História Boy Meet Evil - Capítulo 6


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Categorias Histórias Originais
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Palavras 1.359
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Romance e Novela, Shonen-Ai, Sobrenatural
Avisos: Álcool, Cross-dresser, Drogas, Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 6 - Parte VI: Uma música para Lúcifer


— Você vai sair hoje? — Perguntei a minha irmã, que penteava os cabelos descoloridos de frente para o espelho.

— Vou procurar alguma coisa para me ocupar. Não quero que você pense que sou uma parasita. — Disse, e pegou o batom em cima da pia. — Qualquer coisa dá dinheiro nessa vida, mas eu não vou fazer como antigamente... — Olhou para mim brevemente. — Eu vou tentar fazer diferente, quem sabe eu tenha orgulho de mim mesma dessa vez.

— E você não tinha antes? — Enfiei as mãos no bolso da calça de moletom. — Você parecia confiante naquela época.

— Eu era jovem demais... — Passou o batom de cor vinho e então franziu as sobrancelhas. — E nós tínhamos ele, tudo era muito mais fácil.

— Todos que colocavam os olhos no Lúcifer acabavam se apaixonando por ele. — Sorri triste, lembrando daquele menino de olhos sem cor. — Ele tinha uma voz incrível. De nós três ele era o melhor.

— Hun... Com certeza, mas nem todos gostavam dele. Eu sou uma delas. — Ajeitou os fios descoloridos e então saiu do banheiro, indo para a sala. — Não fale dele, por favor, eu não gosto de lembrar.

— Tudo bem.

Fiquei observando Kim arrumar sua mochila. Eu ainda tenho esperança de que ela, mesmo que um pouquinho, sinta falta dele. A Kim tem esse costume de "esquecer" aqueles que passam muito tempo longe dela. Muito tempo mesmo. A nossa mãe, por exemplo.

— O que vai fazer enquanto eu estiver fora? — Kim veio na direção da porta e enfiou as chaves.

— Lavar o banheiro e depois dormir, minha cabeça está doendo muito. — Falei, dando de ombros. — Por que?

— Queria que passasse na padaria depois.

Resmunguei um “hum” sem nenhuma vontade de fazer o que ela queria e beijei sua bochecha, num tchau silencioso. Kim saiu, provavelmente foi pegar um ônibus, e eu desejei que ela realmente encontrasse um trabalho bom e não se envolvesse com ninguém estranho.

[...]

Abri os olhos com certa dificuldade e encarei o teto escuro do meu quarto, a respiração acelerada e o coração batendo com força contra o peito. Meu corpo estava mole, tudo parecia calmo demais depois da tensão e eu fiquei pensando de forma racional, algo que não fiz a uns minutos atrás. Geralmente a vó dizia para não fazer essas coisas, meu irmão espelho sempre escutava direitinho, mas eu ficava lá, olhando para o nada que nem um retardado. Eu nunca liguei para as suas crenças religiosas, sabia desde pirralho que Evils são maus e nem deus os aceita, então para quê tentar ser “bom”? Ou fazer as “ações certas”? É óbvio que nunca gostei de ninguém, nem me imaginei com alguém em uma situação mais íntima — obviamente, nunca precisei fazer tal coisa.

Só que esse maldito filho da puta chamado Kyouya começou a atormentar os meus pensamentos.

Depois de despertar de uma tarde inteira dormindo, fiquei lembrando da conversa que tive com o Gregory hoje na escola. A forma como seus dedos tocavam no meu cabelo, o seu braço sobre os meus ombros quando subimos para assistir a última aula, o seu calor e aqueles lábios finos e meio avermelhados por causa do frio, a sua proximidade — tudo começou a mexer comigo e eu, de um momento para o outro, fiquei me imaginando sozinho com ele, fazendo coisas indevidas. Eu senti vontade de beijá-lo, como naquela hora, de tocar nos seus cabelos negros também, na sua pele pálida, arranhar aquelas costas e submetê-lo às minhas vontades primitivas. Foi ridículo ter de levar as mãos à abertura do jeans, porém não teve jeito.

Eu devo estar ficando maluco.

Olhei para o relógio, era sete da noite. Levantei-me da cama, indo até o banheiro e tirando as minhas roupas. Tomei um banho rápido, na verdade eu nem queria porque estava muito frio, mas precisava, já que hoje eu ia no bar cantar. Coloquei uma calça jeans, uma jaqueta de moletom preta e os meus all stars vermelhos. Com a touca na cabeça, passei um perfume e peguei a caixa preta, onde eu guardava o meu violão. Não era meu, na verdade, mas eu cuidava dele como se fosse o presente mais precioso do mundo.

