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História Camisa 18 - Capítulo 17


Escrita por:


Notas do Autor


Oi, como vão? :D

Avisinho rápido: esse capítulo contem cenas que retratam um preconceito nojento e escancarado. Espero que não machuque ninguém realmente, e que a indignação seja o sentimento mais predominante. Tentei ser o mais realista possível. Eu não concordo com tais declarações e literalmente me inspirei no que já cheguei a ouvir e ler em alguns lugares, falei com alguns amigos que também me deram curtos relatos e é algo bem desconfortável de se ouvir, porque é bem bizarro pensar que um ser humano pode pensar assim de outro, só por ele não estar dentro dos padrões sociais ultrapassados. É ignorante e desumano.

Se você já chegou a escutar ou ler comentários do gênero, eu quero dizer que sinto muito e que você é perfeito da maneira que é, sem tirar nem pôr. Não há absolutamente nada de errado, e o seu corpo não foi feito para ser a sua prisão <3

Eu já quero me desculpar por qualquer desconforto causado por esse trecho (ficará claro quando chegar lá), sintam-se livres para não lê-lo. É só ideia nojenta de gente nojenta, de forma alguma deve ser levado como verdade, é só... muito estúpido e agorento.

Boa leitura! <3

Capítulo 17 - Um erro, uma construção ou um preconceito?


— Está mesmo certo do que está fazendo? Está agasalhado o suficiente? Vai chover, estou avisando. Levem um guarda-chuva — a senhora Choi falava com as duas mãos na cintura, vestida em um pijama leve. Seus olhos pousaram sobre a figura de seu filho já próximo a porta, arrumado para uma ocasião a qual ela duvidava que ele seria bem-vindo. San assentiu veementemente, embora não estivesse tão confiante. — Certo. Qualquer coisa você me liga e eu vou buscar vocês. Não importa a hora… Irei ficar deitada com o celular do meu lado.

A preocupação de Yuna era fundamentada com base no fato do senhor Jung não gostar nem um pouco dela — por razões porcamente esclarecidas. Logo, era de se esperar que todo o seu repúdio fosse ser direcionado ao filho dela. No entanto, nem isso foi capaz de desencorajar San totalmente. Ele podia ser o tipo de pessoa receosa e ansiosa que pensa em todas as causas e efeitos numa destreza impressionante, e um tanto premeditada, porém, quando se tratava exatamente dos sentimentos de outra pessoa, podia ser corajoso e empático.

No lugar de Wooyoung, não iria querer ir sozinho encarar o seu pai de comportamento duvidoso. Imaginava que seria desagradável e desconfortável ao ponto de sentir estar sentado em agulhas. Se estivessem juntos, poderiam apoiar um ao outro como… como amigos próximos fariam.

— Não se preocupe, eu prometo trazer o San vivo. E vamos estar de carro, então a chuva não vai atrapalhar — Wooyoung garantiu, compassivo. — Vamos comer pizza às custas do meu pai e voltamos antes que sintam a nossa falta.

O coração de Yuna afundou no peito. Ela meneou a cabeça e, decidida a confiar a proteção de sua maior preciosidade na vida, deixou um beijo em cada um dos rapazes, no alto da cabeça. Acariciou os cabelos penteados em gel de seu garoto, e fez o mesmo com os cabelos lisos e sedosos do enteado. Olhou-os uma última vez com uma prescrição e recomendação visíveis, os advertindo de qualquer erro. 

A buzina do carro do senhor Jung soou mais uma vez. A Choi se obrigou a dar de ombros e a respirar pesarosamente, liberando a saída.

Wooyoung recolheu suas muletas e foi na frente, sendo seguido de perto por San que demonstrava aflição em cada movimento de seu corpo. Havia o cuidado que exercia para que o Jung não se machucasse de novo, as suas tentativas de prever como seria aquela noite e sua confusão em não saber se deveria agir esporadicamente extrovertido na frente do pai do jogador, ou se o mais recomendado era ficar na sua, apenas prestando o papel de uma sombra companheira.

De longe, sua intenção não era agradar o senhor Jung, porém, gostaria que aquele encontro fosse proveitoso para Wooyoung que lidava com dias tempestuosos. Ele merecia um pouco de calmaria, não é? 

Abriu a porta traseira para que o jogador pudesse entrar primeiro, o ajudando com as muletas que em horas como aquelas mais serviam para atrapalhar do que ajudar. Em seguida, foi sua vez de entrar e se acomodar ao lado dele. Todo o seu peso afundou no banco… Foi impossível não sentir cada célula de seu corpo congelar quando notou o olhar áspero do Jung mais velho pelo retrovisor, direcionado a si.

— Trouxe o filho daquela… — ele iria começar, mas foi interrompido a tempo.

— Não vamos falar sobre mamãe ou Yuna — o quarterback estabeleceu, sério. — E sim, eu o trouxe. Ele é meu amigo e quero a companhia dele. Ou você esqueceu que me ignorou por sei lá quantos meses?

O peso da verdade fez com que Yoochun ficasse calado. Afinal, sua reaproximação de Wooyoung precisava ser cautelosa; era necessário que desviasse dos escombros ocasionados por todos os conflitos seguidos até ali entre eles. 

San prendeu a respiração, optando por ignorar a ofensa implícita direcionada à sua mãe por parte do senhor Jung. 

O caminho era silencioso como o interior de uma concha. Apenas soava dentro do automóvel o som de uma música baixa na rádio. Wooyoung, ao contrário do que qualquer um esperaria, se mostrava ainda mais carrancudo e ressentido, postergando qualquer investida de seu pai de iniciar uma conversa agradável. 

A pizzaria se localizava em uma avenida bastante requintada com outros mil estabelecimentos de visual refinado e entrada cortez. A mesa agendada para aquele horário pelo grupo de amigos de Jung Yoochun se localizava no espaço superior, ao ar livre, dando vista para a rua movimentada e airosa. Quando Yoochun se aproximou, todos os homens levantaram para saudá-lo calorosamente, inquirindo com as sobrancelhas juntas avistando alguém além de Wooyoung, o seu tão falado e conhecido filho.

— Ah, esse é um amigo do meu filho — o senhor Jung justificou entre risos, indicando o Choi. — Encontrei esses garotos aqui por perto, e pensei que não haveria problema em trazê-los para comer pizza e tomar uma ou duas cervejas.

Era um grupo pequeno de homens, mas ainda assim eram muitos para a rarefeita estatística de amizade estabelecida por San após a idade adulta. Quanto mais velho se é, menos amigos se tem — a menos que haja algo a ser oferecido. 

Wooyoung cumprimentou os mais velhos com uma reverência formal, e San o imitou. Sentaram-se um ao lado do outro, cada um focando em algo em específico. As luzes amareladas do estabelecimento lhe davam um ar elegante e, ao mesmo tempo, aconchegante. Se não fosse pelo grupo de homens maduros, aquele seria o lugar ideal para se comemorar qualquer coisa que seja. O aroma de massa fazia qualquer estômago roncar, e o atendimento seguia num nível altíssimo como se até mesmo o dono ou dona daquele restaurante conhecesse o senhor Jung.

— Wooyoung, está vendo aquele cara ali? — Yoochun apontou discretamente para um indivíduo na ponta da mesa. — Ele é associado da K League — a K League nada mais era do que a principal liga de futebol americano da Coréia do Sul. A face de Jung não pode deixar de exibir um brilho além do habitual, como se estivesse na presença de um pote de ouro. — Aquele outro tem contatos dentro da NFL. Se eu convencê-los a assistir os vídeos que tenho do melhor quarterback de Seul, no caso, o meu filho, tenho certeza que conseguirei algo grandioso para você.

O senhor Jung nunca deixou de reluzir suas expectativas altas com relação ao seu filho, e ele o criou para ser tudo o que ele não conseguia ser. Wooyoung não podia se opor a isso, gradativamente acabou adotando os sonhos de seu pai como se eles fossem os seus também. 

Entre uma fatia e outra de pizza, o Jung mais jovem foi se soltando aos poucos e se envolvendo na conversa com os mais velhos sobre futebol. San ficou calado, afinal, o que ele falaria? Algum fato histórico sobre o futebol americano que ninguém literalmente se importa? Seria suicídio chamar atenção para si sabendo dos olhares de teor pesado que recebia. Não entendia se era por causa de como se vestia, ou se portava, ou porque seus fios eram vermelhos, mas entendia que para aqueles homens não fazia parte do mesmo mundo que eles, sem sombra de dúvidas.

