História Caminho da Discórdia - Capítulo 28


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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção Adolescente, Hentai, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


oi!
amanhã estarei muito ocupadita então atualizei logo hoje

Capítulo 28 - Sem força


P.D.V. Eris

Quarta-feira, 04 de setembro.

Eu chego na faculdade bem mais cedo que o normal. Tem pouquíssimos alunos, porque na verdade o portão foi aberto há pouco tempo. Mas apesar disso estou aqui firme e forte. Quero encontrar com Guilherme assim que ele chegar, pra ter menos chance de ser ignorada ou até mesmo dele fingir que não me notou.

Reconheço que o tratei mal e mereço ser desprezada como ele está fazendo. Eu faria o mesmo se tivesse em seu lugar. Mesmo assim ainda acho que ele merece um pedido de desculpas, eu fui grossa e injusta, e ele ainda levou um soco numa confusão que não tinha nada a ver com ele. Sei que é impossível termos uma relação amigável como era antes de tudo ruir, mas minha tentativa é para que pelo menos não fiquemos parecendo duas crianças que se odeiam e forçam situações desagradáveis. Temos que ser pelo menos éticos por causa da faculdade e do trabalho.

Nos primeiros quinze minutos fico sentada na grama resolvendo um questionário que vale ponto. Ouço uma música calma pelos fones de ouvido para contrastar com o nervoso que estou sentindo. É sempre difícil pra mim falar de tudo que aconteceu comigo aqui, mas dessa vez é necessário. Espero que não chore na frente dele. As duas últimas noites já foram o suficiente.

Mais dez minutos passam, eu me levanto com cuidado da grama, pois hoje vim usando saltos altos. Além deles, visto uma calça jeans num tom azul claro e uma camiseta branca com mangas nos ombros, que minha mãe costurou mas ficou grande demais e tive que amarrar abaixo do umbigo. Tenho medo de cair quando uso sapatos altos, mas também gosto de usá-los, acho que fico mais bem-posta. Da grama vou para o pátio central, onde posso ver quem entra tanto pelo portão principal quanto do lateral. Só me basta esperar. Respiro fundo e cruzo os braços. Meus olhos não param nem um minuto de tentar achá-lo.

Dez minutos passam e depois mais cinco. Faltam menos de vinte minutos para a aula começar, mas eu tinha pensado em mais tempo para conversar com ele. Foi meio idiota. Não considerei que ele pudesse se atrasar e talvez nem aparecer. Imprevistos acontecem.

Depois de mais um tempo consigo encontrar Guilherme chegando pelo portão principal. Ele está numa camisa azul marinho, calça jeans e tênis preto. Vejo que está sorrindo e também falando. Então, reparo naquela Rebeca ao seu lado, toda bonita num vestido vermelho na altura das coxas, o cabelo preso de qualquer jeito com um lápis ainda parece melhor que o meu após horas pensando numa maneira de não deixá-lo tão volumoso.

Não me afeta vê-lo com uma garota. Só é curioso reparar como ele tenta me beijar no mesmo dia que beijava Paola, e agora já está com mais uma. É por isso que só achei graça de quando Renata disse que ele estava interessado em mim. Queria que ela estivesse aqui pra ver isso, eu poderia rir em sua cara, seria bem satisfatório.

A presença de Rebeca me deixa mais insegura ainda, mas não posso deixar de tentar. 

Eles passam reto pelo pátio, sem olhar para ninguém, e seguem em direção às escadas para a sala de aula. Aperto meus passos para alcançá-los antes que subam demais.

— Guilherme! — chamo assim que me aproximo da escada. Eles param de subir e olham para trás juntos. Rebeca está um degrau na frente dele.

— O que foi? — ele pergunta bem frio.

— Eu preciso falar com você.

— Mas eu não vou falar com você, Eris. Dá licença. — ele se vira de costas mas não dá tempo de sair do lugar antes de eu falar.

