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História Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças - Capítulo 5


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Capítulo 5 - Recomeço


Ikki estava terminando de fazer uma sessão de fotos em um parque a pedido de uma revista para a qual trabalhava como freelancer, quando seu celular começou a tocar.

Normalmente o fotógrafo não deixava o aparelho ligado enquanto estava trabalhando, mas dessa vez ele tinha aberto uma exceção. Era o primeiro dia de Milo de volta à universidade e Ikki imaginava que o amigo pudesse ligar precisando de algum suporte. O psicólogo tinha dito que não ligaria, que estaria bem, que o amigo não precisava se preocupar. Mesmo assim, o moreno preferiu pecar pelo excesso. Ficaria a postos, caso o loiro precisasse dele. 

E Milo realmente precisou.

– Alô? – Ikki atendeu, enquanto enquadrava o cenário à sua frente para mais uma foto.

– Ikki? – a voz de Milo vinha um pouco sufocada – Escuta, eu... – o loiro suspirou. Seu orgulho doía por ter de pedir auxílio, mas a necessidade falava mais alto –  Eu estou precisando da sua ajuda.

Ikki imediatamente baixou sua câmera e os olhos escuros denotaram a preocupação que logo tomou conta do fotógrafo:

– O que houve, Milo? Você está bem?

– Mais ou menos. Eu... encontrei o Camus.

Ikki esboçou uma expressão de surpresa em seu rosto. Sabia perfeitamente que isso acabaria acontecendo, mas não imaginou que fosse ocorrer tão cedo.

– E como foi?

– Foi péssimo. Ele realmente não se lembra de mim. E eu não quero falar sobre isso agora; eu não consigo, Ikki. Não sei onde eu estava com a cabeça quando achei que poderia continuar dando aulas aqui normalmente. Não sou masoquista a esse ponto. Eu preciso ir embora daqui.

– Está bem. Tudo bem. – ao notar como o amigo falava com pressa, Ikki percebeu que Milo realmente não estava bem – O que precisa que eu faça?

– Quero que você vá até a minha casa. Vou te passar exatamente tudo o que você tem de pegar lá. Há muitos livros e materiais que estão no meu escritório e pertencem à universidade. Era material de pesquisa, basicamente, que eu às vezes levava para trabalhar em casa. Então presta atenção e anota o que você vai trazer aqui pra mim e...

– Espera um pouco, Milo! Por que precisa que eu leve essas coisas aí?

– Porque eu vou abandonar essa universidade, Ikki. Não vou mais trabalhar aqui.

– O quê?! Como assim, Milo?

– Ikki, eu não vou suportar ser visto como um desconhecido pelo Camus. E também não vou aguentar ver como aquele Saga agora anda tão íntimo do Camus, como se eles fossem um casal...

– Eles são um casal agora?

– Não sei. E não quero saber. Eu quero ir embora daqui o quanto antes, só isso.

– Milo... – Ikki olhou em seu relógio de pulso – Você não deveria estar em sala agora? Sua aula não começava às 10h?

– Sim. Mas eu não fui para a aula.

Ikki calou-se. Conhecia bem o amigo e sabia o quanto ele era profissional. Para deixar de ir à aula, o loiro realmente não deveria estar nada bem.

– E aí, você também pode me ajudar a pegar tudo o que está no apartamento para eu levar de volta para minha casa. É até bom que você esteja aqui para isso, porque assim posso levar tudo em uma única viagem e então não precisarei voltar aqui nunca mais. – acrescentou o psicólogo, com a voz amarga.

– Milo, onde você está agora?

– Ikki, você vai poder me ajudar ou não? – desconversou o loiro.

– É claro que eu vou te ajudar. Mas antes eu quero saber exatamente onde você está agora.

Silêncio. Milo parecia ponderar a resposta que daria.

– Não mente pra mim, cara. Me fala onde você está. – Ikki falou, sério.

O psicólogo, por sua vez, bufou nervoso. Entretanto, reconhecia que precisava ser honesto com o amigo:

– Estou em um restaurante... No bar do restaurante.

– Milo! São 11 horas da manhã!

– Eu tomei só duas cervejas, Ikki. Eu não vim me embebedar. Quero dizer... Talvez, em um primeiro momento, essa fosse a intenção. Mas eu reconheço que estou em uma situação decadente. Não pretendo continuar assim. Por isso eu te liguei. Mas então; vai me ajudar ou não?

