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História Bubbline - A Vida Como Ela É - Capítulo 3


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Notas do Autor


Lamento a demora, mas fiquem tranquilos que, não importa quanto tempo leve, essa história será concluída. É requisitado questão de tempo, inspiração e vontade própria, por isso não vem tão facilmente para mim atualizações. Sem mais enrolações, aqui está o capítulo 3 e em geral estou bastante satisfeita com o resultado.

Erros de ortografia foram revisados, porém podem passar despercebidos, avisem-me por gentileza pois eu os detesto.

Capítulo 3 - Capítulo 3 - Meu Conto Eterno


Bonnibel engoliu em seco, suas articulações de repente pareciam cobertas de cimento, seu corpo rígido, duro até os ossos. O coração estava disparado contra o peito e sua cabeça trabalhando a mil por segundo, tentando tão arduamente convencer seus olhos de que aquilo era real.

Marceline.

Marceline Abadeer.

A garota cujo confiou seus segredos mais profundos, a mesma garota ao qual conhecia sua versão mais jovem com a palma da mão, com uma simples troca de olhares ou gestos singelos. Que havia lhe ajudado a encarar seus piores medos e maiores inseguranças, que roubou seu coração quando ela nem mesmo sabia o que era paixão. A garota que lhe deu o primeiro beijo, os primeiros toques mais íntimos, não a primeira sensação de segurança, mas a mais forte dentre todas.

A garota que prometera estar sempre lá e no dia seguinte não estava.

Bonnibel franziu o cenho para a vontade insana de chorar. Haviam sido cinco longos e dolorosos anos, repletos de lembranças ardentes e superações insuperáveis, noites em claro mirando os céus escuros, se perguntando onde no mundo ela estaria e se olhava as mesmas estrelas numa noite repleta de pesadelos. Não era só uma amizade de infância, não era só um primeiro amor. Nunca fora e nunca seria.

Mas haviam sido cinco longos e dolorosos anos.

E agora ela estava bem ali na sua frente. Com os punhos cerrados e esfolados como se nunca tivessem tido o tempo necessário para cicatrizar desde que eram crianças, os joelhos envoltos do corpo inconsciente, esmurrando Josh Russo como quando eles tinham sete anos de idade e ainda discutiam por meio de socos como Bonnie deveria viver sua vida. De repente era como voltar à infância e ela precisou engolir a bile que ameaçava subir por sua garganta.

O próximo golpe no queixo do alfa resultou em mais sangue gotejando pelos pisos brancos, mas o corpo de Bonnie ainda estava congelado, petrificado no mesmo lugar desde que seus olhos fixaram-se nela. Marceline tinha mudado tanto, mas ao mesmo tempo não havia mudado nada. Como era possível?

Seus cabelos estavam tão longos. Ela nunca os deixara crescer quando eram menores, dizia atrapalhar no meio das brigas. Eles grudam no seu rosto e ainda podem ser puxados pelo adversário, era sempre o que respondia em meio a resmungos. Mas agora batiam um pouco além da cintura, ainda aquela névoa negra e rebelde que a deixavam mortalmente linda. A garota permanecia insanamente pálida, sendo tão fácil enxergar os caminhos de suas veias e vasos sanguíneos por detrás da pele como sempre fora.

Seu corpo havia mudado, e Bonnibel sentiu a breve tristeza apossar-se de seu ser ao saber que todas aquelas curvas eram, muito provavelmente, por seu status naquela sociedade desigual. A cintura tornou-se fina por baixo da blusa camuflada justa, os seios fartos saltando sobre o tecido com os movimentos bruscos de seus golpes. Seu quadril, mesmo escondido pelo moletom amarrado frouxamente a sua volta, pareciam mais largos e definidos, acompanhado de coxas grossas e firmes. Marceline havia se tornado alguém muito desejável e a rosada não sabia como se sentir sobre isso.

