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História Bring me home - Capítulo 2


Escrita por: e projetoharuno


Notas do Autor


Olá pessoal! Conforme combinado, postando mais um capítulo dessa coisa fofa aqui.
Quero agradecer o apoio, os favoritos e espero que gostem!
Leiam as notas finais! ♥

Capítulo 2 - Orvalho


 

 

  Mesmo com a manta pesada, poderia se afirmar com tranquilidade que aquele dia estava mais frio que o anterior. Então não seria exatamente uma surpresa se Itachi abrisse os olhos sonolentos e encontrasse algo extremamente rosa dominando sua visão.

   Piscando devagar, começou a ter consciência do que estava acontecendo, até que se lembrou da noite anterior, de Sakura, da conversa íntima e delicada, do pranto sufocado, da chuva, e do sono arrebatador.

    Sim, ele se lembrava da amiga se arrastando no sofá cama até si, como se pedisse um afago, e ele logo concedeu seu desejo com carícias na cabeça. E assim, eles adormeceram. Só que mesmo diante de tudo isso, ele não sabia explicar como ou quando os dois acabaram naquela posição, na qual ele se agarrava à cintura dela, com os corpos unidos, e o rosto enfiado na cabeleira rosa da garota.

    Os olhos se arregalaram com aquela constatação e ele pensou em como se explicaria caso ela acordasse daquele jeito depois de uma noite de confissões tão íntima e dolorosa. Ele não queria que ela pensasse mal dele, seria uma merda na verdade. Ela poderia achar que ele estava se aproveitando de sua fragilidade, da situação como um todo e isso só pioraria as coisas.

Com esse pensamento, ele tratou de se afastar delicadamente, para que não a acordasse. Foi retirando aos poucos o braço direito que estava debaixo do dela e assim que conseguiu, se virou feito um felino na cama, ficando de costas para Sakura e respirando fundo, aliviado.

Ficou olhando a janela, ainda sonolento. Pela claridade, deveria ser cedo, bem cedo... Talvez antes das sete da manhã. Estava estranhando a falta de barulho no andar debaixo, quando uma luz cortou o céu e um estrondo ressoou ao redor. Segundos depois, voltou a chover como na noite anterior, e Itachi encarou a cena um pouco alarmado. Era um fluxo muito grande de água para pouco tempo.

Esticou o braço e alcançou o celular na mesa de cabeceira, e percebeu que haviam duas ligações perdidas e uma mensagem não lida de Yahiko:

 

“Mano, não vou conseguir chegar no Café. A cidade tá um caos, tá tudo alagado, árvores caídas por toda parte. Estou há meia hora esperando abrir a estação de metrô, mas acabaram de informar que tá tudo debaixo d’água. Parece que o prefeito vai declarar situação de emergência. O que você acha melhor? Abrir ou suspender atendimento hoje? Me fala que eu repasso para a equipe da manhã – o grupo tá nervoso aqui querendo saber. Beijo no saco, seu lindo.”

 

          Apesar da situação periclitante, o tratamento do sócio de Itachi não passou despercebido pelo Uchiha, que riu com a forma de Yahiko amenizar a situação com poucas palavras. E quanto ao Café, estava mais do que óbvio: não abriria hoje, e anunciou diretamente no grupo dos funcionários. Informou também que ninguém seria descontado por isso, para que ficassem tranquilos, que a única perda seria a possibilidade de gorjetas, o que arrancou risadas e bom humor da equipe.

          Assim que terminou de enviar as mensagens, um novo trovão se fez presente, e ele sentiu o colchão se remexer atrás de si. Permaneceu parado a fim de não interromper o sono de Sakura, mas qual não foi sua surpresa quando o braço dela lhe cobriu a cintura, e automaticamente o corpo da jovem estava de novo colado ao seu?

          Endurecido como pedra, ele virou lentamente a cabeça para o lado, conseguindo ver pelo canto dos olhos o rosto tranquilo e cansado da amiga, praticamente afundado em suas costas. Após isso, Itachi relaxou e até sorriu com aquela cena, pensando que a jovem deveria estar realmente cansada, assim como ele estava. E seguindo o exemplo dela, se endireitou na cama, descansou o celular na mesa de cabeceira e fechou os olhos para dormir mais um pouco.

          Parecia que apenas dez minutos haviam passado, mas o coração palpitou alarmado quando ele ouviu um barulho de tampa de panela cair no chão.

“Merda!” Ele ouviu uma voz soar baixinha, e com os olhos já abertos, procurou a rosada pelo sofá-cama, não encontrando-a. Sentou-se e olhou em volta, vendo que a mesma tentava improvisar algo no pequeno fogão da área da copa, no canto do escritório.

