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História Bloom - Capítulo 6


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Notas do Autor


Não tenho nem cara para aparecer por aqui depois de todo esse tempo sem atualizar, então vou apenas desejar uma boa leitura à todos vocês e nos vemos nas notas finais!

Capítulo 6 - Estrelícia em perspectiva


Fanfic / Fanfiction Bloom - Capítulo 6 - Estrelícia em perspectiva

ATENÇÃO: O capítulo apresenta descrições de sintomas de transtorno de ansiedade e ataques de pânico. Não é intenção da autora causar nenhum tipo de desconforto ou gatilho à nenhum dos leitores. Caso se sinta desconfortável ou pessoalmente atingido por algo, por favor, pare de ler no mesmo instante.

#aartedaflor

Minah

Taehyung sarang: sinto muito mas n vou aparecer por aí hj, Flor do Dia

Taehyung sarang: o novo diretor tá surtado até com o jeito q a gnt respira debaixo desse monte de maquiagem, e n vai deixar ninguém sair até tudo ficar do jeito q ele espera pro primeiro ato

Taehyung sarang: vc já arrasou demais pra fazer tudo isso, tenho certeza q está tudo tão incrível quanto vc gostaria, e mal posso esperar para ver tudo do jeito q seus lindos olhinhos talentosos idealizaram

Taehyung sarang: me perdoe

Taehyung sarang: amo muito vc

Bloqueei o celular depois de ler todas as mensagens, sabendo que nenhuma resposta da minha parte era esperada. Infelizmente, eu desviava um pouco do meu próprio princípio de não criar expectativas com as pessoas quando o assunto era Taehyung, já que ele próprio se colocava na posição de meu fiel escudeiro muitas vezes, sem que eu sequer pedisse.

Sabia que sempre podia contar com ele, ainda que tentasse não sobrecarregá-lo, e por conta disso, era um pouco difícil ignorar e desfazer a pequena pincelada de decepção por não tê-lo ali naquele dia, mas sabia que ele estava onde deveria estar, ensaiando para seu primeiro musical como ator profissional, no qual seria o protagonista, e eu sabia o quanto aquilo era importante para ele, e não poderia estar mais feliz pelo meu melhor amigo. Jamais desejaria que ele abrisse mão de qualquer oportunidade de trabalhar duro por seu sonho para perder tempo comigo. Me sentia um pouco sozinha, o que não era um sentimento desconhecido, mas sabia que não estaria, de fato, por muito tempo, já que Jimin, Namjoon, Seokjin, Hoseok e Yoongi haviam me dito que viriam, e Hollys e seus amigos chegariam em algum momento e...

O lugar estava cheio.

Dei alguns passos para trás, apertando as mãos juntas em frente ao corpo e me mantendo perto das paredes falsas feitas de compensado, tomando o cuidado de ser tão imperceptível quanto possível para não ocupar o espaço de nenhuma das obras expostas e impedir que fossem vistas pelas dezenas de pessoas que circulavam pelas passagens e corredores do labirinto escuro montado para a exposição, admirando com atenção cada uma das mais diversas peças e quadros expostos em mesas e cavaletes rústicos, ou suspensos por fios de corda de sisal, presos à ganchos de ferro no teto.

A abertura da exposição estava sendo melhor do que eu esperava. Ainda eram apenas as primeiras horas desde que as faixas e os portões do departamento de Artes foram abertos, e eu já havia perdido a conta de quantas pessoas diferentes passaram pela entrada e cuprimentaram Sungjae, ganhando um sorriso simpático e bonito ao pagarem o valor da entrada e receberem um guia do evento e serem encaminhadas por algumas das minhas colegas de turma, que pareciam querer se camuflar e se esconder nos pontos em que os refletores que iluminavam as obras não poderiam nos mostrar tanto quanto eu, para podermos apenas admirar e assistir às reações e interpretações sobre cada peça exposta. Sorri para Jisoo, que estava entre uma releitura moderna em gesso da Vênus de Milo, grafitada com ilustrações punk em cores neon, sua arte para a exposição, e uma confecção em macramê colorido repleta de rosas vermelhas e pretas cheias com espinhos sangrentos e lágrimas.

Aquela provavelmente era a minha exposição preferida, desde que havia começado a faculdade. Todas as outras foram incríveis, e eu gostava muito de participar da organização junto aos coordenadores e professores, que eram ótimas fontes de conhecimento formal e experiência em curadoria, mas nada se comparava àquela. Foi a primeira grande oportunidade que tive para sugerir uma das minhas ideias mais malucas e excêntricas, e de iniciar um projeto sem que as obras a serem expostas já estivessem prontas e fizessem parte do acervo convencional do departamento, em uma tentativa de incentivar à confecção de peças significativas e nem um pouco formais. Agradeci a qualquer que fosse a entidade de força maior dos céus que tocou a mente de meus professores quando aceitaram a ideia, com a condição de que a tarefa de encontrar os artistas fosse totalmente entregue à mim, assim como o restante da organização. O desafio imposto nos olhos de cada um deles ao me dizerem isso funcionou como o combustível mais inflamável de todos para a minha determinação em tornar aquilo realidade.

De início, a ideia era ter uma exposição composta apenas por artistas mulheres. Cada peça exposta foi, de fato, idealizada, produzida, pintada, confeccionada, ilustrada e arriscada por uma mulher, exceto pela enorme escultura de um manequim feminino curvilíneo de pedacinhos de MDF em um dos vãos do labirinto, que na verdade foi construída para a participação especial de alguém que não era do sexo feminino e não se identificava como tal, mas que já esteve preso no corpo de uma mulher, em determinada fase de sua vida. Provavelmente era a minha preferida, se eu tivesse coragem o suficiente para escolher uma só.

Cada obra era única, peculiar, contrastante e irreverente, como os próprios artistas, e completamente informal, desde aquelas que destilavam raiva e inconformidade, nos tons de preto e vermelho vibrante, com toda a facilidade da sociedade em apontar dedos julgadores para mulheres vítimas de assédio e mais discussões feministas e de igualdade de gênero, até as peças em roxo escuro, chumbo e verde musgo, revelando e representando segredos escondidos nas mentes e nos corações que nunca antes haviam sido contados, deixando-os expostos e suscetíveis à dúvida, sugestões e possibilidades dos mais férteis pensamentos dos espectadores. Todas possuíam histórias e motivos próprios em cada pequeno detalhe, apenas mais uma das razões que me faziam adorar aquela exposição, mas não mais importante que os outros aspectos.

Abaixo de cada peça, estavam os nomes e pseudônimos dos artistas da maneira exata como escolheram se identificar, alguns usando seus nomes verdadeiros, em um desafio claro à determinação de não se esconderem e enfrentarem os murmúrios e sussurros mexeriqueiros nos corredores que sucederiam depois da exposição, outros, criando personas relacionadas às próprias produções, ficando entre o limite de estar completamente expostos e protegidos por seus nomes fictícios, mas ainda assim, exibindo toda a autenticidade de quem realmente eram para o mundo com suas obras. A ideia era criar uma atmosfera e um ambiente em que todos podiam ser quem realmente eram, sem se preocupar com julgamentos, normas, técnicas ou convenções sociais, tudo isso enquanto ajudávamos a construir um espaço que permitisse tal liberdade às vítimas de violência doméstica da ONG onde eu e mais algumas garotas éramos voluntárias. Aquela sim era a minha parte preferida.

Também era uma das razões pelas quais eu havia me restringido apenas a cuidar da organização e da parte burocrática de tudo. Estar sob holofotes e olhares demais não era bem a minha praia.

O olhar de Sungjae me encontrou depois de deixar passar um grupo de garotas do time de vôlei da faculdade, seguidas por meu irmão e seus amigos, que eu sabia que não perderiam o evento por minha causa, e ele gesticulou de forma veemente, apontando para o resto das montagens do labirinto, como se dissesse que eu deveria dar uma voltinha e exibir meu sorriso, enquanto escancarava os dentes em uma careta engraçada, parando apenas para sorrir de forma elegante para mais algumas pessoas na entrada, voltando a olhar para mim e indicando que eu deveria ir. Sungjae provavelmente queria que eu usufruísse de certo prestígio por ter idealizado tudo aquilo e ter trabalhado tanto para que acontecesse, e eu adorava seu jeito carinhoso de enaltecer tudo e todos que considerava especiais, mas aquele não era o meu objetivo.

Se me permitisse ser um pouco ousada, diria que queria deixar minha marca em algum lugar, algo que permanecesse ao longo do tempo e que permitisse que outras pessoas realizassem sua arte sem julgamentos, como eu acreditava que deveriam realizar, mas aquilo seria grandioso demais para admitir, e eu jamais seria capaz de tal coisa. Já estava mais do que satisfeita por saber que tudo aquilo estaria ajudando as mulheres da ONG a lidarem com suas questões e seus traumas pessoais através da arte, além de exibir artistas muito talentosos.