– Vou, claro. – Ikki suspirou profundamente, sem fazer questão de esconder sua preocupação – Mas você pode, por favor, voltar para o seu apartamento e me esperar lá? – o fotógrafo não queria que Milo continuasse naquele bar. Mesmo que ele não estivesse interessado em beber mais, o ambiente poderia não favorecer essa decisão.

– Não. Eu não quero ficar lá, Ikki. Me traz péssimas recordações daquela noite. Vou ficar aqui esperando você chegar. Agora, anota tudo o que você precisa trazer para cá, está bem?

O moreno não discutiu mais. Sabia como Milo poderia ser teimoso. E sabia também o quanto o amigo era impulsivo. Esse, definitivamente, não era o momento de discutirem. Portanto, fez como o amigo pediu e anotou tudo o que estava em sua casa e que deveria ser levado de volta à universidade. Depois, Ikki anotou o endereço do restaurante onde o encontraria e terminou a ligação.

Ikki sabia que, até pegar tudo o que Milo lhe pediu, mais as duas horas de estrada... Levaria umas três horas até chegar lá.

Não queria que Milo ficasse naquele bar, mas já que o amigo se recusava a ir embora de lá... Então Ikki precisava providenciar que o loiro não ficasse sozinho.

Odiava ter de pedir favores assim, mas... Era necessário.

Então, tratou de fazer uma ligação antes de ir para a casa de Milo buscar tudo o que ele lhe pedira.

**********************************

Milo olhava para a televisão sem realmente prestar atenção ao noticiário que era exibido naquele momento. Tudo o que ele queria agora era não pensar e o barulho da TV ajudava-o a distrair-se de si mesmo.

O lugar estava ainda bastante vazio. Além dele, apenas dois outros homens se encontravam ali, cada um também perdido em seus próprios pensamentos.

O loiro sequer se dava conta dessas outras presenças, ensimesmado como estava, até que percebeu alguém se aproximando e sentando-se bem a seu lado:

– Olá, Milo. Como vai?

O psicólogo olhou para o lado e surpreendeu-se ao ver quem estava ali:

– Hyoga? Mas... O que está fazendo aqui?? – e então rapidamente ligou os pontos para compreender o que se passava – Ah, claro. Ikki ligou para você e pediu que viesse aqui.

– Eu não vou negar. Foi ele quem me ligou, sim.

– Eu não preciso de uma babá.

– Que bom, porque não sou babá de ninguém. – respondeu Hyoga, com a voz tranquila.

– Então o que veio fazer aqui? – inquiriu o psicólogo, um pouco agressivo.

– Vim ver como você está.

– Já viu. Agora pode ir embora.

Hyoga direcionou seus olhos muito claros para Milo e, com uma expressão mais séria, devolveu:

– Olha, apesar de tudo, eu tenho alguma consideração por você, Milo. Apesar de você ter magoado e muito uma pessoa por quem tenho grande apreço, estou disposto a relevar porque você também foi capaz de fazer bem ao Camus por algum período. Mas para tudo há um limite, certo? Então, não teste minha paciência. Estou aqui porque Ikki me pediu que viesse. Ele está preocupado com você. Que tal demonstrar um pouco de gratidão pelo seu amigo?

Milo se calou. No fundo, sabia que Hyoga estava correto. Havia deixado Ikki preocupado; ele sabia bem disso. Se seu amigo se sentiria mais tranquilo sabendo que não estava sozinho, então era melhor permitir-lhe ao menos essa tranquilidade.

O pesquisador de literatura francesa compreendeu que aquele silêncio era a forma de Milo concordar com o que fora dito. Sorriu discretamente e então retirou um livro que carregava em sua pasta. Começou a ler, ficando rapidamente entretido em sua leitura. Milo, que até então estava com os olhos presos à TV, finalmente notou o rapaz lendo a seu lado:

– Camus ensinou você direitinho. – Milo comentou e então fez um gesto para o bartender – Uma água tônica, por favor.

– Camus me ensinou o quê? – perguntou o rapaz, levantando os olhos daquelas páginas.

– A ter sempre um livro consigo, para quando estiver com alguma companhia desagradável. – o psicólogo respondeu, sem demonstrar qualquer agressividade em sua fala agora. Seu tom de voz vinha como em uma mera constatação. O bartender entregou uma garrafa de água a Milo, que levou-a direto aos lábios sedentos.

