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História Brasa - Capítulo 13


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Notas do Autor


Heeey, cheguei um pouco atrasinha, mas cheguei! Como vocês estão clã? Tudo certo por ai?
Esse capítulo está um pouquinho mais comprido e eu espero muito que vocês gostem dele, ele ta bemmm cheio de kaisoo.
Boa leitura e espero que gostem!! <3

Capítulo 13 - Pizzas and beers


Fanfic / Fanfiction Brasa - Capítulo 13 - Pizzas and beers

Kyungsoo deu um pulo e soltou um grito esganiçado quando um trovão estrondoso ruiu no céu, a chuva caia intensa do lado de fora do carro e o clima frio embaçava os vidros. Havia estacionado o seu carro na única vaga disponível, que para seu grande azar ficava do outro lado da rua do prédio de Jongin. O garoto estava trancado no próprio carro, sem coragem o suficiente para sair – não sabia ainda se era pela chuva ou pelo fato de que da última vez que esteve ali tinha saído correndo do apartamento. Pensou em ligar para que o modelo fosse o buscar com um guarda-chuva, mas se recusava a pedir favores para ele. Deu outro pulo ao perceber outro trovão estourar no céu, a chuva só ficava cada vez pior com o passar do tempo e se continuasse no carro ficaria impossível sair.

Respirou fundo, criou coragem e saiu do carro, se arrependendo quase instantaneamente quando sentiu a chuva e o vento frio atingindo sem dó a sua pele arrepiada. Fechou o carro e o trancou na velocidade da luz, se pondo para correr o máximo que seus pezinhos aguentassem. Atravessou a rua movimentada e quase caiu quando foi passar da rua para calçada. Agradeceu internamente quando entrou no prédio, tendo enfim um teto encima de sua cabeça que o protegesse da chuva. Entrou no elevador e subiu para o andar do moreno, não se sentia mais tão ansioso assim, aos poucos estava se acostumando com a presença do menor – o que não quer dizer que apreciava essa. E não poderia negar, essas aulas realmente estavam sendo úteis e importantes, precisava delas para escrever a sua matéria.

- Hey! – Do exclamou sorrindo amarelo quando o modelo abriu a porta para ele entrar, logo depois do garoto ter tocado a campainha. O moreno o olhou assustado e logo o deu espaço para entrar, o menor parecia um pintinho molhado e tremia levemente quando o vento frio atingia sua pele molhada.

- Meu deus Kyungsoo, você está todo molhado! – Jongin não sabia se ficava assustado ou se ria da situação, rodou o olhar pelo local procurando por algo que pudesse esquentar o homem. – Por que você não me ligou para que eu fosse te buscar lá em baixo? Eu tenho guarda-chuva, podia ter ido te buscar numa boa. – O modelo se dirigiu até o seu quarto, chamando o outro pelo olhar.

- Isso nem passou pela minha cabeça. – O homem sorriu amarelo novamente, não iria explicar que pedir uma coisa dessas para o modelo era um atentado ao seu próprio orgulho. – O que você ‘tá fazendo?

O maior mexia em uma das gavetas do seu guarda roupa, retirando de lá uma peça de roupa e uma toalha. O jornalista o esperava encostado no batente da porta enquanto observava o quarto, mesmo estando com a luz apagada conseguia perceber que era simples e aconchegante. Tinha uma cama no centro, dois criados-mudos de cada lado, um guarda roupa do lado e uma televisão na frente da cama. As paredes eram tingidas com uma cor escura e uma delas continha um papel de parede de tijolinhos em um tom claro, vários pôsteres e quadros as decoravam.

- Soo, troca essa sua blusa molhada por esse moletom, ele é bem grande e quentinho, vai te proteger do frio. E aqui, pega essa toalha para se secar melhor da chuva, se ficar assim vai acabar pegando uma gripe. – O moreno colocou as duas peças na mão do menor, o empurrando levemente em direção ao banheiro do seu quarto.

O jornalista fechou a porta do banheiro e se assegurou de tranca-la bem, não confiava direito no outro que o esperava do lado de fora. Contudo, não poderia negar que ele tinha sido bastante gentil e fofo em empresta-lo o moletom e a toalha, parecia até que ele se importava com a sua saúde. Trocou rapidamente a blusa molhada pelo moletom e fechou os olhos em satisfação quando sentiu o tecido quentinho em contado com sua pele gélida. Ele tinha o cheiro doce e amadeirado do maior, ele impregnava em suas narinas e o trazia uma sensação perigosa de conforto e prazer. Havia lido uma vez que o cheiro de uma pessoa que já foi importante alguma vez ficava marcado na memória, mesmo depois de muito tempo. Aquilo definitivamente era verdade e não era só o cheiro que ficara marcado, todas as sensações também estavam lá.

