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História Black Sand - Capítulo 1


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Notas do Autor


they're gays i know it

esse shipp surgiu aleatoriamente em um grupo e eu escrevi a fic pra ganhar um hamburguer é isso
espero que gostem e também shippem luquinha com vitinho do sedex

Capítulo 1 - Único


A prisão Black Sand sempre foi um lugar evitado pelo serviço postal da agência em que Victor Granz trabalha, nunca foi explícito o motivo real, seus supervisores sempre falavam sobre como a mobilidade e transporte até lá seria complicado — ruas estreitas demais, com vários buracos e um enorme risco da charrete afundar nas poças lamacentas, ou até mesmo os cavalos se ferirem com os espinhos dos enormes arbustos de rosas que contornavam o local dando uma beleza sombria à prisão, não o suficiente para que impedisse as pessoas de terem medo de frequentá-la.

O real motivo era que todos temiam o lugar, fosse pelos boatos sombrios, fosse pelo histórico dos prisioneiros. Não era surpresa para ninguém que Black Sand foi abandonado por deus, não um deus que os católicos crêem, não especificamente, para aqueles que acreditam que deus fosse a política, Black Sand não recebia investimentos do governo há anos, os poucos recursos vinham de magnatas que financiavam interessados em usar os prisioneiros como meros instrumentos, e há de quem não acredita em deus, para eles, bem, se a divindade fosse a própria existência humana, perceberiam que a administração de Black Sand era comandada por demônios, demônios as quais pertenciam um coração cruel com uma desumanidade quase tão grande quanto as dos prisioneiros, mas que se realçavam pelo poder que possuíam. O verdadeiro mal era sempre o de quem possuía uma arma perante a um inofensivo. De loucos não eram feitos apenas os prisioneiros, mas quem lá trabalhava. 

A simples ideia de se envolver no inferno terrestre que era Black Sand amendrotava todos os entregadores, a ponto de ninguém se importar com mandar cartas para prisioneiros, por mais poucas que elas fossem. Havia um amor à própria vida que sobrepunha o salário extra que poderiam ganhar, o medo de olhar no fundo dos olhos de cada homem e mulher que cometeu os crimes mais cruéis e foram confinados no esquecimento, cuja penalidade não era a prisão perpétua, mas a sua inexistência eterna.

Victor Granz era diferente.

Diferente o suficiente para não estar no emprego em busca do salário que poderia ganhar, mas pela reação das pessoas. Havia uma satisfação em ver as mais diversas expressões que cada um fazia ao ler as cartas, ao receber as notícias, mostravam o seu verdadeiro eu. E Victor queria saber, ele precisava saber quais das mais diversas reações que prisioneiros abandonados pela sociedade iriam exibir ao receber cartas, a ponte entre eles e o mundo real, a sua última conexão, e Victor queria ser a pessoa que forneceria essa ponte.

Era uma caminhada difícil até a prisão, o cavalo galopava o tempo todo, andando com enorme dificuldade e com cuidado para não pisar em algum buraco encoberto por lama. Em um determinado ponto, Victor achou que seria melhor deixar o cavalo preso na árvore e continuar o caminho a pé, já que não faltava muito até a sua chegada e seria arriscado para seu cavalo continuar a andar. Aproveitou para deixar o cachorro com o cavalo, por mais que gostasse da companhia de Vick, não queria arriscar levá-lo para um lugar de tamanho perigo. Vick latiu, fez drama, protestou contra o abandono temporário de Victor, mas se acalmou com um petisco, entendendo a ordem de Victor para que ficasse lá.

“Confio a você para cuidar do cavalo”, disse Victor, fazendo um leve carinho na cabecinha de Vick.

O resto da caminhada não foi tranquilo, mas Victor já esperava isso. Vários espinhos em sua roupa, torcendo para que não atingissem a sua pele, seus calçados estavam imundos de lama pelas frequentes chuvas que haviam na região, inclusive, uma que logo ameaçava se formar.

