História Bloody Tears - Interativa - Capítulo 1


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Ancião, Anciões, Elite, Hierarquia, Horror, Máscara, Mistério, Seita, Seitas, Sobrenatural, Terror, Vampiro, Vampiros
Visualizações 68
Palavras 5.255
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Ficção, Mistério, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Canibalismo, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Necrofilia, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Olá!
Essa é a primeira Interativa que escrevo, e como sou uma jogadora de RPG fascinada pelo universo do Mundo das Trevas, resolvi abranger o tema com personagens criados por vocês, leitores.

Espero do fundo do coração que gostem (e não se cansem muito na hora de criar os personagens) ♥
O jornal com as informações e o modelo de ficha estará nas notas finais;
Boa leitura!

Capítulo 1 - Prólogo


Fanfic / Fanfiction Bloody Tears - Interativa - Capítulo 1 - Prólogo

Bela Lugosi está morto, e eu também. O que resta dele está apodrecendo em algum lugar num caixão de pinho, enquanto eu tenho a oportunidade de estar sentado aqui no terraço, apreciando minha bebida e olhando para você. Corrija- me se eu estiver sendo presunçoso, mas acho que tive um fim melhor que o dele.

Só de olhar, posso dizer que você não está entendendo. Claro que não — estamos numa época cínica e racional, e você não vai acreditar que eu sou um defunto só porque estou dizendo. Há um século isso seria diferente — pelo menos da última vez que tive essa conversa com alguém, foi bem diferente — mas esta é a era dos fatos. E os fatos dizem que cadáveres não se movem, não andam e não falam. Sinto muito, minha querida, mas tenho uma surpresa para você: este cadáver aqui o faz.

Então sente-se. Por favor, eu insisto que você fique confortável. Sirva-se de algo para beber, de preferência da jarra à esquerda — a da direita possui um sabor excêntrico. Esta será uma longa noite, e creio que você vai precisar de uma bebida forte... ou até mesmo duas. Nas próximas horas, vou explicar-lhe, com detalhes insuportáveis, porque tudo o que você pensa e sabe sobre a vida e a morte está errado. Em outras palavras, você não sabe coisa alguma sobre a maneira como o mundo realmente funciona, e eu vou abrir os seus olhos.

Mas temo, minha querida, que você não vai gostar do que vai ver.

Antes de prosseguir, permita-me dizer que você está tendo uma oportunidade única. Minha espécie não fala sobre si mesma para a sua — nem agora e, na maior parte das vezes, nunca. Possamos os últimos cinco séculos preparando a cortina e a ribalta, que chamamos "A Máscara", para esconder de vocês o verdadeiro espetáculo. Mas, no fim, tudo se resume a um simples e único fato: nós, vampiros, não queremos que vocês, mortais, saibam que estamos por aqui. É a mesma razão pela qual os lobos não querem que os carneiros saibam que eles estão por perto. Isso torna o nosso trabalho muito mais fácil. Assim, ainda que sejamos realmente dotados dos caninos afiados com os quais os melodramas e filmes baratos nos estigmatizaram, vocês não os verão a menos que decidamos mostrá-los. Como agora.

Você está pálida, minha querida. Isso é ruim se nós queremos ser vistos mais tarde. Permita-me cuidar de nossa palidez. No entanto, devo admitir que estou desapontado pelo fato de você estar tão perturbada com a ideia de eu ser um vampiro. Respire fundo e tente se controlar, se puder. Verdade seja dita, temo que este seja o menor dos impactos que a aguardam esta noite. Por favor, não desperdice seu tempo tentando elaborar uma explicação racional ou cientifica, porque ela não existe. Eu sou simplesmente o que sou. O que muitos e muitos de nós somos — e somos até demais, segundo algumas contagens.

Maldição, você é mesmo tola a esse ponto? Fique sentada. Eu disse sente! ... Agora veja. Calma, pare de gritar. Ninguém virá salvá-la e ninguém vai chamar a polícia — não neste edifício. Vizinhos discretos são uma benção para pessoas na minha situação. É realmente vitoriana a maneira como eles ignoram qualquer coisa que não esteja claramente diante de seus olhos.