Não demorou para piadas machistas virem à tona, San sentiu-se enjoado assistindo um dos amigos do senhor Jung tentando flertar com a garçonete, mesmo tendo uma aliança de ouro reluzindo em seu anelar direito. Eles só sabiam falar sobre negócios, mulheres, futebol e cuspir piadas de baixo calão. Era um ambiente tão degradante, que San quis sumir. Mas, ao contrário dele, Wooyoung estava realmente adaptado, sequer esboçou surpresa ou desacordo.

— Você viu aquele cara que se assumiu viado? É uma pena, ele era um prodígio. Acho que ele vai ser expulso do time. Ninguém quer ficar perto de gente desse tipo — um deles disse, arrancando risadas. — É uma vergonha que qualquer um permita que caras de histórico tão suspeito estejam no meio do futebol, que é coisa de homem de verdade. Será que entre ele e aquele viadinho do namorado, quem é que faz o papel de mulher?

— Como um homem não prefere um par de peitos de qualquer gostosa? 

— Eu até respeito desde que não seja filho meu — Yoochun disse, tomando uma caneca de cerveja. — Brincadeira. Se fosse da minha família, eu ia quebrar ele e o cara na porrada. Engraçado que a maioria dessas bichinhas só se confessam depois que pegam AIDS — escárnio gotejava pelo canto de seus lábios, não pode conter outra risada. Os seus amigos riram de novo, como se fosse uma grande piada. — É tão nojento e repugnante! Como pode ser esse tipo de aberração? Bichas são todas frescas, e se querem servir de mulher, que façam o papel direito e fiquem em casa lavando roupa. 

— Se as tradições existem, estão aí para serem respeitadas porque traduzem o que é certo. Homem e mulher se encaixam bem, mas homem com homem, ou mulher com mulher só me faz pensar que são pessoas rebeldes que tentam correr contra a correnteza — o associado à NFA falou com asco demarcando suas feições algorentas. — Se um homem quer ser feliz basta encontrar uma grande gostosa pra satisfazer ele todos os dias na cama. Tenho certeza que assim vai fazer quantos touchdowns quiser nas quadras. Não é? Estou errado? — gargalhou, enchendo a boca com mais uma fatia de pizza e dando goles na caneca preenchida por cevada.

San experienciou a sensação de claustrofobia. Seus pulmões queimavam e ele mal conseguia respirar. Um desnorteio latente e palpável se apossou de seu interior lascivamente, o conduzindo até uma sala escura e fechada o qual escondia todos os seus medos. Ele se sentiu ameaçado, mas, mais que isso… Ficou enojado de tudo o que escutou, irritado por não saber como levantar a voz trêmula e presa na garganta. Ele apertou o tecido de sua calça com força numa tentativa de descontar a frustração descomunal instalada em cada uma de suas células. Havia um bolão de palavras embaralhadas em sua mente às quais ele não saberia pôr em palavras tomado por tanta indignação e repugnância. Aqueles comentários por si só refletiam uma sociedade que abominava pessoas como ele, como sua mãe e até mesmo… pessoas que ele poderia vir a amar algum dia. Sobretudo, quem ele já amava.

Era cruel.

— É uma doença, aquele jogador deveria procurar tratamento — outro citou, duramente.

Cabisbaixo, San procurou os olhos de Wooyoung, não os encontrando. Jung estava focado em ouvir o que aqueles homens mais velhos tinham a dizer.

— Aliás, por que não trouxe Suji, filho? Ela seria muito bem-vinda. Garotas bonitas são sempre como colírio para os olhos, e ela sempre esteve ao seu lado — o Jung mais velho interpôs e o mais jovem quase deixou o ar fugir, engasgando.

— Ela… e-ela está ocupada — engoliu em seco, soando convincente o suficiente para não dar brechas para dúvidas. A atenção de todos o sobrepôs densamente. — Minha namorada tem uma vida corrida, não pode me acompanhar em todos os meus compromissos — sorriu de canto, desconcertado. 

Quando um dos amigos de Yoochun fez menção de que iria abrir a boca, San levantou-se de supetão e anunciou que iria até o banheiro. Ele não conseguiu ser cordial e educado o suficiente… e, honestamente, era indiferente a isso. Não queria ser gentil com pessoas de mentes tão fechadas e coração tão amargo, que destilam palavras que matam muitos todos os dias e tem seus sangues em suas mãos. 

Não achou que fosse ter coragem para retornar para aquela mesa envolta em um clima nada convidativo. Ficar calado era o mesmo que consentir; constatar isso fazia com que se sentisse extremamente covarde, ficou com vergonha de si mesmo. Se viu compactuar com algo que ele repudia com todas as forças. Não encontrar o mesmo sentimento nos olhos de Wooyoung o deixou transtornado. Era como se ele realmente não se enxergasse dentro da comunidade que aqueles homens hostilizavam. Como conseguia ser tão indiferente e agir em prol do meu próprio ego? Choi não o culpava por não se pronunciar, afinal também estava com o pavor retorcendo seu estômago dolorosamente, porém, sequer viu qualquer remorso marcar uma das linhas de seu semblante.

Decidiu ir ao banheiro e ligar para a sua mãe. Não ficaria nem mais um segundo naquele encontro maldito. Um nó persistente formou-se em sua garganta, mal conseguia digitar o número com os seus dedos trêmulos e gelados. Suava frio, no entanto, além de tudo, enxergou que aquele mal que presenciou era um dos tipos que jamais poderia enfrentar — não sozinho, não sem ter onde se amparar. 

Yoochun entrou calmamente pela porta. Para disfarçar, San guardou o celular no bolso — a tela do celular ficou úmida com as gotas salgadas que fugiram de seus olhos sem que ele se desse conta — e foi até um mictório, parando em frente a ele e fingiu que iria usá-lo. O mais velho escolheu um após o dele, e não demorou muito para uma risada escapar e manchar o vento rarefeito do ambiente de porte médio.

— Viu aquela mesa? É o retrato de com quem meu filho deve andar — começou, seu timbre rouco carregando uma aspereza disfarçada de afabilidade. — Aqueles homens, se gostarem do Wooyoung, vão fazê-lo chegar onde jamais imaginamos, no topo. Você sabe que o futebol é o sonho dele, não sabe?

— Hum. E daí? — San soou displicente, mal-educado. Deu de ombros para isso, Yoochun sequer se incomodou. — Por que acha que eu tenho interesse em ouvir qualquer coisa que você tenha a dizer?

— Você tem a língua bem afiada, hein, garoto. Igualzinho a sua mãe — debochou, arisco. — Estou apenas dizendo que quero você longe dele. Acha que eu não reparei como olha para ele? É nojento — cuspiu as palavras, sem receio algum. San fitou o mármore gélido, o coração afundando no peito. — Posso ter ficado longe do Wooyoung esse tempo todo, mas os meus olhos sempre estão sobre ele. Farei dele uma estrela e você não tem o direito de distraí-lo. Espero que tenha entendido o que quero dizer com isso.

As costelas de San foram amarradas por um nó como se houvesse uma corda entre seus ossos. 

— Está me ameaçando? — juntou as sobrancelhas, assistindo o Jung mais velho fechar as calças e partir para lavar as mãos. Fez o mesmo, parando atrás dele. — O que você sabe sobre mim? O que você sabe sobre o Wooyoung? 

— Eu sou pai dele, o conheço como ninguém. Não vai demorar para ele se cansar de você, estou te dizendo… Não que eu acredite que um dia ele já tenha te dado alguma brecha, mas consigo sentir as suas intenções asquerosas e isso me deixa, realmente, desconfortável. 

Como diabos Jung Yoochun sabia sobre o relacionamento de Wooyoung e San? Quer dizer, não existia um relacionamento de fato, mas, de qualquer forma… Como ele sabia?

— Isso não é da sua conta! — San ralhou, o maxilar travado.

— Veja como você se comporta e como se veste, claramente é igual à vadia da sua mãe.

San queria enforcá-lo, porém, em uma avaliação rápida e lógica, ele se deu conta de que perderia facilmente em uma luta corpo a corpo. O melhor que poderia fazer era usar de seu mais eficiente artifício: as palavras.

— A vadia para quem você "perdeu" a sua esposa recatada, não é? — rebateu no mesmo tom de asco, sorrindo sarcástico e cruzando os braços após higienizar as mãos. — Não vai parar de ser a porra de um imbecil até perder toda a sua família, não é?

— San, certo? — suspirou, escondendo sua exasperação de maneira convincente. Virou-se para o mais novo, displicente. — Wooyoung tem um futuro promissor no futebol. Em breve eu vou levá-lo para longe para treinar nos melhores times que esse mundo tem para oferecer. Não estrague isso só porque é uma cabeça quente, não vale a pena. Pense no futuro dele. O seu mundo e o do meu filho são completamente diferentes, entenda isso de uma vez por todas.

