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  3. 03 de Setembro

História Bruxaria - Capítulo 1


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Notas do Autor


Isso era para ser uma one-shot de presente para meu anjo @Park-Hyung-Jae mas a ideia saiu fora de controle e ela terá três capítulos ksks
Fic baseada naquela conversa que a gente teve quando, de acordo com aqueles testes que eu fiz, eu consegui Bruxo duas vezes seguidas e você conseguiu Bruxa e Camponesa, e inventamos uma mini história de como isso veio a acontecer.
Saiu bem diferente do meu plano inicial (eu tinha a ideia de que Richie já teria séculos de idade, e Eddie já tivesse uns vinte mas ainda fosse incomodado pela mãe), mas eu não consegui escrever ela e antes que notasse, essa versão já tinha cinco mil palavras e não estava terminada :)
Aviso: Richie já é de maior, mas Eddie não é e isso é citado na história. Nenhum romance nesse primeiro capítulo porque Eddie só é de maior na última seção, e ele literalmente acabou de se tornar de maior!!! >:( Mas nos próximos capítulos eu vou começar a explorar o romance entre eles.
Enfim, espero que seja uma experiência legal ler essa fic, e não posso prometer quando o próximo capítulo sai skksks :D

Capítulo 1 - 03 de Setembro


2000

Richie olhou para a casa ao lado, vendo o garoto de quatorze anos emburrado no meio de uma comemoração em família.

O garoto era Edward, ou como preferia ser chamado, Eddie. No momento, usava uma camisa polo e um short (aquilo era um pouco curto demais para ser chamado de bermuda), como sempre.

Desde que se mudou quando tinha dezenove anos, Eddie tinha uma vida meio melancólica, em seu ver. A mãe dele só o deixava sair se fosse para ir à farmácia ou para a casa de Bill (mas eles geralmente iam a uma pedreira que ficava próxima ao esgoto da cidade; Richie não via o charme do lugar, mas entendia quando olhava do ponto de ver de um garoto, principalmente de alguém isolado do mundo como Eddie).

Richie apenas era viável à visitas porque morava na casa logo ao lado, e sempre ficava com o garoto na varanda. Se ficasse no quintal ou dentro de casa uma única vez, sabia que o mais novo seria proibido de o visitar. Então, resolveu suavizar sua rebeldia um pouco, ao menos quando na frente da mãe do garoto.

— Eddie! – Ele chamou, acenando para o garoto que imediatamente olhou para ele. – Quer uma leitura de tarot? – Perguntou, sorrindo.

— Você tá querendo roubar da mãe do menino? – Uma tia do garoto entrou na conversa, cerrando os olhos na direção do jovem adulto. Richie não perdeu o sorriso enquanto negava com a cabeça.

— Todas as sessões do Eddie e da Senhora Kaspbrak, se ela algum dia desejar, são gratuitas. Seja uma breve leitura ou algo mais longo. – Disse, apoiando-se na cerca que dividia os dois lugares. Era nesses momentos que Richie se considerava burro de não ter ido atrás de alguma magia que o ajudasse a convencer pessoas; mas aí lembrava que a maioria delas eram proibidas e provavelmente cagariam com a imortalidade dele. E as não proibidas eram complexas demais para ele se importar em aprender. E ele ficaria preso apenas com esse tipo de magia. – Mentira ou verdade, eles não perdem nada. Talvez até se divirtam um pouco. – Riu levemente, apesar de não gostar que duvidassem de tarot, sabia que haviam pessoas usando-o apenas pelo dinheiro. A senhora Kaspbrak pareceu analisar um pouco a situação.

— Richard, poderia trazer o seu material para cá? Eu não quero que meu querido Eddie saia de casa, então se pudesse fazer a leitura dele aí pela cerca, ou aqui em casa, seria melhor. – Ela disse, e Richie celebrou mentalmente por seu poder de manipulação não ser realmente mágica, e ter conseguido a confiança dela sem desapontar ou fazer Eddie pensar que era mais um dos adultos chatos.

