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História Builder Person - Capítulo 5


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Notas do Autor


Oi. Tava quase arrependida de postar essa fic porque tão aleatória ksks mas quero agradecer aos comentários porque assim não parece que tô postando pra ninguém ler. Obrigada de verdade a quem comenta e espero que continuem gostando da fic <3

Capítulo 5 - Panquecas


[Tiffany PV]


Minha mão apertava o braço da cadeira com força. A energia azul dos meus biotics envolvendo meu corpo inteiro, enquanto eu olhava a tela do meu computador.

O trabalho de troca de informações não só nesse planeta como nos outros, me permitia acesso aos mais diversos tipos de dados. A minha eficiência nesse ramo nos últimos dois anos garantiu que muitos me encontrassem para fazer negócios com coisas que acreditavam ser do meu interesse. Então não era surpresa que a passagem de Taeyeon por Omega chegasse até mim.

No primeiro vídeo que eu recebi, ela interagia com Aria, a "Rainha Pirata" que manda no lugar com todo o seu poder. Elas conversaram e eu pude ver as expressões de Tae mudando no decorrer da conversa. O relatório com a mídia dizia que elas discutiram sobre algumas pessoas inclusive eu mesma.

Quando eu assisti, fiquei satisfeita com a boa condição em que estava a comandante, mostrando sua autoridade costumeira, gloriosa e impactante, como eu lembrava. Aria se portando sedutora, não surpreendendo ninguém. Porém, o segundo vídeo que acompanhei, foi o que me fez querer jogar o computador na parede e o que me mantem tentando controlar meus biotics.


A cena se passava num dos túneis do subsolo de Omega. Onde eles foram buscar o Dr. Solus. O foguete vinha em direção à Jessica Jung e minha Taeyeon a protegia, assim como ela fez diversas vezes com qualquer integrante da sua tripulação. Claro que trabalhando juntas, seja por chantagem ou por outra prioridade, elas precisavam ser um time e se ajudar. O problema... Era o sentimento exposto no rosto da Cerberus, ao ficar pressionada entre a parede e o corpo da ruiva.

As bochechas coradas, os olhos presos no rosto de Tae, uma expressão de nervosismo, mas eu conhecia aquele sentimento. A sensação de ter a comandante tão perto nublava a mente de qualquer uma. E ela... Parecia estar onde sempre quis estar. Ainda mais depois que o olhar da outra foi de encontro ao seu. Eu respirava fundo me esforçando para diminuir a ebulição de coisas dentro de mim.


Será que é por isso que Taeyeon ainda não entrou em contato comigo? Por isso que ela não respondeu minha mensagem? Alguma coisa está acontecendo entre as duas mulheres? Olhei mais uma vez a imagem da diretora. Jessica é linda, eu não posso negar. Fisicamente a mulher consegue colocar qualquer humana no bolso, mas a personalidade... Todos sabem a frieza que reside dentro dela e a determinação inabalável que a faz atropelar quem quer que entre no seu caminho.

Os relatórios que eu pude ler depois que entreguei o corpo da Tae para a diretora, listavam inúmeros casos de estações antigas da Cerberus evaporadas do mapa. Imagens de Jung matando os próprios funcionários, seus soldados explodindo as pistas e sumindo como se nada tivesse acontecido.

Seu perfil de procurada pela Aliança envolvia tortura, assassinato, chantagem, pesquisas sobre experimentos ilegais. A mulher era uma criminosa terrorista insensível, Taeyeon nunca... Taeyeon nunca se relacionaria com alguém assim...


[Minho PV]


A tripulação da Normandy já estava de volta aos seus respectivos compromissos diários e eu achei meu lugar favorito da nave, organizando armas e calibrando qualquer coisa ao meu alcance no deck de engenharia. Eles realmente fizeram uma melhora maravilhosa nessa N7 e eu vou tirar proveito de todas as suas novidades como o bom turian que sou.

Após o treinamento, eu tentei conversar com Taeyeon, mas a comandante parecia tão arredia. Suas sobrancelhas flexionadas constantemente e suas palavras saindo de forma ríspida. Era incomum comigo e ainda mais depois dela fazer o que tanto gosta, que é exercitar-se.