Agora San sabia como Jung Yoochun detinha todo o amor e confiança de Wooyoung; ele era massivamente convincente e manipulador. Usava abordagens suaves para expor suas intenções agressivas da melhor maneira possível. Era como um negociador que podia provar facilmente para alguém que uma caixa de sapatos vazia era uma compra válida.

Dando aquele assunto por encerrado, Jung secou suas mãos em papel toalha e arremessou-os no lixo, partindo em direção à porta sustentando o rancor que sentia intrinsecamente enraizado dentro de si com relação à família Choi. San achou que se aquele homem pudesse, teria se livrado dele o trancafiando em um quarto escuro e sem janelas para que não atrapalhasse os seus planos.

Ele se sentiu tão absurdamente machucado que foi impossível manter os seus olhos secos. Estava ardendo como se houvesse entrado em contato com pimenta. Com os seus pensamentos se tornando um monte de rabiscos, ele se viu sem saber o que fazer. Constatou estar pisando em um terreno perigoso, e ficou temeroso em aceitar o "conselho" do pai de Wooyoung. De fato, ele não estava totalmente errado. 

Lágrimas quentes escorreram por suas bochechas, rasgando-as impiedosamente. Suas pernas se moveram sozinhas para fugir dali antes que ficasse paralisado por todas as emoções que tensionavam o seu corpo. Rapidamente chegou até às escadas próximas à mesa onde estava e correu por elas, buscando escapar de seja lá qual era sua ameaça o mais rápido possível. Enfrentou o senhor Jung, mas porque sentiu que estava saindo derrotado?

— San! — ainda sentado e distraído com a conversa dos amigos de seu pai, o quarterback apenas se deu conta de que o Choi planejava ir embora sem avisá-lo quando o viu no final da fileira de degraus. — Choi San! Espera!

Ignorou os pedidos de seu pai para que continuasse sentado, e agarrou suas muletas, com dificuldades, trilhando até às escadas. Wooyoung agradecia por ter um bom condicionamento físico e ser ágil por ser um esportista, ou senão demoraria o dobro de tempo para realizar a tarefa de chegar até o andar inferior com a sua perna engessada. 

— O que está fazendo? Pra onde está indo? — vociferou, aflito, tentando correr e sendo impedido por sua maldita fratura. Resmungou por não conseguir manter uma velocidade constante sem ficar sem ar e deveras cansado, porém, viu que se não se colocasse em seus limites, San continuaria fugindo dele. — Pode me responder, droga? Porra de perna… Por que tinha que estar quebrada?!

Irritado, Wooyoung bufou. Não desistiu daquela corrida embora San estivesse decidido a ignorá-lo enquanto atravessava as ruas e se distanciava como podia, desorientado. O seu nível de estresse alcançava picos altíssimos, era incapaz de agir racionalmente. 

Gotas pesadas começaram a cair das nuvens que nublavam o céu se assemelhando a um grande plano conspiracional. A lua estava bonita minguante e brilhante no ponto mais alto tomado por um negro infinito, tão infinito quanto as dúvidas de Jung Wooyoung.

 Andava cambaleando, se esgueirando pelos portões das lojas ou das casas grandes e belas que impediam que a luz albina da lua alcançasse aquele ponto da cidade. Trazia um clima nebuloso, frio. O vento era tão angustiante tal qual não fazia sumir sua culpa vasta e irrevogável. 

Havia fugido feito um covarde. Sabia que era esse o motivo. San estava bravo com ele, principalmente, por ter mentido mais uma vez pelos próprios propósitos.

Em sua mente existiam vozes… vozes que o perturbavam a cada passo que dava. A voz daqueles homens discriminando e o julgando indiretamente; a imagem deles estava fresca, clara, como se ainda estivesse em frente a eles, compartilhando de um simples jogo de ideais enquanto uma festa de pessoas socialmente contempladas acontecia por detrás das portas. 

Não o defendeu, não parou nenhum deles e talvez essa não fosse sua maior culpa. Podia sentir o ar melancólico que San exalava, mas sem derramar uma lágrima, durante a conversa. Estas que se faziam presentes no momento atual. Jung quis gritar. Seu peito estava pesado. Mal aguentava o próprio corpo, se assemelhava mais a um zumbi, um casco sem vida. Fazia o possível para andar mais rápido, e sua mente apenas ditava: "rápido, rápido, rápido". 

Oras, porque estava pensando nisso justo quando já havia feito? Quer dizer… não era como se o jogador tivesse muitas escolhas a seu favor no momento. Contrapartida, sabia não ter esse direito — se viu dividido. 

Parou de arrastar os pés pelas ruas movimentadas, porém sua ansiedade fazia parecer que não havia mais ninguém ali além dele, onde até mesmo podia escutar a própria respiração e as batidas de seu coração desesperado bombeando cada vez mais sangue, indo violentamente contra o seu abdômen. Se afogava no próprio desespero e preocupação. Os lábios tremiam, estavam roxos pelo frio, seus cabelos pretos eram molhados aos poucos pela água da chuva. A pele costumeiramente amorenada se encontrava pálida, sem cor, gélida, suada. Temia mais que o inferno ser descoberto! Se aquelas fossem indiretas para si, como reagiria? Certamente se sentiria tão pequeno quanto um mísero inseto. Se encarasse como se fossem para ele, talvez pudesse entender como San se sentia. Afinal, estavam ou não estavam na mesma situação?

Com uma das mãos no rosto, ofegante, encarou então uma poça de água formada ali, no meio da pavimentação, encontrando o próprio reflexo e mal se reconhecendo. Só conseguia ver um borrão escuro, escondido atrás das próprias lágrimas que não deixavam de descer por seus olhos brilhantes, agora inchados. Deu um grito, em seguida outro, batendo com fúria um dos pés no chão, apertando a carne da palma das mãos com as unhas curtas, com força suficiente para feri-las. Fitou os céus, gritou, gritou, gritou. A raiva o consumia feito brasa. Aquela experiência definitivamente foi muito intensa, e jamais se imaginou passando por algo minimamente similar antes.

Por que tinha se envolvido com isso? Por que tinha que ter se deixado levar? Odiava o rumo em que acabou colocando os dois pés. 

Sua consciência o condenava, era o pior tipo de juiz existente afinal. O bendito juiz que vivia dentro de sua própria cabeça, ditando seus erros, repetindo-os, fazendo-os repercutir por aquele ambiente obscuro que estava se tornando sua mente tomada por ideias que não lhe pertenciam. 

E, em meio a toda sua agonia, se perguntava o que afinal aconteceu com Choi San… Se bem que, Wooyoung já imaginava a resposta.

Imaginava… Seu pai e ele sumiram no mesmo instante. Era suspeito. Se xingou por não ter os seguido, foi estúpido e ingênuo por esperar que levar o Choi até aquele reencontro fosse uma boa ideia. De longe não era uma boa ideia!

Aquilo era o próprio inferno. Se existia alguma diferença ele não a conhecia.

Seus ombros estavam tensos, pesados. Ele não aguentava mais o peso das próprias pernas. Levantou a cabeça da poça de água da chuva e quase se engasgou com o próprio ar, tossindo.

Wooyoung não queria reconhecer que estava com medo. Sentia medo. Seu peito estava trancafiando uma grande carga de diversos sentimentos, e ele não conseguiria dizer sequer o nome de um deles, pois, de qualquer maneira, não conseguiria os reconhecer. Era uma mistura de tudo o que havia de mais triste no mundo com algo pavoroso, que mesmo sendo um humano sujo e cheio de mentiras, não lhe pertencia.

Naquele instante, Wooyoung não entendeu o que aquilo poderia significar, portanto ignorou prontamente. Queria algo que se assemelhasse a um refúgio.

Questionou-se novamente se San estava bem, se queria falar com ele. Um pedido de desculpas não seria suficiente, já que o trouxe para aquele cenário cruel e deixou-o desamparado no primeiro obstáculo que surgiu. Não sabia o que nutria por San, mas, certamente, presenciar ele passando por algum estágio profundo de dor lhe perturbava. Porque Wooyoung sentia que a culpa era dele, e ao mesmo tempo, que o mundo era um lugar horrível, ruim o suficiente para não merecer Choi San; cinza sem dar lugar para a aquarela de cores que ele poderia ser. E os dois nunca iriam se adaptar aos padrões se fossem o que eram, na realidade. E pensar que iria cruzar com aqueles pensamentos retrógrados durante o trajeto de sua vida, ficar tão confuso ao ponto de sentir ser tremendamente sujo e fora da lucidez, o deixava deprimido. Sem esperança nenhuma. Não dava vontade de ver o que estava mais adiante. Então, Wooyoung cogitou a hipótese de San já ter provado da negação antes, e ainda assim se manter invicto, porque talvez ele se orgulhasse de si mesmo, porém, nem em um milhão de anos, Wooyoung tinha qualquer orgulho por quem ele era. Ou um apreço significativo; ele quis sumir, desaparecer e não lidar com mais nada.

