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História Blue Jeans (Dramione) - Capítulo 5


Escrita por: MadameLestrange20

Capítulo 5 - Lembranças


What's going on in that beautiful mind?
I'm on your magical mystery ride.
-John Legend


Hermione Granger

Quando a consciência voltou lentamente, me vi encolhida sob a colcha grossa. Não me lembrava de ter deitado e dormido normalmente após meu surto traumático na noite anterior.

A última coisa da qual me recordava fora do abajur sendo arremessado e os cacos realmente ainda estavam espalhados ao pé da cama. Então, Malfoy entrou pela porta e...

Malfoy.

Meus olhos o avistaram sentado em uma poltrona a alguns passos de distância. Ele aparentava estar dormindo profundamente de uma forma nem um pouco confortável. Fora ele que me abraçara e me consolara na madrugada, provavelmente também fora ele que me cobrira.  E aquilo parecia surreal.

Ao menor movimento que fiz, Malfoy captou o som e logo seus cílios claros tremularam, seus olhos abrindo-se em fendas sonolentas, mas ainda assim buscando qualquer sinal de perigo no quarto.

Ao me ver, seus ombros endureceram e não pude notar qualquer vestígio do homem atencioso de poucas horas atrás. O que acariciou meus cabelos com carinho e me deitou quando dormi em seu abraço aconchegante.

Era melhor assim.

-Está se sentindo melhor? -perguntou secamente.

Assenti com a cabeça, fitando-o por mais alguns instantes antes que ele desviasse para o outro lado, fazendo-me abaixar os olhos para meus dedos que cutucavam um fio solto no cobertor.

Malfoy pigarreou, fazendo-me voltar a atenção para ele.

-Bem, já vou indo então.

O homem levantou-se da poltrona, caminhando até a porta, mas antes que pudesse sair por ela, o chamei. Malfoy virou-se em minha direção, arqueando uma sobrancelha loira e aguardando silenciosamente que eu falasse.

-Eu só...-limpei a garganta, mesmo que aquilo apenas servisse para fazê-la doer ainda mais, tentando trazer à tona as palavras. -Obrigada por...ontem.

Ele apenas encarou-me com aquela profundidade oceânica de seus olhos como sempre, mas sem expressar absolutamente nada.

Então, como se nada houvesse acontecido, Malfoy saiu pela porta, deixando-me sozinha em meio as minhas reflexões.

Draco Malfoy

Vê-la tão quebrada acabara comigo.

Eu poderia fazer-me ser o homem mais frio possível, mantendo-me sempre sob controle, ainda que Hermione Granger fosse capaz de testar minhas emoções adormecidas todas as vezes que a via.

Ela despertava algo dentro de mim a muito anestesiado. Conseguia ultrapassar o amargor que minhas vivências causaram-me, fazer-me sentir vontade de cuidar de seus cacos e me sentia atraído a chegar cada vez mais perto, querendo desvendá-la, por mais perigoso que aquilo fosse.

Mas, quando decidi não passar da linha delimitada para proteger meu coração, não contava que em algum momento, teria que vê-la daquela forma. Chorando, implorando para que tudo cessasse. Tão desamparada e vulnerável. Fora impossível não ir até ela, enxugar as lágrimas de seu rosto e abraçá-la na esperança de conseguir suturar ao menos um pouco as suas feridas internas.

Quando dormiu, parecia um anjo. Um pequeno anjo flagelado pela maldade do mundo, que teve suas asas cortadas. Ela era tão linda. Tão incrivelmente linda.

Sua respiração suave, vez ou outra trêmula. As pálpebras fechadas com uma leve vermelhidão pelo choro. Ela não enxergava o quanto era perfeita até mesmo desabando.

E vê-la desmoronar arrancava uma parte do meu próprio peito. Eu simplesmente não conseguia entender de onde viera aquela ligação. Não sabia se Hermione sentia aquela mesma sensação, mas era algo tão intenso que parecia de vidas passadas.

Tudo o que eu queria era tê-la em meus braços, beijar sua cabeça e dizer que tudo ficaria bem. Tudo estava bem. E foi o que eu fiz.