– Eu... Não disse que você é uma companhia desagradável. – Hyoga demonstrou-se um pouco sem-graça com esse comentário, fechando o livro e o colocando de volta em sua pasta.

– Tudo bem, Hyoga. Não precisa se explicar. As coisas são como são. Camus e eu não estamos mais juntos. Ele me odeia tanto que resolveu me esquecer. E você, como amigo dele, obviamente não gosta de mim também.

Hyoga olhava atônito para Milo. Quando conseguiu demonstrar alguma reação, mostrou-se incrédulo do que acabava de ouvir:

– Você acha mesmo que Camus fez o procedimento porque odiava você?

– Por que mais ele faria algo tão terrível? Ele me apagou da vida dele, Hyoga! Ele escolheu destruir tudo o que tínhamos juntos!

O jovem pesquisador acadêmico ficou observando Milo em silêncio por alguns segundos. Por fim, resolveu falar:

– Ikki me contou que você viu Camus hoje. Vou considerar que por esse motivo está assim tão magoado. Mas, no fundo, Milo... Você sabe que não é tão simples assim. Você conhece Camus bem o suficiente para saber que ele nunca faria algo desse tipo motivado por ódio. Compreendo que a atitude dele te magoou e dou razão a você por se sentir assim. Porém, não distorça tanto os fatos. Você sabe que também magoou Camus... E, talvez, não tenha noção do estrago feito.

Milo olhava fixamente para a garrafa de água que segurava entre as mãos. Não queria olhar para Hyoga enquanto ele dizia coisas que mexiam profundamente consigo. O psicólogo sabia que o pupilo de Camus estava certo.

– Ikki ficou furioso com o Camus quando contei a ele sobre o procedimento feito. Ele o chamou de covarde, de egoísta... – Hyoga sorriu tristemente – Você tem um amigo que o defende com unhas e dentes, Milo. Tanto que eu nem quis contar a ele sobre quem era o verdadeiro covarde nessa história, para que ele continuasse enxergando você como o amigo perfeito, que não erra... Mas nós dois sabemos da verdade, não é?

Finalmente, Milo dirigiu os olhos para Hyoga. Um olhar cheio de culpa.

– Você deveria ter voltado. Depois daquela briga, você deveria ter voltado. – Hyoga continuou – Camus ficou esperando por você. Sabia disso?

– Ele ficou...?

– Sim. Todos os dias, ele ia para aquela cafeteria e ficava a manhã inteira esperando que você aparecesse. No começo, ele não queria me dizer por que insistia em fazer isso. Mas, depois de alguns dias assim, Camus acabou me contando sobre o hábito que vocês tinham de se reconciliar lá.

– Ele... te contou sobre isso?

– Contou. Mas não foi fácil arrancar isso dele. – Hyoga suspirou – Não é fácil obter esse tipo de confidência do Camus... Por exemplo... No dia após a briga de vocês, eu fui à casa dele porque tínhamos combinado de rever um artigo meu para um simpósio... E então o encontrei em um estado lastimável. Eu me recusei a ir embora até que ele me contasse o que tinha havido. Só assim para ele me contar que vocês tinham brigado de forma definitiva.

– Camus contou a você o que aconteceu nessa briga? – quis saber o psicólogo, um tanto receoso.

– Eu nunca tinha visto Camus tão vulnerável quanto nesse dia. Ele não entrou em detalhes, mas acabou me revelando muito mais do que normalmente diria. Então, respondendo à sua pergunta... Eu sei que você disse coisas horríveis para ele, Milo. – Hyoga olhava de modo bastante repreensivo para o outro loiro, que baixou o rosto por isso.

– Olha... – o rapaz prosseguiu depois de alguns instantes pensativo sobre o que dizer – Eu não estou aqui para julgar você. O que havia entre vocês dois pertencia a vocês dois. E as pessoas erram, eu sei disso. A grande questão é que você deveria ter voltado para pedir desculpas. Bom, isso se você estivesse arrependido.

– É claro que eu me arrependi, Hyoga!

– Então deveria ter demonstrado.

– Eu sei. Eu sei... – Milo repetiu, levando a mão ao rosto – Eu queria ter vindo. Sei que deveria. Mas não consegui. Simplesmente... não pude.