Então, finalmente conseguiu a sua prova. Agora você acredita em mim? Sim, é sangue na jarra da direita, que ao ser servido gelado como a outra, acaba por perder muito de seu sabor. Você pode beber dele se quiser, mas não, eu não recomendo. Você não está acostumada a apreciar essas coisas, pelo menos não ainda.

Não se precipite tentando adivinhar minhas intenções, minha cara. Se eu fosse agir de acordo com seu querido clichê, você já estaria morta. Afinal, eu sou um predador, e tanto você quanto toda a sua espécie são minhas presas.

Eu suponho que devemos começar com o básico. Eu sou de fato um vampiro, trazido para este estado de existência no Ano da Graça de 1796 por uma mulher que me foi apresentada, muito pomposamente como "dama da noite". O cavalheiro que nos apresentou — um de seus criados, como descobri mais tarde — tinha um estranho senso de humor.

Mas, estou divagando. Sim, eu bebo sangue humano. Sem a nutrição que ele fornece, definharei; com ele, viverei para sempre. Sim, para sempre. A menos que eu seja destruído (e destruir um dos Amaldiçoados é uma proeza e tanto, posso lhe assegurar). Nós, os vampiros, somos tão imortais quanto a lenda diz. Somente o sol e as emoções que ele engendra permanecem para sempre alheias a nós. Nós, os vampiros, podemos beber nas noites de incontáveis eras, podemos permanecer imutáveis enquanto tudo o que conhecemos vira pó ao nosso redor e é substituído por outro cenário, que por sua vez vira pó, e assim por diante...

Oh, perdi novamente o fio da meada. Sangue, oh sim, o sangue. Posso subsistir com o sangue de animais (com exceção dos mais antigos de nossa espécie, a maioria de nós pode) mas esta dieta é desagradável. Insípida. Não, todos queremos nos alimentar das melhores safras, pois, do contrário, fica-se o tempo todo com aquela insuportável e dolorosa sensação de estômago vazio. E, quanto mais famintos, pior ela fica. E devo acrescentar: um vampiro que vive sem se alimentar direito está sujeito a demonstrar uma lamentável carência de autocontrole.

Existem outros indícios fisiológicos reveladores da minha condição. Meu coração não bate; minha força de vontade é o que leva o sangue pelo meu corpo. Meus órgãos internos, para todos os efeitos, há muito estão atrofiados, mas isso não fará diferença para um médico legista, pois assim que eu estiver realmente morto, irei rapidamente me decompor em pó. Além disso, não sou incomodado por ninharias como respiração, temperaturas extremas e outras coisas, pois a minha pele é fria, a menos que eu me empenhe em aquecê-la, mas isso representa um esforço que me faz desperdiçar o precioso sangue. Para mim, comida normal representa uma abominação, e ela não permanece por mais do que alguns segundos no que resta de meu estômago. Mesmo com a eternidade à minha frente, minha querida, tenho mais o que fazer com o meu tempo do que debruçar-me sobre latrinas, fazendo esforço para que os pedaços de carne caiam dentro do vaso.

Assim, em termos leigos, pode-se dizer que não sou mais um ser humano. Para todos os efeitos, sou um simples sanguessuga, um cadáver ambulante, indistinguível de outro corpo em um necrotério a não ser que eu me mova. Eu guardo as sutilezas, como aquecer minha pele e me lembrar de piscar, para conseguir companhia, como você.

Agradeça, minha querida. Manter-me com a pele fresca e corada para você está me custando mais do que você pensa.

Ah, vamos falar um pouco mais sobre sugar o sangue, o ato que define o meu estado atual. Sim, temo que isso seja uma necessidade, embora seja possível deixar a presa viva. Isso requer um pouco de autocontrole e um pequeno esforço para fechar a ferida — e não, nem todos nós sugamos da jugular. Você pode riscar outro clichê da sua lista. O problema em deixar uma presa viva, no entanto, é que a menos que usemos certas...proteções, ela se lembrará. Essas brechas na Máscara não são vistas com simpatia pelas forças vampíricas. Portanto, geralmente é mais sensato simplesmente matar.

