História Boss - Capítulo 27


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Categorias Harry Potter
Personagens Draco Malfoy, Gina Weasley, Harry Potter, Hermione Granger, Luna Lovegood, Neville Longbottom, Pansy Parkinson, Personagens Originais, Ronald Weasley
Tags Comedia, Drama, Dramione, Harry Potter, Pos Hogwarts, Romance
Visualizações 418
Palavras 4.321
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Ficção, Hentai, Magia, Romance e Novela
Avisos: Adultério, Álcool, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Spoilers, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Sim, eu demorei. Sério, só me matem, não consigo ser uma autora responsável e eu sinto muito por isso. O ano tem sido bem conturbado, bem ocupado, bem cheio de coisas para fazer que a última coisa que eu realmente tenho feito ultimamente, por mais que eu odeie admitir, é escrever. Enfim, nesse fim de semana resolvi tomar vergonha na cara e terminar logo o capítulo que já estava metade finalizado em fevereiro, acabei por odiar o que tinha feito e comecei tudo de novo e esse é o resultado. Ainda não estamos no último capítulo, mas o próximo vai ser, então vou deixar todas as coisas que preciso falar realmente no próximo capítulo. O que vocês precisam saber agora é que vou tentar o máximo para postar logo o último, mas não garanto nada. E que eu amo vocês, obrigada pelos comentários e todas as mensagens positivas sobre o falecimento da minha prima. Foi um ano difícil, mas estou tranquila de que vocês vão entender porque vocês são as pessoas mais compreensivas do Spirit inteiro, e eu preciso muito agradecer por isso. MUITO OBRIGADA! Vocês são ótimos, pessoal!

Espero que gostem, porque fiz com todo o amor do mundo. Beijão procês.

Capítulo 27 - Para abrir um coração


            Olhar para Hermione acalmava e incendiava meu coração ao mesmo tempo.

Quando ela abriu a porta do próprio apartamento (o mesmo que eu tivera tanta dificuldade para achar) e a encontrei com a mesma roupa que usava quando saíra com metade de mim do consultório, meu primeiro instinto foi tentar fazer piada.

Sim, eu sei. Puta instinto babaca e burro. A garota simplesmente se declarou para mim naquela tarde, eu falei um não na cara dura, ela saiu devastada do meu consultório, para a minha pessoa simplesmente chegar na casa dela no período da noite e fazer piada. Eu sou um idiota.

            Mas afinal, foi assim que começamos. Nossos diálogos sempre se basearam em piadas e ironias, e me pareceu correto dar continuidade.

            - Não Doris, mas com D também.

            Me arrependi de tais palavras no mesmo momento que as proferi. Obviamente ela não acharia muito engraçado uma piada logo depois do que eu falei no consultório durante o período da tarde. Hermione certamente estaria aterrorizada, não muito inspirada a rir comigo sobre a minha piada sem graça.

            Não estaria muito disposta a dar “continuidade”.

            Burro. Burro. Burro!

            - Draco?

            Não demoro a perceber que nenhuma piada vai soar mais cômica do que o próprio fato de eu estar lá. Oras, nem ela mesma acreditava. Houve um período de silêncio logo depois de sua pergunta, onde nenhum dos dois parecia saber muito bem o que falar.

 Até que agora, finalmente, olho para os meus próprios pés e lembro o quão molhado eu estou e de que o vizinho da porta 6 já havia me encarado com raiva no elevador quando entrei. Suponho que quem está molhado tenha que entrar por outro lugar, mas não tenho obrigação nenhuma com prédios trouxas que não sejam o meu, então simplesmente ignorei essa regra.

Algumas coisas nunca mudam.

            Com a voz um pouco trêmula, mas ao mesmo tempo sugestiva, tento soar leve quando peço para entrar (com o brinde de mais uma piada na inútil tentativa de aliviar a tensão). Percebo então um detalhe que nunca havia sido claro sobre a minha pessoa: quando nervoso, tendo a dizer coisas estúpidas. E eu? Eu estou tremendo dos pés a cabeça, e não é pelo frio.

