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História Black Sea - Capítulo 11


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Notas do Autor


OLÁÁ

Capítulo 11 - A verdade.


Fanfic / Fanfiction Black Sea - Capítulo 11 - A verdade.

A porta se abre, e nela se revela uma figura completamente loira, em um vestido de seda cor-de-pele e um batom extremamente vermelho nos lábios. Ela tem um ar prepotente e um sorriso mais do que malicioso beirando em seus lábios.

— Olá. Você é a Hadley, não é? — Ela perguntou, esticando a mão, do qual peguei. Em seguida, inclinei a cabeça para a taça de champanhe em sua mão, curiosa, interessantemente minha tia Sheron também é loira platinada que nem Ginger, e pelo visto tem o mesmo paladar em se embebedar antes da hora também.  

Apertei os meus olhos. Vamos com calma, nada de julgamentos rápidos, até porque afinal eu vim aqui por um objetivo: conhecê-los.

Eu sorrio para ela, concordando com a cabeça.

— Você deve ser a Sheron. — Digo, vendo-a me medir dos pés à cabeça, e logo os seus olhos azuis vieram até mim, maldosos. Ela soltou minha mão.

— É isso mesmo. Por favor, entre. — Ela pediu, dando-me espaço. Soltei o ar pela boca, olhando o lustre gigante que obtém na sala de visita dos Kimball.

A casa é luxuosa e tem aspectos antigos, dos móveis a parede, e até mesmo o teto com ornamentos em aspirais. A casa é rústica, e eu definitivamente não entendo nada sobre mansões, nem sobre o design delas, entanto entendo de velharia, e a casa parece basicamente isso.

— Me acompanhe. — Instruiu, caminhando a minha frente, em passos preguiçosos, e da mesma forma eu fiz o mesmo.

Passamos pela cozinha, e ao final dela Sheron empurrou uma porta dupla, nos guiando através de um corredor, aonde obtém uma de jantar à primeira vista, e logo uma sala de estar, do qual ela estacionou. Já na porta francesa, observei a vidraça dupla de vidro do outro lado, do qual dá direto para o jardim.

— Sente-se aí, Hadley. — A mesma indicou o sofá e eu me sentei, acompanhando seus movimentos lentos através da sala de estar, ouvindo o barulho das árvores que chacoalham ao redor da casa assim como o seu salto fino que arrasta-se através do mármore.

— A sua casa é muito bonita. — Comentei, muito atenta aos seus movimentos. A mesma sorriu para mim, piscando o seu olho esquerdo.

— Eu sei, obrigada. Mas não é nada comparado a mansão Bieber, huh? Aposto que qualquer mansão perto dela parece pequena, não é? — Não sei o que responder de imediato a isso, porque é verdade, contudo, me recomponho, negando com a cabeça.

— Para mim são todas iguais... Realmente não vejo diferença nelas, são todas grandes... — Sheron riu, visivelmente se divertindo.

— Mmhum. — Logo negou, suspirando.

Tia Sheron se posicionou à frente de uma lareira, pegando uma foto que obtinha sobre ela, e logo abriu um sorriso de lado, encarando a foto em mãos.

— Você parece muito com a sua mãe. — Revelou, um tom repreendedor e amargurado escapando de sua boca.

— E isso é ruim? — Retruquei, arqueando minha sobrancelha.

— Depende do quanto você é parecida. — Ela disparou de volta, e eu pisquei devagar, a vendo caminhar até mim e logo esticar-me a foto. 

Com cautela, apanhei o quadro de foto em mãos, vendo minha mãe bem nova. Ela estava vestida com roupa de ballett, e a mesma parecia ter por volta de quatorze ou dezesseis anos, praticamente a minha idade.

— Ela tinha dezesseis, e nessa competição em questão ganhou. — Tia Sheron respondeu, como se lesse meus pensamentos. Engoli a seco, fitando a foto. — Na sua idade sua mãe fazia ballet, ia a festas com os garotos mais bonitos da escola, dirigia um Mustang, almoçava no Steelsword todo dia, e fazia compras no Shortspine toda semana porque era obcecada consigo mesma. Ela precisava ter uma joia reluzente da Landblur para se sentir satisfeita. Charlie era e sempre foi a definição de garota perfeita. Ela obtinha tudo e todos aos seus pés... Como uma perfeita abelha-rainha que ela era...

Sheron sorriu, mas não fora um sorriso agradável, foi um maldoso, os olhos cintilando ao voltar a realidade. Não sei aonde ela quis chegar contando-me isso, mas espera um resultado com isso, definitivamente.

— Mas tudo isso mudou. — Suspirou, em tom de felicidade. — Mas e você, Hadley? Além do stripper, o que você fazia na sua fase adorável?

Dei-lhe um sorriso sem amostrar os dentes, descobrindo. Ela quer amostrar que tive uma vida de merda? Pois está atrasadíssima, porque eu já sei disso. No momento que Aaron veio até mim, no momento que descobri sobre Blade. Comparado a isso, nem posso chamar a minha fase adorável de vida. O fato é, o ressentimento sempre obtive, nada mudou quando cheguei aqui, mas tampouco irei demonstrar meu desapontamento a essa felizarda. Ao que parece, ela não parece muito infeliz com a vida que minha mãe levou, portanto, isso só me faz imaginar que tipo de pessoa a mesma é, e o que quer de mim de fato.

— Acho que além do stripper, nada que valha sua atenção. — É só o que respondo. Sheron se locomove, sentando-se em uma das poltronas a minha frente.

— Ah, vamos lá, sei que obtém mais coisas. Para suportar o peso da própria vida você se drogava, por acaso? Pode dizer, não irei te julgar, até porque sua mãe te levou a isso, certo? Deve ter sido difícil para você crescer em um lar instável, não é? — Eu não respondo, pois tenho a impressão que sua voz ecoa em deboche, ela não está interessada realmente em mim, só quer cuspir coisas ruins que lhe calhem para fora.