Balançou a cabeça como se afastasse os pensamentos tortuosos, não podia deixar que esses passassem por sua mente. Nada daquilo deveria ser importante. Pegou a toalha anteriormente esquecida encima da pia e a esfregou no cabelo, secando o máximo que pode os seus fios. Olhou-se pelo espelho e arrumou o ninho que estavam as suas madeixas, as jogou para trás, porém algumas teimavam em voltar para a sua testa. Era engraçada a sua imagem com o moletom do modelo, ele era bem maior do que si e acabava batendo quase no meio de suas coxas. Entretanto, era super quentinho e aconchegante, não sentia mais o frio de antes.

Jongin não conseguiu segurar a risada quando o homem saiu do banheiro. Kyungsoo estava a coisa mais adorável do mundo com aquela roupa duas vezes maior que si, o cabelo molhadinho e bagunçado melhorava tudo. E para fechar com chave de ouro, o menor tinha uma expressão brava no rosto, com direito a um biquinho nos lábios e tudo mais. Kim só queria apertar aquelas bochechas coradas e falar com ele com voz de criança, e foi exatamente isso que ele fez.

- ‘Tá maluco, Jongin! Eu vou tirar essa roupa, eu ‘tô ridículo. – O menor afastou a mão alheia de suas bochechas com um tapa e caminhou em direção ao banheiro, preferia morrer de frio do que passar por tal humilhação.

- Ei, eu ‘tô brincando! Volta aqui, Kyung. – Segurou na mão do garoto e o trouxe de volta para si, talvez muito mais próximo do que antes. – Você está uma fofura assim e não é do jeito ruim. Vem, vamos lá para a sala, eu vou ligar o aquecedor para você.

O modelo seguiu com o homem até a sala, ainda estando com sua mão entrelaçada na dele. Kyungsoo queria protestar contra aquilo, mas a mão cálida aquecia a sua fria e aquele contato era bom demais. Foi deixado sentado no sofá macio enquanto o modelo procurava o controle para ligar o aquecedor. O barulho agudo do aparelho sendo ligado preencheu o ambiente e quase instantaneamente o jornalista se sentiu melhor, a melhor parte do inverno é se aquecer confortavelmente dele. Jongin voltou para a sala e dessa vez carregava livros, portfólios e um notebook nas mãos, colocou todos na mesa e chamou o jornalista para ir se sentar lá.

- Bom, a aula de hoje é para te introduzir no mundo da moda e tentar te explicar tudo que eu sei em uma ou duas horas! – O moreno riu gostoso e puxou uma das cadeiras da mesa para se sentar, mais especificamente aquela que ficava bem ao lado do outro. – Eu vou tentar te ensinar sobre os tipos de roupas no geral, os tecidos, modelos, toda a linguagem que você precisa usar na sua matéria. Também vou te explicar quais são as tendências desse ano e quais foram usadas nos principais anos, se acaso tiver alguma referência ao passado nesse você vai saber. Além disso, vou tentar te passar o máximo possível das marcas que iram comparecer no evento, e os principais nomes de estilistas também.

Kim continuava pontuando tudo o que seria aplicado na aula e o jornalista já estava desesperado, não esperava que precisasse saber tanta coisa assim. Tinha uma noção básica da linguagem a ser usado por conta de uma redação que já havia feito, mas já fazia tanto tempo que não estava mais fresco na memória. Eram tantos tecidos, tipos de saias, vestidos, calças, blazers, tendências, marcas, estilistas. Ficaria louco. Se não fosse pela ajuda de toda equipe, definitivamente fracassaria. Sorriu e concordou quando o maior perguntou se ele havia entendido, entretanto, seu amago gritava em desconsolação. Será que ainda dava tempo de desistir?

Embora estivesse assustado, o jornalista pegou o seu caderninho e tentou novamente anotar o máximo de informação que desse. Pelo menos Jongin era extremamente calmo ao explicar cada um dos tópicos. Vez ou outra o garoto soltava alguma piada referente ao tema, o que fazia Kyungsoo pensar se por acaso ele havia decorado e ensaiado essas. Sorriu com o pensamento de um Kim Jongin nervoso ensaiando o que dizer e o que explicar em frente ao espelho do banheiro, se esforçando para dar a aula perfeita.

