História Blue Lagoon - Capítulo 11


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Visualizações 28
Palavras 4.627
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Romance e Novela, Yuri
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Boa Leitura! :3

Capítulo 11 - Por quê?


Por um minuto eu cheguei a duvidar do que havia escutado, o que me fez me sentir absolutamente ridícula ao cogitar que meus ouvidos e meu subconsciente haviam me feito ouvir aquilo. Mas quando Amanda não perguntou se estava tudo bem, eu tive um pouco mais de certeza de que não estava ficando louca.

— O... quê? – não lembro qual foi a última vez fiquei sem saber o que falar após receber uma declaração. Porque, na verdade, isso nunca aconteceu.

Então, muito provavelmente ao deparar-se com a minha reação – ou melhor, minha falta de reação – o rubro voltou às maças do rosto de Amanda e ela agitou-se.

— Olha, Vicky, não é como se eu tivesse pedido por isso, tá? Eu... – ela gaguejou um pouco enquanto gesticulava com as mãos, nervosa — Eu só estou sendo sincera com você porque acho que merece e eu não quero mentir, mas não é como se eu também estivesse esperando alguma coisa de você em relação a isso, eu só... eu só...

Mas seu repertório de palavras já estava acabando antes mesmo que ela chegasse a um desfecho não muito constrangedor. Porém, quando pareceu perceber que seu constrangimento não a permitiria algo do tipo, ela simplesmente olhou para o outro lado e respirou fundo, assumindo uma feição entristecida.

— Eu só... espero que não me afaste de você por conta disso...

Com certeza foi o baque do momento, porque precisei de alguns segundos para processar o que Amanda tinha acabado de falar, e ao fazê-lo, apressei-me em dizer:

— Espera, o quê? Não! Do que você está falando? Eu não vou fazer isso, Amanda, nossa, não se preocupe, eu... – mas a verdade é que ainda estava embasbacada demais para, assim como Amanda, conseguir terminar minha frase direito — Eu só... – fitei o chão a minha frente, tentando organizar os pensamentos para depois os por em palavras, e nesse meio tempo, um riso perplexo não se conteve em escapar — Sabe, eu só... ainda tô um pouco chocada, mas só isso, de verdade.

Amanda me olhou, e deu para ver em seu olhar triste e constrangido o quanto, de alguma forma, eu só estava tornando aquilo pior. Devolvi-lhe a atenção e, ao perceber seu estado, abri a boca para falar alguma coisa, mas demorei alguns segundos para que as palavras se formassem.

— Amanda, escuta, eu só... fiquei meio sem reação porque, bem... eu... eu realmente não imaginava que a pessoa a quem você estivesse se referindo era eu, porque, bem... – eu devolvi uma mecha do cabelo para trás da orelha enquanto tentava achar as palavras certas e, principalmente, não gaguejá-las — Porque – mas tudo bem, estava difícil — Ah, enfim! Eu sou uma pessoa muito escrota pra alguém como você se apaixonar, é por isso.

Ela me olhava, parecendo surpresa com a minha resposta, como se de alguma forma não fizesse sentido, então ergueu uma sobrancelha.

— Você não é escrota, é a melhor pessoa que eu conheço.

— Eu falo muito palavrão.

— Mas todo mundo fala, Vicky.

— E sou inconvenientemente pervertida de vez em quando – ok, o que diabos eu estava tentando dizer, afinal?

E desta vez, para a minha surpresa, Amanda não conteve um riso. Meio sem jeito, mas ainda um riso.

— O quê? – ela indagou.

Eu não sei, Amanda, ainda estou em processamento.

Sacudi a cabeça tentando por as ideias em ordem.

— Escuta, o que estou querendo dizer é que eu não esperava que alguém como você se apaixonasse por alguém como eu. Eu não sou apenas quatro anos mais velha, mas, eu não consigo imaginar como eu posso fazer o seu tipo. Entende?

O sorriso que ainda descansava nos lábios dela após o riso, se contraiu em um tímido. Ela fitou o acento do sofá por uns segundos, como se estivesse pensando no que falar, em seguida, ergueu os olhos – de um olhar igualmente tímido – para mim.

