História Blauwe Minsken - Autoestrada Da Morte - Capítulo 2


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Notas do Autor


Olá!
Agradeço aos favoritos e comentário, espero que estejam gostando, inicialmente pode parecer parado, mas garanto que haverá mais mudanças ao decorrer dos capítulos!
<3

Capítulo 2 - Águas Turvas


Fanfic / Fanfiction Blauwe Minsken - Autoestrada Da Morte - Capítulo 2 - Águas Turvas


"Lar no Vale
Lar na Cidade
O lar não é bonito.
Não é nenhum lar para mim
Lar na escuridão
Lar na estrada
O lar não é minha maneira
O lar nunca será."

- Blue Öyster Cult

 

Havia apenas o borbulhar de água em meus ouvidos.

A sensação de peso transformava os segundos mais lentos do que pareciam ser. Meus pulmões já estavam no seu limite natural, entretanto minha mente queria apenas continuar registrando aquele som abafado e molhado que tomava os meus ouvidos. Meus olhos permaneciam fechados, a escuridão me privava do desespero que eu vinha guardando aquela semana toda.

Mas, ainda sim eu precisava voltar.

Ar.

- Parabéns Anne, ficou três minutos e seis segundos! - A sensação de voltar novamente para a superfície e respirar foi dolorosa momentaneamente enquanto a voz conhecida e divertida ecoava em meus ouvidos um pouco tampados. Respirei um pouco mais fundo algumas vezes antes de responder.

- Você deveria tentar fazer algum exercício é bom Marjorie. – Respondi meio rouca.

- Não é comigo sabe. – Ela balançou a cabeça exasperada como era de costume ao tocarmos no assunto água. Nadei para a beira da piscina lentamente onde ela estava sentada de pernas cruzadas com seu cronometro vermelho novo em folha, comprado por ela exclusivamente para marcar meu tempo dentro da água. Na sua cabeça cheia de excentricidades ela estava fazendo o papel de minha treinadora, sendo que aquilo era apenas uma curiosidade que tinha em minhas incursões na piscina. Saber quanto tempo eu durava até precisar de ar.

- Eu sei que você tem trauma. Mas, deveria dar uma chance algum dia, quem sabe perde essa fobia? – Sugeri.

Ela suspirou.

- O máximo que ainda chego é aqui na beira. Não quero passar do meu limite. Admiro você, mas água em abundância para mim não rola. – Estremeceu.

- Acho que entendo. – Sorri.

- E vamos saindo, por que daqui a pouco tem a aula extra. – Retrucou como se pudesse sair dali correndo como um maratonista.

- Que horas são? – Perguntei me apoiando na escada para subir. Meu corpo estava incrivelmente pesado.

- Duas e quarenta e cinco. Daqui há vinte minutos começa. – Ela sacudiu a cabeça em reprovação o que fez seu rabo de cavalo ruivo escuro balançar em ondas.

- Está preparada para isso? – Indaguei revirando os olhos ao imaginar o que teríamos aquela tarde.

- Eu nem quero imaginar. – Riu ao me ver suspirar em desgosto.

- Vou só vou tomar uma ducha rápida e volto já.

- Te espero lá fora. – Ela se levantou num pulo e saiu quase correndo como eu esperava.

Andei até o vestiário de toalha nos ombros e passando por ele fui para o banheiro que sempre cheirava irritantemente a cera de pinho. Me despi do maiô rapidamente, retirei a touca e deixei em cima da bancada larga e longa da pia. Entrei em uma das cabines e abri o chuveiro deixando a água lavar todo o excesso de cloro que ficara em meu cabelo depois de quase duas horas na piscina. Minhas mãos estavam mais do que enrugadas, era bem complicado tentar achar minhas digitais apesar de saber que não sumiriam tão fácil daquele modo.

Era normal para mim gostar de passar mais tempo dentro da água entretida em meus pensamentos, era mais fácil em teoria. Não precisava pensar muito sobre minha vida ou a que rumos ela tomou sem que eu me desse conta, era necessário apenas fechar os olhos e manter o ar em meus pulmões, apesar de que muitas vezes eu ainda cedia a cair em linhas de raciocínio não muito atrativas. Meu cérebro adorava me chatear.