 Seu estômago vibrou ao erguer a visão para o rosto com respingos de sangue. As sobrancelhas escuras e levemente arqueadas estavam franzidas fortemente, o supercílio cortado encontrava-se numa mistura de roxos um tanto preocupante, seus olhos negros mantinham-se sobrecarregados pela raiva latente, os dentes cerrados com força definindo mais seu maxilar bem modelado. Os lábios, com um pequeno filete de líquido vermelho escorrendo pelo canto, permaneciam cheios e tão convidativos como ela se lembrava. Feições uma vez sutilmente infantis haviam dado lugar a algo mais sério e maduro, coberto por estonteante beleza e, naquele momento, o que parecia ser ódio puro.

Quando o punho desgastado ergueu-se ao lado do rosto da garota, pronto para descer novamente em direção ao homem quase irreconhecível, Bonnibel trincou a mandíbula e cerrou os olhos em concentração, rapidamente diminuindo a distância entre elas e segurando o pulso pálido entre os dedos firmes.

Ainda tão gelada quanto se lembrava.

Marceline a fitou sobre o ombro, olhos negros raivosos vagarosamente arregalando-se em reconhecimento antes de deixá-los descer lentamente da sua cabeça aos pés no que pareceu uma dolorosa eternidade, voltando-se quase hesitantes ao seu rosto depois. Bonnibel engoliu em seco quando os negros se encontraram novamente fixos nos azuis, uma mistura conflituosa de emoções por de trás das orbes que a representante podia pensar, talvez imaginar entender. Os gritos ao redor haviam cessado aos poucos, deixando para seus ouvidos apenas a batida constante e acelerada de seu próprio coração.

De repente Marceline cerrou os olhos e rosnou, puxando bruscamente o pulso para fora de seu aperto e levantando no mesmo instante, seus pés aumentando rapidamente a distância entre os corpos enquanto a garota respirava ofegante. Agora que a morena estava de pé, Bonnibel ergueu as sobrancelhas em surpresa quando precisou manter a cabeça abaixada para encontrar seus olhos. Abadeer sempre fora tão alta para sua idade quando eram jovens, mas agora não parecia ter crescido sequer um centímetro desde aquela época e ela quase quis rir com o fato, lembrando como Marceline costumava se gabar tanto por ser maior que as outras crianças.

Mas então ela olhou para o alfa de quase dois metros inconsciente no chão e limpou a garganta para que sua voz soasse tão limpa e indiferente como ela desesperadamente desejava.

- Senhorita, as regras desta instituição deixam clara a tolerância zero em relação à violência. – A representante deu um passo mais próximo a outra garota, esta que respondeu rapidamente com dois para trás. Bonnie parou e esticou a mão para tentar acalmá-la. – Preciso que venha comigo para a diretoria.

Todo o saguão entrou em um silêncio quase tangível desde então e Bonnibel aguardou qualquer reação de Marceline, perguntando-se talvez se ela realmente ouvira o que foi dito quando a morena permaneceu completamente parada a sua frente, a respiração forte e os olhos ainda levemente arregalados fixos aos dela. A alfa suspirou e permitiu-se passar um pouco de emoção ao seu tom quando tentou outra abordagem.

- Por favor, Marceline, não torne as coisas piores.

Quando o nome saiu pelos seus lábios, ela esperou tudo, menos o olhar de desprezo que cruzou as feições delicadas da outra garota. Outro rosnado foi tudo que Bonnibel recebeu antes de Marceline limpar o sangue no canto da boca e abrir caminho contra o mar de espectadores, estes que rapidamente deram passagem a ela.

No momento em que o vulto sumiu em meio ao amontoado de corpos, todos os olhos estavam de volta nela e a alfa suspirou em aborrecimento, sutilmente segurando seu pulso trêmulo e ainda erguido entre os dedos, tentando não transparecer o turbilhão de emoções que se apossavam por todo o seu corpo.

- Estão esperando o que? – Foi tudo o que ela precisou dizer para os estudantes deixarem aos poucos o local em meio a sussurros e empurrões.