Hyoga soltou um suspiro profundo. Tamborilou os dedos sobre a bancada do bar, refletindo sobre algumas questões. Então respirou fundo e continuou  falar:

– Camus me contou sobre a cafeteria ser o ponto de recomeço entre vocês. Ele me contou apenas depois de eu passar a ficar lá com ele, todos os dias. Eu dizia que o acompanharia até que ele me explicasse por que estava fazendo aquilo. Então, depois de uma semana, ele resolveu me contar o que aquele lugar representava para vocês. Ele achava que isso me faria deixar de ir, mas eu não o deixaria ficar lá sozinho à sua espera. Continuei indo junto com ele. E, sinceramente, Milo... Não era ódio que eu via nos olhos dele. Camus não estava odiando você. Ele estava triste, magoado. Principalmente porque, a cada dia que passava e você não aparecia naquela cafeteria, ele entendia isso como uma confirmação de que você não queria mais nada com ele. Camus julgou que você já o tivesse esquecido e deixado para trás. Por isso ele quis fazer o procedimento. Ele achava que não suportaria rever você e enxergar tanta indiferença nos seus olhos.

– Ele disse isso tudo para você, Hyoga?

– Não. Bem, não desse jeito, com essas palavras. Você sabe que Camus não consegue se expressar muito bem. Por não saber lidar com os próprios sentimentos, Camus considera isso uma fraqueza em si mesmo. Por isso, evita demonstrá-los.

– É, eu... Eventualmente comecei a entender isso nele. – Milo complementou, com um olhar melancólico.

– Até que você percebeu rápido. Eu conheço Camus há uns 6 anos e sinto que ainda tenho muito a aprender sobre ele. Porém, hoje eu consigo compreender muito do que ele não fala. Aprendi a ler nas entrelinhas do que ele diz...

– Mas e quando ler nas entrelinhas não é o suficiente, Hyoga? E quando as palavras tornam-se necessárias? Eu não queria mais apenas adivinhar o que Camus estava querendo me dizer. Eu realmente queria que ele me dissesse, com todas as letras!... – desabafou Milo, desaguando suas angústias de uma vez.

– Ele sabia disso, Milo. – Hyoga respondeu, com a voz amena – E... ele estava tentando mudar. Mas, quer saber? Isso agora está no passado. Não acho que vá adiantar qualquer coisa ficar remexendo no que já passou.

– Se eu soubesse que ele estava me esperando lá... Se eu soubesse disso, eu teria vindo. E teria vindo correndo... – Milo continuou a falar, mas mais para si mesmo.

– Eu pensei em entrar em contato, para lhe contar isso. Mas eu também fiquei muito chateado com você, pelo que Camus me contou. Além disso, eu achava que, se fosse para você aparecer, você tinha de vir porque quisesse, porque tivesse pensado bastante a respeito, porque tivesse tomado a decisão por si só... e não porque alguém te ligasse dizendo que Camus sentia sua falta. Era algo que você tinha de fazer por você mesmo, Milo.

O psicólogo se calou. Pensava em tantas possibilidades... E se tivesse voltado? E se tivesse sido mais paciente? E se tivessem feito as pazes no dia seguinte? Estariam juntos hoje? Ou teriam se desentendido novamente dias depois? Milo queria mesmo que Camus mudasse? E, se não houvesse qualquer mudança... Seria justo consigo? O loiro estava confuso. Eram muitas perguntas para as quais não conseguia conceber respostas agora.

Hyoga percebeu o estado em que Milo ficou e respeitou o tempo do outro. Compreendia que ele tinha muito a resolver consigo mesmo.

Ficaram em silêncio por um bom tempo. Hyoga não retirara mais o livro de dentro de sua pasta, mas mantinha um olhar pensativo na paisagem de fora, que se via por uma janela. Às vezes, o rapaz via alguém se aproximando do restaurante e parecia sobressaltar-se. Entretanto, notando que não se tratava de quem pensava, parecia ficar levemente frustrado.

Milo, após algum tempo em estado meditativo, percebeu esses pequenos sobressaltos de Hyoga. Acabou sorrindo de leve:

– Sabe... Ikki ficou muito decepcionado quando você parou de responder às mensagens dele. – o psicólogo falou, subitamente.

– Ahn? O quê? – Hyoga perguntou, pego de surpresa com esse comentário.

– Depois daquela vez que vocês se encontraram para a sessão de fotos. Ikki tinha gostado bastante de te conhecer. Ele me falou animado que vocês planejavam um novo encontro assim que possível.

