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História Caminho da Afirmação - Capítulo 39


Escrita por:


Capítulo 39 - Y.F.


P.D.V. Guilherme

Sábado, 30 de agosto.

Já está de madrugada quando meus pais chegam em casa. Estou esperando por eles na sala há horas, totalmente pilhado e sem sentir sono. Noto que estão meio animados, usando umas roupas elegantes, devem ter ido jantar em algum lugar bacana.

— Meu bebê! O que está fazendo acordado a essa hora? — minha mãe me pergunta olhando-me curiosa.

— E o que está fazendo aqui a essa hora? Esperando por nós? — pergunta o meu pai.

Eu fico de pé e cruzo os braços.

— Sim. Quero conversar com vocês.

— Assunto sério?

— Sim, senhor.

Minha cabeça está doendo tanto que dói até para falar. Eu só queria levar um soco de alguém para esquecer o que li e dormir até o século que vem.

— Eu não quero saber de problemas agora! Roy, toma conta dele que eu vou tomar um banho. — minha mãe segue para subir a escada.

Mas é com ela que tenho que falar.

— Eu quero que você me ouça, mãe! — aumento a voz.

— Não pode ser amanhã, Guilherme? — revira os olhos. — Estou muito cansada!

— Hoje já é amanhã. Eu preciso saber de uma coisa. — fecho os olhos. Minha voz treme.

— Você está se sentindo bem? — meu pai me olha estranho. — O que aconteceu?

Olho na direção da minha mãe, que parou no meio da escada.

— Só me diz uma coisa… Quem é Yardley Faris?

Ela aperta os olhos e inclina a cabeça, pensativa. Mas quem responde primeiro é o meu pai:

— Yardley Faris? Eu conheço esse nome. — ele afrouxa sua gravata vermelha e se senta no sofá. — Ele é um amigo nosso, sócio do hospital. É fotógrafo. Fomos no aniversário dele há pouco tempo.

Assinto. Olho de novo para a minha mãe:

— O que mais?

— Não estou entendendo, Guilherme. — ela desce os degraus que subiu. — Seu pai já respondeu.

— Para de mentir! — falo alto e um tanto agressivo.

— Ei, ei, por que está falando assim com sua mãe? — meu pai repreende. — Toma cuidado!

— Eu só quero que vocês parem de mentir pra mim o tempo inteiro! — seguro minha cabeça que parece prestes a explodir.

— E quem está mentindo? Nós já falamos quem é esse homem! Ele é nosso sócio e amigo.

Olho fixamente para minha mãe:

— E o que mais? — repito. — Ele não é mais nada seu, mãe?

— Guilherme… — ela suspira. — Não.

— Nem seu antigo namorado?

Ela fecha os olhos e segura a lateral da cabeça.

— Guilherme, isso é uma história antiga. — meu pai suaviza. — Eu sei disso, mas não importa. É passado.

— É passado? É isso que ela fala pra você?

— Onde você está querendo chegar? — ele fica de pé e me olha nos olhos. — Estamos cansados e você só está nos deixando mais. Vai logo ao ponto. O quê que tem esse homem?

Algumas lágrimas voltam aos meus olhos e eu sinto o coração pesar mais que o corpo. Meu pai não sabe do que estou falando, ele sequer desconfia. Isso está sendo pior do que imaginei.

— Preciso saber…— fungo e desvio o olhar para minha mãe.  — Se tem alguma possibilidade… Desse cara ser meu pai.

Um silêncio se instaura. Meu pai olha em desespero para a esposa, que mantém a postura mas seus olhos se agitam.

— Da onde você tirou isso? É claro que eu sou o seu pai!

— Eu também quero saber de onde foi tirar um absurdo desses! — minha mãe reage. Agora sim parece brava.

— Dessa merda de carta que ele enviou pra você! — pego o envelope preto sobre a mesa e balanço na mão.

— Mas que carta é essa?!

Para respondê-lo, abro novamente a carta e leio o que tem escrito:

"Querida Van,

Que bom que você veio ao meu aniversário dessa vez. É muito bom vê-la, e mesmo que não possamos conversar a sós, só de olhar pra você me vem lembranças ótimas dos nossos anos em nossa cidade. Você, a minha primeira namorada, e eu o seu. Tudo mudou muito rápido mas não posso deixar de agradecer por tudo que fez por mim."

Faço uma pausa, olho para eles que já parecem mais tensos. Eu leio a última parte mais rápido e com mais raiva.

"Como você não atende minhas ligações, não responde minhas mensagens ou os e-mails, vou tentar esta carta. Pra te dizer que aceitei uma proposta fixa para trabalhar no exterior. Minha vida não vai ser mais aí. Estou feliz com essa chance, mas eu quero partir com os pratos limpos. Não é justo que você continue me torturando sobre o meu filho. Ou o filho do seu marido. Peço apenas que me conte a verdade, não preciso me aproximar ou fazer escândalo. Eu só quero saber, e prometo te deixar em paz para sempre."