— É importante. Por favor. Não vou demorar.

— Vamos, Rebeca. — ele me ignora totalmente e fala com a garota. Eles tornam a subir os degraus, virando para subir um outro lance e somem da minha visão.

Que ódio. Penso em jogar tudo pro alto e só seguir para a sala, mas ainda não parece certo. Eu subo os mesmos degraus com passos fortes, os saltos estalam e fazem barulho em eco.

Ao me virar, encontro-os ainda no meio dos degraus. Eles devem ouvir os sons dos meus passos pois novamente param de subir e olham para mim. Vejo Guilherme revirar os olhos.

— Eu já disse que não vou falar com você. Está surda? — ele pergunta.

— E eu já disse que é importante e que não vou demorar. O que custa? — pergunto de volta.

— Custa nada, eu só não quero.

— Mas é melhor querer, porque vou ficar andando atrás de você até você cansar e me ouvir.

Não sei da onde tive coragem para dizer isso, mas disse. Guilherme parece confuso, então quem fala é Rebeca:

— Guilherme, ouve o que ela tem a dizer, ela já falou que não vai demorar. Acertem logo as coisas.

Pelo menos ela é sensata. Sorrio fraco em sua direção. Guilherme permanece parado na escada, meio perdido.

— Vou estar na sala. — Rebeca avisa e então termina de subir os degraus, e passa pela porta da nossa sala de aula.

Quando torno a olhar para Guilherme, ele já está de frente pra mim, uns sete degraus acima, com os braços cruzados e os olhos raivosos por trás de seu óculos.

— Fala logo. — diz.

— Aqui? — pergunto. Estamos no meio de uma escada!

— Eu não vou muito longe.

Reviro os olhos e subo os degraus restantes. Passo por ele desviando de seu corpo e chego ao corredor das salas do segundo andar. Vou mais para o fundo, onde as salas estão desocupadas. Encosto na parede e Guilherme encosta na outra, na minha frente.

— Vai, fala. — ele resmunga e boceja depois.

— Por que você brigou com o Ernesto?

Ele levanta os olhos depois da minha pergunta. Olha pro meu rosto como se buscasse uma explicação. Coça o queixo e cruza os braços.

— Como você sabe disso? — pergunta de volta.

— Por favor. Eu perguntei primeiro. — digo.

Ele inclina seu rosto e responde olhando pra mim. Fico tremendo por dentro.

— Briguei com o Ernesto porque descobri que ele é um babaca mil vezes pior do que eu desconfiava que fosse. Serve?

— Como assim?

Ele revira os olhos e passa a mão pelo pescoço.

— Se quer saber mesmo, eu descobri o que ele fez com você na festa de integração. Fiquei com ódio e fiz aquilo. — ele fala calmamente, mas a essa altura meu coração está aos pulos. Então ele já sabe. Não vou precisar contar, porque ele já sabe. E está dizendo que fez aquilo por causa disso. Várias coisas se confirmam e se negam só com essa informação.

— Como você ficou sabendo? — pergunto com dificuldade.

— Agora é a vez da minha pergunta. Como você ficou sabendo da briga?

— E-eu recebi um vídeo no grupo dos integrantes do primeiro semestre. Ainda não sei porque não saí daquela merda, mas enfim… Quando abri era vocês dois. Vi na segunda depois que saí do leito. Eu tentei te chamar depois, fui atrás de você no estacionamento, mas você já tinha ido…

— Você foi? — ele pergunta já bem mais manso.

— É… quando eu vi aquilo pensei em tantas coisas. Inclusive percebi que errei com você. Que deveria ter te ouvido e não ter sido tão cega e obcecada. Desde então tenho tentado te pedir desculpa. Era isso que eu queria falar.

Um grupo bem barulhento de garotos sobe a escada, chamando nossa atenção. Eles sobem em direção ao terceiro andar. Apenas quando seus sons ficam distantes é que voltamos a olhar um para o outro. Guilherme já não parece tão agressivo quanto antes de aceitar me ouvir.