Hyoga cruzou os braços, parecendo um pouco desconfortável em receber essas informações. No entanto, seus olhos diziam para Milo que continuasse a falar:

– Ele ficava muito feliz quando recebia uma mensagem sua. E eu realmente pensei que alguma coisa mais séria poderia acontecer entre vocês... Mas aí... – Milo olhou triste para o rapaz – Você simplesmente parou de responder às mensagens dele.

– Eu não parei simplesmente de responder. Disse que estava muito ocupado com a minha pesquisa. – Hyoga tentou se justificar, com um tom bastante defensivo.

– E Ikki entendeu o recado. Parece que ele ainda tentou mandar algumas mensagens para você depois disso, para saber como estavam as coisas... E você não respondeu.

– Bom, você e Camus não estavam facilitando a situação, Milo. Naquela época, seria muito complicado ter qualquer envolvimento com Ikki. E eu não quero mais falar sobre isso, está bem? – nesse momento, Hyoga, mais agitado, retirou o livro de sua pasta e se colocou a folheá-lo, um pouco nervoso.

– Tudo bem. Só queria que soubesse que Ikki é uma pessoa incrível, caso algum dia tenha vontade de conhecê-lo melhor. Mas só... – Milo bebeu o resto da água que ainda estava em sua garrafa, antes de finalizar – Tome cuidado para não magoá-lo. Ikki já sofreu muito nesta vida. E ele merece muito ser feliz.

Hyoga voltou um olhar um pouco surpreso para Milo. O psicólogo lhe oferecia um sorriso gentil. O jovem pesquisador, por sua vez, retribuiu com um sorriso amigável.

Depois disso, os dois permaneceram mais algum tempo em um confortável silêncio, até que Ikki finalmente apareceu à porta do restaurante.

O moreno viu como Hyoga lia seu livro, compenetrado, enquanto Milo olhava pela janela do restaurante, alheio a tudo o que se passava a seu redor.

O fotógrafo se aproximou logo, demonstrando em seu rosto que havia dirigido o mais rápido que pôde para chegar o quanto antes. Quando se viu perto o bastante, chamou pelo amigo:

– Milo.

Hyoga imediatamente levantou o rosto e deixou escapar um sorriso, quando disse:

– Ikki.

O moreno olhou para o loiro e, ao encontrar aqueles olhos tão claros, acabou sorrindo em retorno – Oi, Hyoga. Obrigado por ter vindo aqui.

– Imagina. Não me custou nada.

– Mesmo assim. Eu fico te devendo uma. – Ikki sorriu com um certo charme.

Milo, que tinha voltado o rosto na direção do amigo assim que ele chamou seu nome, apenas observou a breve interação entre os dois. Sentiu alguma alegria por Ikki naquele momento.

O fotógrafo, notando que o amigo os observava assim, sentiu-se um pouco constrangido. Pigarreou e disse, em tom repreensivo:

– Eu trouxe tudo o que você me pediu. Mas vim aqui principalmente para colocar algum juízo na sua cabeça.

– Não vou mudar de ideia, Ikki. Eu não quero mais trabalhar aqui.

– Como é? – surpreendeu-se Hyoga – Você vai se demitir?

– Vou. – respondeu Milo, com a voz resignada – Não vou conseguir ficar por aqui, sendo que posso cruzar com Camus a qualquer momento. Ainda mais agora que ele está com Saga...

– Você não sabe disso, Milo. – Ikki atalhou – Para todos os efeitos, eles são só amigos.

– Eles são só amigos, Hyoga? – Milo foi incisivo, encurralando o rapaz com sua pergunta.

O jovem pesquisador gaguejou um pouco antes de responder:

– Bom... ahn... Camus considera Saga um amigo... Mas Saga... Bem... Não é como se ele fizesse questão de esconder que gostaria de ter algo mais...

– Eu não disse? Eu sabia! – Milo falou, arrebatado, levantando-se nervoso e caminhando apressado para fora do restaurante.

– Por que você falou isso? – indagou Ikki, olhando bravo para Hyoga enquanto seguia Milo.

– O que queria que eu fizesse? Mentisse? – Hyoga acompanhava o moreno, devolvendo o olhar indignado.

– Podia ter inventado uma desculpa! Você é bom nisso. – Ikki falou com alguma aspereza.

Hyoga não respondeu. Essa última frase do moreno, depois do que ouvira de Milo, doera um pouco mais.