Meu pai olha para minha mãe completamente em choque.

— Que história é essa, Vanessa?!

— Esse homem está louco!

— Por que ele está escrevendo pra você desse jeito?

— Eu não sei! Amor, ele é obcecado por mim desde que terminamos. Ele nunca aceitou que me casei com você!

— E é esse tipo de gente que você coloca dentro do meu hospital?

Como assim? Foi minha mãe que fez o fotógrafo virar conselheiro do hospital? Eu olho enquanto eles se exaltam, não deixando de me sentir mal e nervoso.

— Ele me ameaçava! Achei que se lhe arrumasse um bom cargo com bom salário me deixaria em paz.

— Ameaçava com o quê?

— Ele… ele dizia que ia contar pra você que o Guilherme é filho dele. Mas isso não é verdade!

— Então por que você faz tudo pra ele não contar ao meu pai? — pergunto. — Por que tem tanto medo que ele fale?

— Eu não sei! Não quero que desconfiem de mim!

Minha mãe se senta no sofá, afunda o rosto nas mãos e chora alto. Meu pai fica impaciente, andando em círculos, balançando a cabeça em negativo. Está desconfiado. E eu também. Não faz sentido minha mãe fazer tudo para esse homem se manter afastado e não revelar algo mentiroso. Se é mentira, qual o problema?

— Vanessa… — meu pai suspira. — Você mentiu pra mim?

— NÃO!

— Você tem certeza absoluta disso?

— Tenho… pelo amor de Deus! — o rosto dela já está todo coberto por lágrimas. Minha mãe não costuma se desestabilizar assim.

— Porque eu me lembro… Que nos casamos muito rápido. Você estava com esse Yardley quando me conheceu. E quando nos casamos, já estava grávida.

— Mas nós ficamos juntos antes do casamento! — ela rebate.

— Eu sei! Mas o que eu tô dizendo, é que fomos rápidos demais… E se você estava com ele antes de mim, pode ser que…

— Não! Não pode! — minha mãe o interrompe. Ela se levanta e fica perto dele. — Roy, o Guilherme é seu filho!

— Então por que esse homem duvida? Por que você tem medo dele?

— Porque ele quer arruinar a minha vida! E tá conseguindo! — ela volta a chorar. Tenta se afastar mas meu pai a segura pelo braço.

— Eu não sei se acredito em você. — diz.

— Roy… — ela choraminga.

— Quando me apresentou a ele como seu ex namorado você me disse que era só um fotógrafo tentando crescer na carreira! Eu fui na sua laia e deixei que ele fotografasse o hospital inteiro para as nossas mídias. E como ficou bom você me convenceu a retribui-lo deixando como nosso sócio! Mas ele só estava te ameaçando esse tempo todo! Por que não me contou a verdade?

— Porque ele iria contar essa ideia absurda pra você!

— Se é absurda deveria ter me contado ainda mais! Mas você mentiu… E agora eu já não sei se acredito no resto das coisas que você me disse.

— Não faz isso comigo… Eu não estou mentindo pra você sobre isso, eu juro!

Meu pai suspira e olha pra mim. Desvio o olhar para o chão. Estou tentando segurar minhas lágrimas, o rosto chega a doer. Nunca me senti tão decepcionado em toda minha vida.

— Quero que você ligue pra esse homem, Vanessa. — meu pai diz com firmeza.

— O quê?

— Diga pra ele vir aqui antes de fazer essa maldita viagem. Vamos fazer um exame.

— Roy, não!

— VAMOS FAZER UM EXAME! — meu pai grita. — Se você mentiu sobre ele, deve ter mentido sobre o Guilherme também!

— Eu não menti! Por que você não confia em mim?

— Eu quero saber se posso confiar. Vamos fazer esse exame e ver se essa história é o absurdo que você está falando ou se é mais uma mentira.

Ele deixa minha mãe sem palavras. Olha pra mim de uma forma inédita e sobe as escadas em silêncio.

— ROY! — ela reage gritando e subindo atrás dele.

Daqui da sala eu os ouço discutirem novamente. Minha mãe gritando que não tem o contato do Yardley e meu pai dizendo para ela se virar, porque aparentemente eles têm mais contato do que ela faz parecer.

Eu me jogo no sofá e deixo as lágrimas escorrerem pelo meu rosto sem segurar mais. É uma dor sem precedentes, um vazio sem igual. Pensar que eu posso ser uma mentira. Toda a minha vida e o que sou podem ser apenas projetos da minha mãe. Meu pai pode ter sido radical como marido em não confiar na palavra dela, mas parece não ter sido a primeira vez que ela mente ou esconde algo dele.