 Não demorei muito no chuveiro fechando-o quando já achava que meu cabelo estava hipoteticamente livre de grande parte do cloro. Peguei o maiô e a touca em cima da pia e levei para o vestiário a fim de colocar em uma sacola plástica verde escura que eu sempre deixava previamente guardada ali no meu armário. Eu não fazia parte de nenhuma equipe de nado competitivo, sincronizado ou o que quer que fosse que estivesse em voga. Mas o treinador era um cara muito compreensivo, e havia me deixado ficar com um dos armários para quando eu estivesse com vontade de nadar.

Vesti minha roupa intima minha calça jeans preta puída com suas pequenas correntes dos lados, meu suéter caramelo recentemente comprado em uma das liquidações da estação e peguei minha jaqueta de couro. Calcei minhas botas e joguei a mochila nas costas depois de guardar a roupa molhada sentindo o peso fazer minha coluna reclamar momentaneamente. Penteei o cabelo às pressas e guardei a escova.

Armário trancado, era hora de enfrentar outra aula horrível.

Corri pelo ginásio até sair porta a fora, tentando não tombar a qualquer momento de cansaço em algum canto do chão.

- Psiu! – Marjorie chamou do outro lado do gramado onde já estava com Zack e Taylor com seus devidos livros nos braços.

Zack era um nerd descolado, adorava livros, games, quadrinhos, mas seu estilo mais despojado e o cabelo ruivo em um desalinho proposital, o fazia parecer aqueles típicos alunos populares de filmes de colegial. Taylor era o aluno popular literalmente. Fazia parte do time basquete, e era o que conhecia metade da faculdade, incluindo as garotas que brotavam sabe-se lá de onde para admirar seu corpo sarado e seus olhos azuis combinando com o cabelo loiro nos ombros. Marjorie era ruiva de farmácia, sempre de preto, o que a fazia ficar mais alta do que era realmente. Tinha olhos castanhos escuros e suas sobrancelhas faziam um arco interessante que a dava um olhar mais misterioso. Aquele era meu grupo, diferente em partes, mas que sempre estavam ali se eu precisasse, só faltava uma pessoa ali.

Caminhei até eles estranhando o fato de que Suzana ainda não havia chegado. Ela detestava atrasos.

- Oi gente. – Falei fungando levemente.

- Olá princesa Ariel. – Cutucou Zack rindo. Era um apelido cujo sentido só era dado teoricamente ao fato de que eu nadava. Podia ser ruiva, mas nem tinha olhos azuis.

- Oi, primo sereio. – Debochei.

- Vocês dois, não sei não. – Taylor riu. – E aí Anne, pronta para a maratona de nada a ver com nada haver da senhorita Hudson?

- Olha, se ela bobear eu tô dormindo. – Disse me sentindo levemente cansada. Estavam sendo dias difíceis para mim conseguir descansar em casa. Tudo parecia ir piorando cada dia que passava.

- Você não anda dormindo direito Anne, está acontecendo algo? – Marjorie perguntou parando para me observar direito.

- É, até a Su comentou. Ela está preocupada por que você está emagrecendo mais do que devia. – Zack retrucou.

- Estou tendo problemas para dormir. Não é bem insônia, são aqueles pesadelos chatos. – Suspirei. Estava sendo evasiva e torcia para que não notassem.

- Gente! A aula vai começar!

Suzana gritou ao longe me poupando de ter de explicar meu problema.

Ainda bem.

Ela estava parada a uns quinze metros de onde estávamos. Seus cabelos naturalmente loiros longos esvoaçavam no vento. Ela era mais baixa que eu, e tinha profundos olhos verdes. Hoje estava com sua jaquetinha de couro rosa combinando com seu vestido branco de um tamanho reprovável até para as que costumavam usar roupas minimalistas. Uma típica patricinha, apesar de odiar ser comparada com uma.

 

 

- Acredito que vocês devam ter começado a procurar um assunto relacionado a formação histórica e cultural de Gatehill. – A senhora Hudson caminhava como um general de guerra por entre as carteiras fazendo ruídos terríveis com suas sandálias de plataforma pelo piso. Era irritante, todavia era difícil dizer se poderia competir com a sua voz anasalada e um tanto quanto aguda em alguns momentos. – Não quero desculpas ou trabalhos mal feitos, pois terão três meses para organizar tudo em seu devido lugar. Devem utilizar livros e artigos acadêmicos disponíveis como fonte de apoio. Quero grupos de cinco pessoas, nem uma a menos ou a mais. A lista está passando, portanto só irão sair quando preencherem.