— Eu vou fazer aqui pela cerca, então. Não quero invadir muito mais uma celebração em família, Senhora Kaspbrak. – Sorriu, indo para a varanda e escondendo o seu pacote de cigarro em um dos bolsos, ou perderia todo o progresso que fez. Pegou a mesa e a colocou entre a parte da cerca em que Eddie já o esperava com uma cadeira por perto. Assim que isso foi feito, foi atrás de sua própria cadeira e, então, o seu deck de tarot, Cat's Eye.

Se sentou, e começou a arrumar as cartas pela mesa.

— Obrigado por me tirar de lá. – O adolescente sussurrou.

— De nada. Parecia ser sufocante estar por lá, claro que eu tentaria te salvar. – O bruxo de quase vinte e um anos disse. Olhou ao redor e sussurrou. – Como foi na pedreira, ontem? – Perguntou, e os olhos do mais novo arregalaram levemente.

— Era tão óbvio assim? – Perguntou, um leve medo em seus olhos e o jovem adulto logo negou.

— Eu só tenho meu jeito de saber das coisas. – Riu levemente. – Que tipo de leitura você quer fazer hoje? – Perguntou, um leve sorriso no rosto.

— Hm… – Ele murmurou algumas coisas ininteligíveis, antes de chegar a uma conclusão. Richie esperou pacientemente. – Felicidade…?

— Okay! – Sorriu, olhando para as cartas espalhadas.

Apesar de Richie gostar de fazer leituras de tarot, ele tinha que admitir que suas leituras não eram as mais precisas existentes. Elas eram bem amplas, na verdade; Richie às vezes esquecia os significados completos das cartas e, em algumas situações, duvidava se o número de cartas que pediu estava certo. Mas, bem, essa não era uma sessão paga e Eddie disse que não acreditava 100%, mas era divertido e gostava de pensar na possibilidade da leitura estar correta.

— Três cartas. Pode levar o tempo que quiser, mas lembre-se que quanto mais você se basear no seu instinto ou na carta que parece, bem, sentir ser a correta, maior a probabilidade da leitura ser mais precisa. – Disse, e Eddie assentiu. Começou a pegar as cartas, um sorriso tomando conta do seu rosto quando viu o desenho de gatos nas cartas.

Valete de Copas, Valete de Paus e a Imperatriz.

— Hm… – Olhou as cartas, e por alguns momentos se perguntou se iria com a interpretação da Imperatriz mais próxima de como geralmente é, ou como ele interpreta diante da situação e da vida do garoto a sua frente. Resolveu ir com a segunda, pois sentiu que era a correta. (Talvez devesse ir visitar Beverly mais vezes, ler tarot era basicamente a especialidade da jovem bruxa).

— O que significa? É algo ruim? – Perguntou rapidamente. – Eu não tirei nenhum reverso, acho que isso é uma coisa boa. Não que eu saiba, já que não sou eu que tô lendo tarot. – Continuou, e Richie riu levemente.

— Não se preocupe. Bem… – Seu tom de voz era baixo quando continuou, os resultados o levando a acreditar que seria melhor isso ser um segredo. – O Valete de Copas indica que você é alguém sonhador, mas isso te faz meio desconectado a realidade. Você pode ser facilmente levado a fazer uma decisão sem a querer por meio de alguma força exterior, uma imagem autoritária no seu caso, provavelmente.

– O Valete de Paus me indica que você precisa coletar algumas informações para atingir a felicidade que você tanto deseja. Você tem que aprender a deixar de lado fazer tudo o que lhe dizem a fazer, e achar as informações para que consiga se impor. A Imperatriz… – Lambeu os lábios, se perguntando como explicar isso. – Nessa situação específica, me faz acreditar que o seu maior obstáculo será essa figura autoritária. Após esse obstáculo ser ultrapassado, você encontrará liberdade e a felicidade que deseja.

Ficaram quietos por alguns segundos.

— Você tá me dizendo para eu me rebelar contra minha mãe?

— Eu não tô dizendo isso. As cartas que você escolheu estão dizendo algo que pode ser interpretado como isso. – Meio que corrigiu, porque foi exatamente desse jeito que interpretou as cartas e foi essa mensagem que queria passar. – No final, as cartas têm seus significados e eu passo eles a você. A interpretação final e o que fazer com essas mensagens caem como sua responsabilidade. E você não precisa fazer nada se não quiser, elas são como conselhos. Você pode os ignorar ou seguir. – Terminou, e Eddie apenas assentiu, parecendo pensar por um tempinho. Richie lhe concedeu tal tempo, e quando olhou para trás de Eddie, viu a figura de senhora Kaspbrak se aproximando, sorriu instantaneamente, e ela sorriu de volta, ainda que muito mais restringido.

