História Caixão de Vidro - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Caixão de Vidro


 

Marcelo Goiabo, ilustre morador da minha antiga cidade, era dois anos mais velho do que eu na época do ocorrido, hoje sou uns trinta anos mais velho que ele. O que irei contar agora provém da junção de três edições de sua mesma história: a minha criada através de várias breves convivências, a da mãe dele dita enquanto se acabava em uma mesa de bar e a da minha mãe que viu a lamentável cena de embriaguez e fez o favor de repassá-la, sem eufemismos, para toda cidade.

Bom, vamos logo ao sujeito. Magro de ruim com nariz arrebitado e braços grandes que moviam-se desordenados enquanto corria de bonito só tinha um pingente que se não fosse herdado do pai teria vendido para comprar bala. Pouco simpático, guardava suas boas maneiras para o dono da Casa do Doce, onde ia todos os dias se empanturrar de bem-casados, goiabadas, balas, brigadeiros, doce de leite sem coco, com coco, os com maracujá e por aí vai, todos esses feitos por lá mesmo. Marcelo tinha para si o doce, na condição de sabor e não de produto, como um vício que deveria estar presente em toda refeição. No café, bastante açúcar e acompanhado de biscoitos. O almoço tinha que ser agridoce, arroz com passas, salada com frutas e beterrabas essas eram partes cotidianas de seu prato. Depois por óbvio vinha uma sobremesa que ou a mãe dele fazia ou ele comprava e comia escondido. Não obstante entre essas refeições Goiabo ficava na calçada da doceria comendo suas drogas açucaradas sem dividir com ninguém, sei disso pois já tinha pedido inúmera vezes sem nunca obter sucesso.

A cidade toda, por conta do seu vício, começou a falar sobre ele e comentavam coisas como: "se fosse eu comendo doce todo dia enjoaria em menos de uma semana", "como pode ser tão magro comendo desse jeito?" ou "como que já não tem diabetes esse menino?". Devo dizer que uma afinidade natural aos doces parece ser a única explicação. Pois bem acontece que sua mãe desconhecia não só a atividade do filho na doceria, mas também a fonte de seus gastos que era seu próprio dinheiro a qual este surrupiava. E como era de se esperar de uma cidade pequena, onde cada caso já nasce fazendo curva, de esquina a esquina o que era indivíduo vira um coletivo e a Sra. Goiabo mesmo sendo a última descobriu tudo. Ela poderia e aqueles especialistas em maternidade sem filhos apoiariam, privá-lo do doce e livrar o menino do seu vício, mas veja bem estamos falando de um garoto que além de não estudar também não fazia nada para cuidar da casa, ou seja questões maiores que uma compulsão por doce. Apoiando-se, então, da obsessão do garoto Sra. Goiabo, que passou a esconder melhor seu dinheiro, decidiu recompensar seu filho com doces por cada tarefa feita em casa, por cada hora de estudo e entre outros afazeres dos quais Marcelo não fazia por conta própria.

Desse modo o garoto que tinha sua vida baseada apenas em comer cocadas e bem-casados entrou em uma rotina repleta de exercicios de matematica e panelas para serem limpadas. Até aí estava tudo bem eram tarefas das quais ele já devia estar fazendo a muito tempo sem ao menos ser recompensado, mas infelizmente o poder também pode se tornar um vício. Ao perceber que Marcelo estava realmente disposto a fazer de tudo por doces sua mãe começou a exigir mais e mais dele pensava, a princípio, em parar quando ele não estivesse mais aguentando e a partir daí estabelecer um limite. De certo modo foi o que aconteceu, a senhorita chegou ao ponto de tratar o filho como um servo que estava lá para satisfazer seus caprichos inclusive parou de pedir que ele estudasse para se dedicar mais a sua mãe, mas mesmo vendo que o garoto já não aguentava mais Sra. Goiabo continuou.

Marcelo que de início achou a troca justa com o andar da carruagem percebeu que não era compensatório polir a prataria duas vezes ao dia em troca de um único pedaço de goiabada. Tendo isso em mente arrumou suas coisas na calada da noite e foi embora para a Casa do Doce, seu plano, que para uma criança de sua idade parecia ser plausível, seria de morar em cima do telhado do estabelecimento e quando for de noite iria abrir um espaço entre as telhas e descer em direção ao local onde guardava doces para se alimentar. Penso, porque já tentei fugir de casa quando era pequeno por não aguentar mais treinar letra cursiva, que este era um plano de curto prazo, uma espécie de chantagem emocional cujo intuito seria amolecer o coração de sua mãe fazendo-a desistir de impor tantas tarefas.

Bom, cinco dias se passaram e ninguém sabia onde estava Marcelo, Sra. Goiabo que já havia procurado-o por toda cidade estava desesperada e arrependida do que tinha feito. Então, para se aliviar da dor causada pela desaparecimento a senhorita decidiu comprar uma guloseima. Era sua forma de reconectar-se ao filho. Ao chegar na Casa do Doce foi logo escolhendo seu preferido um doce de leite com creme de goiaba. Mas, quando foi pagar o vendedor disse que os produtos estavam mais caros devido aos gastos para reformar o telhado quebrado, só que devido ao desaparecimento ele não iria cobrar o aumento. Creio que se importasse mesmo não teria era cobrado nada daquela pobre mulher.

Chegado em casa Sra. Goiabo começou a desfrutar do doce, mas por mais que aquele fosse o seu preferido, ela não se sentia alegre, a cada colherada vinha um lembrança do filho fazendo-a chorar. Era como se cada colher carregasse um pouco do garoto e mesmo aquele pote não estando gostoso como de costume ainda assim ela não parava de comer. Compulsivamente aquela mãe devorava o doce de leite tentando, porém sem sucesso, matar sua saudade, mas foi ao finalizar o pote que seu rosto se desmanchou de vez em lágrimas. No fundo dele encontrou o pingente que seu filho tinha herdado do pai e nesse momento sua mão pesou pois agora ela percebia que estava segurando um caixão de vidro.


Notas Finais


Esse conto também está disponível na minha conta do wattpad.


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