— Vicky, você é minha melhor amiga, como poderia não esperar isso?

E foi com essa indagação que eu senti um estranho e triste aperto no peito, afinal, Amanda, de fato, já havia me dito aquilo várias e várias vezes, mas de algum modo não levei em consideração sua própria consideração por mim, não imaginei o quanto poderia ser grande porque eu simplesmente não pensava sobre aquilo e, talvez por isso, essa tristeza repentina apertou meu coração.

— Eu sei, Amanda, eu só... não consegui fazer a associação. Acho que, isso se deve muito pelo fato de eu nunca ter te visto como uma garota que se interessasse por outras, afinal, eu sempre soube e acompanhei por momentos da minha vida suas relações amorosas com caras e nunca com uma menina, então, eu nunca iria pensar que...

— Eu me interessasse por você – ela disse, me interrompendo. Então o sorriso modelou-se outra vez para um novamente entristecido — Na verdade eu te entendo, não tinha mesmo como adivinhar, eu nunca dei uma bandeira muito forte, então, é, eu entendo você.

Mas ainda havia algo em sua expressão e maneira de falar que não me fazia me sentir melhor com aquilo.

— Mas, quer saber, acho que já vou indo – ela disse de repente, então se levantou e colocou o prato com o sanduíche inacabado sobre a mesinha de centro, onde já se encontrava seu copo de refrigerante — Obrigada pelo lanche.

Fui pega de surpresa mais uma vez.

— O quê? Mas já? Você nem comeu tudo – alternei meu olhar entre ela e o sanduíche como que para enfatizar o que estava dizendo.

Ela apenas sorriu e afundou as mãos nos bolsos do moletom rosa claro.

— Eu sei, e juro que não estava ruim, você sabe, seu sanduíche é o melhor do mundo, mas, já está na minha hora – e antes que esperasse por alguma resposta, ela passou por mim e foi em direção à porta da casa em passos largos e rápidos.

— O qu- Amanda, espera! – eu me levantei apressada para alcançá-la antes que ela o fizesse à porta e fosse embora sem mais nem menos. Mas ela foi mais rápida, e quando eu alcancei a maçaneta, ela já estava do lado de fora — Amanda! – eu chamei mais uma vez, e nesta, ela girou nos calcanhares e me olhou, ainda visualmente triste. Respirei fundo, não sabia exatamente o que dizer, só sabia que eu não queria perdê-la de algum modo — Não vai mudar nada entre a gente, né? Você não vai me deixar de me ligar e não vamos deixar de sair juntas por conta disso, não é?

Ela fitou os próprios pés por uns segundos e se balançou nos calcanhares. Em seguida, me olhou.

— Eu disse que não queria que você se afastasse de mim, mas talvez eu precise de um tempo sim, só para por as ideias em ordem. Mas não se preocupe, eu não vou sumir da sua vida se é o que está pensando, só preciso me acostumar com o que estou sentindo primeiro – então ela deu uma pausa e um sorriso sincero escorreu em seus lábios — Eu vou ser sempre sua Amandinha, Vicky.

Amandinha. Sorri ao escutar. Era a forma que eu costumava chamá-la quando era mais nova, não só pela pouca idade, mas também por conta de sua altura na época. Hoje, a mesma Amandinha já era quase da minha altura, provavelmente uma das garotas mais altas que eu havia conhecido, na verdade até acreditava que ela ainda iria passar de mim, nem que fosse por um ou dois centímetros.

— Tudo bem, Amandinha – ao dizer aquilo, me senti verdadeiramente melhor, como se houvesse finalmente alcançado uma zona de conforto em meio a turbulência repentina — Se é assim, ao menos me manda uma mensagem quando chegar em casa pra eu saber que chegou bem, não precisa conversar comigo.

Ela assentiu, com um sorriso retraído.

— Até mais, Vicky.

— Até – sorri em resposta.