          Ele relaxou a postura, piscando de forma sonolenta os olhos. Esfregou as mãos nos mesmos, e ouviu a jovem falar consigo.

“Eu te acordei, não foi?” Ela perguntou com a voz culpada. Itachi riu e concordou, retirando a mão da vista e a encarando.

“Não se preocupe com isso. Bom dia.” E se alongou com preguiça.

“Bom dia! Desculpa mesmo! Aceita uns ovos mexidos e umas torradas como uma forma de me redimir? Tem café também.” Ela comentou sorrindo e foi a primeira vez que ele a olhou atentamente naquele dia. Ela estava engraçada; os cabelos rebeldes, a calça legging preta, a blusa verde escura larga com as mangas arregaçadas até o cotovelo, e um avental com o logo da Sharingan bem amarrado ao corpo.

“Vou aceitar o café. Não sinto tanta fome de manhã.” Ele explicou enquanto levantava-se do sofá e se sentava à mesa, encarando o relógio na parede. Já passavam das dez da manhã.

“Nossa, como consegue? Eu sou uma traça de manhã. Morro de fome, é a minha refeição favorita!” Sakura exclamou, terminando de fritar os ovos e colocando numa tigela funda e pequena. “A propósito, roubei algumas coisas de lá debaixo para fazer o café. Espero que não se importe, pode colocar tudo na minha conta, inclusive. É minha forma de agradecer.” Itachi a encarou confuso.

“Como assim colocar na sua conta? Já está fazendo um café, mesmo sendo a pessoa mais atrapalhada do mundo! Eu reconheço sua força de vontade, seu empenho e suas intenções, não tem isso de conta. Desculpas aceitas.” E piscou sorridente, enquanto ela ria sarcástica.

“Ha-ha-ha. Muito engraçado! Uma tampa de panela no chão não me define, ok?”

“Não, mas uma vida se estabacando por tropeçar nos próprios pés, sim.” Itachi devolveu com os braços cruzados, piscando várias vezes e fazendo uma cara de sabichão, enquanto a rosada apenas deu o dedo do meio e riu concordando.

“Céus, eu deveria ter procurado ajuda. Mas te garanto que isso melhorou bastante nos últimos anos, ok? Agora cala a boca e prova meu café.” Ela serviu o líquido fumegante na caneca que tinha o nome do gerente da Sharingan.

“Ah, eu não coloquei açúcar, porque não sei como você prefere...” Ela acrescentou, sentando-se à mesa logo após retirar o avental.

“Acertou em cheio, eu bebo café sem adoçar!” Itachi comentou surpreso enquanto mexia a cabeça em concordância.

“Como eu suspeitava... Você já está morto por dentro, só não sabe.” Sakura brincou enquanto adicionava gotas do adoçante ao seu café, e foi a vez de Itachi rir debochadamente.

“Você sempre acorda com a língua afiada assim? Quer dizer que além de me acordar no susto, ainda quer falar mal da minha pessoa? Nossa, que bela amiga você é.”

“Bela eu sou mesmo. Amiga também.” Ela riu animada, colocando a mão reta embaixo do queixo e mandou um beijinho para Itachi, que riu com a cena.

          Após bebericar, ele percebeu que a amiga fazia um café forte, como gostava.

“E então?” Ela perguntou após mastigar um pedaço de torrada.

“Porreta.” Ele respondeu com a face surpresa, e os lábios curvados para baixo, enquanto Sakura ria animada.

“Yes!!! Te falei que algumas coisas melhoraram de uns tempos para cá.” E piscou cruzando os braços. Ela estava sorrindo quando olhou para fora da janela, vendo que a chuva não dava parava.

“Caramba, caiu com força mesmo.”

“Pois é. Você tinha algum compromisso hoje?” Itachi perguntou, bebendo café.

“Não muito. Na real, estou hospedada numa pousada aqui perto, aproveitando as férias da faculdade e do estágio. Então tá tranquilo! Estou preocupada com o Café Sharingan, na verdade. Hoje não vai rolar abrir, né?”

“Não enquanto durar essa chuva...” Itachi respondeu, com uma careta. “Mas não vou brigar com a natureza. Aliás, falando nisso, eu preciso esclarecer as coisas: ontem você acabou dormindo, e a chuva estava muito forte, então achei melhor...”

“Tudo bem.” Ela respondeu com um sorriso agradecido. “Sério, tá tudo bem. Eu entendi tudo quando acordei. Você como sempre sendo muito cuidadoso, né? Obrigada, Itachi.”

