História Bruises - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Categorias Os Instrumentos Mortais
Personagens Alexander "Alec" Lightwood, Magnus Bane, Max Michael Lightwood-Bane, Rafael Lightwood-Bane
Tags Alec, Amor, Família, Magnus, Malec
Visualizações 182
Palavras 2.422
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Fluffy, Shonen-Ai, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Homossexualidade, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Yo!

"Se estiver doendo e for forte demais para segurar, chore e escreva, normalmente dá certo."

Boa leitura.

Capítulo 1 - Capítulo único


No espelho ainda tinha as marcas de seus dedos e os produtos virados ainda evidenciavam seus sentimentos. Aquela penteadeira, marcada pelo tempo, tinha tatas histórias guardadas quanto produtos de beleza despojados sobre ela. A madeira branca, já quase toda ruída, tinha um entalhe perfeitamente desenhado atrás, havia sido um presente e ele mesmo tinha marcado a penteadeira quando ela chegou.

- Papa?

A voz suave do pequeno Rafael lhe tirou do devaneio sobre o móvel antigo, abrindo um sorriso doce para o filho ao se virar, Magnus pisou, derrubando uma mínima quantidade do glitter sombreado nas pálpebras sobre suas maças do rosto.  Rafael se vestia como um verdadeiro cavalheiro, o terno brilhante e negro encaixado no corpo infantil, a gravata bagunçada, amarrada de um jeito desengonçado e os cabelos castanhos, bem rentes a nuca, lindamente penteados. Parecia um pequeno príncipe, preparado para uma noite de gala. Magnus preferia que fosse.

- Max também já está pronto?

- Sim, papa. – Ele esperava na porta, a permissão para entrar no quarto dos pais, havia sido ensinado assim desde a primeira infância e agora, com treze anos, sabia bem as ordens que deveria seguir. Magnus consentiu e ergueu a mão, chamando o filho para perto, Rafael entrou por fim, sorrindo pequeno, mostrando a falta que um dos dentes de leite fazia – Estou bonito?

- Como um príncipe – gracejou ao filho e se levantou. Olhando uma última vez no espelho, Magnus sorriu condescendente, não havia humor naquela manhã de quarta-feira. Unindo suas mãos com a do pequeno, o homem se retirou do quarto, encontrando o filho mais novo no colo de uma das amas. – Obrigada, Catarina.

Agradeceu de forma apática ao pegar o filho mais novo nos braços. Max Michael, tinha pouco mais de quatro anos. Os cabelos tão negros quanto a própria pele, os olhos ironicamente de um azul profundo, tão profundo que chegavam a quase ser roxos.  Usava um terno idêntico ao do irmão, diferenciando talvez, pela gravata arrumadinha e por um pequeno e lindo par de sapatos novos. Catarina assentiu ao patrão e observou os três saírem lado a lado. Algumas amas a olhara de lado e ela negou ao revirar os olhos.

- Por que tanto amor com essas crianças? – Catarina se virou e olhou a colega de trabalho – são mimados e pirracentos. Nos tratam como as mães que nunca vão ter. – ela fez um semblante de nojo ao passar as mãos pelo próprio e esguio corpo – faziam bem de ficarem no orfanato, não teriam de passar essa vergonha agora.

- Camille, cale a boca. – A mulher loira empinou o nariz com o tom de descaso usado pela outra – Não é porque você tem o ventre seco e nunca vai entender o que é ser mãe, que aquelas crianças não mereçam o amor. Estamos em um tempo de guerra, é sorte que elas tenham conseguido um lar.

- Com dois pais? – Havia nojo novamente e Catarina revirou os olhos, já se sentindo irritada com o assunto – são dois homens, criando crianças, Catarina. Isso é nojento.

