História California - Capítulo 1


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Categorias John Lennon, Paul McCartney, The Beatles
Personagens John Lennon, Paul McCartney
Tags Beatles, John Lennon, Mclennon, Paul Mccartney
Visualizações 29
Palavras 4.466
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Ficção, LGBT, Romance e Novela, Yaoi (Gay)
Avisos: Adultério, Bissexualidade, Drogas, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


olá, seres que leem fanfics mclennon. tudo bem?
declaro desde já que essa fanfic bebe na fonte do norman fucking rockwell, o novo álbum da lana del rey.
então cada capítulo vai ter nome de uma música do álbum e vai contar mais ou menos a construção narrativa da música.
então se você ainda não ouviu (ou não gosta), fique de boa. vou deixar sempre a letra nas notas finais :)
certinho?
beijinhos e desfrutem :)

Capítulo 1 - Parte I - Mariners Apartment Complex


Fanfic / Fanfiction California - Capítulo 1 - Parte I - Mariners Apartment Complex

 Ele não precisava ser mais forte do que realmente é, quando está nos meus braços. E muito menos precisaria ser mais rápido do que os meus carros. Eu gostaria de voltar atrás no tempo para não lhe dizer nada, mas eu havia lido numa carta a um amigo em comum que ele sentia saudade de mim. Tentei ligar para ele, mas eu não consegui dizer nada, então eu prometi a mim mesmo que iria buscá-lo.
Sobrevoava o céu americano com o alívio de ter optado pela melhor atitude que tive em toda a minha vida. Nestes poucos trintas anos de vida, fiz o que pude e isso basta. Bastou. Cruzava o oceano em direção à França com a melhor companhia que alguém poderia ter. Estávamos finalmente em nosso caminho para casa.
A verdade é que amei passar esses últimos dias na estrada americana, mas tudo começou ainda na grande Nova Iorque, state of mind. E se eu tivesse que contar a você, meu querido amigo leitor, como tudo aconteceu, você não acreditaria na facilidade que o destino me pregou.
Uma semana atrás, eu ainda estava em Sussex, na minha confortável fazenda. Linda, as crianças e eu – maldito hábito de chamá-las de crianças quando são adolescentes sofrendo por paixões, espinhas e crises existenciais. Pois bem, estávamos em uma conversa bastante franca e sincera, quando anunciei aos meus filhos que eles não viajariam conosco.
                - Papai, mas eu queria ir pra Disney. – reclamou Stella num tom abusivo.
                - Com que dinheiro, minha filha? Você nem trabalha.
                - Com o seu, oras.
Fingi não ouvir o seu protesto de menina branca e privilegiada para não perder a paciência com o que realmente importava: a viagem aos Estados Unidos da América. Sim, Linda e eu estávamos prestes a embarcar em mais uma série de shows pelo maior país do mundo e apesar de a turnê ser grandiosa, não era esse detalhe que me assustava e me fazia perder o sono. Ah não, não era esse mesmo, de jeito nenhum. Essa preocupação que me aperta o peito e dá um cansaço, esse frenesi gigante dentro do meu coração, tem nome composto e sobrenome, tem duas pernas e fala. Ou melhor, canta. Melhor ainda, encanta.
                - Vocês vão fazer uma segunda lua de mel? – perguntou Mary, sendo mais sensível e racional do que sua irmã mais nova. – Por isso quer que fiquemos mais longe?
                - É quase isso, Mary. – respondeu Linda, apertando minha mão.
Linda conseguia lidar melhor com essa história do que eu, inclusive disse que poderia ter feito esta surpresa há anos, que todo tempo que perdi deve ser aplicado neste ato de coragem e bravura. Ela sempre sabia mais do que eu e sempre saberá. Mas agora, eu não tive coragem e mal posso explicar a você o que deu em mim para ter coragem.
                - Você pensa que as crianças vão acreditar na nossa história? Que elas não vão desconfiar de nada? – perguntei ainda constrangido, sem saber direito quais palavras usar para mostrar-lhe o quão grato eu estava.