— O que você quer de mim? — Indaguei subitamente, desconfiada. Em seguida depositei a foto na mesa de centro a minha frente. Sheron balançou sua taça cheia, me encarando divertida. 

— Só estamos conversando, Had. Por que acha que quero alguma coisa de você? — Ela piscou animada, mantendo o seu sorriso.

— Isso não parece uma conversa. — Repliquei rapidamente. — E claramente isso aqui não é o chá da tarde, porque tenho certeza que não está interessada em meu passado. Então o que você quer de mim?

A mesma balançou a cabeça, seus fios platinos medianos mexendo-se no processo.

— Mas isto é, não se engane. E não seja por isso, vou mandar preparar um chá. —  A mesma pegou um pequeno controle depositado a cômoda ao seu lado, e apertou um botão, falando com uma outra pessoa do outro lado, pediu chá, e em seguida virou-se para mim. — E é claro que estou interessada em sua vida, absolutamente estou. Diga-me, em quantas formas diferentes minha doce irmãzinha estragou sua vida? Destruiu o seu psicológico? E te impôs a situações constrangedoras? Porque aposto que foi muitas vezes. Stripper foi a gota d’água, não acha?

Eu perdi a fala por um momento, aturdida. Ela é tão frenética, e incomoda, que eu perco o compasso. Não achei que ela pudesse dizer isto, mas disse. Não deixo-me de encabular-me, porém mais do que isso; não deixo de provocar também:

— Você sempre teve inveja da sua irmã, Sheron? Por isso que agarrou o marido dela enquanto ela não estava por perto? — Questionei, abrindo um sorriso presunçoso, ao mesmo tempo que o seu se fechou.

Ela me fitou por um momento, e um longo silêncio perpetuou, assolando a coragem que reuni agora pouco para espreitar para fora algo que vinha me incomodando. Dado a como Sheron se refere a minha mãe, e os fatos de hoje em dia, é óbvio que tinha algo errado entre as duas, portanto chutar inveja foi a melhor opção.

De repente, a sala de estar retumbou com a sua risada sarcástica.

— Muito bem, Hadley, por um momento te julguei mal e pensei que você tinha puxado ao seu pai, porque Charlize era uma cobra feita, e com uma língua bem afiada, se é que sabe. — A mesma sorriu, e eu fiz uma careta, perguntando-me porque ela está me parabenizando pela minha resposta malcriada. De todo modo, seu sorriso se desfaz, e ela fica séria. — Mas afinal você tem razão, Hadley, eu quero algo de você. — Disse, se levantando e caminhando rapidamente até um minibar, aonde deixou sua taça, pegou um copo e encheu de uísque. — Quero te ver longe daqui, dessa cidade, da minha família, e dos Bieber.

Eu engoli o seco com isso, franzindo o meu cenho. 

— Me ver longe? — Reforcei, só para ter certeza. — O que você ganharia com isso?

Rejeição dos Bieber é compreensível; estou invadindo, as crianças de Easton? Pura maldade, agora meus parentes? O que eles ganham com isso? Absolutamente nada. Meus pais casaram com divisão de bens, minha mãe não tem nada que é do Blade, diferente de mim, que ele deixando ou não deixando, obtenho uma parte da sua fortuna. Mas a questão é, o que ela ganha com isso?

A mesma sorri de lado, bebericando do seu copo cheio de uísque. Ela não me responde, ao invés disso prossegue:

— É, você sabe, Had... Doze anos é muito tempo para alguém ficar desaparecido. — Ela levou o copo até a boca, e eu acompanhei o movimento bem lentamente. — Por mais que Blade tenha dito que não iria denunciar sua mãe para ela não ser presa, todo mundo sabe que é mentira. Foi só uma lorota para todos pararem de o perguntar do porquê ele não está fazendo nada pra achar a estúpida da mulher e a filha pequena.

Eu espero, porque nada do que ela disse é uma surpresa desagradável para mim, meu pai era um babaca, está mais do que claro isso.

— Ele não queria achar sua mãe, muito menos você. — E ela continuou postergando. — Não se sinta mal, Hadley, mas o Blade não queria ser pai, na realidade ele era péssimo nisso, nunca foi bom com crianças e você foi um erro de uma noite... que acabou infelizmente muito mal para ele, entende? Sabia que o papai o obrigou a casar com a Charlie? Foi irônico ver a filha preferida dele grávida aos vinte anos do maior babaca da cidade.

Sheron riu e eu fiz uma careta, por que ela está rindo? A desgraçada alheia é divertida? Deve ser, acho.

— Ah... Mas posso dizer que minha irmãzinha não foi estúpida de todo modo, conseguiu engravidar do bilionário mais cobiçado da cidade em uma única noite, porém, é uma pena que não tenha durado muito o seu golpe. — Ela deu de ombros, rindo. — Até hoje fico me imaginando o que deu nela para sair de madrugada com uma criança de cinco anos no meio de uma tempestade. Será que ela finalmente cansou dos infinitos chifres que o Blade a colocava? Ou só teve um surto de loucura que a fez pensar que ele iria atrás de vocês, mesmo ela sabendo a verdade?

Ela arqueia as sobrancelhas esperando por minha resposta, mas nada saí, absolutamente nada. Perdi o compasso de novo. Estou ridiculamente impressionada com ela, e não gosto disso. Queria rebater cada palavra; todavia não posso lutar contra algo que não sei, e que, possa ser verdade. E penso, e se essa é a verdade que eu almejava? A história dos meus pais não é uma história de amor, tampouco minha vida é um conto de fadas, então não sei exatamente o que esperava vindo disso.

Suspirei incomodada, travando minha mandíbula.

— De qualquer forma, foi game over para ela.

Concordei com a cabeça, olhando minhas mãos sobre meu colo, quanto mais ela fala, menos eu gosto dela.

Eu sei que não posso rebater o que ela diz sobre minha mãe, mas sei que posso rebater o que eu sei sobre ela.