Inspirei fundo, me desgrudando da parede e caminhando por entre os visitantes, prendendo as pontas brancas das mangas do vestido entre os dedos e as palmas das mãos. Cada vão e corredor do labirinto sinuoso tinha uma pequena aglomeração formada ao redor da luz de alguma das obras, que era responsável por unir pessoas de aparências e estilos completamente distintos e contrastantes em conversas e comoções engajadas e baixinhas, formando um cenário único. Aquilo me fez sorrir, de verdade. Metade daquelas pessoas não cruzariam seus caminhos umas com as outras se não fosse pela exposição.

Continuei caminhando lentamente, aproveitando um pouco da falta de companhia para admirar todos os espectadores que admiravam as obras, incluindo o coordenador do departamento de Artes, Yesung, que parecia avaliar um pouco de tudo cuidadosamente, e aproveitei também para revisitar as obras longe de suas vistas. Sabia exatamente como era cada uma e onde estavam expostas, e aquele senso de familiaridade era uma boa sensação, como se eu estivesse cumprimentando velhas conhecidas outra vez.

Ao virar à esquerda em uma esquina do labirinto, esbarrei sem querer em Joy, minha amiga do curso de Jornalismo, e seu fiél caderninho de anotações, que me receberam com um gritinho alarmado que se sobressaiu entre as conversas em murmúrios das pessoas ao nosso redor, chamando a atenção de alguns muitos olhares curiosos. Lá se ia toda a minha tentativa de passar despercebida.

— Opa! — Joy exclamou, me segurando pelos cotovelos quando dei um passo em falso para trás, me afastando um pouco de nosso acidente, e encarando o sorriso bonito e amigável à minha frente enquanto os olhos alegres me estudavam. — É sempre um prazer esbarrar com você, Minah, ainda mais se estiver vestida como a releitura moderna da Wandinha.

Sorri pequeno para Joy, que assobiou ao pegar uma de minhas mãos, me girando como se quisesse exibir meu vestido preto inspirado em Wandinha Addams, com alguns botões dourados nos detalhes brancos nas mangas, na gola e na pequena fenda em minhas costas. Foi o mais próximo que pude fazer de algum tipo de esforço para parecer um pouco mais arrumada, junto aos pequenos brincos dourados em minhas orelhas.

— É bom te ver também, querida — cumprimentei-a, lhe entregando sua caneta, que havia parado em minhas mãos, de alguma forma. — Recolhendo material para uma nova reportagem?

O sorriso torto e bonito de Joy se transformou em um inteiro e muito bonito assim que fiz a pergunta, e pude ver seus olhos brilharem com pinceladas de empolgação e alegria, como de costume, deixando-a ainda mais bonita.

— Estou! — respondeu, abraçando o caderno e a caneta junto ao peito. — O artigo sobre a exposição vai ser o primeiro grande assunto que vamos cobrir no jornal esse ano, e a construção do ateliê na ONG vai ser a primeira matéria externa que não tem nada a ver com a neve, nem com o rio Han ou o aumento da carne de porco no mercado público municipal — soltou uma risadinha debochada, quase me fazendo rir. — Nos juntamos com o pessoal de Cinema e de Fotografia para fazer as filmagens e as fotos, e estão discutindo a produção de um possível documentário.

Ergui as sobrancelhas, sem conseguir disfarçar a surpresa em ouvir aquilo. Não esperava aquele tipo de repercussão no jornal da faculdade, muito menos tão rápido assim.

— I-Isso é ótimo — murmurei, piscando, me lembrando de me recompor em poucos segundos, voltando a sorrir para Joy. — Espero que você tenha muito com o que trabalhar.

Ela sorriu abertamente mais uma vez, prendendo os cabelos compridos e escuros atrás das orelhas.

— Ah, não se preocupe com isso. Vai ser mais do que um prazer — retrucou, sorrindo torto. — Todas essas obras maravilhosas estão me dando mais do que inspiração para produzir o artigo, especialmente o quadro misterioso no fim do labirinto. É simplesmente... acho nem sei como descrever. Tem muitas pessoas por lá. Estou pensando em colocá-lo como capa da matéria, mas tudo depende da visão artística de Jungkook. Ele deve estar por aí tirando fotos — franzi o cenho, confusa, sem saber se o motivo de meu coração ter acelerado uma batida, de repente, era por ouvir o nome de Jeon Jungkook ou sobre o tal quadro misterioso. — Os coordenadores do jornal estão no pé dele como loucos tentando convencê-lo a entrar para a equipe há meses, mas ele só concordou em cobrir a exposição, por enquanto. Estamos de dedos cruzados para que ele aceite entrar. O cara é um gênio. Você se lembra do trabalho dele na exposição de Cinema e Fotografia do ano passado?

Assenti minimamente, processando um pouco de tudo que Joy havia acabado de me dizer.

— Lembro — murmurei. Era impossível não lembrar, considerando que havia comparecido a todas as noites da exposição e da exibição do documentário de Jungkook. — Sobre a infância no subúrbio. Foi fantástico.

Joy sorriu mais uma vez, concordando e voltando a abrir seu caderninho.

— Vou dar mais uma volta e deixar você receber todas as honras — brincou, afagando meu braço ao passar por mim. — Parabéns pelo trabalho, querida. Vou fazer questão de colocar nas melhores palavras possíveis o quanto essa exposição é maravilhosa.

Não consegui fazer muito mais que sorrir rapidamente e acenar com a cabeça para Joy antes que ela desaparecesse por um dos outros corredores, voltando a seguir na direção do coração do labirinto, tentando adivinhar de que quadro misterioso ela poderia estar falando. Eu me preocupei em identificar cada uma das obras, fosse pelo nome ou pseudônimo do artista, e sabia que havia feito tudo aquilo várias vezes, até que estivesse confiante de que estava tudo certo e organizado, e esse pensamento fez uma espécie de calafrio percorrer minha espinha.

Foi fácil identificar os ombros largos e altos de Hollys no meio de todas as pessoas que estavam no centro do labirinto, juntas e aglomeradas demais para que eu pudesse enxergar através delas ao pedir licença educadamente para todos no caminho até conseguir parar ao lado do meu irmão, que pareceu sentir minha presença, se virando para olhar em minha direção com seus enormes olhos bonitos e brilhantes, sorrindo com o rosto inteiro ao me ver.

— Oi, Nanah! — me cumprimentou, se inclinando para deixar um de seus beijinhos carinhosos em meus cabelos. Ele deveria estar se segurando bastante para me cumprimentar de forma discreta. — Seu trabalho aqui ficou incrível, do jeitinho que só você sabe fazer — senti sua risadinha próxima ao meu rosto antes que ele se afastasse, sorrindo largo ao deixar os olhos vagarem pelo brilho dourado dos detalhes do vestido. — E você está muito linda.

Sorri para ele, tentando retribuir seu carinho em meio à sensação esquisita em meu corpo. Às vezes, havia tanto carinho e amor nos olhos de Hollys ao olhar para mim, que me perguntava se algum dia conseguiria retribuir sem sentir um entalo em minha garganta.

Olhei para Taeyong e Mark, ao lado, que estavam com as mãos enfiadas nos bolsos, vagando os olhinhos impressionados e inocentes pela estrutura escura do labirinto, iluminadas pelas lâmpadas brancas que pendiam do teto, deixando aquela área um pouco mais iluminada do que o restante da estrutura, exatamente onde deveria ficar um enorme painel com inspirações de diversas artistas das mais variadas correntes que foram grandes inspirações para a idealização daquela exposição, mas eu não conseguia vê-lo com tantas pessoas à minha frente.

— Não entendi metade do que rolou até aqui, mas sei que ficou foda porque foi você que fez, Wendy — Mark Tuan resmungou, do seu jeito meio admirado e abusado, e eu quase ri.

— Ficou tudo muito bom, mesmo — Taeyong concordou, me lançando um olhar carinhoso, que eu retribuí com um pequeno sorriso.

— Obrigada — murmurei, desviando os olhos para olhar ao redor, enquanto um grupo de pessoas à nossa frente começava a sair pelas laterais, e nós avançávamos alguns poucos passos, como se estivéssemos em uma grande fila para alguma coisa. — Porque tem tantas pessoas aqui?

Hollys deu de ombros, esticando o pescoço para ver por cima de algumas cabeças, enquanto fazia círculos com um dos polegares em meu cotovelo.

— Todo mundo está falando de um tal quadro misterioso. Ficamos curiosos — falou, se voltando para mim com um sorrisinho divertido no rosto. — Claro que você já sabe qual é o quadro, já que organizou tudo, mas não vou pedir nenhum spoiler. A exposição inteira foi cheia de surpresas. Essa deve ser melhor ainda.

Acho que tentei sorrir em meio à minha confusão e à sensação estranha arraigada em meu corpo me dizendo que havia algo de errado, enquanto avançávamos os últimos passos atrás do grupo de pessoas no qual havíamos nos enfiado sem sequer perceber, parando na frente de um refletor de luz branca posicionado no chão, iluminando uma tela solitária pendurada sob um lençol branco no teto por um mísero fio de corda de sisal, posicionada de forma a ganhar todo o destaque do coração do labirinto.

Senti todo o ar fugir de meus pulmões assim que coloquei os olhos sob a pintura.