- Você está bem? – A voz cautelosa acompanhada de uma palma gentil contra seu ombro a fez erguer os olhos para os castanhos escuros de Íris.

- Estou bem, eu só não esperava ter que lidar com tudo isso hoje. – E nem nunca.

Íris suspirou ao limpar uma pequena e solitária gota de sangue no braço de Bonnibel.

- Eu nunca achei que veria esse tipo de coisa em um lugar como esse.

Bonnibel assentiu distraidamente, sua mente ainda tentando assimilar todo o ocorrido.

- Será que ele vai ficar bem? – A maior perguntou.

Os olhos azuis voltaram-se para o homem com vários hematomas e sangue pelo rosto quebrado, perguntando-se o que ele teria feito para causar tanta raiva em Marceline a ponto disso. Alguns poucos alunos que haviam ficado estavam em volta dele tentando ajudar e Bonnibel podia ver pelo canto do olho dois enfermeiros apressadamente cruzando os corredores. Ela deu de ombros e assentiu.

- Eu acho que sim. Talvez agora ele aprenda a controlar a língua.

A alfa coreana ergueu a sobrancelha.

- Isso se supostamente é ele quem estava errado. Eu sei que estamos falando do Josh, mas a garota Abadeer chegou a duas semanas e já está causando todo tipo de transtorno pela universidade, eu realmente não sei como não a expulsaram ainda.

De repente toda a atenção de Bonnibel voltou-se para a garota maior.

- Ela chegou aqui há duas semanas? No meio do semestre?

Íris assentiu.

- Pelo que eu sei sim. Está cursando Administração, na Torre B. Pergunto-me o que uma Sereia está fazendo na nossa torre.

Marceline cursando Administração? E todo aquele talento e inspiração para Música? O que diabos está acontecendo aqui?!

- Sua família é muito empoderada, talvez seja por isso que ela não se importa de meter-se em tantos problemas, sendo filha do maior empresário do país, talvez a universidade releve e faça vista grossa.

A rosada assentiu para o pensamento. Íris era muito inteligente e observadora, então a menor não duvidava nada que esse pudesse ser o caso. Mas ela ainda não entendia o porquê de Marceline estar fazendo outro curso depois de batalhar tanto para seu pai aceitar seu futuro com a música.

- Você a conhece, não é? – Bonnie piscou surpresa. Estava tão na cara assim? Íris riu para a reação. – Bom, somos alfas, consegui ouvir você sussurrando o nome dela.

Bonnibel não tinha certeza do que dizer a respeito. Ela não queria que houvesse boatos pela instituição de que a representante do corpo estudantil tinha algum tipo de ligação com a menina violenta da universidade. Isso poderia facilmente ser mal interpretado pelo conselho e, de fato, ela não estaria mentindo se dissesse que não tinham. Não mais.

- Há muitos anos atrás ela foi minha vizinha, mas sua família se mudou e perdemos contato.  – Bem, tecnicamente ela não estava mentindo.

A garota mais alta a encarou em silêncio e a rosada engoliu em seco, de repente parecia que toda sua maldita alma estava sendo minuciosamente analisada e Bonnie quase sentiu-se suar por qualquer motivo que fosse. Subitamente o corredor encheu-se de alunos apressados e ambas não precisavam de mais informações do que essa para saber que era o intervalo, Íris sorriu e deu de ombros, qualquer reflexão dela esquecida quando começou a seguir a maré de universitários.

- Vamos nos encontrar com o resto do pessoal, eles vão adorar saber disso.

Bonnibel revirou os olhos para o comentário, quase tinha esquecido como Íris adorava uma boa fofoca. O que era mais um motivo para tomar cuidado com o que dizia sobre o seu passado com Marceline. Ela não precisava de mais um problema em sua vida repleta deles.

 

(...)

 

Não importa o quão fundo Marceline respirasse, o ar parecia simplesmente não chegar aos seus pulmões. Suas costas estavam apoiadas no muro de tijolos coberto de pichações, as pernas trêmulas eram pouco confiáveis no momento e ela mordeu fortemente o lábio inferior na tentativa de não transferir suas emoções para os punhos já machucados, reprimindo a vontade de socar a maldita parede até restar apenas seus cotovelos.