— Mas para você foi só o começo, não é? Ainda não respondeu, foi pura inveja se enrolar com o seu próprio cunhado? — Apertei, porque ainda é uma curiosidade. Tantos homens no mundo, então por que justamente o meu pai? Ele é tão... Ele.

— Ironicamente, foi curiosidade. Blade era podre até os ossos, e se atreveu a entrar no meu caminho, mas eu resisti o máximo que pude, mas depois cedi aos seus encantos, até porque ele notoriamente sabia como ser um galanteador quando queria. — Falou ela, sorrindo em seguida. — Mas agora que respondi, dê voz a minha pergunta. O que agora está fazendo aqui?

Eu inclino minha cabeça para vê-la melhor.

— Quer dizer do porquê eu estar aqui em Rosemary Beach? — Sheron concordou com a cabeça. — Aaron me encontrou.

— Eu sei, quero saber como. 

Eu sorrio cética, me perguntando como ela não sabe disso, ela está "casada" com o meu pai, não está? Eles deviam falar um com outro, não é?

— Não sabe? — Resmunguei, irônica, a vendo beber do seu copo. — Antes de morrer Blade deixou uma carta com Aaron, uma carta da minha mãe dizendo aonde eu estava... E com as informações obtidas ele contratou detetives particulares para me procurarem, e encontrou, logo após isso me trouxe para cá. É a história.

— Blade tinha uma carta da sua mãe? — Sheron remexeu desconfortável sobre os seus saltos, disparando a pergunta imediatamente

— É, sim. Pelo menos ele fez uma coisa boa antes de morrer, não acha? Porque sem essa carta a chance de eu estar aqui seria basicamente zero. — Divaguei, intencionalmente, vendo sua boca se abrir.

— O que dizia mais na carta? — Ela vem até mim e eu dou ombros, sacudindo sua curiosidade.

— Nada além disso. — Disse, cortando sua curiosidade. — Quando seus pais chegam, huh?

Encarei a porta do qual entramos, curiosa. Já está na hora dessa conversa acabar.

Ela não me responde, invés disso só me encarou em silêncio.

— Não devia estar aqui, Hadley.

Sua voz ressoa novamente, e ouço portas baterem em algum lugar da casa.

— Não devia ter voltado.

— Não acho que é você que decide, não é? — Retruquei, fazendo uma cara feia, isso está começando a me irritar.

Ela me olhou quando eu levantei em direção a lareira, indo ver as outras fotos.

— Vai se arrepender de ter voltado.

Eu concordei em sua direção, rindo, e logo peguei outra foto da minha mãe, ela estava bonita, com um sorriso no rosto e um vestido preto justo ao corpo, como uma verdadeira dama rica de Rosemary, muito diferente da mulher do qual eu convivi durante minha vida. Balanço minha cabeça em negação, girando-a para ver a tia Sheron, apesar das suas farpas, ela tem coisas interessantes a contar sobre minha mãe, e é tudo que me interessa no momento. No entanto quando me viro para lhe questionar, noto que a mesma desapareceu.

Mas em compensação, uma empregada apareceu, trazendo-me uma caneca de chá de Golden Tips Imperial. Não sei o que obtinha no chá, mas tomei três canecas, o que posteriormente me fez ir ao banheiro cinco vezes em períodos curtos de tempo.

(...)

Tia Sheron tamborilava suas enormes unhas contra a mesa de vidro, me deixando irritada não só pelo fato de me encarar divertidamente e sim por deixar pior o clima que já está ruim. Serena e Kenneth me encaram como se eu fosse uma extraterreste, enquanto lentamente os empregados — que são muitos, enchem nossos pratos com uma gororoba laranja que tenho quase certeza que tem olhos. Eu faço uma careta, não faço ideia do que seja isso, e honestamente nem quero descobrir.

— Então... — Serena puxa conversa, fitando-me. — Você fazia stripper?

Eu mordo a parte inferior da minha boca, soltando um suspiro baixo, se todas as conversas que eu tiver com as pessoas de Rosemary começar com as palavras “você era stripper?”, sentia que teria um grande problema pela frente. Mas não é só isso, fazer stripper não é motivo de orgulho, e apesar de ter levado na esportiva com as outras pessoas, sobre os olhos atentos dos meus avós me sinto intimidada.

Eu encarei o meu prato, vendo as três pessoas da mesa me encarem com expectativa. Pelas fotos eu sabia que obtinha mais membros Kimball, minha mãe tinha um irmão mais velho e mais três irmãs, sendo a mais velha entre elas, e Sheron sendo a mais nova.

— É, é verdade, eu fazia sim. — Respondi em um murmúrio baixo, envergonhada.

— Por que fazia isso? — Serena disparou e eu vi Kenneth a olhar repreendedor. A curiosidade deles é aceitável, entanto a minha também não deixava de aparecer.

— Você sabe que a minha mãe teve câncer, não sabe? — Questionei, pegando o garfo para remexer minha comida, Serena me fitou em silêncio, segurando meu olhar até o seu marido dirigir pela primeira vez, a voz a mim.

— A gente ouviu falar, mas pensei que tivesse sido por overdoses de remédios. — Ele não me encarou enquanto disse isso, e sim ao seu prato que parecia bem mais interessante. Estreitei os meus olhos

 — Charlie tinha problemas com substancias ilícitas, sabe Had. — Sheron diz e eu franzo meu cenho pela informação descabida. Drogas? Parando para pensar ele disse overdose de remédios. Isso me faz parar por um momento, ponderativa. Minha mãe era uma...

— O quê...? Minha mãe tinha problemas com drogas? — Sheron riu e Serena lhe deu um olhar irritado.

— Charlize não era uma drogada, só tinha problemas com pílulas. Ela só precisava de alguns remédios para se manter acordada durante a faculdade e as competições de dança. — Serena explicou. Mas isso não torna a informação melhor.

— Ou seja, drogas. — Sheron retrucou, e seus pais nada fazem. Kenneth continua a comer e Serena apenas suspira impaciente.