Porém, Hermione parece mais nervosa que eu. Aérea, talvez. Não parece muito disposta a mover um único músculo para me deixar entrar, não por não querer me deixar entrar, mas sim porque ela não parece saber como proceder. Parece perdida no próprio mundo, tentando assimilar a situação que eu admito, também seria difícil para mim se eu estivesse no lugar dela. O que a faz despertar subitamente é o barulho de água que vem de algum cômodo da casa. O ruído leve, pouco audível, entra no subconsciente da garota em minha frente e lembra de alguma coisa que ela esqueceu.

            - A banheira. – sussurra, parecendo ainda mais tensa - Olha, entre. A casa é sua. Eu só.... Um instante. – e corre apressada escada acima, mas não antes de retornar afobada – Tem vinho na bancada. Ah, esquece. Você não.... Bem, tem café. Eu só.... Já volto.

            Sorrio para as escadas vazias depois que ela some como um vulto. Acho que nunca vi Hermione Granger tão desarmada ao ponto de oferecer bebida para um alcóolatra. Dou um passo para dentro do apartamento, ouvindo o som leve da música clássica ao fundo. Tchaikovsky. A água subitamente para, mas ela não desce.

            Fecho a porta atrás de mim, me sentindo meio culpado pelo rastro molhado que estou deixando em seu chão. Tiro meu casaco para tentar melhorar um pouco a situação, e visualizo no chão do cômodo ao lado, através de porta aberta, os sapatos que ela usava durante o dia jogados em um canto qualquer. Há barulho no forno da cozinha e a taça de vinho está quase na metade. Quando a vejo no topo das escadas, encharcada dos pés à cabeça assim como eu, não consigo evitar pensar que eu poderia viver assim sem maiores problemas. Chegar ao final do dia com essa visão parece algo perfeito – exceto, talvez, pela água.

            Ela desce lentamente os degraus, com um olhar meio embaraçado, como se estivesse com medo de se aproximar. O vestido branco de mangas curtas está todo molhado assim como seus pés. O cabelo de Hermione tem mechas úmidas, mas no geral apenas as pontas estão molhadas. Nas mãos, ela carrega roupas claramente masculinas e pelo menos duas toalhas brancas. Ela aparenta procurar um jeito de explicar o que está acontecendo. Sorrio.

            - Não sabia que estávamos à caráter. – comento debochadamente, mesmo que sem graça, sobre seus cabelos e roupa molhados. Ela sorri, descendo o resto das escadas e parando a alguns metros de mim.

            - Não quis que você se sentisse mal nestas vestes. – ela me encara singelamente, respirando fundo – Apesar de eu querer saber o que traz a sua honrosa presença aqui, sinto dizer que ocorreu um problema.

            - Acho que isso é bem óbvio para os dois. – respondo, colocando a mão nos bolsos da calça, ainda pingando.

            - Eu meio que tinha deixado a banheira enchendo enquanto ajeitava as coisas aqui, mas...

            - Você esqueceu dela. – suspiro, colocando uma das mãos no rosto, me controlando para não rir, um pouco pela situação, um pouco pelo nervosismo claro das minhas mãos trêmulas.

            - Exatamente, agora está tudo molhado e o chão do banheiro é laminado, daqueles que enrugam se você não seca logo.

            - Ah, eu sei! Meu apartamento tem o mesmo. É horrível.

            - E o pior que se levanta, precisa trocar a peça inteira. – ela parece revoltada.

            - Exato! É... Extremamente mal arquitetado. – digo balançando a cabeça, entrelaçando os meus dedos desajeitado.

            - Bastante... – ela sorri um pouco – Então eu pensei que enquanto eu ajeito as coisas lá em cima, você poderia se secar no banheiro aqui de baixo. O Harry tinha deixado essas roupas aqui no quarto de hóspedes logo quando me mudei. Deve servir.

