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História Blue Jeans (Dramione) - Capítulo 4


Escrita por: MadameLestrange20

Notas do Autor


Oi babes, como vocês estão?
Espero que estejam bem😘

Gente, chegou notificação do capítulo passado para vocês? Estranhei um pouco, pensei que talvez pudesse ter dado algum bug no spirit. De qualquer forma, se não houver chegado até vocês, postei o capítulo 3 na semana passada, durante o horário do almoço. Só para o caso de vocês acabarem lendo esse é estranhando que algumas informações não batem, caso tenham pulado o último sem querer.

Sem mais delongas,
Boa leitura!♡

AVISO: esse capítulo possui conteúdo sensível e possíveis gatilhos.

Capítulo 4 - O Pesadelo e Os Três Minutos


Coulda been a nightmare

But it felt like they were right there
And it feels like yesterday was a year ago
But I don't wanna let anybody know
'Cause everybody wants something from me now
And I don't wanna let 'em down
-Billie Eilish

 

Hermione Granger

 

"Não se deve mexer com cachorro grande, menina".

 

Era quase como se ouvisse a voz do meu pai, rígida e séria, mas que sempre era seguida por um beijo no topo de minha cabeça.
Como se dissesse que, apesar da bronca, ele me amava.

 

E, conhecendo-o como eu o conhecia, tinha certeza que ele diria algo parecido à respeito da minha atual situação, de estar teoricamente confiando em um criminoso muito maior. Para começar que, se ele estivesse vivo, eu provavelmente não estaria ali.

 

Papai jamais iria querer cruzar o caminho de uma gangue como a da qual Malfoy fazia parte, ao menos não enquanto tudo não estivesse consolidado, seguro para nossos negócios. Afinal, os Slytherin tinham a fama de pôr fim em gangues que possivelmente representassem uma ameaça para seu domínio em todo o estado do Arizona.

 

E meu pai era um homem ambicioso, sempe visando o futuro. Se ele ainda respirasse, ele teria dado um jeito de que tudo fosse resolvido por conta própria, ainda que nossa influência não chegasse a ser capaz de abafar um caso que já havia parado na imprensa.

 

Ainda que a frequência de reportagens sobre o mesmo estivesse diminuindo gradualmente. Algumas suspeitas sobre um possível envolvimento do homem morto com ilegalidades começando a ser cogitada, provando mais uma vez o poder de Malfoy.

 

A polícia não conseguira identificar o corpo do sujeito até então, ninguém aparecera para reconhecer o corpo, segundo as notícias, o que era um ponto para nós.

 

Quanto ao meu emocional, papai seria o primeiro a preocupar-se. Ele saberia identificar exatamente como eu me sentia, procuraria ajuda psicológica para mim e se eu já não houvesse matado o desgraçado, ele provavelmente iria até os confins do inferno para caçá-lo, se necessário. Ele se certificaria de que eu ficasse bem.

 

Matar.

 

A palavra martelou em minha mente, pulsando.

 

Eu nunca havia feito aquilo.

 

Com certeza, já havia me envolvido em alguns conflitos dos Granger, afinal não fui criada para apenas observar enquanto os homens tomavam partido em tudo. Mas, nunca havia chegado naquele ponto.

 

Mesmo que estivesse em uma disputa interna entre outros parentes pelo comando dos negócios. Disputa essa que se não a levasse com muita perspicácia e calculismo, poderia se transformar em uma guerra civil banhada de sangue.

 

Mas, mesmo sabendo que aquilo não fora culpa minha, a mente do ser humano em si, era traiçoeira demais para apenas aceitar aquele fato. Meu lado racional estava em uma constante luta contra meus sentimentos.

 

Eram tantos misturados em meu peito que me sentia sendo sufocada por mim mesma. Como se nadasse em um mar cheio de tubarões, mas já estivesse cansada de desviar de suas mordidas. E eu sabia que eles arrancariam parte por parte do meu corpo, pouco a pouco, e quando terminassem, não sobraria nada.

 

A sensação de abandono, porém, era a que dominava tudo. Mesmo cercada de pessoas que trabalhavam para mim, "amigos" que me acompanhavam em festas, com quem conversava sobre amenidades, mas nunca verdadeiramente me expondo, a solidão parecia devorar meus órgãos.

 

Eu apenas erguia o queixo, banhava-me de sarcasmo, fazia meus olhos brilharem de entretenimento e ironia, mas por dentro...Era apenas um vazio.