— Não estamos aqui para relembrar o passado e sim saber o que aconteceu. Diga-me Hadley, o que fez durante doze anos com sua mãe?

Seria mais fácil eu perguntar porque ninguém se interessou em saber o que nós estávamos fazendo durante doze anos. Qual é, ninguém nunca nos procurou? Tirando o estúpido do meu pai, estou começando a acreditar que sim.

— O que vocês fizerem durante os doze anos que estivermos desaparecidas? — Repliquei a pergunta, vendo meu avô me encarar de sobrancelhas juntas. Kenneth já tem cabelos grisalhos, é alto, magro e sério, dou uns sessenta anos para ele, ou talvez mais de acordo com as ruguinhas que aparecem no seu rosto a cada frase que saí de minha boca.

— Nós procuramos por vocês, assim como o seu pai procurou, mas sua mãe sempre foi muito escorregadia sobre o que diz respeito ao que fazia, então seu paradeiro foi difícil de acompanhar. — Franzi o meu cenho, encarando minha tia Sheron a minha frente, ela está sentada ao lado do seu pai que está na ponta, de frente para sua mãe que está do outro lado da mesa, a esquerda. A mesma obtém um sorriso nos lábios, quase dizendo-me que é mentira. Porque é. Meu pai nunca me procurou, ele não queria, nunca quis. Os Kimball estão mentindo, mas a prol de quê?

— Procuraram, é? — Apertei a afirmação, levando pela primeira vez o jantar gran fino dos Kimball a boca, nem na mansão Bieber eu havia comido isso, e agradecia aos céus por isso.

— Fizemos o possível para trazê-la de volta. — Serena continuou o teatro, e eu abri um sorriso falso.

— Então acho que o possível foi bem pouco. — Resmunguei, encarando Kenneth que limpava calmamente sua boca no guardanapo dourado, indiferente, Serena, me fitava em crescente cautela; como se eu fosse um bicho selvagem e perigoso que pudesse atacá-la a qualquer momento, e minha tia estaria mais do que bêbada até o fim da conversa, desde o momento que cheguei a essa casa há exatos duas horas e vinte e oito minutos — e sim, eu contei, ela está bebendo, eu também beberia em outra circunstância, isso aqui é uma merda.

De cautelosa, o olhar de Serena mudou drasticamente para um brilho de desdenho que queimou os seus olhos, até o momento eu me mantive calma, mas estou em alerta, agora mais do que nunca desconfiando totalmente da sua boa vontade, constando o que Ginger me disse, e o fato que mentiram na cara dura para mim. Qual é a deles?

— Estou apenas curiosa, querida.

Há uma pausa na sua voz e um momento para que ela encha sua taça de champanhe e a leve a boca.

Então eu pergunto: sobre o quê? Mais especificamente por que?

— Bem, estamos aqui para nos conhecermos melhor, certo? Então vão em frente, questionem. — Pedi, mas nada acontece, literalmente nada, por um minuto. Todos se entreolham, e não sei porquê da hesitação. Não é falta de coragem, parece mais um momento para que eu recue. Sim, eu deveria fazer isso.

 E Serena finalmente abre a boca.

— Como você sabe que é filha do Blade? — Ergui minha sobrancelha, intrigada. Como assim se eu sei? Aaron não teria me trazido para cá se não fosse, além disso obtém a carta escrita à mão pela minha mãe, e um colar que Aaron reconheceu.

— Por que eu não saberia? — Ralhei, incomodada.

— Bem, já faz doze anos que minha filha foi embora. E honestamente, Charlize não era uma pessoa muito confiável, se é que me entende. Portanto, eu não ficaria surpresa caso você realmente não fosse filha do Blade.

Ela fala com tanta naturalidade... Acabou de descobrir que a filha está morta, e não sente nada, absolutamente nada, e ainda tem a prepotência de acusá-la, alguém que não está aqui para se defender.

Suspirei raivosamente, travando a minha mandíbula. A acusação assola minha calma, e faz um borbulho furioso rugir em meus ouvidos.

Tento respirar com calma, contendo meus instintos, mas sei que estou transbordando, a raiva está na superfície.

— Eu tenho certeza que o Blade é o meu pai. — Rosnei, entre dentes. — E esse comentário é sem fundamento.

Por que minha mãe se sujeitaria a um casamento fadado ao fracasso se não fosse por uma criança legítima? Talvez ela amasse Blade, tão profundamente que aguentou por muito tempo suas traições, mas acredito que mesmo sobre isso, mesmo sobre o amor, a responsabilidade era o que a prendia, porque se não for, eu realmente não conheço o caráter da mulher do qual convivi minha vida inteira.  

— Tem certeza, Had? Charlize trocava de homem da mesma forma que você de calcinha. Amava se aventurar por aí, e se juntar com pessoas perigosas. Ela sempre teve uma inclinação para coisa errada, você sabe. Então não seria surpresa se fosse verdade, talvez ela tenha visto a oportunidade de não te dar um pai vagabundo, e a agarrou. Garantiu uma vida.

Seu tom é displicente, o que só me irrita mais. Quem ela acha que é para falar da minha mãe desse jeito? E por que malditamente os seus pais não dizem nada? É a filha deles! Eles por acaso se importam? Sinto-me queimar intensamente, e solto o ar ruidosamente, largando o talher com estampido seco sobre o prato.

— Não fala da minha mãe! — Chio cheia de ódio em sua direção.

— Oh, e por que?  Não estamos aqui para nos conhecermos melhor? Pois então, acho que isso incluí sua mãe também, não é? Já que tenho certeza que você não conhece a tamanha estupidez dela. Você não sabe nem da metade do que ela era. E honestamente estou muito surpresa que você não tenha nascido com nenhuma sequela das merdas que ela tomava, mas acho que no final das contas as drogas realmente comeram o cérebro dela, não é? — Fitei-os por um momento, vendo que nada fariam quanto a sua filha, e em seguida, arrastei a cadeira com raiva, empunhando um dedo na sua direção.

Se ela queria me irritar, pois bem, conseguiu.