            Há um breve silêncio quando fito aqueles olhos âmbar que me deixam hipnotizado. Assinto levemente, em sinal de concordância com a sua proposta, o que a faz assentir de volta sem jeito, dando alguns passos de ré e murmurando “me siga”, enquanto vira-se rapidamente e entra no corredor ao pé das escadas, que dá em três outros cômodos.

            Ela abre a primeira porta, branca, e liga a luz. Fica parada do lado de fora e faz um sinal para que eu entre. Me aproximo um pouco constrangido. Encostada na batente da porta, sorri e me estende as roupas com certa cautela, de certa fora até mesmo encolhida. Sinto que meu olhar entristeceu-se um pouco, mas pego o monte de tecidos sem questionar.

            - Fique à vontade. – ela fala sem graça, pegando o trinque da porta – Ahm... Eu não peguei roupa íntima. Acho que você não iria gostar de usar uma do Harry, certo?

            Dou um sorriso debochado.

            - Certíssimo. Muito obrigada.

            Ela sorri de canto, claramente contendo uma risada.

- Quando estiver pronto, só deixe as roupas e a toalha no cesto.

Em seguida, fecha a porta e some.

            Solto todo o ar contido em meus pulmões e me viro para o espelho, ainda trêmulo. Meus olhos azuis estão com as pupilas tão dilatadas que chego a parecer estar sob efeito de anfetaminas como o LSD. Me pergunto se Hermione percebeu ou se pelo menos sabe que a tendência do ser humano é dilatar a pupila perto de algo que ama.

            Tiro as roupas calmamente, notando que estou me despindo sendo que no andar de cima Hermione provavelmente também estará em breve: depois que limpar a porra do banheiro. Me sinto um pouco excitado, mas ao mesmo tempo nervoso. Se chegarmos a termos finais com a nossa situação, e os termos finais forem bons, vou finalmente poder tocá-la.

            O pensamento parece o mais atenuante, ao mesmo tempo que o mais ansioso que já tive em tempos. Minha vida com ela era movida por paradoxos. Sentimentos que deveriam se anular, mas que ainda assim existem.

            Já seco, pego as roupas de Harry para me vestir. Eu havia me esquecido como ele se vestia mal. Além disso, por ser mais alto e mais “em forma” que ele, o resultado que enxergo no espelho é espalhafatoso: uma camiseta azul ridiculamente apertada com uma calça moletom careta e curta demais. Bufo, um pouco irritado. Como Hermione me levaria a sério nesse estado?

            Jogo minhas roupas junto com a toalha dentro do cesto, saindo do banheiro descalço mesmo, porque meus tênis estão encharcados.

            O cheiro de lasanha já paira pelo apartamento, fazendo-me notar que não como já faz um bom tempo. Suspiro com leveza, passando a mão nos meus cabelos molhados ao mesmo que espero Hermione descer do andar de cima de seu lar.

Lar que não é tão organizado como eu idealizara para a CDF que respondia todas as perguntas de todos os professores de Hogwarts e conseguia ser tão insuportável que doía. Na pia, há louça da noite anterior e muito provavelmente da parte da manhã, que ela com certeza não estava tão preocupada para limpar (já que era certo que não estava aguardando uma visita tão inesperada). Além dos sapatos jogados no chão da sala, as almofadas do sofá estão caídas em um canto do tapete, o que me leva a crer que ela adormecera no sofá em algum momento da noite anterior. Há três ou quatro livros empilhados na mesa de centro, além de alguns papéis espalhados ao lado. Provavelmente são livros referentes aos processos constantes que Hermione precisa lidar no escritório.

            Mesmo que algumas coisas não condissessem nada com sua personalidade, alguns outros me lembravam inteiramente que eu estava em seu território. Seu lugar seguro. O lugar que a acolhia depois de todos os dias cansativos e ruins. Os livros organizados em ordem alfabética na estante ao lado da porta de entrada remetem à organização meticulosa que ela tem quando o assunto é seus maiores bens: aqueles que alcançam-lhe o conhecimento. As poltronas avermelhadas lembram ligeiramente o aspecto que teria o salão comunal da Gryffindor na minha cabeça, bem como os quadros nas paredes estão cheios de memórias que ela não quer esquecer.