Pouco a pouco, senti seu corpo acalmar, os soluços cessando, os tremores diminuindo sob meus dedos. Ela era tão pequena que eu tinha a impressão que caberia na palma da minha mão. Seu corpo encaixava-se tão perfeitamente no meu que pareciam ter sido feitos para combinarem.

Quando Hermione finalmente pegou no sono, permaneci mais algum tempo com ela em meus braços. Simplesmente não pude soltá-la de imediato, queria a certeza de que tudo estava bem.

Mas, me toquei de que aquilo era apenas mais uma porta aberta para um caminho pelo qual minha auto-preservação berrava para que não fosse. Não deveria me permitir envolver. Aquilo não aconteceria.

Mesmo assim, não consegui ir embora do quarto. Precisava garantir que ela dormiria bem, que não voltaria a ser atormentada pelos fantasmas
do seu passado  passado.

Então, apenas me afastei alguns passos, acomodando-me na poltrona mais próxima e observando-a até conseguir ao menos cochilar.

Mas, no dia seguinte, tudo voltou ao normal. Era necessário, certo?

A deixei sozinha no cômodo, sem ao menos olhar para trás e apenas os deuses saberiam dizer o quanto foi difícil nem mesmo espiar por cima do ombro, apenas para vê-la uma última vez antes de realmente iniciar meu dia. Novamente tentando me convencer de que não era nada demais, pois assim que tudo acabasse, nossas vidas voltariam ao normal, como se jamais houvessem se cruzado em algum momento.

Mesmo que meu interior rugisse ao entrar em contato com esse meu pensamento.

A água fria do chuveiro deveria servir como uma espécie de anestesiante sobre as ideias e imaginações que corriam em minha mente. Ultimamente, desde que ela chegara, meu cérebro não parava nunca.

Granger habitava todas as regiões do mesmo, não me dando um segundo que fosse de paz.
A sede de conhecê-la profundamente não apresentava quaisquer pretensões de abandonar-me, o que era inconscientemente insuportável.

Olhos cor de chocolate não deveriam estar sondando minha atenção durante o trabalho. Muito menos cachos compridos e castanhos, um sorriso doce ou o nariz pequeno salpicado de sardas. Quem dirá o corpo curvilíneo e as tatuagens charmosas.

Definitivamente não.

Soquei os azulejos com um grunhido, quando percebi que a as gotas jorrando do chuveiro não aplacariam o bolo confuso que eram minhas malditas emoções. Aquilo tinha que parar.

Desistindo de tentar um banho matinal relaxante, desliguei o aparelho e saí do box, me encarando no espelho.

Pensando bem, não era apenas a mulher no quarto a poucos passos do meu que vinha me deixando tão nervoso e desorientado ultimamente.

Estava chegando o dia de viajar para Phoenix, onde passaria uma semana infernal, como sempre acontecia uma vez por mês.

Manter contato com meu pai mesmo depois de conquistar minha independência, nunca fora algo que estivera em meus planos, mas por alguma maldita sorte, era necessário.

Lucius Malfoy não poderia ser considerado o tipo de pessoa mais fácil de se lidar. Pelo contrário. Sua presença conseguia ser mais tóxica para mim que a nicotina da qual fazia uso constante diariamente. Sempre que voltava de seu apartamento na capital, era como se trouxesse um peso sobre meus ombros.

Mais que tudo, ele era cruel. Não havia a menor piedade em seus olhos, quando decretava alguma ordem violenta aos seus capangas. Como se houvesse uma espécie de prazer em fazer pessoas sofrerem.

De fato, eu não era alguém tão saudável, mentalmente dizendo. E meu querido pai, em grande parte, era o maior motivo disso.

Ainda me lembrava da criança esperançosa e carente que vivia com sua mãe, alguém que  sempre suprira  a falta de amor paterno. Mas, era esse mesmo menininho que chorava nas comemorações escolares sobre o Dia dos Pais.

E por muitos anos, a última vez que o vira, fora aos cinco anos de idade. Lucius chegara em seu automóvel caro ao acampamento, gerando receio à todos os ciganos da nossa pequena caravana, pela possibilidade de que fosse algum político que viera nos expulsar.