O estômago afundou como se houvesse uma pedra de gelo dentro dele. Ele tateou os bolsos e sentiu o seu celular descansando em um deles. Os dedos passaram sobre a superfície gelada e um arrepio subiu por seu pulso antes de abandonar completamente o aparelho e permitir com que um gemido escapasse por seus lábios frios. Choi San não queria falar com ele. Não deveria querer falar. A cabeça de Wooyoung sofreu com uma contusão, um nó interposto bem no meio entre as ondas elétricas de suas sinapses. Uma tensão socou seus músculos, o âmago rasgava, porque, naquela hora, ele provava de uma amargor desconhecido e nocivo como veneno.

Tremeu dos pés a cabeça de frio, não se importando com o gesso ficando cada vez mais molhado. 

— Eu sou um idiota — apertou bem os olhos, comprimindo os lábios. — Eu sou tão idiota que chega a me dar pena. 

A expressão de Wooyoung se confundiu em raiva e desgosto genuíno.

— Wooyoung? O que diabos está fazendo aqui? — de repente, uma segunda presença se materializou por detrás do quarterback que se assustou. — O seu gesso está ficando encharcado! Ficou maluco, cara? — se aproximou, o amparando. Andar com aquelas muletas era uma tarefa árdua, deixava Jung fatigado ainda mais rápido. 

— Só pode ser brincadeira uma coisa dessas — quem se pronunciou foi Yeosang, um pouco mais atrás e segurando um guarda-chuva transparente. — Que noite caótica. Puta que pariu!

— O quê… O-o que vocês estão fazendo aqui? — Jung questionou num timbre de voz rouco, surpreso. — Mingi, por que diabos está com ele?

— Longa história, te contamos dentro do carro. Vamos agora — Song pediu, escutando-o gemer pela dor a qual sua perna quebrada acometia em razão da estabilidade do gesso molhado, causando-lhe um extremo desconforto e agonia. — Teremos que dar um jeito de trocar esse gesso. 

Yeosang somente deu de ombros, voltando para dentro do carro e aguardando até que Mingi colocasse Wooyoung no banco do passageiro e voltasse para o do motorista. 

— Está com a perna quebrada, idiota, por que deixou a droga do gesso umedecer? Está querendo sentir dor? — Kang cruzou os braços, petulante. — Fala sério, Wooyoung, você não pensa! 

— Se concentre em falar com o Seonghwa enquanto eu dirijo — Mingi chamou a atenção de Yeosang, girando o volante. — A família dele é maluca, não acredito que isso está acontecendo.

— Se eu coloco as minhas mãos em um deles, ninguém sobrevive para contar a história — esbravejou o Kang, rangendo os dentes. — Ele disse que está nos esperando na próxima curva.

Mingi assentiu, indo mais devagar.

— Alguém pode me explicar o que está acontecendo? — Wooyoung se intrometeu, tentando não se concentrar em sua agonia latente. 

Os ossos pareciam se retorcer em sua perna, os músculos doloridos e tensos. Se arrependia amargamente de sua decisão de realizar um exercício tão grande, e ainda no meio de uma tempestade.

— Mano, é o seguinte — o linebacker começou, dividindo sua atenção entre dirigir e falar com o seu companheiro de time. — A família do Seonghwa organizou um jantar hoje que a princípio soou como um encontro em família. Mas, no fim, Seonghwa descobriu que aquilo nada mais era do que um encontro forjado. Seus pais querem que ele se case com uma garota filha de amigos importantes, e por isso organizaram esse evento. Ele surtou e fugiu.

— -C-casamento? Casamento arranjado, é sério? Que porra de século acham que estamos? — Jung estava incrédulo, não podia aceitar o que entrou por seus ouvidos. — E por que você está com Yeosang? Seonghwa fugiu para onde?

— Quantas perguntas! — Yeosang bateu uma das mãos no estofado, impaciente, fitando o mais novo com cólera. — Eu estava em um jantar com uma patrocinadora em um restaurante que é da mãe do Mingi. Ele estava lá e eu pedi para que ele encontrasse uma maneira de me tirar daquele lugar porque eu não aguentava mais ouvir propostas absurdas. Foi perda de tempo. Mingi me deve alguns favores então é claro que não me negou ajuda. Nesse meio tempo, Seonghwa me ligou e me contou tudo o que estava acontecendo. Ele está desesperado. Os pais dele passaram de todos os limites! Se eu pudesse dizer umas verdades para eles, eu com certeza faria isso.

Certamente eram muitas informações para serem processadas. Wooyoung se viu tentando ligar os pontos. Conhecia a família do Park; eles eram fervorosos religiosos que carregavam uma filosofia ultrapassada e porca. Eram proeminentes até um certo ponto, Seonghwa dependia deles para quase tudo. Seus pais eram autoritários ao extremo e o rapaz tinha medo deles. Genuíno pavor… E não conhecia formas de se impor, de procurar pela própria independência, e nem possuía confiança para isso. Um casamento arranjado era uma loucura não cogitável e exageradamente absurda, mas era algo que fazia o feitio da família Park.

Mingi estacionou em uma esquina, e Yeosang saiu do carro sem se lembrar de levar um guarda-chuva consigo, notavelmente apressado. 

Wooyoung assistiu pelos vidros da janela fechada o Kang indo de encontro à Seonghwa que se encontrava completamente desnorteado. Ele provavelmente nunca desobedeceu à sua família, jamais se atreveu a fazer isso e agora o mundo estava despencando sobre sua cabeça. Yeosang o abraçou bem apertado como se se recusasse em largá-lo, e não demorou para trazê-lo para dentro do carro espaçoso de Mingi, ficando ao seu lado.

— Eu n-não acredito que eles estão querendo fazer isso comigo! — Seonghwa balbuciou assim que tomou fôlego, em meio a um soluço. Ele se encontrava em um estado de nervos latente, chorando copiosamente. — Meus pais enlouqueceram! Estão querendo me usar para fechar acordos comerciais ou seja lá que merda. E daí que tenho que me casar segundo as leis que eles seguem? Eu não quero me casar com uma estranha. Nem morto eu vou fazer isso… Mas, se eu não fizer o que eles querem, eu estou fodido.

— Eles que vão estar fodidos se tentarem te obrigar a casar — Mingi ralhou, bufando e socando o volante. — Eu esperava qualquer coisa dos senhores Park, menos isso. É demais! É um absurdo! Manda eles se foderem. Se fossem os meus pais, eu teria mostrado o dedo do meio e mandado eles irem à merda. Filhos da puta!

Sendo filho de pais liberais, era compreensível que Mingi não tivesse noção da magnitude massacrante vivida por alguém filho de pais conservadores e autoritários. Seonghwa não o culpou por sentir tanta cólera, queria fazer exatamente o que ele estava dizendo.

— Está tudo bem agora, se acalme — Yeosang continuou o acolhendo em um abraço, alisando as suas costas e mantendo a cabeça dele apoiada em seus ombros. — Eles não vão fazer nada contra você. Eu não vou deixar.

Wooyoung não sabia muito bem como se portar. Se compadecia ao mesmo tempo que não achava ter direito de manifestar isso, ou prestar apoio ao Park. Sua cabeça ficou presa em San, e se perguntava onde ele estava. A dor em sua perna lhe arrancava qualquer resquício de lógica, e o frio o abraçava agressivamente. Mas, mesmo assim, ver Seonghwa chorar e lamentar, em desnorteio, o fazia imaginar o quão ruim foi a experiência vivida há algumas horas atrás. Era terrível se ver tão impotente.

— Nós vamos para a minha casa. Mamãe pode entender a situação e não vai ficar brava comigo — Mingi começou a divagar, voltando a guiar o automóvel pelas ruas molhadas. — Lá eu peço para a mãe de uma amiga, que é ortopedista, ir ver a perna do Wooyoung, e colocar outro gesso. Não se preocupe com o valor, sério, foda-se. Eu só quero que vocês fiquem bem.

[...]

Mingi estava se segurando para não começar a chorar também. 