O ponto crucial, realmente, é que beber sangue não só me permite perpetuar minha existência como também me dá uma sensação única, diferente de tudo o que este mundo tem a oferecer. Com o que se parece? Minha querida, não há palavras capazes de descrever. Imagine tomar o champanhe da melhor qualidade e a experiência mais sensual que você já teve. Acrescente a isso toda a volúpia que o viciado em ópio sente, assim que dá a primeira tragada, e você começará a ter alguma noção, ainda que pequena, infinitesimal, sobre o que é beber o sangue de uma fonte, desculpe-me, um ser humano vivo. Os viciados de hoje em dia mentem, roubam, trapaceiam e matam para conseguir seus desprezíveis "pedacinhos do Céu". O meu vício é melhor e além do mais me torna imortal. Você consegue imaginar o que sou capaz de fazer para saciar minha fome? Nem se preocupe com especulações; a verdade é pior do que você pode imaginar. E eu sou considerado um cavalheiro entre os de minha raça.

Agora, tente imaginar (se você for capaz) alguns de meus parentes, aqueles que não são tão bonzinhos quanto eu.

Eles são capazes de cometer (e o fazem) atos que nem mesmo eu jamais consideraria.

E aqui está você, pobre mortalzinha, aprendendo o quão frágil é a sua existência.

Você já está ficando com medo? Pois deveria.

Na maior parte dos casos, o primeiro gole de sangue é bebido na noite em que alguém se transforma num vampiro — um dos "Membros", como chamamos a nós mesmos.

O processo é chamado de "O Abraço", e tem duas fases distintas e dolorosas. A primeira é simples: o vampiro que deseja criar progênie bebe até a última gota de sangue que conseguir, daquele que pretende transformar em seu "filho". Esta fase não é diferente de uma refeição normal, exceto que não é preciso se preocupar em apagar a memória da presa, nem em se livrar do cadáver mais tarde e, além disso, esta é uma refeição bastante farta. A diferença vem mais tarde.

Assim que a última gota de sangue tiver sido extraída, o vampiro "pai" (o termo certo é "senhor", não que faça alguma diferença para você por enquanto) devolve uma parte do que "roubou". Ele corta os lábios, pulsos ou o que quer que seja, e derrama algumas gotas de seu próprio sangue sobre os lábios da vítima. Admitindo-se que o mortal não consiga oferecer uma resistência ativa ao processo — poucos conseguem, acredite em mim—e, levando-se em conta que o senhor não demore muito em conceder seu presente, o sangue desce pela garganta da vítima e a ressuscita, ainda que seja como um vampiro.

Parece simples, não? A verdade, como de costume, é muito mais complicada. Eu mesmo ainda estremeço ao me lembrar do meu próprio Abraço, que poderia ser descrito com todas as cores do brilho romântico e luxuriante que os seus contemporâneos associam aos de minha espécie. Todos os ingredientes do romance estavam lá — o quarto da dama iluminado à luz de velas, os cálices de vinho, a pálida senhora suspirando... qualquer um pensaria que tínhamos saído da festa diretamente para as páginas de um romance. Então, caímos em cima da cama, e no auge da paixão, ela cravou seus caninos em meu pescoço. Entre o prazer do momento e o prazer da sua mordida — sim, é muito prazeroso para os mortais, a ponto de se tornar um vício para alguns — eu estava completamente satisfeito em ser levado. Lembro claramente de ter pensado que minha mãe tinha razão a meu respeito no fim das contas, e que uma mulher incorreta seria o meu fim. Ainda me lembro de ter rido enquanto minha "senhora" sorvia minha vida.