— Ah, cala a boca! Você não sabe de nada! 

E realmente pode não saber, o que me garante que essas pessoas estão contando a verdade? Mas o que garante que não? O que ganhariam mentindo sobre uma mulher morta? Absolutamente nada.

— Ah, não sei? Ou você que não sabe? — Sheron retrucou, levantando-se também. Sua voz reverbera lentamente, e sei que ela já está bêbada, conduto isso não impede que eu fique com raiva. Eu ranjo meus dentes com força, sentindo minhas mãos tremeram, eu não conheço minha mãe totalmente, nunca conheci e nunca vou conhecer, mas não vou permitir que ninguém fale dela dessa maneira. Mesmo que seja da sua própria família. — Sua mãe é muito diferente do que você conhece, Charlize não valia nada.

— Isso é sério? Você fode com o seu próprio cunhado e quer falar de valores? Qual o seu problema? — Repliquei rispidamente, vendo Kenneth me encarar rapidamente ofendido. Ah, agora eu pisei em um calo?

 — Olha o linguajar, garota. — Ele me repreendeu e Sheron riu, me encarando divertida.

— Quando a Charlize resolveu deixá-lo, ele ficou completamente solteiro, só para você saber.

— Só pra você saber, enquanto o casal não assina o divórcio, é bigamia, ou seja, adultério, o que quer dizer que ele não era solteiro. — De acordo com a lei, pelo menos. Afirmei, fitando-a friamente, algo dentro de mim queima genuinamente.

— Você se acha muito esperta, não é Hadley? Deixa-me te dizer uma coisa... — Sheron semicerrou os olhos, e cruzou os braços, à vista de cuspir mais pela boca, entanto a senhora Kimball a cortou, atrapalhando-a.

— Calma, não vamos exaltar os ânimos, estamos aqui para esclarecer as coisas. É normal temos dúvidas. Minha filha Charlize sempre foi muito instável, principalmente quando virou uma adolescente, ela sempre foi movida pelo perigo da situação, então não me surpreenderia se você realmente fosse filha de outro, porque como disse, ela não era confiável.

Eu bati minhas mãos incrédula sobre a mesa, com força. Meu Deus, o que há de errado com essas pessoas? Minha mãe não era assim, ela não faria isso, e Aaron tem provas, Aaron tem... Sim, ele tem, não é possível, não é? Isso... Isso é impossível! Tem que ser! Eles estão me deixando neurótica!

Eu respirei com força, juntando minhas forças para falar com a mesma sem gritar.

— Acredito eu senhora Kimball, que antes de me arrastar de Allentown, Aaron sabia exatamente quem eu era, e além disso, se Blade era tudo isso como a tia Sheron anunciou mais cedo, eu aposto que se ele tivesse dúvidas, teria pedido um exame de DNA antes mesmo de eu nascer. Não faz, e não faria sentido ele se obrigar a fazer uma coisa que ele não tinha certeza. Blade era impetuoso, e se tem uma coisa que eu sei com determinada certeza, é que ele jamais se casaria com minha mãe se eu não fosse filha dele.

Eles o conhecem melhor do que eu, a propósito, e o que sei sobre o meu pai afinal? Apenas o que Aaron disse, apenas a palavra de um homem, mas preciso desesperadamente amostrar o meu ponto, porque minha mãe está sendo acusada aqui, e não posso deixar isso acontecer. Eu posso estar errada, sei que posso, até porque, faria muito sentido Blade ser tão indiferente a mim; porque não é o meu pai, mas ainda acredito que sua babaquice ressoa ainda avidamente sobre o que sei sobre ele.

Consigo manter a calma para tentar explicar a senhora loira meu ponto de vista, entanto assim que as palavras saem de sua boca, percebo que foi uma perca de tempo.

— Parece justo, querida, mas Charlize não é a única pessoa que não é confiável na sua vida, porque Aaron Bieber também não é. — Estreitei os meus olhos, e ela sorriu. — Na realidade você se surpreenderia se descobrisse os podres que os Bieber guardam depois dos muros altos de sua mansão.

Ela deixa a questão no ar toda enigmática; deixando como se algo a ser pensando. Em seguida, ela ampliou o seu sorriso.

— Só queremos ter certeza ao que você pertence, Hadley, porque algumas pessoas, como você, não nasceram para essa vida, compreende? É simplesmente destino, não tem como mudar, porque as vezes você não se encaixa; e realmente não deve. É de fácil entendimento isso.

É, realmente é.

Abaixei o meu rosto, agora definitivamente me sentindo péssima. Deveria estar desde o começo preparada para eles serem horríveis, mas a verdade é que ainda tinha uma ponta de esperança que as coisas não fossem como pareciam, no entanto, tive uma surpresa, pois é bem pior.

— Mas você entende que estamos apenas sendo cuidadosos, não é? Não queremos que sofra mais por causa da sua mãe.

Eu acenei de volta, lentamente, agora curiosa.

— Claro, eu entendo. — Murmurei, subindo meu olhar para encontrá-los. — Podem ir em frente, peçam um outro teste de DNA para saciar suas dúvidas, eu não me importo.

— É claro que vamos fazer. — Sheron esbravejou, rolando os seus olhos. — Em uma clínica da nossa escolha, sem nenhuma interferência de Aaron.

Eu dou de ombros a isso. Por que ele interferia no meu exame de DNA? Qual seria o sentido disso? O que ele ganharia? Nada, eu acho. Não tem nenhum sentido isso. Pelo menos nenhum que eu saiba.

— Como desejar, afinal de contas o que vocês poderão fazer se o exame der positivo, não é? — Indaguei divertidamente, vendo as feições das pessoas a mesa se tornarem hostis.

— E se não der? O que acha que acontecerá a você? — Pisquei rapidamente para minha tia, rindo calmamente disso.

— Bem, na melhor das hipóteses, me livrarei de vocês, e dos Bieber, na pior, Aaron ficará comigo, já que ele parece bem disposto a me criar. — Dei de ombros, a observando olhar-me furiosamente, porém isso despistou rapidamente, e uma risada fria e seca ecoou de seus lábios.