O diferentes tons fechados e turvos de azul se misturavam uns aos outros em um grande tormento, guiados pelos traços firmes de pinceladas veementes em direções confusas, como uma tempestade assustadora nas profundezas de um oceano revolto, completamente fora das regras do mundo real. Ali estava um lugar onde a luz e o calor reconfortantes da terra firme estavam escondidos nas partes mais profundas daquelas águas congelantes, e os verdadeiros monstros estavam sob a superfície, livres de nadadeiras e guelras, andando sobre duas pernas. No centro, o ponto mais sombrio e escuro do quadro, estava o maior e mais assustador de todos pesadelos, me encarando diretamente, de sua linda maneira invertida e obscura em um belíssimo tom de azul royal, manchado por pinceladas contrárias e indistintas, explodindo em toda a sua capacidade de agraciar, carregar angústia e apavorar os olhos inocentes.

Seria impossível não reconhecer cada pedacinho e pincelada daquela pintura. Poderia nomear com precisão todos os tons de azul usados ali e a mistura de cada um deles, feita em um godê de cerâmica em formato de flor, e o que cada elemento tinha o poder de causar, porque aquele era meu quadro.

Como aquilo havia chegado até ali?

Todas as vozes ao redor soavam distantes e abafadas em meus ouvidos, enquanto os olhos dos espectadores mediam, avaliavam e admiravam cada centímetro da tela, fazendo meu estômago se retorcer, enviando calafrios indesejados e agonizantes por minha espinha e para o resto do meu corpo, como se ele estivesse exposto e escancarado para todos os olhos que consumiam aquele show de horrores.

— Woah! — a voz familiar de Mark Tuan estava a quilômetros de distância, mesmo que estivesse vendo seus lábios se movendo de forma enérgica. — Isso é maluco! Faz você se sentir como se estivesse...

— Submerso? — Taeyong murmurou, com os olhos escuros reluzentes completamente vidrados no que estava à sua frente.

— É — Hollys concordou, tão baixinho quanto um sussurro, sua voz se sobressaindo sobre as outras conforme ele franzia o cenho, olhando com atenção para o quadro, como se seus lindos olhos pudessem ver o que estava por trás de cada pincelada, quando na verdade, tudo estava bem à sua frente. — Submerso.

Acho que senti meu coração parar por um instante quando me dei conta do que estava acontecendo.

Hollys.

O quadro misterioso.

Meu quadro.

O segredo.

Pisquei muito mais vezes do que deveria, esperando que aquilo fosse apenas um novo tipo de terror da minha cabeça que eu estava fadada a suportar, mas toda vez que meus olhos se abriam, o quadro continuava bem à frente, poderoso e horroroso sob as luzes fluorescentes que lhe davam ainda mais destaque e poder, completamente fora de meu alcance. Fora de mim.

O que eles estavam vendo? Não podia ser. Ninguém poderia enxergar aquilo. Ninguém além de mim sabia o que estava ali, por trás de todas aquelas sombras. Eu sabia que não poderiam enxergar. Eu sabia o que havia feito, escondendo a verdade naquele quadro, de forma que ninguém pudesse encontrá-la além de mim. Nenhum deles jamais seria capaz de enxergar aquilo.

Ou seria?

Minha respiração começou a ficar ofegante. Rápida demais, totalmente o contrário de como eu deveria respirar. Minhas mãos tremiam, enquanto eu tentava apertá-las juntas, e todo o meu corpo obedecia aos meus comandos com muito mais esforço que o de costume.

Respire devagar. Por favor, pare de tremer. Fique firme. Erga os ombros. Mantenha a postura. Mantenha os olhos abertos. Você não está sozinha. Não pode demostrar que está com medo. Não pode.

— Nanah? — pude ouvir a voz se sobressaindo sutilmente à todas as outras mais uma vez, me fazendo desviar os olhos do quadro rapidamente, finalmente percebendo o quanto queria me livrar de sua presença, encontrando Hollys ao meu lado, me encarando intensamente com um semblante preocupado deixando seu cenho franzido ao ponto de formar um vinco entre suas sobrancelhas. — Tudo bem? Você está muito pálida.

Engoli em seco, sentindo o aperto em meu peito se estender como uma coleira até minha garganta, dificultando ainda mais a minha respiração. Hollys não deveria estar preocupado comigo. Não deveria me olhar com todo aquele amor envolto em preocupação. Eu não era merecedora daquele tipo de atenção, de sua parte. Não merecia todo aquele amor.

Pense em alguma coisa, ordenei a mim mesma. Qualquer coisa. Não deixe que ele se preocupe dessa forma. Invente alguma coisa. Você já fez isso antes. Você sabe como fazê-lo acreditar.

— Estou bem — murmurei, mal reconhecendo minha voz, clara e suave, totalmente em contraste com a imensidão avassaladora de sensações que percorria todo o meu corpo. Pude sentir meu rosto tentar se moldar em uma expressão tranquilizadora, tentando abrir um sorriso, mas pelo olhar alarmado no rosto de Hollys, aquela havia sido uma tentativa completamente falha. — Minha pressão deve estar um pouco baixa. Eu, hm, tomei só um café rápido hoje cedo, e tem muitas pessoas aqui, está um pouco quente... Deve ser isso — tentei sorrir outra vez, sentindo os lábios tremerem, e me voltei para Mark e Taeyong, que também tinham o cenho franzido em preocupação. — Vou lá fora tomar um pouco de ar, mas continuem por aqui. Vejo vocês depois.

Saí de lá antes que os meninos pudessem dizer qualquer coisa, esbarrando em muitos ombros, tentando abrir espaço entre a multidão de pessoas, me acotovelando entre elas de forma nem um pouco educada, ouvindo minhas desculpas serem engolidas pelo burburinho de suas vozes e pelo som alto que parecia não parecia vir de lugar nenhum além do fundo da minha mente. Não podia ficar ali nem mais um instante. Não podia. Minhas pernas estavam bambas, como se não fossem capazes de atender aos meus pedidos de se manterem firmes, e cada um de meus passos sobre o solado dos tênis era vacilante, como se eu estivesse pisando sob saltos altos e finos.

Podia sentir alguns olhares curiosos sobre mim, desviando-se das obras de arte por instantes, parecendo mais intrigados pelo pequeno furacão humano que tentava se esgueirar pelos corredores sem ser notado, o que me dizia que eu não estava sendo tão boa em me manter composta quanto deveria, fazendo meu estômago se retorcer com a ideia de ficar ainda mais exposta à tantos pares de olhos, e meus passos se tornaram ainda mais rápidos e vacilantes em direção à saída.

Tinha quase certeza de ter ouvido Sungjae chamando meu nome, mas o ruído ensurdecedor do meu coração batendo descompassado no peito e do barulho irritante no fundo do meu crânio não me deixavam pensar com clareza, e tudo que eu podia ver era o brilho das luzes de LED do restante do departamento, longe de toda a escuridão opressora do labirinto, parecendo muito convidativas, e tudo em que eu era capaz de pensar era que quando estivesse lá fora, na claridade, tudo ficaria bem, e eu estaria longe de tudo e de todos.

Minha mente era como um enorme borrão de cores indistintas, se irradiando desde a minha cabeça até cada pequeno pedaço do meu corpo em linhas finas e agonizantes como rios de tinta, unidos com o único propósito de me tirar completamente do eixo, tornando cada passo bambo e vacilante tão difícil quanto uma maratona para o mais longe possível do labirinto que meus pés aguentassem me levar, enquanto eu piscava sem parar, afastando a escuridão da minha visão, tentando registrar e pensar com o mínimo de razão para chegar em algum lugar onde ninguém pudesse me ver.

Quando minhas pernas cederam à última de suas forças, olhei ao redor e me deixei cair em um dos bancos de ferro em um dos corredores vazios de salas de aula do prédio de Artes. Aparentemente, até através de todo aquele turbilhão de sensações e emoções ruins, eu ainda sabia que tudo estaria vazio no sábado de manhã, e ao finalmente constatar que estava realmente sozinha, foi como se tudo que eu tentava fazer para resistir àquela coisa opressora que se arraigava ao meu corpo sucumbisse.

Hollys.

O quadro misterioso.

Meu quadro.

O segredo.

O ruído.

Aquele era o pior de todos os pesadelos, não importava quantas vezes eu tivesse sonhado com as mais variadas versões dele, porque daquela vez, meus olhos estavam bem abertos, encarando uma parede em branco, mas o quadro continuava lá. A forma como as luzes iluminavam suas cores e pinceladas, de cabeça para baixo, era diferente do que eu estava acostumada a ver, mas ele estava mesmo lá, mais forte e mais imponente, totalmente real diante de Hollys, e era tudo culpa minha. Tudo culpa minha.

Tentei inspirar fundo, agarrando o banco com força sob minhas palmas, sentindo os dedos formigarem, mas nenhuma partícula de oxigênio pareceu entrar em meus pulmões. Engoli em seco, me obrigando a expulsar o pouco ar que tinha dentro de mim por entre os lábios, tentando me acalmar, mostrar a mim mesma que eu conseguia fazer aquilo, mas a tentativa foi tão falha quanto a primeira.