Mas, assim que abrira a porta do carro e seu rosto pôde ser visto, Narcisa endurecera de tensão e fora até ele, onde passou minutos no que parecia ser uma discussão calorosa.

Nunca me esqueceria dos seus olhos tristes e marejados, ainda que fizessem companhia a um sorriso trêmulo e gentil, que lutava para manter-se no lugar.

Então, os meus próprios observaram, completamente arregalados de medo e admiração ao mesmo tempo, enquanto um grande homem de íris tão cinzentas quanto as minhas e cabelos igualmente claros se agachou a minha frente, equiparando nossos tamanhos.

Ele me observara por segundos em silêncio, com uma expressão indecifrável. Me vinha a memória alguns fragmentos de suas palavras.

Algo como "você será o herdeiro de um grande Império".

Ou "Um dia, quando tiver idade o suficiente, irei voltar e te levarei junto, para que você seja treinado e digno de se tornar igual a mim."

Por muitos anos depois que ele entrou em seu Land Rover e partiu, perguntei todos os dias a minha mãe se já estava crescido o bastante para que o moço rico viesse me buscar.

E ela nunca soube me dizer.

Sinceramente, teria sido melhor que nunca viesse.

Talvez eu não viesse a me tornar a pessoa fria e quebrada que eu era hoje. Quem sabe eu tivesse tido a chance de construir uma vida saudável. Ser feliz.

Afastei os devaneios de minha cabeça, saindo logo para o quarto e vestindo-me com as primeiras peças de roupa limpas que vi a minha frente.

Pensar na tortura próxima só a deixaria pior.

*****

Provavelmente, poderia dizer que o dia havia se passado bastante tranquilo e civilizado, se comparado a outros.

Os carregamentos de armas e munições estavam adequados, nada faltara, o que significava que ao menos em relação àquilo, não haveria problemas.

Entre muitas outras coisas, o foco principal dos negócios da Slytherin era a exportação de armas e a proteção de estabelecimentos locais mediante pagamentos. O último fora o que nos dera poder, já que segundo meu pai, o medo era o melhor caminho para se chegar ao topo.
Era comum observar enquanto pessoas que conheciam nossos rostos corriam para longe com seus filhos no momento que passávamos por elas, ainda que em geral, não fosse nossa pretensão fazer-lhes mal algum.

Bem, conhecendo Lucius como eu conhecia, provavelmente também fugiria.

Mantínhamos contato e parcerias com outras famílias do mesmo ramo, o que nos trazia muitos benefícios, mas era possível sentir a tensão no ar.

Os Potter sempre foram nossos maiores rivais. Sempre nos desafiando, nunca cansando de disputarem o poder dominante do Arizona conosco. Eram como vermes que se proliferavam sem parar.

Eu sabia que hora ou outra, haveria um estopim e era como se todos estivessem alertas para o momento em que tudo explodiria. O medo era palpável, por mais que ninguém admitisse e estivéssemos preparados para enfrentá-los.
Se me concentrasse o suficiente, poderia estremecer brevemente de temor ao imaginar o cheiro do sangue. Seria terrível.

Os acordes do violão de Kurt Cobain embalavam o interior do carro e meus dedos batucavam no volante, cantarolando Come As You Are distraidamente.

Podia sentir um leve desconforto em minha coluna, que precisava ser esticada após horas de checagem, monitoramento e ordens de meu pai passadas por mim.

O cheiro de gasolina e os sons dos automóveis rodeavam um trânsito semi-engarrafado e eu apenas queria chegar logo em casa. Para descansar, claro.

Mas, talvez meus pensamentos tivessem alguma espécie de poder de atração do qual eu não tinha conhecimento. E era realmente uma pena que apenas funcionasse quando eram ruins e indesejáveis.

Não passou-se nem mesmo cinco segundos antes que o celular anti-grampo que criava uma linha direta e única ao de Lucius tocasse no bolso da minha jaqueta. Era impossível iludir-me ao menos um pouco, imaginando que poderia ser outro alguém.
Só havia como ser ele.

Com um suspiro pesaroso e fechando os olhos brevemente, em busca de uma paciência e força mental que eu não sabia se teria, atendi a ligação.