                - Oh, meu amor, elas já acreditaram. Confie em mim, Paul.
Ficamos em silêncio por cerca de cinco minutos, apenas a ouvir a respiração um do outro e isto, de fato era tranquilizador, pois eu sabia que ela estava ao meu lado para o que der e vier. Eu estava prestes a desistir e jogar tudo para o alto, entretanto, Lily interveio dizendo como um homem de quase quarenta anos ainda podia ter medo de seguir seu coração. A verdade é que não consigo me entregar. Se eu sinto que estou perdendo o controle de mim mesmo, eu me cerco de medo e nervosismo. Eu posso amar profundamente, sei que sou capaz, mas esta mania irreparável de se prender se transformava num “quase”. Só que este “quase” nos separou diversas vezes e foi este “quase” que sempre atrapalhou a nossa vida.
                - Já sabe o que fazer quando a hora chegar?
                - Linda, às vezes eu acho que você não me conhece direito. Você não sabe o puta medroso que eu sou?
Respondi a ela provocando alguns risos como resposta enquanto ela andava em minha direção para se jogar em meus braços e beijar-me na bochecha como uma boa e velha amiga faria; encorajando-me, dando força.
Eu estou vestindo o casaco que ele mais gosta, mas mal poderia esperar para ele assistir-me despir de todas as roupas. Por favor, querido, faça o meu corpo pirar. Eu sussurro ao pé do seu ouvido que você é o melhor. Estou me inclinando para receber um grande beijo, coloquei o seu perfume favorito. É você, é para você, tudo que eu faço é para você. Antes, a vida costumava ser um paraíso na terra com você. Eles dizem que o mundo foi feito para nós dois. Querido, estou amando você.
                - Você pode ir cortando pelo parque, Edward? – pedi ao motorista que me levasse para a rua 72.
Ele simpatizou pelo meu pedido e o cumpriu assim virando à esquerda, sempre à esquerda. Perguntou se eu me incomodava pelo rádio ligado e eu, obviamente, respondi-lhe que não.
“Embalando nossos caros ouvintes nesta segunda-feira de verão na Grande Maçã. Esta foi a semana dos Beatles na rádio e você sabe que não podem ser apenas rumores da possível reunião da maior banda de todos os tempos”, anunciava o locutor da rádio me fazendo revirar os olhos por ter ouvido a mesma história durante semanas. “Não seria incrível ter aqueles quatro cabeludos de volta? Então, dedicamos a nossa próxima música a essa banda revolucionária do rock. O novo single de John Lennon é o lançamento da semana. (Just like) Starting Over é a música número um na América”.
                - Parece que seu amigo se deu bem. – disse Edward parabenizando John.
Amigo... que assunto polêmico. Eu nunca pude entender muito bem por qual motivo as pessoas tratavam John e eu como velhos amigos... Simplesmente amigos, quando sempre demonstramos o nosso amor nos palcos das turnês, quando interpretamos um casal de Shakespeare para a televisão britânica, quando dedicamos música um ao outro e eu jamais consegui compreender como uma alma sequer não me pergunta sobre “Dear Fried”. Passei anos com a verdade entalada na garganta e agora morria de vontade de sair gritando por aí que o maior amor da minha vida não é minha esposa, mas sim, John, meu querido Johnny.
                - Amigo. – respondi-lhe num tom irônico. John nunca foi meu só meu “amigo”. Sempre tivemos amor de homem e homem.