— Olá, Richard. – A mulher acenou com a cabeça e logo levou sua atenção ao adolescente. – Eddie-bear! Está gostando da sessão de tarot?! – O abraçou por trás com seu braço livre e perguntou docemente, tão meloso que Richie acredita que ele pegaria diabetes se seu corpo permitisse que isso acontecesse.

— Sim. É divertido ver o significado das cartas. – O garoto disse, seu nariz contorcendo levemente, assim como sua expressão, mas tentou não mostrar.

— Hmm… E o que isso aqui quer dizer? – A mulher perguntou, a bandeja em sua mão direita aparentemente esquecida.

— Tá me dizendo como eu posso ser… mais feliz. – Disse, olhando ao Richie para pedir ajuda, provavelmente caso a mulher perguntasse como ele poderia alcançar isso.

Para o alívio de ambos, ela não perguntou.

— Hm… – Olhou as cartas, e o bruxo sentia que ela estava olhando com julgamento, mas ele resolveu ignorar. – Bem, eu trouxe duas saladas de frutas para vocês dois. Não quero que Eddie fique sem comer os nutrientes dele, principalmente nesse dia especial. – Ela disse, finalmente fazendo uso da bandeja em sua mão e colocando os potes com a sobremesa na frente de Richie e Eddie, não os colocando em cima de suas cartas (ainda bem).

— Muito obrigado, senhora Kaspbrak. Não era necessário trazer um para mim também, então agradeço. – Se esforçou para manter a imagem de menino bonzinho, ou Eddie teria uma pessoa a menos para sair. Ela apenas assentiu com um sorriso de boca fechada, finalmente retornando à mesa com vários convidados. – Ei, Eddie, por que mesmo que todos da sua família estão aqui? – Perguntou, apesar de já saber da resposta, e Eddie pareceu hesitar.

— É meu aniversário. – Disse, movendo sua atenção para a barra de seus shorts, pegando e brincando com a costura que não era perfeita. Richie apenas murmurou um longo "hmm", mastigando as frutas em sua boca. O mais velho olhou ao redor e abriu a gaveta de sua mesa redonda, tirando de dentro uma caixinha. Colocou na mesa e empurrou na direção do garoto, que olhou para o bruxo assim que a caixinha estava em sua linha de visão.

— Feliz aniversário, Eddie. – Sorriu, indicando com sua mão para ele abrir o presente. O garoto hesitou, mas abriu a caixinha, e um sorriso espalhou pelo seu rosto enquanto pegava o conteúdo.

Era um cupcake. Era um que Eddie queria muito experimentar, mas sua mãe não deixava.

— É melhor você comê-lo antes que algum deles note. – Disse, apoiando seu cotovelo na mesa, e seu rosto em sua mão, depois de juntar todas as cartas novamente e as colocando em seu devido lugar.

— Como você sabia que eu queria muito experimentar esse em específico? – Perguntou, sussurrado, finalmente mordendo o doce.

— Um mágico nunca revela seus segredos. – Riu levemente, colocando mais da salada de frutas em sua boca. Até que não era nada mal.

Passaram o resto da tarde conversando mais um pouco. Eddie não agradeceu pelo cupcake, mas Richie não se importou com esse pequeno detalhe.

2001

— Então, eu até tentei. – Richie disse, colocando três pratos na mesa. Beverly arqueou uma sobrancelha ao notar isso. – A coisa é que senhora Tozier realmente não quer saber de me ver até que eu esteja ligado a algum outro bruxo ou bruxa. Ela não quer saber dos meus sentimentos por Stanley, já que ele nem sabe que bruxaria existe, e é judeu. Minha mãe, por algum motivo, acha que todos judeus são radicais e querem queimar bruxas, ou algo assim. – Disse, se afastando da mesa para ir até a sala de estar. – Eu discordo, é claro.