De repente, eu não conseguia mais respirar.

Meu corpo inteiro vibrava com as batidas errantes do meu coração acelerado, como se fosse o único órgão de meu corpo capaz de resistir ao fluxo dos rios de tinta que corriam por minhas veias, irrigando cada centímetro de cada veia, artéria, músculo e órgão com seus milhares de tons de medo, pavor, arrependimento e angústia que eu sentia se espalhando por todas as minhas partes escondidas, se instalando com especialidade em meu peito e em meus pulmões, sendo empurrados e barrados pelas vibrações de meu coração, e eu podia sentir as cores ficando mais fortes e irritadas, ganhando mais força para ir em direção ao meu coração.

Azul puro devastador. Cinza brasão inquisidor. Azul fantasma angustiante. Preto assustador.

Inspirei fundo mais vezes, minha respiração cada vez mais superficial, sentindo um aperto ao redor de minha garganta, e contra todos os protestos que minha mente tentava formular, minhas mãos soltaram o banco, formigando, sendo rapidamente inundadas pelos rios de tinta tóxica, e ao erguê-las, trêmulas até onde meu olhar pode vê-las, encarei os rios mais claros sob as luzes fluorescentes, fluindo em diversos tons e misturas de azul, cinza e preto, se movendo e quebrando como ondas, cobrindo meus dedos e todo o resto de mim com aquele pesadelo assombroso.

Hollys...

O quadro misterioso...

Meu quadro...

O segredo...

O sangue...

O ruído...

Tudo azul...

Tudo escuro...

Tudo tão profundo...

Por toda a parte...

Ao tentar respirar outra vez, meu corpo reproduziu uma espécie de arquejo, irrompendo por meus lábios como um último pedido de salvação, que minhas mãos cheias de tinta tóxica trataram de cobrir, me calando, me impedindo de protestar e sufocando a minha voz. Eu tremia, como se não fosse capaz de suportar o frio gélido e avassalador dos líquidos sujos correndo por meu corpo inteiro, e continuava inspirando e expirando cada vez mais fundo, esperando que qualquer quantidade ínfima de ar pudesse entrar e limpar toda aquela tinta, qualquer quantidade.

Tudo azul...

Tudo escuro...

Tudo tão profundo...

Por toda a parte...

Cobri os olhos com as mãos, tremendo, deixando de enxergar as cores profundas, e encarando apenas o vazio por debaixo de minhas pálpebras. Eu não queria ver. Não conseguia encarar. Era grande demais. Assustador demais.

Apertei bem os olhos. Senti que estava me encolhendo cada vez mais, e algo em algum canto escondido e imune da minha mente me fez acreditar que quanto menor eu ficasse, menos o pesadelo se interessaria por mim, já que eu era pequena, fraca e insignificante, e talvez assim ele não me veria, e iria embora. Talvez desaparecesse e me deixasse em paz.

Continuei apertando os olhos, me debruçando sobre mim mesma, e por um milésimo de segundo, o frio pareceu diminuir. A tinta parou de fluir. O medo parou de correr, e eu senti uma mínima fração de oxigênio entrar, tentando limpar caminho silenciosamente entre meus pulmões e o ruído em meus ouvidos. O ar estava tentando se parecer com ele, com o rio de tinta. Tentava enganá-lo. Queria me salvar. Eu o entendia. Sabia como era querer salvar alguém.

Me ergui, ainda com as mãos nos olhos, sentindo cada uma de minhas extremidades tremendo, tentando deixar os espaços livres para o ar fluir, serpenteando entre a tinta e o medo com audácia, confundindo-os, se esgueirando até meus pulmões e meu coração vibrante. Inspirei fundo, deixando cada vez mais ar entrar. Ele estava perto. Cada vez mais perto.

Tudo ficou quieto. O rio parou de fluir. O medo parou de se mexer. E o ar continuou a se mover.

E então, passei a sentir cada gota suja de tinta como pinceladas dilaceradoras em minha pele, meus olhos, meus cabelos, minhas roupas, me inundando e me levando a submergir cada vez mais fundo com seu toque gélido, me jogando dentro de sua piscina de água e tinta congelantes, tornando o barulho que assolava minha cabeça ainda mais alto e ensurdecedor, como o quebrar de ondas revoltas, engolindo, estilhaçando e destruindo cada molécula de ar e de coisas boas que eu tinha dentro de mim.

O pesadelo ia me consumir, daquela vez. Não acabaria quando eu abrisse os olhos, porque eu estava acordada, e ele continuava lá. Hollys continuava diante do quadro, vendo tudo, toda a verdade, e o quadro continuava por toda a parte. A verdade estava por toda a parte. Não havia como escapar.

Hollys...

O quadro misterioso...

Meu quadro...

O segredo...

O sangue...

...

Tudo azul...

Um som.

Tudo escuro...

Tudo tão profundo...

Outra vez.

O que era aquilo?

Por toda a parte...

Um sussurro.

Hollys...

De onde vinha?

O quadro misterioso...

Minah.

Meu quadro...

Meu nome.

O segredo...

O sangue...

Minah.

Tudo azul...

Minah?

Quem estava me chamando?

Tudo escuro...

Minah?

Tudo tão profundo...

Minah!

Por toda a parte...

— Minah!

Eu.

De repente, o ruído no fundo da minha cabeça havia desaparecido, e só restava o som alto de uma respiração ofegante, e batidas rápidas e insistentes, como o ressoar de um tambor. Senti meu corpo estremecer diante da sensação de silêncio que passou a me cercar, apesar de ouvir vários sons ao meu redor, mas não permiti que meus olhos se abrissem, nem tirei as mãos que os cobriam do lugar. O ar havia enganado o pesadelo uma vez, tentando se passar pelos rios de tinta para chegar até mim. Aquilo podia ser simplesmente uma tentativa de vingança do pesadelo, uma tentativa de me enganar, me dando esperança, para então destruí-la outra vez, para que me assustasse e doesse ainda mais. Ele ainda poderia estar por ali. Raramente ia embora tão facilmente.

— Minah. — Lá estava a voz, me chamando outra vez. Mais alta que um sussurro, porém mais baixa que um grito, estranhamente suave, quase como uma carícia. — Abra os olhos.

Balancei a cabeça. Não podia fazer aquilo. Quem quer que fosse, tinha que sair dali. Eu não podia responder. Não podia abrir os olhos. Não podia respirar. O pesadelo ainda estava por ali, à espreita. Eu ainda sentia o toque sujo dos rios de tinta em meus braços. Aquilo não havia acabado. Ainda não.

— Minah — a voz chamou de novo, tão suave quanto da primeira vez, parecendo estar ainda mais perto, mais familiar. — Não tem mais nada aqui. Pode abrir os olhos. Já foi embora.

Senti meu cenho se franzir. Aquela voz era tão familiar. Tão suave. Muito suave. O pesadelo jamais seria capaz de falar daquela forma. Ele não falava. Só aterrorizava e roubava minhas palavras, prendia minha língua, tirava meu fôlego e me deixava no escuro. Aquela voz acariciava. Era mansa, e eu queria acreditar nela, mas ainda sentia o medo gélido correndo por minhas veias. Muito medo.

Foi então que senti um toque em minhas mãos, e eu rapidamente as arranquei dos olhos, que se abriram sem que eu pudesse impedi-los, me obrigando a piscar contra o incômodo da claridade.

Luz. Havia luz ali.

Olhos enormes me encaravam, exatamente em minha linha de visão. Olhos escuros como a noite, cheios de pequenos pontos brilhantes, como pingos de tinta branca em uma tela representando a escuridão de uma galáxia. Olhos bonitos e suaves, emoldurados por uma franja escura, que não pareciam estar assustados com nenhum pesadelo sombrio. Olhos que me devolveram o fôlego.

— Ei — Jeon Jungkook murmurou baixinho, como se não quisesse me assustar, piscando rapidamente os olhos enormes sem tirá-los dos meus. — Desculpe. Sinto muito. Não queria te assustar. Não vou fazer isso de novo, está bem? Aqui — estendeu suas mãos até as minhas, que estavam encolhidas perto do pescoço, deslizando os dedos e as palmas quentes suavemente entre as minhas, frias e presas, levando-as até meu colo, e foi então que percebi o quanto minhas mãos estavam frias e trêmulas, o que Jungkook também pareceu perceber, enganchando os polegares nos meus com firmeza, e eu quase podia enxergar as linhas cinzentas de um lápis grafite sobre uma tela em branco, desenhando os dois pares de mãos, os dedos e as palmas quentes de Jungkook sendo cobertos por pinceladas de tons suaves e opacos de vermelhos alizarina, cardeal, amaranto, carmesim e coral, que se misturariam, em um degradê crescente, aos meus tons de azul eclesiástico, paraíso escondido, talvez até um pouco de colar de safira, formando diferentes tons bonitos de roxo. — Vamos respirar fundo, está bem? Juntos. Devagar. Para dentro e para fora, desse jeito.