-Pai. -minha voz soou tão inexpressiva que seria surpreendente, se não fosse trágico.

-Olá, Draco. -seu tom frio e sempre repuxado em um sarcasmo desdenhoso típico dele que trazia-me mal pressentimento, chegou aos meus ouvidos. Como eu odiava aquela entonação em sua voz. Nunca era sinal de algo bom, ou ao menos não seria para mim.
-Acho que alguém se esqueceu que tem um pai, não é mesmo? -zombou, me fazendo bufar.

Gostaria de ter respondido algo como "seria mais fácil não lembrar". Porém, tudo o que queria era que aquilo acabasse logo.

-O que você quer?

-Quantas vezes terei que lhe repreender por ser tão rude comigo, garoto? Você me deve respeito. Creio que sempre me arrependerei por ter deixado que a sua mãe cigana te criasse.

Minha mandíbula cerrou tão forte, que pensei que poderia bambear todos os meus dentes daquela forma, meus dedos se apertando ao redor da direção até ficarem amarelados.

-Não. Fale. Dela. Assim. -rosnei pausadamente. Lucius poderia me insultar o quanto quisesse, não me importava. Mas, Narcisa era uma história completamente diferente.

Ele sempre arranjava forma ou outra de zombar dela, de minhas origens das quais eu tinha tanto orgulho. Minha  vontade de viajar três horas de carro até Phoenix somente para socá-lo até perder a consciência aumentava perigosamente.

Sua risadinha maldosa e sussurrada chegou do outro lado da linha telefônica, fazendo-me tentar me controlar ao máximo.
Seu instinto de auto-preservação era grande demais, portanto, Lucius mudou de assunto.

-Enfim, não foi para falar sobre o seu bando de nômades de estimação que estou te ligando. Tenho um pequeno serviço para você.

Foi imediato o gelo que subiu pelo meu estômago, inutilizando-me momentaneamente. Aquela frase. As três palavras que costumavam me tirar o rumo, somente para encher-me de culpa em seguida.

Serviço para você.

-Preciso que dê um jeito em alguém, se é que me entende. -sua voz continuou, enquanto eu ouvia paralisado. Foi quando um motoqueiro deu dois leves toques em meu vidro que percebi a luz verde sendo emitida pelo semáforo. Balancei a cabeça, ainda atordoado ao conduzir A Princesa pela pista larga.

-O que há dessa vez, Lucius? -grunhi, recuperando-me e tentando controlar a raiva na voz, sentindo-me ferver repentinamente. -Não acha que já usou o suficiente do seu brinquedinho mortal?

-Ah, não reclame, filhoto. -arrepiei de ódio com a sua ironia. -Mês passado nem foi o bastante para estar reclamando. Aquele homem merecia.

-Mês passado já foi muito, porra.-podia notar o formigamento iniciante nas pontas de meus dedos. Os pesadelos me assombrariam aquela noite. Não que isso fosse uma novidade.
-Você não pode apagar qualquer um que simplesmente te insulte ou desrespeite a sua maldita autoridade!

-Olhe como dirige a palavra à mim, moleque. -sua voz foi rígida e parecia tentar não se descontrolar. Estava nítido em minha mente as suas bochechas se corando de raiva, os lábios franzidos.

-Vá se foder. -cuspi as palavras, pouco me importando se soava infantil. Quando se tratava de Lucius, era impossível ser totalmente maduro. Não quando a merda do meu psicológico fodido ainda buscava descontar nele a raiva pelo abandono na infância. Por, mesmo após me levar para morar em sua cobertura aos quinze anos, ter finalizado minha criação como uma arma de guerra, tentando transformar-me em um monstro.

-Me respeite seu ciganinho maldito! EU SOU SEU PAI! Não sei se a sua mente de merda é inteligente o suficiente para compreender, MAS EU AINDA SOU A PORRA DO CHEFE! E SEREI ATÉ QUE EU MORRA! TRATE DE ME RESPEITAR, PORQUE ANTES DE TUDO EU MANDO NESSA MALDITA EMPRESA!

Poderia ter sido para irritá-lo, não saberia dizer, mas foi impossível segurar a risada de escárnio.