            Um deles, em especial, me chama atenção. Está em um porta-retratos no balcão da cozinha, perto de sua taça de vinho. É do primeiro ano de Hogwarts, quando ela ainda tinha doze anos. Aparenta estar feliz, ao lado do Weasley e de Harry. Os dois sorriem e ela segura seus livros na mão com contentamento. A imagem, claro, se mexe e mostra um momento descontraído de quando os problemas maiores ainda não haviam começado a aparecer. Quando sua maior batalha era a pedra filosofal, e não uma guerra.

            - Não tive coragem de tirar. – ouço a voz dela atrás de mim, no pé da escada – Quando aquilo com Ronald aconteceu, retirei desta casa tudo que pudesse me lembrar que ele existia. Roupas, presentes, itens de higiene, Ronald inteiro estava aqui. Rasguei algumas fotos, coloquei outras no fogo. Mas essa foto é especial demais para receber um destino tão amargo. – ela para ao meu lado, pegando o objeto na mão e passando o dedo levemente pelo próprio rosto contente – E eu não tive coragem de jogar nossos anos bons no lixo só porque Ronald fez eles parecerem nada.

            Viro-me de frente para ela. Ela havia trocado de roupa no tempo em que passara no segundo piso, utilizando agora somente uma camisa branca e uma calça um pouco mais folgada. Os cabelos, mais úmidos que antes, estão presos em um coque não muito planejado, deixando alguns fiapos grudados em suas têmporas e bochechas por conta da água. Sorrio de leve.

            - Acho que você fez o correto. É um sinal de que a amizade de vocês ultrapassa as barreiras do ódio. Pelo menos a amizade que vocês tinham ultrapassava.

            Ela retribui o sorriso, largando o retrato de volta em seu próprio lugar e se afastando para servir uma xícara de café para mim e supervisionar a lasanha que já claramente borbulhava no forno.

            - Deve ficar pronta em cinco minutos no máximo. Pretende jantar? – fala aparentando estar calma, de costas para mim.

            Mas conheço Hermione bem demais para saber que por dentro ela está, na verdade, incendiando. Ela sabe controlar suas próprias emoções muito bem, mas nem mesmo o maior equilíbrio consegue evitar o leve tremor de suas mãos ao pegar o bule de café.

            - Se tiver comida para dois. – respondo um pouco acanhado, mas relaxo ao ver o seus próprios ombros relaxarem com minha resposta.

            - Não garanto que o sabor vai ser exatamente como comida caseira, mas que tem o suficiente para os dois, isso eu garanto. – faz uma leve piada, se virando e estendendo a xícara de café na minha direção.

            Nos próximos vinte minutos, há apenas o silêncio. Ela tira a comida de dentro do forno, e comemos em nossas próprias divagações, sem muita coragem para iniciar o real assunto pelo qual eu havia vindo. No geral, tudo está melhor do que eu imaginara ao sair do apartamento de Luna com o endereço em mãos. Hermione não teve um ataque de raiva ao me ver, muito menos um de choro.

            Mas devo admitir: ela está cautelosa até mesmo nos próprios movimentos, como se tivesse até mesmo medo de ser notada ao mover as unhas da mão.

            Ao colocar o último pedaço da lasanha na boca e mastiga-lo vagarosamente para adiar ao máximo nossa conversa, dou um sorriso de canto afastando levemente o prato de meu corpo e olhando em seus olhos.

            - Estava delicioso. Ultimamente só tenho comido sanduíches. Não tenho muito ânimo para cozinhar.

            Ela se levanta, pegando meu prato e o dela com um sorriso de leve no rosto, mas que consigo perceber claramente que é falso. Empilha a louça e se vira para levá-la até a pia.

            - Quer uma ajuda? – me ofereço, mas em vez de uma resposta, recebo outra pergunta.