- Acho que tem algumas vasilhas na pia, que tal ir lava-las ao invés de ficar comentando baboseiras rente aos meus ouvidos? – Ela piscou de forma leve e lenta e o rosto de Camille ganhou um tom levemente rubro – e se apresse, quando eles voltarem, tudo deve estar perfeito e você longe daqui. Aliás, se ouvir outra palavra deixar a sua boca, a farei engolir na base do tapa. Então se ponha para fora daqui.

Camille se foi rebolando o quadril farto e balançando os fartos cabelos loiros que lhes pendiam pelas costas. Catarina negou e olhou pela longa janela de vidro. O dia estava nublado e não tardaria a chover. As pequenas casas ao redor estavam abertas e muitos companheiros – homens e mulheres – cantarolavam alegremente o fim de mais um confronto. Seu patrão havia ido buscar o marido e Catarina apenas rezava para que os quatro voltassem para casa.

--

Magnus nunca fora adepto a caminhar por ruas estranhas, mas a opção que tinha no dia era essa, já que os dois filhos não precisavam ser alvo dos olhares preconceituosos da sociedade Londrina. O vento gelado correu o corpo dos três e Max se encolheu no colo do pai, causando riso no mesmo.

- Ainda falta muito para encontrarmos o papai? – Rafael perguntou e havia uma dolorosa esperança na voz infantil. – Estou com saudades.

- Estamos quase lá.

Era uma mentira, mas não precisava estafar ainda mais o filho. Caminhavam já fazia quase meia hora e ainda faltava bastante até chegarem ao aeroporto, onde enfim encontrariam Alexander. Ter um marido soldado nunca foi um dos planos de Magnus, mas quando seus olhos bateram contra os de Alec, naquela maldita rua, não pôde evitar a paixão. Quando o chamou para sair, achou graça na timidez na qual o rapaz havia aceitado. Casaram-se dois anos após aquele encontro, então, estavam juntos a bem mais de vinte anos.

- Promete?

- Eu já menti para você?

O menino aceitou a resposta e apertou ainda mais a mãozinha contra a do pai. Rafael chegou a vida deles quando o pequeno orfanato do subúrbio foi destruído. O pequeno havia vagado sozinho por mais de meses, até ser encontrado pelo casal, o menino tinha pouco mais de cinco anos e logo depois viera Max, filho de Catarina. A mulher, abandonada pelo marido ainda muito jovem, não tinha condições de criar o filho, então, pediu auxílio na casa do antigo amigo. Alec relutou muito em aceitar que a amiga de Magnus trabalhasse na casa, já que ela simplesmente poderia morar com eles se preferisse. Eram crianças bem cuidadas e alegres, mas mesmo assim, aos olhos da sociedade, não eram boas pessoas.

Caminharam pelo longo e estreito beco, o cheiro fétido do lixo descartado nas caçambas enjoava o estômago dos três, mas reclamação alguma foi proferida. Rafael sabia que os pais faziam de tudo para que ele e Max tivessem tudo, mesmo que eles não pudessem ir à escola ou fazer amigos. As pessoas tinham desprezo por eles e na primeira vez que o pequeno Rafael tentou criar um laço com um menino, quase levou uma surra.

- Não se aproxime do meu filho. Não quero sua sujeira na minha casa – a voz do homem o assustou – da próxima vez, eu te mato. Saia daqui.

Ele havia corrido e em casa, nos braços dos dois pais, chorado sua dor. Aos dez anos, um olho roxo e o preconceito contra sua família diferente era a culpada. Magnus sentia dor por seus filhos. Ele e Alec eram um dos poucos casais assumidos publicamente e apenas não haviam sido fortemente rechaçados, por causa das famílias influentes de ambos. Ainda que os sobrenomes os protegesse de retaliações mais violentas, não impediam os mais radicais de atacarem sua casa e seus locais de trabalho. Desde então, haviam contratado professores particulares para os pequenos e os enchiam de brindes, dos quais tentavam suprir a falta de amigos da mesma idade.