 

Um vazio que se instaurou na minha vida desde que perdi todos que eu amava, um por um.

 

E aquela porra doía. Doía tanto.

 

Me corroía devagar.

 

Eu olhava ao redor e não havia ninguém para amaciar a minha queda.

 

Não havia ninguém.

 

Tentando parar de me agonizar em meus próprios pensamentos, levantei-me da poltrona de frente para a parede panorâmica, de onde observava a paisagem, divagando, mas sem realmente enxergar qualquer coisa.

 

O quarto era uma suíte, o que eu agradecia, pois ir ao banheiro era menos um motivo para sair do cômodo, onde preferia ficar.

 

Era melhor evitar qualquer contato além do necessário com Malfoy, afinal estava óbvio a forma como ele não parecia se sentir confortável em interagir comigo. Além disso, o que eu mais queria evitar era qualquer tipo de proximidade. Havia passado por coisas demais que me ensinaram que o melhor a se fazer era não deixar ninguém entrar, principalmente homens.

 

Mas mesmo com tudo, de certa forma, sentia-me.. segura perto dele. A desconfiança ainda existia, claramente, mas era como se algo me desse certeza de que Malfoy não faria-me mal.
Porém, minha intuição não era motivo suficiente para cogitar inocência total em suas intenções.

 

Tirei lentamente a roupa perante o espelho do banheiro, era uma certa espécie de tortura que não conseguia evitar em meus piores dias. Cada centímetro daquele corpo, cada pequeno pedaço...
eu simplesmente odiava.

 

Cada curva, cada partícula de mim, mesmo que muitos já houvessem dito ao contrário do que eu achava, era completamente detestável aos meus olhos.

 

Desde aquilo.

 

O hematoma enorme em minha barriga começava a diminuir, assim como os cortes em meu rosto se cicatrizavam e todos aqueles ferimentos apenas transportavam minha memória para a noite de dois dias atrás.

 

Para o sangue escorrendo em minhas mãos, o olhar maníaco que me fazia arrepiar de asco.
Os olhos cinzas de Malfoy me observando cair no chão.

 

Engolindo em seco e balançando a cabeça, entrei logo no box, ligando o chuveiro sobre mim.
Sabia que se me deixasse levar pelas reflexões, seria o início de uma crise, na qual me afundaria em uma profundidade que talvez, apenas talvez, fosse abaixo demais para que conseguisse encontrar a superfície novamente.

 

Mas, do contrário que pensei, a água fria atingindo meus cabelos não serviu para me acalmar como pretendia. Os pensamentos apenas se revoltaram contra a minha tentativa de afastá-los, atacando-me com muito mais força que antes, me fazendo perceber que era tarde demais para evitar.

 

Meus olhos voaram para além do vidro transparente do box, captando os ponteiros do pequeno relógio sobre a extensa bancada clara da pia.

 

Três minutos.

 

Nada mais que isso.

 

Então, elas vieram. As lágrimas quentes rolaram em meu rosto, embaçando minha visão e misturando-se com as gotas abundantes do chuveiro.

 

Eu dizia tantas coisas com elas. Demonstrava para mim mesma o quanto estava abandonada, sozinha, incurada. Machucada, ferida, quebrada em tantos cacos que não sabia se ainda havia tempo para remendá-los.

 

O gosto da morte era amargo, tive a conclusão. Era como sentir a morte chegando mais perto, como um sussurro em meu ouvido que me dissesse o quanto era provável que eu morresse cedo. E talvez, eu realmente quisesse. Mesmo que o paraíso não fosse meu destino após ela.

 

Colei minha testa na superfície fria dos azulejos, pondo para fora silenciosamente a dor que era estar no meu corpo. A minha  destruição interna, o vazio ensurdecedor.

 

Como se o ontem tivesse ocorrido a um ano atrás, de tão pesado que era aquele fardo que mais parecia ter sido acumulado ao longo de uma vida inteira, ao invés de acarretado por alguém que só tinha vinte.

 

Meus ombros tremiam e a vontade era de permanecer ali pelas próximas horas, dias, anos. Haviam lágrimas o suficiente para quinze décadas. Mas, eu sabia que precisava parar.

 

Tinha que parar. Porque se não o fizesse naquele instante, não conseguiria mais.

 

Com um suspiro, consertei minha postura, meus olhos voltando a verificar o relógio, vendo que havia respeitado exatamente o tempo ideal.
Três minutos. Se passasse daquilo, não existiria mais volta.