— Eu tentei te explicar mais de dez vezes que não era nenhum plano. Tenho que apanhar pra você acreditar em mim? — pergunta.

— Eu sinto muito, muito mesmo. Não queria que isso acabasse assim. Se estivesse aqui não deixaria que você fizesse isso.

— Eris, você me disse anteontem que se aproximou de mim pra me avaliar e pra me afastar daquelas pessoas. Você nunca ligou pra mim de verdade. Acha que vou acreditar que você não queria me ver todo ferrado?

Essa doeu.

— Claro que eu não queria isso! Ficou louco? — minha voz está mais alta que o comum.

— Se não quisesse, era só ter me ouvido, ligado os pontos. Você só fez questão de me menosprezar todas as vezes que eu tentava me explicar.

— Eu não me orgulho disso, Guilherme. Não queria ter que parecer uma obcecada, mas já sofri muito na mão dessas pessoas. Você não imagina quantas pessoas já se aproximaram de mim falando coisas legais, me tratando bem pra no final… — minha voz falha e engulo seco. — Pra no final só rirem da minha cara. Eu não queria mais passar por isso. Você pra mim era só mais um plano. Você tentou me beijar na frente do Ernesto e do Wilson, cara, o que eu iria pensar?

— Eu não sei o que você ia pensar porque agora sei que eu não te conheço. Eu contei minha vida toda pra você mas você só me mostrou um projeto. Não sabia onde estava me metendo, senão eu não teria nem ido. Não teria me mostrado tanto pra você.

As palavras dele machucam muito. Saber que ele se arrepende dos nossos poucos momentos juntos por causa da minha paranoia é de partir o coração. Não queria que fosse assim, mas também não me arrependo. Essa é minha forma de me manter protegida. Eu não quero mais sofrer.

— Desculpa. — peço. — Eu passo a maior parte do meu tempo aqui me defendendo porque não quero sofrer de novo. E infelizmente não posso confiar nas pessoas. Você pra mim era óbvio que fazia parte do lance porque era amigo de todos, principalmente da Paola. — suspiro. — Mas acho que você não entende o meu lado. Pode achar o que quiser de mim, eu não vou mais tentar falar com você… Mas quero me desculpar, de qualquer forma. Vou prestar mais atenção na próxima vez.

Finalizo o assunto e saio andando devagar para a sala de aula. Fecho a porta e sento rapidamente em minha carteira de todos os dias. Nunca senti meu coração bater tão rápido nem um suor tão frio pelo meu corpo. Não me sinto nada bem, algo está estranho, mas pelo menos essa história está acabada. Pedi desculpas para Guilherme e já posso voltar a ser a garota estranha e solitária da faculdade. É assim que as coisas eram antes dele e como continuarão a ser. Guilherme volta pouco tempo depois de mim, reparo pelo seu jeito de andar que está nervoso. Mas isso é passado. Ele passa direto por mim e não trocamos mais nem um olhar pelo resto da manhã.

 

 

A hora parece estar se arrastando no relógio. Pareço estar trabalhando há anos. Hoje Zachary veio acompanhar de perto o serviço, separou o número igual de estagiários para cada leito e fica dando ordens o tempo todo. Fico no segundo leito, e Guilherme também. Eu deveria estar lhe observando melhor para fazer o relatório que Lorena pediu, mas não consigo nem fazer minhas coisas direito. 

Estou me sentindo muito mal, até tomei um comprimido, mas parece que piorou.

Deixo um pacote de curativos cair no chão. É a quarta vez que derrubo uma coisa hoje. Fecho os olhos e me abaixo para pegar.

— Mas de novo?! — Zachary exclama. — Está desatenta hoje?

— Desculpa. — digo e volto quieta para fazer o que tenho que fazer. Não vou cair na pilha dele.

— Eu vou tomar um café. Qualquer coisa, estou à disposição. — ele informa e sai do leito.