O menor prestava atenção em cada uma das palavras que saia por aquela boca aveludada – ás vezes prestava mais atenção na boca do que nas palavras. Se concentrando para realmente aprender sobre o assunto e não ser um completo incompetente na equipe. Mas ah, como era difícil dar atenção apenas para o conteúdo e não para quem estava emitindo ele. Sempre ficava aquele clima tenso entre os dois – pelo menos Kyungsoo esperava que fosse para ambos -, sempre que Jongin o mostrava algo no computador ou nos livros o menor se aproximava excessivamente, ou quando o moreno ia checar alguma coisa nas anotações do outro e chegava perto demais desse. Sempre existia um cotovelo ou um braço tocando no outro, uma respiração perto demais, um arrepio súbito, um olhar encarando os lábios alheios. O jornalista não conseguia decidir se queria que aquela aula acabasse o mais rápido possível, ou se desejava que ficasse naquela áurea para sempre.

- Kyung, estava pensando, como essa aula é mais demorada vamos pedir uma pizza? – Jongin falou de supetão e encarou o menor, esse que estava secando a boca alheia enquanto mordia o seu lápis.

- Claro! Acho uma ótima ideia! – O homem respondeu rápido e afobado demais, desviando o olhar do moreno enquanto batia os dedos na superfície do caderno. Kim tentou abafar a risada que queria soltar com a reação do menor, ao mesmo tempo, ficava confuso com os sinais que ele dava, nunca sabia se deveria se aproximar ou não.

- Tudo bem então, pode ser de calabresa e frango? – Levantou da cadeira enquanto esperava a resposta do outro, esse apenas confirmou com a cabeça, ainda eufórico com o flagra passado. – Okay, vou ali no telefone da cozinha para ligar.

Do ficou parado encarando as paredes da casa enquanto esperava o maior voltar, várias coisas rodavam pela sua cabeça, uma delas com certeza era a sua falta repentina de capacidade de controlar o próprio corpo. Isso sempre acontecia quando estava na presença do maior, era como se as lembranças do que um dia foram viessem à tona, entorpecendo o seu comportamento. Não importa, não podia deixar isso passar do limite, não podia lhe dar o gostinho de saber que ainda sentia um desejo por ele.

- Prontinho, vai demorar trinta minutos mais ou menos para chegar, vai dar tempo de fechar esse tópico antes! – Jongin voltou todo empolgado e se sentou à mesa rapidamente, assustando o menor que ainda estava preso nos próprios devaneios.

A aula então continuou daquela forma, Do tentava segurar o sorrisinho orgulhoso toda vez que realizava o quanto o homem entendia e amava o assunto que explicava. Quase se sentia em “O Diabo Veste Prada” quando o via levando moda tão a sério e explicava tudo de uma forma tão profissional, se sentia tão leigo quanto Andy era no começo do filme. Só faltava aprender tudo e ganhar vários looks lindos da empresa, essa parte infelizmente não aconteceria.

Não demorou tanto para a campainha tocar e a casa ser preenchida com o cheiro delicioso de pizza. Kyungsoo quis chorar de tanta fome que estava, correu estabanado seguindo o modelo até a cozinha, onde o ajudou a colocar os pedaços dentro de dois pratos e pegar um cooler de cerveja para levar a sala. Kim arrumou as almofadas nas extremidades do sofá, afim de deixa-lo bem macio para os dois sentarem. Colocaram a caixa de pizza na mesinha de centro e o cooler ao lado dessa, ligaram o som e colocaram bandas de rock para tocar. Se acomodaram cada um em cada ponta do sofá, acompanhados dos pratos de pizza e cervejas.

- Então, o que você fez da vida depois que eu... bem, depois que eu fui embora? – Jongin perguntou como quem não quer nada, deu um gole em sua bebida e olhou o homem de soslaio. A risada rouca do jornalista preencheu a sintonia da sala, esperava que aquele assunto fosse posto em pauta alguma hora.

- Hm, deixe-me pensar... – Kyungsoo coçou o queixo ponderando por onde deveria começar, depois de pensar por um tempo decidiu começar com uma alfinetada.

- Bem, depois que você me deixou eu passei bastante tempo ocupado pensando em formas de te encontrar e te matar, mas depois de algumas várias crises existências eu percebi que já era hora de seguir em frente. – Kim mordiscou a parte interna de suas bochechas enquanto escutava o outro soltar suas palavras ácidas, mesmo sendo apenas um deboche ainda machucava. – Permaneci por algum tempo apenas ficando e tendo pequenos casos, não queria relacionamento. Isso mudou no último ano de faculdade, foi quando eu conheci Chanyeol.

O jornalista interrompeu sua própria fala para rir quando notou o rolar de olhos demorado do outro ao ouvir o nome do editor. Aproveitou para mordiscar mais um pedaço de sua pizza e tomar outros vários goles da cerveja, precisava de coragem para continuar a contar sobre essa parte de sua vida.