Como não havia pensado nisso antes? É claro que Bonnibel Miller estaria na Universidade de Ooo. Sua inteligência muito acima da média combinada com a determinação anormal para com os estudos obviamente a permitiriam facilmente entrar nessa droga de lugar.

Era tão dolorosamente óbvio que Marceline deu um tapa na própria testa com os fatos sendo humilhantemente jogados na sua cara.

A morena franziu o cenho e permitiu-se escorregar as costas pelo concreto até estar sentada no chão frio e úmido daquele beco espesso. Seus dedos pálidos arrastarem-se pelos fios negros suados, o coração acalmando-se aos poucos quando notou estar finalmente sozinha. Uma parte dela estava tremendamente aliviada por isso, já a outra, um pouco menor, decepcionada pela garota de cabelos rosa não a ter seguido.

Marceline encarou seu próprio pulso, ignorando o sangue escorrendo das juntas ou a dor profunda entre os ossos, concentrando-se arduamente no pequeno pedaço de pele que ainda formigava pelo toque fantasma da outra garota.

Bonnibel parecia tão indiferente a sua presença. Os olhos frios e calculistas enquanto agarrava seu braço com uma força até então desconhecida pela morena. A voz apática e negligente quando começou a citar as regras da universidade, como se não tivessem passado malditos cinco anos em que seus olhos não se encontravam, como se não tivessem feito toda uma porra de promessas para uma vida inteira.

Marceline suspirou e deixou a cabeça descansar contra a parede. Ela estava tão bonita. Seu corpo coberto de músculos firmes e levemente definidos, tão óbvios mesmo por baixo de todas aquelas camadas de roupas. Seus cabelos haviam crescido, embora continuassem aquelas mechas fofas e, para sua completa surpresa, ainda rosas. Ela não havia pensado que a outra garota realmente levaria aquele pequeno ato rebelde por tantos anos adiante, inclusive para uma faculdade tão rígida. Mas droga, Bonnie havia nascido para usar rosa, ou talvez, o rosa havia nascido para ser usado por Bonnie. O fato é que nunca uma cor havia ficado tão perfeita em alguém, mesmo que Marceline já soubesse disso desde o momento em que ela própria havia tingido seus cabelos.

Seus olhos continuavam aquela estúpida réplica dos oceanos mais insanamente azuis que pudessem existir nesse planeta, e continuavam roubando seu fôlego toda vez que os via, mesmo que estes aparentemente não quisessem mais vê-la. O coração de Marceline se comprimiu no peito com o pensamento. Bonnie tinha todo o direito de odiá-la afinal, e a melhor coisa que Marceline podia fazer por ambas era não intrometer-se na vida que sequer merecia participar depois de tudo.

Mas droga, era tão difícil. A garota cheirava tão bem quanto naquela noite em que sua vida fora arruinada, ainda aquela mistura de menta, jasmim e um toque doce, jujuba talvez. Ainda cheirava a conforto, segurança e... Marceline trincou a mandíbula para sua estupidez, aquilo tudo era passado, Bonnibel havia mudado, ambas tinham na verdade. Não existiam mais noites assistindo filmes de terror na madrugada, não existiam mais juramentos de dedinho ou beijos escaldantes com toques afetivos.

Bonnibel claramente havia superado qualquer coisa que tivessem e Marceline precisava fazer o mesmo.

Não era tão difícil quanto parecia. A verdade é que Abadeer havia se acostumado com a solidão, havia aprendido a gostar da dor, como uma velha amiga que a acolhia nos dias escuros e chuvosos, recheados de névoas turvas e miséria. Era normal abdicar de sua felicidade por simplesmente não ser digna de tal. Tudo que ela precisava fazer era libertar os últimos fragalhos que restavam em um coração há muito tempo oco, tão abandonado e empoeirado quanto uma casa velha que deixara há cinco anos sem qualquer satisfação.

