História Bon Appétit - Capítulo 3


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Categorias Voltron: O Defensor Lendário
Personagens Allura, Hunk, Keith, Lance, Takashi "Shiro" Shirogane
Tags Klance, Prostituição, Shallura
Visualizações 192
Palavras 4.986
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Lemon, LGBT, Musical (Songfic), Romance e Novela, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Oi!
Já faz um tempo, não faz? Ainda bem que não dou mais prazos de postagem.
Eu fiquei um bom tempo empacado nesse capítulo, principalmente depois que eu vi o quão curiosos e cheios de expectativas vocês estavam a respeito dele. Além disso, esse capítulo também é bem mais pessoal do que deveria ser...
Talvez ele esteja meio meh, meio confuso, porque é como eu ando na vida, talvez acabe refletindo sahusahuusah
Enfim, eu espero que vocês se divirtam lendo.

Depressão é coisa séria! Procurem ajuda o quanto antes, caso sintam que algo está errado!

Capítulo 3 - I bet my life


As possibilidades eram infinitas e isso deixava a cabeça de Lance inquieta. Ele mal conseguiu pregar os olhos naquela noite. Perguntas sem respostas eram como o inferno para Lance e a que mais lhe atormentou naquela noite foi: e agora?

            O que ele faria dali pra frente? Ele não sabia nada sobre o cara que estava dormindo em sua cama, além do fato de que ele tem problemas graves em sua vida. Não sabia como era sua rotina, seus amigos, sua família, nada. Não sabia se ele queria alguma ajuda ou se seria melhor se afastar. Toda essa indecisão deixou Lance acordado até pouco antes de o sol raiar.

            Não dormiu muito e por volta das oito ele já estava rolando de um lado para o outro no sofá. Se levantou e foi dar uma olhada em Keith, que ainda parecia estar no mais pesado dos sonos. Não iria o perturbar, ele precisava daquele descanso.

            Quando foi perto do meio-dia, Lance acordou do pequeno cochilo que acabou tirando. Pareceu sincronizado, porque assim que acordou ele ouviu barulhos e alguns gemidos vindo do quarto. O rapaz se levantou do sofá e abriu a porta do cômodo, lentamente, tentando enxergar algo no quarto, que ainda estava bem escuro por conta de estar com as janelas e as cortinas fechadas. Assim era melhor para o morto-vivo em sua cama. Lance só conseguia ver a silhueta de Keith se mexendo na cama.

            Sabia que acordar depois de um porre era um processo longo e nada simples, então apenas pegou um livro e voltou a jogar-se no sofá, onde esperou mais alguns minutos. Tirou os olhos das páginas quando viu uma figura apoiando-se no batente da porta do cômodo.

— Banheiro — o homem praticamente grunhiu — banheiro — repetiu com urgência.

— À sua direita — Lance indicou, vendo Keith dar alguns passos apressados até lá, se apoiando onde podia.

            Não demorou para o rapaz ouvir grunhidos vindos do banheiro, que fizeram-no franzir seu rosto numa careta. O vômito alheio nunca era algo agradável. Keith ficou cerca de quinze minutos abraçado à privada, até ter certeza de que tinha posto tudo para fora. Quando se levantou, caiu apoiado no batente da porta e Lance, num pulo, foi ao seu encontro para ajudá-lo.

            Ele passou o braço de Keith por cima de seus ombros e o sentou no sofá com cuidado, buscando um copo d’água para o rapaz, que o bebeu com urgência e pediu mais. Lance aproveitou e trouxe um remédio para dor de cabeça para que tomasse junto.

— Que horas são? — o rapaz de ressaca perguntou arrastado.

— Já passou do meio-dia.

— Onde — tentou olhar em volta, mas a luminosidade incomodava muito seus olhos — onde eu tô?

— Na minha casa.

            Só então a ficha de Keith caiu e ele se deu conta de que não estava sozinho ali. Levantou seu rosto para olhar para quem quer que fosse que estava lhe ajudando. Ele não estava nada, mas nada bem. Quando ele fixou seus olhos no rapaz de braços cruzados à sua frente, flashes da noite passada lhe atingiram como balas.