-Chama de empresa o seu negócio sujo ao qual me submeteu, apenas por conta dos 60% ser legalizado? -sorri de lado, amargamente. -Vá se foder.

Seu suspiro preencheu o momento de silêncio rancoroso.

-Sinceramente, não sei onde errei na sua educação. -sussurrou, quase que em um tom resignado.
Babaca.

-Talvez no momento que resolveu me abandonar logo após eu nascer, já que o peso de ser pai aos vinte e cinco anos sem qualquer comprometimento, pôs fim aos seus meses rebeldes no acampamento. Abraxas deve estar sorrindo orgulhoso no inferno, pelo menos.

Mais silêncio. Um pigarro de sua parte.

-Bem, como ia dizendo, preciso que apague alguém para mim. Alguém metido a bandidinho, líder de um pequeno grupo que resolveu assaltar um dos nossos galpões de Scottsdale. Pegaram os homens desprevenidos, o que foi um descuido imperdoável, os vigias já receberam a lição merecida. Enfim, de qualquer forma, o prejuízo foi pequeno, mas não o suficiente para passar despercebido e mesmo se fosse, não se pode relevar. Devemos cortar o mal pela raiz, Draco. Se for corrigido da primeira vez, não acontecerá novamente. Estarei lhe enviando as informações necessárias, assim como a foto e o nome do imbecil.

Suspirei, descendo o carro pela estradinha não asfaltada, estacionando em frente o chalé.  Guardaria na garagem mais tarde.

Meus olhos se fecharam. Sabia que se não fizesse o que ele queria, Lucius iria tornar minha vida um inferno pelos próximos tempos. Eu era como um refém em suas mãos.

Ele sempre pensava que me designar à "pequenas" tarefas como aquela, tornaria-me mais como ele. Neste ponto, eu tivera a sorte de ser criado por Narcisa Black, a pessoa com o maior coração que eu conhecera. A única influência positiva na droga daquela situação que ainda me proporcionava um pouco de sanidade e humanidade ao meu coração.

Por mais que eu soubesse que muito secretamente, ela ainda guardava resquícios de seus sentimentos por meu pai, mesmo após tantos anos, o fato de não terem ficado juntos no final de tudo era um enorme motivo para que eu jogasse as mãos aos céus e agradecesse ao que quer que fosse. Não conseguia imaginar a possibilidade de sua pureza e bondade ser poluída pela imundice da alma podre de Lucius.

-Tudo bem, eu faço. Mas apenas passarei a ordem para a frente, mandarei alguém em meu lugar. Até amanhã a noite o seu grandioso problema estará resolvido.

Sua maldita risada soou.

-Esse é o meu garoto. -internamente, aquele seu tom maldoso machucava-me. Doía como a porra de uma facada. Ainda assim, eu não admitiria.

Tive vontade de ordenar que não falasse assim, mas apenas desliguei ao som de sua respiração juntando-se para dizer algo à mais. Não aguentaria ouvir mais nada. Estava cansado.

Descansei minha testa no volante, meus antebraços pousados sobre o mesmo. A saturação de me sentir esgotado parecia alcançar-me um pouco mais a cada dia. Respirei fundo, voltando normalmente a relaxar contra o banco, ainda que isso não acontecesse. Podia sentir minha coluna esticada dolorosamente, aparentando que uma linha a esticasse ao mais alto possível. Meus músculos cheios de uma tensão angustiante.

Um pouco levado pelos instintos, minha mão direcionou-se lentamente ao porta-luvas, abrindo-o. Lá estava ele, por trás de uma pistola que sempre mantinha ali somente por precaução.

Olhei fixamente para o minúsculo saquinho de cocaína, aparentando ser tão inocente, mas com um efeito totalmente destrutivo após a chegada do vício.

Às vezes, apenas em certas ocasiões que conseguiam ser piores que outras, me perguntava se aquela seria uma boa opção. Uma possível válvula de escape a se considerar, eu diria.

Talvez, pudesse me ajudar a esquecer tudo, esporadicamente, como fora a alguns meses atrás, na primeira e última vez que experimentei.

Ainda me lembrava perfeitamente da euforia acolhedora, o bem-estar que corria em minhas veias. Meu sistema nervoso central se deleitando com a nova sensação.