Meu pai? É assim mesmo que devo chamar? Mas que merda, isso parece um pesadelo. Em que dia da minha vida eu poderia imaginar que meu pai pode não ser meu pai? E minha amada avó não ser minha avó?

Eu não quero pensar assim. Não quero que seja verdade. Eu não quero perder a mim mesmo, não quero imaginar que eu não sou o que sou.

É infantil pensar isso, mas eu gostaria de voltar no tempo e nunca ter encontrado essa carta. De continuar acreditando que minha vida manipulada não era tão manipulada.

Está doendo demais, eu não tô conseguindo nem pensar. Talvez devesse subir e conversar com meus pais, pois continuam gritando cada vez mais alto um com o outro, como se estivessem prestes a quebrar a casa. Mas permaneço parado. Meu corpo parece não querer obedecer.

Deito-me no sofá, amassando meu rosto entre duas almofadas, desejando não ouvir mais esses gritos, desejando que essa dor insuportável passe, que toda a confusão suma e que eu pudesse ter uma maldita vida normal; desejando até mesmo que eu nunca tivesse nascido.

 

 

Sinto meu corpo chacoalhar e acordo num susto. Estou no sofá da sala, minha cabeça latejando e as costas doloridas por eu ter dormido de mal jeito. E sinto que dormi por um longo tempo.

— Menino, o que aconteceu? Isso tudo é ressaca de ontem?

Bem que eu queria.

Consigo abrir os olhos e ver Mildred me encarando de uma forma divertida. Ela está mesmo achando que estou de ressaca ou com alguma coisa que não seja grave.

Sento-me lentamente e esfrego os olhos. A sala está toda arejada com as janelas abertas, mostrando como o dia está quente lá fora.

— Que horas são? — pergunto sonolento.

— Quase duas da tarde. Você dormiu bastante, viu? E no sofá!

Estou dolorido como se tivesse dormido no chão. Eu tô é muito fodido.

— Cadê os meus… — hesito. — Os seus patrões?

— Eles saíram bem cedo. Seu pai foi trabalhar e sua mãe foi pra aula de yoga.

Assinto. É o que eles fazem sempre, como se a rotina continuasse inabalável e a vida perfeita.

Mildred se aproxima de mim. Vejo que está segurando um espanador. Ela sussurra:

— Olha, esquece o que a gente disse ontem sobre reconciliação. Já brigaram de novo. E dessa vez parece pior, eles mal se falaram no café. E sua mãe tava com a cara péssima, apesar de ter pintado os cabelos brancos.

Eu não quero saber dela. Ela é uma mentirosa, uma manipuladora que já me parece pior que meu pai… Ou o marido dela. Ela não tinha o direito de nos confundir e brincar com nossas vidas por esses anos todos.

— Eu também vou sair. — levanto-me.

— O quê?! Mas o que deu no pessoal dessa casa?

— Relaxa que você vai saber. — recolho apenas meu celular e a carteira sobre a mesa de centro. — Mas eu não aguento mais ficar aqui dentro.

Sem dizer mais nada, eu saio em acelerado de casa. Caminho sozinho pela rua tranquila, trocando olhares com alguns vizinhos e sinto que eles me olham como se soubessem do meu desgosto, da minha humilhação. Mas isso é coisa da minha cabeça.

Ando sem olhar para trás e chego na praia em alguns minutos. A areia está tomada por vários banhistas se divertindo ou se bronzeando. A água está calma e parece agradável, aprazível demais para alguém tão amargurado como eu. Não pareço digno desse ambiente tão confortável, eu sinto que devo me enclausurar e sofrer até que pare de doer, mas jamais teria tempo para sofrer o suficiente.

Caminho pela orla sentindo a brisa fresca em meus braços e ombros, mas em poucos minutos já estou me sentindo mal de novo, incompatível com a energia tão boa da praia. Hoje não é um bom dia para tanta luz se meu interior está às sombras.

Eu volto alguns metros e sigo para meu quarto secreto aqui perto. Pelo menos estou com a chave.

Tomo um banho e uso roupas frescas minhas que ainda estão aqui junto às coisas de Eris. Deito na cama e sinto o cheiro dela, e me sinto sozinho, nunca quis tanto que ela estivesse aqui comigo. Porque ela me ouve e me dá conselhos, e eu tô precisando muito dela. Mas ainda deve estar acompanhando a cirurgia com seu professor, essas coisas demoram.

Respiro fundo e sinto que estou chorando novamente. Parecendo um moleque. Mas a dor é mais forte, não tem para onde correr. Eu quero deixar de sentir mas ela é para ser sentida.