A casa dele era imensa como àquela vista nos filmes. Aconchegante e com o toque fino em cada milímetro das estruturas pintadas por cores neutras. Song levou Wooyoung nos braços até o sofá da sala de estar, e pediu para que Seonghwa e Yeosang tomassem um banho em um dos quartos de hóspedes, solicitando à governanta para ajudá-los com o que precisassem. Após isso, ligou para a sua amiga e solicitou a presença de sua mãe, que era médica, informando qual era o problema.

— A vida quando se tem muito dinheiro é tão fácil — Jung comentou, encarando os quatro cantos da casa. — Olha pra esse lugar… Parece um palácio.

— Por que diabos você estava na porra da chuva? — Mingi quis saber, digitando uma rápida mensagem para Jongho que em breve estaria ali também. Basicamente, estava pedindo reforços. — Hoje vocês tiraram o dia para me enlouquecer? Jongho é o único normal de nós?

— Se lembra quando ele pediu para você ir buscá-lo depois de uma entrevista de emprego fracassada? Ou quando te arrastou para cantar no karaokê com ele na frente da universidade inteira? Eu nunca faria isso — Wooyoung queria descontrair, embora ainda se sentisse tenso e suas roupas molhadas lhe incomodasse.

O linebacker revirou os olhos, indicando para a governanta se aproximar com roupas secas e uma toalha.

— Anda, tira a blusa e veste essa. Melhor trocar de roupa antes que pegue uma pneumonia. É uma merda ter que ser o responsável hoje, nunca mais façam isso comigo.

Wooyoung fez o que lhe foi pedido, e não demorou muito para a ortopedista chegar, junto de Minjoo — a amiga de Mingi. Os dois deixaram o quarterback aos cuidados da doutora para ficarem fofocando em outro canto. 

Demorou um pouco, mas quando o procedimento todo terminou e o Jung encarou o seu gesso novo, pode respirar fundo em alívio.

— Tome os remédios corretamente, e não se esqueça de ter mais cuidado da próxima vez. Em circunstâncias piores, isso pode infeccionar e causar um problema ainda maior. Você pode acabar com danos permanentes, e se você é esportista como o Gi, provavelmente seria ruim ter problemas mais severos na perna — a médica sorriu docemente, organizando os seus pertences. — Se cuide, Wooyoung, espero te ver recuperado logo.

— Obrigado… — sorriu minimamente, realizando uma reverência. 

Mingi retornou para a sala de estar com uma bandeja contendo um bule de mármore com chá e algumas xícaras menores e biscoitos, oferecendo para a médica e Jung, acomodado no sofá. Ambos aceitaram prontamente.

— Demorei anos para aprender a equilibrar tudo isso em cima de uma bandeja, sabiam? Eu sou muito desengonçado — apoiou a bandeja sobre a mesa de centro, limpando o suor inexistente na testa. — Meus pais sempre falam que não devemos depender dos funcionários para tudo, e que às vezes devemos servir chá também — sorriu afetuoso, encantando a mãe de Minjoo e até mesmo Wooyoung, já que ele desconhecia aquele lado mais simples de seu amigo que, em suma, era alguém sem muitas regalias instaladas em seus costumes. — Como ele está, tia? É muito ruim?

— Não, logo ele vai ficar bem. Trocamos o gesso e eu o mediquei, seu amigo vai se recuperar — ela informou, tranquila.

— Certo, eu vou depositar o valor disso tudo na sua conta — Song pegou o seu celular, realizando algumas ações enquanto seu dedo deslizava pela tela. — Pronto — guardou o aparelho de volta no bolso.

— Sabe que não precisava, nossas famílias são amigas — Minjoo falou, revirando os olhos. — Você é tão bobo… 

— Honestidade não se confunde com "ser bobo". E não importa se somos todos amigos, a sua mãe teve os gastos dela — Mingi pontuou, rindo. — Bem, por que não falamos de coisas mais leves? Aliás, Young, eu liguei para a sua mãe. Ela está a caminho. Qualquer dia desses vai acabar fazendo ela ter um ataque do coração. Mas não se preocupe, eu falei com jeitinho, e ela não vai gritar com você.

Jina não gritaria nem mesmo se estivesse quase explodindo de enraivecimento. 

Minjoo não demorou muito com sua mãe na casa de Mingi. A mais velha precisava atender em um dos hospitais que trabalhava em algumas horas, e Minjoo tinha que voltar para o seu quarto para estudar — seguindo ordens de sua mãe. 

A movimentação na casa não cessou, logo Jongho estava passando pelas grandes portas e enchendo Wooyoung de sermões como se ele fosse o mais velho. Em seguida, a senhora Jung chegou acompanhada de sua quase esposa e San, que não conseguia conter sua culpa, apesar de ainda ressentido. Afinal, ele sabia que parte daquilo era culpa dele.

— Achei que fosse apenas ir se encontrar com o seu pai — Jina disse séria, aborrecida. — E terminou na casa do Ginnie, precisando de um novo gesso e tomar mais remédios. Francamente, Jung Wooyoung, você não é mais criança!

'Jung Wooyoung'. Um arrepio frio cruzou a espinha do Jung. Sua mãe nunca realmente o chamava pelo nome, era sempre doce quando pronunciava Youngie pra cá, Youngie pra lá.

— San chegou sozinho em casa, e também encharcado, qual é o problema com vocês dois? — Yuna era bem menos paciente que Jina, falando em um tom reprovador. — Seja lá o que aconteceu nesse encontro com o seu pai, ainda precisavam ser responsáveis e não agirem como crianças. É injusto da parte de vocês não pensar nem em Jina, nem em mim nessas horas. Precisam amadurecer.

Wooyoung sabia que tinha desapontado Yuna porque prometeu que iria cuidar de San, e o inverso aconteceu. Na verdade, os dois terminaram desamparando um ao outro. 

— Mãe, a culpa não é só do Wooyoung — San se pronunciou, num volume tão baixo que soou como um ganido. Estava encolhido ao lado da senhora Choi, sendo encarado rispidamente por ela. — Eu também… agi sem pensar.

— Não importa. Vocês dois estavam juntos, deveriam cuidar um do outro! — Yuna respirou fundo, se lembrando que estavam em outro lugar que não era sua casa. — Conversamos mais tarde. Por hora, saiba que estou decepcionada… com os dois.

— Yu, vamos, não seja tão dura com eles. Ainda não ouvimos o que pode ter acontecido, Yoochun realmente não é um homem fácil. Nem sei como pude ser casada com um crápula daqueles por tanto tempo — acariciou as costas de sua parceira, com um sorriso desconcertado, mas a Choi continuou irredutível. — Ginnie, me desculpe por todo esse transtorno, eu sinto muito mesmo — curvou a cabeça, sendo rapidamente impedida por Mingi que abanou as mãos. — Me passa os valores do médico para que eu possa pagar por eles, por favor.

— Não se preocupe, tia Jina, Wooyoung é como um irmão para mim. Eu faria qualquer coisa pelos meus irmãos. Não tem que me pagar por nada — a fala dele tocou o coração de todos, os aquecendo. — Se minha mãe souber que deixei a senhora me pagar uma mísera nota, ela vai me matar. Tia Jina, quer me ver morto?

Era um argumento convincente. Mingi não estava negando o pagamento do boca para fora, ele não tinha mesmo planos de aceitar uma moeda sequer da família de Wooyoung. 

Ouvindo que Song o considerava como irmão, Jung constatou que certamente alguns dos membros do time realmente eram seus parceiros. Até mesmo Park Seonghwa, apesar de ainda estarem em maus lençóis, brigados.

Bem, não importava. Irmãos são para todas as horas. Em algum momento teria que correr atrás do prejuízo, e pagar por suas ações infelizes.

— San, Yeosang está aqui também. Estamos quase todos reunidos como naquele dia na sua casa — Wooyoung disse, erguendo o olhar receoso em direção à San que se surpreendeu.

— O que ele está fazendo aqui?

— O motivo tem nome e sobrenome: Park Seonghwa — Jongho retornou da cozinha com uma garrafa de suco de laranja e um pão recheado, se apressando em cumprimentar as mais velhas com cordialidade, quase pedindo perdão pelo mau jeito. — Como estão, senhora e… senhora Choi. Ou seria senhora e senhora Jung?

As únicas mulheres presentes riram, sacudindo a cabeça.

— Como quiser — Jina foi quem respondeu, bem-humorada. — Bem, acho melhor irmos para casa. Já está bem tarde, e amanhã vocês têm aula. Ginnie, mande cumprimentos aos seus pais, por favor. Onde eles estão, aliás?