“Não há o que agradecer. Estamos aí pra isso.” Ele devolveu, sorridente e cruzando os braços. “E como você está?”

A rosada umedeceu os lábios e voltou a olhar a chuva, sabendo que aquela não era uma mera pergunta de rotina. Ele queria saber verdadeiramente como ela estava. Então a jovem meneou a cabeça, reparando nas gotículas que grudavam na janela, formando desenhos aleatórios.

“Estou bem. Estou me sentindo muito bem, para ser sincera. Como há muito tempo não me sentia.” E voltou a olhar Itachi com um sorriso no rosto.

“É muito bom ouvir isso.” Ele acrescentou, concordando com a cabeça.

“É muito bom sentir e dizer isso!” Ela exclamou rindo levemente, enquanto ajeitava o cabelo num coque frouxo. “Eu estou com uma sensação boa, sabe? Como se estivesse há muito tempo com uma substância ruim no corpo, que me causava torpor e não me fazia bem. Parece que nesses últimos três meses tenho conseguido me livrar dela. E nem preciso dizer o quanto ontem foi crucial para me curar mais ainda, não é?”

          Itachi não sabia o que fazer além de sorrir, genuinamente feliz por Sakura. Ele sabia que era preciso muita coragem para dizer as coisas que ela disse, colocar para fora daquela maneira, além de fazer isso com alguém como ele, pois por mais que fosse um amigo de longa data, era alguém que ela não via há anos. Mesmo que eventualmente se falassem por vídeo-chamadas e redes sociais, não era a mesma coisa. Itachi estava realmente triste por pensar que Sakura passou um verdadeiro inferno nos últimos três anos e ele sequer suspeitava disso.

“Eu fico sem graça com isso tudo, Sakura. As aparências realmente enganam e eu achava que você levava uma vida boa, sabe? Bem como havia sonhado, quando nos falávamos mais no começo da sua faculdade. Eu sinto muito que tenha passado por isso tudo, de verdade.” Ele disse, estendendo a mão para alcançar a dela, que aceitou o gesto de bom grado.

“Sinto muito por não estar lá por você.” Sua voz desceu alguns tons e ele encarou as mãos dadas com o cenho franzido, se questionando que tipo de amigo era para Sakura, sem fazer ideia das coisas que ela havia passado.

“Itachi, você não tem culpa de nada. Eu sempre disfarcei tudo muito bem, e tenho responsabilidade nisso, sabe? Quer dizer, foi a minha forma de lidar com as coisas. E foi uma escolha errônea, improdutiva, perigosa. Mas foi o que deu pra fazer e o que achava certo na época. Agora eu sei o quanto foi imprudente, ruim... E o que importa é que estou bem, que Sasori é passado. Eu tenho um presente e um futuro a traçar e serei capaz de fazer isso por ter pessoas como Ino e como você ao meu lado. Então agora só quero focar no que posso vivenciar de bom nessa vida... Se a chuva der um tempo, é claro.” Ela falou a última frase rindo, arrancando um sorriso de canto do gerente do Sharingan.

Aquilo não o animava de todo, ainda se sentia culpado, mas era “menos mal” quando Sakura estava fora de perigo, pelo menos. Estava tão absorto que mal viu o tempo passar, e quando deu por si, Sakura já estava retirando as coisas da mesa, deixando uma torrada e a porção de ovos para ele.

“Coma, Itachi. Pelo menos um pouco. Não faça essa desfeita...” Ela repreendeu enquanto lavava a louça na pia. O homem sorriu e separou uma colherada de ovos com torrada, apreciando o sabor preparado por Sakura.

“Está muito bom. Parabéns.” Ele analisou e a jovem riu debochada.

“Dá pra dizer que sou especialista em ovos, Master Chef?”

“Pode acrescentar no currículo, vai dar bom.” Ele riu com a gargalhada de Sakura.

“Porra, imagina só? Médica e especialista em ovos? Definitivamente sou pioneira na minha área. Obrigada por isso, Itachi!” E ambos riram animados.

          Ela terminou de secar o último talher e voltou a se sentar. O Uchiha mastigava com preguiça, com o joelho erguido e o cotovelo esquerdo descansando sobre o mesmo. Sakura estava com o queixo apoiado nas mãos encarando Itachi com os olhos atentos. Ele por sua vez parou de mastigar e a olhou em confusão, sem entender toda aquela atenção.

“O que foi?” Ele perguntou depois de engolir a comida.

“O que foi o que?” Ela devolveu, sem alterar a feição. Ele riu sem graça.

“Você tá me encarando.” Ele explicou, olhando-a também.