— Lance — ele resmungou.

— Sim — rebateu num tom meio de obviedade, meio solícito.

— Como? — estava muito confuso — por quê? A gente...

— Você é inacreditável mesmo. Você realmente não lembra? — Lance foi de zero à indignação pura em um segundo. Sua paciência simplesmente acabara num estalar de dedos com aquela insinuação — e não, nada aconteceu. Nada. Você teve um surto e tentou se matar — soltou um tanto ríspido e se arrependeu logo na sequência, ao ver a mudança no rosto de Keith.

— Ah...

— Desculpa — soltou na sequência, querendo bater em si mesmo.

— Não... Tá tudo bem — levou a mão à sua cabeça.

— Me desculpa pela grosseria, é só que a sua insinuação...

— Eu faço tudo errado mesmo, Lance — ele o interrompeu — tá tudo bem. Você já demonstrou compaixão o suficiente por mim.

— Não fala assim, cara.

— Obrigado, mas — a respiração do rapaz começou a ficar mais acelerada e seus olhos encheram d’água num segundo — você devia ter me deixado em paz — ele começou a chorar como uma criança que levou um tombo e ralou o joelho — seria muito mais fácil se você tivesse me deixado em paz! Eu — levou uma mão a boca por impulso — eu não sei o que vou fazer agora.

Os olhos de Lance arderam vendo a cena e logo estavam marejados também. Desde quando era tão mole assim?

            E então ninguém mais falou nada. Só se ouvia o choro copioso de Keith. Lance se sentia impotente ao extremo naquela situação. Tudo o que podia fazer era ver o que sobrara daquele rapaz desmoronar diante dos seus olhos. Ele estava devastado e todas as suas bases estavam destruídas. Keith era menos que ruína.

            Lance estava assustado. Ele estava com um medo que travava suas pernas. Ele não conseguia ir pra frente e nem pra trás. Só sabia realmente observar o outro do mesmo lugar. Um estranho, a quem ele havia ajudado num dia sem entender bem o porquê. Altruísmo não era exatamente a palavra que descrevia Lance.

            A vida do rapaz havia não havia sido nada gentil com ele. O mundo havia o ensinado a defender a si mesmo e a sua família, e o resto era resto. Mesmo assim, ele havia ajudado Keith. Duas vezes, agora. Ainda assim, sentia que precisava fazer de novo.

            O mais aterrorizante é que Lance mal sabia cuidar de si mesmo. Se defender dos perigos da vida ele sabia bem, agora cuidar de si e se ajudar era outra história. Lance carregava uma bagunça enorme dentro de si e apenas era especialista em fingir que as coisas estavam bem e que ele sabia o que estava fazendo.

            A sua bagunça não era do tipo que você tem no seu quarto. Lance tinha em si os destroços de uma cidade devastada por um tornado. O que ele podia fazer? Mas que merda! Por que ele sentia que tinha que fazer algo? Keith era só um cara aleatório, que entrou em sua vida de forma aleatória. Ele não devia nada a Keith! Era só abrir a porta e deixar que ele fosse embora.

            Mas ele não queria que Keith fosse embora. Ele sabia que, se o rapaz partisse, ele não o veria nunca mais. Talvez ele fosse a última pessoa que o veria.

            Ok, mas e daí? Keith não era sua responsabilidade.

            Se ele não era responsabilidade, por que tinha esse sentimento tão forte dentro de si de querer fazer algo por ele?

            Ele se colocou no lugar do rapaz, talvez. Se fosse ele, provavelmente iria querer que alguém demonstrasse compaixão por si. Não sabia dizer.

            Todo esse dilema estúpido que atormentava o oceano plácido que era sua alma estava travando também o seu corpo. Sua mente se movia a mil, mas seu corpo estava estático como rocha. Lance se sentia um idiota impotente. Ele não sabia nem o que fazer por si, como faria algo por outro alguém?