Devia ter pesquisado melhor sobre esse fotógrafo. Eu não tive nenhuma malícia. Por que não lembrei do álbum de fotos que encontrei no ano passado? Por que não achei grave um fotógrafo participar de um conselho de hospital, afinal o que raios ele tem a ver com isso? Por que não desconfiei desse homem estar reservado na agenda da minha mãe?

O meu pai tem razão, ela ainda tem contato com ele. E ainda vai à festa dele como se não houvesse algum problema. Ela mente sem nem sentir mais. Quantas coisas mais ela não deve esconder? E quantas coisas mais eu não percebo porque não quero ver, porque não quero sentir a mesma dor de agora?

Esse tempo todo eu estava dentro de um frágil castelo de cartas. Eu era o filho do rei. Mas agora as cartas estão caindo e só resta eu. E se eu não for mais o filho do rei, quem eu sou então?

Eu não aguento mais, vou acabar surtando. Já sinto dificuldade para respirar. Preciso me acalmar. Preciso falar com alguém.

Eu pego o meu celular e disco para a única pessoa confiável nesse momento. Julie atende e não demora para passar pra minha avó.

— Meu anjo, você está chorando?

Respiro fundo. Eu tenho que manter a calma.

— Desculpa… Como está a senhora?

— Estou bem. Quer dizer, agora preocupada.

Será que é mesmo uma boa ideia falar com ela sobre isso? Não posso testar assim a saúde dela. Caralho, eu sou um insensato. Agora ela já percebeu e não tenho como voltar atrás.

— Desculpa. — peço novamente.

— O que está acontecendo, Guilherme? Fala com a vovó.

As palavras somem. Como vou dizer isso a ela? Foi uma péssima ideia. Eu deveria fingir que a ligação caiu e desligar agora mesmo. Mas do que adiantaria? Eu continuaria me sentindo sozinho e ela já está transtornada.

— Desculpa, vó.

— Fala logo! Não me deixa nervosa.

— É que… — pauso para respirar de novo. Está doendo. Eu decido não falar como se já estivesse tudo arruinado, embora eu sinta que está. Em vez disso, pergunto a opinião dela. — Vó… a senhora acha que eu posso não ser filho do meu pai?

— Meu Deus do céu! Guilherme! — ela está espantada. — Meu anjo, agora eu acho que você foi longe demais nas suas ideias conspiratórias.

— Eu queria que fosse uma dessas ideias, vó. — suspiro. — Mas não é.

— Mas isso não faz o menor sentido. Da onde tirou isso?

Respiro fundo:

— Quando nos reencontramos ano passado, eu comecei a ver se tinha algum documento em casa pra entender as coisas do hospital. Eu mexi nas coisas da minha mãe e encontrei um álbum de fotografias antigas dela, de antes de conhecer o meu pai. — de repente está estranho falar a palavra "pai". — Lembra que falei pra senhora que temos um conselheiro que é fotógrafo?

— Lembro.

— Pois é o mesmo nome que tem nesse álbum. E ontem… eu encontrei uma carta desse homem pra minha mãe. Abri e li… Descobri que ele foi namorado dela antes do meu pai. E que ele desconfia que posso ser filho dele.

Minha garganta seca, dói, preciso parar de falar por um momento. Engulo o choro.

— Isso não é verdade, meu anjo.

— C-como a senhora sabe?

— Porque eu sei! Meu Deus! É claro que você é meu neto. Eu te vi nascendo, cuidei de você quando bebê e criança, eu te peguei no colo… Eu sou sua avó! Você é filho do meu filho. Não tem como ser outra coisa. Não tem!

Ela pode ter feito isso tudo mas basta o DNA não ser compatível para ela não ser mais a minha avó. Não estou falando sobre relação de afeto, porque aí é outra história. Estou falando de sangue. Estou falando de tudo que me fizeram acreditar desde que eu nasci.

— É verdade que minha mãe já estava grávida quando se casou?

— É sim. Mas o que isso importa? Ela e seu pai se apaixonaram assim que se viram!

Como não pensei nisso antes? Ele deve ter se casado para assumir o filho que ela jurou ser dele. Antigamente isso era comum pois era meio escandaloso uma grávida solteira. E por mais que eu odeie e me doa dizer, minha mãe deve ter preferido que a criança fosse filho de um futuro médico de família estável. Como se ela pudesse escolher.

— O meu pai… — de novo eu estranho. — Ele sabe que minha mãe namorou com o fotógrafo. E ele mesmo disse que ela trocou para ficar com ele, mas que foi num espaço de tempo muito pequeno. E quando casou… ela estava grávida. Então acredita que pode ser de qualquer um dos dois. Ele só não se tinha perguntado isso antes porque não sabia que o fotógrafo desconfiava disso e vivia chantageando minha mãe.

— Chantageando?