E então, enquanto estava deitado ali, observando aquela porta reluzente abrir-se à minha frente e, enquanto minha alma dava seus primeiros passos em direção ao Paraíso, ela calmamente cortou os pulsos e derramou a poção da vida eterna em minha boca. Você pode me criticar por eu não ter rejeitado o que ela me ofereceu, mas mesmo diante da Graça Eterna, a vida ainda é doce. Seu sangue queimava enquanto gotejava sobre meus lábios e descia pela minha garganta, e eu percebi que desejava viver. A dor que o sangue me trouxe era a prova de que eu estava vivo. Quando ficou claro que eu não iria ascender, a porta reluzente sumiu com um sentimento de indescritível tristeza, deixando-me com minha senhora e com uma fome absurda. Felizmente, minha senhora era generosa o suficiente para me ajudar durante a mudança; ela seduziu meu melhor amigo antes de sair em meu encalço e o escondeu em uma sala próxima, como uma ave estocando sua despensa. Enquanto eu sentia meu corpo agonizando célula por célula, ele deitava inconsciente esperando por minha fome.

Ah, sim, a fome da criação. Aquele pouquinho de sangue que o senhor oferece no Abraço não é muito — umas poucas gotas com um valor mais místico do que nutricional. Elas certamente não fornecem sustento suficiente para satisfazer a fome de um vampiro recém-criado. Então, a criança da noite recém-nascida deve rezar para que seu senhor tenha guardado sangue em algumas garrafas ou, melhor ainda, em alguns corpos, para este momento, assim terá algo com que se alimentar após a mudança. Eu testemunhei o horror pelo qual passam os recém- Abraçados tomados pela fome incontrolável que, na sua loucura, destroem tudo o que está por perto. Quando esta sede a possuir, você fará de tudo para saciá-la. Matará seu amado, seu filho, seus pais ou o padre, e ficará contente em fazer isso — enquanto o frenesi durar.

Aí, minha querida, é que está o problema. Porque não importa por quanto tempo você se encontra no estado do frenesi; não importa o que o desencadeou — medo, fome, dor ou raiva — não importa por quanto tempo você cede ao animal dentro de você, não há como controlar seus atos e esta é a sua ruína. Este é o momento em que você deve lidar com as consequências do que fez enquanto aquele animal estava no controle. E o primeiro frenesi nunca é o último. Alguns poderiam pensar que se torna mais fácil lidar com este descontrole à medida que se fica mais experiente. Quem pensa assim está bastante equivocado.

O lado animal dos vampiros é chamado de "A Besta", numa tentativa, creio eu, de exorcizá-Io por dissociação. Simplesmente dar a esse impulso monstruoso um nome diferente não é o suficiente para amansá-lo. Infelizmente, a Besta acaba vencendo sempre. Se alguém sobrevive bastante tempo como um vampiro, é forçado por sua própria natureza a cometer alguns atos obscenos. E, acaba se acostumando a cometer essas perversidades e outras mais-, e tudo o que era humano naquele vampiro, desaparece.

Quando o último resquício de humanidade no vampiro desaparece — e depois de ver muitos de seus amigos, amores e descendentes virarem pó ao longo dos anos, isso desaparece, fique certa — a besta toma conta de uma vez e para sempre. O vampiro torna-se um animal. Se você chegar a este estágio, a probabilidade é de que nem ao menos perceba quando começar a agir como um cachorro louco.

Se sua vontade for forte, e você tiver um grande sentimento de identidade, você pode resistir durante décadas, ou quem sabe séculos. Eu já conversei com um Membro que tem mais de dois mil anos. Mas você nunca estará livre do medo de que a Besta triunfe uma noite, e este medo é o que ela irá usar para encurralar você.

Claro que a melhor maneira de controlar a Besta é manter-se em boas condições para lutar, e isto significa alimentar-se regularmente. Portanto, recapitulemos: alimentar-se regularmente significa que, mais cedo ou mais tarde, você começa a matar o rebanho—isto é, os mortais, desculpe-me novamente — e quanto mais você mata, mais fácil se torna a matança. Com isso, a Besta também vence desta maneira. Mesmo que você não tenha a intenção, mesmo que o processo se inicie com um acidente, mais cedo ou mais tarde você se acostumará com a visão de um cadáver fresquinho, pelo qual você é responsável, caído morto a seus pés. Após o décimo, centésimo, milésimo cadáver, ele deixa de ser uma pessoa e torna-se um objeto, uma veia, uma nota de rodapé na história de sua existência eterna. E nesse momento que você deixa de ser humano.