Zachary logo deixa o corredor. Apoio as palmas das mãos na pequena mesa de madeira e fico respirando fundo, tentando recuperar minha força e minha energia. Minha visão está borrada e sinto minha cabeça doer em fisgadas como se eu tivesse levado um soco.

— Se você não está bem, pede para ir embora. Nós vamos entender. — uma das estagiárias fala comigo.

— Não precisa. — respondo com dificuldade. — Só vou sair para respirar um pouco, tá?

— Tá bom. Tira uns dez minutos pra você.

— Obrigada.

Abro os olhos e vou andando em passos lentos em direção a saída do leito. Mas no momento em que empurro a porta, ouço gritos altos vindo de algum lugar atrás de mim. Viro meu rosto e vejo alguns estagiários correndo para o fundo do leito.

— O que está acontecendo? — pergunto e corro ao mesmo tempo. Todos estão indo para trás da cortina, e só consigo pensar em Ebba. São seus gritos que estou ouvindo, gritos de dor, altos e assustadores.

— Chama os médicos, rápido! — alguém grita.

Passo pela cortina e vejo Ebba deitada em sua cama como sempre, mas os lençóis estão com uma mancha enorme de sangue. Ela está com uma mão na cabeça, puxando seus cabelos com força, e a outra embaixo da barriga, onde vejo a maior concentração de água e sangue. Ela está perdendo o bebê.

Numa situação dessas imaginei mil diferentes reações, menos que eu não reagiria, mas é o que acontece: fico atônita, assustada e covardemente parada em frente a sua cama, vendo seu sangue escorrer e seu rosto ser tomado por lágrimas. Ela abre a boca o máximo que pode para gritar. Vejo que seu peito não para de subir e de descer por conta da respiração ofegante.

— AI! AI! — ela grita e chora. — SALVA O MEU FILHO! ALGUÉM SALVA O MEU FILHO, PELO AMOR DE DEUS!

Começo a tremer como nunca tremi antes na vida. Minha visão fica escura e clareia repetidas vezes.

Vejo três enfermeiros entrando rapidamente no leito empurrando uma maca. Um médico vem logo atrás correndo, e depois surge Zachary. Um dos enfermeiros retira Ebba da cama e a coloca na maca. Ela grita e chora demais. Consigo reparar em seus olhos revirando e sua cabeça caindo para trás. Só consigo pensar que ela morreu.

Encosto-me na parede e seguro minha cabeça com as mãos. Ela parece que vai explodir.

Como um vulto, os enfermeiros passam rápido por mim levando Ebba na maca. Seus olhos estão fechados e ela parece desacordada, mas sua mão continua apoiada em sua barriga, em seu bebê, como sempre esteve.

Quando a maca, os enfermeiros e toda a confusão somem da minha visão, o mesmo não acontece com os sons. Os pacientes ficam tão assustados quanto nós, os estagiários inexperientes, diferentes vozes ecoam pelo leito numa confusão indecifrável. Não tenho mais forças. Apenas caio no chão de exaustão.

 

 

Levam-me para uma sala no final do corredor. A sala é branca, silenciosa, com apenas um sofá, bebedouro e um ar condicionado potente, pois está bem frio. Lorena está de pé na porta digitando no celular, eu estou sentada no sofá tomando um copo de água com açúcar, e uma estagiária chamada Bianca está ao meu lado. Ela já refrescou minha nuca e meus pulsos, mediu minha pressão — que estava bem baixa —, me deu a água e me mandou respirar fundo umas cem vezes. Acredito que foi ela também quem me tirou do leito quando quase desmaiei.

— Está se sentindo melhor? — Lorena pergunta sem tirar os olhos do celular.

— Um pouco. — respondo.

— Não é melhor mandar ela pra casa, Lorena? — Bianca pergunta.

— O horário dela já até acabou, são sete e meia. Mas ela só vai sair daqui quando estiver bem de verdade.