            Ele queria se aproximar de Keith para pelo menos tocar seu ombro, para lembrá-lo de que estava ali e que ele não estava sozinho. Queria mostrar que, apesar de tudo estar uma merda e dele ser um idiota, pelo menos tinha outro idiota ali do seu lado. Um idiota não faz muita coisa, mas dois já é alguma coisa, mas ele não conseguia se mover. Não conseguia dar um passo e fazer algo, porque não sabia por onde começar. Sua cabeça estava um turbilhão e Lance estava bem no meio, sem luz guia, sem norte.

            Lance respirou fundo. Era patético o desespero que ele se encontrava. Estava decidido: ele tinha que fazer algo. Não por se importar, mas porque se ele não fizesse, quem faria?

 A batalha acabou, quem consegue andar, carrega o cara do lado que não consegue! Não importa como, não importa em que condição, o que importa é sair da trincheira com vida!

Mi hijo, toda a jornada é imprevisível. Quando e como ela termina, ninguém sabe. O que se sabe é que tudo começa com um passo.

Como que num clarão, essas duas sentenças apareceram para Lance em sua mente. Ambas costumavam ser repetidas para ele por seu pai e sua mãe, respectivamente. Sua cabeça pareceu se acalmar quase instantaneamente. Era como se as coisas parassem de girar. Ele só não entendia bem o porquê. Por que, naquela situação, sua mente acabou se acorrentando em coisas tão clichês que seus pais diziam por diversas vezes.

Mas, se Lance esperasse que tudo fizesse sentido, ele morreria parado ali. Os pontos que terminassem de se ligar mais tarde, ele precisava dar um passo agora. Um passo! O resto ele pensaria depois. Só tinha que fazer algo.

Lance abriu a boca, mas nenhum som saiu. Ele fechou os olhos com força, franzindo seu rosto e sacudindo a cabeça. Qualquer coisa! Estava começando a ficar confuso de novo, então só soltou a primeira coisa que lhe veio à cabeça,

— Café — Lance disse, olhando Keith voltar seus olhos sobre si, confuso — você gosta de café? — perguntou. Claramente ele não sabia o que estava fazendo, mas era fora isso que seu pânico lhe permitiu.

— Eu... — Keith cessou seu choro. Ele parecia pensativo. Não tinha certeza se havia entendido a pergunta, porque esta tinha sido muito aleatória — eu... eu gosto de café.

— Ok, certo — Lance parecia tentar acalmar a si mesmo — você gostaria de um café? Tipo, agora. Um — seus olhos encontraram os de Keith, confusos. Bom, pelo menos eles tinham algo em comum — café. Agora. É.

— Eu, hã... — aquilo mais parecia uma conversa num manicômio — se você não se importar, eu até que gostaria, sim.

— Certo, então.

            Lance ficou parado por mais alguns segundos, até se atinar da resposta do outro e mover-se em direção à cozinha. Ok, fazer um café. O que viria depois disso ele não podia dizer, mas pelo menos tinha por onde começar: passar um café.

            Ele foi até sua cozinha, de um lado para o outro pegando o café e já deixando o açúcar ao lado da cafeteira. Pôs a água e ficou esperando o líquido escuro correr para dentro da jarra de vidro que estava logo abaixo. Lance estava escorado na pia, vendo Keith abraçado a uma almofada, com o olhar fixo em qualquer lugar, completamente perdido em seus pensamentos. Parecia ser apenas uma casca vazia. Respirou fundo.

— Você tem alguém para quem eu possa ligar, Keith? — Lance perguntou, chamando a atenção do outro, que voltou seus olhos para ele — pai, mãe, irmãos...? — Keith apenas negou com a cabeça — algum amigo, seu médico?

— Eu não quero ver ninguém conhecido, especialmente meu irmão e meu médico. Eu não quero que eles saibam disso.

            Lance suspirou. Ele amaldiçoava mil vezes seu coração mole, que não permitia simplesmente chutar Keith pra fora e mandar que ele se virasse. Ele simplesmente não sabia o que fazer... mas, talvez soubesse quem poderia ajudar. Atingido por uma ideia muito boa, a expressão de Lance voltou a brilhar. Ele caminhou até Keith e se abaixou, para ficar cara a cara com ele, que lhe olhava com um olhar confuso, além de triste.

