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História Blinding Lights - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Controle


Lux

Eu possuía um pequeno problema em avaliar de maneira rápida tudo o que acontecia ao meu redor; não sei exatamente quando começou, então pode-se dizer que sempre me senti um pouco perdida, tentando processar coisas que para outras pessoas são normais. Então, enquanto Garen falava entre palavras obviamente contidas para não gerar um aglomerado de pessoas, eu me sentia pesada, olhando para algo além de tudo o que estava ao meu alcance, mesmo sem saber o que era.

– Diretora Yuumi, eu disse que precisava de mais tempo! – ele sussurrou de maneira intensa, contendo sua crescente raiva.

– Garen, tempo é algo que no momento não dispomos. Sabe que quanto mais rápida a situação for contida, as chances de autoridades governamentais se envolverem são menores. – a pequena gata respondeu firmemente.

– Ela é minha irmã! – ele disse olhando para mim. Eu estava sentada no chão, ao lado da porta do banheiro, olhando para o horizonte que em breve sumiria.

– Imagine então se fosse alguém que você não gostasse. Quer dizer, olha isso, a garota teve que lidar sozinha com toda essa merda. – as voz grossa de Sylas ressoou em um único comentário, este que foi suficiente para meu irmão cerrar os punhos. Percebi que ele usava todas as suas forças para se controlar e agir como o sujeito educado e gentil que ensinaram nós, Crownguards, a sermos.

Esta foi a deixa para meu pai, que provavelmente ouvia toda a conversa, entrar e fechar a porta rapidamente.

– Diretora Yuumi, eu acho que por um dia está bom. Luxanna precisa descansar, é muito para processar de uma única vez. – Jude disse, e então percebi que ele sabia de tudo. Do paradeiro verdadeiro de Garen e a real intenção daquelas pessoas, por mais que eu não soubesse ao certo qual era. – Garen, por favor, volte para casa, eu fico esta noite com ela.

Garen me olhou e sussurrou uma despedida não correspondida. O sujeito de terno, aparentemente chamado Graves, abriu a porta e olhou para Yuumi, que em um pulo certeiro, acomodou-se nas mãos dele, agora reproduzindo miados como qualquer outro felino. Levantando-se da cama e bocejando, Sylas me olhou, e então, com todo o cuidado do mundo para não tocar em mim, ajoelhou-se a minha frente, mantendo uma distância segura.

– Só aguenta. Uma hora passa. – ele disse, e então, seguiu seu caminho.

Aos poucos, enquanto tudo normalizava-se nas medidas do possível, pude refletir sobre minha situação atual e a de todos ao meu redor. Havia muitas coisas que eu não sabia e era notório que nem todas as respostas seriam agradáveis, mas o primeiro passo era saber, mesmo que para isso eu precisasse sair de minha zona de conforto. Então, quando meu pai apareceu com uma bandeja que indicava o jantar, percebi que ele já sabia minhas intenções ao me olhar e suspirar pesadamente.

– Primeiro coma. – ele pediu.

– Que tal eu comer e você começar? – sugeri, e isso parece tê-lo agradado. Então, ele sentou-se.

Jude Crownguard era um homem de poucas palavras que se apaixonou por Layla, uma mulher de cabelos mais dourados e brilhantes que o meu. Ela morreu quando eu tinha quatro anos, então tudo o que tenho são memórias cada vez mais distantes e fotografias; três, precisamente. Segundo ele, enquanto ela dormia, sua pele brilhava.

Garen sempre foi mais forte que as outras pessoas em suas fases de crescimento. Dois anos mais velho que eu, sempre demonstrou talento nato para todas as situações possíveis, variando entre etiqueta e esportes brutais. E assim, aos poucos me senti desmotivada em tentar acompanhá-lo, criando barreiras naturais para evitá-lo.

Eu sempre soube que ele escondia coisas de mim, segredos no mais puro íntimo. Mas oito meses atrás, quando ele jogou, acidentalmente, um adversário em um torneio escolar a oito metros de altura, tudo o que já não estava nas melhores situações apenas piorou. Perdemos o contato em nossa própria casa, e por mais que eu tentasse consolá-lo, percebi que eu não era a única que havia criado muros e construções para me proteger.