Aquele pequeno plástico se mantinha ali, assim como a arma, por precaução. Raramente vinha a minha cabeça a possibilidade, de fato, sobre usufruir de seu conteúdo.

Mas, agora estava tão, tão perto...

Só necessitava de alguma nota de dólar em minha carteira para enrolar, uma superfície lisa, e tudo estaria bem. Era só...

Me despertei, bufando e desviando o olhar, fechando a pequena porta do compartimento em um baque forte.

Lucius poderia ser pertencente a pior espécie, mas a lição que me dera ao completar minha maioridade jamais sairia de minha memória.

"Um comerciante que se preze, não desfruta dos prazeres de seu produto."

Em relação ao que fazíamos, aquilo se encaixava
interdimensionalmente bem.

Esfreguei meu rosto com força, voltando a ter foco. Não podia cometer aquilo comigo mesmo. Não devia me entregar a vícios inúteis e perigosos.

Além de que, não me sentia nem minimamente disposto a encarar a fúria de Dona Narcisa por uma possível descoberta, caso ocorresse.

Entrei pela porta da frente, passando pelo hall de entrada e vendo-me na sala de estar, colada a cozinha. Era um espaço bastante grande, com decoração rústica e escura.

A lareira localizava-se sob a TV, assim como nos quartos. Era rodeada por um sofá largo e poltronas macias, trazendo-me o conforto de um lar.

Esta era uma palavra subjetiva.

Mamãe sempre dissera que "lar é onde está seu coração". Talvez eu o encontrasse novamente um dia, então.

Além dali, o local onde sentia-me realmente a vontade e em casa, era o acampamento, nos desertos de Sedona. Aquela era a minha verdadeira família.

O chão era amadeirado, com tapetes postos em pontos determinados. O cômodo era cheio de estantes repletas de livros, uma pequena mesa de café era posta em um dos cantos, os móveis em madeira escura e paredes cor de creme, cobertas até um terço com painéis do mesmo material do piso.

Meus quadros estavam espalhados pelas paredes. Pintar era uma das formas que eu tinha de relaxar. Quando a ponta do pincel entrava em contato com a tela, era como se tudo ao redor sumisse e existisse apenas eu e minha criatividade. Fazia
sentir-me mais parecido comigo mesmo. Meu verdadeiro eu, ainda que quebrado e remendado. Não a casca fria que protegia-me sem descanso.

A bancada delimitava onde a sala de estar acabava e a cozinha começava e atrás de uma parede, estava a sala de jantar e os últimos cômodos, uma sala cheia de pufes no chão e parede panorâmica, onde cuidava de algumas plantas. Um cômodo que era usado como sala de música e enfim, um espaço que funcionava como sauna, se quisesse, contendo a banheira de hidromassagem.

Ao todo, um ambiente confortável e espaçoso na medida certa. Nada tão exagerado ou extremamente luxuoso como seria, se o dono fosse Lucius.

Hermione não estava em nenhum dos ambientes no andar de baixo, como eu esperava. Ao subir as escadas, sabia que ela ainda estava ferida demais para realizar qualquer exercício físico na sala de treino. Portanto, só lhe restava o quarto.

Reparara como ela basicamente não saía dali, se não fosse para alimentar-se ou alguma outra necessidade, como trocar o livro que devorara em tão pouco tempo.

Ela logo iria embora, martelei em meu consciente. A questão da morte do monstro que tentara atacá-la seria totalmente resolvida, em breve. Meus contatos já cuidavam disso.

Mesmo que algumas pessoas houvessem pensado ter visto uma mulher de cabelos castanhos cacheados sair carregada da cena do crime por um segundo suspeito. Tudo ficaria em seu devido lugar, no final.

Bati três vezes em sua porta, adentrando o cômodo e vendo-a sobre a beirada da cama. Sua cabeça estava baixa e tinha certeza que Hermione não percebera meu flagrante de seu gesto ao percorrer os dedos sob os olhos, como se os limpasse.

Ergueu sua cabeça em minha direção e seus olhos estariam normais, se não estivessem avermelhados como quem acabara de deixar algumas lágrimas escaparem e mesmo que houvesse tentado secá-las, ainda eram visíveis os traços úmidos em suas bochechas.