“Sim.” Ela concordou, e ele riu de novo, tentando ignorar os olhos verdes enquanto comia. Mas após três mordidas, ele não aguentou a pressão.

“Você está me deixando encabulado.”

“Uau! Encabulado? Assim você entrega sua idade, garotão.” Ela brincou, colocando a língua pra fora e ele deu o dedo do meio, risonho.

“Eu sou o tipo de cara que posso ter cem anos, se eu fizer a barba, volto a ter vinte numa boa.” E deu de ombros, enquanto ela rolava os olhos.

“Eu preciso concordar com isso. Aliás, nunca te vi de barba! Você já usou alguma vez?”

“Sim, mas não é minha praia... Gosto do meu rosto aparecendo por completo.” Ele dizia enquanto ajeitava o rabo de cabalo. Sakura acompanhou os movimentos e seus olhos brilharam.

“Eu também nunca te vi de cabelo solto.” Ela sorriu a ponto de mostrar os dentes e Itachi a encarou abismado.

“Sério? Que isso!”

“Você vivia de cabelo preso... E não tem foto sua com ele solto.” Ela falou, tamborilando os dedos em cima da mesa, e ele fez uma careta como se nunca tivesse pensado sobre isso.

          Num movimento gracioso, ele puxou o elástico que prendia os fios negros, que logo caíam soltos e livres pelos ombros. Ajeitou um poco pra lá e pra cá, e apontou pra si.

“Voilà!” Disse animado, e Sakura sorriu abertamente, com certa surpresa.

“Nossa, cara. Você deveria usá-lo assim mais vezes. Fica muito bem em você.” E fez joinha com a mão, arrancando uma risada amena de Itachi.

“Você está sendo apenas gentil. Eu já falei que não precisa pagar conta alguma e já aceitei suas desculpas por ter me acordado. Então para de puxar meu saco, Haruno.” Ele brincou e ela riu, negando com a cabeça.

“Saiba receber um elogio, Uchiha. Tá gato, vai por mim. Homens de cabelos longos tem sempre um bom lugar reservado no coração da galera.” E piscou enquanto Itachi concordava.

“E você? De onde tirou a ideia do cabelo curto e rosa? Até pouco tempo era longo e loiro...” Ele divagou e a rosada sorriu de forma mais contida, dando de ombros.

          Ela encarou a mesa, e com os dedos ainda tamborilando, respondeu.

“Eu deixava grande porque todo e qualquer cara que gostei preferia ele assim. Inclusive Sasuke!” Ela riu levemente, sem exatamente achar uma graça no que dizia. “Mas desde que entendi que não é sobre o outro, e sim sobre o que eu penso e quero pra mim, percebi que o cabelo curto era minha onda. E o rosa, bem... Realizei um desejo de adolescente.” Ela assumiu, risonha.

“Eu gostei. Ficou bom em você.” Ele apontou, e ela levantou o olhar para si.

“Sério?” Ela indagou, incerta.

“Seríssimo. Ficou tão bom que eu diria que você sempre foi assim, que essa sempre foi você. É a sua cara.” Ele concluiu com um sorriso e Sakura o imitou, ajeitando a franja.

“Obrigada.” Ela agradeceu, tímida.

“Ora ora, se não é a sua vez de ficar sem graça com um elogio...” Ele pontuou com uma careta, bebericando do café.

“Você é um idiota, cara.” Ela riu, ficando com as bochechas vermelhas e Itachi achou aquilo gracioso, comparando a Sakura criança com a mulher à sua frente. Algumas semelhanças nunca morreriam, afinal de contas.

“Mas é verdade, temos que aprender a lidar com elogios. Principalmente este do cabelo.” Sakura comentou, mexendo numa mecha sua.

“Como assim?” Itachi questionou, confuso sobre o ‘principalmente’.

“Você é o primeiro cara que fala bem do meu cabelo.” Ela explicou, com uma careta.

“Sério?” Ele estranhou, com o cenho franzido.

“Bem, pode ser o meio no qual estou, de estudantes de medicinas que se acham os adultos e tudo mais... Muita gente achou exótico, corajoso, mas legal como você opinou... Ninguém.”

“Caralho. Você tá cercada de idiotas, Sakura.” Itachi constatou, fazendo a rosada gargalhar.

“Eu tenho essa impressão muitas vezes ao dia, sabia?” Ela concordou, e por mais que fosse engraçado, ele falava sério.

“Nossa, eu conheço um monte de gente que com certeza iria te achar linda. Também, estariam sendo apenas realistas, né.” Ele foi sincero, e o tom avermelhado se intensificou nas bochechas da amiga, fazendo ele rir daquilo.