            - Por que veio, Draco? – ela profere baixo, mas ainda assim alto o suficiente para eu ouvir – Já faz mais de uma hora que está aqui, e até agora não falou nada que justifique sua vinda.

            Respiro fundo, pois já sabia que a pergunta viria logo. Se eu não sou uma pessoa que tem coragem suficiente para introduzir um assunto, Hermione é literalmente o contrário. Ela é uma Gryffindor, afinal. Não mede as consequências de seus atos, só se aproveita de suas ondas de coragem para agir em prol do que sente. Isso é admirável, pois eu, como um bom Slytherin, nunca foi a melhor pessoa expressando meus próprios sentimentos.

            Gryffindor é o fogo, é quente. Age pela fluidez do sangue nas veias, somente para quando o coração não estiver mais palpitando em adrenalina. Slytherin é a sagacidade e a frigidez do gelo, a pessoa que age cautelosamente em todos os seus passos, que mede milimetricamente suas atitudes para conseguir o resultado almejado.

            Pelo menos, ambos têm algo em comum: não param até terem seus objetivos resolvidos por decreto. E é nesse ponto que a linha tênue que separa eu e Hermione se junta, formando-se uma só.

É desse ponto que precisamos tirar proveito. É desse ponto que encontraremos uma solução.

- Eu acho que não resolvi da maneira adequada nossa situação. Você me pegou de surpresa e eu não soube como reagir. E eu preciso me desculpar pelo meu eu inconsequente que fez merda de novo, por isso vim até aqui. – respiro fundo, a observando do outro lado do balcão da cozinha. 

            - Eu não estou entendendo, Draco. – ela se vira, com os olhos um pouco úmidos. Encosta as costas na borda da pia, com os braços cruzados, deixando uma parte da cicatriz enorme em seu peito aparente – No primeiro momento você diz que não pode, que já tem outra pessoa em sua vida. E agora? Por que Astória foi retirada de cena?

            - Porque não é ela a pessoa com quem eu quero estar, Hermione. – respondo frustrado, tirando alguns fios de cabelo do rosto – Por mais que eu tenha tentado. Seis meses tentando e ela não surtiu o mesmo efeito que dois meses contigo surtiram em mim. E eu não consigo entender o motivo de as coisas serem tão complicadas entre a gente, mas você não acha estranho que nós não desistimos mesmo assim? Seria simplesmente errado estar com Astória agora, seria testar o meu próprio destino, seria me condenar à frustração pelo resto dos meus dias.

            - Frustração por estar com alguém bom? – ela me responde confusa – Como você poderia estar frustrado por isso?

            - Astória é incrível, Hermione. De uma inteligência e gentileza admirável. Eu desejo para ela tudo que ela deseja para mim, porque ela merece. Mas não adianta ficar com ela se meu coração bate por você. – ofego, finalmente arranjando a coragem para falar todas as palavras que estavam presas na garganta por tanto tempo –  Puta merda, eu só estou tentando devolver a honestidade que você teve comigo hoje à tarde, e eu sinto muito por não ter retribuído imediatamente. Mas acontece que eu sou a pessoa mais estúpida e orgulhosa deste planeta, e eu realmente acreditei o tempo inteiro que o problema estava em mim. – dou um passo à frente, encostando meu corpo no balcão que nos separa.

            Algumas lágrimas se acumulam em seus olhos. Os braços ainda estão cruzados, na defensiva, mas consigo perceber que sua muralha está cedendo. Ela baixa a cabeça, limpando com uma mão as gotas que começam a cair por sua bochecha.

            - Quando aquilo aconteceu com Rony, foi a terceira vez na vida que senti meu coração quebrar por inteiro, em mil cacos. – ela diz, com aparente calmaria e com a voz baixa – A primeira vez foi quando você me ofendeu com o pior xingamento que eu imaginei poder receber de alguém, aos meus treze anos. Eu fiquei desnorteada por um tempo. Tive que colar caco por caco para conseguir voltar mais forte. Reconstituída, não voltei a me enfraquecer com aquela palavra, mesmo que ela tenha sido marcada em meu braço anos mais tarde. Sempre levei a minha cicatriz, feita pela sua tia, para me lembrar que sou maior que isso. Eu sei quem eu sou. Eu consegui superar. – ela faz uma breve pausa, descruzando os braços.