Doeu que esses fragalhos fossem de um lindo tom de rosa e voassem para longe. 

 

(...)

 

Bonnibel mastigou de forma lenta, talvez exageradamente lenta, o sanduíche em suas mãos. Os olhos estavam fixos nas camadas de carne e salada entre as duas fatias de pão e ela tinha quase certeza de que seu pai invejaria a forma como parecia infinitamente mais interessada no alimento do que em sua aula de hoje mais cedo. A verdade é que ela estava tentando ao máximo não lidar com as expressões perplexas no rosto de seus amigos envolta da mesa.

- Então... Você foi vizinha dos Abadeer, a família mais poderosa da cidade, e era amiga da garota que acabou de nocautear o alfa mais popular da universidade, que por acaso saiu correndo dramaticamente quando vocês se encontraram anos depois...? - Bonnie poderia rir como as engrenagens dentro da cabeça de Keila pareciam estar trabalhando a todo vapor naquele momento, mas ela limitou-se a acenar com a cabeça da forma mais despreocupada que poderia.

A garota franziu o cenho e bufou para a falta de explicações aprofundadas, os dedos batucando ritmadamente sobre a madeira, a música tão alta através do pequeno fone branco que ela dividia com Bongo que a rosada poderia facilmente identificar os instrumentos em sincronia.

Seus olhos voltaram-se para Finn ao seu lado, o menino loiro compartilhando seu lanche com o cachorro e aparentando estar alheio ao assunto em pauta. Bonnie mordeu o lábio inferior em frustração, já havia dito mil vezes para ele não oferecer comida humana para Jake, mesmo que parecesse, e provavelmente era, o momento em que o cão mais ansiava pelo dia inteiro.

Maya aparentava um pouco enojada com a forma como Finn mordia o sanduíche no mesmo lugar em que seu golden retriever havia abocanhado poucos segundos antes. Bonnie até concordava um pouco, mas ela sabia que no fundo o beta nunca realmente pararia de fazê-lo mesmo que ela explicasse detalhadamente toda a anti-higiene envolvida por de trás daquele simples ato.

- E você sabe o motivo da família Abadeer ter se mudado? Eu soube que a mansão antiga deles está à venda até hoje, apesar de todos esses anos. - Bongo perguntou, a boca cheia de comida mal triturada e migalhas voando sobre a mesa fizeram Keila bater o cotovelo contra as costelas do homem acima do peso. Ele encolheu os ombros e sorriu em desculpas antes de desembalar o próximo pão.

Bonnie suspirou e massageou as pálpebras, ela não queria falar sobre Marceline. Ela nunca fora uma boa mentirosa e suspeitava de que seus amigos logo perceberiam haver coisas escondidas se o assunto continuasse por muito mais tempo.

- Eu não faço ideia do motivo, nunca fomos muito próximas. - A garota estremeceu internamente para a mentira e desviou os olhos dos curiosos de Bongo apenas para deparar-se com os estreitos de Íris a sua frente. A corena franziu levemente as sobrancelhas, as orbes escuras inspecionando cuidadosamente seu rosto e observando com atenção a forma como a garganta de Bonnie se movimentou quando ela engoliu em seco. - Marceline sempre fora uma pessoa violenta, desde tenra idade, então meu pai me impediu de fazermos amizade.

Íris apenas ergueu uma sobrancelha para ela, os olhos puxados deslizando para os pequenos pelos arrepiados no braço de Bonnibel antes de voltar a encarar sua bandeja vazia em silêncio. Bonnie suspirou aliviada por isso. Ela não suspeita de nada, eu estou bem.

Na verdade parte de Bonnibel acreditava que a família Abadeer havia se mudado após descobrir que o membro mais novo da renomada linhagem era na verdade um ômega. As poucas vezes em que a alfa se permitiu pensar profundamente sobre isso, a lógica em seu cérebro lhe fazia imaginar que provavelmente Hunson queria cortar todos os laços com as pessoas a sua volta que pudessem fofocar e espalhar mais rumores sobre isso, sobre a vergonha da poderosa família Abadeer, mas então ela nunca entendeu porque o homem continuou na mesma pequena cidade se esse fosse seu desejo. 

