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História Camp War - Capítulo 7


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Notas do Autor


E aí pessoas! Estou de volta com mais um capítulo, desculpa ter demorado tanto para postar, mas estava ocupada resolvendo alguns problemas familiares e acabei não tendo muito tempo e nem concentração para tal. Mas está aqui o capítulo, então espero que gostem!! Tenham uma boa leitura!^^

Capítulo 7 - As lápides que se elevam


Fanfic / Fanfiction Camp War - Capítulo 7 - As lápides que se elevam

Na madrugada gélida e escura, Charlotte levantou de sua cama com cuidado para não acordar Wally, e andou para fora da cabana até onde o ônibus verde deveria estar estacionado. Com a preocupação, e o sentimento de perda e esperança aumentando a cada minuto de forma proporcional, a gêmea se sentou na varanda de uma das cabanas por ali e pôs-se a chorar. Era um choro silencioso, não era necessário os outros a ouvirem e a verem desse jeito. Ela escondeu seu rosto com as mãos, puxou seus joelhos para perto de seu peito e tentava se encolher ao máximo. Rezava para que tudo desse certo e que seu irmão voltasse logo para ali.

Alguém sentou ao lado dela, fazendo a madeira ranger de leve. Era Peter. Ela o olhou, com os olhos ainda cheios de lágrimas prestes a caírem, mas que ela não deixaria acontecer de novo na frente de outra pessoa.

- O que você tá fazendo aqui?- Ela perguntou, tentando disfarçar sua voz que de qualquer forma saiu trêmula e falha.

- Estou sem sono, e vi você saindo! Não é seguro uma criança como você ficar andando por aqui sozinha!- Respondeu Peter sem olhar para ela.

- Eu posso me cuidar sozinha, você não precisava se incomodar!

- Não foi o que eu vi quando cheguei. Escondendo o rosto, acabando com o seu campo de visão... É uma presa fácil aqui desse jeito!

- Aonde você quer chegar?

- Você ainda não percebeu, não é? Então deixa pra lá! Eles devem te contar logo!

Peter se levantou, saindo andando por um instante até que Charlotte o segurou pelo braço.

- Espera um pouco...- Suplicou a garota, com algumas lágrimas escorrendo-lhe pelo rosto.- Fica aqui comigo mais um pouco, por favor!

Charlotte o abraçou desolada, e desamparada, pôs-se a chorar ainda mais enquanto escondia o rosto nele. Peter suspirou, mas não se opôs ao pedido dela. E ao invés de simplesmente ir embora, ele apenas a acariciou na cabeça e esperou que ela se acalmasse.

Austín estava os observando da pequena janela de sua cabana, e balançou a cabeça em negação antes de sair de lá batendo com o pé fortemente no chão.

Eu também não estava conseguindo dormir. O banco do ônibus não era o lugar mais confortável de se dormir, afinal. Levantei, então. Não tinha ninguém ali comigo, com exceção de Oscar, que estava sentado na porta do ônibus fazendo a vigia. Do lado de fora, pude ver alguns moradores da cidade com algumas armas de fogo na mão, e em um banco dentro do saguão do hospital, Ângelo pensava distraído.

Eu desci do ônibus, o Sr. Hildegart estava fumando logo à frente. Segui para dentro do pequeno hospital e me sentei em silêncio ao lado de Ângelo, que murmurou sem me olhar.

- Você não deveria estar dormindo?! Vamos sair muito cedo amanhã!

- Eu estou sem sono.- Respondi.- O que você está fazendo aqui sozinho?

- Apenas saí para respirar um pouco.

Ângelo parecia um tanto preocupado, talvez por causa da situação de Charles, e para tentar se distrair rodava um anel dourado em seu dedo anelar da mão esquerda.

- Você é casado?!- Perguntei surpreso, ao notar a aliança em sua mão.

- Sim.- Ele me respondeu sorrindo um pouco corado.- Eu sou!

- Nossa! Você e a sua esposa não se casaram cedo demais, não? Você não parece ser assim tão mais velho do que eu...

- Estamos casados há dois anos e eu já tenho 21! Se não nos casássemos logo, provavelmente nem casaríamos mais! Apesar da Mia ainda ter 20!

- Espera! A monitora Mia é a sua esposa?

- Sim, é... Na verdade, uma das condições para ser monitor deste acampamento é "ser casado", por algum motivo estranho que eu não sei qual é! O Jaredy e a Alma também são casados, mas se não me engano, há uns bons 11 ou 12 anos!

- Caramba...!

Ângelo deu uma risada por causa da minha reação de surpresa, mas pelo menos eu consegui animá-lo um pouco.

- Que estranho...- Comentou o monitor depois de um tempo.- Sinto como se já tivesse estado aqui antes!

- Disseram que você esteve aqui no ano passado... Não está lembrado?

- Não, não estou falando dessa vez.- Respondeu-me rindo.- É mais antigo do que isso, eu não sei dizer. Ahf, talvez eu esteja só me confundindo...

O monitor levantou, foi até uma porta de madeira com uma janela de vidro na parte de cima e ficou olhando para dentro da sala através dela. Era lá onde o médico local estava fazendo a cirurgia na perna de Charles, mas por estarmos em uma cidadezinha praticamente isolada da civilização, os recursos médicos mais avançados eram inexistentes aqui. E isso incluía a novidade da anestesia. Charles gritava horrores e os enfermeiros tiverem de amarrá-lo na cama e o segurar firme para que não se mexesse durante o complicado processo para juntar novamente a sua perna e a parte do pé que havia ficado pendurado por causa da mordida daquele crocodilo.