Na rua 72 com a esquina da Central West Park fica o Edifício Dakota, um dos principais e primeiros prédios de luxo da ilha de Manhattan. O local era majestoso e certamente a maior obra prima da arquitetura predial que eu já havia visto. Era de uma beldade da art nouveau com um grandioso telhado em picos medievais e de nichos no estilo francês. Com os dedos apontados para a janela, contei quantos andares possuía e eram sete no total. Ele morava no último, que privilégio de vista. Rapidamente abri a porta do velho Corcel I amarelo de um tom quase enferrujado e pedi a Edward que me entregasse as chaves e dava-lhe o dinheiro para o táxi. Aqui começava a minha jornada. Estes últimos dias, eu os nomeei de dias corajosos, pois fiz coisas que jamais pensei em fazer, por exemplo, ir à Nova Iorque de coração aberto e as costas doendo, assim eu posso dizer, pelo peso de carregar toda a culpa do meu passado. E eu carregaria esse fardo por muito tempo. Porém, era com a cara e com a coragem que eu atravessava a entrada do edifício Dakota. Não foi preciso entregar qualquer documento ou coisa parecida, o meu rosto ainda é muito familiar e não bastou dizer nada para o porteiro, que me olhava de queixo caído ainda sem saber o que fazer.
                - Acho que sabe o que eu vim fazer aqui. – disse a ele abaixando a cabeça em tom de súplica.
Ele era um bom homem, de mais ou menos cinquenta anos e que trajava uma roupa despojada de veraneio e ouvia a transmissão via rádio de um jogo qualquer de futebol. Não tardou muito para que se apresentasse como Samuel e dizer que estava impressionado por me ver ali. Respondi a ele que o prazer era todo meu, por conhecê-lo. Logo ele levou as mãos ao aparelho de interfone e discou para o apartamento do sétimo andar.
                - Senhor Lennon, há uma visita para o senhor. – anunciou.
                - Amigo ou inimigo? – perguntou John fazendo-me rir.
                - Eu acredito que ele seja um velho amigo, senhor. É um rosto muito familiar. – Pensei que amigo era a palavra do dia.
                - Então é melhor que seja mesmo.
Assim foram as últimas palavras de John pelo interfone e autorizava a minha entrada, onde eu fui levado até o elevador majestoso com cabine de madeira e detalhes em ouro. Vi as mãos trêmulas da ascensorista ao cumprimentar-me e dizer que era uma grande fã dos Beatles, de mim e de John também. Contive o riso para não ser taxado de mal-educado quando ela me pediu um autógrafo para seu filho, que em minha homenagem se chamava Paul. Subimos um, dois, três, quatro, cinco, seis e mais. Até chegarmos ao sétimo andar.
Imagine que o elevador se abre e um homem de cabelo bagunçado. Imagine que este é o homem da sua vida, que você não vê há anos e mal sabe como dizer a ele ou descrever o tamanho de sua saudade. Imagine estar em frente do seu grande amor e sentir seu coração em chamas, queimando à distância. Imagine que este homem lhe tenta dar um ar de superioridade, um olhar de arrogância e mal te cumprimenta, apenas te encara, imagine. Que após tanto lhe observar, este homem diz que está cansando ficar de pé e lhe deixa entrar. Ele veste roupas escuras, uma jeans batida, um suéter preto e tem os cabelos mal cortados e esvoaçados num tom acobreado, alguns fios brancos pairam em sua cabeleira – que no passado costumava ser igual a minha. Com o passar dos anos, o nariz passou a pender ainda mais para frente e seus lábios se estreitaram. As linhas de expressões deixaram de ser tênues e ainda assim com tantas imperfeições da natureza humana, eu o considerava o mais belo de todos. Este homem diz para você tirar os seus sapatos e ficar totalmente descalço num chão de carpete fofo e branco. Seus pés deslizam como dedos no piano a tocar Variações de Bach. Ele pede para você ir à sala branca, que tem esse nome por ser pintada de branco e ainda ter um piano branco à esquerda, sempre à esquerda, onde o sol reflete nas fotos do casal de cabelos compridos e de um belo bebê de olhinhos puxados. Estou tão feliz que ele arranjou tempo para ficar com o seu filho. Gostaria de lhe perguntar como anda a vida e como vai a sua família. Eu não os vejo faz um tempo. Bem... Ele parecer estar bem, mais ocupado do que nunca, como se ter ficado longe de mim pode ter lhe dado um pouco mais de paz. Por favor, vamos jogar conversa fora, falar sobre o trabalho e os velhos tempos perdidos. Ainda somos jovens, não é? Mas nada disso vai acontecer. Ele está na defensiva, e eu sei o motivo. Você pode dizer que eu sou um sonhador, mas isso aconteceu de verdade.