Bonnibel estava prestes a dar a última mordida em seu sanduíche quando um pensamento específico a atingiu e fez suas mãos congelarem no ar, o alimento a poucos centímetros da boca aberta e dos olhos arregalados.

Marceline era um ômega.

O que no maldito inferno ela estava fazendo em uma instituição para alfas?!

O frio na barriga de repente intensificou-se dez vezes mais com a realização. Marceline havia perdido a cabeça, aquilo era extremamente, absurdamente, insanamente perigoso. Que merda estava acontecendo? Seu pai poderia ser um lunático ganancioso sedento por poder, mas nem mesmo ele poderia ter concordado com isso... poderia?

Inferno claro que poderia.

Tudo para manter o nome da família limpo. Mesmo que pudesse custar a saúde de sua própria filha.

A ansiedade subiu junto com a bile pela garganta e ela largou o resto da comida com as mãos trêmulas. Seu corpo tomado por uma adrenalina repentina ao pensar em inúmeros cenários onde a garota poderia estar em perigo.

- Está tudo bem, amor?

Bonnibel girou lentamente a cabeça, deparando-se com orbes oceânicas preocupadas analisando todo o seu rosto, mesmo que fossem realmente incapazes de enxergar o modo como a garota engoliu em seco perante tamanha intensidade. As mãos pequenas do beta seguravam delicadamente seu braço, apenas um aperto reconfortante sob o tecido fino de seu blaser.

Finn era um rapaz sensitivo, para dizer o mínimo, ele sempre sabia quando algo a incomodava muitas vezes antes dela própria notar, perpetuamente carregando aqueles olhos atenciosos e toques quentes que, de alguma forma talvez inexplicável até mesmo para uma estudante prodígio de Ciências, pareciam ser a receita perfeita para acalmar seu cérebro frenético em poucos segundos.

Mas não dessa vez. E isso assustou Bonnie quase tanto quanto o medo em si.

A alfa fez o possível para encenar seu melhor sorriso para Finn, mesmo que seus olhos sequer pudessem admirar os dentes brancos ou a forma que ela sutilmente molhou os lábios em um pequeno vício corporal dada a situação abtrusa. Mas nem mesmo toda a interpretação - quer fosse para eles ou para si mesma - acalmou os calafrios que subiam por sua espinha, a adrenalina que inundava suas veias.

Ela precisava ter certeza que Marceline estava bem.

O mais elegante e sutilmente possível, Bonnie levantou-se do assento, esforçando-se para controlar a respiração ofegante e as batidas rápidas de seu próprio órgão barulhento contra o peito. Keila levantou uma sobrancelha para ela, mas a rosada foi rápida em desviar a atenção para seu uniforme enquanto apalpava o tecido um busca de alguma ruga inexistente. Qualquer coisa para fugir dos olhares que silenciosamente a indagavam. Bonnibel pegou a bandeja a sua frente e suspirou de alívio internamente por ter algo para fazer com as mãos trêmulas, inevitavelmente ela encontrou sua voz para uma justificativa, os olhos fixos no jovem loiro com os óculos escuros agora acima da cabeça.

- Acabei de me lembrar que preciso rever uma pauta da matéria antes da próxima aula, se me dão licença.

Antes mesmo de ouvir uma resposta Bonnibel girou apressadamente em seus calcanhares, os dedos brancos contra a bandeja de plástico em um aperto de ferro. Ela não tinha ideia do que estava fazendo, ela não tinha que de repente agir como uma louca e procurar sua ex-amiga de infância apenas para checar se ela estava bem. A alfa suspirou pelos corredores, ela sabia perfeitamente que Marceline nunca fora algo tão trivial como uma amiga. E nunca seria.