 

Terminei de cuidar do meu cabelo, lavando-o rapidamente com o shampoo e condicionador presentes na prateleira e após um banho apressado, me vi pela segunda vez naquela manhã de frente ao espelho.

 

Sem perder tempo, mesmo que não houvesse nada para fazer, vesti o vestido fresquinho que por haver aquecedor em todo o chalé, não precisava preocupar-me com o frio que aumentava com o decorrer do mês.

 

Encarei por alguns segundos o meu reflexo e como se nada houvesse acontecido, ergui o queixo, ainda que meus olhos permanecessem inchados e vermelhos. Não podia parecer abalada.

 

Saí do banheiro, descalça e como se fosse telepatia, no mesmo momento que pensei em procurar por ele nos cômodos do chalé, duas batidas na porta foram acompanhadas por seu corpo alto e forte entrando pela fresta aberta na mesma.

 

Malfoy era um homem atraente, precisava reconhecer. Extremamente.

 

Os olhos cinzas sempre tão intensos que pareciam poder enxergar a minha alma. Seus cabelos tão claros que eu diria serem pintados, se não fosse pela ausência de raiz. Seu rosto era cheio de ângulos, a mandíbula marcada que apenas contribuía para sua bela aparência marrenta. Um verdadeiro bad boy.

 

Draco Malfoy vestia uma blusa de moletom que claramente teve as mangas cortadas para deixar os braços a mostra, com um capuz que pendia em suas costas, acompanhada de calça do mesmo tecido e tênis de corrida.

 

Suas roupas e o suor que escorria lentamente de sua têmpora indicava a prática de um recente exercício físico.

 

-Malfoy. -cumprimentei-o, minha voz acompanhada por um aceno de cabeça.

 

-Bom dia, Granger. -respondeu, seu tom neutro como sempre. Mas, mesmo se ele falasse sobre a maior besteira do mundo, seu timbre ainda manteria aquela profundidade que parecia vibrar tudo ao seu redor.

 

-Não vai trabalhar hoje? -perguntei, logo me arrependendo, mesmo que ele não houvesse expressado qualquer desconforto pela indagação. -Deixa pra lá, não tenho nada com isso. -me corrigi, ríspida.

 

-Tudo bem. Eu não vou, hoje não é meu dia. Só vim lhe avisar que deixei algumas panquecas no balcão da cozinha, caso queira.

 

-Obrigada.

 

Seus olhos fitaram os meus, seu cenho franzido como se reparasse em algo.

 

-Aconteceu alguma coisa?- perguntou, parecendo genuinamente preocupado e logo percebi que falava sobre o inchaço e vermelhidão dos meus olhos.

 

O que eu queria responder?
Isso não importava. Suspeitei que dizer o quanto a vida era uma merda tópico por tópico fosse assustá-lo indesejadamente.

 

Então, apenas balancei a cabeça afirmativamente, erguendo o queixo como se o desafiasse a tentar contrariar minha resposta.

 

-Precisa de algo? -ele perguntou, seus olhos ainda nos meus.

 

-Não.

 

Alguns segundos de silêncio se passaram, mas Malfoy pigarreou e desviou-os dos meus.

 

-Bom, vou estar no último cômodo do corredor. É só bater na porta, se mudar de ideia.

 

-Ok.

 

Seus olhos me encararam uma última vez, mas logo se virou, voltando pelo mesmo caminho que fez ao entrar. Porém, antes que ele alcançasse o lado de fora, mudei de ideia, fazendo-me chamá-lo.

 

-Espere. -Malfoy voltou-se para mim, a mão ainda na porta entreaberta. Cruzei os braços, demonstrando total indiferença. Mas alguma parte em mim, mesmo que mínima, pedia para que ele ficasse, mesmo que por alguns segundos. As sobrancelhas de Malfoy se arquearam, aguardando o meu pedido.
-Na verdade, preciso de uma coisa.

 

Ele esperou silenciosamente.

 

-Preciso fazer algumas ligações. Você teria algum telefone para me emprestar?

 

-Espere um minuto.

 

Malfoy se retirou do quarto e eu pude ouvir seus passos ao longo do corredor até sumirem. Pouco depois, ele voltou, me estendendo um telefone aparentemente antigo.

 

-Pode ficar tranquila, não é rastreável, a ligação não será gravada.

 

Assenti e encarei o chão, sem dizer mais nada. Malfoy, percebendo que era um pedido silencioso de privacidade, saiu.