— É, ele parece? E isso não soa nenhum pouco suspeito a você? — Venenosamente ela incita a dúvida.

Contudo nem faço menção de lhe questionar. À primeira vista me questionei a mesma coisa, mas as provas; a maior delas, a que Blade foi até mim, impediu qualquer suspeita, além disso, se Aaron fosse, seria uma decepção a menos a mim. Mas vi os exames, vi a carta da minha mãe, eu vi Blade vir até mim. Mas... Isso não prova nada, realmente nada... Noto agora que minha existência nesse lugar é pura especulação, a palavra de Aaron, de um homem, e possivelmente, de uma mulher. Uma mentira poderia ocasionar muitas coisas, e uma mentira pode ter me levado até aqui. Sua provocação foi acolhida com força. E me sinto no mar de dúvidas. Parabéns para mim, deixei ela me atingir com sucesso.

Passei a mão entre meus fios de cabelo, retirando a franja do rosto.

— Você sabe que agora que você disse parece? — Eu ri, nervosa. — Mas de todo modo, não me vejo perdendo nesse jogo.

Minha indiferença a irrita; e não sei o porquê. Ela quer que eu exploda com ela?

— Você realmente acha que está por cima? Blade pode nem ser seu pai e ainda se for, não dava a mínima para você, então acha que por algum motivo ele deixaria algo para você? A uma criança que ele nunca quis? — Dou de ombros, ainda rindo. De certa é divertido vê-la frustrada. Se eu não sou filha do Blade por que tudo isso? Por que não exigiram logo um exame de DNA antes de me verem? Ainda não entendo, o que querem? O que irão a ganhar? Eu longe daqui? Ele ao menos tem alguma responsabilidade sobre mim, então por que se importam? Acho que só estão tentando entrar na minha cabeça, e em certo nível já conseguiram.

— Vão em frente, peçam o exame, porque como eu disse, eu não me vejo perdendo nesse jogo.

— Se eu fosse você eu torceria para não ser filha do Blade, tampouco do Aaron. Nada deles virá bom disso, e pode postar que se ficar, as coisas não serão fáceis para você. Aaron Bieber não é um homem para se manter por perto, e os seus filhos, por mais encantadores à primeira vista que sejam, são problemáticos, instáveis, e autodestrutivos, e antes que perceba, estará se afogando no mar negro e furioso deles.

— Ah, obrigada, vou guardar isso. Então vamos, por favor, digam-me o que vocês irão ganhar com toda essa situação?

É uma curiosidade válida, e óbvia. O que querem?

Sheron abriu seus dentes brancos para mim, sorrindo.

— É simples, você é pedra no sapato, e dependendo do resultado, você pode vir a ser útil para nós, então só queremos ter certeza se vale a pena perder nosso tempo com você.  — Ela respondeu, me fazendo concordar. De que forma eu poderia ser útil? — Mas não fique estupefata, as chances são ruins para você.

Que seja.

— Porém independente disso, Hadley, lembre-se que você não devia estar aqui, não deveria nem ter voltado. Rosemary não é sua casa e definitivamente nem a mansão Bieber é. Os Bieber são uma ruína, e se envolver com eles te levará ao mesmo caminho. Pense bem, Hadley, sua vida não vale tão pouco assim.

Para vocês aparentemente vale.

As palavras dela é como um soco na boca do meu estômago, mas engulo, fortemente e ignoro.

Mas não preciso disso, então assenti, levantando-me.

Cansei-me dessa conversa.

— Eu vejo vocês no dia do exame.

Confirmei, tropeçando para fora em passos largos. Gravei o caminho de saída. Quando estou na porta, dou de cara com uma garota loira, a mesma da aula de educação sexual, a mesma do qual estava falando com Justin no corredor hoje. Eu puxei o ar, sentindo minha garganta fechar.

— Ei, você é a Hadley, não é? — A mesma me parou, ficando a minha frente. E tentei permanecer firme, a fim de não deixar a frustração me embalar em sua frente. Fiz um leve aceno de cabeça, confusa. — Eu sou Olivia.

A mesma apresentou-se, e eu franzi o cenho.

Do que isso importa?

— O que você está fazendo aqui? — Ela questionou, apontando para mim. A encarei dos à cabeça, a vendo em um vestido rosa esportista, como tivesse voltado de um clube de golfe, ela está com os cabelos loiros presos em um rabo de cabelo e sua feição é doce. Tento não fazer uma careta para ela, porque a mesma parece adorável.

— Por que quer saber? — Indaguei de volta, a vendo fazer um bico, confusa.

Ela ficou em silêncio por um tempo, me avaliando, até que finalmente disse:

— Essa é a casa dos meus avós. — Esclareceu, me fazendo assentir. Mordi minha boca com força, segurando as lágrimas que querem cair. Me sinto cansada.

— Oh, eu sinto muito. — Digo, passando rapidamente por ela. A única coisa que gravo antes de me desmanchar em lágrimas é o fato que Olivia é minha prima.

Chutei as pedras pelo caminho quando passei pelos portões de ferro dos Kimball, querendo me afastar o mais humanamente possível dessas pessoas. Eu não sei o que eles querem realmente, no entanto é óbvio que sou um problema para eles, um do qual eles claramente não querem lidar, e acho que isso responde todas as perguntas sobre o porquê de ninguém nunca ter nos encontrado, meu pai não estava procurando e a família da minha mãe obviamente não ligava para nós. Então no final das contas minha mãe estava certa, estávamos melhor sozinhas.

Encarei a tela do meu celular, sentindo respingos de água caírem sobre a minha cabeça, levantei a mesma e vi o céu nebuloso de Rosemary estralando de relâmpagos. Suspirei com raiva, caminhando em direção ao mar que ecoa em meus ouvidos, ainda não tive tempo de vir a uma praia, mas já havia a percebido no caminho da escola, quero visitá-la em algum momento, e pergunto-me porque ainda não fiz.