— Uhm, Richie, você- – Antes que Beverly o avisasse que ele colocou um prato a mais, o bruxo abriu a porta revelando um garoto que, assim que viu Richie o esperando, bufou. Um sorriso espalhou no rosto do jovem adulto e Beverly se perguntou quem era a criança.

— Eu não acredito que você soube que eu estava vindo. De novo! – Eddie reclamou, e Richie riu.

— Eu até coloquei um prato a mais. Não é, Beverly?! – Consultou, virando na direção da cozinha. Bev assentiu, e os olhos de Eddie arregalaram.

— Ah, eu não queria interromper nada, se-

— Você não tá interrompendo nada. – Richie abanou as preocupações do garoto como se fosse uma mosca. – Bev é quem me ensinou a ler tarot e veio me visitar porque ela se mudou para cá.

— Se mudar para Derry? Você e sua amiga realmente são estranhos. Não tem nada de interessante aqui. – O garoto reclamou, e os dois bruxos se olharam.

É por isso mesmo que aqui é o melhor lugar para nós, no momento.

— Enfim, eu já coloquei o prato para você, então vem jantar com a gente. Conhecendo a Bev, ela vai "desmentir" todas as histórias que eu te contei sobre mim, mas não acredite nela. – Disse, e dessa vez foi Bev que riu.

— Tenho certeza que você contou de modo que parecia que você é o herói da nação, ou algo assim. Eu nem vou me importar de desmentir essas porque o garoto já deve saber que você não é nada como isso. Eu posso contar uma histórias constrangedoras no lugar, que tal?

O jantar passou rápido, os seus dois convidados (os dois que se convidaram, mas ele relevou esse pequeno detalhe) rindo enquanto ele finge estar ofendido pelas histórias.

Depois da janta, Richie entregou um cupcake para o garoto.

— Feliz aniversário. Desculpe não poder aparecer lá para te salvar, mais cedo.

O garoto de quinze anos apenas abanou a mão, ignorando o vermelho que tomava seu rosto, sussurrando um “obrigado”.

Assim que ele comeu seu cupcake, Beverly interrompeu o quase-silêncio da casa, algum show desinteressante passando na televisão.

— Eddie, você quer aprender a ler tarot?

2002

— Richie, eu nunca perguntei quantos anos você tem. – Eddie notou, e Richie apenas murmurou, sem nenhuma resposta. Eddie revirou os olhos. – Quantos anos você tem?

— Fiz vinte e dois uns meses atrás. – Disse.

— Você é velho.

— Não sou, não. E admite, eu pareço ser mais novo. – O bruxo disse, rindo levemente, apenas olhando as cartas. Era estranho ver o deck Quick and Easy novamente, que o mais novo insistia em usar. – Sabe que se ficar usando esse mesmo deck não vai dar para notar se você memorizou tudo, né? Já faz quase um ano desde que você começou a aprender a ler tarot.

— Eu não tenho nenhum outro deck. Você me deu esse quando estava começando e resolvi continuar usando esse, mesmo. – O outro deu de ombros, e Richie sorriu, grande. Era sua deixa. – Você não vai-?

Estendeu sua mão à gaveta da mesa e a abriu, tirando de lá um deck novinho em folha. Era o deck Deviant Moon; o jogou na mesa, e os olhos de Eddie arregalaram.

— Feliz aniversário. Eu achei que combinaria contigo porque apesar de você estar chegando na idade chata que todo adolescente insiste que é adulto, você não se incomoda com sua criatividade fértil. Ou algo assim. Minha memória é tão ruim que nem lembro direito porque acreditei que esse deck combinaria contigo, apesar das imagens que alguns considerariam, sei lá, bizarras?

— Obrigado, Richie! – Ele sorriu, e Richie voltou a relaxar.

— Acho que é hora de tirar essas cartas da mesa e colocar Deviant Moon em uso, huh? – Richie disse, e Eddie assentiu rapidamente, juntando todas as cartas. – Inclusive, por que quer fazer uma leitura minha? – Richie perguntou, vendo Eddie guardar as cartas, e misturando as do novo deck.

— Bill me pediu para fazer uma leitura dele.

— Vai cobrar?