- Hermione, eu...

- Quieto. – ela sorri, se aproximando do outro lado do balcão e deixando somente a mesa de mármore entre nossos corpos – Eu quero falar.  A segunda vez na vida que eu senti o meu coração quebrando foi quando tive que obliviar os meus pais. Honestamente, foi uma das piores dores que senti na vida. Ver a mim mesma sendo esquecida por aqueles que eu mais amo. Eu ainda carrego um pouco dessa dor comigo, mas eu coloquei na cabeça que fiz aquilo por uma boa causa. Reconstituí caco por caco de novo, passei os anos me recuperando, me forçando a pensar que eles estavam melhor sem magia na vida deles. Sem uma filha bruxa problemática. – ela dá uma risada forçada, limpando novamente as lágrimas e se virando de costas para mim.

- E então houve a terceira. – falo sentindo a dor em seus movimentos, quando ela coloca as próprias mãos no rosto para evitar o choro compulsivo.

- Sim. – sua voz está embargada quando ela se vira novamente, os olhos vermelhos e as bochechas úmidas – É ridículo. Porque quando eu quebrei ele pela terceira vez, eu não estava desnorteada, eu estava cega. Entorpecida. Eu literalmente estilhacei, machuquei todos ao meu redor. O problema nunca foi você. Nem o Harry, nem a Gina. Apesar de eu amar vocês, algo em mim me forçava a me convencer que eu não deveria ficar perto. Que vocês tinham pena, não acreditavam no meu potencial. Eu queria passar aquela imagem de força, toda fodida por dentro e afastando as pessoas por fora. Eu fico feliz que vocês tenham se afastado, por um lado. Eu acabaria machucando muito mais se vocês tivessem continuado tentando me atingir. Eu precisava de um tempo para mim. Eu era a única pessoa que poderia me curar.

Ela sai de trás do balcão, parando de frente para mim a um metro de distância. O peito sobe e desce de forma descompassada através da blusa branca, que mostra a cicatriz que ela tanto tenta esconder. Faço menção de me aproximar, mas ela nega com a cabeça, colocando o braço a frente do próprio corpo e barrando o meu corpo com os dedos finos pressionados contra o meu peito. A encaro com confusão, quando as lágrimas ainda jorram de seus olhos.

- Eu usei esses meses da forma mais sábia possível. – ela sussurra, com os dedos cravados em minha pele através da camiseta ridiculamente apertada – Varri os cantos do meu coração, juntei os caquinhos de novo. Ainda estou juntando. Preciso que você entenda que ficar fazendo isso não faz com que ele fique preciso. Que ele volte ao normal. É muito mais como um mosaico. Eu ainda estou toda ferrada por dentro. Tenho problemas com minha autoconfiança, não sinto orgulho de mostrar a cicatriz enorme que Rony deixou em mim. Eu não sou Astória. E, se mesmo por um momento, você pensa que não conseguiria lidar com alguém que ainda não consegue se amar completamente para que possa te amar completamente, então eu peço que vá. – as lágrimas rolam pelo seu rosto delicado de olhos que estão mais claros do que nunca – Eu quero que siga com a própria vida e me deixe. Eu vou ficar bem.  – ela soluça, sem tirar os dedos de meu peito incontrolado – Mas, se você acredita que conseguimos passar por isso, eu abro meu coração mais uma vez para te deixar entrar. Eu só preciso que tenha certeza.