Seus ombros se ergueram debaixo do moletom quando ele inspirou profunda e lentamente, apertando minhas mãos um pouco mais, mas não a ponto de me machucar, fazendo os buracos de suas narinas dilatarem, para em seguida voltarem ao normal quando deixou a respiração escapar entre os lábios finos e vermelhos sem pressa, afrouxando um pouco o aperto em minhas mãos, acenando com a cabeça quando foi a minha vez de inspirar fundo e apertar as suas.

Talvez eu tenha apertado-as demais, com medo de que, sem aquela firmeza e o calor, eu ficasse solta e exposta, vulnerável outra vez, e o frio voltasse a me atingir, mas Jungkook não pareceu se incomodar, e continuou a me olhar com firmeza e suavidade, me encorajando a encher meus pulmões com ar até meus ombros se erguerem tanto quanto os dele, para então soltá-lo lentamente, relaxando o aperto entre nossas mãos para algo mais confortável e suave, sem soltá-las.

A cada vez, eu sentia os resquícios de tinta suja e medo fugindo do ar que entrava em meus pulmões, começando a desaparecer e me deixando limpa. Minha respiração ganhou um novo ritmo, e eu sentia meus sentidos voltando lentamente ao meu controle, minhas mãos mais quentes e menos trêmulas. A cada respiração, os olhos brilhantes de Jungkook me enchiam de ar para respirar, sem me deixarem. A cada segundo, me davam novas cores para pintar.

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"— Você está aqui para me salvar? — pergunta ele, atraindo minha atenção de volta a seus olhos."

— Confesse (Colleen Hoover)

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Hollys

— Odeio quando ela faz isso — resmunguei, bufando ao tentar passar pela multidão de pessoas reunidas ao redor das obras de arte expostas pelo labirinto. — Ela acha que eu sou tão idiota ao ponto de não enxergar quando tem alguma coisa errada?

Toda vez que minha mente se desviava um pouco da realidade e da escuridão do labirinto pontualmente iluminada pelas luzes das obras ao meu redor, chegava até Minah, me lembrando de seu rosto completamente lívido e incomodado com alguma coisa, apenas alguns instantes antes, sentia meu peito apertar com a lembrança daquela cena. Havia alguma coisa muito errada, eu tinha certeza disso, mas não fazia ideia do que era. Parecia uma reação um pouco exagerada demais para significar apenas nervosismo pela inauguração de sua exposição. Minah raramente ficava nervosa com aquele tipo de coisa. Ela era incrível no que fazia, e mesmo que talvez não acreditasse quando os outros a elogiavam — porque era simplesmente assim que Minah era —, sabia muito bem o que estava fazendo, e que tudo acabava saindo exatamente como deveria, tamanha a sua dedicação, o que só me dizia que o problema era algo muito pior, e era horrível quando ela tentava esconder de mim quando havia algo errado. Era como se estivesse se fechando ao redor de si mesma, e eu odiava aquela sensação de estar preso do lado de fora.

— Ela deveria estar tentando manter a calma — Taeyong murmurou, a voz geralmente mansa levemente tensa. Não podia vê-lo, atrás de mim, mas imaginei que deveria estar torcendo os dedos em nervosismo, provavelmente em busca de um cigarro imaginário. Ele fazia aquilo quando estava muito nervoso.

— Bela tentativa de merda — Mark Tuan retrucou, com a voz mais agitada e abusada que o normal.

Revirei os olhos, sentindo um misto de irritação, urgência e impaciência queimarem em meu estômago quando fui obrigado a parar minhas passadas apressadas para que uma senhorinha apoiada em uma bengala atravessasse de uma parede do labirinto para outra a passos muito lentos, sentindo Taeyong e Mark esbarrarem em minhas costas. Porque sempre apareciam tantos obstáculos quando se precisava sair urgentemente de um lugar?

— Onde você foi, onde você foi, onde você foi? — murmurei para mim mesmo quando pude andar outra vez, chegando a ser mal educado ao esbarrar nos ombros de muitas pessoas, pedindo desculpas rápidas e vazias, seguidas pelas de Mark e Taeyong. Tudo o que eu queria era sair dali e encontrar minha irmã, mas aquela missão parecia estar se tornando cada vez mais difícil.

Quando estávamos perto da entrada do complexo da exposição, eu já estava quase correndo, percebendo de relance os olhares curiosos e julgadores das pessoas por quem passava, mas naquele momento, não podia me importar menos, especialmente quando o cara que estava recolhendo as entradas me lançou um olhar alarmado, como se soubesse quem eu era e estivesse tão preocupado com Minah quanto eu. Aquilo fez meu estômago se torcer em nervosismo.

— Ela foi naquela direção — o recepcionista disse, apontando na direção do corredor de salas, do outro lado do prédio do departamento de Artes, e eu me lembrava de ter acenado rapidamente em agradecimento antes de sair correndo outra vez, passando pelas paredes externas da estrutura do labirinto em direção às salas de aula.

— Hollys, espera! — ouvi Taeyong e seu pulmão de fumante me chamarem, soando ofegantes, enquanto eu puxava o celular de um dos bolsos.

— Não posso — retruquei, digitando rapidamente uma mensagem para Minah perguntando onde ela estava, mas a mensagem só foi enviada, e não recebida. Me virei rapidamente para lançar um olhar por cima de ombro para os meus amigos, vendo que estavam muitos passos atrás de mim. — Droga! Vou na frente enquanto tento falar com ela. Vocês me alcançam quando puderem.

— Cacete — Mark resmungou, e eu até tentei prestar atenção no que ele dizia enquanto rolava pela minha lista de contatos, procurando o de Minah em meio ao borrão de nomes que passava diante de meus olhos, e continuava andando a passos largos e rápidos. — Não adianta correr desse jeito se você...

— Não olhar pra onde está indo! Hollys! — Taeyong completou, falando um pouco mais alto em um tom alarmante, chamando minha atenção, mas quando ergui os olhos da tela do celular já era tarde demais, e só tive tempo de sentir alguma coisa se chocando contra mim com força o suficiente para me fazer cambalear e quase cair de bunda no chão.

— Opa! — ouvi a voz surpresa da pessoa em quem tinha esbarrado bem perto de mim, mas devo ter fechado os olhos quando percebi o que ia acontecer, porque demorei alguns bons instantes para voltar a ver o mundo ao meu redor.

— Aish! — retruquei, dando um passo para trás e sacudindo a franja para longe dos olhos, tentando enxergar meio metro à minha frente. — Olha, me desculpa mesmo por não ter te visto, mas eu preciso encontra-Jimin?

Os olhos arregalados e surpresos de Park Jimin sorriram minimamente para mim enquanto ele passava uma das mãos pelos cabelos loiros quando finalmente nos encaramos, e eu pisquei repetidamente, não sabendo lidar com a surpresa por encontrá-lo logo ali. Dei mais um passo para trás, tentando dar espaço para que ele se recuperasse do choque tanto quanto eu, sentindo meu coração bater como um louco contra meu peito, e foi então que percebi que minhas mãos estavam segurando seus braços. Eu devia ter tentado impedir que ele caísse de bunda no chão quando batemos um no outro sem nem ter percebido.

Soltei seus braços, garantindo que ele estivesse firme no lugar, e me senti um pouco constrangido ao notar a proximidade, mas me sentia menos culpado por ter esbarrado nele. Pelo menos não havia deixado-o cair.

— O-oi! — cumprimentei-o, balançando a cabeça como se aquilo pudesse me deixar menos confuso, querendo muito retribuir o sorriso amigável de Jimin, mas a preocupação em minha mente ao lembrar de Minah não deixou que eu o fizesse. — Tudo bem? Não sabia que você estaria aqui hoje! Viu a minha irmã por aí?

Acho que meu nervosismo estava mais do que claro em minha voz, porque o sorriso de Jimin se desmanchou e ele franziu o cenho, olhando para além de mim, encontrando Taeyong e Mark, que haviam acabado de nos alcançar e estavam esbaforidos e ofegantes, apoiando as mãos nos joelhos depois de correr atrás de mim. Eu mesmo estava com o peito subindo e descendo rapidamente, e o olhar preocupado que Jimin lançava em nossa direção só fazia meu coração acelerar ainda mais.

— Não, não vi — ele murmurou, piscando. — Estava procurando por um amigo na cafeteria, mas ele não está em lugar nenhum. Aconteceu alguma coisa com a Minah?

Engoli em seco, sem saber se deveria ou não contar para Jimin sobre a reação esquisita da minha irmã na exposição, mas descartei a dúvida no mesmo instante, porque os dois eram amigos próximos, e Minah gostava muito dele, e pelo jeito como ele estava me olhando, parecendo mais preocupado do que antes, eu sabia que gostava ainda mais dela. Mas como poderia contar sobre aquilo quando eu mesmo não sabia ao certo o que havia acontecido?

— Não sei — respondi finalmente, engolindo em seco outra vez quando senti dois tapinhas nas costas, provavelmente de Mark Tuan. — Ela só saiu correndo no meio da exposição, sem explicar nada, mas não parecia nada bem. Me disseram que ela foi naquela direção.