— O quê? Não! Ele é meu melhor amigo. E eu não sei quão confiante eu estou na minha leitura ser precisa. – Disse. – Ainda mais agora que me deu um deck novo em cima da hora. Esse não tem nenhuma ajudinha. – O garoto suspirou, afundando na cadeira, e Richie riu.

— Mas você faz leituras próprias várias vezes, né? E você já fez leituras minha e da Bev. – Tentou o animar, pegando uma carta do deck.

— É, mas vocês podem me corrigir. O Bill, não. – Disse, e depois corrigiu sua postura, vendo Richie tirar outra carta. – São 10 cartas no total… Né? – O garoto perguntou, e Richie sorriu, um brilho travesso em seus olhos.

— Não sei, Eddie. Você que tá fazendo a leitura. – Riu levemente, e o garoto bufou, mas um pequeno sorriso começava a se formar em seu rosto.

— Pegue mais oito cartas. – Instruiu, e Richie logo fez isso. – Você pensou na pergunta enquanto misturava, né? Ah, eu já me arrependo disso.

— Você que sugeriu essa leitura, Eddie, mas ok. E sim, eu pensei. – O bruxo disse, sua postura relaxada não revelando o quão tenso estava.

Olha, Richie não acreditava cegamente nas cartas. Sabe que as respostas podem mudar de acordo com o humor e o quão em sintonia ele está com seus instintos. Mas, sabe, ele anda com medo de fazer leituras quanto a sua vida amorosa há umas semanas. Porque na maior parte do tempo, as cartas estão certas, em sua experiência.

A última carta na mesa, Eddie olhou para todas, respirando fundo. Richie não queria olhar para as cartas.

— Você não vai olhar as cartas? – Eddie perguntou, e Richie negou.

— Você que tá fazendo a leitura. Eu quero ouvir a sua interpretação. – Jogou a meia verdade. Eddie sorriu e assentiu, e Richie momentaneamente se sentiu culpado por mentir. E então, Eddie começou a leitura.

Richie ouvia atentamente, e cada carta nova que Eddie lia, mais ele sentia o pavoroso sentimento de estar certo se instalando em seu estômago. Ele suspirou assim que a leitura terminou. Bem, ele já queria tomar tal decisão, mas as cartas foram o empurrão de coragem que precisava; que ele sabia que teria, e era por isso que já fazia um tempo que evitou leituras próprias.

— Você acha que tá certo…? – Eddie perguntou após alguns segundos de silêncio. Richie assentiu.

— Tudo certo, capitão. – Disse, e Eddie sorriu. Mas logo o sorriso sumiu.

— Se está certo… Tá tudo bem, Richie? – Eddie perguntou, e Richie só abanou a questão.

— Eu já imaginava que o resultado seria algo parecido a isso com a minha pergunta.

— Richie…

— 'Tá tudo bem, eu juro. Você tem que ir para a casa do Bill, né? Vai lá e me conta como que foi. Sua mãe vai vir te chamar logo se tu não for agora, você sabe, né? – Disse, e Eddie logo deixou suas preocupações de lado e pulou a cerca voltando para a casa dele, pegando tudo o que necessário, incluindo o novo deck de tarot.

Alguns minutos depois, quando Eddie sumiu de vista em sua bicicleta, Richie foi fazer uma chamada em seu novíssimo SE P800.

— Ei, Stanley, tem como a gente se encontrar daqui alguns dias…?

2003

— Você se lembra da leitura que fez para mim quando tinha acabado de comemorar quatorze anos? – Eddie perguntou, uma maçã em sua mão que ele já segurava fazia alguns minutos e nada dele morder.

— Sim. – Disse.

— Você acha que ainda vale? – Ele perguntou, finalmente começando a comer a maçã.

— Talvez? Se você sente que ainda tem mais felicidade que você possa alcançar, pode ser que sim.

Eles ficaram em silêncio por alguns momentos.

— O que você acha que é a informação que eu tenho que achar? – Ele perguntou, um quase sussurro.

— Eu não sei. – Mentiu, imagens vívidas de um Eddie de dezoito anos confrontando sua mãe sobre seus remédios serem placebos e sobre a sua atitude com ele passando em sua mente. – Mas eu acho que vale a pena continuar procurando.