O sangue é muito mais ao que apenas alimento. Há tanto poder nele, que alguns vampiros o chamam de vitae — da vida. Acima de qualquer coisa e além de ser tudo o que nós precisamos para viver, o sangue pode ter uma série de utilidades. A força e a velocidade legendária dos vampiros? Meros frutos de uma utilização adequada do sangue. Invulnerabilidade aos ataques mortais? Mais um gole do mesmo poço. Já descarregaram muitas armas em mim, na tentativa de me fazer parar, sem o menor sucesso. O sangue também fornece a energia responsável por muito dos talentos "mágicos" que nos são atribuídos, como aquele que você já testemunhou. E, claro, sou capaz de "bombear" o sangue para minha pele, de modo a parecer quase humano.

Há um preço a ser pago, naturalmente. Quanto mais sangue eu uso nestes truques de salão, mais rapidamente gasto o que está em meu estômago. Quanto mais depressa esvazio minhas entranhas, mais cedo preciso me alimentar, ou seja, caçar novamente.

Você se importa que eu pare de simular esse "calor humano”? Obrigado, minha cara. Estou em dívida com você. É tão agradável encontrar uma pessoa jovem que não se preocupa em manter as aparências, não acha? Ora, minha querida, ainda que você tivesse seis vezes sua idade atual, para mim você seria uma criança. "Juventude" é um conceito relativo.

Estou com um pouco de fome. Você gostaria de me acompanhar num passeio pela cidade? A outra opção seria deixá-la aqui como uma prisioneira, o que eu prefiro não fazer. Não há dúvida de que você iria inventar algo e tentaria fugir, e acabaria destruindo algumas de minhas antiguidades em suas investidas frustradas. Você, minha querida, é substituível. Meus objetos não. É tudo muito simples.

Estou muito contente que você tenha decidido vir comigo. Sorte que eu tenha algo apropriado para você vestir no guarda-roupas do quarto de hóspedes, não é? Não, não é de uma vítima anterior, se é com isso que você está preocupada. Quando a mesma situação se repete através de várias décadas, aprende-se a estar preparado para ela. Certamente você não acha que é a primeira mulher com quem me envolvi desde meu Abraço, não é? Você é adorável, mas não deixe que isso lhe suba a cabeça, minha querida.

É uma noite fria, não é? Percebo que você está fitando minha respiração — sim, está se condensando como a sua. Esta é outra habilidade no uso do sangue, muito útil para disfarçar-me na presença de caçadores de vampiros e outras almas desagradáveis. Você se surpreenderia ao saber quantos de minha espécie encontraram seu fim ao longo dos anos porque esqueceram um detalhe minúsculo. O diabo está de fato nos detalhes. E ele se satisfaz tentando seus servos da mesma forma que faz com aqueles que se julgam inspirados por Deus. Enquanto isso, este lobo aqui gosta de se misturar com as ovelhas.

Ali, os caçadores. Eles são pessoas sórdidas, sórdidas mesmo, cheios de fogo e inspiração para suas missões. A maioria deles nunca chega nem perto de destruir algum membro da minha raça. Quanto aos outros, a maioria causa mais danos que benefícios à suas causas. Eles eliminam os fracos e os estúpidos de seu estado de não vida, deixando os melhores, mais espertos e os mais fortes vampiros. Muitos caçadores são autônomos, uma gentalha carregando armas de fogo e estacas enquanto caminham cegamente através dos jardins da noite. Outros trabalham em departamentos do governo, convencidos de que somos parte de alguma conspiração inimiga que tenta destruir o "Estilo Americano". Imbecis.

Os caçadores mais perigosos são aqueles ligados à Igreja Católica e à Sociedade de Leopoldo. Não se deixe enganar: é a Inquisição numa roupagem moderna. Eles, e outros como eles, conhecem somente uma parte da verdade sobre os vampiros, ou seja, apenas o suficiente para tirar todas as conclusões erradas. De acordo com os costumeiros caçadores de vampiros, somos todos meros peões do Demônio, enviados à Terra para causar a destruição e servir ao mestre do inferno.