Não desvio meus olhos dos dela nem mesmo um único momento. Levanto minha mão para meu peito, pegando delicadamente seus dedos e entrelaçando aos meus, ainda sem tirar sua mão de perto. O medo de machucar Hermione parece ser inexistente, nem mesmo uma possibilidade que possa ocorrer em nossas vidas. Abaixo sua mão junto com a minha, me aproximando de seu corpo. Limpo as lágrimas que escorrem em sua bochecha, retirando os fiapos de cabelo grudados. Em seguida, passo os dedos pela cicatriz que começa em seu ombro, me detendo ali. Franzo as sobrancelhas, olhando a marca que se destaca por ser mais branca que o resto da pela. Sua clavícula é realçada pelo seu corpo magro, dando ainda mais destaque ao machucado que Ronald provocara meses antes. Nego com a cabeça, colocando o pano de sua camiseta de volta quando a vejo virar o rosto envergonhada. Puxo a manga da camiseta de Harry, mostrando a cicatriz que a Marca Negra havia causado em todos os comensais.

- Nunca tenha vergonha das cicatrizes da tua batalha. – viro o rosto dela para o meu – Você não deve ser envergonhar de nenhuma das cicatrizes que o seu corpo carrega. Elas mostram pelo que você passou, mostram a pessoa que você conseguiu se tornar apesar delas. Elas não te definem, mas mostram quem você pode ser. Você não tem motivo para se envergonhar disso. E eu tenho motivos para me envergonhar da minha, mas prefiro assumir que ela fez parte da minha História. Nós escolhemos os rumos, não as marcas do nosso corpo. – respiro fundo, passando a mão em seu rosto e aproximando minha testa da dela – Você é linda com todos os fragmentos da tua trajetória. – minha voz sai mais rouca que o esperado, enquanto enxergo seus orbes aguados pela última vez antes de fechar os meus e aproximar os lábios de seu ouvido – Eu não vou embora. Não mais.

É ela quem vira meu rosto e me beija de forma singela. O que eu imaginei que seria um beijo afobado e desesperado por tanto tempo separado tornou-se mais algo calmo para sentir as horas não passarem. Suas mãos entrelaçam-se em meu pescoço e cabelos, enquanto ainda consigo sentir o gosto salgado de algumas lágrimas. Passo meus braços pelo seu tronco e costas, a puxando mais perto para conseguir ouvir seus batimentos rápidos e descoordenados. Ela sorri entre o beijo e não consigo evitar soltar uma risada nasalada quando a pego no colo e levo para o sofá da sala, completamente vazio pelas almofadas que estavam no chão.

Caímos no sofá juntos, ela por baixo e eu por cima. Não tenho vontade alguma de tirar a sua roupa no momento. Ela me encara com um sorriso singelo, dando mais um selinho antes de separarmos nossos lábios. Suas mãos estão em meus ombros e as minhas estão em suas costas e cintura. Nos encaramos, com seriedade.

Seu rosto tem algumas linhas de expressão que mostram que ela já não é mais uma adolescente, e sim uma mulher que trabalha arduamente. O cabelo está amarrotado, os olhos um pouco inchados pelo choro. Mas suas írises brilham. Eu olho para seus olhos, e sinto que ela os faz brilhar como o sol poente. Ela incendeia tudo. Há verdade e há esperança, que há muito tempo eu não via em suas feições.

- Nós vamos conseguir, não vamos? – ela sussurra – Dessa vez tem que funcionar.

Algo sobre seus olhos faz parecer impossível mais acasos para nos barrar. Eu sei que haveriam muitos deles. Mas tudo que eu enxergo são aqueles riscos âmbar mesclados com marrom ao redor de uma pupila tão dilatada que parece um buraco negro prestes a explodir.

- Vai funcionar. – respondo, aninhando meu rosto em seus cabelos que cheiram a chocolate até que sinto que ela pegou no sono.

Sorrio, passando os dedos pelos seus dedos e os entrelaçando aos meus. Aos poucos, vou pegando no sono juntamente com a respiração calma de Hermione. O cansaço e frustração de meses parecem ter saído como um peso de uma tonelada de meu corpo. O último pensamento que passa por minha cabeça ao encarar a sala já embaçada e sentir o cheiro adocicado de seus fios é que tem que funcionar.

Nós faremos funcionar.


Notas Finais


Espero que tenham gostado. Valeeuuu!


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