— Vou medir sua pressão mais uma vez. — Bianca pega novamente o medidor e prende em meu braço esquerdo.

— Eu não estou tão mal quanto antes. É melhor eu ir pra casa mesmo…

— Então tá. — minha monitora concorda. — Enquanto ela confere sua pressão, vou te chamar um táxi.

— Não, não! — protesto fortemente, apesar de estar bem fraca. — Não se incomode com isso, eu chego bem em casa.

— Nem vem, Eris. — ela vira a tela do celular pra mim, mostrando um aplicativo de táxi. — Fala seu endereço.

Duas batidas fracas na porta não me permitem falar. Lorena me pede para esperar com a mão e abre a porta atrás de si.

— Oi, queridos! — fala tentando um tom simpático na voz.

— Oi, a Bianca está por aqui? — reconheço a voz de uma das estagiárias.

— Está sim. Na verdade, já está indo embora.

— Ah…

— E a Eris, ela também está aqui? — também reconheço essa voz. É de Guilherme. Olho para a porta como se pudesse vê-lo através dela.

— Está sim, e também já vai sair. Pode entrar pra falar com ela. — Lorena diz e abre a porta num espaço maior. Guilherme entra e fica de frente pra mim. Vejo que tem sangue em seu uniforme, e sua expressão também é a de um estagiário esgotado.

— Bianca, querida, pode voltar pro leito. Obrigada pela sua ajuda. — informa Lorena.

Bianca retira o medidor de pressão do meu braço e se levanta do sofá.

— Aumentou um pouquinho. — fala olhando pra mim. — Mas se cuida tá, Eris? Se alimenta!

Fecho meus olhos e tento sorrir.

— Obrigada, Bi.

Bianca se despede de nós, sai da sala e Lorena fecha a porta.

— E você, pequeno Buhan, se quer falar com a Eris, é melhor falar logo, ela já vai embora, vai descansar. — Lorena se dirige a Guilherme. É ridícula a forma que ela o chama.

— Eu só queria saber como ela estava.

Pensei que a pergunta fosse pra mim, mas Lorena…

— Ela teve uma queda de pressão, deve ter ficado nervosa com tudo que aconteceu, ou então não tem se alimentado direito… Mas já está melhorzinha.

— Que alívio. — ele comenta, dessa vez olhando pra mim.

— É… Estou terminando de chamar um táxi pra ela. Qual o seu endereço, meu doce?

— Táxi? — Guilherme pergunta. — Não precisa, eu a levo em casa.

— Não… — tento protestar, mas novamente sou interrompida.

— Não se incomode, pequeno Buhan, não vai me custar nada. Tenho que cuidar dos meus estagiários.

— Eu sei, mas não me custa nada deixá-la no dormitório, fica no caminho.

— Tá, se você insiste… — ela dá de ombros. — Tudo bem por você, Eris?

Se estivesse em condições normais eu jamais aceitaria isso. Nem que Lorena pagasse o táxi e muito menos que Guilherme me levasse em casa. Mas me sinto tão fraca, mal consigo falar, eu só quero ir embora, tirar essa roupa e respirar um pouco fora desse ambiente.

— Tudo bem, Lorena, não precisa se preocupar. — digo.

— Então tudo bem. — ela abre a porta. — Descansem, vejo vocês amanhã.

 

 

Não consigo descer os poucos degraus de escada para o vestiário no andar de baixo. A cada passo que dou é como se todas as coisas ao meu redor estivessem girando e fora do lugar, então resolvo descer pelo elevador macabro, mas somente hoje. Odeio elevadores.

Guilherme também me acompanha. Gostaria de perguntar porquê ele está fazendo isso, mas não tenho coragem e nem disposição. O elevador é mal iluminado mas ainda consigo ver o sangue em seu jaleco. Enquanto descemos, ele tira a touca e passa a mão no cabelo e depois por seu rosto, alguns pontos de sua testa brilham por causa do suor. Depois ele tira a máscara, deixando seu rosto nu. Seus olhos encontram os meus, mas o elevador para e estala no mesmo instante. As portas se abrem e eu saio primeiro.