“Porra, Itachi. Minha cara tá queimando.” Até a voz saiu um pouco mais fina do que de costume, e ele riu mais ainda.

“Certas coisas não mudam, né?”

“Não mesmo. Você continua ganhando no quesito “zoar os amigos””. Ela retrucou, com um biquinho nos lábios.

“Fazer o que se é minha sina, não é mesmo?” Ele falou, se achando.

“Alguém te aguenta sendo uma peste dessas?” Ela indagou cruzando os braços e ele fez falsa cara de ofendido.

“Na minha horta chove como lá fora, Haruno.” Ele respondeu com um sorriso maroto.

“Chove canivete, só se for.” Ela retrucou rolando os olhos, e ele riu da resposta, sem exatamente se prolongar. Sakura ergueu uma sobrancelha e ele devolveu a feição, não entendendo o que a amiga queria dizer.

          Ela fez uma cara de quem insistia no óbvio, mas Itachi estava realmente confuso. Ela bufou e riu da lerdeza dele.

“Eu acabei de perceber uma coisa...” Ela comentou, brincando com o guardanapo em cima da mesa.

“O que?” Itachi perguntou, percebendo que Sakura tinha essa mania de dobrar guardanapos. Na noite passada havia feito um pequeno tsuru de origami.

          A garota dobrou duas vezes o papel antes de continuar, e o fez sem olhá-lo.

“Você falou de tudo, Itachi. Família, trabalho, estudos. Ouviu minhas histórias... Mas não falou do coração. Por acaso é assunto proibido?” E sorriu astuta, encarando e fazendo o rapaz sorrir sem mostrar os dentes, negando com a cabeça.

          Propositalmente voltou a comer sua torrada, finalizando com calma a fim de que Sakura esquecesse aquilo.

Mas era a Sakura, a pessoa mais perseverante que ele conhecia, e isso incluía ser insistente quando quer saber de algo. Suspirou e terminou a torrada com ovos, limpando as mãos num outro guardanapo e cruzando os braços em cima da mesa, ao lançar o olhar atento para Sakura.

Ela havia feito um novo tsuru, que estava parado ao lado de seu cotovelo em cima da mesa.

“O que exatamente quer saber?” Ele sorriu de forma amena e ela deu de ombros, olhando para a mesa, fingindo distração.

“O que você quiser me contar.” Ela respondeu sorridente, mas logo o sorriso sumiu do rosto, como se um pensamento lhe cortasse a mente. “Bom, isso é, se quiser falar. Se não quiser, tá tudo bem também, eu não quero que se sinta desconfortável.” E riu sem graça. Não sabia se tinham aquela intimidade e pensou que talvez estivesse sendo invasiva.

          Itachi gargalhou com aquilo, achando graça na maneira de Sakura se sentir mal por ele e mudar da água pro vinho numa situação dessas. Após a sessão de risadas, respirou fundo e baixou a perna, colocando os cotovelos apoiados na mesa e unindo as mãos. Umidificou os lábios e a olhou ao responder.

“Eu estou solteiro, me recuperando de um término conturbado. Não posso dizer que passei o mesmo que você, mas eu meio que comi o pão que o diabo amassou em meu último relacionamento.” Ele falou calmamente, piscando devagar. Sakura se remexeu na cadeira, fazendo uma careta de dor.

“Sério?”

“Sim. Sofri muito com mentiras, e por fim, traição.” Ele deu de ombros, num sorriso zombeteiro.

“Porra, que merda. Traição é foda... Porque as pessoas fazem isso, não é? Seria tão mais fácil conversar, trocar uma ideia, tentar achar um caminho mais dinâmico. Talvez abrir relacionamento, ou mesmo terminar antes de fazer isso, sei lá... Diálogo, né?” Sakura pensou alto, encarando as mãos de Itachi na mesa.

“Pois é. Mas nem todo mundo pensa ou faz isso, infelizmente.” Ele respondeu e sua feição endureceu um pouco.

“Vocês ficaram quanto tempo juntos?” Ela perguntou, curiosa.

“Um ano e meio. Terminamos há uns cinco meses.”

“E você, está bem?” Ela questionou, reparando em cada e qualquer detalhe de Itachi ao responder. O mesmo deu de ombros e sorriu sutilmente.

“Acho que posso dizer que sim. Quer dizer, eu estaria bem fodido se não estivesse fazendo terapia há alguns anos, então eu já tinha um apoio para fortalecer a mente, entender um pouco mais as coisas dentro de mim, da vida... Enfim, faz parte. É ruim, mas faz parte e a gente vai vivendo um dia de cada vez.” Ele explicou e sua face relaxou um pouco.