Quando ele finalmente chegou à Black Sea, um alívio formou por seu corpo. Não apenas por finalmente ter chegado ao seu destino, mas por ver, com clareza, a beleza incompreensível da prisão, em como o cruel podia ser belo, em como o horror poderia parecer uma bela e sombria pintura. A desorganização do local — causada pelo desinteresse da administração e do governo — permitiu-o entrar facilmente no estabelecimento e conseguir uma lista da ordem de celas em que deveria passar, conforme o nome dos prisioneiros.

Eram poucas cartas, não sendo tão difícil entregar nas celas, e era bom ver a reação das pessoas. Algumas, estavam felizes por sentirem que há alguém lá fora que ainda se lembra delas, outras, estavam tristes com as notícias. Uns riram, uns choraram, ah, era tão bom ver como cada um reagia de uma forma semelhante, mas diferente.

Mas foi quando passou por uma determinada cela, que tudo mudou. O prisioneiro batucou os dedos na grade, fazendo barulho, quando Victor virou-se, ele se deparou com os intensos e profundos olhos do homem. O sorriso, o seu sorriso, havia tanto de dizzer sobre o seu sorriso. Victor gostava de analisar expressões, gostava de pensar o que havia por trás de cada gesto no rosto, e aquele determinado prisioneiro parecia uma bela pintura, uma bela e misteriosa pintura com vários detalhes para desvendar. Era como olhar o céu noturno e se perder na imensidão de estrelas, ao passo que poderia usá-las para se guiar, e ele era lindo, magnífico, era sujo, imundo, marcado por violência e agressão, mas continuava tão belo e encantador. Seu cabelo bagunçado, a sobrancelha com pedaços raspados, o canino afiado que lhe dava uma aparência sombria. Ele parecia o perigo, um perigo que atraía Victor. Com o sorriso excêntrico, o olhar maníaco, e a aura que indicava insanidade.

Victor sabia que não deveria se aproximar, mas ele nunca foi uma pessoa de seguir a parte mais sensata de sua mente, a sua curiosidade sempre falava mais alto.

O homem lambeu seus lábios, de novo a expressão de loucura, o jeito agitado que ele movia as mãos nas grades da cela, como se fosse um desesperado, não, como se ele sentisse que ele não deveria estar lá e que precisava sair a todo custo.

“Tem algo para mim?”, ele perguntou, o corpo tremendo, agitado e não parando por um segundo sequer. Victor olhava para ele e se sentia calmo, tranquilo, graças ao contraste que havia entre eles, mas também sentia uma necessidade de mover-se, de apresentar uma dinâmica. Olhou na lista, sentindo que começava a ficar agitado apenas de olhar para o prisioneiro possivelmetne traumatizado por seu tempo em Black Sand, o número referente à sua cela não indicava nada.

Antes que pudesse dizer a ele sobre a falta de correspondência, o prisioneiro se adiantou.

“Estou brincando, não tem nada para mim, não tem como ter”, afastou-se da grade, apenas para sentar-se no chão e começar a movimentar várias peças que encontravam-se espalhadas pelo chão. “Ninguém se importa comigo a ponto de enviar algo, ninguém entende, ninguém, minhas invenções… tão desvalorizadas.”

Victor se manteve calado, apenas desfrutando-se de ouvir a voz dele, a rouca voz de um prisioneiro anêmico sem saúde, à beira da morte por falta de cuidados. Era sobre isso que Black Sand se tratava, afinal.

“As pessoas não confiam em quem pensa além do que existe”, ele continuou a movimentar as peças, a encaixar uma à outra, como se estivesse a montar algo, com tanta graciedade, que mais parecia um grande artista pintando um quadro, assemelhando-se a algo abstrato, até que ficasse completo, até que se tornasse uma Monalisa. “Todos vivem em sua área de conforto, com medo de brilhar alto o suficiente para que saiam dela. Minhas invenções, elas-”, travou, sem saber o que falar, olhando confuso para cada peça. “Minhas invenções…”, desprendendo-se de tudo o que falava, como se um branco tivesse se alastrado por sua mente, ele se levantou, de súbito, tombando a cabeça para o lado, olhando confuso. “Qual o meu nome?”