— Escuta, cara — Lance começou soltando um longo suspiro na sequência — eu não sei o que fazer. Não sei mesmo — era um tom de desabafo.

— Mas você não precisa...

— Shh, cala a boca — ele nem deixou que Keith começasse a falar — você não quer ver nenhum conhecido, eu entendo e eu vou respeitar isso, mas eu tenho um amigo que pode dar uma força. Ele é psiquiatra, você poderia conversar um pouco com ele.

— Por que você se importa? — Keith nem o deixou terminar a frase direito e logo rebateu, o que fuzilou a paciência de Lance novamente.

— Mas que merda, você pelo menos ‘tá me ouvindo? — Lance o olhava nos olhos, mas não via nada e isso lhe aborrecia ainda mais — você-argh, quer saber? Sei lá porque eu me preocupo, mas se eu não me preocupar, quem é que vai? — Keith emudeceu por quase meio minuto. Meio minuto de Lance o fuzilando com o olhar — exatamente! Eu nem posso imaginar como você está se sentindo, mas para de fazer pergunta idiota porque isso só me faz querer socar você, tipo, com muita força!

— Eu só estou confuso, desculpa... — ele respondeu quase num sussurro, contrastando com a voz alterada de Lance.

— Porra, se você está confuso, imagina eu — ele suspirou cansado e indignado — eu não sei o que eu estou fazendo, então só deixa eu fazer. Se você tiver alguma pergunta, não faça, porque a minha resposta vai ser algo como “eu vou socar a sua cara”. Minha resposta para as suas dúvidas vai ser essa — Keith olhou para cima, para encarar Lance, que agora estava de pé — Vamos treinar? Vamos! Me faz uma pergunta — Keith ergueu uma sobrancelha para evidenciar sua confusão — anda!

— Por — Keith hesitou — por que você quer que eu converse com seu amigo?

— Porque se você não conversar, eu vou socar a sua cara! Próxima!

— Por que você não me deixa ir embora?

— Porque se você tentar, eu vou ter que socar a sua cara!

— Por que você está gritando?

— Pra não ter que socar a sua cara — Lance soltou um berro que foi audível no andar inteiro.

— As pessoas te dizem com alguma frequência que você é um pouco exagerado? — Keith perguntou num resmungo desanimado.

— É claro que não!

            As pessoas diziam sim.

            Os dois se encararam por algum tempo, Lance com um olhar sempre indignado e Keith com um olhar cansado e entediado. Só cortaram o contato quando Lance deixou-se inebriar pelo cheiro de café fresco. Deu-lhe as costas e foi até o balcão da cozinha, onde pegou duas xícaras e as preencheu com o líquido escuro.

— Toma — estendeu uma das xícaras para Keith — tem bastante açúcar, porque você precisa de glicose.

— Obrigado — ele deu um gole e fez uma careta, porque estava realmente muito doce para o seu gosto.

            Lance sentou-se no outro sofá com a sua xícara. Olhava de soslaio para Keith, que bebia seu café bem quieto, olhando para qualquer ponto do chão, de forma distante. Parecia aéreo e isso não era bom, afinal já dizia o dito popular: mente vazia é a oficina do Diabo. Talvez só estivesse processando toda aquela situação, afinal estava bebendo café na casa de um garoto de programa que ele viu duas vezes na vida, depois de tentar suicídio. Era uma situação que beirava o absurdo.

— Escuta, papo sério agora — Lance estalou os dedos em frente ao rosto de Keith, para chamar sua atenção — você precisa conversar com o meu amigo. Se ele me disser que não tem risco te deixar ir embora daqui, aí tudo bem.

— Você não precisa se preocupar e não pode me prender aqui.

— Eu sei, eu também não quero isso. Você é chato pra caralho e é irritante demais — Keith ergueu uma sobrancelha e franziu a expressão — a questão é justamente eu não querer ter que me preocupar com você.