— Papai está preso no trabalho como sempre, e mamãe vai passar a madrugada em um de seus restaurantes. Parece que está acontecendo uns probleminhas lá e ela quer supervisionar; eu estava lá agora pouco. Minhas mãos estão enrugadas de tanto lavar pratos — explicou, suspirando. — Mas não se preocupe, eu já avisei pra ela sobre os rapazes e todos podem ficar por aqui. Um amigo nosso está passando por alguns problemas e vamos dar apoio.

— Problemas? — Jina se preocupou. — Quais problemas? Onde estão os pais dele?

— É uma longa história, mãe — Wooyoung pontuou antes que ela fosse longe demais em suas especulações. — Nós… vamos cuidar dele, e tudo vai ficar bem. 

Jongho e Mingi não puderam deixar de expressar surpresa. Era mesmo Wooyoung que estava dizendo que iria prestar suporte à Seonghwa?

— Está dizendo que vai ficar aqui essa noite? — San deixou escapar, se estapeando em seguida. Todos o olharam com curiosidade, mas seu foco estava no Jung. — Achei que fosse querer ir pra casa.

— O meu time precisa de mim — declarou, afetuoso. — Seonghwa pode me odiar agora, e espero que… eu não o incomode. Eu só quero atestar que ele vai ficar bem.

— Acredite, a última coisa que ele sente por você é ódio — Jongho assegurou, se apoiando em San. — Aliás, por que você não fica também, Choi San? Estamos todos aqui, um Choi a mais não vai fazer diferença.

— Por que você quer que o San fique? — o quarterback ergueu uma das sobrancelhas, inquisitivo e… enciumado. 

— Ele é meu parceiro — Choi mais novo sorriu, cutucando a covinha tímida na bochecha de San. — E quem é que vai ficar de olho em você nessa casa imensa, e com essa perna quebrada? Precisamos de um babá, e ele é perfeito.

— Certo, se vão todos ficar, é melhor nós irmos — Jina tinha conhecimento de que não iria conseguir convencer seu filho a mudar de ideia, ele já era maior de idade, afinal. — San, você vem ou vai querer passar a noite aqui também?

— É melhor eu ir embora — San sequer pensou duas vezes, deu de ombros, sem se despedir. Atestou que Wooyoung estava bem, e poderia dormir de noite sabendo que ele estava seguro e em boas mãos, era o suficiente. 

Jung franziu a tez, ficando irritado. Por que San estava agindo daquele jeito? Se estava com raiva, bastava gritar ou lhe dar um bom soco. Nem mesmo se quisesse, poderia decifrá-lo. E isso o deixava tão insatisfeito, atordoado. Achava que San tinha suas razões, e seu remorso não diluiu, mas entender sobre isso e aceitar sem ao menos haver uma discussão era meio inconcebível. Queria protestar, pedir para San lhe fazer companhia, afinal ele poderia ser útil e encher Seonghwa de boas palavras e incentivos, mas, lendo sua expressão dura, constatou que nenhum argumento o faria ficar.

Jina se despediu com um abraço e um beijo no topo de sua cabeça, e Yuna fez o mesmo, bagunçando os seus cabelos úmidos em seguida. San apenas se despediu dos rapazes, e passou pelas portas grandes sem olhar para trás.

Wooyoung se desesperou de novo. Não tardou para recolher suas muletas ao seu lado e se levantar, ignorando os protestos de seu corpo pesado para seguir o de fios vermelhos.

— Qual é o seu problema? Por que está bravo comigo? 

A essa altura, o quarterback era indiferente ao fato de sua mãe ou a senhora Choi ouvi-lo, apenas precisava saciar suas dúvidas… Apenas queria desfazer aquele laço tenebroso em seu peito.

San sequer o olhou, permaneceu de costas. Estavam na parte de fora da casa imensa, de frente para as portas altas.

— Não era para eu estar? — murmurou, cabisbaixo. — Me diz, Wooyoung… Eu deveria não estar bravo com você?

— Não responda uma pergunta com outra! 

— Não quero falar com você agora — Choi rebateu, seco. — Já tive muito por hoje, e minha cabeça parece que vai explodir.

— Choi San…!

— Me dá um tempo, Wooyoung.

Existia um conjunto de degraus na frente da casa que levava até a rua, e se Jung ousasse descer por eles, teria problemas para subir. Se por acaso se desequilibrasse, geraria mais prejuízos para a sua perna engessada. Teve de assistir Choi San se distanciar sem poder fazer nada; e certamente poderiam se encontrar no outro dia, mas seja lá quantos problemas existiam entre eles, o mais jovem gostaria de resolvê-los o mais rápido possível, ou aquela agonia instalada em seu peito não lhe daria trégua para relaxar.

Grunhiu de raiva, apertando o suporte de suas muletas. Deu passagem para a senhora Jung e Yuna passarem, esquivando de qualquer pergunta que elas pudessem fazer até que desistissem e fossem embora.

— Que merda, San! Que merda! — retornou para o sofá, afundando o peso de seu corpo no estofado confortável e bufando. 

Achava estar sendo… desprezado. 

— Wooyoung-hyung… — Jongho chamou, cauteloso.

— Ele nem quis me olhar nos olhos. Você viu? Nem sequer me olhou! Falou comigo como se eu não fosse nada, como se eu não ligasse pra ele. Por que ele está agindo assim comigo? Eu sei que não agi da melhor forma hoje, mas o que San queria que eu fizesse? — bombardeou o mais novo com a melancolia encobrindo cada uma de suas palavras ressentidas, esboçando raiva e… tristeza!

— Quando alguém me diz "me dá um tempo" quer dizer que essa pessoa está terminando comigo. Vocês namoram por um acaso? — Mingi foi quem disse, especulando.

Wooyoung abriu e fechou a boca de onde apenas escapou ar. Era uma pergunta literal? Mingi não podia estar insinuando que… Certo, talvez fosse óbvio.

— Se eu gostasse de caras, San seria o meu principal pretendente — Jongho assumiu, tomando um gole de seu suco e rindo com a carranca que Jung expôs. — É sério, ele é um puta cara bacana. Se ele piscasse pra namorada que eu nem tenho, ela ficava sem mim.

Mingi não pode deixar de gargalhar, cumprindo um toque de mão com o camisa 49 dos Tigers

— Sua provocação não vai fazer Wooyoung confessar… Digo, não vai fazer ele olhar para um cara com outros olhos. Jung Wooyoung é hétero! Até mesmo namorou a Jeon Heejin e a Bae Suji, dentre outras garotas que os garotos com certeza iriam se matar pra conseguir pelo menos um beijo.

— Supera a Heejin, Mingi — Jongho alfinetou, desdenhando. — Até hoje não aceitou que ela nunca teve olhos pra você.

— Não só aceitei como já estou em outra — garantiu, sem qualquer abalo em seu orgulho. — Wooyoung não sabia que eu gostava dela, por isso eu não guardo mágoas.

— Se guardasse, que pena, não é? — Choi estava imparável, sorria sádico.

— Jongho, você esqueceu do que verdadeiramente importa… Você também nunca ficou com a Heejin.

— Existem outras garotas interessantes também, não só a Heejin e a Suji.

— Que engraçado, nunca te vi ficar com nenhuma delas também — Mingi lhe esmurrou, sendo golpeado no mesmo instante e choramingando. — Acho que o meu braço vai cair agora!

— Mingi, entenda, eu não sou um cachorrinho carente como você, vou namorar quando encontrar uma pessoa legal o suficiente para carregar o peso no número 49 nas costas.

— Vai namorar um jogador de futebol?

Mingi deu risada enquanto era agressivamente golpeado inúmeras vezes por uma almofada. 

— Não foi isso que eu quis dizer, seu idiota — continuou o cobrindo de porradas e as risadas só aumentavam. — Ela vai namorar comigo então logo vai ter que vestir a camisa com o meu número para torcer por mim. Entendeu agora ou quer que eu desenhe, sua mula?

— Por que não pede o Choi San em namoro logo, hein? Ele é tão atraente quanto qualquer outra pessoa gostosa — Mingi foi fuzilado por Wooyoung, que o arremessou outra almofada. — Eu pediria ele em namoro se eu não gostasse do Hongjoong.

— Quanto tempo vai demorar para desencanar do Hongjoong e começar a gostar do San? — Jongho indagou, cínico.

— Para sair no soco com você? Prefiro me abster, obrigado — Jongho socou o seu ombro com muita força. — Aí! Tudo bem, você quer que eu dê em cima do San, eu posso mandar uma mensagem agora mesmo e o convidar para sair.

— Se você estiver querendo morrer, faça isso.

Jongho, que estava por cima de Mingi o enchendo de socos sem usar um terço de sua força, fitou Wooyoung com espanto, e Song não demorou para reagir da mesma forma.