                - És o valente Paul McCartney, eu presumo?
                - Sir Jasper Lennon, eu presumo.
E essa foi a maneira como nos cumprimentamos de uma maneira esquisita sem abraços ou beijos. Sem qualquer tipo de carinho afetuoso ou qualquer festividade. Isto, preciso dizer a verdade para vocês... Isso quase partiu o meu coração em mil pedaços, pois percebi que John – o antigo abraço e sorriso festivo da minha chegada – não tinha a mesma intenção que eu.
                - O meu passado me condena, McCartney. E o seu?
                - O meu costumava me atazanar, mas agora sou só eu, Paul.
                - O fantasma do Natal passado.
O silêncio pairou entre nós e este maldito vivia a nos perseguir durante os últimos anos e não era de se estranhar que John me tratasse tão mal deste jeito. Ele ainda tinha muita angústia e rancor em seu coração, enquanto no meu apenas pairava uma forte brisa de nostalgia e um forte arrependimento. Então esse sou eu engolindo meu orgulho e a minha teimosia, em pé, na sua frente, tentando encontrar maneiras de dizer que sinto muito por aquela terrível noite de 1969. Procurando alguma coisa para lhe falar que o casamento não se mostrou ser nada além de sentir saudades suas, querendo a todo instante ter percebido o quanto era especial para mim. Buscando uma forma de tentar lhe explicar que todos os dias desde aquela noite eu dou meia volta e retorno para 1969.
                - Espero que não se importe com a minha visita. – falei fazendo romper o silêncio.
                - Acho que agora é muito tarde para dizer se me importo, não é?
                - John...
                - Yoko não está. – ele falou abruptamente antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.
                - Oh...
                - Ela foi à Washington. Ela tem uma exposição com arte performática lá. Só volta na sexta-feira.
                - E o Sean? Ele está aqui?
                - Não.
                - Oh...
                - Vai ficar gemendo, Macca?
A sua ironia parecia ser a mesma de antigamente e ela ainda era capaz de me levar às gargalhadas, embora John não visse graça alguma nas minhas risadas. Encostei-me ao sofá branco e relaxei os músculos. Tratei de tirar o maço de cigarros do bolso do blazer, pois só fumar iria me fazer relaxar o suficiente para aquela situação de vexame. Logo, para quebrar o gelo, John saía de sua poltrona e arrastava os pés vagarosamente em minha direção para me pedir um cigarro. Ele podia ter se casado com Yoko, ter aderido a meditação à sua rotina e seguir a tal da nova dieta macrobiótica, mas sempre seria o rebelde que roubava cigarros comigo nas lojas de Albert Docks. Traguei o Marlboro forte e amargo, senti a fumaça me entorpecer e deixar-me inebriado pela nicotina, o mesmo fez John a tragar seu cigarro a me encarar fortemente atrás de óculos redondos de lentes coloridas.
                - Então, estamos a sós? – falei baixinho, arregalando os olhos e tentando cativá-lo.
                - Só você e eu.
Isto poderia ser melhor do que eu podia imaginar. E é aqui, meu querido amigo, que começava a narrativa da sorte, do destino bom que eu pude ter. Yoko não estar em casa era como tirar um coelho da cartola.
                - Quer beber alguma coisa? – ele perguntou apagando o cigarro e o jogando no cinzeiro.
                - Uma xícara de chá. – respondi fazendo o mesmo.