“O que?”, Victor questionou, sem entender se ouviu certo.

“O meu nome? Qual é?”, havia um desespero maior em sua voz, a agitação parecia aumentar. “Estou há tantos anos aqui, há tanto tempo, eu nem sei mais… Ninguém me chama pelo meu nome, é sempre ‘Eletricista’, já não me recordo mais, nem do meu próprio nome.”

Victor sentiu um pouco de pena ao ver como as condições desumanas do local haviam deixado-o daquele jeito. Conferiu na lista, procurando o nome dele conforme o número da prisão, mordeu o seu lábio inferior.

“Aqui está como ‘Eletricista’”, avisou, com pesar em suas palavras. Geralmente, Victor não sentia pena das pessoas, havia uma certa indiferença gélida ao contar notícias ruins, cartas tristes, cartas com notícias de óbito, tudo era indiferente para ele. Mas ouve uma forma como falou o nome do prisioneiro que o deixou apreensivo.

Mas ele não se decepcionou, o prisioneiro, apenas riu.

“Ah, é isso”, e sentou-se no chão de novo, voltando a envolver-se com as pecinhas. “Sabe qual a pior parte de estar aprisionado?”

“Qual?”, Victor questionou-se, com consciência de que a pergunta seria algo que ele não saberia responder.

“Os recursos”, ele movimentava as peças com tamanha maestria. “É complicaado tentar escapar quando se não há as ferramentas necessárias.”

“Você quer escapar?”

“Quem não quer escapar?”, Victor sabia que ele tinha razão. 

Era estranho como o homem despertava o interesse de Victor de conversar, talvez fossem as belíssimas expresões, em como seu rosto parecia uma conversa adicional a ter. Victor sempre foi uma pessoa apenas de observar de longe, de tentar compreender os diálogos por meio de gestos, mas era diferente ao conversar com o prisioneiro.

“Esse lugar está me apodrecento, eu preciso me livrar dessas correntes que me prendem, mesmo que lá fora eu seja odiado e repugnado, desde que eu consiga mostrar a todos esses idiotas do que a tecnologia é capaz, eu estarei contente.” 

Victor o observava com curiosidade.

Ele era fascinante.

“Você trará luz à humanidade”, disse sem medir as consequências de suas palavras. Muitas pessoas nunca colocariam fé em um homem imundo e louco da prisão, mas havia algo em suas expressões que Victor nunca havia visto antes. Eram sinceras, mas falsas, havia uma malícia em sua inocência. Ele era um mistério agradável que parecia facilmente desvendável, mas que quanto mais fundo você tentava cavar, mais difícil era de achar o final.

“Luz…”, o prisioneiro pareceu pensar, levantando-se por impulso, olhando para Victor. “Luz! É isso, onde eu vejo, por todos lugares, há uma luz, ela me persegue, ela me ilumina, me amendontra, parece ser a minha maior companheira, eu ainda não sei se ela é boa, se ela é ruim, mas eu sei que ela é a solução. O mundo precisa de luz, de energia, de fótons, uma grande revolução está por vir, e ela é feita a base de eletricidade. Tudo será movido por energia, guarde minhas palavras, belo homem, eletricidade, tudo será.”

Victor não sabia direito como reagir, se ele ficava surpreso pelo grande discurso, ou se apenas se focava no fato do eletricista chamá-lo de “belo homem”, suas bochechas coraram levemente, ele era tímido, afinal.

“A luz azul…”, ele falou, os olhos de um louco, focando em Victor. “Você a vê?”

“Não”, Victor respondeu, sabendo que lidava com uma pessoa exótica. Mas afinal, ele era doido, ou grandioso demais para o mundo?

“A luz azul que pisca em torno de mim. Será minha maior invenção, eu irei controlar a eletricidade!”, parecia uma fantasia, Victor se sentia lendo um livro de romance escrito por algum escritor de terror, era surreal a forma que ele agia, que ele falava, Victor não conseguia olhar para o eletricista e pensar em palavras que o descrevessem que não envolvessem o tamanho fascínio.