— Sim. Ela convenceu meu pai a torná-lo sócio conselheiro porque ele ameaçava de contar pro meu pai que posso ser filho dele. Ele ganha aquele salário altíssimo porque minha mãe tem medo dele! A senhora entende como isso é grave?

E ele é apenas um dos vinte e tantos conselheiros. Se ele tem uma história suja para estar ali, imagina os outros. Imagina qual grande mentira é a rainha que todos guardam para manterem seus cargos e meu pai obedecendo como um cachorrinho. Dá até medo de pensar. Eu ainda vou descobrir, mas agora não é hora disso.

— Ela não foi sincera com o meu pai sobre isso e agora ele está desconfiando que ela pode ter mentido esses anos todos. — prossigo. — Ele disse que vai encontrar esse fotógrafo e vamos fazer um exame.

— Não, não… Não pode ser. Meu filho é seu pai sim!

— Eu já não sei mais o que pensar…

— O que sua mãe disse?

— Disse que eu sou filho do meu pai. Mas se ela escondeu a chantagem desse homem esses anos todos e tem medo dele… Eu também estou desconfiado.

— Guilherme, vai por mim, a mulher sabe quem é o pai do filho dela. Sua mãe deve estar certa. Ela só escondeu tudo porque sabia a crise que podia gerar no casamento.

— A senhora está defendendo ela?! — pergunto atônito. — Depois de tudo que ela fez pra senhora, te deixou anos sem falar comigo!

— Eu sei! Não tô fazendo isso por ela, m-mas… por você! — ela começa a chorar. — Porque não quero acreditar que você pode ser filho de outro. Você é meu netinho!

Eu choro daqui também.

— Desculpa por deixar a senhora assim… eu só queria falar com alguém. Eu tô com medo.

— Mas isso não vai mudar nada entre nós dois, entendeu? Nada! Eu nem quero saber o resultado desse exame.

— Eu não vou mais deixar a senhora nervosa. Desculpa.

— Não estou nervosa, porque isso vai dar negativo. Ou positivo. Não importa. Você é meu neto e sua mãe tem razão.

Era só o que me faltava minha avó dar razão à minha mãe. Sinal de que eu não deveria ter falado com ela. Mas eu só faço tudo errado sempre.

— Vou esquecer que isso está acontecendo. — ela diz. — Só me diz: quando é que você vem me visitar de novo?

— Eu espero que em breve.

— Também espero. Estarei aguardando por você.

A minha avó tenta desconversar falando sobre a gravidez de sua cuidadora, sobre as novas plantações no seu jardim e seus novos trabalhos de tricô. Ouço tudo com paciência e dando o máximo da minha atenção, mas jamais sem perceber como ela ficou tensa de verdade com o que lhe contei. Ela só não vai admitir, mas tem medo de que também esteja sendo enganada por todos esses anos. É o que todos nós sentimos. Ela está tentando demonstrar pra mim que está segura sobre uma coisa que, na verdade, ela não está.

 

 

Passo as próximas horas do dia sem comer, sem falar com ninguém, sem fazer nada. Eu não quero nem levantar da cama. Não consigo olhar o celular nem pensar em alguma coisa para me distrair. Eu me entrego mesmo, sou um fracote. Apenas permaneço deitado alterando meus esforços entre tirar vários cochilos, encarar o teto do quarto e ter pensamentos angustiantes sobre meu futuro familiar.

Eu desvio meu olhar para a parede lateral e percebo um relógio. Seu maior e mais fino ponteiro está girando em trezentos e sessenta graus numa velocidade razoável. Então, se esse relógio está correto, já passa de sete da noite. Onde Eris deve estar? Esse silêncio já está me matando. Quanto tempo mais pode levar para observar uma cirurgia? Ela é a única pessoa que tenho vontade de ver agora.

Eu cochilo mais uma vez e sou despertado pelo som da porta sendo aberta. Acho que meus olhos estão inchados depois de tanto choro, eu os sinto arderem quando a luz do quarto é acesa por Eris que acaba de chegar. Tenho que fechá-los e esperar que se acostumem com a claridade.

— Guilherme! — olha pra mim e força um sorriso quadrado. — Você está aqui!

— Oi. — coço os olhos. — Como foi?

— Nossa, foi tão incrível! — ela sorri e se aproxima. Deixa uma mochila no chão e começa a tirar brincos, pulseiras e anéis que usa. Junta tudo e coloca sobre o móvel. — O meu professor é um cirurgião muito seguro e tem uma equipe maravilhosa. Você tinha razão, é muito diferente do que acompanhar por uma tela!

Ela está animada pra cacete, sorrindo enquanto fala e se lembra de mais detalhes. E eu aqui nessa fossa. Ela mal olha pra mim, está perdida num devaneio. Parece até errado querer atrapalhar sua felicidade com meus problemas.