Então, quando eu já estava colocando o resto do meu corpo para dentro do apartamento e fechando a porta, ela chamou:

— Vicky!

Abri a porta novamente a tempo de ver uma Amanda em passos rápidos vir em minha direção e me dar um abraço forte. Ela afundou o rosto na curva do meu pescoço e enlaçou seus braços com força em minhas costas. Por um momento fui pega de surpresa, mas logo em seguida, devolvi-lhe o abraço instantâneo com um sorriso no rosto e, nessa hora, senti suas costas subirem e descerem em uma respiração profunda, como se aquele momento a estivesse relaxando de alguma forma. Meu sorriso se alargou e eu dei-lhe um beijo no topo da cabeça.

— Leve o tempo que quiser para pensar, mas saiba que se quiser o gastar pensando comigo também não é uma má ideia.

Escutei um riso abafado, em seguida, ela me soltou e me olhou nos olhos. Seu sorriso, embora ainda ligeiramente tímido, também expressava um pouco de conforto.

— Tudo bem, eu vou me lembrar disso.

Quando Amanda foi embora, o clima estranho que pairou no apartamento com a sua chegada ainda estava lá. Mas não era um estranho sinônimo de algo ruim, era apenas a sensação estranha de passar por aquela situação na vida, afinal, receber a declaração de alguma garota aleatória era uma coisa, mas receber a declaração da própria prima, alguém que você conviveu durante uma vida a vendo como uma irmã, era algo totalmente diferente. Eu sinceramente não estava incomodada em ser – o que deu a entender – o primeiro amor lésbico de Amanda, na verdade, eu até sentia certo alívio em saber que sua primeira paixão do gênero havia sido por mim, uma pessoa de confiança, mas, também não podia negar que de algum modo eu me sentia um tanto embaraçada, acho que ainda estava sob o efeito da surpresa, porém, ao pensar um pouco mais sobre aquilo, ri. Estava me sentindo como uma criancinha ao receber a primeira cartinha de amor, que ridículo.

Quando a noite caiu, decidi descer para comprar algumas garrafas de cerveja e talvez um maço de cigarros. Eu raramente fumava, geralmente em ocasiões sociais ou para passar o tédio, e o meu último havia acabado há cerca de um mês, por isso achei melhor repô-lo. Havia uma vendinha simples há dois quarteirões do meu prédio, do outro lado da rua, mas com produtos que, ao meu julgar, eram excelentes e com um preço ótimo, além de que as melhores cervejas eu encontrava por lá.

A noite estava fria naquele dia, o suficiente para sentir a necessidade de me abrigar em duas camisas de lã e um casado fechado, com minhas mãos afundadas em seus bolsos. Os fones de ouvido jogavam um rock suave em meus tímpanos e fui o caminho todo balançando a cabeça ao ritmo da música.

 

— Obrigada – disse ao rapaz do caixa após pegar pelas cervejas e o maço de cigarros e os colocar em uma sacola plástica

— Só não fume muito disso daí – ele disse, simpático, me dando o troco e a nota — Você é muito bonita e nova pra se acabar com esse troço.

Sorri achando graça.

— Não se preocupe, é uma vez a cada vida.

Sai do estabelecimento do jeito que entrei, com as mãos afundadas nos bolsos do casaco e com a música de volta ao ouvidos. Talvez fosse por conta do ar condicionado do lugar, mas saí com um pouco mais de frio do que quando cheguei. Enquanto caminhava de volta para casa, pensando o que seria bom para acompanhar a cerveja, meus olhos bateram em um veículo estacionado no outro lado da rua, em frente a uma farmácia. Era um Mercedes-Benz prateado e, ele não seria absolutamente incomum, se eu não o reconhecesse pela placa.

Era o carro de April.