Levantava-se de mau jeito, com a postura torta e uma cara de quem estava se sentindo incomodado. Oh, céus! Que homem malcriado eu fui me apaixonar. Ele confundia minha gentileza com fraqueza. Eu estraguei tudo, eu sei, mas Deus, não posso apenas fazer o melhor que consigo? Pelo menos estávamos a sós e nada nem ninguém poderia nos atrapalhar, a não ser nós mesmos. E isso era suficiente para me animar. Ele mal sabia o que esperar.  John não dava um sorriso sequer e cada vez mais que eu forçasse simpatia, mais ele se afastava. Ele sempre foi tão engraçado, selvagem e nem poderia imaginar o quão na merda eu estava.
                - Camomila, chá verde ou erva-doce? – pelo menos tinha decência de me perguntar o sabor.
                - Tanto faz, John. – respondi-lhe tentando soar mais natural possível.
Mudando de assunto, falei a ele que eu havia trazido um presentinho, uma pequena lembrança. Tirei a fita cassete do bolso do meu casaco e a coloquei em cima da mesa.
                - Tem algumas faixas do meu próximo álbum.
Ele pegou a fita e a olhou como se fosse uma pequena bombinha radioativa que lhe causaria um terrível mal. Era um absurdo. Mal sabia ele quantas canções eu lhe dediquei, bom, ele é um homem inteligente, talvez soubesse de tudo. Esses dias eu não tenho dormido. Fico acordado me lembrando de como eu fui embora, de quando eu me casei e deixei de lutar por seu amor. Então chegou seu aniversário em 1970 e eu não te liguei. Nunca mais eu te liguei, não é? Então, eu me lembro do verão que nos conhecemos, de quando eu o vi bêbado a dar risada, sentado num ônibus. Eu calculei bem e percebi já te amava no outono. E depois vieram os dias escuros, junto com o frio, quando o medo e o ódio invadiram a minha mente. No inverno você me deu todo o seu amor, ofereceu o seu nome a mim e tudo que eu te dei foi um triste adeus.
                - Você pode gostar, John.
                - Será? Om... When you were young and your heart was an open book. You used to say….
                - Eu sempre soube que você ouvia as minhas músicas. E eu aposto que gosta delas.
                - Saber a letra não é gostar, Paul.
                - Hm, ok...
                - Qual é, Paul. Você sempre foi dedicado. É quem faz mais sucesso depois dos...
                - Depois dos Beatles. Há dez anos.
Automaticamente nossas mentes viajavam para as últimas sessões de gravações do Let it Be, quando John e eu estávamos em uma fase onde mal trocávamos olhares e isso me machucava tanto. Como no dia que ele me mostrou uma gravação dele com Yoko, quando disse que não queria mais segurar em minha mão, entre outras coisas, além de vê-lo andar com Yoko daqui para acolá. Todas essas velhas lembranças me davam mais sensação de que eu deveria ter aproveitado mais, ter tido John nos meus braços por mais tempo. Se eu soubesse que a vida que nos aguardou seria essa distância e rudeza, eu teria deixado mais claro que Oh Darling era para ele. E todo este tempo, eu me perguntando quem fui. Eu fui alguém com você nessas praias, nessas docas, nessas cidades tumultuadas. Sua vadia de Cavendish, sua teimosia, sua fraqueza. Por favor, eu pedia aos céus, por favor, John, salve-me.
                - Você tem falado com os outros? – perguntei com a voz falhando.
                - Os outros Beatles?
                - Sim.
                - Bem, Paul... Às vezes falo com Ringo sobre coisas banais, você o conhece... Já, George e eu não nos falamos mais.
                - Ringo me disse que gostou muito de (Just Like) Starting Over.
                - E você? Gostou?
                - Claro, realmente é uma canção muito bonita.
