria, em algum momento. Esperava que não tão breve. Porém, a razão lhe dizia que não podia ficar por tanto tempo, que devia retomar sua vida, tentar não pensar naquela noite, naquele homem, naquele beco.

E na tempestade. Retraiu-se contra o próprio corpo, como se sentisse esmagada, como se ainda estivesse contra aquela parede de pedras irregulares e Greyback a pressionasse com força enquanto arremetia contra ela. Hermione o sentia de forma tão real quando fechava os olhos que não sabia distinguir o que era sonho e o que não passava de um devaneio de seu cérebro.  

As mãos se fecharam em punhos ao redor dos lençóis e sentiu suas pernas retorcendo-se enquanto era acometida pela mesma dor que sentira enquanto ele esteve dentro de si. Esfregava uma contra a outra na tentativa de livrar-se daquela sensação de invasão, mas não conseguia aplacar a dor e a ardência em momento algum.

Sentiu os olhos lacrimejando antes de ouvir o próprio soluço. Suas unhas, no entanto, já estavam fincadas nas próprias palmas enquanto os músculos encontravam-se tensos. De alguma forma, podia ouvir o próprio choro desesperado, ao longe. No beco. No quarto. Seu rosto molhou-se e ainda não conseguia distinguir... Lágrimas ou chuva?

Mais uma vez, sua razão estava em queda livre. Sem controle algum sobre suas emoções, o corpo era aquele que mais sentia. Pele contra pele. Aspereza. Respirações entrelaçadas. Náusea. Língua molhada contra pele. Repugnância. Gemidos agressivos. Asco. Tudo fazia com que o quisesse o mais longe possível de si, mas a incapacidade era gritante e...

As mãos imobilizaram seu pulso com tanta facilidade. Ela soluçou, tentou lutar, afastá-lo, mas o sentia a cada segundo mais próximo sem que nada pudesse fazer. A respiração contra si era tão quente e viva que a desesperou cada vez mais. Ouvia a risada, a malícia do homem exalando, sem importar-se minimamente com Hermione.

- Acorde!

Então, como em um filme que foi pausado, todos os sons ao seu redor cessaram. O tom arrastado da voz conhecida sumira. Ofegante, sentiu os olhos dele sobre ela de forma assustada. Até então, Hermione não chorara, não se permitira derramar uma lágrima pelo que acontecera, não quando se recusava a admitir que fosse uma realidade e que esse era o motivo de não conseguir encarar o próprio reflexo em um espelho pelos últimos dias.

Todavia, lá estava ela sentindo as lágrimas frias lhe estilhaçando em um choro desesperado e fora de seu alcance de controle. Lentamente, Malfoy soltou seus pulsos e Hermione lhe deu as costas, cobrindo o próprio rosto enquanto tentava conter o soluço. Precisava voltar em breve, não só para sua vida, mas quem costumava ser; resolver aquela situação, procurar ajuda; mas tudo que podia pensar era que ficaria naquela cama até que alguém a pegasse pela mão e a obrigasse a fazê-lo. Ela, que costumava ser a mais forte.

- Granger. – A voz dele estava rouca e pôde sentir a mão grande em seu braço hesitantemente, virando-a para que pudesse encará-lo. Hermione ainda tentou resistir, mas àquela altura não tinha mais forças para lutar e, após a esquiva automática, deixou-se ser guiada pelo tom de voz baixo. – Eu não vou lhe machucar, jamais faria isso. Granger...?

Seu corpo estremeceu ao olhá-lo e perceber como se encontrava perto e, por um momento, quis sair dali correndo. Mas, enquanto sentia os dedos dele acariciando as juntas dos seus, como se com isso tivesse a intenção de acalmá-la, lembrou a si mesma que aquele que a encarava, tendo semblante estranhamente preocupado, era Draco Malfoy e ele a ajudara em um primeiro momento.

Ele não lhe faria mal. Repetiu para si mesma enquanto o sentia tentar enxugar suas lágrimas incessantes, apesar de não conseguir evitar o arrepio de medo que percorreu sua coluna enquanto o deixava fazê-lo. Ele não lhe faria mal. Draco Malfoy lhe livrara de Greyback, a levara a própria casa, indiretamente cuidara dela e estava ali, tratando-a com cuidado como se não fossem mais os inimigos de infância que costumavam ser. Ele não lhe faria mal.

- Vou cuidar de você.

- Por quê? – Sua própria voz se encontrava rouca pela falta de uso, mas não se importou enquanto o via contrair o rosto em uma careta, parecendo incomodado enquanto desviava os olhos dos seus e levantava-se, estendendo a mão.

- Ninguém merece passar por isso. Nem mesmo você.  

I am a wounded warrior

Now that the enemy is close and in

I am a wounded warrior

Looking for someone to let me in


Notas Finais


Olááá!
Se você chegou aqui, espero que deixe seu comentário para animar a autora aqui a continuar a história rapidinho! suas críticas, suas opiniões, tudo que achar relevante sobre o tema da história e a primeira interação de Draco e Hermione. Tudo é importante para mim.

Espero que tenham apreciado, até o próximo!!
<3


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