Eu já sabia qual seria meu grupo sem mesmo olhar para os integrantes. Suzana escrevia rapidamente nossos nomes na folha de papel amarela timbrada com o brasão da escola. Todos os trabalhos desde que eu havia começado a faculdade tinham sido com eles, e logo não havia grupo melhor para nossas ideias.

Ela entregou a folha para a equipe da frente e se virou.

- E aí pessoal, vamos fazer sobre o que?

- Cara, talvez sobre o início das seitas esquisitas que até hoje apavoram o povo, mas que no fim não tem nada demais. – Falou Taylor fazendo caretas com seu tom usual de zoação. Ele era o tipo cético, não acreditava em nada da qual não pudesse ver e tocar de fato.

- Não, claro que não. Esse assunto já foi muito debatido e nunca se chega a consenso nenhum. – Marjorie meneou negativamente de forma sarcástica. – Por que não fazemos algo sobre o folclore? O Zack achou um livro legal sobre isso recentemente.

Ele remexeu a mochila rapidamente e tirou de lá um grande e grosso tomo de capa dura.

- Achei esse livro nas bugigangas antigas do meu avô. Está um pouco desgastado externamente, mas o conteúdo ainda é legível pelo menos.

Ele me repassou o livro enquanto guardava seus cadernos e livros de volta. A capa em si não tinha mais nada para ser visto, salvo uma ou outra marca de tinta dourada quase apagada completamente por todo os anos e quem sabe quantas mãos passaram por ela. Eu adorava livros antigos. Abri com cuidado e logo na primeira página com letras um pouco apagadas estava o título e o subtítulo:

“Guia folclórico: As origens e mitos do surgimento de Gatehill. Vol. 1”

         - É seguro usar ele? – Perguntou Suzana franzindo a testa.

         - Eu acho que sim, andei pesquisando na internet e existem três volumes dessa enciclopédia. O primeiro está conosco. O segundo tem na biblioteca, mas por enquanto segue no sistema como emprestado. O terceiro não encontrei em lugar algum. Vamos ter que nos virar com esse mesmo. – Respondeu Marjorie.

         - Quer dizer que vamos falar sobre lendazinhas bizarras? – Taylor pareceu um pouco espantado apesar de saber que todo o grupo apreciava histórias e lenda que remetessem finais pavorosos ou suas origens misteriosas. Ele sempre fora avesso a isso.

         - Qual o problema, Tay? – Perguntei ainda com o livro aberto.

         Houve uma pequena pausa enquanto ele tentava pesar suas próprias palavras. Hábito adquirido desde que nos conhecera.

         - Isso é histórias da carochinha para quem não tem o que fazer, Anne. Vão perder mesmo tempo com isso? – Ele disse exasperado.

         - Sim, eu apoio a nossa pesquisa ser baseada nisso. Pode ser interessante. – Suzana posicionou-se olhando para Taylor de forma séria. – E você deveria parar de refutar tudo com base apenas no que você acha. Ninguém tem culpa de você ser um cético convicto.

         - Ok. Então está bem, mas eu não vou ficar na parte de positivar a pesquisa. – Retrucou um tanto mal-humorado.

         - Que seja, apenas participe de alguma forma. – Falou Zack um pouco amolado.

         - Posso ficar com o livro para dar uma olhada? – Perguntei ao grupo.

         - Claro, sem problemas. – Respondeu Zack sorrindo para mim. – Se você puder também achar outras fontes de pesquisas boas já que você é uma rata de bibliotecas físicas e online ficaríamos agradecidos.

         - Hey, minhas pesquisas na net também são ótimas! – Rebateu Marjorie rindo.

         Juntei minhas coisas rapidamente ao ouvir a sirene estridente e joguei dentro da mochila acomodando-as da maneira que podia. E segurando o livro contra o peito com todo o cuidado do mundo com medo de que se desfizesse, me despedi deles e corri para o estacionamento. Os corredores ainda estavam vazios, o que era ainda melhor. Nada pior do que tentar sair rápido com toda uma multidão de estudantes rindo e se esbarrando no caminho.

         Já era fim de tarde praticamente e o pôr-do-sol adiantava-se no céu lançando seus raios alaranjados por todo lugar criando nuances que variavam em tons mais claros até os mais escuros. A brisa estava fresca e trazia um cheiro de terra fofa molhada enquanto eu caminhava por entre os carros a procura do meu. Aquilo era de fato estranho, talvez único em meses e meses de frio, chuva e nuvens cinzentas rodeando o céu. Ver o pôr do sol era algo terrivelmente bonito, mas deslocado naquela cidade onde o cinza predominava de forma funesta.