— Eu tenho medo que ele diga que eu preciso de internação — Keith respondeu abruptamente, voltando a fixar o olhar no nada.

— Você já pensou que poderia ser bom pra você? — Lance respondeu depois de um silêncio razoavelmente longo.

— Eu — ele hesitou — eu só não quero.

— Ok, eu o chamo e você fala isso pra ele — Keith levantou seus olhos para Lance — pode ser? Uma conversa com alguém que pode te ajudar nunca vai ser bom. Eu posso te ouvir o dia todo, mas eu não vou saber o que te dizer, sabe.

— Tudo bem, Lance — seu olhar voltou para o chão.

— Pera, sério mesmo? Sem mais resmungos, sem você me xingar? — o rapaz vinha sendo cabeça dura o tempo inteiro, aí, do nada, ele cede assim? Que?

— É, tanto faz. Eu só quero descansar e com você enchendo meu saco eu não consigo. Quanto antes isso acabar, melhor.

            Lance ficou bastante ofendido com aquilo, mas não quis discutir. Não queria começar uma briga de novo e não queria que Keith mudasse de ideia novamente, então simplesmente bufou e foi buscar o celular.

— Lance? — a voz do outro lado da linha saudou num tom confuso — isso sim é algo incomum. Você nunca me liga, o que houve?

— Bom dia, Lotor, ou boa tarde, caso já tenha almoçado — Lance não sabia bem o que responder. Ele realmente nunca ligava para Lotor — você tem uns minutos?

— Pra você? Sempre. Algum problema?

— Sim — ele suspirou — dois: preciso dos seus serviços e não tenho como pagar.

— A gente já conversou sobre isso, Lance. Você pode me ligar sempre que estiver mal.

— Não é pra mim, é pra um — ele hesitou em continuar. Era para um o que, exatamente? Keith não era nada dele — um... amigo. Sei lá. É uma história complicada.

— Eu não posso sair atendendo de graça qualquer um, Lance. Eu tenho meus princípios e minha ética — Lotor respondeu num tom irônico.

— Escuta, ele tentou se matar e eu não sei o que fazer!

— Compaixão não enche meus bolsos; sem bolsos cheios, não posso pagar por você.

            Lance engoliu grosso. Esse tipo de comentário fazia seu estômago revirar. Era o mais próximo que ele chegava de ter nojo de si mesmo, mas ele não deixava chegar a tal ponto. Ele sentia raiva por não poder revidar os comentários, caso contrário, poderia perder o cliente e o dinheiro. Ele não estava podendo se dar ao luxo de fazer isso.

— Eu cobro metade no próximo, só vem pra cá logo — ele exclamou impaciente.

— Onde exatamente é “cá”? — ele perguntou. Lance podia ouvir barulho de pratos e talheres ao fundo.

— Aqui em casa. Já mando o endereço pra você.

— Oh — soltou com escárnio — então eu vou finalmente poder conhecer sua casa?

— Não se acostuma, não.

            Lance desligou o telefone e bufou para si mesmo, só depois percebendo que Keith lhe olhava lá do sofá.

— Meu amigo já está vindo para cá — quebrou o silêncio, voltando para sala e sentando-se no sofá, soltando um suspiro cansado.

— Eu — Keith soltou receoso — eu posso pagar, sabe — Lance o encarou um pouco confuso — o psiquiatra. Eu posso pagar.

— Não, nem esquenta com isso — fez um gesto de descaso com a mão — esse cara me deve alguns favores.

            Keith apenas maneou positivamente com a cabeça, um tanto amuado. Em cerca de meia hora, o silêncio que se instalou entre eles foi quebrado por batidas na porta. Lance, num pulo, foi até a porta e a abriu, dando de cara com um belo homem, de longos cabelos descoloridos e roupa social.

— É sempre bom te ver, Lance.

— Oi pra você também, Lotor — o rapaz abriu um pequeno sorriso — Entra, fica à vontade.