Observei o mar chicotear as ondas para areia, puxando e levando de volta para o fundo, enquanto o céu se ilumina de forma bruta. Balancei minha cabeça, vendo as mensagens no meu celular, apenas respondo que estou chegando, logo, viro-me para ir embora.

E não demorei muito para chegar à mansão Bieber e, assim que faço encontro Aaron no hall de entrada me esperando, ele me olhou preocupado e impaciente, notando minha feição.

— Hadley... O que aconteceu? — Ele perguntou, aproximando-se de mim. — Por que não esperou que eu fosse buscá-la?

Acenei em negativo a ele.

— Por que você faz isso? — Acusei, recuando. Aaron me encarou sem entender, dando um passo em minha direção.

— O que eu faço, Hadley? — Rio sem ânimo em sua direção.

— Isso. Por que me trouxe para sua casa? Por que está cuidado de mim? Quando claramente isso não era o que o meu pai queria? Isto é, se Blade for realmente meu pai. Você tem certeza, Aaron? Você conhecia minha mãe tão bem ao ponto de saber disso? Diga-me, por que realmente estou aqui?

Ele me olha com cuidado, como se estivesse escolhendo as palavras antes de sair da sua boca. Já havíamos conversado sobre isso parcialmente; é meu dever, ele disse, uma promessa a um homem morto, contudo eu não acredito mais nessas palavras, não depois da conversa com os Kimball. Tem tanta coisa que agora sei da minha mãe, tanta coisa que me faz ter dúvidas que fecha minha garganta. Eu seguro o ar, mordendo minha boca ao sentir minhas lágrimas embaçarem minha visão, meu peito aperta e a saudade da minha mãe me bate com tudo. Eu queria que ela tivesse me dado uma explicação antes de partir, queria que tivesse me dado uma enquanto estava viva e bem, eu só queria poder ter certeza de alguma coisa na minha vida. Tudo isso é frustrante e sufocador!

— Por que? — Pedi novamente, encarando meus sapatos encharcados pela chuva.

— Hadley... Blade é o seu pai. — E balançou a cabeça, parecendo inconformado. — E eu já te disse o motivo...

— É, você disse. Mas você é confiável por que? Meus pais claramente não são, e acho que mesmo morto Blade continua nos surpreendendo.

Aaron deu um aceno rápido e negativo.

— Eu nunca mentiria para você, e eu expliquei que só quero te ajudar. E sim, é verdade, Blade cometeu uma série de erros que eu ainda não compreendo, e que para mim que o conheço a vida inteira, é difícil de compreender, mas eu, eu quero e estou sendo completamente transparente com você sobre tudo.

— Como você quer que eu acredite nisso depois do que escutei? — Indaguei, e sua feição estrala de cautelosa para raivosa rapidamente.

— Pedi que não desse ouvidos aquela gente, Hadley. Os Kimball são as últimas pessoas no mundo que você deveria acreditar. — O mesmo disse seriamente, e meus ombros endurecem de imediato.

— Mas sabe que faz bastante sentindo. — Repliquei, jogando meus ombros. — Minha mãe não é nada do que imaginei que fosse, e meu pai... Bem, Blade já não é uma surpresa, agora você? — Fiz uma pausa, olhando-o. — Você é uma ignota. Não sei nada sobre você, tampouco sobre minha mãe, e, embora você tenha dito que está sendo transparente, não vejo isso. A minha relação com os meus pais é do seu ponto de vista, sua palavra, seu lado da história. Vê como isso soa?

Aaron balança a cabeça furiosamente, se remexendo através do hall.

— Não, eu não sei! E não importam o que tenham lhe dito, estão mentindo. Blade é o seu pai, e eu tenho absoluta certeza disso, assim como ele tinha. Hadley, você não precisa de muito para saber como Blade era, ele jamais faria algo sem ter uma certeza, e honestamente não precisou de um exame de DNA para confirmar que seria pai, a palavra da sua mãe bastou para isso.

Suas palavras cortantes deveriam bastar para me calarem, porém não o fez. As dúvidas ainda pairam sobre minha cabeça, e não me deixam.

— Eu não sei o que pensar, Aaron! O único motivo de eu ter ido até os Kimball é porque dependendo do resultado do DNA, eu posso ser útil para eles. Eles não se importam comigo, tampouco querem, só sou conveniente. E ainda tem o Blade! Ele não me queria, nunca quis, isso é um fato, então por que você se importa tanto?

Indaguei, contrariada, realmente não querendo acusá-lo disso. Ele não pode ser o meu pai, pode? Eu afasto esse pensamento da cabeça. Aaron não seria ruim a este ponto, seria? Eu quero e vou acreditar que não.

— Hadley — ele soltou um suspiro, puxando os fios castanhos entre os dedos nervosamente. — Eu não posso mudar o que o seu pai fez, nem o que o restante da sua família pensa, mas isso não importa, porque eu me preocupo com você. Você a única coisa que me sobrou do meu melhor amigo. Eu cresci com o Blade, fomos do jardim de infância, a escola, a faculdade, ao exército, e a empresa juntos. Era meu rival, meu irmão e meu amigo. Eu só não perdi um sócio ou colega de longa data, eu perdi um irmão. Blade era e sempre foi uma parte fundamental de mim que me colocava no chão, apesar do mesmo sempre estar em constante movimento. E é, eu fui ausente em muitas coisas na minha vida, Hadley, mas se tem algo que eu tenho certeza, é que eu não falhei com ele como um amigo, e também não vou falhar com você. Assim como ele fazia parte de mim, você também o faz. E não importa o que aconteça, você sempre terá a mim.