Voltei-me para o meu caminho tomando cuidado para não trombar nos carros, como parecia ser meu feitio graças a minha falta de atenção enquanto me deixava levar pelos meus pensamentos. Aquele estacionamento ficava abarrotado quase sempre, e se eu não prestasse bem atenção me confundiria fácil já que meu carro apesar de antigo não era o único do modelo por ali. Achei-o no meio de um BMW i3 e um Audi A3 Sedan saído recentemente da concessionária.

         Riquinhos esnobes.

         Meu Impala 65 podia não ser o mais novo, por que não era; nem o mais bem cuidado, já que ficara abandonado na garagem do meu pai até eu ter que tirar dinheiro do meu já mísero fundo universitário para manda-lo para a oficina e ressuscitá-lo do mundo dos carros mortos, mas, pelo menos rodava bem, rápido. Era estiloso. Até certo ponto.

         Abri a porta e joguei a mochila no banco de trás. Parando por apenas alguns segundos para arrumar o cabelo que teimava em se emaranhar quando tive a sensação estranha de estar sendo observada. Aquilo vinha me acontecendo com certa frequência apesar de saber o que se tratava.

         Olhei para trás apenas para confirmar minhas suspeitas.

         O mesmo homem encapuzado que havia visto há um mês atrás estava do outro lado do estacionamento encostado em um grande abeto. Não se mexia, nem fazia menção de movimento algum, apenas a capa movimentava-se com o vento tremulando como uma espécie de bandeira negra. Engoli em seco e entrei no carro trancando a porta num baque. Liguei o carro e tentando manter meu coração calmo manobrei até conseguir sair dali e da presença daquela pessoa estranha.

         Virei em várias ruas alternativas até chegar na avenida principal que me levaria para casa sem prestar atenção de fato na velocidade. Ainda estava um pouco apreensiva e me perguntava o tempo inteiro quem era aquele homem e o porquê de estar sempre ali no terreno da faculdade observando. Ou melhor me observando. Já fazia algum tempo que vinha notando a sua presença nos finais de aula, ou quando tinha que ficar até depois do escurecer por questões acadêmicas, sempre no mesmo lugar, sempre com a mesma capa e o capuz que não revelava rosto algum.

O que ainda não fazia sentido.

Não o conhecia, provavelmente ninguém o conhecia ou havia visto. Apenas eu, e isso me levava aquelas velhas e conhecidas ideias sobre psicopatas e serial killer vendidas a torto e a direito em livros e até mesmo nos jornais mais sensacionalistas da cidade. Talvez fosse, talvez não. Era melhor do que imaginar que eu estava ficando louca vendo vultos fantasmagóricos ainda as luzes do dia.

         Cheguei em menos de vinte minutos à frente da casa de dois andares cor verde claro desbotada pelas chuvas e os ventos. A viatura do meu pai já estava na garagem e havia marcas de frenagem recentes na rampa sinalizando que seu humor não estava lá muito interessante. Estacionei o carro fora do caminho que ele tomaria com a radiopatrulha para sair dali horas mais tarde. O bom de se ter um pai que era delegado da cidade, era poder ficar só em casa a maior parte do tempo. Não que eu planejasse uma festa, ou algo do tipo como a maioria dos jovens fazia até se tornar caso de policia pela música alta na madrugada. Mas porque eu preferia ficar só a tê-lo como companhia.

Agarrei o livro e sai arrastando a mochila pelo pequeno jardim ladeado de pequenas lajotas cor de areia, cujas plantas sempre davam um jeito de acabarem morrendo mesmo sendo regadas e cuidadas periodicamente de acordo com suas necessidades.

         Ele estava no meio de várias latas vazias de cerveja no sofá assistindo um dos jogos de beisebol da temporada. Não me dei ao trabalho de falar com ele, já que por sua vez ele ignorava qualquer coisa que eu falasse enquanto o jogo estivesse rolando. Era como se estivesse hipnotizado ou na melhor das hipóteses, não queria de fato falar comigo. Subi as escadas rapidamente e fui para o meu quarto no final do corredor que me gerava alguns calafrios desde quando chegara ali. Deixei a mochila na poltrona perto da porta e coloquei o livro em cima da cama com cuidado. Tomei um banho com mais calma lavando o cabelo direito para limpá-lo de verdade apesar da ansiedade. Queria saber do que realmente tratava aquele tomo já que eu ainda era uma novata naquela cidade e mal sabia para onde ia à história. Porém, logo após o banho percebi duas coisas estranhas.