— Bem charmoso aqui — o médico disse dando uma rápida olhada em volta — não tanto quanto você — ele se inclinou e roubou um selinho de Lance.

— Você e essas sua baboseira — o rapaz revirou os olhos, mas abriu outro sorriso. Lotor era estranho e Lance gostava de suas esquisitices.

— Eu sou um cavalheiro com você e é assim que você me trata? — o médico soltou falsamente ofendido.

— É o que você merece — retrucou ainda sorrindo, depois voltando-se para a sala, onde viu Keith os observando atentamente — Lotor, esse é Keith.

— Olá — o rapaz respondeu, levantando-se do sofá, sem saber muito bem o que devia fazer.

— Oi Keith — Lotor se aproximou do rapaz, estendendo a mão — muito prazer em conhecê-lo.

— Digo o mesmo — não tinha muita empolgação na voz.

— Lance — o médico virou-se para o rapaz — eu preciso conversar com ele a sós, se você não se importa.

— Eh — ele relutou, olhando de um para o outro — claro. Fiquem à vontade, eu — não sabia bem o que dizer — eu vou dar uma volta, vou ao mercado, sei lá. Eu volto em — encarou Lotor com um olhar inquisitivo — uma hora?

— Perfeito, Lance.

— Certo, então. Fiquem à vontade, tem café na cafeteira, Lotor.

            Lance estava um pouco desconfortável em ter que sair da própria casa e deixar dois estranhos lá, mas se fosse para resolver toda essa merda, que assim fosse. Foi até seu quarto e se trocou rapidamente, pegou sua carteira e celular e saiu, não sem antes pedir para Lotor ligar caso acontecesse algo.

            A situação ficava cada vez mais estranha para Lance. Ele só queria que tudo se resolvesse o mais rápido possível. Foi até uma mercearia, não muito longe de casa, onde comprou uma garrafinha de achocolatado pronto e sentou-se num banco à sombra de uma árvore, onde ficou tomando de canudinho e pensando, até dar a hora de voltar pra casa. Ficou fora uns cinco ou dez minutos a mais, só por garantia.

            Quando voltou, bateu na porta e sentiu uma sensação engraçada, porque era a primeira vez que batia para entrar na própria casa. Ele não obteve uma resposta, mas ouviu alguns passos se aproximando. Não demorou para Lotor abrir a porta e passar por ela, a fechando atrás de si. Parou próximo a Lance e ficou o encarando com uma expressão pensativa e um pouco preocupada. Lance estava curioso, apenas.

— E aí? — ele perguntou, vendo que Lotor ia ficar apenas parado sem falar nada.

— Você sabe que eu não posso quebrar o sigilo de paciente, certo? — ele perguntou de volta num tom tranquilo e Lance acenou positivamente com a cabeça — mas a gente tem um problema. Você conhece algum parente ou amigo dele?

— Eu não sei nem o sobrenome dele, Lotor. Qual é o problema?

— Eu vou preciso receitar alguns medicamentos. Vou acompanhar o caso dele — Lance torceu a face numa careta, porque Lotor não era de fazer caridade.

— Eu não vejo isso como um problema.

— Também, você me interrompeu antes de eu chegar lá. Geralmente acontece o contrário, não? — Lotor abriu um sorriso provocador e Lance revirou os olhos, estapeando a mão que o médico tentou colocar em seu rosto — calma.

— Fala logo, merda, o que tem de errado?

— Eu não posso dar as receitas pra ele — Lance ergueu uma sobrancelha — ele tentou uma overdose. Se eu der mais remédios pra ele...

— Ele pode tentar outra — completou.

— Exato.

— O que se faz nessas situações, geralmente?

— Ou a pessoa é internada por um período, ou algum familiar ou uma pessoa próxima ficam com os remédios e dão só o necessário, nos horários marcados.

— Keith falou que não queria ser internado — Lance lembrou da conversa de mais cedo.

— E se recusa a deixar que a família dele saiba. Também não tem amigos próximos.