Parei por um instante e fitei o veículo até perceber que a motorista se encontrava dentro – descobri pela luz do celular que escapava pelo fumê, revelando parte das feições de quem o estava usando. Por um minuto eu hesitei, me perguntando se deveria ir até lá ou não, mas se fosse, o que eu iria dizer? “Oi April, tudo bem? Como você está?” Embora aquilo fosse o mais óbvio em uma receptiva, também me parecia o mais errado em relação a ela. Mas no fundo eu sentia que queria falar alguma coisa, principalmente depois de como nos despedimos na última vez, era como se... algo estivesse incompleto e, embora eu respeitasse sua escolha, aquilo ainda me incomodava. Porém, naquele momento, também havia algo mais que estava me martelando: o que ela estaria fazendo ali estacionada em frente a farmácia? Aparentemente sozinha? A curiosidade estava apenas me empurrando cada vez mais a ir até lá, e pelo mais que eu hesitasse, no fim, cedi.

Olhei para os lados para ver se não vinham carros e então atravessei a rua. Quando estava me aproximando do Mercedes, suspirei um pouco, beirando a incerteza, mas não desisti, e quando o alcancei, bati no vidro com os nós dos dedos. Ali, mais próxima do carro, pude ver com a ajuda da luz do celular de April quando ela olhou para mim um pouco confusa, afinal, não havia me visto chegar, mas logo em seguida, o vidro do carro baixou.

— Ora, ora, não é que o destino resolveu dar uma trégua curta – ela me olhava com um sorriso duvidoso no rosto, mas de alguma forma, simpático — Não faz nem uma semana.

Minhas sobrancelhas estremeceram, eu ainda não sabia exatamente o que dizer, mas precisava tentar qualquer coisa.

— O que está fazendo estacionada aqui sozinha? Está esperando alguém?

Seu sorriso alargou-se.

— Eu estava apenas tirando uma folga e resolvi te stalkear para passar o tempo. E olha só, deu certo – mas quando franzi o cenho, claramente em dúvida se o que ela estava falando era verdade ou não, ela riu — Estou brincando, Victorie – em seguida bloqueou a tela do celular e olhou para fora do carro, para a sacola em minhas mãos — Mas me diga, o que tem aí? São aquelas suas cervejas favoritas?

Pisquei, quase atordoada pelo seu palpite em cheio.

— Ah, é – ergui o saco plástico alguns centímetros como que para confirmar, em seguida o baixei novamente — Eu tava com vontade de beber algo hoje então resolvi comprá-las, pelo mais incrível que pareça, já faz algum tempo que não as bebo.

— Mesmo? Você comprava umas três toda semana.

— Eu sei, mas, eu meio que mudei alguns hábitos desde que a gente... bem, você sabe – a pior parte do diálogo, era a estúpida sensação de vergonha que inexplicavelmente resolveu surgir naquele momento. Eu não sabia se era porque no fundo eu ainda estava sensível pela declaração de Amanda, ou porque a lembrança de April na capa do último volume da Valkirie me fez sentir cócegas no estômago ao me deparar com a modelo pessoalmente e, principalmente, por saber que aquela mesma pessoa já havia sido minha — A propósito, eu vi a capa da Valkirie Premium desse mês. Parabéns, você estava muito bonita.

April ergueu uma sobrancelha e agora me olhava com uma feição mais subliminar ainda.

— Só isso? Você costumava dizer que eu ficava linda nas capas.

Senti o embaraço explodir em meu rosto, só estava torcendo para que a noite não a permitisse de enxergar isso.

Sua filha da...

— Tá, tudo bem – não havia outro jeito, mas sério, que sensação horrível — Você estava linda, de verdade, eu só... não acho que deveria ficar te falando esse tipo de coisa. Não estamos mais juntas.

— E duas pessoas precisam estar juntas para uma admirar a outra? – desta vez, seu tom estava um pouco mais sério — Eu ainda te acho linda se quer saber e também ainda acho que deveria ter tentado uma vaga na Valkirie. Eu ainda posso conseguir uma pra você se quiser, você tem o perfil de uma modelo. Mas não se preocupe, não digo isso pra que você fique perto de mim, é porque realmente acredito que você tem um potencial.

Por favor, April, para com isso. Essa sensação estranha só está piorando.