- Na época ele era totalmente diferente de hoje, sabe? Ele era um cara totalmente nerd que fazia ciência da computação, ele era bem magricelo e andava todo desajeitado por ser alto demais, o cabelo ‘tava sempre bagunçado e ele tinha um papo muito estranho. –Riu com a lembrança e foi acompanhado pelo maior, que prestava atenção em tudo que era dito. – Mas mesmo assim ele me encantou, foi tudo rápido demais, em menos de um ano eu já estava noivo. Ele era doce, atencioso, engraçado, em pouco tempo fez com que eu me sentisse... inteiro novamente. Acho que foi aí que o meu erro começou, não deveria me precipitar tanto em casar tão cedo e com toda a certeza não deveria ter dado a alguém o poder de fazer me sentir inteiro, eu deveria ter feito isso sozinho. Me tornei dependente emocionalmente demais dele, infelizmente demorei muito para perceber.

Kyungsoo encarou atônito um canto qualquer da sala, suspirando pesadamente, sua cabeça sempre se tornava lotada quando ele falava sobre tal assunto. Terminou de beber de uma só vez a sua latinha, pegando e abrindo rapidamente outra. O modelo se mantinha em silencio, sentia que tinha alguma culpa naquilo, mesmo que não estivesse nem mais na cidade naquela época.

- Depois de terminarmos a faculdade, Chanyeol foi contratado pela empresa que estagiava, no caso a que trabalhamos hoje em dia. Eu comecei o meu mestrado na área política do jornalismo e então nos casamos e fomos morar juntos. Logo após o término do meu mestrado, Chanyeol me indicou para o chefe e eu não tardei a ser contratado também. Embora eu seja formado na área política, fui contratado, pelo meu azar, para o departamento de esporte já que esse era o único disponível. Naquela época estava tudo bem entre nós, viajávamos bastante por conta dos dois ganharem relativamente bem e ainda estávamos na fase apaixonada. Eu não consigo me lembrar exatamente quando as coisas começaram a esfriar, mas lembro de como tudo era rotina e nada me surpreendia mais. Enfim, daí eu perdi total o controle de tudo e uma sequência de merda começou a acontecer. E agora aqui estou eu, jantando com o meu ex-namorado, que por acaso também é ex amante do meu ex-marido, porque ele está me dando aula sobre algo que definitivamente não é a minha área. E você, o que tem feito?

Os dois homens riram da ironia do destino na qual se encontravam, era trágico e cômico ao mesmo tempo, sem tirar nem por. Jongin não sabia o que pensar ao ouvir como as coisas aconteceram na vida do outro depois que ele foi embora, porém se sentia ligeiramente triste por ele ter se decepcionado no amor outra vez e por não ter estado presente para comemorar as conquistas do outro.

- Eu sai da cidade depois que terminamos... – Jongin começou após um tempo, surpreendendo o menor que não tinha conhecimento sobre esse fato. – Vendi tudo e me mudei para Busan, foi uma decisão bastante precipitada, mas foi necessária, um dia te contarei o porquê. Eu fiquei um tempo apenas me sentindo perdido, tudo o que eu conhecia e amava havia ficado para trás e eu sentia saudade o tempo todo, incluindo você... – O moreno soltou tais palavras com insegurança, não queria chatear o outro com algo que dissesse, porém queria ser sincero, mesmo que o outro não compreendesse a sua verdade. – Fiquei algum tempo trabalhando em boates e me sustentando com o pouco que ganhava, mas o que poderia fazer? Nunca fiz faculdade e a única coisa que eu era bom era na dança. Até queria que fosse verdade o que você disse para Chanyeol aquele dia, que havia me conhecido na faculdade, infelizmente não era. Entretanto eu havia me acostumado, sabe? Não tinha nenhum plano de futuro e estava me contentando em apenas viver um dia após o outro. Também não tive relacionamento naquela época, apenas sexo casual e confusão.

- É, acho que algumas maldições que coloquei em você realmente deram certo. – Kyungsoo brincou em relação ao homem não ter tido relacionamentos depois dele, queria também diminuir o clima triste do outro, sabia o quanto ele queria fazer algum curso no que gostava.

- Acho que deu certo sim, só tive problemas na minha vida amorosa. – O modelo riu com um timbre grosso, se lembrando de todas as confusões que havia acabado caindo, inclusive na própria encrenca do ex-namorado. – Voltei para Seul depois de receber uma ligação da minha mãe e ter conhecimento da situação dela, comecei a trabalhar em dobro para sustentar nós dois e pagar todos os tratamentos e remédios que ela precisava. Embora eu tenha sofrido muito todas as vezes que me lembrava que iria a perder, eu fui muito feliz naquela época. Ela me fez voltar a ter sonhos, querer mais do que o rotineiro, conquistar o que eu queria. Por isso eu comecei a fazer vários cursos naquilo que gostava, fiz de fotografia, moda, dança. Fui contratado por algumas empresas, e daí cai de paraquedas na sua vida novamente, dessa vez de uma forma bem ruim e lastimável, mas pelo menos estamos jantando juntos e eu posso ficar olhando para o meu lindo ex-namorado.