Meu irmão espelho usava este violão nas vezes que se apresentava de dia, nas ruas quentes de Hill Street.

Olhei-me no espelho rapidamente antes de trancar a porta e sair, sentindo o frio bater na minha pele quente recém banhada. Ah, que droga, só falta eu ficar doente. Caminhei até o ponto de ônibus e esperei, cantarolando algumas músicas para aquecer a garganta. Assim que a lata ambulante chegou, sentei-me com a bolsa preta do violão e coloquei meus fones de ouvido. A cidade fica tão bonita de noite, as luzes dos postes e dos estabelecimento me lembram do Lúcifer, ele adorava sair de noite para não fazer nada, literalmente. Uma vez eu fui junto, só para ver como era esses passeios, e caminhamos pelos bairros até uma da manhã. Eu, ele e os seus amigos imbecis.

Assim que cheguei, atravessei uma praça que tinha por ali e entrei no estabelecimento. A pressão do cheiro de diferentes bebidas mais as pessoas falando entre si me fez franzir o nariz por breves segundos. Pelo menos lá estava quentinho. Um outro cara tocava uma guitarra em cima do tablado, mas ninguém dava importância para ele. Sorri triste, hoje em dia os músicos independentes não são reconhecidos como deveriam. A não ser que você apareça na TV, então está tudo bem. Todos vão amar você.

— Boa noite, Frank. — O gerente do bar se aproximou, sorrindo. Ele sempre está usando um avental, embora nem entre na cozinha. Quem faz isso é a mulher dele. Se você começar a conversar com ela, nunca irá trabalhar. Deve ser por isso que os cozinheiros ficam de boca fechada. — Está bem cheio hoje, mesmo que seja um dia de semana comum.

— É, eu estou vendo. — Falei, curto, mas sem ser rude, e entortei os lábios em um sorriso. — Eu vou entrar lá para dentro, está bem?

— Claro, pode ir.

Caminhei pelos cantos até a entrada de uma pequena sala onde ficam os músicos. Como eu pego alguns dias da semana, aquela salinha sempre fica vazia. Sentei-me no sofá, ansioso, e tirei o violão da bolsa. Ele possuía um tom caramelado, muito lindo, e nas bordas havia tons escuros, quase pretos. Estava riscado de caneta permanente preta, com várias frases sem sentido que só poderiam ter saido da cabeça do Lúcifer. Era a letra dele, de caixa alta.

“O verme vai cantar, aplausos por favor”, “Deus está na TV, mate sua TV”, “Você ama uma arma, um deus ou o governo?”, “As autoridades vão arrancar meus olhos e a mídia irá transformar meu cérebro em plástico”.

E havia frases que me deixavam um pouco triste, por saber que ele as escreveu sem nem perceber.

sob a escuridão dessa cidade, eu procuro pela minha glória”, “garota, eu estou me aproveitando de você”, “eu estou sem cigarros, eu não sei para onde devo ir”, “eu o invejo”, “eu quero ser eu mesmo”, “eu não sou tão mal assim”, “garota, eu vou dizer aos outros que você é minha, assim ninguém irá me condenar”...

E uma, que fez um nó se formar em minha garganta.

quando eu morrer, será que irão se lembrar de mim?”

— Ah, Frank, você já chegou — A voz do Marcus se fez presente na sala e me libertou das minhas lembranças. Passei a mão nos olhos e me levantei com o violão, era a minha vez. — Hoje foi uma merda, ninguém quis prestar atenção na minha performance. — Disse, ácido e eu o olhei. Humanos costumam ser bem mesquinhos.

— Pare de reclamar, imbecil — Abri a porta, olhando para ele com desprezo.

Caminhei até o palco, sem nenhuma motivação para olhar os clientes, e sentei-me no banquinho alto. Arrumei o microfone na minha altura ideal e coloquei o violão no meu colo. Lúcifer costumava chamá-lo de passarinho de mel, por causa da cor dele.

Abri a boca, e mexi os dedos sobre as cordas, certo da música que eu iria cantar.

Todas as vezes que faço isso, eu me lembro dele.

O meu irmão espelho.



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