Alexander havia sido convocado a mais de dois anos para uma guerra que Magnus imaginou que nunca teria fim. Recebia cartas do marido, mesmo escassas, enviava notícias e fotos, mas nunca era o suficiente. No primeiro ano, se fizera de forte pelos filhos, continuava sorrindo e se divertindo, continuava como se seu marido não estivesse próximo à linha de frente em um campo de batalha, matando e vendo companheiros sendo mortos. Podendo morrer nesse meio caminho também. No segundo ano, porém, havia se trancado em seu próprio mundo e tornando-se mais amargo. Mal saia e seus filhos eram os únicos que conseguiam sorrisos curtos e palavras de conforto.

- Papa, meus pés estão doendo. – Rafael reclamou e Magnus parou, colocou-se de joelhos e olhou nos olhos de seu menino.

- Aguenta só mais um pouquinho, tudo bem?

Ele consentiu e balançou o pé. Se seu papa dizia que faltava pouco, então, era porque realmente faltava e eles estavam quase chegando, quase em Alec. Magnus se levantou e arrumou um adormecido Max em seu ombro, para então juntar a mão com a do filho e prosseguir. Ao longe, já conseguia ver mulheres e crianças espalhadas pelo longo pátio do aeroporto. Seria mais rápido um carro, mas Magnus não dirigia e o último taxista, os havia agredido, quando Max no meio de uma madrugada, deu uma forte crise respiratória. Eles haviam conseguido chegar ao hospital e Magnus tinha um corte longo nas costas, provocado pela faca do taxista. Eram uma família completa, porém limitada. Até o casamento, Magnus não se importava com os olhares das pessoas por suas roupas coloridas ou a maquiagem que usava, mas depois de Alec, tudo se tornou melhor e mais tenso. Pois tinham medo, medo de serem atacados quando estivessem andando na rua, medo de que a reputação dos dois acabassem, medo de que algum deles fosse ferido fatalmente. Tudo isso, por causa de uma sociedade hipócrita, onde homens deveriam casar-se com mulheres e as traírem nos cabarés durante a noite, onde mulheres deveriam sempre estar em casa, com o ventre na beirada da pia ou do fogão, com duas ou três crianças ao redor e a cabeça sempre baixa.

Quando Alec foi para a guerra, deixou uma flor e uma promessa de que voltaria e Magnus estava contando com aquilo. Ele não recebia cartas ou intimações dos quarteis, ele não sabia quando Alec retornava ou se estava bem. Então, sempre que ficava sabendo que soldados estavam retornando ao lar, arrumava-se e arrumava seus filhos e saia e esperava. Várias vezes havia voltado com suas crianças aos prantos, as vezes expulso do local por não ter ligação com ninguém. Era sempre escuro de saber, Alec poderia estar vivo ou morto, poderia chegar como um sobrevivente ou como um herói falecido.

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O gigante pátio estava lotado e homens andavam em fila, os uniformes amarrotados nos corpos e enormes mochilas. Magnus observava a cada um com expectativa. Já havia recebido olhares tortos, empurrões e expressão de desprezo, mas não se abalava. Rafael estava sentado em um banco de madeira, poucos metros deles, com Max sonolento ao seu lado. Ele tinha visão dos filhos sempre que olhava sobre os ombros.

- Acho que ele não vem. – Max levantou a cabeça para o irmão e bocejou, o pequeno mal dormia a noite por conta dos pesadelos. Apesar de Catarina ser bem apegada a criança o único que realmente conseguia acalmar as noites do pequeno era Alec e já fazia dois anos que ele não estava. – O que você acha, Max?

- Quelo papai... – sussurrou baixinho e bocejou de novo. Ambos olharam para o papa e Magnus parecia ainda mais inquieto. Estavam ali a duas horas e meia e não haviam recebido nada mais do que belas expulsões e mais preconceito.