Isto, ao contrário do que se costuma pensar, é pura besteira. Nenhum homem, vampiro ou demônio é meu mestre e não estou a serviço de qualquer vontade que não seja a minha própria. Os vampiros tem simplesmente... apetites e metas que divergem daquilo que os partidários da Inquisição consideram normal. Aliás, fiquei sabendo que eles costumam vestir-se com aquelas camisas de penitência e apreciam muito as sessões de autoflagelação, o que dificilmente poderia ser considerado como um comportamento social saudável.

Existem muitas outras meias-verdades e concepções erradas correndo soltas, a maioria das quais são úteis aos nossos objetivos. Vê a igreja ali adiante? Você perceberá que eu estou em pé — bem onde a sombra da cruz se projeta na rua — e isso não está me afetando em nada. Também não serei afetado por nenhum crucifixo, estrela de David ou qualquer outro símbolo religioso, a menos que a pessoa que o esteja usando possua fé verdadeira. Esta espécie de fé é realmente muitíssimo rara nesses dias, eu lhe asseguro. Nove entre dez vezes é possível aproximar-se de um padre, tirar a cruz de sua mão e então matá-lo enquanto ele ainda chama por Deus, tentando descobrir o que deu errado.

Não que eu já tenha feito tal coisa, é claro.

A maior parte das outras bobagens que eles vendem nos filmes não passa exatamente disso: bobagens. Alho? Sem valor. Uma estaca? Só se acertá-la bem no coração, e mesmo assim, ela apenas a imobilizaria. Água corrente? Eu tomo banho, muito obrigado. Luz solar? Bem, isso machuca, mas é preciso mais do que um raio de sol para transformá-la em cinzas. O mesmo vale para o fogo — ele irá queimá-la, mas leva mais do que um segundo para acontecer.

Estou usando "você" em todos esses exemplos? Mil desculpas. Não sei como isso aconteceu.

Para onde estamos indo agora? Bem... vamos a uma boate. Mais precisamente a um bebedouro onde o rebanho se reúne, sem perceber que existem predadores ao redor. Lá você também terá a oportunidade de conhecer outros da minha espécie, de famílias diferentes. Não se preocupe, você estará perfeitamente a salvo desde que permaneça em minha companhia. Não tenho a menor intenção de deixar que alguém a machuque esta noite.

Bem, aqui estamos: Xero, a mais nova pocilga com ares de vida noturna nesta metrópole imunda. Os clubes noturnos vêm e vão — danceterias transformam-se em botecos que vendem bebidas à menores, que se transformam em boates badaladas e lanchonetes, depois em cafeterias, discotecas, até acabar... nisto. Os detalhes não importam, sempre existem lugares aos quais os jovens podem ir exibir o quão rebeldes são, pelo menos até o dinheiro da noite acabar. Eles querem provar o sabor do perigo, percebe, enquanto nós estamos só procurando o sabor do sangue. A confluência de nossos interesses é natural, mas eles não percebem a ironia da situação.

Não, nós não teremos que esperar na fila. O leão-de-chácara é um dos nossos, viu? Ele é o que chamamos de carniçal. De tempos em tempos, ele bebe um pouco de sangue de vampiro e, em troca, recebe algum lucro. Apenas um pouco, é claro — os carniçais seguramente ainda são mortais. Os benefícios do acordo são limitados; os carniçais não possuem toda a extensão de nossos poderes, mas em troca eles ainda são capazes de ter filhos, de sentir o sol em seus ombros e de se afogar acidentalmente.

Sim, transformar pessoas em carniçais é mais uma das propriedades do Sangue. Existem muitas coisas sobre o Sangue que eu não lhe contei. Ora, não estou sendo pago para ser seu professor. Ainda curiosa? Bem, que tal essa: bebendo o sangue do vampiro três vezes, você fica irremediavelmente subjugada a ele. O sentimento de afeição resultante e chamado de laço de sangue, e se o vampiro responsável por ele reforçá-lo, o laço pode durar para sempre. Afinal, não há como morrer para escapar dele, não é mesmo?