“Um dia de cada vez.” Sakura repetiu a frase, concordando com a cabeça. “Vocês ainda se falam?”

“Fazemos parte do mesmo ciclo de amigos.” Ele respondeu com uma careta e Sakura abriu a boca em choque.

“Puta merda, sério?”

“Sim. E já vi com outras pessoas, então no início foi meio foda, senti muitas emoções ruins, mas depois fui compreendendo melhor e me acostumando. Hoje em dia tô de boa, mas o que pega mais são as feridas e os receios... Os gatilhos e etc. Coisas que a gente passa na vida e agradece pela terapia existir, não é mesmo?” Ele deu de ombros, ajeitando a coluna na cadeira e rindo educado. Sakura sorriu e concordou.

“Pois é... É verdade.”

                    Um momento silencioso se instaurou no ambiente enquanto os jovens trocavam olhares. Sakura rompeu o silêncio com a pergunta que a açoitava de tanta curiosidade.

“Você ainda gosta dela?” Os olhos verdes atentos e curiosos mirando os negros profundos.

          O rapaz a encarou por um tempo, com a feição num misto de sorrisos e ironia. A rosada aguardou pacientemente, até que deduziu ser algo difícil para o Uchiha, dado seu silêncio sepulcral.

“Esquece, eu não deveria...” Ela começou a se desculpar, mas foi interrompida pela voz decidida de Itachi.

“Dele.”

“Hã?” Ela perguntou, confusa.

“Dele, Sakura. Meu último relacionamento foi com um homem.” Itachi disse de uma vez, prendendo a respiração e os lábios numa linha fina, ficando ansioso pela reação da jovem. Era a primeira vez que ele falava com alguém tão próximo à sua família sobre isso, fora os poucos e seletivos amigos que sabiam. E apesar de saber que não deveria haver problema algum nisso, o nervosismo e o medo em “se assumir” eram latentes. Afinal de contas, aquilo nunca seria fácil...

          Sakura não disse nada a princípio. Respirou, piscou uma, duas, três vezes. E enfim acenou com a cabeça, com uma cara engraçada – um sorriso no rosto e o cenho franzido, nitidamente confusa.

“Bom, um homem? Bem... Eu não sabia... Me desculpa pelo erro.” Sakura tentou consertar, e Itachi soltou a respiração lentamente.

“Tudo bem.” Ele respondeu mecanicamente. O silêncio reinou por mais alguns momentos, o tamborilar dos dedos de Sakura na mesa se unindo aos de Itachi, que a imitava. Ambos desconcertados pela situação.

“Então... Você sempre se relacionou com homens?” Ela perguntou, mas logo se arrependeu, dando um tapa na própria testa, antes que ele pudesse responder.

“Caralho, nossa, que merda de pergunta... Me desculpa! Esquece isso, Itachi. É que eu não sabia, eu não tô sabendo reagir na verdade. Eu sempre achei que você fosse hétero, e agora eu tô curiosa, mas eu tô com medo de falar merda e te magoar, então eu vou ficar quieta e é até me-”

“Eu sou bissexual, Sakura.” Itachi interrompeu com um sorriso calmo, tirando a mulher de seu próprio devaneio.

“Bissexual? Entendi.” Ela disse como quem repete uma matéria que acabou de aprender. “Então isso quer dizer...”

“Quer dizer que me atraio e me relaciono por/com homens e mulheres. E meu último relacionamento foi com um homem.” Ele explicou, pouco a pouco distensionando. Até então receava pela reação da amiga, que só foi confusa e engraçada, e não ruim como temia.

“Uau. Eu não sabia disso.” Ela disse, cruzando os braços. “Como foi pra você tudo isso, Itachi? Quer dizer, seu pai... Sasuke... Eles te apoiam? Eles sabem?” A mão de Sakura alcançou a de Itachi, e ele deu um pequeno sorriso antes de seguir a conversa. Ficara feliz pelo ato da rosada.

“Sasuke sabe, mas não falamos muito sobre isso... Ele diz que quer me ver feliz, mas era nítido o desconforto quando eu, Nagato e ele dividíamos o mesmo ambiente. Meio que ninguém sabia exatamente como agir, e eu sei que Sasuke não tão no fundo tem seus preconceitos. Mas seria doloroso demais confrontá-lo e não tê-lo por perto. Como já não tenho meu pai, que também sabe, mas finge não saber e só lida comigo assuntos banais, ficando mais sem jeito do que meu irmão. Isso, independente de eu estar acompanhado de um homem ou não. Sasuke pelo menos ainda me trata como sempre quando estamos só nós dois, o que é um certo alívio. Mas não vou negar, é foda...”