            Lance suspirou e ficou em silêncio. Olhava pro chão, pensativo. Estava num misto de raiva por Keith ser tão complicado e com pena ao mesmo tempo, porque ele era só um pobre coitado, sem ninguém.

— ‘Tô ouvindo suas sugestões, Lotor — Lance cortou o silêncio. Ele não tinha ideia do que poderia ser feito.

— Não olhe pra mim, eu também não tenho ideias — ele levantou as mãos em rendição.

            Lance suspirou fundo e se escorou na parede que estava atrás de si, para tentar se acalmar e pensar. Ok. Ele tinha um estranho com tendências suicidas dentro do seu apartamento e não sabia o que fazer com ele. Não tinha como mantê-lo ali para sempre, obviamente, mas também não poderia simplesmente largá-lo na rua, porque Deus sabe lá o que ele seria capaz de fazer. Ele amaldiçoava o bom coração que tinha!

            Culpa de sua mãe, que sempre dizia que não se abandona ninguém que precisa da sua ajuda, que sempre se deve estender a mão àquele em necessidade e todos esses clichês. Ele sempre lembrava de sua mãe e seu pai quando tinha um problema grande em sua vida. Os ensinamentos dos dois o guiavam, mesmo estando longe deles. De fato, a situação que ele tinha em mãos era bem complicada e ele teria que lidar com isso sozinho e com alguma sabedoria, para não danificar Keith mais ainda. Não era certo fazer isso. Ele respirou fundo.

            Lotor só não havia ido embora por causa da expressão no rosto de Lance. Ele parecia extremamente perdido e preocupado, e de fato estava, mas aquela expressão se devia ao seu estado pensativo, mais especificamente. Lance estava viajando fundo em sua memória.

            Sua mente foi parar em uma tarde de uma primavera, que ele não lembrava exatamente quando. Ele era uma criança, brincando nas ruas de sua cidade natal em Cuba, com seus irmãos e amigos. Eles brincavam de se esconder. Lance era campeão nisso, porque conhecia bem as ruas e os bosques lá, o que veio muito a calhar no futuro, quando ele precisava sair escondido para ficar com as garotas que conquistava. Um pouco mais tarde ainda, os garotos.

            Lance se escondia atrás de uma grande árvore, quando ouviu alguns miados. Ele olhou em volta várias vezes, mas só foi encontrar o dono dos barulhos quando olhou para cima com muita atenção, afinal ele estava bem embrenhado nos galhos. O bichano parecia não saber como descer e soava assustado, quase pedindo por socorro.

            Ele correu para seus amigos e irmãos, mas ninguém deu muita bola, afinal todos queriam aproveitar a tarde de sol para brincar e não gastá-la com um gato vadio. Lance ficou furioso e voltou para o local da árvore, onde conversou com o gato e o chamou, tentando atraí-lo para baixo, mas sem sucesso. Teve então a brilhante ideia de chamar seu pai para lhe ajudar.

            O homem estava passando uma semana muito difícil, estava trabalhando muito e estava extremamente estressado. Lance insistiu para que o mais velho lhe ajudasse, dizendo que não poderiam deixar o gato lá. Levou cerca de meia hora para que seu pai perdesse a paciência.

— Eu não vou fazer nada — o homem bradou — eu estou ocupado demais tentando dar conta de cuidar das vidas com as quais eu escolhi me importar; a sua, de sua mãe e seus irmãos — ele apontava o dedo no rosto do pequeno Lance, que estava com uma expressão entre a raiva e o choro — você escolheu se importar com esse gato, então faça você alguma coisa!

            O pequeno Lance aguentou as palavras duras de seu pai sem derramar uma lágrima. Quando o homem terminou seu discurso, Lance saiu marchando furioso para fora de casa, então começou a correr e sumiu no pequeno bosque, que tinha perto do seu quintal. Lá sim, junto à árvore e ao gato, que ainda miava, ele derramou suas lágrimas. Estava furioso e bastante abalado, mas nada disso o impediu, muito pelo contrário, o encorajou, a subir naquela árvore. Não foi fácil, ele se ralou diversas vezes.