Jimin franziu o cenho ainda mais. Parecia saber tão bem quanto eu que para dizer que Minah não parecia estar bem, era porque havia realmente alguma coisa muito errada no universo, já que ela quase nunca demonstrava qualquer coisa além de tranquilidade. Maldita carinha bonita de protetor de tela de Windows.

— Então é pra lá que a gente vai — Jimin falou finalmente, me olhando com preocupação e determinação antes de se virar para caminhar a passos largos, que eu, Taeyong e Mark acompanhamos rapidamente, sem muito espaço para argumentar qualquer coisa. Uma sensação estranha tomou lugar em meu peito quando vi que ele estava indo conosco, mas parecia ser uma sensação tão bem-vinda quanto Park Jimin, e seria mais um par de olhos que se importavam com a Nanah para encontrá-la. Ele se virou rapidamente enquanto vasculhava com o olhar cada uma das salas pelas quais passávamos, se dirigindo aos meus amigos com educação. — A propósito, apesar das circunstâncias, é um prazer conhecer vocês. Meu nome é Jimin.

Mark e Taeyong, voltaram o olhar para ele e acenaram com a cabeça, devolvendo o cumprimento. Provavelmente estavam curiosos para saber como eu conhecia Jimin e sobre aquela simpatia toda, mas não perguntariam nada tão cedo. Não até que encontrássemos minha irmã.

— Sou Mark Tuan — Tuan se apresentou, apontando com a cabeça na direção de Taeyong, que também acenou. — Esse é Taeyong.

— É um prazer — Taeyong falou, e quase sorriu, o que fez Jimin sorrir pequeno antes de voltarem a olhar através dos vidros de todas as salas trancadas, procurando algum sinal de Minah, enquanto chegávamos cada vez mais perto do final do corredor.

Onde você está, onde você está, onde você está?, pensei repetidamente, alternando freneticamente o olhar entre um lado do corredor e o outro, começando a pensar em outros lugares onde ela poderia estar, e em como eu faria para conseguir entrar nos banheiros femininos do Departamento de Artes para checar, e...

— Ali! — Mark Tuan apontou para a minha esquerda quando chegamos ao fim do corredor, na direção de um outro corredor branco e cinza, pontuado pelos armários coloridos e decorados que o ladeavam e enfeitavam.

No meio de todas as cores do corredor, sentada em um banco com seu vestido de Wandinha Addams, de frente para a figura ajoelhada e vestida de preto da cabeça aos pés de Jeon Jungkook, segurando suas mãos e encarando-o diretamente, e ele a ela, respirando profunda e lentamente ...

Minah.

— Nanah! — chamei-a, avançando a passos largos em sua direção, só percebendo que estava interrompendo alguma coisa quando Jeon Jungkook e minha irmã ergueram os olhos em minha direção, os dele parecendo surpresos, e os dela... como eu nunca havia visto se direcionarem à mim. Senti meu peito se encolher com a sensação de que havia um punho cerrado ao redor do meu coração que batia freneticamente, mas me obriguei a caminhar os últimos passos que nos separavam, me ajoelhando à frente de Minah, que soltou as mãos de Jungkook e enrijeceu no mesmo instante, engolindo em seco e franzindo o cenho ao me encarar enquanto eu segurava seus braços e os apertava com carinho, como se aquilo pudesse ajudar em alguma coisa. — Nanah, o que aconteceu? Você está bem? Porque saiu correndo daquele jeito? O que tem de errado?

Minah engoliu em seco outra vez, piscando como se estivesse se recompondo ao olhar ao redor, encontrando Jimin, Taeyong e Mark, e de alguma forma, conseguiu ficar ainda mais pálida debaixo das luzes fluorescentes do corredor. Pensei ter visto uma pequena amostra do mesmo pavor estranho que havia tomado conta de seu rosto no dia em que comemoramos sua seleção de estágio, mas se vi, ele desapareceu tão rápido quanto se mostrou, porque Minah balançou a cabeça, piscando mais vezes e olhando para mim sem nenhuma expressão que eu pudesse ler.

— Estou bem — murmurou, e sua voz saiu meio falha, fazendo-a pigarrear e continuar, mais suavemente. — Foi só uma queda de pressão. Tem muitas pessoas lá dentro. Estava meio quente. Foi só isso.

Foi a minha vez de franzir o cenho, percebendo pelo canto do olho o olhar esquisito e tenso que Jeon Jungkook lançava em nossa direção, como se soubesse que não havia sido só uma queda de pressão. Afinal de contas, ele estava com ela antes de chegarmos. Provavelmente tinha visto o que aconteceu.

— Tem certeza, Wendy? — Mark Tuan perguntou, fazendo Minah erguer os olhos em sua direção, também encarando-o sem expressão. — Você deu um puta susto na gente.

O olhar de Minah pareceu tremeluzir com alguma emoção contida, mas ela apenas assentiu para Mark, e pelo movimento em sua mandíbula, percebi que estava cerrando os dentes. Tinha mesmo alguma coisa muito errada, e ver o quanto ela parecia estar se segurando, ou tentando se recompor, só me deixava ainda mais nervoso, aumentando a sensação de nó em meu estômago e o peso em meu peito. Só queria saber o que estava acontecendo e como eu poderia ajudá-la a não se sentir mal com o que quer que fosse. Só isso.

— O que eu posso fazer, Nanah? — perguntei, sentindo a garganta se fechar com a emoção contida e a súplica contidas em minha voz, desejando poder envolvê-la em meus braços e que aquilo pudesse fazê-la se sentir melhor do que o que estava sentindo, como ela fazia comigo quando éramos crianças, e quando era necessário mesmo depois de já termos crescido. — Você quer que eu te ajude, quer que eu pegue alguma coisa, uma água, que te leve pra casa...

— Não — Minah soltou, me interrompendo e fazendo com que eu me sobressaltasse, enquanto ela me olhava e falava comigo com suavidade, porém com firmeza, exatamente como falava com mamãe, às vezes, e exatamente como falava comigo quando éramos mais novos. Odiei me sentir como se tivesse 14 anos de novo. — Não preciso que você faça nada. Estou bem, Hollys — ela engoliu em seco, sem tirar aquele olhar do rosto, e eu recolhi minhas mãos até as coxas, sentindo meu cenho se franzir e uma angústia muito familiar tomar conta de meu corpo quando Minah ergueu os olhos para os meus e os seus amigos ao nosso redor, falando no mesmo tom suave, firme e condescendente que me transformava em um menino outra vez. — Estou bem. Sinto muito por ter preocupado vocês — olhou para mim outra vez, já parecendo tão tranquila e serena quanto sempre parecia, como se seus olhos estivessem blindados e distantes das emoções que queriam tomar conta deles há pouco. — Vou ao banheiro. Vejo vocês depois.

Me afastei quando Minah se levantou, puxando as pontas de seu vestido e ajeitando-o no lugar antes de seguir, caminhando suavemente como sempre caminhou, em direção ao resto do corredor com os ombros encolhidos, como sempre foram, conforme ela abraçava a si mesma, sendo acompanhada pelos olhos de todos nós, e especialmente, pelos olhos escuros de Jeon Jungkook, que pareciam quase pesarosos, tristes de um jeito estranho. Acho que vi Minah estremecer, como se estivesse incomodada por ter tantos olhos sobre si, mas não tinha tanta certeza, já que nunca a havia visto fazer aquilo. Era muito difícil enxergar o que acontecia com a minha irmã estando trancado do lado de fora dela outra vez.

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"Sabe quando a gente às vezes percebe que tem alguma coisa errada com alguém, mas não sabe exatamente o quê? E quando a gente toca no assunto a pessoa age como se não tivesse a menor ideia do motivo da pergunta? Você fica se achando meio louco. Como se estivesse paranoico. Porque lá no fundo você sente que a pessoa que você ama não está bem. Mas parece bem. Parece estar normal."

— Daisy Jones & The Six (Taylor Jenkins Reid)

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Ergui os olhos do notebook quando ouvi o barulho do móbile de bambu da porta de entrada tilintando, anunciando que eu já não estava mais sozinho em casa, e logo fechei a janela aberta com uma foto de Minah e eu quando éramos crianças e a pasta com muitas outras, que eu estava vasculhando há mais de uma hora, sem saber bem o por quê, voltando para um trabalho pela metade de Informação, Linguagem e Interação. Talvez dizer que ele estava pela metade fosse muito generoso. Em andamento seria melhor. Eu mal tinha passado da introdução.

— Olá, olá — papai me cumprimentou ao entrar na cozinha, deixando sua bolsa carteiro sobre uma das banquetas altas ao redor da bancada antes de ir em minha direção e beijar meus cabelos. — Tudo bem, filho? Como foi o seu dia?

— Cheio — murmurei, acompanhando meu pai com o olhar enquanto ele lavava as mãos e se abaixava para encher uma chaleira com água, provavelmente para fazer chá. — E o seu?