— Não, obrigada, eu realmente não me vejo na moda – disse, sincera, mas não menos desconfortável — De todo modo eu não levo jeito pra coisa, não como você, ou como qualquer outra modelo. Prefiro ficar no calorzinho do meu apartamento e de garotas ao invés disso, além de que tenho uma faculdade puxada.

As pálpebras de April estreitaram e ela me olhava como se estivesse me lendo por dentro, mas não de uma maneira tão incisiva. Seu sorriso já havia sumido por completo.

— Você está com alguém agora?

Não sei se havia sido apenas impressão, mas algo no tom e no olhar de April não expressava apenas curiosidade, mas um leve receio, como se sentisse medo da minha resposta.

— Bem, eu... – eu cogitei não revelar sobre Lena, mas ao mesmo tempo me perguntei por que eu precisaria esconder aquilo? April não me escondeu quando me traiu – o que obviamente não havia sido ruim –, mas se ela não havia problemas em me contar algo assim, também não havia problemas pra me contar se estivesse com alguém, então, eu também não teria porque tê-lo — Tem uma garota que... – mas parei de falar subitamente quando meus olhos bateram em um kit de remédios depositados dentro da gaveta próxima à marcha do carro.

April pareceu perceber para onde eu estava olhando e, desta vez, foi ela que pareceu um pouco sem jeito, como se não quisesse me dar explicações. Por outro lado, a sombra de um sorriso se formou no canto dos meus lábios, eu reconhecia uma das embalagens de tarja preta, era parte do tratamento para a sua patologia. Não acredito, ela havia voltado para o tratamento!

— April, você...

Mas novamente fui interrompida quando vi uma figura feminina indesejavelmente familiar sair de dentro da farmácia com uma sacolinha de plástico nas mãos, caminhar em direção ao carro de April enquanto conferia algo que eu diria ser o troco. Assim que ela alcançou o veículo e abriu a porta do passageiro, seus olhos ergueram-se, percebendo-me pela primeira vez, e então, encontraram os meus. Um sorriso tão filho da puta como a própria mulher me recebeu com deboche.

— Ora, se não é a Victorie? O que faz aqui, garota? Veio chorar pelo leite derramado da queridinha April? – então ela riu, ainda debochosa — Será que você não se enxerga? A fila anda, meu amor, você agora é passado, por que não vaza daqui?

Calena Digone, mais conhecida como a vaca com quem April me traiu. Se um dia eu achei que odiasse April, nunca chegou aos pés do quando odeio Calena. Ela não só provocou April a me trair por dá em cima dela há muito tempo desde quando namorávamos, como também era um lixo de pessoa. Ainda não conseguia entender o que diabos April tinha na cabeça para querer algo com aquela mulher. Ela era escrota e ridícula, completamente fora dos padrões das pessoas com quem April teve um relacionamento mais duradouro, mas o pior de tudo, era imaginar que cinco meses depois do nosso término, April ainda estava envolvida com aquela vagabunda.

— Mas que merda, Calena, você não pode ser ao menos um pouco menos estúpida? – April se pronunciou, para minha surpresa, um pouco irritada.

Mas Calena não deu a mínima.

— Não estou sendo estúpida, meu amor – ela olhou para dentro do carro, diretamente para April, em seguida ergueu os olhos para mim novamente — Estou apenas protegendo o que é meu.

Haviam na verdade três razões porque eu odiava Calena, as duas primeiras eu já citei, mas a terceira era o modo como ela me olhava. Aqueles olhos cor de mel me lembravam muito um felino, como uma pantera, e isso só se reforçava pela sua cor de pele um pouco mais escura e seu jeito agressivo de se dirigir a mim, como se estivesse sempre disposta a me pisar, e bem, estava né. Calena, assim como April, era uma das modelos da Valkirie, e acho que aquele status sempre subia à sua cabeça fazendo-a se achar superior à maioria das mulheres de beleza comum, somado ao fato de ser, o que me parece, a nova companheira da April, Calena só havia mais motivos para se afundar em estupidez.

— Tudo bem, mas não precisa ser tão ridícula – April disse, ainda com o mesmo tom de voz — Agora anda, entra no carro.