         Uma era que havia uma água escura e mau cheirosa acumulada na pia da qual eu não sabia de onde tinha vindo, pois a pia estava limpa pela manhã quando escovara os dentes. Tentei arrumar, fazer a água fluir de volta para os canos, mas nada feito. Ela continuava ali, fedendo de forma horrível, o que me obrigou a borrifar uma dose generosa de aromatizante de lavanda no ar.

         A outra, era que o crucifixo de madeira que tinha ganhado da minha avó que era super cristã quando criança e que vivia acima da minha porta como lembrança estava de cabeça para baixo como se alguém estivesse tentando retira-lo da parede. Recoloquei-o no lugar subindo em um banquinho que vivia jogado pelo meu quarto virando-o um pouco espantada. Talvez tivesse sido vibrações nas paredes ou alguma brincadeira sem graça do meu pai. Ou não. Tirei o pensamento ruim de ser outro tipo de coisa relacionada aos meus pesadelos da cabeça, julgando estar pensando besteira mais do que devia e fui procurar uma roupa. Não queria crer tanto que aquilo fosse obra de algo inexplicável. Vesti uma calça de moletom e uma regata, ambos cinza. Retirei quase toda a água do cabelo e desci para preparar algo para comer. Estava me sentindo faminta de certa forma.

         Havia umas duas ou três caixas de pizza vazias em cima do balcão, e mais latas de cerveja. Joguei tudo dentro da lixeira do lado da pia resmungando mentalmente sobre meu pai apenas fazer bagunça e nunca limpar, e retirei da geladeira algumas maçãs e todos os ingredientes para fazer panquecas. Cortei as maçãs em pedacinhos pequenos sem muita pressa, preparando a massa em seguida. Já estava quase no fim da quarta panqueca quando meu pai apareceu na soleira da porta, cambaleando e reclamando mais do que rezingava sóbrio.

         - Aqueles inúteis vão me... pagar... Sempre ficam com o melhor caso e eu que fique aqui a ver navios...

         - Pai você bebeu demais. – Afirmei desligando o fogo.

         - Mas é verdade.... Eles sempre têm que se intrometer, aquele bando de demônios... Sugadores de sangue... medíocres!

         - Do que você está falando? – Perguntei estranhando o seu comportamento, colocando mel nas minhas panquecas e pronta para dar o fora dali antes que ele pirasse. O que era bem comum.

         - A área de investigações dos..., mas não posso falar nada, ou eles me matam. – Ele se aproximou de mim e apertou meus braços com força demais. – Não diga nada, ou eles nos matam. Nos matam!

         Me soltei dele de forma abrupta e peguei meu prato quase correndo da cozinha. Ultimamente ele andara bebendo demais e reclamando demais sobre pessoas na delegacia que tomavam seus casos e o deixava sem saber o que andara acontecendo, o que era estranho já que por ele ser delegado deveria ser informado de tudo. Era notável que podia ser apenas uma pequena rixa, levada a sério demais. Enquanto eu subia as escadas ele gritou da cozinha.

         - Não esqueça disso... têm coisas piores lá fora!

         Estremeci com a sua última frase, mas procurei ignorar. Já tinha muita coisa para me preocupar do que ficar ligando para coisas que uma pessoa bêbada dizia.

         Fechei a porta do meu quarto e coloquei o prato em cima da cama. Puxei o livro para perto e peguei o bloquinho azul claro com a caneta do criado mudo. Tirei as primeiras páginas com palavras ou coisas que escrevia após acordar de meus sonhos nada convencionais e guardei na gaveta. Comi lentamente enquanto folheava o livro.

“A história nativa de Gatehill se diferencia pelos seus vários pontos de conexão mitológicos entre diversos povos da região e mitos presentes em outros lugares. Acredita-se que no início entre o povo Lydon Nuäc, povo originário com toda a sua cultura politeísta e exogâmica, surgiram pessoas que teriam dons estranhos advindos da mistura com um povo que surgia perto da cadeia de montanhas Nasriebet, hoje mais conhecida como Ruthan.