Imaginei se tinha alguma coisa a ver com a interação dela com a diretora no final do seu round corpo a corpo. Pelo que eu vi, foi interrompido por EDI e elas estavam numa posição que... Acho que ela foi derrotada. Tirando isso, não soube de nenhum outro acontecimento que a deixasse tão irritada. Claro, ignorando o fato dela tá sendo obrigada a trabalhar com uma organização terrorista pra salvar a vida da sua raça humana.


Nós trocamos algumas palavras sobre como ela estava. Comentou sobre suas idas à enfermaria para conversar com Chakwas e sobre como se sentia bem com seu novo corpo. Era estranho ouvir ela falar de si mesma como um experimento, indicando as melhorias e a diferença do que lembrava. Afirmou que começaria sessões de terapia com a psicóloga da nave, dra. Sunny Chambers, que eu já vi caminhando por aí parecendo uma adolescente.

Aparentemente, era uma sugestão do Tim e ela tentou argumentar, mas decidiu que seria melhor mesmo ter um controle do seu psicológico. Explicou também que ele deixou claro onde sua antiga tripulação estava e deu um breve resumo dos seus novos rumos, mostrando que seguiram suas vidas, sem ela... 

O olhar que cruzou seu rosto me fez alcançar sua mão e dar um aperto naquela hora. Achei que era a coisa certa a fazer pra mostrar que eu estava ali e ela sorriu aliviada. Depois disso, não tive mais contato com ela. Agora sigo calibrando esses lindos equipamentos de alta tecnologia à minha disposição...


Amanhã chegaremos a Citadel. O lugar onde eu conheci Taeyeon e nossa missão contra Saren começou, levando a montagem de um time e toda a confusão para provar seu envolvimento com os Reapers. Lembro com clareza o encontro com ela na torre no seu caminho para falar com o Conselho Universal.

Naquela mesma semana conhecemos Yeri e Wrex, lutando lado a lado para a salvação do universo. Quando paro para pensar nessa combinação de raças, me dá um orgulho saber que fiz parte dela. Mostrando que todos podemos trabalhar juntos quando o bem comum está em jogo, apesar das adversidades.

A nossa prioridade era desvendar o que estava acontecendo e impedir de acontecer. Foi por muito pouco que tudo conseguiu ser concluído com sucesso. Novamente nessa posição, eu espero que tenhamos um bom desempenho também. A comandante com seu dom para extrair o melhor das pessoas, com certeza fará dessa tripulação um ótimo time no tempo certo. O detalhe está na diretora Jung...


Antes de vir calibrar, eu caminhando pelo refeitório e conversando com o Dr. Solus, contei cerca de cinco vezes em que Jessica saiu de sua sala, com foco total na cafeteira, encheu sua caneca e fez o caminho de volta sem direcionar seu olhar para ninguém. Não ficaria surpreso se pelo tempo que estou aqui, ela já tenha tomado uns vinte litros de café.

A mulher claramente é viciada em café e em seu trabalho. Nada passa despercebido por ela e sua atitude técnica no meio de situações que eu já presenciei mostra sua facilidade em cumprir o que lhe é solicitado. Dessa forma, o The Illusive Man tem um bom controle de tudo que acontece aqui dentro através dela e com Taeyeon como sua comandante, ela ainda consegue equilibrar os dois. Porém, todo mundo sabe que se ela tiver que escolher quem seguir... Não vai ser a ruiva.

Eu estou analisando isso pela terceira vez, porque nós precisamos estar preparados para quando chegar a hora de cada um seguir o seu caminho. Não acho que o Tim vá permitir que a comandante simplesmente deixe de trabalhar com ele, um confronto vai sair disso e quanto mais pessoas ao nosso lado, melhor.

Se Tae continuar tratando Jessica de forma tão agressiva, ela só vai garantir que a mulher seja uma inimiga, que tem muitos recursos e um exército inteiro à sua disposição. Não é uma perspectiva muito agradável.


[Jessica PV]


Não vou pensar sobre o treinamento.


A lista de equipamentos que Minho me passou por mensagem combinada com a dos outros engenheiros para que a N7 mantenha seu bom estado já foi revisada e calculada com os gastos dentro do nosso fundo financeiro. Organizei para que nossa parada na Citadel seja bem discreta e a carga já esteja no porto quando chegarmos lá. Então será tudo muito rápido para o recebimento dela.