Você consegue imaginar isto? Ser forçado a amar alguém, e ainda por cima para sempre? Sabendo que o amor que você tem por ele (que é tão forte que você poderia matar ou morrer por essa pessoa) é uma mentira, uma maldita mentira induzida? Odiando-o e amando-o ao mesmo tempo, sem nem ao menos ser capaz de fazer nada a respeito?

Soa como se eu estivesse falando de uma experiência pessoal, não é? Engraçado... Cuidado onde pisa! A direção sempre se esquece de que nem todos os clientes enxergam no escuro.

Bem, deixe que eu lhe dê uma ideia básica das nossas relações familiares, antes de apresentá-la aos outros. De acordo com a lenda, somos todos descendentes de Caim, filho de Adão e Eva. Supostamente, Deus puniu Caim por ter matado Abel, tornando-o um vampiro. A "marca" que Deus pôs em Caim era, na realidade, a maldição do vampirismo. Caim descobriu que poderia passar sua maldição através do "Abraço", e então criou crianças da noite para aliviar sua solidão. Infelizmente, o processo não parou por aí. Cada cria de Caim gerou crias, e estas geraram outras crias e assim por diante. Quando percebeu seu erro, Caim proibiu a criação de novos vampiros, e desapareceu.

É lógico que quando o gato sai, os ratos fazem a festa. Os vampiros mais jovens não lhe deram ouvidos, como era de se esperar, o que explica porque eu estou aqui. Claro, também, que quanto mais distante de Caim, cada geração de vampiros é um pouco mais fraca do que a anterior, e mais próxima dos mortais. A Primeira Geração, é o próprio Caim, suas crias são a Segunda e assim por diante. A décima terceira geração é pior do que o óleo que irá queimá-los no Inferno; sou levado a acreditar que os vampiros de décima quarta geração não passam de mulas. Nunca pergunte a alguém qual é a sua geração. É uma grosseria fatal.

Isso é apenas o começo — você consegue me ouvir com esse barulho? Por que esses mortais insistem em dançar com esse barulho, com esse volume tão alto? Em todo caso, não somos todos como Caim. Que o Céu tenha piedade do mundo se fôssemos. Supostamente, cada um dos netos de Caim (chamamos esses seres míticos de Antediluvianos, porque acredita-se que eles existiam antes da enchente de Noé) possuía um conjunto particular de maldições e poderes místicos e os vampiros descendentes de cada um deles herdaram essas características. Tornamo-nos raças especializadas, como os cães e os cavalos de corrida, e essas linhagens formaram o que chamamos de clãs. Treze grandes clãs são conhecidos, cada um com poderes e esferas de ação próprias. Estes poderes, a propósito, são chamados de "Disciplinas". Para todos os efeitos, eles são mágicos. Você me viu usando um dos meus. Reze para jamais ver alguns dos outros.

Ah! E temos também a Jyhad. Sim, a Jyhad! A Luta Eterna, O Grande Jogo, ou qualquer que seja a alcunha poética que queiram dar a ela. A maioria dos Membros diria que a Jyhad não passa de um mito, como os Antediluvianos, mas ainda assim há muitos que acreditam nela, bem no fundo de seus corações frios e mortos.

Segundo a nossa História, durante as primeiras noites, os filhos mais velhos de Caim começaram a brigar entre si, usando suas próprias crias e o rebanho como peões, enviando-os de um lado a outro, contra os asseclas de seus rivais. Naturalmente, uma vez que nós vampiros somos imortais, a antiga disputa nunca chegou a acabar completamente. Por isso, o jogo de esquivar-se e atacar, aparar e golpear continua. Membro contra Membro, clã contra clã, nação mortal contra nação mortal, todos sob o comando de manipuladores ocultos. Uma ideia tola, eu suponho, mas vez por outra me questiono se minhas batalhas são de fato minhas... Ah, deixe estar. É só baboseira existencialista.