Vou andando em silêncio em direção ao vestiário. Mas então me viro de volta e olho para Guilherme. Ele também fica me olhando, esperando que eu diga alguma coisa.

— Não precisa me levar até o dormitório, eu já tô bem.

— Eu não vou negociar isso com você, Eris. Tô decidido.

Certo. Eu só queria ter certeza que ele estava querendo mesmo me levar e não estava só mostrando ser bonzinho pra Lorena. Não tenho condições para rejeitar ajuda hoje. Balanço minha cabeça para Guilherme ver que temos um acordo. Penso em me afastar para enfim ir ao vestiário, mas antes disso, faço uma pergunta:

— Vo-você tem alguma notícia da Ebba?

Não sinto ar em meus pulmões, sinto-me gelada. Tenho muito medo de sua resposta, mas também temo não ter uma resposta. Só queria saber o que aconteceu depois que eu caí.

— A Ebba… — Guilherme bufa. — Ela tá em coma. E infelizmente o estado dela é grave.

Fecho meus olhos ao sentir um aperto no peito. Poderia ser pior, ao lembrar de quanto sangue ela estava perdendo eu pensei que teria notícias piores. Mas ainda assim, é triste demais. Ela não merecia isso.

— E o bebê dela? — pergunto.

— Está na mesma situação, em coma e estado grave. A respiração dela está muito frágil.

— É uma menina?! — pergunto ao reparar que ele disse "dela".

— Sim… é uma menina.

Tampo minha boca com a mão. Essa notícia me deixa emocionada, mas também triste. Tudo pode acabar a qualquer momento, uma luta de meses pode ser perdida por causa de uma maldita doença. Não consigo aceitar.

— Eris, eu vou tomar um banho aqui no vestiário. Não vou demorar muito, mas se você se aprontar primeiro, fica. Não vai embora sozinha, por favor. Não faz isso.

Olho em seus olhos. Não tenho nenhuma força para rebater.

— Tá. — sussurro.

Ele se vira pra mim e anda na direção do vestiário masculino. Também me viro, mas não consigo prosseguir. Quando me dou conta, já estou no meio de uma crise de choro incontrolável. Não consigo parar de chorar, lágrimas rolam pelo meu rosto e minha única vontade é gritar.

— O que você tem, Eris? — Guilherme de repente está na minha frente com o olhar mais preocupado que já vi. Não consigo respondê-lo, nem sequer pronunciar uma palavra. — Se acalma. Senta aqui.

Ele põe a mão nas minhas costas e me guia até eu me sentar num banco de madeira. Ele some mas volta logo com um copo descartável com água e me oferece para beber. Seguro, mas tremo tanto que molho mais minha roupa do que minha boca.

— Você quer ser examinada pelo médico? Eu posso te ajudar a subir até lá.

— Não… eu só quero desaparecer! Hoje foi terrível, eu tô me odiando demais. — admito ainda entre lágrimas.

Guilherme se senta ao meu lado.

— Não diga isso! O que houve com você? — pergunta.

— Eu não sei… Deve ser estresse ou uma ansiedade… eu tô decepcionada comigo mesma por estar sendo uma idiota. Por ter estragado tudo com você, por ser covarde e não poder ajudar a Ebba. Eu não fiz nada por ela hoje, e ela precisava de ajuda!

— Não, não, não, não, por favor, não se culpe. Você sempre ajudou a Ebba. Eu sei disso. Vi quantas vezes você foi até a cama dela. E olha que tô aqui há pouco tempo.

— E agora ela tá em coma! Estado grave!

— Eris… — ele suspira. — Não se cobre demais. Você fez o máximo por ela enquanto podia. Agora os médicos que vão cuidar dela. Vamos confiar que vai dar tudo certo. A luta ainda não acabou.