Calena me olhou por mais algum tempo, em seguida, cedeu ao pedido de April, mas, quando já estava entrando no veículo, lembrou-se de algo:

— Ah, só uma última coisa – ela voltou a me olhar — Escuta, Victorie, não sei quais são suas intenções com a April, mas é bom ficar sabendo que hoje em dia ela é muita areia pro seu caminhãozinho, entendeu? Suas chances esgotaram, amiga.

— Porra, Calena, entra na merda do carro! – dessa vez April gritou, e pelo seu tom de voz, percebi que até Calena estremeceu.

Considerando que ela andava com April naquele mesmo veículo onde estavam seus remédios, imaginei que a vadia também soubesse sobre sua psicopatia – embora imaginasse que ela já soubesse sobre há muito mais tempo -, o que explicava seu modo um pouco mais retraído antes de entrar no carro, afinal, ninguém em sã consciência quer provocar um psicopata, mas ainda assim, isso não impediu que ela o fizesse com uma gargalhada mais fodida que a própria mulher.

Após Calena se acomodar ao banco, April suspirou fundo e em seguida olhou para mim.

— Eu... bem... – ela parecia completamente constrangida com a reação da sua querida boneca de foda, o que me deixou sinceramente surpresa, não lembro a última vez que vi April embaraçada por algo, principalmente algum barraco, imagina as premissas de um — Escuta, Vicky...

— Toma – eu falei, tirando uma das garrafas de cerveja da sacola que carregava comigo e dando a ela — Se estiver estressada, vai te ajudar a relaxar.

April pegou a garrafa um pouco hesitante, como se estivesse se perguntando se eu realmente estava fazendo aquilo ou por quê. E nesse momento, escutei a voz baixinha de Calena vindo de dentro do carro dizendo:

— Tá de brincadeira, né? Você não vai aceitar isso.

Mas April apenas ignorou e aceitou de bom grado. Então eu sorri.

— Pra te lembrar dos velhos tempos.

Então, para minha surpresa, um sorriso aparentemente verdadeiro brotou quase timidamente nos lábios de April enquanto ela fitava a garrafa em mãos. Em seguida, seus olhos encontraram os meus e aquela foi uma das poucas vezes na vida em que a vi me olhar sem nenhum tipo de intenção subliminar ou frieza nos olhos.

— Obrigada, Vicky.

Assenti, feliz por dentro, pois sabia o quanto Calena estava se remoendo naquele momento. Me reforcei dessa certeza por algumas exclamações indignadas que ela soltava dentro do carro, mas April simplesmente ignorava. Eu também.

— Ah e, a propósito, April – eu disse, antes de ir — Parabéns pelo desfile também.

Ela me olhou com algo que me pareceu pitadas de esperanças no olhar. Será que ela esperava que eu fosse ao evento? Mas antes que ela falasse algo, afundei novamente as mãos nos bolsos e retornei ao meu caminho.

Aquele dia não podia ser mais estranho, pois já passava das onze e Lena ainda não havia me ligado. Já que ela tinha um relacionamento – falsamente – sério com seu namorado, ela me disse para não ligá-la até que ela o fizesse, pois assim, não correria o risco de eu ligar em alguma situação desfavorável para ela, e assim eu obedeci. Aquela não era a primeira vez que Lena passava do seu horário normal de ligação, mas ela sempre mandava ao menos alguma mensagem avisando quando não iria poder ligar, ao menos não no nosso horário, mas naquele dia, não havia mensagem alguma. Me perguntei o que ela poderia estar fazendo, será que estava com o David? Resolvendo alguma coisa do trabalho – afinal, como ela mesmo disse, era hospital né – ou tendo uma noite de amores? Ao considerar essa última, senti um embrulho no estômago e decidi não pensar mais sobre aquilo, se não eu iria acabar perdendo uma noite de sono ou acabar pondo pra fora toda a cerveja que eu havia bebido com alguns Cheetos. Eu sabia que ela não sentia nada pelo namorado, mas não era agradável pensar que eles faziam amor debaixo dos cobertores.