Meu comentário parecia fazer algum efeito sobre ele, como se ele estivesse orgulhoso do que havia feito, mas logo se debruçava, jogava os ombros e ficava com jeito e quem pouco se importava sobre eu gostar ou não da música, que eu pensava ter sido escrita sobre nós dois. Fazia tempo que eu não pensava em “nós” com tanta frequência. Eu sinto falta da sua pele branca, do seu doce sorriso de dentes pequenos, dos seus olhos miúdos. Tudo tão bom para mim, tão certo, tão harmônico. E como você me segurou em seus braços naquela noite de fevereiro neste mesmo país, nesta mesma cidade. A primeira vez que você me viu chorar. Talvez isso seja bobo de se pensar, provavelmente uma coisa estúpida, mas se nós nos amássemos novamente, se tudo voltasse a ser como era antes, eu juro que te amaria direito, que te daria valor. Eu voltaria no tempo e mudaria tudo, mas é impossível.
                - Estamos ficando velhos, Paulie Paul – falou ele, servindo-me o chá.
                - Ah, diga isso para você mesmo, senhor de quarenta anos.
                - Sente-se tão especial e jovem só por que é o beAtle que mais faz sucesso? Ora, eu também faço.
                - Mas eu ainda tenho um rostinho bonito. – gabei-me.
Pela primeira vez na noite via John sorrir e eu aprendi que teria de ser o mais natural para tê-lo de volta. Talvez possa ter sido a minha espontaneidade que tenha lhe feito mostrar os dentes. Depois de o chá ficar pronto, sentamos-nos à mesa como garotos decentes, à estilo da tia Mimi e eu sentia o coração bater mais depressa ao ter John tão perto, ao roçar minhas pernas nas dele, a menos de um braço de distância.
                - Eu tenho maconha. – avisei-lhe. – E é da boa.
                - Graças a Deus, McCartney, eu já estava quase te colocando para fora da casa. – ele falou entre suspiros. – Você vem a minha casa e traz uma merdinha de fita. Tá doido?
Suas mãos se encontraram e num movimento rápido se friccionaram num gesto de excitação. Assim que tirei a caixa de cigarros do bolso, John logo pediu para cheirar a erva, apenas a fim de saber se era de boa qualidade mesmo.
                - Promete não contar a Yoko? – perguntou inocentemente como se eu fosse amigo de sua esposa.
                - O que acontece entre Lennon-McCartney fica entre Lennon-McCartney.
A minha fala parecia tê-lo animado e de mente sagaz John captou o duplo sentido da frase.
Eu novamente pensava, você me encontrou John, você precisa de mim. Respire fundo, querido John, deixe-me entrar.  Abruptamente seu olho esquerdo se fechava num rápido movimento de piscar de olhos, que me fazia derreter de amor e puro tesão internamente. Todo esse charme para tirar a erva da minha mão e bolar direitinho, como ele sempre fizera.
Conversar sobre a diferença entre a maconha inglesa e americana não era algo que eu gostaria de fazer, mas deixei o papo fluir naturalmente até ver aonde chegaríamos.
                - A mãe criou uma regra: nada de drogas ilícitas nesta casa.
                - A mãe?
                - Yoko. – respondia ele fazendo com que eu gargalhasse muito alto.
                - Jamais imaginei que John Winston Lennon aos quarenta anos chamaria sua esposa de mãe.
                - E eu jamais imaginei que estaria casado com uma mulher aos quarenta anos, Paul.
                - E se não fosse com uma mulher com quem seria, John?
                - Eu não sou um medroso de merda como você é, caralho.
Ele me deixava para baixo, tirava a minha tristeza fora de contexto e me jogava para o caminho da solidão. Eu sempre soube que John é o tipo de pessoa que lhe questiona quem você é e por onde você esteve, porém, eu havia sumido, pior ainda, havia cometido uma lista enorme de erros. Desapareci por anos e não faço ideia em quem me transformei, a única certeza que carrego nesta vida é de meu amor infinito por John. Talvez ele fosse o único a me salvar dos meus pecados.
                - Você não achou que eu te receberia como todo meu amor e carinho, não é, McCartney? – falou entre tragadas.
                - Não criei expectativas enquanto a isso, John. Nem sei se você me ama mais.
                - Porra, Macca. Você me machucou.