 

Suspirei, o nome confiável vindo a minha cabeça antes de discar os dígitos nas teclas.

 

*****

 

O chão amadeirado era frio sob meus pés. O corredor estaria silencioso, se não fosse pela melodia suave vinda do último dos cômodos.

 

Eu sabia que não deveria estar indo em direção ao som, não era nem minimamente de minha conta o que ele fazia naquele momento. Mas, a curiosidade sempre fora praticamente um segundo ser convivendo dentro de meu corpo.

 

Então, era por isso que agora, eu estava perante a porta escura de onde a música vinha.

 

Foi praticamente impossível não colar meu ouvido junto a ela, tentando detectar o que quer que fosse que soava lá de dentro.

 

A trilha instrumental era relaxante e inspiradora, fazendo quase que um efeito imediato sobre meus músculos, relaxando-os lentamente da tensão que os carregava habitualmente.

 

Concentrando-me melhor, pude notar outros ruídos escondidos pela música. Barulho de objetos sendo postos e retirados de seus lugares calmamente, passos leves no chão e...pincel raspando na superfície de uma tela.

 

Reconheci imediatamente o último, pois ainda me lembrava da época feliz e tranquila que vivi antes de tudo. Aquele delicado som me lembrava das tardes calmas de domingo, do cheiro da tinta no ateliê de mamãe, do seu macacão completamente manchado das mais variadas cores. Do seu sorriso doce e um dos poucos realmente sinceros que já vira, direcionado a mim enquanto a observava trabalhar em suas telas no final de semana.

 

Eu sempre havia gostado de vê-la pintando. Criando cada um de seus traços com diversos pincéis, vendo a paixão em seu rosto por todas as paisagens e pessoas que iam se formando em suas artes, os olhos brilhando a cada conclusão e...

 

A porta abriu-se repentinamente, me fazendo soltar um grito de susto, meus olhos arregalados quando cambaleei para a frente, sendo impedida de cair por mãos grandes, fortes e ásperas.

 

Meu coração batia forte e eu ainda arfava quando ergui os olhos, vendo o rosto sério e confuso de Malfoy me encarando. Mas, logo a confusão sumiu e seus olhos se estreitaram, compreendendo o que estava acontecendo.

 

Meu rosto esquentou e ardeu de vergonha pelo flagra e me senti quase vulnerável. Como eu explicaria que estava praticamente o espionando no meio da sua "tarde de folga"?

 

Sua sobrancelha arqueou e notei o momento exato que o sorrisinho debochado se abriu em sua boca bonita. Um lado de seu rosto tinha respingos coloridos e uma pincelada laranja parecia ter sido dada por acidente sobre sua têmpora direita. Suas mãos estavam completamente sujas de tinta, assim como o blusão e a calça bem maiores que seu corpo que pareciam ter sido designadas especificamente para aquilo.
Ele estava...

 

-Então, Granger, se seu trabalho é ficar de tocaia ou vigiar, acho melhor mudar de área. -zombou, sua voz murmurada.

 

Por alguns instantes, tentei criar uma resposta se fosse plausível, gaguejando vergonhosamente. Percebendo que não teria como, ergui o queixo orgulhosamente, consciente da vermelhidão sobre as sardas de meu rosto.

 

-Eu...Eu estava apenas indo até a cozinha buscar um copo d'água.

 

-Claro. Só se esqueceu de avisar-me que mudou a cozinha de lugar, mas obrigado por me deixar saber.

 

Minha boca se entreabriu de indignação e dei um passo para trás, só então percebendo que ainda tinha suas mãos em mim.
Se me olhasse no espelho naquele instante, eu provavelmente me veria completamente corada e irritada.

 

-Hm! -cruzei os braços. -Vou ir buscar a minha água. -respondi, contrariada, mas antes de conseguir sair, meus olhos buscaram atentamente algum vestígio atrás de seus ombros, me pondo inconscientemente na ponta dos pés.

 

-Algum problema? -questionou e quando sua voz aprofundou em minha mente, percebi o que estava fazendo. Notei que seu corpo havia se movido para o lado, tampando qualquer vista que eu poderia ter do interior do cômodo.

 

Bufei, marchando para a escada, mas não sem antes meus ouvidos captarem sua risadinha rouca e sussurrada que me fez revirar os olhos de exasperação.

 

*****

A terra vermelha era esmagada sob meus pés descalços.