— O que eu gostei mais foi que era uma paciente que precisava mesmo da cirurgia, não foi por estética, apesar dele ser um cirurgião plástico. — conta. Começa a abrir os botões de sua camiseta branca, revelando seu sutiã cor de rosa e sua barriga fina. — E ele sempre diz que é diferente se é por estética ou necessidade. Hoje eu pude ver na prática.

— Você gostou tanto, agora deve querer ser uma cirurgiã como ele.

Ela ri:

— Não. Eu gostei, mas não conquistou meu coração. — tira sua blusa fora. — Espero que, em toda a minha futura carreira, só entre em um centro cirúrgico para acompanhar mesmo.

Eu sorrio fraco.

— Aonde você quer ir? — pergunta-me após cruzar seus braços. Tinha dito a ela ontem que sairíamos para comemorar nosso aniversário, mas agora já perdi o espírito. Eu ainda não quero levantar nem dessa cama. E ela ainda pergunta aonde eu quero ir, como se estivesse cumprindo isso por mim só porque foi o que prometeu. Nem deve querer ir de verdade. Vou poupar nós dois deste sacrifício.

— Não quero ir a lugar nenhum, não. — respondo. — Você passou o dia inteiro no hospital, é melhor descansar.

Ela suspira meio aliviada:

— Obrigada por entender. Eu agora preciso tomar um banho! — corre pelo quarto recolhendo roupas e toalhas e entra no banheiro sem dizer mais nada.

É esquisito.

Ou eu consegui disfarçar muito bem que esse dia foi uma grande merda ou ela nem sequer reparou em mim. Talvez sua cabeça já esteja cheia o bastante para ouvir mais problemas.

Ela deixa o banho após alguns minutos, vestindo um conjunto de pijama confortável, com o cabelo molhado e sem maquiagem. A minha versão favorita dela.

Acompanho-a com os olhos enquanto guarda algumas coisas pelo quarto e depois se aproxima da cama. Vendo mais de perto, ela está mesmo com um rostinho cansado. Teve um dia cheio.

— Posso ficar aí com você? — pergunta baixinho.

— Por favor!

Abro um espaço e ela se deita ao meu lado. Fica debaixo do cobertor mas mesmo assim eu a aqueço com meus braços, colando-a em mim, não sabendo se esse é um jeito de confortar a ela ou a mim mesmo. Beijo forte sua testa e afago seus cabelos.

— Guilherme, sério, eu amei tudo que vi hoje. — continua falando animada. Ela se lembra de tudo da cirurgia, desde a anestesia até a costura, e acompanhou também os processos de preparação e resguardo da paciente. Ela parece estar impressionada com a tranquilidade de seu professor, contando que ele fez tudo com muita calma e naturalidade, como se estivesse dando uma aula e não operando pra valer. Fala também como percebeu mais do que nunca que o trabalho em equipe é primordial, que um médico nunca trabalha sozinho.

Ela não me poupa nem mesmo dos detalhes mais específicos, contando como foram feitos os cortes no abdômen da paciente, que antes já tinha feito outra cirurgia bariátrica. Então, ela explica, acompanhou uma cirurgia do tipo reparadora. Admito que fico meio à deriva quando ela fala sobre técnicas de recorte e de medicamentos. Essa é a matéria optativa que ela faz sozinha então numa parte eu já nem sei mais do que ela está falando, porque, assim como ela, quero passar bem longe de centros cirúrgicos no futuro. Nem tive a curiosidade que ela tem de fazer a matéria para conhecer e cumprir carga horária. Eu ainda sou um preguiçoso e ela é bem melhor que eu em tudo.

Sinto a cabeça doer ainda mais enquanto conversamos, a parte posterior formigando como se minhas células estivessem queimando. Não deveria ter ficado tanto tempo sem comer ou sem fazer nada, vegetando igual um derrotado.

Falando em comer…

— Você se alimentou hoje?! — interrompo-a para perguntar.

— Sim! Nós podíamos sair. Só o meu professor que não.

Assinto. Hoje até ela está melhor que eu.

— Eu acho que já quero ver de novo! — ela diz animada. — Nossa, eu adoraria acompanhar uma cirurgia cerebral! Eu ficaria de pé naquela sala por doze horas sem me incomodar nem um pouco.

— Eu posso falar com o meu pai pra você acompanhar uma quando tiver lá no hospital. — digo.

Algo errado acontece nesse momento. Ela não me lança o olhar animado que eu estava esperando receber. Muito pelo contrário. Será o tom que eu usei? Nem estou conseguindo perceber. Eu chamei Roy de pai novamente, e me pergunto se algum dia vou conseguir não chamar.

A mente embaralha novamente. Não sei o que estou fazendo e porquê ela parece chateada de repente.

— Desculpa… — eu bufo. — Disse alguma coisa errada?