Kyungsoo riu incrédulo enquanto balançava a cabeça em negação, o outro não perdia nenhuma chance e nunca irá se acostumar com aquela sinceridade cruel. Pegou mais alguns pedaços de pizza da caixa e mais uma latinha de cerveja do cooler, já tinha bebido pelo menos quatro e já se sentia mais solto. Correu o olhar pela casa e uma súbita curiosidade que já o corroía a alguns dias retornou.

- Ei, Jongin! Por que você saiu de casa tão novo? Você tinha me dito que foi afastado da sua mãe, o que aconteceu?

Kim sorveu um pouco de sua bebia ao ouvir as palavras alheias, sabia que o garoto iria querer saber mais de seu passado e estava pronto para conta-lo. Respirou fundo e sentiu as pontinhas dos dedos formigarem de ansiedade, não deu voz a esse sentimento, necessitava de coragem naquele momento.

- Eu fui expulso de casa, tinha apenas dezoito anos na época, nenhum dinheiro no meu bolso e um coração quebrado. O meu pai sempre foi um merda, sabe? Ele nunca foi pai, na verdade, era sempre o monstro que eu pintava nos desenhos que fazia quando eu era criança. Minha família nunca teve muitas condições, mas mesmo assim ele gastava boa parte do nosso dinheiro em seu vício de bebidas e drogas. Passávamos necessidade enquanto ele envenenava o próprio corpo e se tornava apenas o seu pior. Ele era extremamente abusivo com a minha mãe, ela sempre amou sem medidas, se entregava e sonhava acordada com um futuro brilhante ao lado do seu amado. Mas ele destruiu tudo, sugou toda as forças dela, a tornou prisioneira de seu próprio amor e quando esse deixou de existir, a tornou presa pelo medo do que ele poderia fazer. A pessoa mais alegre e cheia de vida começou a passar o dia apenas chorando pelos cantos da casa, enquanto tentava esconder os hematomas de agressão que estavam espalhados pelo seu corpo...

Kyungsoo não sabia exatamente quando, mas havia afastado o seu prato e a sua bebida, projetou o seu corpo em direção ao garoto, ficando a poucos centímetros desse. Ouvia atentamente cada palavra enquanto fitava a expressão sofrida e sem vida na face do modelo. Martirizava-se por fazer o outro desenterrar um passado tão conturbado, mas precisava ouvir aquilo e sentia que o outro necessitava contar a alguém. Timidamente levou a sua destra em direção a perna do moreno que insistentemente batia no chão, um claro sinal de seu nervosismo, fez um carinho pela tez quente, uma forma de dar apoio para que o outro continuasse.

- Ele saia a noite para beber e voltava completamente possesso na madrugada. Eu ouvia os gritos e o choro desesperado da minha mãe e saia correndo do meu quarto para a ajudar. Eu não me importava com quantos socos eu levava, apenas a protegia o máximo que podia, mesmo que isso significasse apanhar em seu lugar. E assim vivíamos, eu e ela não dormíamos, passávamos boa parte do tempo arrumando o que ele estragava, nos submetíamos a ele sem esperança de mudança. Essa foi a merda da minha infância e adolescência, minha cabeça era completamente fodida e eu sentia como se estivesse morto por dentro. Mas tudo mudou quando conheci um garoto enquanto passeava pela rua. Ele estava dançando junto a um grupo, mas eu apenas tive olhos para ele. Ele se chamava Taemin e era o melhor dançarino que eu já havia visto. Taemin era mais velho e parecia que conhecia todo o mundo como se fosse a palma de sua mão, era extremamente confiante e ousado, tudo o que eu queria ser. Ele me passava uma sensação de proteção e eu infelizmente acreditei que realmente estava protegido da merda que era a minha vida. Eu achei tão incrível a paixão que eles tinham com a dança que logo insisti para que ele me ensinasse, grudei nele que nem um carrapato e queria aprender tudo o que ele sabia, queria sentir aquela paixão. E ah, foi como se eu tivesse nascido para aquilo quando dancei pela primeira vez, me lembrei de todas os musicais que minha mãe me levava e fiquei completamente encantado. Toda via, não fiquei encantado apenas com a dança. O meu pai me viu um dia dançando no meio do parque junto com o grupo, estávamos fazendo uma competição. Eu fui tão humilhado na frente de todo mundo naquele dia, a minha pele e carne ardia em dor depois de tantos socos que levei. – Deu uma pausa para respirar, de repente estava ofegante demais para continuar.

