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História Blood, sweat and tears - Capítulo 17


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Notas do Autor


Volteiii, espero que gostem desse capítulo!!!

Capítulo 17 - Mestre


Dominic estava sentado em uma pomposa cadeira estofada em seu quarto, oculto pela penumbra. Sua cabeça, velada pelo capuz, descansava tediosamente em sua mão.  
            Ser o Mestre do Conselho era satisfatório, mas, por vezes, a responsabilidade poderia ser enfadonha.  
           Sempre fora um homem ambicioso. Sempre buscara o poder e a grandeza e, desde muito jovem, sonhava em governar aquele mundo conforme seus próprios caprichos. Os deuses lhe foram profundamente generosos ao lhe conceder uma grande soma em magia, para que fosse capaz de cumprir seus desejos mais profundos e gananciosos.  
        Quando pequeno, as pessoas o ignoravam, tinham medo dele, no entanto, agora mais velho, ele entendia que nenhuma daquelas malditas almas que o desprezava poderia compreender a vastidão de sua força, a complexidade de seus sonhos. 
          Ser venerado e obedecido pelos membros do Conselho não era, nem de longe, o seu destino final. Ele queria mais. Queria governar sobre tudo e todos. O Conselho era apenas uma pequena peça do tabuleiro, um ínfimo degrau que ele usaria para chegar ao verdadeiro topo. Passara anos de sua mocidade planejando isso, orquestrando com maestria todo seu projeto. É claro que surgiriam imprevistos, mas nada tão grande com o qual não fosse apto a lidar ou prever. Leu inúmeros livros, estudou e analisou cada manuscrito, cada pergaminho antigo, treinou todos os dias sua magia. Ninguém era mais poderoso, mais qualificado do que ele. Sua obstinação e suas capacidades o fizeram escalar rapidamente a escada do sucesso, o fazendo chegar onde estava hoje. 
            E o atual momento político fora uma dádiva. Não conseguia imaginar um momento melhor para concretizar suas instâncias do que uma crise entre as três Guardas. E, era por isso, que encontrar aquela garota era tão imprescindível e de tamanha urgência.  
 
          Ergueu sua cabeça, fazendo com que o brinco em formato de lua que pendia de sua orelha pontiaguda chacoalhasse. Analisou com aptidão o imponente anel em seu dedo. A grande pedra de um negro profundo se assemelhava aos lagos pútridos de sua antiga terra e era rodeada por veias douradas que cobriam boa parte de seu anelar. O anel fazia par com o proeminente broche que prendia o tecido fino de sua capa.  
            Sorriu, um sorriso tão comum a ele: carregado de sarcasmo, egoísmo e crueldade, naqueles lábios impiedosos; ao se lembrar de como recebera aquele presente por sua inestimável bondade. Era fácil demais para ele enganar as pessoas. Suas feições saudáveis e formosas além de sua personalidade cativante, adentravam na mente de todos e inibiam sem muita dificuldade as defesas automáticas de seus corpos, quebrando todas as barreiras da desconfiança, os deixando a mercê de sua natureza manipuladora.  
 
       Concentrou-se quando sentiu alguém se aproximar da porta de seus aposentos. Raven, mas não somente ela, Thelas e Joah a acompanhavam. Soltou um suspiro longo e revirou seus olhos prateados e brilhantes.  
            Por pouco tempo mais teria de suportá-los, pensou. 
            Ouviu as batidas rápidas e respeitosas, movimentou uma de suas mãos e a porta se abriu. Ele já sabia o motivo daquela visita, já havia previsto.  
           _ Peço desculpas pelo incômodo, Mestre, mas espero que entenda que era inevitável. - foi Raven que falou enquanto todos faziam uma leve reverência.  
          Ela estava com suas roupas pretas habituais, seu jeito quieto e sensual. Embora todos daquela organização fossem dignos de pena, Dominic considerava Raven diferente. Ela era tão ambiciosa quanto ele, capaz de tudo, tinha potencial. Ele a escolhera e não se arrependia disso. Poderia ser útil e nada mais fácil de manipular do que alguém com grandes ambições. Além disso, o Mestre do Conselho gostava de corvos, poderiam ser, para muitos, aves sem atrativos, sem canto, no entanto ele os achava elegantes com suas penas negras reluzentes e refinadas. E Raven fazia jus ao seu nome, ela realmente parecia um corvo. Os olhos desconfiados, a astúcia, a beleza excêntrica, a graciosidade. Uma atraente distração. 
             Ele não respondeu, apenas acenou a cabeça em compreensão.  
            _ Já deve ter sido informado sobre as buscas na Floresta Proibida. - Joah falou enquanto lançava um olhar para Raven. -No entanto nós não pudemos avançar, já que não conseguimos atravessar a Barreira Mágica que envolve o local.  
          Todos esperaram silenciosamente a resposta de Dominic, porém ele não disse nada. O trio podia sentir o olhar gélido do seu senhor, como se a temperatura na sala caísse gradativamente e o frio subisse pela espinha.  
             _ É uma magia poderosa e... - Joah tentou contornar mas calou-se imediatamente quando Dominic ergueu a mão.  
          Gesticulou e, no fundo do cômodo, saindo das sombras e caminhando vagarosamente para a luz amarela de um candelabro, um homem baixo surgiu. Possuía um aspecto envelhecido, os olhos de uma cobra peçonhenta, as orelhas grandes e protuberantes, repletas de ranhuras. As pele vermelha se assemelhava a uma parede antiga cheia de rachaduras, escondendo em cada linha fina, centenas de anos; a calvície e o tempo trataram de consumir todos os fios de sua cabeça, todavia os pelos cresceram firmes e vigorosos em sua barba. Uma criatura única naquele mundo.  
          Parou próximo ao grupo, recostando-se em seu cajado de madeira rústica com uma pedra oval verde no topo. Permaneceu estático, apático; olhava com sua expressão mal humorada, como se tudo e todos lhe causassem fastio.  
             _ Este é Mavort, Igo Mavort. - Dominic apresentou-o soberbamente. - Um mestre em magia e, se assim posso dizer, um velho amigo.  
Igo emitiu um ruído indefinido. Atrás dele, Raven estreitou os olhos.  
            _ Não entendo como um velho poderia ser útil. Aquela Barreira antiga possui energia intensa e pungente. É impossível para todos nós quebrá-la, quem dirá para um ancião. - a mulher desdenhou.  
             _ Por favor, criança, não venha me falar da magia que fundou aquela Barreira, eu estava lá quando foi criada. - A voz esganiçada e ranzinza saiu da garganta gasta com aspereza. Os olhares espantados se voltaram para a pequena figura no centro.  
          _ Você é um dos seres fundamentais? Eles não estavam todos mortos? - Thelas perguntou, mas Mavort apenas esboçou uma risada curta e cínica.  
            _ Creio que meu estimado amigo é mais do que habilitado para lhes ajudar nessa tarefa. - Dominic encerrou o assunto.  
          _ Preparem-se...- "toc", a bengala de Igo tamborilava pelo piso marmorizado do quarto - amanhã durante o nascer do Sol - "toc" "toc" - vocês atravessarão aquela cúpula. - o senhor andou até a porta seguido por Thelas, Joah e Raven.  
            _ Ainda amanhã? Não podemos esperar tanto. - Joah murmurou mas não houve resposta.  
 