            Já era quase noite e seu pai estava na varanda olhando em volta, com uma expressão preocupada no rosto. Respirou aliviado quando viu a figura do mais novo se aproximando. Seus olhos arregalaram quando viu que, em seus braços, Lance segurava e acariciava um gato cinza. O garotinho se parou nas escadas que subiam para a varanda, encarou seu pai nos olhos e disse:

— Eu vou ficar com ele.

            O homem olhava para ele curioso e surpreso com o tom do pequeno. Ele estava sem palavras, então apenas sorriu e acenou positivamente, dando passagem para o menor entrar em casa. Sabia que Lance tinha aprendido alguma coisa naquela tarde.

            Quando você escolhe se importar com algo, é você quem tem que lidar com isso e suas consequências.

            Lance suspirou fundo, levando as mãos ao rosto, esfregando ele de forma cansada. Tentou não pensar muito e se desencostou da parede, fazendo menção de entrar no apartamento e Lotor deu espaço a ele. Ele abriu a porta e seu olhar logo cruzou com o de Keith, que estava sentado no sofá com uma cara preocupada e um olhar um tanto vazio. Ele suspirou de novo.

— Eu me odeio tanto — Lance murmurou para si, rolando os olhos e logo voltando a encontrar os de Keith, se aproximando dele — você tem dinheiro para comprar os medicamentos que o Lotor prescreveu? — perguntou num tom de conformismo.

— Tenho — Keith respondeu, depois de tentar assimilar a pergunta de Lance e entender o seu propósito.

— Quais os horários para tomar essas merdas?

— Dois ao meio dia e um antes de dormir — quem respondeu foi Lotor — porque ele pode dar sono.

            Lance ficou quieto por uns instantes, parecendo esquematizar algo em sua cabeça.

— Ok — e ele voltou a suspirar — escuta, Keith — o moreno lhe encarou curioso — você sabe que não pode ficar com os remédios, não sabe? — ele assentiu com a cabeça — a gente não pode largar você sozinho, você é teimoso e não quer ser internado e não quer falar com sua família; essa parte eu entendo, mas aí se encerram as escolhas que você pode ter nessa situação, porque eu, sinceramente, estou começando a ficar bem puto — Keith ia responder algo, mas Lance não o deixou nem começar a falar — e você não me diga que eu não tenho nada a ver com essa merda, porque eu tenho sim. Queria não ter a ver? Queria, facilitaria muito minha vida, mas eu escolhi me importar então, né. Eu vou ficar responsável pelos seus medicamentos.

— O que? — Lotor soltou de supetão e Lance nem o encarou, apenas levantou uma mão em sinal para o homem se calar.

— Não, Lance — Keith soltou curto e grosso.

— Você não tem escolha — retrucou no mesmo tom — se você insistir ou questionar meus motivos pra fazer isso, eu vou dar um soco em você e acabar com todos os meus problemas.

— Lance — Keith começou, mas foi imediatamente interrompido.

— Você não me entendeu — o cubano soltou com uma irritação reprimida em sua voz — essa era uma deixa pra você calar a boca e só balançar a cabeça, concordando comigo.

— Eu só quero pedir desculpas por te colocar nessa situação — dito isso, Keith baixou a cabeça e encarou o chão.

            Lance engoliu grosso. Sabia que estava sendo rude, mas não conseguia controlar. Aquela situação toda lhe colocou sob muito estresse. Lotor apenas perguntou se ele tinha certeza daquilo e Lance maneou a cabeça num sim, então o médico lhe entregou as receitas dos medicamentos.

            Ele não tinha ideia do que aconteceria dali pra frente.

            Dobrou os papéis, pôs em seu bolso e suspirou.


Notas Finais


Sério gente, deixem um comentário falando um pouco do capítulo, porque eu estou bem inseguro com ele.
Além disso, fiquem à vontade de me adicionar aos amigos aqui no site e também pra me mandar uma mensagem! :D

Estou com uma Shance lindinha em andamento, deixem de ser teimosos e leiam pq Shance é amor.
A gente se vê!
Se cuidem!


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