Os corredores estavam cheios a essa hora, não era uma novidade para ela, mas algo que com certeza dificultaria muito a sua busca. Ela poderia tentar seu olfato apurado, mas a mistura de inúmeros odores em um pequeno espaço de passagem só a frustrariam mais, haviam tantas pessoas, tantos alfas, que Bonnie escondeu com certa dificuldade a careta perante inúmeros cheiros fortes e naturalmente dominantes. Nada que ela não pudesse lidar diariamente, é claro.

Seus lábios se curvaram para cima quando então o pensamento lógico a atingiu. Marceline detestava multidões; quase como um gato selvagem, a garota sempre se esgueirava para os lugares mais apertados, escuros e vazios em seu antigo colégio, evitando corpos como se evitava uma praga. Ela até mesmo costumava descansar em cima dos galhos das árvores de seu quintal, o que apenas fortificou o pensamento cômico de uma Bonnie de dez anos atrás.

Descartou a bandeja o mais breve possível e direcionou-se com passos determinados ao fim do saguão. Com alguns empurrões e resmungos, Bonnibel já podia avistar o verde do câmpus, uma mistura de estudantes estirados sob o sol e grandes estruturas em volta. A alfa não costumava vir muito para tal área, onde todos os universitários se misturavam independente de seus cursos, prédios ou dormitórios. Não é como se o cheiro de grama, um pouco de calor e alguma prática ao ar livre a incomodasse, todavia ela sempre preferira sombra, cimento e ar condicionado se assim pudesse escolher. Havia também as janelas próximas a cafeteria, caso estivesse acordado um pouco mais hippie que o normal.

Bonnibel varreu ansiosamente os olhos por todo o local, do topo das árvores aos pequenos muros de pedra onde vários universitários sentavam-se. Nada. Não havia nenhuma garota baixa e mal humorada que possivelmente refletiria contra o sol, o que fez Bonnie suspirar e caminhar para mais perto do grande campo de futebol.

Não era nenhuma surpresa estar completamente vazio nesse momento, os jogadores pareciam mais ocupados com festas e ménages do que treinamentos extras de qualquer forma. Bonnibel nunca fora uma grande fã de esportes, a ação molecular de uma intravenosa parecia particularmente muito mais emocionante do que homens suados correndo atrás de uma bola, mas mesmo assim Bonnie se viu caminhando para as grandes arquibancadas de madeira, subindo os degraus sem mais um objetivo em mente. A vista não era de todo ruim, o vento era definitivamente menos tímido por ali e por mérito das pequenas escadas, a vista era surpreendentemente agradável.

- Nada mal, ein. - A alfa balbuciou para ninguém em particular, um sorriso acanhado surgindo quando o vento acariciou gentilmente seus cabelos outra vez. - Um bom lugar para ler um livro.

Bonnie fechou os olhos e encheu seus pulmões com oxigênio. Nada mal mesmo.

- Se estiver sozinha, eu suponho.

A voz que soprou contra seus ouvidos estava carregada de ironia e frieza, embora Bonnibel pudesse reconhecer a pitada de nervosismo nas camadas mais profundas daquele tom levemente familiar.

As orbes azuis rapidamente giraram em volta, procurando desesperadamente a fonte do que ela já sabia com toda a certeza ser Marceline Abadeer. O campo ainda parecia tão vazio quanto a cinco segundos atrás e ela franziu as sobrancelhas para tal.

- Eu sempre soube que não gostava de pessoas, mas não achei que pudesse ir tão longe a ponto de tornar-se invisível.

Bonnibel tinha quase certeza ter ouvido uma curta risada, a mistura perfeita entre diversão e sarcasmo que só Marceline conseguia reproduzir tão naturalmente. Seu coração de repente se fez presente novamente, o ritmo acelerando abruptamente resultou em Bonnibel rangendo os dentes em desgosto, ele não tinha direito de fazer isso com ela. De lembrá-la tão facilmente o quanto ela realmente não havia esquecido. Era tão malditamente injusto.