                                                              ••••••••••••••• ♤ ••••••••••••••• 
 
           Os pesadelos não o abandonavam.  
        Eles nunca começavam da mesma maneira e, por instantes efêmeros, Arien imaginava estar livre de suas correntes e que poderia regozijar de um sonho favorável. Mas então ele se via novamente em meio ao lamaçal, rodeado por árvores secas, observando o corpo já sem vida da mulher. Como de costume, aproximou -se dela a passos lentos e se viu surpreso ao perceber que os fios negros e longos deram lugar a um cabelo ruivo flamejante.  
 

            No entanto, naquela noite, Arien não era o único a vivenciar aquela mesma experiência.  
           Aurora via a si mesma, em seu sonho, deitada na lama, com uma roupa profundamente branca. Olhava para sua própria carcaça inerte pela perspectiva de outra pessoa, a qual ela não podia identificar. Chegou mais perto, para reconhecer suas feições.  
 

 
Assim como fazia todas as vezes nesse momento recorrente de tormento, ele se abaixara para tocá-la, desejando que ela pudesse estar apenas em um sono profundo e que, a qualquer segundo, o seu coração congelado fosse capaz de voltar a bater. Porém, mais que improvável, era impossível. E assim como nos outros pesadelos ela segurava seu pulso e abria seus olhos com brilho extinto.  
 

           Tanto Arien quanto Aurora acordaram sobressaltados. O guerreiro passou as mãos pelos cabelos úmidos de suor, tentando controlar sua respiração. Levantou-se de sua cama improvisada próximo à fornalha, arrastou-se até a porta, abrindo o ferrolho e se sentando no pequeno degrau abaixo do batente da cabana. 
            O vento soprava do Norte e trazia nuvens de chuva como poeira. Logo o luar estaria coberto e a noite mais escura. Tudo lá fora parecia singularmente calmo e em paz, criando um contraste absurdo com o interior aflito de Arien.  
           Uma a uma, as gosta caíam sobre o solo. E, mais que depressa, o marejo se tornara uma tempestade. A chuva era uma linha difusa e nublada ligando a terra e o céu. O vento preencheu sua boca e narinas, trazendo o cheiro de terra molhada.  
 
                                                                           ♤ 
 
             Aurora erguera seu corpo com dificuldade. Se perguntava o porquê de sonhar consigo morta, sendo tocada por um desconhecido.  
           A verdade era que aquele sonho a atordoara mais do que queria admitir, e voltar a dormir agora seria uma tarefa difícil. A vela no castiçal sobre a mesinha ao lado da cama estava quase no fim. Passou as mãos pelas laterais do castiçal onde os pingos de cera derretida haviam se petrificado, pegou-o e saiu.  
           Entrou na cozinha para pegar um pouco de água na tentativa de desfazer o nó em sua garganta, mas parou ao ver Arien recostado no umbral da porta. Caminhou até ele e sentou -se ao seu lado.  
 
           Arien pôde sentir as laterais de seus corpos se tocarem, sentiu também que deveria recuar, que era mais adequado que se afastasse um pouco, entretanto, ele apreciou o calor reconfortante da estrutura física de Aurora.  
           O céu continuava chorando. Por vezes, pingos da chuva se chocavam contra o solo, emitindo gotículas de água nos rostos pensativos de ambos. Nenhum deles se atreveu a dizer algo e quebrar aquele silêncio confortável entre eles. Ficaram assim por um tempo, sem dizer nada, apenas vagando pelos próprios pensamentos, desfrutando a companhia um do outro.  
           _ Já desejou tanto algo que tudo que sobrou em sua vida foi a esperança de que se tornasse real? E manteve essa esperança contra todas as probabilidades? E agora sente que até mesmo esse lampejo de fé está te abandonando aos poucos? - Aurora perguntou baixinho, com a voz um pouco trêmula.  
             _Todos os dias. - Arien sussurrou.  
          Ele a olhou com seus olhos vazios, seu interior vazio, mas ela estava olhando sonhadora para frente, para além de tudo aquilo, buscando aquele algo que mencionara e pelo qual valia a pena manter vivo e intacto o fio de esperança. 


Notas Finais


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