— Ah, foi muito bom — ele respondeu, e sua voz soava muito alegre, mesmo que aparentasse estar cansado. Kim Chimae sempre tinha um pouco de alegria dentro de si. — Dei muita sorte com a minha nova cliente. Só teria sido ainda melhor se eu tivesse ido à exposição da sua irmã. — Papai se virou para me olhar por cima do ombro enquanto escolhia algumas de suas ervas de chá para colocar na chaleira, franzindo o nariz para ajeitar os óculos no lugar, com os olhos brilhando com empolgação. — Por falar nisso, como foi? Não se importe em me contar tudo. Você sabe como eu gosto de... — franziu o cenho, quase me fazendo rir de sua expressão confusa — Como é o nome mesmo quando você conta algo de alguma coisa que a pessoa ainda não sabe?

— Spoilers — respondi, e ele assentiu, sorrindo e voltando a olhar para seus potinhos por alguns instantes, o suficiente para que talvez não visse as emoções e a indecisão em meu rosto enquanto tentava escolher o que poderia contar sobre a exposição. — Foi... muito interessante. Uma coisa pra se ver com os próprios olhos.

Por algum motivo, simplesmente não consegui contar o que havia acontecido. Quanto mais pensava a respeito, menos tinha coragem de dizer qualquer coisa. Não senti que tinha propriedade para falar sobre aquilo. Não era como se fosse algo meu.

— Ahhhhh — papai soltou, acendendo uma das bocas do fogão e colocando a chaleira de inox sobre ela. — Deve ter sido bem marcante. As coisas que sua irmã fazem são sempre assim.

Engoli em seco da forma mais discreta que pude e assenti, revivendo em minha mente todos os eventos e emoções daquela manhã pelo que deveria ser a milésima vez durante todo o dia. Todas as obras únicas, a multidão de pessoas no labirinto escuro, o vestido de Minah, seu rosto lívido apavorado, Taeyong procurando cigarros nervosos, o rosto surpreso e preocupado de Park Jimin, o olhar triste e esquisito de Jeon Jungkook, vestido de preto da cabeça aos pés.

— É — concordei. — Marcante.

— Mal posso esperar pra ver. Sabe se Minah vai chegar a tempo do jantar? — meu pai perguntou, vasculhando a geladeira. — Sua mãe vai jantar na ONG hoje. Podemos improvisar alguma coisa. Tem pão e queijo, se não me engano. Precisamos fazer compras.

— Ela disse que tinha algumas coisas para resolver — murmurei, e aquela parte não era uma meia verdade. Era realmente o que Minah havia me dito. — Coisas da exposição. Não tem hora pra chegar, mas disse que não precisamos nos preocupar com ela. Disse que ia comer em algum lugar na rua.

Papai assentiu, e vi que tentou não parecer chateado. Eu sabia o quanto ele gostava de fazer refeições em família, e sabia também que as várias saídas e sumiços de Minah o deixavam meio para baixo, mesmo não entendendo bem o porquê. Minha irmã era um tipo de espírito livre. Não era do feitio dela se manter muito em um lugar só, mesmo que esse lugar fosse sua casa. Acho que, no fundo, ele tinha medo de que ela não gostasse de estar em casa, conosco.

Me senti meio mal por estar tão calado e respondendo tão pouco a tudo o que ele dizia, mas simplesmente não consegui encontrar o ânimo para parecer mais entusiasmado. Minha mente estava cheia de muitas coisas, e eu nem havia processado todas elas. Iria precisar de mais algum tempo, mas tinha muita sorte de estarmos só eu e papai, porque sabia que ele não me encheria de perguntas desconfortáveis, só continuaria me fazendo companhia e me distraindo um pouco, e acho que era exatamente o que eu precisava.

— Então somos só eu e você — papai comentou e sorriu, passando por mim e apertando meus ombros com carinho. — Pode ficar de olho nessa chaleira para mim enquanto tomo um banho, por favor? — assenti, acompanhando enquanto papai pegava sua bolsa e ia devagar na direção das escadas, torcendo uma das alças entre as mãos antes de olhar por cima do próprio ombro, abrindo um sorriso amarelo e meio sem graça ao perceber que eu o observava. — Eu não queria incomodar, porque você parece ocupado... Mas o que acha de continuarmos aquela série de comédia que começamos outro dia, hein? Brooklyn Nine-Nine?

— Vou fazer a pipoca — falei, piscando um olho para meu pai, que abriu um enorme sorriso alegre e inocente, assentindo antes de subir as escadas.

Quando fiquei só outra vez, senti o peso de tudo o que havia acontecido tomar conta de meus ombros e da minha mente outra vez. Esfreguei os olhos, tentando desanuviar minha cabeça, mas tudo o que eles enxergavam, mesmo fechados, era uma sucessão de visões do rosto de Minah, indo de assustado e lívido para sereno, firme e distante, com uma rapidez maior do que eu era capaz de acompanhar. Seus olhos castanhos escuros blindados me encaravam, e eu não conseguia identificar nenhuma das emoções que pareciam tremeluzir por trás de sua serenidade. Totalmente incompreensível.

Eu conhecia minha irmã. Sabia quem ela era, e a amava exatamente daquele jeito, mesmo sem entendê-la completamente, com todos os segredos que provavelmente tinha. Mas a cada dia, pareciam haver ainda mais incógnitas por trás de seus olhos do que eu jamais poderia entender estando trancado do lado de fora.

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"Seus olhos eram como o céu noturno no deserto.

Tive a sensação de que existia um mundo todo dentro dela. Eu desconhecia esse mundo totalmente."

— Aristóteles e Dante Descobrem os Segredos do Universo (Benjamin Alire Sáenz)

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Taehyung

Parei ao sentir as pedrinhas irregulares do caminho de entrada do jardim debaixo dos chinelos e respirei fundo.

A casinha era tão amarela quanto eu me lembrava, como se todos aqueles anos e a ausência de um morador não pudessem ter estragado nem ofuscado nem um pouco de sua tinta radiante em meio às outras casas cinzentas da vizinhança, e aquilo me surpreendeu, como se estivesse esperando que aquilo tivesse mudado em apenas alguns dias desde que havia estado ali, mesmo sabendo que era quase impossível. O jardim em frente à casa estava mais seco e acanhado do que costumava ser por conta do inverno, e as pequenas cercas brancas tinham manchas de poluição, mas o conjunto da obra inteira ainda transmitia certo aconchego. A sensação de estar prestes a entrar em um lar de verdade.

O barulho familiar das pedras sob meus pés era reconfortante, e serviu para diminuir consideravelmente a pequena sensação incômoda arraigada em meu estômago, mas qualquer pequeno conforto que encontrei no caminho de pedrinhas se foi completamente quando alcancei a porta de entrada e pousei a mão sobre uma maçaneta dourada e reluzente, perfeitamente polida e sem nenhum arranhão, que não era nada parecida com a antiga maçaneta de bronze envelhecida e cheia de arranhões que esteve ali durante tantos anos, e estava ali até alguns dias atrás. Uma nova maçaneta significava uma nova fechadura. Uma nova fechadura significava uma nova chave. Uma nova permissão para entrar. Uma permissão que eu não possuía.

Engoli em seco, me obrigando a continuar o que já havia começado, e tentei girar a maçaneta, sentindo tremendo alívio ao senti-la se movendo sob minha palma, e ao ouvir clique familiar da porta se abrindo, sentindo meu coração retumbar contra o peito. Talvez, bem talvez, nem tudo estivesse perdido.

O interior da casa estava silencioso como sempre, notei enquanto tirava os chinelos perto da porta. O ambiente limpo tinha um leve cheiro de desinfetante com algum tipo de essência de cheiro suave. As luzes amarelas estavam acesas. As paredes ainda eram amarelas e vibrantes, emolduradas por soleiras de madeira escura e envernizada cheias de pequenos desenhos de flores coloridas entrelaçadas. Todas as poucas coisas estavam no lugar de sempre. Nada havia mudado até ali.

Continuei caminhando, sentindo as tábuas frias de madeira do piso rangendo sob meus pés descalços, seguindo pelo corredor estreito e amarelo em direção à poça de luz um pouco mais clara vinda do quarto à esquerda, banhando uma parte do corredor. De lá, também não vinha som algum. Nada que eu pudesse ouvir estando do lado de fora. Nenhum barulho de pincéis tilintando contra recipientes com água. Nenhum som de uma tela nova sendo colocada em um cavalete de madeira. Nenhum som de embalagens de tinta sendo remexidas. Nada. Só um silêncio ensurdecedor.

Minah estava parada no meio do quarto, de costas para mim. Os ombros estavam caídos, como de costume, cobertos por um vestido preto e branco. Estava com os braços ao redor de si mesma, como se estivesse com frio, mas seu enorme casaco escuro estava jogado em um canto no chão. À sua frente, estava a enorme parede coberta de quadros belíssimos e obscuros do chão ao teto. Tudo parecia normal. Quase normal, não fosse por haver um enorme buraco entre os quadros, revelando um pedaço da parede amarela atrás deles, coberta por desenhos de pequenas margaridas brancas, e pelo fato de o corpo inteiro de Minah estar tremendo.

Não ousei anunciar que estava ali. Ela podia sentir minha presença ao ouvir meus passos fazerem a madeira do piso ranger. Sempre sabia quando eu chegava sem ter que olhar. E mesmo que não tivesse percebido, talvez por estar presa dentro de seus próprios pensamentos como costumava fazer, eu não a assustaria.