Que horrível!

Porém, quando deu onze e meia eu resolvi ao menos mandar alguma mensagem para perguntar onde e como ela estava. Fui na sua conversa do Whatsapp e ela não estava online, senti um apertinho no coração, mas mesmo assim, escrevi a mensagem e a enviei. O verificador de mensagens só apresentou um tracinho, o que significava que onde quer que ela estivesse, estava sem internet ou com o celular desligado. Eu apenas expirei um pouco chateada e afundei na cama, de braços e pernas abertas, como se fosse fazer um anjo no colchão. O celular em uma das mãos. Fitei o teto por alguns minutos e, quando menos me dei conta, cai no sono.

Acordei em algum horário da madrugada com a vibração do meu celular fazendo cócegas em minha mão e o som me arrancando dos sonhos em um ligeiro súbito. De imediato, segurei o celular em frente ao meu rosto para verificar no visor quem estava ligando, com a esperança de ser Lena, mas para minha surpresa, era April. Franzi o cenho, meio incerta se deveria atender ou não, mas no fim, daquela vez, eu não vi porque não fazer aquilo.

— April? – indaguei, um pouco sonolenta e surpresa pela sua ligação.

— Oi – sua voz, diferente da minha, parecia bem desperta, no entanto, um pouco acanhada — Me desculpa pelo modo como a Calena te tratou, ela é uma idiota.

— Você me ligou só pra dizer isso? – embora a pergunta um pouco hostil, no fundo, senti alguma felicidade por aquela atitude dela.

— Eu achei que devia, pelo menos por ela – e antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ela continuou — Obrigada de novo pela cerveja, eu nem deveria beber, mas me ajudou muito depois da briga que tive com a Calena.

Franzi o cenho.

— Vocês brigaram?

— O caminho todo. Ela não parava de me enxer o saco falando muito merda de você, quando cheguei em casa mandei ela ir embora na mesma hora, não iria passar uma noite com uma vadia daquelas.

E mais uma vez não pude negar a surpresa me acertar com um golpe certeiro. April negando uma noite de sexo porque sua parceira havia falado mal de outra? Era novidade para mim.

— Enfim – ela suspirou pesadamente em um tom de despedida e junto a isso, escutei um som engraçado pelo outro lado da linha, como se ela estivesse brincando com as páginas de algum livro — Eu só queria me desculpar, não vou mais tomar seu tempo, ainda mais uma hora dessas, você com certeza estava dormindo quando te liguei.

Eu pensei em confirmar, mas me senti meio constrangida ao fazê-lo, principalmente porque ela pensaria algo como “Você costumava não atender minhas ligações e agora acorda só pra fazer isso?” Na verdade, não precisaria de uma confirmação minha para que ela pensasse assim, tenho certeza que era isso que ela já estava pensando, mas era melhor não dar corda.

— Tá tudo bem, April – foi tudo o que disse.

— Tudo bem então, eu vou indo lá – mas, quando ela já estava a ponto de desligar, sua voz retornou à linha: — Vicky?

— Hm? – indaguei, tornando o celular ao ouvido.

— Ah, eu... – então sua voz se perdeu por alguns segundos no silêncio, segundos poucos, mas que por algum motivo pareceram longos, em seguida, ouvi uma nova respiração, tão pesada quanto antes: — Não, não é nada. Boa noite – e então desligou.

Naquela mesma madrugada, alguns minutos mais tarde, despertei de um sono quase instantâneo após a ligação de April com uma nova vibração vinda do celular, era uma mensagem. Meio atordoada, tateei a colcha em busca do aparelho e desbloqueei a tela para ver o que haviam me mandado.

Era uma única mensagem de April, e nela havia escrito:

“Sinto sua falta”.

Mundo, mais uma vez, eu te odeio!

 

Continua...

 


Notas Finais


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É sério meus nobres amiguinhos, sua opinião é muito importante e fator essencial para a continuidade da história ♥
Para quem leu até aqui, desde já agradeço ♥
Até amanha!


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