Sua postura se ajeitou da forma orgulhosa e defensiva na qual sempre se transformava quando me tinha por perto e notei que um porta-retrato desconhecido por mim era segurado entre seus dedos levemente trêmulos.

Pigarreei, franzindo o cenho e me sentindo confuso, mas antes de dizer algo, sua voz soou, firme soou como se a poucos segundos atrás, não estivesse provavelmente frágil.

-Boa tarde, Malfoy. -seu queixo estava erguido, sua respiração inabalavelmente profunda enquanto me encarava com aqueles olhos âmbar achocolatados, me lembrando o verão. Continuou, dura e fria. -Há alguma novidade para me contar sobre o caso?

-Estou resolvendo isso. -Sua sobrancelha se ergueu em questionamento e notei que não estava resposta com aquela resposta mínima. Suspirei.
-Alguém nos viu.

Imediatamente, seu corpo coberto vestido em um blusão congelou. Nem mesmo um músculo sequer saía do lugar e sua garganta movimentou-se de forma aparente ao engolir em seco.

-Co-como assim? -pela primeira vez, Hermione Granger gaguejou, falhando em manter-se completamente impassível.

-Não é necessário se preocupar. -ela soltou um barulho debochado com a boca, junto a uma curta risadinha seca. -É sério. Tudo o que sabem é de uma mulher de cabelos cacheados desacordada, sendo levada por um homem loiro. Apenas isso.

Hermione fitou-me por longos instantes em desconfiança e incerteza, mas pouco a pouco, seu corpo foi relaxando até voltar apenas aos muros que já a cercavam normalmente.

Foi impossível não olhar novamente para o objeto em suas mãos e me aproximei alguns passos involuntariamente.
-Quem são? -perguntei, sem tempo de me arrepender, porque logo seus olhos penetrantes voltaram para os meus, observando-me em um completo silêncio, tirando todo o meu rumo. Parecia cogitar se deveria ou não dizer-me alguma coisa.
Eles se estreitaram por um momento tão pequeno que por pouco não daria para perceber.

-São meus pais...e eu, quando era pequena.

-Sério? -perguntei, mas percebendo que me aproximava mais até estar em pé ao seu lado na cama.

-Sim. -respondeu, balançando a cabeça uma única vez, afirmativamente.

-Será que...

-Tudo bem. -ela não me olhava, surpreendentemente estendendo a pequena moldura em minha direção, encarando um ponto fixo no chão.

Um pouco receoso, desci devagar minha mão em sua direção, até que meus dedos tocassem o material frio do objeto,
trazendo-o em minha direção.

Quando olhei a foto, fui impossibilitado de não deixar que um leve sorrisinho repuxasse um canto dos lábios.

Na fotografia, parecia ser um dia ensolarado e alegre. O fundo na frente do qual as três pessoas posavam, era uma casa pequena e agradável, pintada de amarelo claro, contendo um jardim extremamente bem cuidado e florido, contornado por uma tradicional cerca branca.

Era notável como não eram apenas aparências. Eles realmente se sentiam felizes...Eu gostaria de ter tido uma família como aquela. De ter tido a oportunidade de ser tão amado como ela claramente fora, pelos dois lados.

Uma mulher de olhos castanhos que sorriam junto a sua boca estava de um lado, encarando a câmera com uma felicidade que quase era palpável. A pele era bronzeada pelo sol, assim como a da filha e pude perceber que eram extremamente parecidas, tendo como únicas diferenças a idade e os cabelos curtos, pretos e lisos que alcançavam seus ombros.

Do lado esquerdo, um homem que provavelmente estava na faixa etária dos trinta, também parecia muito feliz em estar com a família, uma bicicleta vermelha a poucos metros de suas costas. Seus cabelos eram castanhos escuros, diferenciando do mel que havia nos de Granger e sua boca era rodeada por um cavanhaque e bigode muito bem feitos.