A dra. Yoona Chakwas organizou uma sequência de visitas da tripulação à sua enfermaria, para que seja feito um check-up total dos soldados, o que eu concordo que seja muito importante, mas estou saudável e não vejo necessidade de tomar seu tempo, assim retirei meu nome da lista. Cada um dos demais recebeu notificações com seu horário para se apresentar no consultório no decorrer do dia e pelo relatório que a doutora me passou, todos cumpriram de forma obediente.

Choi Sooyoung insiste que EDI atrapalha seu desempenho e ouvir a "voz robótica enjoada ridícula" dela não ajuda na sua concentração. Fez uma sugestão de que a IA fosse desabilitada e eu sigo deletando suas mensagens sobre o assunto. A única que não foi para minha lixeira até agora é uma sobre a requisição de assentos de couro para sua cabine, o que eu acredito que concedendo isso como um agrado, existe uma boa possibilidade dela diminuir suas exigências irrelevantes. Então solicitei um novo assento de couro T77 Ashter artesanal com iniciais da piloto. Aguardo sucesso no meu plano.

Dr. Solus reorganizou o seu laboratório inteiro, causando uma mudança na recepção elétrica do cômodo, assim parte das operações motoras das suas portas baixou de nível. Eu quase não acreditei quando li o relatório sobre isso. Enviei a solicitação de reabilitação, assim pela manhã já deve ser consertado. Ele também pediu alguns itens novos, que eu vou precisar comprar ao chegar na Citadel.

Analisei com os mecânicos de colocar um isolador de temperatura na minha parede, o que foi incrivelmente fácil e eu deveria ter comunicado antes sobre a temperatura inaceitável da minha sala. Agora estava muito melhor, como todos os outros departamentos da nave.

O dia passou com rapidez. Encontrei diversas opções para manter minha mente ocupada e até agora não estavam completas. 


A pilha maior de tablets na minha mesa era dos que já estavam resolvidos, os outros dois soltos eram os que faltavam para que o dia fosse concluído sem pendências de acordo com o que eu escolhia como objetivo diário. Esfreguei os olhos e chequei as horas. 0221... Se eu terminar em menos de 39 minutos, eu terei cerca de quatro horas de sono. Alonguei o pescoço e me endireitei na cadeira. 

Meu escritório estava com uma temperatura agradável e meus pés descansavam no metal gelado, enquanto minhas mãos trabalhavam sobre o teclado do computador, conectado ao tablet, liberando o que precisava ser feito.

Relia atenta o que estava escrito quando escutei o bater de panelas. Parei meus movimentos confusa, era cedo demais para o café da manhã. Esperei alguns segundos sem uma repetição do evento e continuei meu trabalho.

Não demorou para que eu novamente ouvisse o barulho e dessa vez bem mais alto, me desconcentrando totalmente. Respirei fundo controlando minha frustração e levantei da cadeira. Busquei meu robe de algodão e o vesti. Já usava meu pijama e não tinha nenhum interesse de expor ele para qualquer que seja a pessoa da tripulação que resolveu destruir a cozinha às 2 horas da manhã.

Enrolei ele no meu corpo e caminhei para fora da minha sala. A cozinha ficava logo ao lado e eu ouvi um barulho maior ainda quando me aproximava. Alguém queria mesmo destruir alguma coisa, não é possível.


"Diga seu nome e seu posto nessa nave, soldado!" Exigi para a pessoa que estava abaixada atrás do balcão me impedindo a identificação dela. Provavelmente escolhendo o que mais destruiria nos armários inferiores. "Que amanhã mesmo você será substituído por alguém menos barulhento e ficará lá pela Citadel, porque isso é um absurdo! São 2 da madrugada, como que vo-" Taeyeon ficou de pé atrás do balcão e me encarou surpresa. Eu interrompi meu discurso cobrindo a minha boca com uma das mãos. 

"Meu nome é Taeyeon e eu sou... A comandante da nave." Ela me respondeu com um sorriso de lado e uma das sobrancelhas bem desenhadas arqueada. Percebi seus olhos irem dos meus pés descalços até meu rosto e apertei o roupão ao meu redor. 

"Comandante, eu..." Limpei a garganta e coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha tentando disfarçar o constrangimento. "Eu não sabia que era você que estava aqui, essa hora..." Falei quase me desculpando, mas engoli em seco e ergui um pouco o queixo. "Está tudo bem?" Ela tinha nas mãos duas frigideiras e apoiava os utensílios no balcão a sua frente. Vestia uma regata preta e uma calça de moletom cinza. Seus ombros chamando minha atenção como sempre.