Eu recuo, e pisco rápida, incomodada. Não fazia pensando por esse lado, tem razão, Aaron me disse, ele cresceu junto com Blade quando seus pais morreram, eram inseparáveis, e nada mudou até o dia da sua morte. Ele perdeu um amigo e um irmão, e eu imagino como isso deve doer. Não entendo, porque só sinto que perdi uma chance, me sinto triste claro por um lado, porém por outro, é como meu pai fosse uma ideia muito vaga, existente, mas distante. Ele não é real, o seu sentimento de rejeição é. Não dói em nós da mesma forma, e me sinto mal por ele, contudo não consigo evitar.

— Eu tenho você? — Repliquei, o encarando ceticamente. — Certo. Agora eu tenho você, mas por que? Seja suficiente claro. Eu sou a única coisa que te lembra ao Blade, então por isso que quer me manter por perto? Por saudade?

— Não! — Ele se aproxima, desesperado para explicar. — Não me entenda errado, Hadley, eu sinto muita falta do meu melhor amigo, mas a além da amizade dele a única coisa que ele deixou para trás foi você. Pode não acreditar, mas ele te amava, e zelava por você.

— Não o suficiente! — Lati, irritada. Estou cansada demais disso. — Você não deveria ter se metido nisso, não precisava tentar me ajudar.  

— Eu quero fazer isso, e eu devo te ajudar! — Replicou rapidamente.

— Não, você não deve. Meu pai está morto, minha família não me quer, e claramente seus filhos me odeiam. Eu não precisava e não preciso passar por isso!

Ele em olhou exasperado.

— Eu realmente sinto muito, Hadley, mas eu não prometi que seria fácil.

— Eu não pedi nada a você, tá legal? — Trovejei, furiosamente. É, talvez eu esteja sendo absolutamente ingrata, mas estou acuada, e com raiva. — Você não precisava me trazer pra esse lugar, se quisesse me ajudar simplesmente me denunciasse para o estado, seria bem menos pior que estar aqui!

— Você... Você queria que eu te deixasse ir para a adoção? — Me encarou incrédulo, negando com a cabeça.

— Sim, na verdade eu preferia sim, porque desde o momento que pisei meus pés nesse lugar, eu me sinto completamente descolada, e tenho a impressão que essa sensação não vai passar.

— Hadley essa é sua casa... — Ele começou, entanto eu o cortei gesticulando negativamente.

— Não! Essa não é minha casa, não é minha família e eu nem queria estar aqui! E claramente ninguém quer também, então por que tenho que ficar?

— Eu sei que isso é complicado pra você, e que é totalmente diferente do que você está acostumada, mas você vai se adaptar isso, é só uma fase, eu prometo.

Meus olhos escurecem. Ele pode realmente me fazer uma promessa?

— Você promete?

Seu rosto se entristece, e ele dá mais um passo em minha direção, assentindo.

— Eu te dou a minha palavra, Hadley. E posso afirmar a você que isso vai passar, apenas mantenha a cabeça concentrada nos seus objetivos, e não ligue para nada ou ninguém que estiver ao seu redor. As pessoas querem ver a gravidade te puxando para baixo, e você não pode deixar isso acontecer.

É como a Morgan disse, as pessoas nessa cidade querem me ver para baixo. Elas me repudiam, ou me invejam   — mesmo que não veja nada aqui para invejar —, o fato é, eu as incomodo, e isso não poderia ser mais importante. Preciso impor minha presença, não posso fraquejar, não posso sucumbir a isso. Ele está certo.

Eu abaixo minha cabeça, apertando fortemente meus dedos contra os punhos, apesar da confiança das palavras, eu ainda não me sinto cem por cento segura.

— Eu quero um novo exame de DNA, e também quero resolver o mais rápido possível a leitura do testamento. Quanto mais depressa isso acontecer, menos eu vou pensar sobre isso. — Digo, mentalmente exausta dessa merda. Senhor Bieber balança a cabeça lentamente em concordância.

— Como você quiser. — Confirmou, assim que passei por ele para ir até as escadas. — Hadley? — Ele chamou, assim que estou no primeiro degrau dela. Levei minha atenção até ele, o encarando de lado.

— Mmm?

— Lembra-se que uma família vem de todas as formas, e não só de sangue. Família é aquela que te faz sentir segura. — Balanço minha cabeça em sua direção, mas não concordo com o que ele disse. Os Bieber me fazem sentir medo a cada esquina e não é à toa que são conhecidos por serem autodestrutivos. Eles não me fazem sentir segura, tampouco Aaron, mas não será eu que direi isso a ele, então apenas dou as costas, indo para o meu quarto rapidamente.

Tomei um banho quente, tentando reorganizar minhas ideias, mas foi meio difícil saber o que estava acontecendo quando eu chorava junto com o chuveiro. Eu preciso me acalmar, tento convencer minha cabeça assim que me jogo na minha cama após o banho, porém meus olhos tendem a desviar sempre para meu closet, aonde estava escondido os dez mil dólares que eu havia ganhado. Por que eu simplesmente não caio fora? Simples, porque não tem nada para mim lá fora. Por que se eu ir, o que farei? Voltarei a fazer stripper? Viver em uma quitinete minúscula com um colchão no chão sem uma televisão porque não tenho grana suficiente para comprar? É isso? A merda da minha infeliz vida? Não, não é o que eu quero, não é o que eu preciso, não é o que posso ter. Agora, aqui, posso ter o mundo nos meus pés, posso fazer uma escola legal, ir para uma faculdade boa e ter um futuro que não envolva tirar roupa para velhos nojentos, eu mereço ter uma vida boa, independente de todos que estão ao meu redor digam.

Mas agora sei, ainda sobre um fiasco de dúvida, que tudo isso pode esvaziar-se rapidamente, como um balão. Sempre estou em uma linha tênue e odeio completamente isso.

Preciso respirar, pensar com clareza, me organizar, fixar em algo, preciso. E é com isso em mente que jogo os meus livros da escola sobre a cama, ignorando completamente qualquer coisa que estivesse ao meu redor e na minha cabeça além dos livros. Era um fato, preciso me concentrar totalmente em algo, se não vou enlouquecer.

Decididamente não vou voltar tão cedo para casa amanhã.


Notas Finais


bora q bora


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