E, aumentando consideravelmente a curva dos meus lábios, uma garotinha adorável se mantinha no centro, abraçada pelos dois. Seus cabelos desciam até a metade de seus braços, sem a definição que tinham hoje, com uma franjinha cobrindo sua testa. Era incrível como seu sorriso fosse tão igual ao da mãe, com a única diferença de ter os dois dentes principais um pouco separados e maiores que os demais. Detalhe esse que eu nunca vira na vida real, sem que fosse completamente banhado em sarcasmo, amargor ou ironia.

E precisava admitir. Eu gostaria de vê-lo pessoalmente. Somente para comprovar se continuava o mesmo.

Ela definitivamente fora uma criança fofa e parecia tão feliz. Tão alegre, tão...diferente do que era hoje.

De aparência, realmente não mudara em praticamente nada, além do amadurecimento. Mas, havia algo diferente.

Tão grande que era como se fossem duas pessoas distintas.

Ergui meus olhos e ela ainda encarava o mesmo lugar no piso, sua mão servindo de apoio para seu corpo inclinado levemente para trás. Alguns cachos soltos caíam sobre meus ombros, rebelando-se contra o coque desleixado que fizera no topo da cabeça.

Ela mal parecia parecer o quanto parecia linda, mesmo naquela melancolia.

Como eu queria poder entrar em sua cabeça, saber o que sua mente pensava, no que suas ideias trabalhavam naquele exato momento.

Me sentia afundando em seus mistérios cada vez mais e eu sabia que se não impedisse o quanto antes, seria impossível me proteger em breve.

Suas pupilas subiram inesperadamente encontrando-se com as minhas e toda vez que aquilo acontecia, era um pequeno choque que me percorria das pontas dos dedos à mente, conturbando-me.

Quem verdadeiramente era ela?

Quem Hermione Granger era para mim.

Com tão pouco tempo, já sentia que era impossível que fosse apenas uma mulher com quem eu sonhava que por pura coincidência, agora se encontrava passando uma temporada em minha casa.

Empurrei à força a chuva de pensamentos para o fundo dos meus arquivos mentais, obrigando-me a devolvê-la a foto que...pensando bem, como ela havia conseguido-a?

-Saiu hoje? -perguntei, por curiosidade e com um pouco de receio. Por algum motivo, me preocupava de alguém reconhecê-la antes que o caso fosse totalmente abafado. Eu sabia que se fosse comigo, me safaria facilmente. Afinal, como Lucius ficaria sem seu brinquedinho para divertir-se?
Mas, ela...Eu sabia que sua organização não tinha tantas forças para, de alguma forma, se infiltrar na imprensa.

-Um colega me trouxe algumas coisas pessoais de que precisava. -minha mandíbula se apertou. Não gostava da ideia de alguém estranho entrar no chalé, lugar onde haviam muitas coisas que poderiam, talvez, me deixar em maus lençóis. Hermione, no entanto, pareceu perceber a minha reação, pois logo continuou.

-Fique tranquilo. Eu não sou uma idiota de trazer alguém aqui. Nos encontramos em outro lugar.

Por algum motivo que eu definitivamente não sabia, senti um nó se apertar em minha traqueia com a menção de um "amigo" seu. Claro que não havia problema algum nisso, mas...seria essa a designação que ela daria a um possível namorado para alguém em quem não confiava. E se ela fosse firmada em algum compromisso amoroso? Eram tantas coisas sobre ela que eu não sabia, o que seria Isso a mais?

Fechei os olhos momentaneamente, limpando a mente. O que eu tinha a ver com isso?

Absolutamente nada.

-Entendo. Vocês pareciam uma família bastante feliz. -disse, meu cenho franzido, sem encará-la.
-Acho melhor voltar para meu quarto.

Antes que ela me respondesse, saí pela porta a passos largos, me recostando na mesma por alguns segundos do lado de fora ao fechá-la, tentando voltar ao normal. Eu não poderia criar qualquer tipo de ligação a ela além do estritamente necessário.

Não podia.

Mas não poder, era um assunto diferente de não querer. Porra...

O que diabos era aquilo nascendo dentro de mim?


Notas Finais


E então, o que acharam???

Me contem aqui qual o pov preferido de vocês: Hermione ou Draco? Qual o ponto de vista que mais gostam, estou doidinha pra saber!

Um beijo,
Isa♡


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