Por algum motivo, que eu ainda não sabia qual, me via parada em um lugar de clima seco, o seu estrelado sobre minha cabeça sendo a única fonte de iluminação.

Deserto.

Aquilo lembrava-me algo.

Para que tudo ainda ficasse mais estranho, meu corpo estava despido de roupas, completamente exposto. Só me faltava compreender se era algo com o qual eu devesse me preocupar.

Caminhei, a brisa fria que batia suavemente contra minha pele, arrepiava cada centímetro da mesma. Olhava ao redor e não havia ninguém, tudo completamente vazio.

A sensação de estar sendo observada crescia em meu peito, deixando-me cada vez mais insegura sobre a solidão ser, de fato, verídica.

E então, pelo canto do olho, pude ver. Um vulto escuro sob a penumbra da noite, passando de forma tão rápida que por pouco, não fora captado. O medo crescente chegou ao seu ápice, fazendo-me acelerar até estar correndo desesperadamente em busca de qualquer ajuda possível.

Mas, não foi suficiente. O vulto escuro que ainda perseguia-me continuava me cercando pelos cantos, cada vez mais próximo e então, antes que eu pudesse desviar de curso, parou a minha frente, obrigando-me a freiar meus pés.

Meu coração quase saía pela boca, a adrenalina fazendo as pontas de meus dedos formigarem, mas fiquei completamente paralisada quando a luz da lua permitiu-me enxergá-lo, ainda que precariamente.

A primeira coisa que notei foram seus olhos. Um azul intenso, elétrico. Vazios. Seu olhar opaco não me era desconhecido, pelo contrário. Para mim, era sinônimo da morte. Mas, diferente da última vez que os avistei, onde eram preenchidos apenas de maldade, agora havia algo a mais. O cintilar da vingança, uma força maníaca que apenas descansaria com sangue.

-Achou que iria escapar de mim, gracinha? - sua voz soou, fazendo cada parte de mim se tensionar em repulsa.

Meus próprios olhos encheram-se de lágrimas causadas pelo medo, o desespero dominante. O que eu faria?

Não havia para onde correr, não tinha como fugir. Aquele era meu fim, eu sabia.

Suas mãos asquerosas voaram para meus ombros, deslizando pelo meu corpo enquanto eu apenas chorava, paralisada. Não conseguia me mover, nem um músculo sequer. Como se o universo me obrigasse a aceitar aquilo sem qualquer contrariedade, literalmente.

Cada parte de mim que seus dedos alcançavam, faziam meu rosto se encharcar com as lágrimas de um choro sussurrado, de medo.

Seu corpo repulsivo cada vez mais próximo, sua boca deslizando pelo meu pescoço pareciam facas tirando-me lentamente a vida, a sanidade.

Eu apenas queria...morrer.

E, como se ouvisse meu pedido silencioso e estivesse mais que pronto para atendê-lo, eu senti o momento exato que sua mão recuou e avançou com toda força contra minha barriga.

A dor era a pior que poderia ter na vida. Era possível sentir os cacos da garrafa entrando em minha pele, atravesando-a e perfurando o que havia sob ela, lentamente. Se espalhando dentro de mim.

Um filete de algo que pensei ser sangue escorreu do canto de minha boca. Sabia que estava sangrando fatalmente e que sem ser socorrida, morreria em um futuro extremamente próximo, muito em breve.

Senti meus joelhos cedendo-se, trêmulos, atingindo o chão e machucando a pele que os cobria. O sorriso maldoso se encontrava a pouca distância acima de mim, junto ao par de olhos azuis que eu jamais esqueceria. Meu assassino, aparentando se torcer em prazer com seu ato, vendo sua vingança sendo concluída. Eu morreria.

Eu sabia que sim.

Caí no chão, a dor sendo tanta que mal conseguia sofrer, pois a mesma retirava pouco a pouco minha consciência, extraindo a lucidez de meu cérebro.

Quando caí ao chão, o medo dando lugar a aceitação, a última coisa que pude ver fora o cinza intenso que eu conhecia muito bem, no rosto de um mistério que eu não teria tempo de desvendar, devido aos poucos instantes que me restavam.

Fechei os olhos com força, aceitando que a morte me consumisse, mas quando voltei a abri-los, não fora ela que me recebera.

Talvez sim, pois reconhecia aquele lugar como o próprio inferno.

O corredor tinha paredes pintadas em um tom de creme, os armários individuais de estudantes no mesmo tom. Tudo claro demais.