— Tem certeza?

— Não. – Mentiu novamente, dando de ombros. Olhou o horário em seu celular e se levantou.

— Onde você 'tá indo? – O mais novo perguntou, se virando na cadeira para seguir o mais velho com os olhos o máximo que podia.

— Para dentro. Já volto, ok? Rapidinho. – Foi para o "meio-que-porão" da casa. Não era realmente um porão pois não ficava em baixo. Pegou uma caixa mediana e saiu dali, fechando a porta com uma simples recitação, suas mãos cheias. Foi para fora. – Feliz aniversário. – Colocou a caixa em cima da mesa, se sentando ao lado do garoto de dezessete anos e tirando seu pacote de cigarros do bolso de seus jeans. – Acho melhor você abrir esse dentro de casa ou, conhecendo sua mãe, ela não vai deixar você o levar. – Disse, jogando o pequeno pacote para cima e o deixando retornar a sua mão. O garoto apenas suspirou e assentiu, se levantando do seu lugar.

Assim que Eddie entrou em sua casa, Richie estava pronto para pegar um cigarro e começar a tragá-lo, até que recebeu uma chamada no celular. Cerrou os olhos, não acreditando no nome que aparecia. Aceitou, imediatamente colocando o celular na orelha.

— Mãe?

2004

Richie estava sentado no chão, olhando todas as caixas em volta de si; suspirou.

— Ah, eu odeio essa porra. Se mudar é uma merda. – Reclamou para ninguém em específico, se jogando no chão, finalmente deitado.

Alcançou seu pacote de cigarros, logo levando um a boca e o acendendo, guardando o resto do pacote e o isqueiro. Sinceramente, já fazia um tempo que Richie não se importava de fumar dentro de casa, mas evitava o fazer porque sabia que Eddie o visitaria e o cheiro talvez ficasse impregnado nos móveis e nas paredes e no chão e Richie sabe-se lá mais onde.

Bem, pelo menos ele não teve que empacotar tudo a mão. Nunca agradeceu tanto sua telecinese.

Richie olha para o relógio. Quatro da tarde. A campainha toca. Richie se levanta, confuso, até a porta. Eddie está do outro lado.

Hey- Espera... ‘Tá tudo empacotado? – Eddie perguntou, olhando a sala de estar do mais velho.

Sim, eu vou me mudar de cidade amanhã. ‘Tava só esperando seu aniversário.

Richie suspira, olhando para o relógio. Três e quarenta e cinco. Até hoje, Richie não entende seus poderes como Oráculo, e já desistiu de tentar controlar quando e sobre o que ele é informado. Às vezes vê anos, meses ou dias no futuro. Outras vezes vê alguns minutos (às vezes até segundos!) no futuro, e sobre algo nem um pouco importante. E ele não consegue ter essas visões conscientemente; a esse ponto ele já desistiu de as limitar, não tem muito porquê. Mas bem que ele podia usar isso quando quisesse, né?

— Queria ter nascido como bruxo cósmico, mas não, tenho que ser a merda de um bruxo oráculo. Pelo menos eu ainda tenho a telecinese. – Murmurou.

O bruxo se levantou e foi para a varanda, se jogando na cadeira. A cadeira e a mesa ficariam aqui. Se o Eddie quisesse (se bem que, por que que ele iria querer essas coisas?) ele podia ficar com elas, mas Richie não vê muito motivo para levar. Alguns minutos passam e Eddie realmente sai da casa dele, indo em direção ao adulto com um sorriso.

— Hey, Richie.

— Hey. – Acenou, mão esquerda tirando o cigarro da boca e o amassando no chão. Eddie contorceu o rosto.

— Eu não gosto muito de cigarros, mas não precisa parar toda vez que me vê. – O garoto- adolescente- adulto? O jovem. É, o jovem de dezoito anos disse, se sentando ao lado do mais velho, que deu de ombros.

— Você tem asma, né? Não quero arriscar. – Falou, fingindo não saber que é uma mentira. Eddie ficou quieto, afundando seu rosto nos seus braços cruzados que estavam apoiados na pequena mesa circular branca (que já tinha começado a perder a tinta um tempinho já, a cor escura da madeira aparecendo em algumas partes). – O que foi, Eddie?