As lágrimas quentes já borbulhavam em seus olhos, escorrendo pesadamente pelo seu rosto. Jongin precisou beber mais um pouco para dissolver o nó gigantesco que se formava e sufocava a sua garganta, o impedindo de continuar. O jornalista se moveu mais um pouco para frente, quase como se estivesse hipnotizado por aqueles olhos tão tristes e sinceros. Não tinha mais nenhum controle sobre o próprio corpo e apenas se deixava levar pelo momento, pelo o que julgava certo. Levantou a caricia que depositava na perna do homem para o seu rosto, enxugando todas aquelas lágrimas que caiam em abundância.

- Eu não queria mais continuar dançando com o grupo, estava totalmente envergonhado depois da cena que meu pai fez. Mas ao contrário do que pensei, eles me acolheram depois que descobriram pelo que eu passava, principalmente Taemin. Insistiram para que eu entrasse no grupo e dançasse com eles, e eu queria continuar fazendo a única coisa que me alegrava em meus dias. Continuei ensaiando com Taemin e cada vez mais caia no precipício que ele era, me sentia tão vivo com ele, queria tanto me agarrar aquele sentimento. Foi assim então que eu me apaixonei tão perdidamente e intensamente, tudo em mim queimava e eu me permitir viver o que ele me proporcionava. Nos beijamos pela primeira vez em um estúdio de dança, era tudo tão novo e entorpecedor, deixei de ser precavido e apenas queria ter cada mais de Taemin, me tornei descuidado. Uma vez estávamos nos beijando fortemente em um corredor escuro em minha escola, meus pais nunca me buscavam depois das aulas e o corredor era reservado o suficiente para ninguém nos ver. Bem, pelo menos era o que eu achava, os adolescentes conseguem ser realmente maldosos com pessoas que se relacionam com alguém do mesmo sexo. Nesse dia o meu pai decidiu me buscar depois de minha mãe passar tão mal que foi parar no hospital, aquele era o começo dos sintomas de seu câncer, ele foi me buscar para que fossemos no hospital onde ela estava. Ele estava tão bravo aquele dia, não por estar preocupado com ela, e sim porque aquilo iria atrapalhar todo o seu dia. Meu pai perguntou onde eu estava quando chegou ao colégio e algum infeliz me denunciou.

Jongin precisou parar novamente, chorava tanto que as lágrimas embaçavam a sua visão a ponto dele quase não ver o homem à sua frente. A ferida em seu peito incendiava e doía, como se estivesse cravando suas próprias unhas ali e a dilacerando cada vez mais. Kyungsoo chorava junto, conseguia sentir a dor do outro, tinha alguma noção de como aquela história terminava e se colocava no lugar do modelo. Se aproximou mais um pouco, até que suas pernas se encostassem e ele estivesse prestes a se jogar no colo do modelo para envolve-lo em um abraço desesperado.

- Eu não consigo me lembrar de tudo o que aconteceu aquele dia, como se meu próprio inconsciente tivesse tornado as lembranças confusas para me proteger da dor que senti naquele dia. Eu me lembro de gritos tão altos quase que como fossem capazes de estourarem os meus tímpanos, palavras tão cruéis que nunca deveriam ser dirigidas para um filho. Eu fui levado a forças da escola até a minha casa e ali eu apanhei como nunca tinha apanhado antes, foi o suficiente para que eu acordasse em um hospital com costelas quebradas e o rosto quase deformado. Ele estava lá quando eu acordei, carregava uma mala com meus pertences que não eram muitos e uma cara impassível. Ele me disse que eu estava expulso e que não era mais seu filho, que não tinha filho “viado”. Jogou toda a culpa na criação que minha mãe havia me dado e que quando ela saísse do hospital iria sofrer as consequências disso. Me disse também para nunca mais procurar por ele ou por minha mãe, que se eu fizesse isso ele iria me matar ou matar a minha mãe, e eu tinha noção do quanto aquilo poderia ser verdade. Eu me vi totalmente desesperado e atordoado, não tinha para onde ir e havia perdido a pessoa mais preciosa para mim, a minha mãe. Ela também tinha sido ameaçada por meu pai, se sentia culpada por não ter estado lá na hora para me proteger, e se sentiria mais culpada ainda se fosse me procurar e algo acontecesse comigo por essa ação imprudente dela. Além disso, ela iria sofrer por minha causa, a culpa me cercava de uma forma que eu não conseguia suportar. Taemin me acolheu depois daquilo, eu me juntei ao grupo e passei a viver com eles. Mas... não era fácil para ninguém sabe? Eu estava completamente quebrado e tinha incontáveis problemas psicológicos por tudo o que havia vivido. Eu acordava no meio da noite gritando e me debatendo na cama, assustando o garoto. Vivia com medo e era apenas um corpo preenchido apenas com insegurança e cicatrizes, eu estava sem vida alguma. Não foi surpresa quando Taemin me deixou após alguns anos, eu não o culpo na verdade, ele não merecia alguém tão problemático quanto eu, alguém que dependia dele para literalmente tudo e era um poço de mágoas e problemas. Pelo menos ele me deixou apenas quando eu já tinha um emprego e uma forma de me sustentar sozinho. E então eu me vi totalmente sem chão e desprotegido novamente, vesti a couraça de uma segurança e autoestima que não existia, eu pensava que era a única forma de me proteger sozinho.