Estava vazio, mas ao ver o relógio enorme sobre a porta do ginásio, soube que estava quase no horário do intervalo entre duas aulas.

Olhei para o chão, sem entender como eu ainda estava viva ou como fora parar ali, mas tudo o que vi foi meu sangue manchando-o em uma poça sob meus pés. Eu sangrava tanto. O ferimento ainda se mantinha aberto, em uma situação nem minimamente agradável. Mas, eu não o sentia. Como uma espécie de torpor.

Tentei correr até as portas duplas que eu sabia que dariam para os jardins, em uma tentativa falha e desesperada de escapar.

Eu não podia ficar ali, precisava ir embora, eu....

De repente, o som estridente da sirene que anunciava a troca de salas soou e imediatamente os corredores foram entupidos por adolescentes.

Jovens que aparentavam serem "pessoas de bem", inocentes que se preocupavam apenas em cuidar de suas aparências ou com quantas bocas beijaram no final de semana.

Mas, eu sabia que eram cruéis. Que não havia o mínimo pingo de empatia de suas partes. Que humilhavam qualquer um por apenas existir.

Eu era a prova viva disso.

Pouco a pouco, os burburinhos começaram a percorrer os grupos formados e seus olhares começaram a voltar-se para mim.
Só eu sabia o horror que tinha de suas expressões zombeteiras, cheias de maldade camuflada por piadas. E ninguém, absolutamente ninguém fazia nada quanto àquilo.

Suas bocas passaram a desferir os típicos xingamentos contra mim.

Puta.

Vadia.

Piranha.

No final de tudo, a culpa se recaiu sobre mim. Todos diziam que a responsabilidade era minha por ter bebido, por ter sido tão ingênua, por ter deixado gravar...por ter me apaixonado.

Suas vozes eram o pior instrumento de tortura que poderiam usar contra mim. Elas nunca se calavam nem mesmo durante meu sono. Eu ainda as ouvia em todas as malditas noites. Dormir se tornara algo perturbador.

Seus corpos começaram a avançar sobre mim, seus dedos apontando em minha direção, rindo enquanto eu tentava inutilmente tampar minhas partes íntimas, encolhendo-me cada vez mais em mim.

E então, a multidão deu espaço a ele, que passou por entre ela com seu sorriso brilhante de sempre.

Seus ombros largos dignos de um atleta de futebol americano. Os dentes tão claros que deveriam fazer doer a visão que se direcionasse à eles. Os olhos da cor de folhas secas no outono que sorriam junto a sua boca. Ele era extremamente lindo por fora, apenas para compensar a podridão interna.

Ele chegou perto o suficiente para  retirar todo o ar dos meus pulmões pela mágoa que tomava-me a cada passo que dava em min na direção, fazendo-me chorar como uma criancinha acuada.
Ele era bem mais alto que eu, forte para machucar-me a quisesse, mas o jeito que usara para ferir-me fora pior que qualquer outro que eu conhecesse.

Sua risada leve soou, mas eu sabia estar carregada de escárnio ao me ver naquela situação completamente humilhante. Era como se ele fosse capaz de levar o último pedaço do meu coração que talvez restara apenas com o timbre de sua voz.

 

-Como foi capaz de cogitar isso, Hermione? -sua voz soou, cheia de um humor sujo. -Achou mesmo que um cara popular como eu iria ingenuamente me apaixonar pela nerd sem graça que você era?

 

Me sentia tão acuada que não fui capaz de reagir de outra forma, senão encolher-me ainda mais e abaixar meus olhos, vulnerável.
Sua mão grande veio ao meu rosto, acariciando-o com o dorso de seus dedos e fazendo-me estremecer de fraqueza emocional.

 

-Eu apenas queria brincar com você. Mas não se preocupe, amorzinho. Ao menos tirar sua virgindade foi divertido, você era tão apertadinha. Pelo menos compensou as horas entediantes que você me obrigava a passar ouvindo sua voz irritante tagarelando sobre seus malditos livros de ficção, nunca entendi sua necessidade de aparentar ser mais inteligente que todos os outros.

 

Cada uma de suas palavras eram como flechas perfurando meus órgãos.

 

-Agora, se me permite dizer: você que sempre pareceu saber de tantas coisas, foi burra o suficiente para me deixar gravar a porra de um vídeo íntimo? Sinceramente, esperava mais de você, Granger Putinha.