Seus ombros se ergueram com uma respiração profunda, voltando a ficarem baixos quando seus pés descalços se moveram sobre o chão e ela se virou em minha direção, finalmente erguendo o rosto e me encarando. E quando seus olhos encontraram os meus... Se eu pensava que Minah não podia partir meu coração outra vez, ela estava me provando o contrário naquele exato momento.

Os lindos olhos enormes e serenos da minha melhor amiga estavam tristes como eu não via há muito tempo. Muito mesmo. O brilho das lágrimas contidas contra as luzes amarelas das lâmpadas no teto deixavam seu rosto totalmente banhado pela luz, sem nenhuma sombra, o que de alguma forma, só deixava sua tristeza em maior destaque. Os lábios desenhados pressionados um no outro, sem o menor indício da felicidade que eu sempre queria tanto ver, e que sabia que não encontraria.

Ali estava a mudança que eu esperava.

Nenhum de nós ousou dizer nada por algum tempo. Minhas emoções estavam presas em minha garganta enquanto eu apertava as mãos em punhos cerrados, sentindo minhas unhas perfurarem a pele, enfiando-os fundo nos bolsos da minha calça. Cerrei os dentes. Minah apertou mais os braços ao redor de si mesma. Eu não tinha o direito de demonstrar o quanto estava abalado por vê-la daquele jeito. Só deixaria tudo pior do que já estava.

Foi ela que assumiu a tarefa de cortar a tensão e o silêncio quase palpáveis entre nós, e eu desejei que não tivesse feito, porque não sabia o que esperar, mesmo sabendo que aconteceria em algum momento, e a dor em meu peito só aumentou.

— Como pôde fazer isso comigo? — disse, sua voz não muito mais alta que um sussurro, mas muito mais magoada e dolorosa do que se tivesse gritado comigo.

Lá estava ela. Partindo meu coração outra vez.

Engoli em seco, mantendo meu olhar firme no seu, me esforçando mais do que nunca para não me encolher diante dele. Para não me jogar aos seus pés, abraçá-la e pedir perdão. Aquele não era o motivo de eu estar ali.

— Não é o que você pensa que é — falei, reunindo mais firmeza em minha voz do que achei que seria possível com todo o abalo que as batidas de meu coração pareciam estar causando em meu corpo.

Os lábios de Minah se contraíram ainda mais, e os olhos tremeluziram, fazendo as lágrimas contidas neles dançarem, brilhando, mas mantendo-se firmes, como se soubessem que não deveriam cair, porque Minah não queria que caíssem, uma das poucas coisas sob as quais ela era capaz de manter o controle. Eu tinha total consciência de que aquelas palavras eram as mais clichês e as piores que eu poderia dizer naquele momento, mas precisava que ela soubesse que aquilo não era mais uma de minhas brincadeiras, nenhuma pegadinha. Jamais faria o que fiz como uma pegadinha para Minah.

— Aquele quadro não deveria existir em nenhum lugar fora deste quarto — Minah murmurou como uma súplica, o tremor em seu corpo refletindo em sua voz e em suas lágrimas, que ela enxugou furiosamente antes que eu sequer as visse cair. — Nada dentro dele deveria existir. Você sabia disso.

Assenti, concordando com cada uma de suas palavras.

— Sabia — murmurei, encarando-a e dando um passo para frente, tentando não me encolher com a pontada em meu coração quando Minah deu um passo para trás, se encolhendo para longe de mim. — Mas queria te dar algo que você não tem há muito tempo.

Minah franziu o cenho, confusa, sem fazer ideia do que eu estava falando ao me olhar com o rosto acanhado meio erguido quando parei à sua frente, tirando as mãos trêmulas dos bolsos e envolvendo suas bochechas entre elas, sentindo a pele fria e úmida contra minhas palmas ainda mais frias de puro nervosismo. Não deixei que seus argumentos me detivessem. Não me encolhi ou me afastei diante de seu olhar, porque era isso que ela queria, e eu não poderia mais deixá-la fazer isso consigo mesma.

Me inclinei e pressionei os lábios contra sua testa, sentindo seu cheiro familiar de lavanda e sua respiração irregular contra meu pescoço, o corpo enrijecido exalando tensão perto do meu coração frenético e partido.

— Liberdade — sussurrei com carinho contra sua testa, sentindo-a estremecer sob minhas mãos. — Quis te dar liberdade, Flor do Dia.

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"Como você pode falar quando uma pessoa em quem você confia rouba a sua voz?"

— O Silêncio das Águas (Brittainy C. Cherry)

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Os braços finos de Minah tombaram ao lado do corpo, e ela ouviu o som do pincel e do godê de cerâmica se chocando com um baque seco contra o chão de madeira coberto por um lençol cheio de manchas de tinta, quebrando o silêncio da solidão que a envolvia naquele pequeno quarto de margaridas, mas pareceu tão distante que ela sequer se incomodou em olhar, como se fosse algo de outra realidade, bem longe daquele quarto.

Piscou os olhos úmidos, que ardiam com resquícios de lágrimas, mas não as sentia caindo mais, nem o sopro em seu peito causado pelos soluços, só sua respiração ofegante e cansada. Não sentia nada. Não havia mais nada tão importante do que o quadro em que seus olhos estavam pregados.

Os mais diversos tons de azul, cinza e preto se mesclavam furiosamente na tela à sua frente, com pinceladas indistintas e de aparência desconexa, formando uma enorme confusão, aos olhos de qualquer outra pessoa, mas que Minah sabia que faziam total sentido, e que eram capazes de causar um entalo na garganta e de roubar o sono de alguém, porque era isso que acontecia com ela todas as noites. Como um pesadelo que se torna realidade.

Seu corpo inteiro estava trêmulo, e ela abraçou a si mesma, forçando-se a continuar encarando o quadro e seu segredo. Era a coisa mais horrível e linda que havia feito em seus míseros 15 anos de vida. A coisa mais assustadora e mais real. A mais triste e angustiante de todas. Mas era a única da qual ela não se arrependia, e a única que ela jamais mudaria um traço sequer, porque sentia e sabia que merecia encarar aquilo.

Engoliu em seco, se abaixando para pegar o godê caído, encontrando um pincel fino em meio à toda a bagunça, e se aproveitou da pequena poça de tinta branca que havia se misturado com algumas gotas de tinta preta quando caíram, e as misturou, transformando-as em uma coisa só, um tom de cinza indistinto, que uniu o claro e o escuro. Teria que servir.

Se ergueu outra vez, voltando a encarar o quadro e passando as mãos pelas bochechas ao se aproximar, sentindo cócegas frias da tinta sendo amassada por seus pés, e, como uma verdadeira artista, segurando o pincel entre seus dedos finos talentosos, assinou de forma trêmula o quadro no canto inferior do lado direito, tão pequeno que poderia passar despercebido, mas definitivamente presente de alguma forma. O cinza recém misturado ganhou um pouco dos tons de azul ainda frescos, assumindo um tom indistinto entre as duas cores.

Estava feito. Ela era parte do quadro. Parte do pesadelo. Como deveria ser.

Se afastou, voltando a admirar sua criação, apoiando o pincel no cavalete e passando as mãos pelos braços, como se tentasse afastar os tremores e calafrios, se dando conta de que os dedos e as palmas estavam cobertos pelas cores do quadro, deixando rastros de tinta escura por onde passavam. Minah estremeceu ainda mais, e sentiu a garganta se fechar em torno de si mesma, e os olhos arderem, mas não ousou desviá-los. Ela precisava encarar aquilo, foi o que disse a si mesma. Merecia aquilo. Se sujar daquele jeito.

O segredo não era seu, e ela tentou deixá-lo voltar para quem deveria possuí-lo. Mas ao ser forçada a escondê-lo, ela havia transformado-o em um pesadelo e se tornado parte dele, sem querer, e ele agora também era parte dela, para sempre. Não havia mais ela. Ele era ela. Tudo dentro dela era dele.

Hollys.

O sangue.

Tudo azul.

Tudo escuro.

Tudo tão profundo.

Por toda a parte.

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Notas Finais


E aí??? Me contem tudinho, como foi!!!! Esse capítulo foi o mais difícil de ser escrito até agora, porque todas as emoções envolvidas nele são muuuuuuuito delicadas, e esse foi um dos motivos que me fez ter demorado tanto para atualizar. A partir de agora, as coisas vão realmente começar a se desenrolar, e eu estou adorando passar por cada pedacinho da história sem pressa, e espero poder voltar aqui com mais frequência continuar essa caminhada junto com vocês! Se sintam à vontade para conversar comigo através de qualquer lugar (meu twitter e meu curious cat são @jaceswife). Vou deixar aqui embaixo a playlist especial desse capítulo, que foi mais que essencial na hora de escrever, e nos vemos na próxima att!

Playlist do capítulo 5: https://open.spotify.com/playlist/68oJHAkqn6YrEIeUIo9WVD?si=WQbFSTm4Ta2_f6LH55WYjw


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