- Ainda estou trabalhando nisso. Por enquanto só estou embaixo de você. - Bonnibel engoliu em seco antes de descer lentamente as escadas.  Seu cérebro traiçoeiro de repente relembrando todas as vezes em que Marceline esteve embaixo dela. Oh droga.

E lá estava ela, a cabeça apoiada contra a mochila, os fones de ouvido em algum volume certamente desnecessário para a audição humana - certamente desnecessário para a audição de um ômega - e entre as mãos pálidas algum livro de capa escura apoiado contra seu abdômen. As luzes que se infiltravam por entre os bancos acima iluminavam quase receosamente sua pele alva, esta com algumas pequenas sardas salpicadas aqui e ali, charme que sempre encantara Bonnibel, a lembrando de noites privadas de sono onde ela contava cada uma, quase de forma terapêutica, enquanto as corujas murmuravam serenamente ao lado de fora junto a respiração quente do seu amor perto de seu rosto. Agora, parecia uma memória distante, quase outra vida onde havia tido tal oportunidade, tal tranquilidade.

- O que está fazendo aqui? - A voz, um tanto mais rouca e madura, a perguntou diretamente.

Apenas pelo timbre delicado e harmonioso de uma simples pergunta, Bonnibel já tinha certeza que a garota mais velha ainda possuía a habilidade de cantar. E talvez melhor do que sua versão mais jovem, dada a percepção de que sua voz parecia tão confiante. Tão... Droga, malditamente sexy.

- E quem disse que eu já não vinha aqui antes? Até onde eu sei, você é a novata aqui.

Os olhos negros continuaram fixos nas páginas a sua frente quando uma curta e audível expiração surgiu junto ao sorriso irônico.

- Então você não aparece por aqui a pelo menos duas semanas. Mas acho dificil ser este o caso já que a poucos minutos atrás você disse palavras tão impressionadas como "um bom lugar para ler um livro". - O indicador da morena virou lentamente uma página. - De fato eu concordo.

Bonnibel segurou-se para não revirar os olhos. Marceline sempre tratou suas inseguranças e nervosismos com uma boa dose de sarcasmo e frieza, ações estas que fariam um desconhecido afastar-se com repúdio ou uma professora cerrar os punhos em desagrado, porém Marceline sempre fora um livro aberto para ela, sendo tão fácil ler entre suas linhas. Detalhes que passariam facilmente despercebidos por estranhos, mas que eram simplesmente nítidos para Bonnibel. Como a forma em que seus dedos batucavam ansiosamente contra a capa do livro, ou sua clavícula salientando-se com respirações forçosamente controladas, ou, é claro, o vício que ela claramente manteu de desarrumar os cabelos toda vez que algo a agitava. Esta era provavelmente a quarta vez que o fazia em menos de dois minutos.

Marceline poderia ser um mistério para a maioria das pessoas, mas para Bonnibel, seus versos e parágrafos pertenciam a um livro diferente, uma obra viciante e agradável, mas que de tanto relê-la, as palavras tornavam-se, de forma inerente, familiares e previsíveis a cada linha.

No entanto, nunca havia deixado de ser seu conto favorito em toda a sua estante e, no fim do dia, Bonnibel sabia que voltaria a procurá-lo na prateleira, mesmo com toda uma pilha intocada e empoeirada a sua esquerda.

E ela teve certeza disso assim que observou seu sorriso renascer mesmo após todos esses anos. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Notas Finais


Pensamentos? Críticas? Por favor, deixem nos comentários, é realmente o que me anima a continuar escrevendo :)

Observação: Com certeza irei aprofundar-me mais na personalidade e aparência de Maya, que foi citada como uma das amigas de Bonnibel, mas temendo deixá-los confusos, aqui vos digo ser esta a Princesa Caroço. Apenas pus outro nome, pois seria estranho e cômico uma mulher na universidade ser chamada assim, e eu não gostaria de passar uma vibe "infantil" a esta história pois, como eu disse, tem e terá muito conteúdo adulto pela frente.


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