 

E então, antes que eu pudesse me defender, suas mãos alcançaram meu pulso e seu corpo se pôs atrás do meu, imobilizando-me de forma que me deixava totalmente exposta a todos. Os flashes vieram e em questão de segundos, todos gargalhavam da minha humilhação. Era como se dividissem meus cacos restantes entre si.

 

E eu só queria desaparecer.

 

Gritava, contorcendo-me para tentar me libertar, mas sem sucesso. As câmeras dos celulares ainda eram apontadas em minha direção, fotografando meu corpo nu, o ferimento de minha morte, as lágrimas que escorriam de meu rosto. O pouco deturpado que sobrara de mim.

 

Consegui, num impulso pouco mais forte, sair dos seus braços, correndo até um canto, deslizando pelo armário as minhas costas, encolhendo-me o maximo que conseguia.

 

Juntei os joelhos contra meu corpo, tentando esconder qualquer parte que conseguisse, mas a conseguir cobrir, de fato, o que eu mais queria. A alma quebrada que havia por baixo.

 

Meus olhos se apertaram com força e levei minhas mãos aos ouvidos, buscando abafar a turbulência externa.

 

Do fundo de meu interior o grito veio, sobrepondo tudo e todos, então...

 

Custei perceber a forma bruta e violenta que meu corpo se contorcia sobre a cama, as lágrimas quentes escorrendo em abundância, minha garganta ardia tanto e algum lugar distante na minha mente avisava que era causada pelos gritos agonizantes que saíam de minha boca sem o mínimo de controle.

 

Eles estavam ali. O ambiente era diferente, escuro e familiar, definitivamente não era a escola, mas eu sabia que ainda estavam ali. Suas risadas ainda ecoavam na minha mente e eu apenas gritava, tentando isolá-las.

 

A porta abriu-se em um rompante e Malfoy disparou para dentro, seus olhos alertas e o corpo tenso, procurando algum possível invasor.

 

-Granger, o que...

 

-Eles estão aqui. Eles estão aqui. -tentei dizer em tom alto, mas minha voz não passou de um fio falho, misturando-se com meus soluços desesperados. Meu corpo se encolhia cada vez mais para trás, se pressionando contra a cabeceira da cama.

 

Através de meus olhos embaçados, pude ver Malfoy andando ao redor, buscando atrás dos móveis e das cortinas algum sinal de perigo físico.

 

Mas, o risco estava apenas em minha mente. Eu sabia que, de fato, os estudantes não estavam ali, me cercando, mas simplesmente não conseguia parar. Era como se as lembranças me penetrassem tão dolorosamente que fazia tudo parecer real. A sensação de abandono, de vulnerabilidade aumentando em meu âmago.

 

E então, o homem parou ao pé da cama e mesmo que não o encarasse, sabia que seus olhos estavam fixos em mim, como se finalmente compreendessem que o medo que eu sentia era algo interno.

 

Minha traqueia latejava quando, como última alternativa desesperada e irracional, agarrei o abajur de luz amarelada ao meu lado na mesa de cabeceira, jogando-o com força longe, acompanhado de um grito final. O objeto quase o acertou por acidente, mas seu corpo alto desviou no instante certo.

 

O torpor foi se esvaindo lentamente, a névoa que nublava minha mente passando a se dissipar até que eu pudesse ter a frágil consciência de que tudo não passara de um pesadelo.

 

Porém, a sabedoria do que acontecera não impediu que as lágrimas viessem em ainda mais abundância, escorrendo pelo meu rosto como a marca registrada do vazio que me consumia. E aquela sensação era tão terrível. Querer ter alguém por mim, mas não enxergar nada ao olhar ao redor. Eu estava tão sozinha, sem ninguém que pudesse me abraçar, beijar minha testa e dizer que tudo ficaria bem no final.

 

Juntei meus joelhos ao corpo, tentando aplacar de alguma forma a solidão. Eu sabia que estava chorando como uma garotinha na frente de um homem praticamente desconhecido e que muito provavelmente estava pouco se fodendo, mas não havia como controlar.

 

Aquele era o choro que acumulado por dias, semanas...meses. Eu sabia que haveria uma hora que minhas barreiras já não seriam mais capazes de sustentá-lo sem desmoronarem e quando finalmente aconteceu, eu não conseguia parar.

 

Malfoy lembrou-me de sua presença quando seus joelhos rasparam na beirada da cama sob a calça de moletom, indicando que se aproximava.
Pude sentir o exato momento que o colchão se afundou a minha frente e passou-se longos segundos em silêncio, como se pensasse no que falar.