— Terei que batalhar com você e com o Jongho para conquistar o amor do San? — era brincadeira, claro, mas era válida se sua intenção era tirar Jung do sério. 

— Jongho, uh? — Wooyoung entortou o nariz, juntando as sobrancelhas. — Então ele é mesmo apaixonado pelo San?

Mingi e Jongho explodiram em gargalhadas, ambos caindo lado a lado do sofá grande e espaçoso.

— Puta que pariu, Wooyoung! De onde você tira essas coisas? Eu não sou igual você que ficava olhando pra bunda do Seonghwa nos treinos, ou que ficava elogiando o porte físico do Choi Yeonjun, e falando sobre como ele joga bem — provocou com um sorriso sacana, pronunciando o nome de Yeonjun de um jeito irritante e estridente. — Eu infelizmente gosto de mulher. Mas as mulheres são tão difíceis, que prefiro ficar solteiro.

— Não é que você prefere, mas… — Mingi foi prontamente cortado.

— Enfim — Choi tombou para o lado do quarterback, cutucando sua cintura e ouvindo-o reclamar. Ainda estava dolorido, mas o mais novo era sádico e indiferente ao seu sofrimento. — Em uma situação hipotética, caso eu quisesse namorar o San, você ia ficar bravo comigo?

— Seja lá o que você quer arrancar de mim, eu não vou te dizer — Wooyoung piscou lentamente, monótono. — Pare de me olhar como se pudesse ler minha alma — se descontrolou, gritando com a voz aguda e arrancando gargalhadas. — Choi Jongho, seu desgraçado!

Claramente Jongho não tinha interesse romântico em San, ou em qualquer garoto, diferente de Wooyoung que começava a enxergar que realmente havia diferenças entre sua sexualidade e a do outro que outrora julgou ser a mesma. Olhava para a bunda de Park Seonghwa? Era óbvio para os seus amigos, menos para ele que fazia essas coisas inconscientemente, movido pela atração que jamais assumiu ou reconheceu.

— Eunbi sempre me disse que achava o San bem atraente, e até queria fazer uma espécie de Boner test com ele, mas ela não se enquadra nos termos. Acho que te invejo por isso também, eu queria ter feito o teste com ele. Será que se eu fingir sexualidade frágil, ele aceita?

— Mingi, se você não calar a boca, eu vou usar o meu gesso pra te bater — o quarterback ameaçou, semicerrando os olhos. — Primeiro, quem disse que eu fiz o teste?

— Hum… era só uma especulação, mas você caiu na isca direitinho — Song carregava um troféu invisível nos ombros, massageando o queixo como um perito faria. — Eu deveria desistir da veterinária e me tornar psicanalista.

— Diga logo que Sowon te contou — Jongho destruiu seu personagem perspicaz como Sherlock em caquinhos. Voltou a fitar Wooyoung. — Ela viu você e San subindo para os quartos no dia da festa do Mingi. Não tínhamos certeza se você fez o teste mesmo, e no outro dia você estava com a Suji. Eu juro que até agora não acreditava que você pudesse ter aceitado, achei que na verdade tinha terminado com a Ji por causa de outra garota. Pensei que Sowon estivesse bêbada demais para ter visto certo.

Bem, não tinha mais para onde fugir. Wooyoung estava em uma sinuca de bico onde não lhe deixava escolhas além de mover-se para a frente.

— Vão me expulsar do time?

A verdade era que temia ser rejeitado como o inferno. Se perdesse os seus amigos por ser quem estava descobrindo que era, não iria restar nada. Sabia que sua mãe diria que apenas estava se livrando de pessoas que não lhe agregam por não o apoiar, no entanto, não funciona bem assim no fundo, no fundo. São pessoas que fazem parte de sua vida desde que se entendia por gente e não suportaria não ser aceito por elas, pois a ideia soava perturbadora. 

O silêncio andava quase o matando. Então, se não falasse — ao menos com os seus melhores amigos, os seus irmãos —  jamais teria paz. Por outro lado, se falasse, Jongho poderia lhe dar um soco e criar uma aversão irreversível. Era tão difícil que cadeia de cálculo se tornava fichinha em comparação. Bem, teve que respirar fundo para não surtar e desistir. Jongho e Mingi estavam dispostos a ouvi-lo mesmo depois de terem se desentendido mil vezes e não podia desperdiçar essa chance agora que reuniu coragem.

— É tão ruim assim? Você matou alguém? Olha, se for isso eu posso pedir para o Yunho te ajudar. Eu ouvi que ele estava estudando fotografia forense aleatoriamente por esses dias — Mingi falou. — Hongjoong se interessa por análise de micro-expressão facial, perícia e esses rolês também. Ele pode te ajudar a mentir nos tribunais.

Jung acabou rindo.

— Quem me dera — disse, brincando com os dedos, um pouco tímido. — Eu estava ficando com uma pessoa e não queria contar pra vocês. E eu estou gostando dela. Vão me expulsar do time depois que souberem tudo o que aconteceu?

— O quê? — soprando uma risada incrédula, Jongho pestanejou, achando ter ouvido uma piada de mal gosto. — Quero que se foda esse lance de com quem você está, Wooyoung, desde que continue jogando direito, tanto faz — massageou o arco do nariz, suspirando. — Porra, eu sinto que já tive essa conversa antes. Estou cansado. Não tô nem aí pra vocês, só continuem fazendo um bom jogo, etc e etc. Precisa de mais apoio ou ainda está pouco?

— … É isso? — Mingi demorou mais para reagir, passando por um delay. —  Porra, achei que fosse ser algo mais fodido. Qual é o problema nisso? Tudo bem que você não vai ser muito aceito no grupinho depois disso, pois somos homens que não se apaixonam por nada e nem ninguém, mas… Certo, me diga quem é e eu fingirei surpresa.

— Você pode adivinhar? — ergueu a cabeça apenas para vislumbrar seu rosto confuso. Ouvir seria mais fácil do que dizer, afinal.

— Heejin? — ele indicou o mais óbvio e ficou levemente abalado quando o camisa 18 negou. 

— De novo?

— Ah, vai saber… Eu gostaria dela cinco vezes em uma única vida. Hum… Sowon? A estrangeira? Alguma menina do segundo ano de Engenharia? Oh, cara… não me diga que é aquela outra de Jornalismo? Yuju vai ficar puta com você, ela tem uma atração fodida naquela garota. 

— Não! — quase gritou. — Não é bem uma… g-garota. Parem de fingir que não sabem! 

Oh, Deus! Estava suando. Parecia que estavam colocando sua cabeça na forca. Mingi e Jongho estavam desafiando sua sanidade.

Jongho disfarçou o susto e conseguiu continuar agindo normalmente. Ele parou para raciocinar e riu com algum pensamento estúpido que teve.

— Hum… eu? — apontou para si mesmo.

— Ah, não! — Wooyoung esboçou desgosto. — Que merda, Jongho, claro que não. 

— Por que "claro que não"? — se mostrou completamente ofendido. — Eu sou feio demais pra você? Não estou à altura? Que negação foi essa? Você pode se apaixonar por mim assim como qualquer garota — sorriu galanteador, Jung sabia que ele estava brincando.

— Você é tipo… o meu irmão! — deixou bem claro, ele continuou bastante chateado. O quarterback riu. — Eu não me apaixonaria por você. Que palpite merda! Bota essa cabeça pra funcionar, pensa, pensa.

Choi chegou a uma conclusão após um tempo:

— O professor Byun?

— Choi Jongho… — desdenhou, fechando os olhos e sacudindo a cabeça com pesar.

— É brincadeira — socou o seu ombro sem muita força ou o desmontaria. — Está apaixonado por Choi San então?

Arregalando os olhos, Wooyoung engoliu em seco. 

— Como você sabe?

— Ah, puta que pariu! — Mingi fingiu desistir daquela conversa, Jung estava provando ser uma verdadeira alpaca.

— Era o único que faltava. Você não se apaixonaria por mim, Mingi ou Seonghwa porque os dois são feios. O senhor Byun é velho. Heejin é mulher, e San está passando bastante tempo com você. Qual é, Wooyoung? Achou que eu não tinha reparado?

Wooyoung subestimou bastante a inteligência de Jongho. Ledo engano… 

Consertou a sua posição torta no sofá e assentiu, concordando. Certo, a pior parte chegou. Não era capaz de encará-los.

— Não acham que eu sou um esquisitão? Quer dizer… eu gosto de um cara, sabe. Eu nem sei como isso foi acontecer. 

Jongho coçou atrás da nuca.