O jovem ficou em silêncio por mais alguns segundos, antes de sussurrar algo. Já seria difícil escutar normalmente, mas os braços dele abafavam sua voz ainda mais.

— Eu não consegui te ou-

— Eu não tenho asma. – Ele disse, levantando a cabeça de onde havia a apoiado, olhando diretamente ao mais velho. Richie fingiu surpresa, e confusão. – Minha mãe mentiu para mim sobre essas coisas. – Ele disse, voltando a esconder seu rosto em seus braços.

— Hmm… – Olhou na distância. – E você não vai confrontar ela sobre isso?

— Huh?

— A sua leitura. No seu aniversário, em 2000. – Richie lembrou. – Você poderia deixar passar, mas acho que você só se sentiria liberto e feliz se a confrontasse sobre isso. Tipo, você tem dezoito anos agora, e tal, mas não acho que isso te liberte disso com ela? Eu nunca passei por algo parecido, então é só um palpite quando eu digo que ignorar isso só porque alcançou a maioridade não vai te satisfazer. – Disse, tirando sujeira debaixo das suas unhas, que já estavam ficando meio longas, da mão direita com a unha de seu dedão. Ele tem que as cortar logo, não sendo do tipo que as rói; deixou um leve "tsk" sair quando pensou nisso.

Quando deixou de ser distraído pelas suas unhas, notou que Eddie o olhava. Arqueou uma sobrancelha, a questão óbvia, sem necessidade de ser falada.

— Você não parece realmente surpreso. – Notou, e Richie não sabia como responder.

Hora de inventar qualquer besteira para responder essa questão.

— Bom, eu não me surpreendo muito porque é bem do caráter da senhora Kaspbrak. Fingir que você tem uma doença para te tratar como frágil, digo. Eu nunca cogitei a ideia, – mentiu, já que sabia há anos por ser um oráculo – mas agora que ela foi colocada na minha frente... É, ela faria isso. – Deu de ombros. – Não que seja certo.

Eddie apenas assentiu, olhando para longe. E ele pareceu finalmente notar a grande placa que dizia “vende-se esta casa” em letra maiúscula e negrito. Ele, mais rápido que Richie viu Eddie fazer algo, virou a cabeça para Richie, que deu de ombros.

A resposta pareceu não agradar o Eddie, que resolveu dar voz à sua pergunta como se o motivo que recebeu uma resposta meia boca tenha sido que Richie não entendeu a questão.

— Você vai se mudar?

— Sim.

— Quando? – Ele franziu as sobrancelhas.

— Amanhã.

Os olhos de Eddie se arregalaram, a indiferença de Richie parecendo deslocada nessa situação.

— E você não pensou em me avisar?

— A placa tá ali já faz um tempo. Não é minha culpa que você pula a cerca para vir me visitar e nunca vê a frente.

— Mas você podia ter me avisado! Eu nem tenho seu número! – Nisso, Richie deu de ombros. Eddie bufou.

O bruxo suspirou, pegando um cigarro do pacote em seu bolso e o acendendo, guardando as coisas de novo. Tragou, antes de tirar o cigarro e soprar a fumaça para fora de seus pulmões. Ele respirou fundo e disse:

— Bem, eu não vejo grande coisa nisso, Eddie. – Falou, e Eddie bufou mais uma vez, olhando para o lado. Richie basicamente podia ver as engrenagens girando dentro de sua cabeça, e se perguntou se o vermelho no rosto do mais novo vinha de sangue subindo no rosto (para o cérebro?) para ele pensar melhor. Ou algo assim. Richie falhou ciências e nunca gostou de biologia, química ou física, em qualquer um dos três campos que isso caísse. Provavelmente biologia. É, provavelmente. O bruxo tragou o cigarro de novo.

Alguns segundos de quase-silêncio passaram, alguns cachorros latindo, uns carros passando e a expiração profunda de Richie toda vez que exalava fumaça interrompendo qualquer chance existente de total silêncio. Momentos? Minutos? Richie não se importa de marcar o tempo, não é como se fosse morrer até que daqui milênios ele seja atropelado ou morto ou algo assim. Talvez antes. Talvez ele morresse em um acidente de carro amanhã quando fosse se mudar e sua imortalidade acabasse não prestando para nada. Bem típico da sorte do Richie. Talvez ele morresse ano que vem se o que a mãe dele disse fosse verdade. Malditas bruxas de mau temperamento.