— Deixa pra lá…

Eris me disse mais "deixa pra lá" essa semana do que qualquer outra coisa. Ainda acho que estamos estranhos, pelo menos da parte dela. Mas pra mim agora não é hora de discutir relação.

— Desculpa… — peço para garantir. Abraço-a novamente e ela se deita em meu peito.

— Aconteceu alguma coisa enquanto eu estava na cirurgia? — pergunta.

— Por quê?

— Tô sentindo alguma coisa no ar. — ela boceja.

Finalmente reparou!

— Na verdade, aconteceu. E eu vou te contar.

— Uhum…

Respiro fundo:

— Lembra-se de Yardley Faris?

— Claro que sim. Aquele fotógrafo da agenda da sua mãe e que é sócio do hospital.

— Ele mesmo.

— O quê que tem?

— Ele enviou uma carta pra minha mãe. Eu encontrei e abri sem me importar. Aparentemente ele tenta se comunicar com ela o tempo todo e ela ignora. Eu diria que eles não são amigos nem inimigos. Mas descobri com a carta que eles foram namorados. E minha mãe estava com ele pouco tempo antes de ficar com o meu pai, e eles se casaram rápido porque ela engravidou. Só que ninguém sabe muito bem o tempo dessa gravidez, porque ela estava com os dois em dias muito próximos. Então esse fotógrafo desconhecido acha que posso ser filho dele.

No quarto um silêncio. Espero por uma reação que não vem. Ela pode ter ficado em choque, mas diria alguma coisa.

— Eris? — chamo.

Levanto a cabeça e vejo que ela adormeceu sobre mim.

 

 

Volto para casa apenas quando já está bem tarde, depois de conseguir conversar um pouco com Eris sobre tudo o que aconteceu. Ela ficou chocada e sem saber como me aconselhar. E também estava prestes a dormir a qualquer momento de novo, porque seu dia foi mesmo bastante exaustivo.

Noto que todas as luzes de casa estão apagadas, mas quando entro para a sala há uma pequena luminosidade laranja vindo do abajur, e reconheço meu pai sentado no sofá, lendo um livro enquanto toma um líquido cor de âmbar.

Fecho a porta sem força e me aproximo. Descubro que o líquido é whisky, há uma garrafa ainda cheia sobre a mesa. Ele me encara sem aquele julgamento costumeiro no olhar. Noto até um desânimo.

— Você esteve fora o dia inteiro…

Sento no sofá, mas afastado dele.

— Eu estava com a Eris.

Ele assente.

— Que bom. Pensei que tivesse ido fazer alguma bobagem.

Nego balançando a cabeça lentamente. Penso em como é uma situação inusitada, porque eu passei o dia inteiro querendo desabafar sobre o que estou sentindo, querendo falar e desafogar as mágoas. Mas agora estou aqui com o cara que está tão abalado quanto eu e não consigo pensar em nada, como se minhas emoções estivessem bloqueadas.

Ficamos num silêncio pesado até ele voltar a falar comigo:

— Sua mãe falou com o fotógrafo.

— Ah, foi?

— Sim. — ele bebe mais um pouco. — Por sorte ele está pela cidade e só vai se mudar semana que vem. Marquei de fazermos o exame na segunda.

— Ele vai?

— Vai sim. E vamos colher materiais de todos nós, ok? Para termos todos os resultados possíveis.

— Tudo bem. — assinto. — Vou precisar de um atestado porque vou faltar a aula.

— Nós arrumamos, não se preocupe.

E pensar que esse homem estava por perto o tempo todo. De certa forma, trabalha com o meu pai, e em vez de prestar seu serviço como deve, apenas manipula minha mãe e goza de um cargo alto sem nenhum mérito. Deve ser um daqueles conselheiros que não aparece nas reuniões e não participa de nada. Deve ser um homem que não presta. Ou será que tem algo de bom em alguém que manipula, chantageia e arma um circo a seu favor?

— O senhor conhece esse cara há muito tempo? — pergunto.

— Conheço. Desde que eu me tornei diretor do hospital. Estávamos começando a entrar na internet e fazer um site para o hospital e precisávamos de fotos. Sua mãe indicou o trabalho dele. Não me escondeu que era seu ex, mas não me importei. — dá de ombros. — As fotos ficaram ótimas.

— Devem ter ficado mesmo, pro senhor concordar em dar um cargo desses pra ele...

— Precisávamos de investidores naquela época. Precisamos até hoje. Ele tinha grana.

— Mas um fotógrafo?! — questiono quase com desdém. — Quanto dinheiro ele pode investir? Hoje o senhor deve pagar mais pra ele do que ele pro senhor.

— Foi o que apareceu na época, Guilherme. Eu estava no começo ainda e tudo se acelerou muito rápido. — ele segura o copo de whisky perto da boca mas não bebe. — Eu não tive tempo de rever muitas decisões.