— Eu falar que: "Sim, tenho um problema com isso, por favor pare de gostar de homens, pois está me constrangendo" adiantaria alguma coisa? Quer dizer, agora eu sei que terei que brigar com você pelos garotos também, e não só pelas garotas… Sinceramente esse é o único motivo para eu ficar triste — brincando, Mingi resgatou um biscoito na vasilha na mesa de centro, como se quisesse afogar as mágoas em doce de novo. — Todas as garotas olham pra você, quando os garotos souberem que você olha pra eles, acabou pra mim. Vou morrer sozinho.

— Mingi… ninguém aqui tem mais potencial que você, em nenhum sentido — Jongho o reconfortou, batendo sobre suas costas. — Imbecil! Estamos tratando de um assunto sério aqui, Wooyoung parecia que ia morrer antes de contar o que está acontecendo — repreendeu, como se fosse o mais velho. Voltou a fitar o quarterback, fazendo-o se encolher. — Eu não tenho problema nenhum com você gostando de San ou qualquer pessoa por aí. Wooyoung, você é meu amigo — deixou isso bem claro, imaginando os neurônios do outro explodindo. — E o San é bonito, não é? O cabelo dele é tão legal… Ele se veste bem e tem aqueles buraquinhos na bochecha. E… O que mais se fala pra elogiar um cara?

Wooyoung acabou rindo ao invés de se debulhar em lágrimas. Era claro que Jongho estava se esforçando e nunca tinha reparado muito em Choi San por ele ser um garoto.

— Obrigado — fungou, e Jongho se esticou para o abraçar preguiçosamente. 

— Não tem o que me agradecer — ele acariciou as costas do camisa 18 enquanto queria socá-lo, afinal, poderia ter servido de bons ouvidos e o dado bons conselhos, como já fazia com Mingi e suas mil paqueras, antes de ele literalmente dedicar a sua vida a conquistar Kim Hongjoong. — Eu estou feliz que você finalmente pode se abrir e desabafar, cara. Pode chorar o quanto quiser, eu estou aqui.

Não havia lugar melhor para chorar senão o ombro de um amigo. Wooyoung se sentia 80% menos infeliz agora. Contou para Jongho e Mingi sobre tudo o que aconteceu entre ele e San e eles ficaram dizendo coisas como: "Nossa, mas vocês não transaram? Você beijou ele, deve ter sido legal". Embora Jongho fosse desajeitado com as palavras, ele sabia ouvir e o respeitar. Ele soltava comentários nada pertinentes e os três acabavam rindo de toda aquela situação. 

Era realmente refrescante conversar com os rapazes e vê-los se comportando completamente diferente dos amigos conservadores de seu pai. Podia se expor a opiniões de pessoas mais liberais, e terminantemente nem aí para o que fazia com a própria boca. Era melhor assim, era mil vezes mais reconfortante.

— E agora você quer ouvir o que eu penso? Acho que você foi bem otário com San, no fim de tudo. Por que não contou para o seu pai sobre Suji? — Jongho estava em seu quinto copo de suco, quase explodindo, distraído com toda a história enquanto escutava. E Mingi se entupia de doces como um verdadeiro viciado.

— Eu… não sei. Ainda estou pensando sobre isso — falou Wooyoung, bastante arrependido. — Acho que agi no automático, eu… Sei lá, medo?

— O que custava ter defendido o San daquele bando de velho babaca? Ou, sei lá, nem precisava discutir com eles, apenas deveria ter ficado do lado do San, principalmente porque você percebeu que ele estava desconfortável. E foi você que quis levá-lo, porque não queria ficar sozinho. No fim quem deixou ele sozinho foi você — Mingi falava, pegando mais biscoitos. — San pode entender que pra você tudo isso é muito difícil, e é verdade que o mundo do futebol é homofóbico pra caralho, mas não pode deixar o preconceito dos outros refletir na sua vida desse jeito. Eu só posso torcer para não me encherem o saco enquanto eu jogo, e se fizerem isso, eu que não vou querer fazer parte do time. 

— É horrível ter que escolher entre ficar com quem você quer e fazer o que você ama — Jongho acentuou, embora não tivesse a menor ideia do que aquilo significava, porém Wooyoung pareceu compreender muito bem. — Mingi e eu temos sorte de nascer em famílias liberais, mas… veja Seonghwa, e olha o que ele está passando agora. Todo mundo tem desafios, e… não é culpa de vocês, mas vocês podem lutar com unhas e dentes e… sabe, não deixar essa merda toda afogar vocês. Ainda existem pessoas como a minha mãe, os pais do Mingi e como eu. Não deixa ninguém te dizer como você deve viver. Você não está fazendo nada de errado. Definitivamente, meu amigo, você não é um erro, e só um ser humano normal, como Mingi e… Eu ia falar que como eu também, mas eu sou como deus, e pobres mortais não podem ser comparados comigo.

Wooyoung ficou emocionado, era bom ouvir que estava tudo bem em ser o que ele estava descobrindo ser, e esperava que pudesse internalizar essa ideia logo.

Postergando, Mingi completou:

— Sim, não permita com que façam isso — lhe ofereceu um biscoito o qual foi bem aceito, apesar de Wooyoung não ter fome alguma. — Ah, é que é foda… isso soa como frase de efeito, e eu não gosto. Mas, pensa bem, valeu mesmo a pena querer agradar o seu pai e os caras do futebol americano e magoar o San ao ponto de ele não conseguir olhar pra você?

Honestamente falando… Wooyoung diria que não.

— Por isso você estava com aquela cara de choro desde o primeiro momento que o viu chegando — Jongho caçoou, rindo fraquinho. — Seu pai pode ter dito alguma coisa pra ele?

— Eu não tenho ideia, San não me disse nada — bagunçou os cabelos escuros, a cabeça fervia. — E, sinceramente… eu estou cansado dessa inconstância entre nós dois. Eu sou idiota por ainda esperar alguma coisa. É inevitável. Eu não consigo não esperar, entende? 

— Sim, acho que sim — Mingi lhe agarrou os ombros. — Não esquenta a cabeça com isso. Ele definitivamente vai voltar atrás. Aliás, no final de semana o time vai viajar para treinar. Você vem, não vem?

— Viajar pode me ajudar. Eu quero me distrair — disse, concordando com a ideia. — Se o treinador estiver de acordo, eu quero ir.

Um final de semana nas montanhas parecia perfeito. Bebidas, amigos, futebol e, o mais importante, sem o seu pai para importuná-lo, e poderia dar o tempo que San lhe pediu. Era o suficiente. Mingi não poderia ter o convidado em uma melhor hora. 

 

 


Notas Finais


Esse finalzinho foi um pouco mais leve, mas, confesso que >naquela parte< eu precisei prender o fôlego. Eu fiquei realmente enojada, só queria tirar os meus dois meninos dali o mais rápido possível. Me dói imaginar que pessoas precisem passar por esse tipo de problema apenas por serem quem são. O mundo não é muito gentil, às vezes, mas devemos viver conforme a nossa própria vontade. As pessoas possuem identidades e desejos, vontades que são verdadeiramente válidas. Lembrem-se da letra de "Dancing like butterfly wings"; voe o mais alto que puder, porque o céu é o seu palco, todos merecem liberdade.

Seongsang é um caos. Não importa para onde você olhe, sempre vai haver um problema se tratando deles. Eles precisam mesmo se amar muito para suportar o que suportam apenas por quererem ficar juntos.

San sofreu um choque essa noite, vamos torcer para ele se recuperar, e que Wooyoung seja cada vez mais compreensível e consiga notar o que há de errado. Eu acho que esse momento serviu para abrir os olhos dele, e para mostrar ao San de onde veio tantos pensamentos retrógrados que estão internalizados dentro do Wooyoung, ao ponto de ele realmente não se dar conta de que estão lá e que são muito ruins e nocivos e estúpidos e sujos, que devem ser limpos, desconstruídos. Se permitir aprender é sempre MUITO válido.

E você, o que acha de tudo? Estou ansiosa para ler um comentário seu <3

Aproveitando, aqui vou deixar links de alguns outros trabalhos meus caso queiram dar uma olhada:

https://www.spiritfanfiction.com/historia/teoria-dos-filmes-21583896 (yunjoong/yunhong)

https://www.spiritfanfiction.com/historia/megalomaniaca-coragem-e-incapacitante-covardia-21486394 (yunjoong/yunhong)

Planejo postar mais coisas logo (não só yunjoong, prometo), espero que dê certo!

Aliás, ansiosos para o comeback? Eu tô quase arrancando os cabelos da cabeça!!1! Sinto muito a falta do Mingi, espero que ele esteja bem e volte quando estiver 100%.

Até logo <3


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