“Eu posso te ajudar a escapar daqui”, Victor falou, de uma forma imprudente, sem medir as consequências.

Aqueles olhos intensos, fortes e ousados, voltaram a encará-lo. Ele lambeu seus lábios, mostrando be o canino afiado. Deu alguns passos, até a porta da cela.

E a abriu.

Facilmente.

“O problema…” ele falou, com a voz calma. “Não está em sair, isso é fácil, o problema, é nunca mais voltar”, ele movimentava os dedos mais lentamente, parecia a primeira vez que Victor o viu calmo desde que chegou.

Era estranho vê-lo tão de perto, era muito estranho, mas era bom. A forma que a respiração desregulada dele era audível, os passos inquietos de pisadsa no chão. Parecia um risco, como se Victor pudesse ser atacado a qualquer momento por aquele homem, mas ele não temeu, apenas se manteve inquieto para vê-lo se aproximando. O eletricista o tocou, de uma forma mais suave do que Victor pensaria que seria, como se ele estivesse explorando-o, como se Victor fosse uma de suas invenções que ele estava a analisar. Parecia um louco, um exótico, contudo, havia um sentimento bom em ser olhado daquela forma, Victor gostava daquilo, sem nem ao menos saber como gostava. 

Tão perigosamente perto de si, tão bonito.

Victor olhava para a sua maior perdição.

“Tudo bem”, afirmou, sem hesitação. “Eu vou limpar o seu nome.”

O eletricista pareceu curioso.

“Faria isso por mim? Mas você acabou de me conhecer…”, era confuso, um olhar estranho de quem estava costumado a ser questionado e ter tudo sendo duvidado. Victor já leu romances demais para saber destinos trágicos que grandes inventores tomavam. Ele percebia pelo jeito que o homem agia, como ele deveria ser solitário, triste, amargurado com a vida.

Victor sorriu, os seus olhos parecendo brilhar da mesma forma exótica e excêntrica que havia no eletricista.

“As suas expressões me encantam. Você é melhor do que qualquer um que poderia abrir minhas cartas. Indecifrável, eu quero… entregar cartas para você, eu quero ver as suas reações.” Victor segurou as mãos dele, apertando firmemente, parecia fascinado ao vê-lo tão de perto.

O eletricista sorriu.

“E como fará isso?”

“As cartas elas tem… poder”, Victor falou, olhando para as suas cartas. “A carta específica para o destinatário específico pode fazer tanta coisa…”

O carteiro queria ver as reações, queria ver a surpresa no rosto dos surpevisores ao perceber que o eletricista deveria sair. Ele não fazia a mínima ideia dos crimes dele, contudo, não fazia diferença, o interesse em sua própria existência era maior.

Victor queria poder entregar cartas para o eletricista, queria poder ver como ele reagiria com cada carta que fosse receber, e por isso, iria atrás da liberdade do prisioneiro.

Iria atrás de seu nome.

Ele iria precisar de um nome para receber as cartas.

“Isso, me traga cartas” o prisioneiro falou. “Traga cartas para um eletricista louco, esquecido por todos, largado para morrer e apodrecer por aqueles que agora usam e abusam de suas invenções.”

Tão perigosamente perto, sentia a respiração do eletricista, Victor conseguia sentir o corpo dele em contato com o seu, a vontade de ofegar era alta, era bom, ainda sem saber como ele conseguira preservar tamanha beleza em situações tão drásticas assim. Victor, curioso, esticou as suas mãos e tocou no cabelo do homem, sem nenhuma negação, continuou, sentindo que eram duros, rígidos, de quem não lavava há tempo, e ele sabia que assim que conseguisse libertar o eletricista, iria dar um longo banho nele, dar-lhe-ia ferramentas e um espaço para poder fazer as suas invenções.

E, mais importante.

Dar-lhe-ia um nome e um endereço, para que assim, pudesse receber as cartas.

Pois, por elas, descobriria tudo sobre o prisioneiro.



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