 

-Ei...-sua voz sussurrou, e ao contrário do tom sempre frio e neutro, ela adquirira uma suavidade que se assemelhava a veludo, cuidadosa. -Olhe para mim. -pediu.

 

Permaneci sem me mover, com medo de expor a destruição que havia dentro de mim mais do que já fora.

 

Surpreendendo-me, seus dedos vieram lentamente até meu rosto, levando uma mecha solta para trás de minha orelha com tanta delicadeza que senti apenas o arrepio que causou-me.

 

-Não precisa ter medo, pode me olhar. -sussurrou e seu tom era tão carinhoso que fora impossível não o fazer.

 

Quando finalmente ergui meus olhos, piscando para desembaçar a visão, foi que percebi como ele estava perto. Tão próximo que podia distinguir as nuances de cinza em suas pupilas, sob a luz lunar suave que entrava pela parede panorâmica.

 

-Está tudo bem agora. Aqui ninguém te fará mal. -disse, baixinho, sua expressão como eu nunca vira antes, indecifrável.
Seu dedo polegar arrastou-se com calma sob meu olho, limpando cuidadosamente o excesso de água que se acumulava, me encarando com aquela intensidade que eu sempre era capaz de identificar nele, não importava em que momento fosse. Aqueles olhos de oceano que me davam vontade de mergulhá-los, os desvendar.

 

Não saberia dizer o porquê ou como, mas no instante seguinte, me vi rodeando seu tronco nu, apertando-o o mais perto que podia, como se aquilo pudesse fazer desaparecer o vazio torturante que passara a ser meu companheiro diário.

 

Malfoy hesitou apenas um segundo antes de abraçar-me de volta. Uma de suas mãos entranhou em meus cabelos, seus dedos se movendo em um carinho do qual eu jamais poderia cansar, a outra deslizando pelas minhas costas, acariciando-as com uma suavidade que eu não esperava vinda dele.

 

-Está tudo bem. Eu estou aqui, agora. Ninguém irá te machucar, eu não irei deixar. -sua voz murmurou contra o topo da minha cabeça, beijando-a demoradamente.

 

Por algum motivo, eu me acomodei em seu peito perfeitamente, como se o encaixe houvesse sido feito sob medida.

 

Sabia que não deveria confiar, não deveria me expor, demonstrar minhas fraquezas mais profundas, feridas que não cicatrizavam. Mas, era como se eu sentisse em minha mente, em meus ossos e em cada parte do meu ser que eu podia. Seu corpo praticamente cobrindo o meu trazia-me um conforto e proteção que a tempos não era capaz de sentir. Como se ali, sendo abraçada por ele, eu pudesse apenas...me desfazer.

 

Draco Malfoy cheirava a hortelã, com um leve toque amadeirado. Um aroma tão aconchegante que eu poderia me enterrar em seu peito para sempre, apenas sentindo-o, acariciando-o quase inconscientemente com a ponta de meu nariz.

 

Não havia um tempo certo pelo qual eu poderia dizer que fiquei em seus braços, apenas sentindo o calor reconfortante de sua pele, mas em determinado momento, tudo passou a ficar mais lento, o seu carinho me deixando mais leve até meus olhos pesarem sob o silêncio confortável,
fechando-se. Apenas um descanso breve, passageiro. Eu não pretendia dormir.

 

E então, ao menos por algumas horas, tudo ficou bem.

 

      


Notas Finais


Galera, vamo conversar aqui rapidinho.

Como já devem ter percebido, nessa segunda versão de BJ, a aproximação deles será algo bem natural, gradativo. Porém, sem perder toda a intensidade e química desse casal. Haverão altos e baixos, muita coisa legal, outras tristes, mas acontecerá no tempo deles.

Uma das coisas que me incomodou um pouco, ao reler a primeira escrita, foi a forma como eles se aproximaram e se entenderam tão rapidamente, com tudo se encaixando em mínimos 13 capítulos, sentia que não estava respeitando toda a experiência e traumas de ambos, principalmente os da Hermione em quesitos amorosos. Mas, garanto que tudo está ainda melhor que antes!

Gente, sério, não tenham medo de comentar. Críticas construtivas, suas opiniões e teorias, eu amo saber o que se passa em suas mentes após lerem mais um capítulo de Blue Jeans. Anônimos, não tenham medo, tá? Eu não mordo hahaha!

Até sexta feira.

Aproveitando, visitem meu perfil, tem novidade!

Um beijo,
Isa💚


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