De qualquer forma, por favor permita-me apresentar-lhe todos. Você está vendo aquela mulher de saia de renda preta? Não, não ela, a outra. Seu nome é Jillian. Ela é uma de nós, mas de um clã diferente do meu. Ela pertence ao clã Toreador, o "Clã da Rosa", como eles os chamam. Arte, garotos bonitos imaginando-se personagens tirados de livros de Keats ou Shelíey — os Toreador alimentam-se de todas essas coisas. Pelo menos isso é o que qualquer um pensaria, segundo os critérios de avaliação convencionais. Mas eu não ponho muita fé nos estereótipos, especialmente os mais nobres.

O cavalheiro de terno escuro e camisa sem colarinho tentando ser discreto ao observar Jillian e seu rebanho? Ele é Paolo, um Tremere. Os Tremere são feiticeiros, pervertidos e reservados... Irrite um deles e logo você terá um monte deles sobre você, deixando bem clara a sua desaprovação. E ali no canto, o brigão com jaqueta de motoqueiro, carrancudo e mal humorado, com cara de poucos amigos? Ele é Devin, um Brujah, um anarquista, que nesse momento está em plena caça. Mais cedo ou mais tarde, seu jeito byroniano irá atrair alguma atenção feminina, ele irá deixar-se animar e será levado para casa, e então... bem, você sabe o que vem depois.

Nem pense em tentar interferir ou eu mesmo a mato. Faça de conta que está assistindo a um documentário sobre a natureza. Que é o que realmente está acontecendo. Sobrevivência dos mais fortes. O rebanho da humanidade perde um ou dois animais, mas a maioria segue em frente sem ser afetada. E o equilíbrio entre predador e presa.

Aliás, essa é a principal função da Camarilla: manter o equilíbrio. Ela garante que ninguém vai correr enlouquecido assustando o rebanho, e que vocês nunca saberão que existem caçadores entre vocês.

O que é a Camarilla? Nada importante, segundo alguns vampiros. Em teoria é uma organização protetora de todos os vampiros, dedicada a promover a ordem e manter a Máscara. Na realidade, ela reúne somente sete dos grandes clãs e outros tantos parasitas. Alguns outros clãs se auto intitulam independentes, e os demais pertencem a um culto horrendo chamado de Sabá. O Sabá faz Devin parecer com uma professora de jardim de infância; eles são muito mais parecidos com tudo o que a Inquisição pensa sobre os vampiros do que os Membros da Camarilla.

Entretanto, não cometa o erro de pensar que nós da Camarilla somos bonzinhos. Não somos. Apenas chegamos à conclusão de que é muito mais seguro coexistir e tentar trabalhar com a sua ajuda do que lutar contra vocês. Porém, jamais se deixe enganar pela ideia de que nós somos "os mocinhos".

Para nós vocês são mais úteis vivos do que mortos.

Parece que a noite não nos reserva nada de interessante — Devin está monopolizando as atenções. Vamos sair daqui. Você parece estar precisando de ar puro, e este lugar está começando a me aborrecer.

Não, eu não vou matá-la e beber seu sangue no beco. O Abraço deve ser concedido no conforto, no luxo. Além do mais, meus carniçais devem ter armazenado alimento suficiente para sua primeira Fome; sou um senhor generoso.

Por favor, não se choque. Ingenuidade não combina, com seu jeito. Tenho feito insinuações toda a noite, e você, obedientemente, as captou. Além do mais, você não estaria imaginando que eu falaria tudo isso e então a deixaria ir embora, não é? A maioria das pessoas iria considerá-la louca se repetisse a história que acabei de contar. Mas, algumas acreditariam e contariam a outras pessoas. E tudo desabaria como um castelo de cartas.

Então, minha querida, não há como deixá-la sair viva dessa. Mas, pode optar por sair morta. Você sabe o que estou lhe oferecendo e sabe que, lá no fundo, você quer. Caso contrário, teria tentado escapar horas atrás. Mas aqui está você.

Então, adorável dama... posso fazê-la viver para sempre? Sim? Fico contente.

Dê-me seu braço, querida. Você ainda está com medo?

Deveria estar.


Notas Finais




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