"Sim, só vim fazer algo pra comer... Te acordei?" Perguntou me dando as costas e alcançando um pacote de alguma coisa do armário. "Esqueci que sua sala fica aí do lado... Antigamente era a minha." Ela falou suavemente. "A prateleira soltou aqui quando eu puxei esse troço, aí acabou bagunçando tudo..." Sua explicação veio num tom baixo e eu continuei onde estava.

"Tudo bem, não estava dormindo." Respondi, observando ela separar ingredientes e começar a preparação de seu lanche. Ela murmurou algo como uma afirmação. Percebi que era melhor deixá-la sozinha.


Dei alguns passos de volta para minha sala, mas sua voz chamou minha atenção novamente. "Quer panquecas?"

"Quê?" A olhei processando a pergunta, parando minha movimentação. Meus pés de encontro ao chão gelado começando a me incomodar.

"Panquecas... Farinha, ovos, mistura e tal? Conhece?" Ela explicou e eu podia ouvir o sorriso na sua voz. Seus olhos me alcançaram por cima do seu ombro num instante e depois retornaram para a frigideira. Eu endireitei minha postura.

"Sim! Uh..." Me apressei em responder. Meu rosto esquentou levemente. "Eu sei o que são panquecas, comandante. Mas não, eu não tenho interesse. Obrigada." Foi estranho. A situação era incomum. Ela me oferecendo comida, num tom casual. 

Taeyeon estar acordada aquela hora também era incomum. É necessário boas horas de sono para que seu corpo esteja num ótimo desempenho pela manhã. Principalmente quando você é uma humana e tem muitas atividades dependendo do seu físico. 

"Está tendo algum problema para dormir?" Eu questionei de forma técnica, dando alguns passos refazendo meu caminho e me aproximando do balcão da cozinha, onde a mulher cozinhava.

Ela virou-se despejando uma panqueca pronta num dos pratos que separou. Seus olhos encontraram os meus e ela fez que não com a cabeça. Voltou ao fogão para preparar mais uma e falou. "Está tudo bem, diretora. Se eu sentir alguma coisa fora do comum eu comunico a Yoona. A médica." O tom agressivo voltou e eu não deveria ficar surpresa, ela ficou desconfortável com minha pergunta. Porém, é uma questão de segurança para todos nós que ela esteja num bom estado. Mesmo criando meu argumento, não tinha interesse em uma discussão naquele horário, assim acenei com a cabeça e pedi licença para me retirar. Tenho relatórios para concluir.


Ao chegar no meu quarto sentei na minha cadeira pensativa... Decidi abrir a câmera de vigilância da cozinha, a qual eu tenho acesso como todas as demais. E numa janela a parte, pesquisei "panquecas" na extranet para ter certeza que era o que eu achava que era e confirmar que as da comandante estavam longe do formato ideal. Observei a mulher fazer mais algumas, combinando com pedaços de banana e morango, em seguida cobrindo com uma grande quantidade de calda de chocolate. Meu estômago embrulhou... Quanto doce... Ugh.

Continuei assistindo ela atenciosamente. Seus movimentos pareciam cansados e sua expressão facial tinha alguma coisa com tristeza, diferente do sorriso suave enquanto falava comigo no começo. Analisava suas mãos limpando o que sujou, arrumando as coisas no lugar com cuidado e resmungando quando algo sem querer fez barulho. Olhou para trás como se checasse alguma coisa. Como se o barulho fosse causar... Eu aparecer novamente. Ela realmente tem um problema com minha presença.

Ia voltar ao meu trabalho, mas a voz de Minho me impediu de fechar a janela do vídeo. Ele se aproximou da bancada e acompanhei com os olhos ele sentando num dos bancos.

"Eu vou ter que te colocar pra dormir toda noite agora?" A voz do turian era divertida. Eu sorri fraco. Eles tinham uma relação interessante de se assistir. "Não garanto que vou sempre me acordar também..." Vi um sorriso enorme abrir no rosto da comandante e engoli em seco. A covinha era visível e seus ombros relaxaram bastante. Ela sempre ficava tão tensa ao meu redor? Não deve fazer bem para sua coluna.