Kyungsoo não aguentou mais ouvir aquilo tudo sem fazer nada, as lágrimas escorriam deliberadamente pelo seu rosto e a única coisa que ele queria fazer era consolar aquela alma destruída que se desnudava a sua frente. Por isso fez o que já estava programado em sua mente, se jogou no colo do homem e o abraçou forte e desesperado, afagando o seu cabelo rapidamente, fazendo um carinho desajeitado nos fios sedosos. Jongin abraçou aquele corpo pequeno como se sua vida dependesse daquilo, enterrando o seu rosto na curvatura do pescoço alvo e molhando o moletom com suas lágrimas quentes.

- Me movia apenas com a força do ódio que eu tinha de meu pai, apenas para mascarar toda a culpa que eu tinha, todo o medo que me assolava toda a noite, todos os meus traumas não resolvidos. Fingir ser outra pessoa, um personagem, um Jongin destemido e presunçoso, que não se abala com nada e não se entrega para ninguém, que não deixa ninguém o machucar ou chegar perto de suas feridas abertas. Mas aí você apareceu. – Jongin começou a rir nostálgico, soluçando logo em seguida pelo choro forte. – Te fazia acreditar que eu estava no controle, mas era você quem estava, o meu personagem simplesmente não funcionava contigo, mesmo que eu me esforçasse ao máximo para que você acreditasse que funcionava. Se lembra o que eu te falei no começo? Que eu havia feito todas as suas células viciassem em mim? Ah, isso era totalmente mentira, eu era completamente viciado em você. Sem perceber, havia me entregado até demais a você e me vi assustado com a intensidade que as coisas estavam acontecendo. Você era tão paciente e cuidadoso comigo, literalmente cuidava de mim em todos os aspectos, mesmo sem saber. Era tão maduro e ao mesmo tempo inexperiente, mas mesmo assim não se importava em mergulhar em todas as loucuras que eu te propunha. Você tinha a melhor conversa do mundo, eu poderia passar dias e noites conversando com você que nunca me cansava, me sentia invencível ao seu lado, como se eu realmente valesse a pena. Você me olhava com admiração, como se quisesse ter a segurança que nem eu mesmo tinha, mas era muito mais do que isso. Eu não sabia como, mas você me via como eu realmente era por trás daquela máscara, e mesmo assim admirava o que eu era. Eu amava aquilo, amava me sentir especial para você. Você realmente me amava e o seu amor me mudou totalmente, como se eu pudesse sonhar e voar, como se eu não fosse o meu passado, como se eu pudesse realmente viver. Eu ponderava largar todo aquele teatro e me entregar ao mar de mansidão que você era, mas os fantasmas do meu passado me assombraram de uma forma que eu não pude escapar. Eu estraguei tudo e nunca vou me perdoar por isso, mesmo que um dia você possa me perdoar. Quando eu vi você chorando no dia que eu fui embora e a única coisa que eu covardemente fiz foi continuar fingindo que aquilo não me importava, que você era só o meu passa tempo e que o azar foi seu por ter se apegado, foi ai que percebi que eu realmente não valia a pena. Eu deixei que meus traumas me abraçassem novamente, que me colocassem no poço em que você havia me tirado, mas dessa vez foi tão fundo que eu achava que nunca mais veria a superfície. Voltei a ser apenas uma máscara, apenas uma carcaça sem vida, até que minha mãe retornou. Mas mesmo assim, eu sinto que te perdi para sempre...

O garoto segurou o jornalista cada vez mais forte entre seus braços, queria o trazer para mais perto de si, mesmo que cada parte do seu corpo tocasse o dele. Kyungsoo estava totalmente movido pelas palavras do outro, alguma coisa em si gritava que o homem estava sendo sincero. Mas aquelas palavras tinham um peso tão grande, significavam que o passado não era como ele pensava, que todas as suas crenças estavam erradas. Aquilo mudava todo o seu passado e impactava fortemente no seu presente. O que deveria fazer agora? Honestamente não sabia, se sentia acuado, sem ter para onde fugir. Uma parte de si gritava para ir embora, que não poderia acreditar que tudo aquilo era uma farsa e que Jongin realmente o amou um dia. A outra acreditava cegamente no que ele dizia, compadecida totalmente por sua história e compreendendo alguns de seus comportamentos. Essa parte gritava dentro de si, querendo se agarrar a mínima chance de não ter amado sozinho naquele tempo, de que todo aquele desejo que sentia não era em vão. Não sabia a que parte dar voz, mas estava tão fodidamente cansado de pensar em absolutamente em tudo, de relutar tanto ao que sentia, a toda adrenalina que corria por cada uma de suas veias e artérias.