Ter dois pais, ter olhos puxados, ter um irmão de pele negra. Rafael já havia sido menosprezado por muitas coisas em seus treze anos de vida e apesar de não se importar com os xingamentos e empurrões que – apesar de nunca mais ter dito aos pais, pois sabia que eles ficariam tristes – recebia na rua, ainda era doloroso e abria feridas. Mais do que seus joelhos ralados, mais do que os roxos no rosto de seu papa, mais do que as pichações nas paredes de sua casa. Era inseguro, mas não tinha medo, porque seus papais sempre faziam as feridas fecharem.

Somente três horas depois que Magnus enfim suspirou e desistiu. Não havia mais esposas desesperadas por seus maridos e nem mãe chorando por seus filhos mortos em combate. Magnus esperou ver, em cada rosto, em cada expressão e cada caixão que passou por ele, esperava qualquer notícia ou sinal de Alec, mas só encontrou o nada. Ele deu as costas para o pátio quase todo vazio e foi até os pequenos, Rafael já tinha os olhos cheios de lágrimas e Max chorava baixinho, escondendo o rostinho no terno do irmão, eles sabiam que o papa ficava triste também, então, tentavam mostrar que eram tão fortes quanto ele.

- Vamos embora meus amores. – Magnus estendeu os braços e Max desviou do irmão e foi para o colo do pai, soluçando baixinho. Rafael estendeu a mão e os dedos entrelaçaram. – Talvez na próxima?

- Papai não vai voltar. – Rafael soluçou e Magnus parou de andar, os próprios olhos fitando o nada. Eram dois anos e não havia notícia nos últimos oito meses. Ele tentava se agarrar a uma esperança falha e que não suportaria viver.

- Claro que vai. De onde você tirou isso Rafe? – Mas a criança não respondeu. As lágrimas correram forte pelo rosto de Rafael e ele soltou da mão de Magnus – Rafe? – Estranhou, o menino então correu, Magnus se levantou e se virou com pressa, vendo para o lado que o filho corria.

- PAPAI.

Ouviu o grito e então viu o menino saltar para os braços de um homem alto e forte. Com uma mochila enorme e o rosto pálido e abatido. Alec. Seu Alexander, que ignorando tudo ao redor, jogou a bolsa no chão e abriu os braços para acolher o filho que não via a tanto tempo. Magnus apressou passo, Max ainda chorava baixinho, tinha os olhinhos fechados e não tinha visto o pai.

Olhos profundos e azuis, ataduras espalhadas pelo rosto, um sorriso frouxo e mãos trêmulas. Era Alec e ele chorava abraçado ao filho e Magnus pensou que tudo poderia acabar ali, pois seu marido estava vivo e estava voltando para casa. Para eles.

- Alexander...

Com Rafael no colo, Alec se ergueu, as lágrimas manchando o rosto branco. Parecia não ter voz para falar nada. O peito doía de forma acelerada e Magnus deu um curto passo a frente, se inclinando e dando um selinho demorado no marido. As próprias lágrimas manchando o rosto.

- Você voltou papai.

Rafael sussurrou apertando mais o abraço ao redor de Alec. O soldado fechou os olhos e da forma mais desengonçada do mundo, abraçou os três amores de sua vida. Max, com o rosto ainda molhado, esfregou-se contra o pescoço dele, sentindo o perfume que tento lhe acalmava. Magnus pode suspirar de alivio ali, entre os braços de seu Alec.

Eram uma família pequena e isolada. O preconceito os fazia refém diariamente, mas enquanto estavam juntos, nada mais importava. A sociedade que engolisse os Lightwood-Bane, porque eles eram felizes com o pouco de aceitação que tinham, mas ainda mais felizes por terem um ao outro. Sem feridas, sem dor, apenas eles. Um abraço quente. E gotas finas da chuva que finalmente começava a cair.


Notas Finais


Também escrevo sobre amor, não vivo só de tragédia.

Obrigada


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