"Problema seu, vai ficar sem as minhas panquecas." Ela rebateu, sentando-se também e começando a comer. O turian soltou uma risada forçada. Não é como se ele pudesse comer as panquecas que ela faz. Teriam de ser especificamente com ingredientes especiais para turians, ou seu organismo entraria em colapso como numa reação alérgica, causando sangramento interno e inchaço dos orgãos. Por que que eu tô indo tão profundamente numa piada? Revirei os olhos e voltei a prestar atenção.

Eles ficaram calados enquanto ela comia e Minho buscava um pouco do seu café especial preparado na cafeteira que eu precisei reabastecer repetidamente hoje. "Outro pesadelo?" Minho questionou e eu franzi minhas sobrancelhas para a tela do computador.

"Sim..." Ela respondeu fazendo o sorriso sumir. "Mas dessa vez... Foi diferente..." Ela parecia envergonhada. Ele continuou em silêncio esperando que ela elaborasse. Ao invés disso, a mulher encheu a boca com panqueca e banana e ficou mastigando evitando os olhos do amigo. Outro? Ela está tendo pesadelos com frequência? Devo checar isso com EDI. Podem ser sinais de problemas neurológicos por causa de seus componentes cibernéticos. Mas se fosse alguma coisa assim, Chakwas teria me avisado, não? Ela fez um check-up na comandante hoje. Falando nisso preciso comparar com o que fiz no dia anterior ao seu despertar na estação.

O silêncio se prolongou por mais alguns segundos. Até que Minho suspirou. "Você disse que se repete o que passou na Normandy..." Ele falava com cuidado. "Os rostos, a nave destruída e..." Ele se remexeu no banco desconfortável. Não completou a frase. "O que mudou dessa vez?" Encarava a comandante que tinha os olhos na comida que já acabava. Eu não conseguia ver seu rosto com clareza porque sua cabeça estava abaixada.

Taeyeon respirou fundo e quando sua voz saiu era uma mistura de vergonha e alguma outra coisa que eu não conseguia exatamente identificar. "Nas outras vezes, minha armadura sofria o dano e eu acordava no susto mas hoje... Jessica tava lá." Eu perdi meu raciocínio sobre a possibilidade da doutora esconder algum dado de mim e deixei minha boca pender aberta ao ouvir o que a Kim disse.

"E eu saía do espaço pra tá na cama da estação Lazarus..." A comandante explicava com dificuldade e eu prendi minha respiração involuntariamente. "Eu... Ela segurava minha mão e dizia que tava tudo bem... Que eu não precisava me preocupar..." Eu podia ver a ponta das suas orelhas ficarem avermelhadas e sentia o meu próprio rosto esquentar exageradamente. "E aí eu me acordei... Com uma sensação de tranquilidade." Ela bufou. "Só que... Eu não tenho certeza se foi um sonho." Comentou aborrecida. Empurrando o prato para longe, em seguida alisando sua testa como se tentasse processar melhor o que dizia.

"Como assim?" Minho tentou entender. E eu já sabia que não era um sonho. Era uma lembrança.


Anos antes, na estação Lazarus...


Eu estava no laboratório na rotina normal de checagem, acompanhando os sinais vitais de Taeyeon. Wilson insistia em refazer os testes, sendo que iam forçar o nível diário de exposição, assim eu recusei com agressividade. Ele saiu indignado para algum lugar e eu fiquei sozinha com a comandante. Ainda estava com o projeto pela metade, demoraria mais alguns meses até que ela ficasse totalmente apta para acordar.

Sentada ao lado da cama da mulher, desviei meu olhar para os papéis e o barulho de batimentos cardíacos soaram acelerados. Eu me assustei e vi que Taeyeon abriu seus olhos, esticando sua mão para cima. Seu corpo ainda não estava pronto! Ela não podia se mexer.

Num movimento impensado eu segurei na sua mão com cuidado e passei as pontas dos meus dedos no seu rosto, dizendo "Calma... Está tudo bem." Seus olhos se encontram com os meus e eu percebi o pavor neles. Pressionei sua mão ao meu peito tentando dar alguma forma de aconchego e acariciei sua bochecha. "Você está a salvo, não se preocupe..." Seu olhar lentamente relaxou, junto com sua respiração e seus batimentos. Ela me encarou por mais alguns segundos, até adormecer novamente...