Segurou fortemente o rosto molhado entre suas mãos, encarando os olhos tão expressivos do modelo. Desceu o olhar para a boca tão macia e volumosa, vermelha e molhada pelo choro. Iria se odiar pelo que ia fazer, mas sinceramente não se importava. Passou tanto tempo se negando àquele desejo que esmagava todas as suas entranhas e o fazia delirar. Era tão errado, mas talvez fosse isso que fizesse tudo ser tão enlouquecedor. Avançou nos lábios de Jongin tão desesperadamente que gemeu com aquele contato tão esperado por si. O moreno não perdeu tempo algum, desejava aquilo tanto quando o jornalista, se brincar bem mais do que ele. Emaranhou seus dedos esguios pelo cabelo tão sedoso, o puxando ao mesmo tempo que arranhava a nuca com suas unhas afiadas.

O beijo era de uma intensidade inebriante, com o gosto pecaminoso de saudade e desejo ardente. As línguas se encontravam sedentas e febris, ecoando arfadas e gemidos por todo apartamento. Os dois corpos suavam e as mãos apressadas apertavam, arranhavam e exploravam cada partezinha de pele que encontravam. Seus dedos percorriam um caminho já conhecido por si, trilhando um rastro quente por toda a pele arrepiada. Jongin levou suas mãos para dentro do moletom do jornalista e apertou fortemente a depressão de sua cintura, precisava daquele contato de pele na pele, não conseguia o sentir totalmente com aquela camada de roupa desnecessária. Kyungsoo arfou com a pressão que os dígitos do homem exerciam sobre a sua pele, isso o deu coragem o suficiente para impulsionar o seu quadril na direção do quadril do modelo, ondulando sobre ele. Kim partiu o beijo afoito e arrastou seus lábios inchados levemente pela tez arrepiada do pescoço do jornalista, abocanhou a pele quente distribuindo beijos e mordidas por toda a extensão, fazendo com que o homem ficasse ainda mais insano em cima de si.

Kyungsoo despertou daquela atmosfera inebriante de transgressão apenas quando sentiu os dígitos ágeis do moreno descerem até o botão de sua calça e permaneceram por lá, como se precisasse de uma permissão. Do quis se matar quando percebeu que todas as células de seu corpo ansiavam por aquilo, o seu baixo ventre puxou fortemente, como uma prova de seu desejo. Mas não poderia permitir aquilo, não poderia se entregar para o modelo mais uma vez, sua mente voltou a ser uma tempestade de confusão novamente. Queria tanto ceder à tentação de seu corpo, porém uma vez que fizesse isso não teria volta, não conseguiria apagar as marcas de Jongin de sua pele. Tinha muito a pensar ainda antes de cair de cabeça naquele precipício de fundo espinhoso, foi necessário tanto tempo para superar aquele homem com olhos perversos a sua frente, não se entregaria a ele novamente.

O homem levantou de súbito do colo do outro, ajeitou o moletom em seu tronco e tentou normalizar sua respiração ofegante enquanto tentava arrumar o cabelo desgrenhado. Correu o olhar pela casa a procura de sua bolsa e correu até ela quando a achou, a colocou em suas costas e rumou em direção a porta. Parando apenas quando já tinha a alcançado, virando para trás para olhar o moreno uma última vez antes de sair.

- Me desculpe, mas eu não posso fazer isso agora...

- Eu sei, quero que saiba que eu vou te esperar, demore o tempo que for. – Jongin sussurrou as palavras, mas mesmo assim Kyungsoo conseguiu as ouvir.

O homem continuou sentado no sofá, apoiou os cotovelos nos joelhos e abaixou a cabeça, bagunçando o cabelo em frustração. Ver o modelo daquela forma fez com que um pensamento triste passasse pela mente de Do. As coisas entre eles eram sempre assim, um se desesperava e fugia do outro e alguém sempre acabava abandonado. Será que um dia parariam de fugir?


Notas Finais


Eai, o que acharam dessa interação?? Eu gostei demaaais de escrever esse capítulo, espero que vocês gostem também!
Não se esqueçam de me contar a opinião de vocês nos comentários, eu amooo ler cada um dos comentários que vcs deixam!


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