Algum tempo depois, em um dia chuvoso, meu irmão simplesmente arrumou seus pertences em uma pequena mala e foi embora. Segundo meu pai, ele havia encontrado um colégio interno, este rigoroso e disciplinar, para meu irmão concluir seus estudos com segurança. Garen limitou seu contato e presença, perdendo aos poucos amigos e colegas. Várias vezes, ao longo dos primeiros meses, tentei ligar para seu celular, sem qualquer sucesso, porém, todas as notícias limitadas e incertas que consegui dele foram transmitidas por meu pai.

Então, em uma noite, aconteceu. Acumulando sensações negativas e um crescente ódio por como as coisas haviam se desenrolado, eu apenas... brilhei. As batidas desesperadas e incessantes de meu pai na porta de meu quarto me fizeram perceber o calor crescente do local, e quando me desesperei, a luz virou fogo. E assim, surtos luminosos seguidos de móveis queimados me fizeram perceber que seja lá que o que eu tivesse dentro de mim, crescia cada vez mais. Não sabia a quem recorrer, então, liguei para Garen uma, duas, centenas de vezes, mas nunca fui atendida.

O único que sabia da situação era meu pai, que me aconselhou a manter segredo. “As pessoas não entenderiam suas complexidades, Luxanna”, era uma de suas falas, e agora percebo que realmente ele estava certo. Um pouco tarde, talvez.

Então, enquanto ele me contava sobre a Academia Durandal, o lugar que havia acolhido Garen justamente por suas complexidades, não sabia ao certo se sentia-me aliviada por saber que pessoas cuidavam de meu irmão, ou traída, pois talvez nada tivesse ocorrido da maneira que ocorreu se eu obtivesse respostas sobre tudo o que acontecia ao meu redor.

– Sim, eu percebo o quanto fui egoísta. – ele falou sem olhar em meus olhos. Coloquei a tigela de sopa fria e sem gosto pela metade de volta na bandeja. – Eu não sabia como agir e o que fazer, quero dizer... meus dois filhos possuem superpoderes! – ele sorriu.

– No momento me sinto a vilã da história. – falei.

– Acho que em algum momento da vida todos nos sentimos. É mais sobre o que fazer com essa sensação. – Jude respondeu, e então, o olhei. Sua feição extremamente parecida com a de Garen me encarava, sorrindo divertidamente.

– Mas... eu não sei o que fazer, e isso é parte do problema.

– Luxanna, aquelas pessoas estiveram aqui por um motivo e acho que você devia considerá-lo. – ele falou, e o olhei sugestivamente já sabendo possivelmente o que viria a seguir. – Entre para a Academia Durandal.

Sem chances.

– Sem chances. – falei.

– Você sabe que sua atual situação não é uma das melhores, minha filha. – ele disse, em seguida colocando uma de suas mãos em meu ombro esquerdo. – Eu não me importo sobre o que os outros pensam, não mais. Infelizmente, não pude reagir de maneira adequada quando tudo isso aconteceu com Garen, é um constante aprendizado. E por isso, não quero que nada do tipo aconteça com você, sua segurança é o mais importante.

Então, lembrei de todas as vezes que perguntei para meu pai sobre como meu irmão estava e via sua expressão triste e inconformada. Ele lutava contra seus próprios preconceitos e inseguranças, talvez por saber que a partir daquele momento Garen nunca mais seria o que suas expectativas sobre o futuro criaram. Meu irmão perdeu amigos, contatos, chances de um futuro promissor para aceitar suas complexidades em um lugar seguro.

– Eu sei que não tenho as melhores alternativas, mas deixe-me pensar, tudo bem? Conversamos mais amanhã. – eu disse. Considerando tudo que tem acontecido nos últimos dias, eu estava realmente cansada.

Jude me olhou, sorrindo em seguida.

– Amanhã eles estarão aqui novamente para explicar com as palavras deles tudo, mas agora durma. E não se preocupe, você está segura, pessoas da Academia estão vigiando-a.

– Bom... eu deveria me sentir segura ouvindo isso? – perguntei. Meu pai se levantou, arfando pesadamente no processo.

– Sei que minha fé nessas pessoas parece ser cega, mas veja bem... elas estão cuidando de vocês, meus filhos, melhor do que eu fiz em muito tempo, então ao mesmo tempo que sinto alívio e amparo, infelizmente percebo que também tenho inveja. – ele disse, em seguida bocejando. – É, a idade chega para todos. Bom, boa noite Luxanna.

Sorri para ele, que então pegou a bandeja de comida quase intocada, desligou as luzes recém-instaladas, abriu e fechou a porta de maneira lenta e suave. E então, escuridão.