— Você – Eddie começou a falar, e Richie imediatamente mudou seu foco para ele, – pode me levar com você? – Ele parecia receoso, olhando para baixo e algo em seus olhos que Richie não conseguia identificar. O bruxo olhou para ele por alguns momentos, que fez o jovem olhar para ele.

Richie deu de ombros.

— Se você quiser, claro, você pode vir. – Disse. – Você é de maior então isso não será considerado um sequestro ou fuga. Ou algo assim. Nunca pesquisei muito. Mas quase certeza que se seu aniversário não tivesse chegado quando fosse me mudar, eu seria preso. Eu acho. Talvez. – Richie contorceu o rosto. – Meh. Do que importa? Você é de maior então não importa o que aconteceria se você fosse comigo sendo de menor. Pode ficar à vontade para se juntar comigo no meu carro amanhã de manhã.

Eddie apenas assentiu, pensativo.

— Para onde a gente vai ir?

— Você fica sabendo se aparecer amanhã para ir comigo. – Eddie apenas assentiu. Richie acha que provavelmente ele seria considerado burro por só ir nessa. Mas Richie é burro também, e se dissesse isso ele pareceria perigoso. Do que importa?

— Que horas que tenho que estar preparado?

— Eu vou estar saindo oito da manhã em ponto. Se quiser sair de sua casa correndo após discutir com sua mãe, eu sugiro marcar essa discussão bem perto do horário de saída para você não ter que ficar na mesma cidade que ela por muito mais tempo. – Disse, e Eddie riu, assentindo. A risada logo se tornou sem humor, notou.

— Eu realmente vou estar vazando de Derry amanhã, huh? Finalmente.

— Se aparecer à tempo. – Richie sorriu ladino, e Eddie o empurrou com o ombro, um pequeno sorriso, quase imperceptível, em seu rosto.

Os dois ficaram em silêncio por mais um tempo antes de Eddie levantar com um suspiro.

— Acho que eu tenho que empacotar umas coisas, né? – Era uma pergunta retórica, mas Richie respondeu mesmo assim.

— Só o que você precisar e quiser levar. A viagem leva uns três dias, então acho melhor ter pelo menos três mudas de roupa, mas se não quiser levar mais nenhuma e só comprar novas lá, de boa.

— Mas eu não tenho dinheiro. – Eddie olhou para ele. Richie piscou, como se o que Eddie estivesse retrucando não fizesse sentido. Quando Eddie arqueou a sobrancelha, Richie finalmente respondeu:

— Mas eu tenho.

Eddie só olhou para Richie por alguns momentos, antes de redirecionar seu olhar e seu rosto começar a ficar vermelho. Por que ele estava envergonhado?

— Eu não quero ser um fardo.

— São só alguns dólares. Lá onde a gente vai, roupas são baratas para um caralho. – Richie deu de ombros, e o mais novo apenas riu levemente, balançando a cabeça.

— Como você sabe disso?

— É a minha cidade natal. – Disse, e Eddie apenas assentiu, um pequeno sorriso no rosto.

— Enfim, eu tô indo empacotar algumas coisinhas e colocar coisas numa mochila, também. Até amanhã. – Eddie disse, acenando.

— Até. – Acenou de volta.

Assim que Eddie estava dentro de casa, Richie deixou sua cabeça cair para trás, olhando para o teto.

Se Eddie chegar a tempo, ele vai ter que achar um jeito de contar para ele que é um bruxo. Richie suspirou. Pelo menos ele tem três dias de viagem para fazer isso.

O bruxo voltou para dentro de casa, se jogando na cama e colocando um despertador para sete e quinze da manhã.


Notas Finais


Uhh... Eu usei tarot na fic mas eu não sei muito sobre. Eu acho que escolhi as cartas certas para passar a ideia?
Se alguém sabe de tarot, por favor, me corrija. Eu genuinamente quero aprender a ler tarot, também skskks


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