                - Por favor, John, não seja inocente. John, você mesmo disse o quanto me machucou.
                - Caralho! Você é um insolente. Não admite a culpa uma vez se quer. Quem errou foi você, porra!  – falou gritando desta vez. – Toma esse teu beck de merda.
Saiu da cozinha e se dirigiu para outro cômodo da casa, mas antes disso fez questão de jogar o cigarro aceso em mim, como eu fiz outrora. John tinha mesmo uma memória de elefante.
O ano ainda era 1969, ainda sem bandas fugitivas e sem cantos para criar uma sociedade baseada na imaginação. Éramos dois namorados separados pela base da desunião e quando muito se especulava o quanto nós nos odiávamos, eu parava e pensava se talvez John não me amasse mais, mas a partir daquele encontro eu soube que ele me amaria até seu último suspiro. E o mesmo acontece comigo. Era uma noite fria e chuvosa, a neve começava a sair à francesa em Londres, eu cobri Martha com uma manta de lã e me preparava para dormir cedo naquela noite quando de repente fui surpreendido pelo som do telefone. Alô, disse eu ainda à espera de uma voz que tardou muito para responder o meu chamado. A respiração era ofegante e cansada. Havia um desespero do outro lado da linha e eu podia senti-lo. Quando emitiu som, a voz foi clara e objetiva. Não se case com ela, por favor. Era John, eu sabia que era ele desde o princípio. Mas o que eu poderia fazer? Respondê-lo à altura? Dizer que não? Dizer que sim? Eu não sabia o que fazer e não tive resposta para o seu pedido.  Não posso deixá-la, John. Automaticamente ele entendeu que eu não poderia deixar Linda, mas que estava o deixando. Era o suficiente para ter um John aos pedaços em plena madrugada de março. Eu me recusei, eu o recusei e no dia seguinte atravessei a porta do mais tradicional cartório de Londres para casar com a única mulher que amei na vida, Linda. Eu desisti de amá-lo e este foi o maior erro da minha vida.
                - John.
                - O que é? – respondeu-me ascendendo um de seus cigarros.
                - Se você ainda se importa com isso é por que ainda me ama?
Sua face se desmoronou numa carranca sisuda, seu maxilar cerrou, seus lábios se fecharam numa forma única e raivosa, seus olhos se estreitaram e o nariz arfava um ar de contradições. Era óbvio que me amava, era claro que seus sentimentos por mim ainda eram fortes. Eu podia vê-lo lutando contra seu claríssimo amor, resistindo bravamente, mas não havia o que lutar contra, eu sou seu, John.
                - Para que veio até aqui, McCartney?
                - Para cairmos na estrada com poesia beat, ao som de jazz, fazer o que você quiser, John.
                - O quê? – perguntou-me assustado.
Oh, meu bem, pensei, vamos à costa dourada da California Dreaming. Faremos o que você quiser, John. Vamos viajar sem nos importar com a distância. Vamos a todos os velhos lugares e conhecer o que sempre sonhamos ver neste doce sonho americano. Faremos uma festa, dançaremos até o amanhecer. Eu comprarei todas as suas revistas de militância e humanidades, assim também o seu licor preferido da melhor qualidade. Cereja é o seu sabor, não é? Nós daremos uma festa a noite toda.
                - Paul... Por favor.
                - Não, John, eu que lhe peço... Por favor.
Ninguém agora poderia me parar. Meu bem, eu estarei voando alto. As suas palavras pesadas não podem me entristecer. John, eu ressurgi dos mortos. Falei correndo em sua direção. Desta vez lhe recorria ao tom de súplica, tomando a liberdade de colocar a mão sob sua face. Você está perdido neste mar imenso, apenas pegue minha mão. Então, eu vou conduzir este seu barco de volta para mim. Não me procure longe demais. Aí onde você está é onde eu estou. John, você não pode ver? Eu sou seu homem, eu sou seu homem, John.


Notas Finais




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