Ao longo da noite tentei várias vezes dormir, porém sem qualquer sucesso. Os passos no corredor e suas sombras que passavam na porta cessavam à medida que a madrugada chegava. A ansiedade crescente para o encontro com desconhecidos e a costumeira sensação de algo crescente em meu peito começaram a se manifestar, e logo percebi que tudo aquilo aconteceria novamente. Comecei a arfar, levantando minha cabeça do travesseiro molhado de suor.

Ignorando os calçados prontamente colocados ao lado da cama, me levantei rapidamente, indo ao banheiro e molhando meu rosto, pescoço e braços com a água morna da torneira, abandonando sutilezas e gestos educados de tentar não afogar meu traje hospitalar. Minhas mãos envolveram-se em luzes, e assim, a temperatura antes morna rapidamente se igualou à temperatura de uma chaleira com água prestes a entrar em ebulição.

Eu corri para fora do banheiro, escorregando no chão liso do quarto e gemendo de dor com a batida de meus joelhos nas lajotas brancas do cômodo, me levantando rapidamente e girando a maçaneta da porta, para então gritar por socorro.

O grito foi correspondido, porém este foi mais agudo e estridente, quase como o de uma garota, e então, na minha frente, um celular caiu. Eu olhei para o lado esquerdo, ainda arfando pesadamente, e então o vi, com metade do corpo caído para fora do banco de espera e ainda em posição de choque.

Seus cabelos eram loiros naturais, totalmente desengonçados, e entre eles, vi que óculos elásticos estavam presos em sua cabeça. Sua camisa era engomada por baixo de seu casaco de couro e sua calça justa. Ele fez um movimento em falso, e então, caiu totalmente do banco; percebi que ele estava daquele jeito pelo susto que levou com minha saída triunfal do quarto.

Com uma mão segurando meu peito na direção de meu coração que batia freneticamente, me agachei, percebendo que meu joelho direito estava vermelho; com a outra mão livre, apanhei o celular, virando-o e percebendo que sua tela estava rachada, mas não foi exatamente isso que me chamou atenção. Na tela do celular, a foto de uma bunda perfeitamente branca e definida enviada por ele em uma conversa foi um pouco mais chocante.

– Larga isso! – ele gaguejou de maneira desajeitada, levantando-se em um pulo e puxando o celular da minha mão. Se a qualquer momento não parecesse que meu coração fosse sair pela boca, seria uma situação cômica. Sentei-me no lugar que ele estava, em seguida contraindo fortemente meu tronco. – Ei, o que aconteceu com você?

O loiro tentou segurar meu ombro, mas gemeu e rapidamente tirou sua mão ao perceber que eu provavelmente assemelhava-me com um vulcão em erupção.

– Ezreal, o que é isso? – ouvi a voz grossa vinda do final do corredor, olhando em seguida na mesma direção. De lá, Sylas, vestindo a mesma calça desbotada de antes, mas agora com uma camisa estilizada e cabelos molhados, veio correndo em nossa direção, jogando os dois copos de café que segurava pelos ares. – Rápido, chame alguém! Um enfermeiro, o pai dela, não sei, mas vá! – ele gritou.

O loiro confirmou, e então, desmaterializou-se misticamente. Meus olhos se arregalaram, mas percebi que ele apareceu no final do corredor, usando a mesma técnica novamente para com certeza ir mais longe em um período menor. Igualmente à Ezreal, Sylas sentou-se ao meu lado e segurou minha mão envolta em luz, mas mesmo ao arfar pesadamente com o calor, permaneceu ali, imóvel.

Seu semblante por um segundo mudou, vi que ele respirou de modo pesado e contorceu o olhar, para então novamente me encarar. Então, sua expressão sumiu e sua íris mudou de cor, ficando com a tonalidade de minha luz.

– Por favor, não diga nada para ninguém, ou aquela gata maldita vai me matar. Vamos, siga a minha respiração, inspire e expire. – ele disse, em seguida mudando de assunto. Alguns fios de cabelos ainda úmidos caíram sobre sua testa. Suas mãos grossas e calejadas envolveram-se em luz, mas ela não era quente e desastrosa como a minha. Sua luz, mesmo sendo poderosa, era racional.

Quando médicos e enfermeiros chegaram para avaliar a situação, percebi que Sylas, enquanto voltava ao normal, possuía algo que eu sempre quis. Ele possuía controle.



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