Apenas assinto. Esse assunto dá muita discussão e quero evitar isso pelos próximos dias. Podemos resolver uma coisa de cada vez.

— Ele era um cara legal com o senhor? — prossigo.

— Era. Com sua mãe também. Nunca percebi ela desconfortável perto dele. Até fomos na festa de aniversário dele! — fala mais exaltado e eu balanço a cabeça. Entendo perfeitamente a confusão dele. — Se ela pelo menos tivesse me contado… Eu agora desconfiaria menos.

— Eu penso da mesma forma.

— Nunca imaginei que minha própria esposa esconderia uma coisa dessas de mim. É um problema pro meu casamento também. Eu achei que as coisas eram sempre claras entre nós dois.

Cacete, ele está coberto de razão. E é isso que eu quero que Eris entenda. Por isso que eu não gosto quando ela não me conta as coisas, porque uma mentira sempre pode levar a outra, e isso sempre vai doer.

— Ele não parece um cara que engana os outros?

— Não, não parece. Ele é bacana.

— Sei… Mas ninguém nunca é o que parece. — eu me levanto. — Vou subir pro meu quarto.

— Guilherme, eu não me importo se você quiser conhecê-lo.

— O quê?!

— Você está fazendo muitas perguntas e é normal estar curioso.

— Não sei bem se é curiosidade.

— De qualquer forma… Pelo que estou entendendo, há chances reais de você ser filho dele. Mas ele não vai deixar de viajar por causa disso, pode crer. Então é sua única chance de conhecê-lo.

— Acho que não quero.

— Ah! Não aja como um menino!

— Menino?

— É! Eu não vejo problema em você conhecer o cara e tirar suas próprias conclusões. Talvez com você ele seja legal.

— Você acha?

— Por que não?! Sua mãe encontrou o telefone dele. Se quiser, eu te passo.

 

 

Encaro a tela do celular sem coragem pra seguir com o que comecei. Meu pai me deu o número do fotógrafo e eu encontrei seu contato para falarmos em privado. Mas o que eu posso escrever? Eu não sei muita coisa sobre esse homem e não gosto do que sei. Mas meu pai tem razão, há a possibilidade de eu ser filho de outro e não tenho como fugir da realidade. Talvez a forma mais madura de lidar com isso seja mesmo com conversas responsáveis.

Tenho que ser adulto, não tenho?

Então decido escrever para ele.

"Boa noite", digito e envio.

Nem saio da tela. Espero olhando para sua foto de perfil, um homem de meia idade com roupas quentes por trás de uma câmera e com um belo pôr do Sol na paisagem. Ele parece ser um homem forte. Têm cabelos grisalhos, mas calvo na frente, olhos escuros e o queixo largo.

Não se parece em nada comigo.

Vejo minha mensagem ser enviada, recebida e lida em poucos minutos.

"Boa noite!" , responde, e logo chega e segunda, "Que alegria poder falar com você!"

Não sei como mas ele sabe que eu sou eu. Talvez tenha me visto no hospital alguma vez.

E o quê eu respondo agora? Bagunço meu cabelo aliviando o meu nervoso.

"Acho que nós dois deveríamos conversar e nos conhecer", respondo. Foi só o que meu pai já me disse.

"Fico muito feliz! E é uma ideia excelente!"

Não estou certo disso. Eu ainda hesito. Não sei no que tô me metendo. E se esse cara for perigoso de alguma forma?

Eu demoro a responder dessa vez e ele vai direto ao convite:

"Que tal irmos almoçar amanhã?"

Um almoço. É um pouco mais sério do que eu esperava. Mas foi eu quem começou com isso e agora não posso me esquivar.

"Pode ser".

O homem diz conhecer um bom restaurante no centro da cidade e pergunta se podemos nos encontrar lá. Apenas confirmo e ele rapidamente me envia o endereço e uma foto do lugar. Parece bem sofisticado.

Tenho que me preparar. Amanhã será um dia atípico, que vou conhecer um cara que nunca vi mas que pode, de repente, ser o meu pai de sangue. Já sei que não vou conseguir dormir.


Notas Finais


sim sim, vocês vão conhecer o yardley no próximo capítulo :)

muitas emoções!!! que dor ver meu bebê sofrendo aff :(
o que acharam desses capítulos e o que acham que vai acontecer? tô curiosa pra saber
além da treta sobre a paternidade, esses capítulos mostraram que nosso casalzinho tá se distanciando, né? talvez tenha algo de errado com a eris tbm, vamos ficar de olho.

espero que tenham curtido essa atualização dupla, me deu muito trabalho KKKK
aguardo vocês nos próximos capítulos! história tá ficando quentinha
beijos e até logo ♡ (atualizem as teorias!)


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