Eu fiquei imóvel lidando com o que acabara de acontecer, até que a presença de Wilson me fez voltar a realidade, perguntando o que aconteceu e eu me afastei da comandante explicando inexpressiva que ela teve um lapso de consciência. Nada muito grave.


De volta ao presente...


"Eu sentia o toque dela... Na minha mão. O calor e a... Textura..." O olhar de Taeyeon era desconcertado. Ela claramente estava muito confusa por ter sonhado comigo. E eu mordia o lábio tentando conter o frio que dominava minha barriga. Não era comum que ela se lembrasse daquilo. Seu corpo ainda estava tão danificado. Seu cérebro incompleto. O que mais ela teria guardado na memória antes de se acordar completamente? Fiquei intrigada. 

"Ah, faz sentido..." Minho concordou. "Ela cuidava de você. Se tiver acontecido alguma coisa assim, não seria absurdo ela estar lá pra te acalmar, além do mais, a mulher que montou seu corpo todo de volta." Ele falava de forma tranquila. "Talvez isso seja uma sugestão." Sua voz saiu seriamente e a comandante o olhou insatisfeita.

"Sugestão de quê?" Ela se levantou do banco antes que ele respondesse, limpando o prato e os talheres que usou na lavadoura de louças, em seguida virando para ele de braços cruzados. Seu olhar era pesado e suas sobrancelhas estavam fortemente flexionadas, deixando uma ruga bem visível entre seus olhos.

"De vocês se darem bem..." O turian elaborou com cuidado, encarando a amiga do outro lado do balcão e eu ouvi ela rir descrente.

"Nunca. Eu sei que o Victor Frankenstein me trouxe de volta e me analisa a cada três segundos, mas isso não significa que eu tenho que me dar bem com ela. Ela é uma terrorista, Minho. A gente não tem noção do que essa mulher já fez e eu não quero me aproximar o suficiente pra descobrir." O tom agressivo retornou com força total. Eu cruzei os braços afobada.


"Victor Frankenstein..." Resmunguei ao fechar a janela da imagem de vigilância que eu acompanhava. Voltando ao tablet de relatório que eu dava atenção antes de ser atrapalhada pela desastrada da comandante mais ingrata do universo.

"E eu não te analiso a cada três segundos..." Reclamei, ao digitar com força descabida no teclado. Eu preciso acompanhar seu desenvolvimento, mulher irritante. Faz parte do meu trabalho garantir sua saúde e que você alcance seu objetivo. E pode me insultar como quiser, eu tenho muito orgulho de ter conseguido trazer alguém de volta a vida. Enquanto sua namoradinha fica brincando de fofoca com gente rica por aí. Engasguei. O que que eu tenho a ver com Tiffany Hwang? Como que ela veio parar na minha mente uma hora dessas? Sacudi a cabeça em negação e foquei no relatório que ainda estava incompleto. Minhas quatro horas de sono que lutem...


Eram 0314 quando retirei meu roupão expondo meu pijama e caminhei para deitar na minha cama. Puxei as cobertas com força e me encolhi no conforto do colchão macio. Esperei até que EDI apagasse as luzes e a escuridão tomasse de conta do meu quarto. Ouvir a comandante me chamar de terrorista não era novidade. Ela já usou esse termo com muito gosto antes. O que eu não entendia era que ela falava isso e minutos antes me oferecia comida. E mais cedo hoje ela me deixou... Ela... O que aconteceu no treinamento. Eu não quero pensar nisso...

Foi uma coisa totalmente absurda que nunca mais deve se repetir por vários motivos óbvios. O Sr. Harper ficaria tão insatisfeito com minha performance, mesmo com todos os meus anos de prática e todas as minhas habilidades em focar no meu trabalho, deixar uma coisa tão superficial atrapalhar nossa missão, seria extremamente incompetente. E eu não faço incompetências.

Sem contar que não se deve ser levado muito a sério um momento em que ambas estavam de "sangue quente", após uma explosão de poderes biotics e um round de ataques corporais. Era muito cedo do dia, eu não tinha tomado café o suficiente e a comandante provavelmente se perdeu no fato de que eu derrotei ela, evitando o encontro do meu punho com seu rosto num ato de misericórdia. Sorri fraco, satisfeita com meu argumento. Não demorou até fechar meus olhos deixando o sono me tomar, lembrando da forma que sua atenção percorreu o meu rosto com tanto cuidado...



Notas Finais


Fiquem a vontade pra dizer o que acharam :]


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