— Será mesmo que eu fiz o meu máximo? — pergunto olhando para ele. As lágrimas escorridas entram pela minha boca e sinto um gosto salgado. — Hoje ela estava sangrando, quase desmaiando, e eu?! Eu estava parada, com medo. Muito medo. Como vou ser uma profissional assim? Eu fui covarde.

— Claro que não! De novo, você está se cobrando mais do que deveria. Você não é médica ainda. Eu sei que você é competente pra caralho, mas ainda não é médica. O que iria fazer com o sangramento? Se você mexesse, poderia ter feito algo que não era certo.

— O que me deixa frustrada é ter sentido tanto medo. — admito. — Eu simulei tantas vezes uma emergência, o que eu faria, mas eu simplesmente travei de medo e não fiz nada. Eu tive muito medo.

Guilherme respira fundo.

— Eu também estava com medo. — conta. — Ouvi os gritos e me afastei dali na hora. Nem mesmo entrei pra ver o que era.

Estava tudo tão confuso naquela hora que eu não reparei onde Guilherme estava. Mas agora que ele disse isso, eu também não lembro de tê-lo visto.

— E isso não te preocupa? — pergunto. Meu choro diminui, mas meu rosto continua molhado e fico fungando com frequência.

— Um pouco. Mas sei lá… Acho que vem com o tempo.

— Pra você é mais fácil. — digo. — Você já salvou um paciente de AVC, claro que é corajoso.

— Mas eu também tenho medo disso porque agora as pessoas vão colocar expectativa em mim e eu não sei se vou conseguir retribuir. Eu vou ter medo e não sei se vou querer encarar. Imagina o que não vão dizer por aí!

Sua expressão de desânimo deve ser a mesma que a minha. Ou talvez seja cansaço. Eu coloco muitas expectativas em mim e no meu trabalho e me pressiono muito, mas também nem pensei em Guilherme, que carrega um sobrenome e um ato heróico aqui, então vai sempre ser cobrado, sendo que há poucos dias ele ainda não tinha dado uma chance pra Medicina de verdade. Talvez seja a questão do tempo, como ele disse. Mas e se esse tempo não chegar? E se chegar rápido demais? Ver Ebba sangrando e quase perdendo a vida poucos dias após uma outra paciente falecer me assombrou. O futuro fantasioso que planejei não tem nada de fantasia, pelo contrário, me dá medo. Pela primeira vez tenho medo da minha escolha, do meu sonho da vida toda.

— Desculpa por chorar assim. — levanto do banco e limpo as lágrimas com minha mão. — Eu vou trocar de roupa para irmos embora logo, desculpa por te fazer perder tanto tempo.

— Não, espera! — ele se levanta também. — A gente pode sair daqui e ir comer alguma coisa juntos? Quero falar com você.

— Falar o quê?

— Sobre o que a gente começou a falar de manhã. Eu não disse nada do que queria te dizer.

— Mas eu acho que já tá tudo certo. Pra quê ficar voltando nisso?

— Eris, a gente tá agindo errado. E e eu não quero mesmo ficar numa situação chata com você. Podemos? — ele insiste, mas ainda estou insegura.

— Eu não sei. Vai que eu desmaio no meio do caminho. — ironizo.

— É mais um bom motivo pra gente ir comer. E pelo visto parece que você não anda comendo. Dessa você não vai escapar, ou então vou te perseguir até você ouvir. — ele imita minhas palavras desesperadas do início da manhã e consegue me fazer rir. Só agora percebo o quanto soa ridículo.

— Tá bom… vamos fazer isso. — eu enfim concordo, então nos dirigimos aos vestiários para nos trocarmos para sairmos para jantar.


Notas Finais


ora ora os protagonistas vão jantar!
o que vocês acham que vai rolar? deixem um comentário se puderem :(
agora eu volto a postar no feriado. bjs e obrigada por lerem <3


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