“Doloroso, não é?” Sakura indagou, com a face preocupada. “Mas me diga, Itachi... Você é feliz?”

“Eu estou. Agora, pelo menos.” Ele comentou e riu levemente, fazendo Sakura relaxar na cadeira. Ela estava visivelmente tensa.

“Então é isso que importa.” Ela sorriu, acariciando a mão dele. “Isso e você sempre fazer pra mim um chocolate quente daqueles!”

          Ambos riram com a fala da rosada, que se debruçou na mesa e segurou as duas mãos do Uchiha. Este por sua vez, parou de rir e a olhou atento. Ela ficou com a feição séria, porém a voz saiu melodiosa e acolhedora.

“Obrigada por confiar em mim, Itachi. Eu imagino que não seja fácil, mas fico honrada por você se sentir à vontade e dividir isso comigo. De verdade.”

          O nó na garganta subiu depressa, mas o rapaz respirou fundo e sorriu rápido sem mostrar os dentes, engolindo a seco as lágrimas que queriam sair. Por algum motivo, ele as prendeu em si, até que elas se dissipassem no canto do olhar.

“Minhas mãos estão suando frio.” Ele riu nervoso, encarando as mãos dele unidas às delas, e em como se apertavam num enlace firme.

          Ele levantou o olhar e as bilhas negras encontraram as esverdeadas. Ambas se encararam por um tempo, e ele foi o primeiro a quebrar o silêncio.

“Obrigado, Sakura.” Ela sorriu, negando com a cabeça.

“Estamos juntos nessa, né?” Ele concordou, olhando a jovem de forma admirada.

“Quem diria...” Ele pensou alto, e ela inclinou a cabeça como se aguardasse a continuação da frase.

“O que?”

“Quem diria que você entraria por aquela porta ontem e hoje estaríamos aqui, recuperando sei lá, dez anos de amizade em 24 horas?” Ela riu e concordou, encarando as mãos unidas.

“Quem diria... A gente curte uma intensidade, né?” E foi a vez dos dois rirem, enquanto se olhavam cúmplices.

          Ficaram um tempo assim, até que o toque do celular de Sakura começou a soar no ambiente, e ela soltou-se de Itachi para atender a ligação.

“Alô? Oi Ino! Sim, tudo bem... Sim, é verdade, choveu horrores mesmo. Não, está tudo bem, eu estou bem, não estou precisando de nada. Só esperando que essa chuva amenize para continuar a visitar minha velha cidade!” A rosada riu levemente, e Itachi sorriu minimamente enquanto a olhava perambular para um lado e para o outro, sua silhueta contrastando com a luminosidade da janela.

“Sim, tranquilo... Não, não estou exatamente na pousada, acabei visitando um velho amigo e por sorte dormi na casa dele ontem, aí to aqui e... Não!” Sakura exclamou com a testa franzida, e o rosto ficou vermelho. “Não, Ino. Não... Não... Tenho, né? Não. Não. Não... Ai cacete, vai continuar? Eu vou desligar! Vou sim! Tá bem. Tá sim. Uhum. Sim, tô só esperando isso passar pra voltar para a pousada. Tá bem. Ué, mas já? Tá bem. Tá. Não, Ino. Caralho Ino, não. Aff, vai à merda, cara. Tá, tchau. Também te amo. Tchaaaau!” E desligou bufando. Itachi sorriu ao imaginar o que tirava o prumo da rosada.

“Tudo bem aí?” Ele indagou, e Sakura se assustou, dando uma leve tremida ao virar-se para Itachi. Ela ficou encarando com a boca aberta e visivelmente não sabia o que responder.

“Você ouviu tudo?” Ela perguntou com a voz fina. Itachi deu de ombros, risonho.

“Bom, você não está num ambiente acusticamente isolado... Então...” Ele mexeu as mãos e sorriu amarelo. Sakura acenou e suspirou, dando de ombros e colocando o celular na bolsa.

“Era apenas Ino bancando a mãe e me enchendo de perguntas.” A rosada explicou, passando a mão na nuca e olhando a chuva do lado de fora da janela.

“Eu posso imaginar...” Itachi comentou com uma careta engraçada, realmente imaginando o conteúdo da conversa das amigas. Sakura pescou as suspeitas do Uchiha e se deu por vencida.

“Pois é, Ino tem umas coisas nada a ver na cabeça. Já saiu pensando besteira, que eu tinha dormido com você ontem.”

“Mas você dormiu.” Itachi cruzou os braços e apoiou o quadril na pia, sorrindo de forma irônica para Sakura, que largou os braços ao lado do corpo e olhou sem graça para o amigo, rindo levemente.