Lá fora, Milo estava parado, olhando para o nada.

– Milo... Eu só queria que você pensasse bem no que está fazendo. Você batalhou muito para conseguir esse trabalho aqui, nesta universidade. Você estava tão animado com essa carreira acadêmica... Quer mesmo jogar tudo isso fora, assim? – Ikki, com a voz mais suave, aproximou-se do amigo, tentando fazê-lo mudar de ideia.

Hyoga, por sua vez, ficara a alguma distância dos dois, dando-lhes alguma privacidade assim.

O psicólogo, todavia, mantinha uma expressão melancólica e reflexiva no rosto. Respirou profundamente antes de dizer:

– É isso o que eu quero, Ikki. E, no momento, só preciso que me apoie, meu amigo. Pode ser?

– Claro, Milo. Você sabe que pode contar comigo.

******************************

Quando chegaram ao prédio onde Milo ficava hospedado, Hyoga ofereceu-se para ajudar a pegar os pertences de Milo, que seriam levados de volta para sua casa. Segundo o rapaz, era o mínimo que poderia fazer para ajudar, de alguma forma, naquela situação. Assim, os três entraram no apartamento em que o psicólogo ficava sempre que ia para aquela cidade. Entretanto, após alguns minutos ali, Milo disse que não conseguia ficar lá dentro. Todas as lembranças, as recordações vinham de uma vez, oprimindo seu peito. Era angustiante e difícil demais. Ikki compreendeu e disse que, com a ajuda de Hyoga, terminaria de pegar os pertences sem grandes dificuldades. O fotógrafo sugeriu então que Milo fosse cuidar da papelada de sua demissão, além de devolver o material de pesquisa que estava em sua casa. O loiro acatou a sugestão e partiu para cuidar dessas questões burocráticas.

Pegou seu carro e dirigiu até o prédio que ficava próximo à reitoria. Tentava não pensar demais. Sua cabeça até já latejava de tantos pensamentos inacabados, que ficavam dando voltas em sua mente. Milo entendia que precisava de tempo para pensar, para colocar muitas ideias em ordem...

Estacionou próximo ao prédio. Só precisava sair e concretizar tudo isso.

Milo sentiu a cabeça pesar. Tudo parecia acontecer rápido demais.

Saiu do carro, sem conseguir sentir certeza em nenhuma decisão que tomava, apesar do que dissera para Ikki. Estava agindo por impulso? Com certeza. Contudo, Milo sabia que precisava explodir nesse momento. Ele se conhecia bem nesse sentido. Havia momentos em que o loiro simplesmente precisava agir de forma impulsiva, explosiva... Do contrário, acabaria implodindo e desmoronando por dentro.

Pegou uma caixa no porta-malas, com os materiais de pequisa e alguns livros que tinha de devolver à universidade. Eram para a pesquisa que tinha a intenção de começar a fazer em um dos laboratórios do departamento de Psicologia.

Sentou-se em um banco ali perto antes de prosseguir. Com a caixa sobre o colo, pegou dali um dos livros em que já tinha começado a trabalhar e passou a folhear suas páginas. Sorriu sereno; seria uma pena não terminar esse projeto...

– Olá. Posso me sentar?

Milo levou um susto ao ouvir essa voz.

Olhou para o lado.

Camus se sentava a seu lado, sorrindo-lhe simpaticamente.

– Pelo visto, você gosta de andar por aí carregando livros. – brincou o ruivo, claramente tentando puxar assunto.

Milo, por sua vez, não sabia o que dizer. Em sua mente, pensava apenas no quanto se esforçara em fugir de Camus o dia inteiro...

E no quanto, lá no fundo, desejava tanto revê-lo, como acontecia agora.

– Você realmente não gosta de falar, não é? – Camus abriu um sorriso bonito – E olha que eu costumo ser a pessoa que fala menos em uma conversa. Mas você me supera.

O psicólogo, diante daquele sorriso, não pôde evitar. Sorriu também. Um sorriso delicado, frágil.. mas era um sorriso.

– É que não estou num bom dia. – Milo respondeu, finalmente.

– Posso perceber. Hoje, mais cedo, na cafeteria... Você parecia seriamente perturbado com alguma coisa.

Os olhos castanhos fitavam Milo intensamente.

Aquele olhar cheio de curiosidade, tão penetrante, tão investigativo, tão... encantador.

O loiro precisou quebrar aquele contato visual.