Os Blauwe minsken, o chamado povo azul, tinha em sua cultura os rituais de sangue, que consistiam em tomar o sangue de alguém como fluído-essência para vida. Acreditava-se que ao fazer isso em determinados períodos de tempo e com certa frequência, aumentaria a suas chances de conseguir a imortalidade.

Dessa mistura de povos e culturas, formou-se o que nós conhecemos atualmente como a crença no vérszívó, o sugador de sangue. ”

         - Vérszívó... Isso me parece algo como um vampiro... – Retruquei comigo mesma, dando uma boa garfada nas panquecas e anotando minhas impressões no bloquinho. Era só o que me faltava, sugadores de sangue nativos.

“ Na união de famílias entre esses dois povos, afirmava-se que entre os herdeiros, principalmente o primogênito, a partir da idade de oito anos já se poderia saber se teria os dons observando seus dentes e como se comportava com as outras pessoas de sua tribo. Classificavam os sinais de acordo com sua intensidade, e até hoje nunca se sabe corretamente como era o processo de identificação desses possíveis dons. Mas pela tradição oral ainda muito conhecida e repassada pelos mais antigos, sabemos distinguir alguns dos tipos de ‘poderes’ atribuídos a mistura dos dois povos. Entre eles estão:

Lêzers: Os chamados leitores. Eram responsáveis em saber o futuro das pessoas que pertenciam a tribo ou família.

Liammit: As chamadas mulheres do povo. Tinham o dom de apaziguar os ânimos ou ressuscitar contendas.

Beorndun: Os chamados letais. Pessoas que conseguiam movimentar coisas apenas com a força do pensamento. Geralmente eram conhecidos por terem marcas intrincadas espalhadas pelo braço esquerdo que criavam padrões diferentes e únicos para cada possuidor. Levavam esse nome em honra ao deus Beornd, o deus do fogo infernal.

Tartiänun: Os implacáveis. Pessoas nessa categoria eram consideradas perigosas, por terem força e rapidez inumanas. Eram capazes de invocar os espíritos da natureza em prol de suas causas, podendo gerar bens ou discórdias. ”

         Que bizarro. E eu achava outras culturas mais conhecidas bizarras, sendo que a cidade em que meus pais nasceram tinha toda uma história totalmente intrigante e cheia de pontos bem esquisitos advindos dos indígenas ancestrais. Não que eu duvidasse, tendo em vista o clima estranho e frio, mas sempre havia algo que piorava aquilo.

         Coloquei o prato em cima do criado mudo e levantei para pegar meu velho notebook em cima da minha escrivaninha. Ele já devia ter pelo menos cinco anos de uso desde que eu o comprara juntando a minha parca mesada, e apesar de lento, servia ao meu próposito. Sentei na cama e apoiando-o em cima das pernas, liguei ele. Fez alguns estalos totalmente comuns, e a tela inicial apareceu. Fui no navegador e joguei todas aquelas palavras do livro para ver se achava algo relacionado.

         Havia uma série de sites, mas suas informações eram rasas demais, nada que tivesse relevância. Porém, rolando página abaixo apareceram outros livros indicados para quem havia lido aquele livro que estava do meu lado. Salvei os nomes e autores respectivos em um arquivo de nota, e tornei a digitar várias e várias vezes as palavras chaves, alternando-as ou fazendo combinações que pareciam ter algum sentido, entretanto sem sucesso de resultados.

         Continuei tentando, mas inutilmente, olhei para o relógio na barra de ferramentas e constatei que nessa brincadeira já haviam se passado mais de duas horas, entre procurar palavras chaves diferentes ver resultados e procurar sites relevantes para aquilo. Já passava das dez da noite, e eu ainda estava ali empacada.

         Bufei.

         Daquela forma eu não iria ter boas fontes para entregar ao pessoal no outro dia. Mas também não poderia fazer nada além disso por enquanto, a menos que eu conseguisse fazer uma mágica onde tudo aparecesse rapidamente na minha frente. O que era impossível.

         Desliguei o note esperando que ele respondesse e desligasse e devolvi-o para o seu devido lugar.

         Deitei na cama e fiquei pensando em como seria realmente aquele povo, como seria de fato seus verdadeiros costumes e de onde teria surgido tudo, desde seus mitos até suas relações com outros povos indígenas que ali viveram na mesma época apesar de pouco estudados. Relaxei deixando minha mente vagar por lugares inóspitos nas montanhas, onde pessoas mais velhas contavam como era na época de seus antepassados.

         E nisso, apaguei.


Notas Finais


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