“Não nesse sentido... Ela achou que eu estivesse com você, entende?” E uniu as mãos, fazendo um gesto de vai e vem engraçado, que Itachi precisou se segurar para não rir.

          Decidiu brincar.

“Juntos? Mas estávamos juntos.” Ele se fez de desentendido e Sakura rolou os olhos e colocou as mãos na cintura.

“Não, Itachi, porra! Você tá de sacanagem comigo, né?” Ela perguntou com uma careta.

“Não, mas sua amiga pensa que sim.” Ele deu uma piscadela e antes que Sakura entrasse em ebulição, ele se dirigiu ao armário no outro canto da sala, rindo dela.

“Vou tomar um banho, você também quer?” Ele perguntou tranquilo, sem exatamente maldar o tom dúbio da pergunta.

“C-Como é?” Sakura perguntou com os olhos arregalados, e ele a olhou confuso e logo riu com a maior cara de tacho.

“Er, deixa eu reformular... Você quer tomar um banho? Eu vou agora, mas você pode ir depois. Não precisa ser junto, sabe? Não é um requisito.” Ele brincou e viu a amiga respirar aliviada, caminhando até onde ele estava.

“Sim eu quero, mas não tenho roupas.” Ela explicou, parando de frente para ele.

          Ele apontou para o armário, mostrando algumas ali presentes.

“Tenho um blusão xadrez que aquece bem, e umas calças de moletom. Umas meias perdidas... Serve?” E viu a feição dela tranquilizar.

“Tá ótimo! O blusão deve ficar um vestido em mim, então perfeito!” Ela exclamou enquanto ele mostrava a blusa xadrez quadriculada em vermelho e preto.

“Certo, tenho umas toalhas ali naquele outro armário, fica à vontade. Só vou ficar te devendo shampoo e condicionador, tudo bem?” Perguntou sincero e Sakura fez um gesto com a mão.

“Relaxa, eu lavei meu cabelo ontem. Tá suave.” E pegou uma mecha, fazendo uma espécie de bigode rosa – como se aquilo comprovasse sua fala. Itachi riu e bagunçou a cabeleira.

“Certo, eu já volto.” E se despediu momentaneamente, seguindo para o banheiro.

          Enquanto molhava a cabeça debaixo da água quente, Itachi refletia sobre todos os assuntos que compartilhara com Sakura. Pensou também sobre a vida e sua incrível capacidade de tornar viável encontros que há segundos atrás, pareciam impossíveis.

          Ao sair do box, limpou o espelho embaçado e percebeu que seu rosto estava mais suave, menos pesado ou carregado como nos últimos tempos. Ele sabia porquê, sabia também que estava se sentindo muito melhor desde que tivera o retorno acolhedor sobre sua sexualidade, de realmente poder contar com alguém que era praticamente família e que não julgasse ou discriminasse sua forma de ser feliz. Um sorriso estampou-se nos lábios ao pensar nisso, e ele sabia que motivo daquele misto de alívio com felicidade brincando no peito tinha nome e sobrenome: Sakura Haruno.


Notas Finais


E aí galeraaaaaaa! Sim, Itachi é bissexual.
Comentei nas notas do capítulo anterior que queria trazer uma itasaku porque foi niver dele no início do mês, não é? Então uni o útil ao agradável, por fazer uma fic de acordo com o tema do mês do @projetoharuno.

Acontece que cada vez mais venho pensando em como a representatividade importa em várias partes da nossa vida, porque toda e qualquer pessoa pertencente à um grupo tido como "minoria", precisa se ver, ser representada, ter a voz ouvida.
Sempre tivemos gays, lésbicas, bissexuais, assexuados, trans na nossa sociedade. Mas onde eles estão nas histórias que lemos, nas histórias que escrevemos?

Essa pergunta não requer uma resposta em palavras. Não somente; podemos agir, pontuar, pensar essas questões e o quanto precisamos estar em total diálogo pra tornar a sociedade algo mais justo, igualitário, um bom lugar de se viver - principalmente pra quem tem esse direito negado por preconceitos, racismos, fobias e afins.

Então desde o início pensei Itachi nessa configuração bi, e qual não foi a minha felicidade em lembrar que o dia 28 de junho é dia do orgulho LGBTQIA+? Nem sempre as coincidências são apenas isso, né? Pelo menos acho que o universo tava me dando uma mãozinha hehehehe.

E pra quem tem algum problema com isso, eu sugiro que procure ajuda, porque a forma que o outro busca ser feliz JAMAIS deveria ser algum problema pra você. Pega a visão, beleza?

Beijos de luz!


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