Seu coração batia tão forte, que Milo tinha dificuldades para organizar os pensamentos.

– Ei. – Camus chamou, tentando atrair novamente a atenção de Milo, que se dissipava tão rápido – Você está bem?

O psicólogo olhou para Camus. Havia uma verdadeira preocupação naquele olhar. Os olhos castanhos, que buscavam insistentemente pelos seus aqueceram seu coração:

– Não. – Milo sorriu amargurado – Eu não estou bem. Estou passando pelo pior dia da minha vida.

Camus não esperava por uma resposta assim. Fez uma expressão de breve surpresa, como se, por um instante, não soubesse como agir diante dessa confissão feita por um desconhecido.

Entretanto... no instante seguinte, viu-se impelido a continuar:

– Não acha que pode estar exagerando? Quero dizer... o pior dia da sua vida? Não há como saber de fato. Outro dias virão e... – Camus esboçou uma expressão frustrada – Me desculpe. Eu sou péssimo com isso. Nunca sei o que dizer em momentos assim. – tentou sorrir para o outro, como forma de demonstrar alguma empatia.

– Tudo bem. – Milo sorriu um pouco mais, porém com o mesmo ar melancólico que trazia nos olhos azuis – Você está se esforçando. E... por uma pessoa que sequer conhece. Não é?...

Camus não respondeu. Permaneceu em silêncio, olhando fixamente para Milo.

– E você não é do tipo que fala com desconhecidos. – Milo suspirou e começou a se levantar.

– Espera. Já está indo embora de novo? – Camus reclamou, demonstrando mais sentimento do que poderia compreender nessas palavras.

Milo parou e olhou para Camus. Uma infinidade de pensamentos atravessavam sua mente já muito cansada.

– Você e Saga... Vocês se conhecem, não é isso? – Camus voltou a falar – De onde se conhecem? – o ruivo quis saber, estreitando os olhos para Milo.

– Ele não te disse? – o psicólogo se limitou a responder.

– Não. Quando perguntei, ele disse que vocês se viram em algum congresso, mas que ele nem se lembrava do seu nome.

– Ah. – Milo riu, sem esconder certo sarcasmo – Ele disse isso, foi?

– Sim, ele disse. – Camus se levantou também, ficando de frente para o loiro. E essa proximidade trouxe um estranho, mas familiar arrepio a seu corpo – Isso é verdade? – indagou o ruivo, cruzando os braços e olhando para aquele loiro intensamente, como se com um simples jogo de olhares pudesse desvendar algo que, certamente, parecia se esconder naqueles olhos azuis.

Camus sentia-se estranho na presença desse desconhecido.

Eram sensações confusas. Ele não compreendia.

Porém, algo dentro dele lhe gritava que precisava compreender.

– Se foi isso o que ele disse... Então é verdade. – Milo respondeu, depois de ponderar por alguns segundos.

– Não foi isso o que eu perguntei.

– É a resposta que eu tenho para oferecer. E... Eu preciso ir. – Milo já havia desistido de cuidar da papelada de sua demissão agora. Queria apenas ir embora dali. Estar assim diante de Camus era doloroso demais. Não estava suportando essa tortura.

O que poderia dizer? Contar a Camus toda a verdade? E de que adiantaria? Seria o mesmo que contar toda a história que eles viveram para uma pessoa que desconhecia o passado deles dois, que não sabia o que significava a vida dos dois juntos.

Milo começava a compreender que o Camus que ele amava, o Camus com quem ele mantivera uma relação tão forte... O Camus que conhecia seus segredos... O Camus com quem compartilhara tantos momentos únicos e que pertenciam apenas a eles... O Camus que o conheceu de uma forma como ninguém mais... Esse Camus havia desaparecido a partir do momento em que o ruivo o apagou de suas memórias.

Nesse momento, o rosto de Milo tornou-se mais frio.

Sentiu muita raiva de Camus. E de si mesmo. E de toda aquela situação.

Deu meia-volta e começou a seguir seu caminho de volta para o carro.

– Você realmente não vai nem mesmo me dizer o seu nome? – falou Camus, elevando o tom de voz para se fazer ouvir e deixando entrever uma certa angústia nesse pedido súbito.

Milo voltou-se para trás, com um olhar cheio de amargura, e respondeu:

– Para quê?...

E então o loiro entrou dentro do carro, deu a partida e foi embora dali.

Continua...



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