Eu ainda tentei me aproximar do vidro para assistir, mas a cena era nauseante e desesperadora. Os gritos de dor dele me faziam ficar tonto e com o coração apertado. Quando Ângelo viu que eu estava prestes a desmaiar, correu para chamar o Sr. Hildegart e ele me levou de volta para o ônibus.

- Garoto, quando não estiver se sentindo bem vendo cenas como essa, então é melhor nem continuar vendo. Eu não teria conseguido sobreviver na Guerra se tivesse me entregado à esses sentimentos estranhos. E acredite, isso que você viu não chega nem à um terço do que tive que ver quanto lutei.- Contava-me o Sr. Hildegart.

- O senhor lutou nas Guerras, Sr. Hildegart?- Perguntei, ainda bebendo a água que o velho senhor português me havia dado.

- Sim, lutei sim!- Contava ele com empolgação.- Eu participei das duas Guerras! Na Primeira eu ainda era bem novo, era um soldado e fui posto na linha de frente logo mo início. Foi uma coisa horrível, mas eu persisti e lutei. Na Segunda eu fui posto para a reserva, mas cheguei à ir em algumas ocasiões.

- Nossa! Eu não sabia que você era um ex-combatente! Você deve ter sido mesmo um herói, Sr. Hildegart!

- Eu não me consideraria isso tudo, garoto!- Respondeu o senhor dando uma risada e acariciando minha cabeça com afeto.

Ângelo veio correndo até onde estávamos, ofegante e sem fôlego, tivemos que esperar que se aquietasse para nos dizer o que mais queríamos ouvir desde que chegamos:

- Acabou! A cirurgia finalmente acabou...

Nós ficamos extremamente animados com a notícia. E fomos correndo de volta àquela porta com janela de vidro no quarto onde Charles estava. O médico disse que a cirurgia aparentemente havia sido boa, mas só saberíamos se ele voltaria a sentir aquele pé normalmente depois que tirasse os pontos na semana seguinte.

Ainda esperamos por pelo menos mais uma hora até os ajudantes do médico trazerem Charles ao ônibus. Nós o ajudamos a sentar, e Ângelo providenciou um caixote alto para que ele apoiasse o pé enfaixado até voltarmos para o acampamento. O Sr. Hildegart preparou um xarope de mel com própolis para ajudar Charles a recuperar sua voz, afinal, depois de tanto berrar durante a cirurgia é natural que fique completamente sem por um tempo.

Agradecemos aos moradores da cidade por terem sido tão atenciosos em nos receber por todo esse tempo e logo partimos de volta para o acampamento. Charles não olhou para mim em nenhum momento, ficou voltado para a janela e o vi limpando as lágrimas em silêncio algumas vezes. Não conseguia imaginar o que estava se passando pela cabeça dele nesse momento tão triste... Além do trauma, a saudade e a preocupação com os seus irmãos, e agora a recuperação doloroso que terá que enfrentar.

- Você foi forte.- Disse em um certo momento.- Você é forte!

- Valeu.- Respondeu ele rouco em um suspiro de dor, mas continuou sem me olhar.

Quando chegamos de volta no acampamento, algum tempo depois de amanhecer, o nosso pequeno grupo já estava lá nos esperando. Os gêmeos quiseram abraçar Charles no mesmo instante em que o viram, mas as garotas das Fuinhas os seguraram, afinal ele estava sentindo muita dor ainda. Ângelo e eu o levamos até a nossa cabana, o deitamos na cama que havia ficado para os seus irmãos, e improvisamos um apoio para manter sua perna machucada mais elevada. Charles não falava nada, evitando fazer contato visual com todo mundo que se aproximava.

- Vou enviar uma carta para os seus responsáveis.- Comunicou Mia.- É melhor que vá descansar em casa.

- Não!- Protestaram os gêmeos rapidamente.- Nós queremos ficar!

- Ah, crianças... Vocês não podem ficar aqui sozinhas!- Alegou a monitora.- Charles vai precisar mais do que o tempo de oito semanas do acampamento para se recuperar por completo, foi uma mordida muito feia! Precisam entender o lado do seu irmão!

Os dois irmãos ficaram tristes, mas conseguiam entender que Charles não poderia aproveitar o acampamento, e que foi graças à ele que eles conseguiram ir para lá. Suspiraram, então, em desistência, e foram até Charles para abraçá-lo.

Mia olhou para os irmãos, com pesar no olhar, e depois seguiu para a sua cabana junto de Ângelo para que pudessem escrever uma carta solicitando para que viessem buscar os irmãos ingleses. Os outros seguiram rodeando Charles na cama, e o perguntavam como havia sido e se ele tinha chorado muito durante a cirurgia. Mas o loiro não respondia, mantinha a cabeça abaixada e acabou tampando o rosto por vergonha quando começou a chorar silenciosamente outra vez. Eles ficaram em silêncio, sem entenderem a reação do loiro. Eu me aproximei da cama, e determinado comecei a falar:

- O Charles foi incrível na mesa de cirurgia!- Disse, e me olharam rapidamente, inclusive Charles.- Mesmo com tanta dor, ele não chorou! Foi muito valente, tenho certeza de que se tivesse sido comigo, eu iria desmaiar assim que o médico entrasse na sala! Você é muito forte, Charles!

Os gêmeos olharam para o irmão mais velho, que estava surpreso pelas coisas que eu havia dito dele, mas parecia agradecido e já não chorava mais. Seus irmãos o abraçaram com alegria, falando que sempre acreditaram nele e que sabiam que ele ficaria bem.

Todos pareciam contentes com isso, e até mesmo a Allya admitiu ter ficado impressionada. Eu os deixei na cabana por um momento, estava morrendo de fome! Encontrei Ângelo ao sair, e ele me parabenizou por ter tentado levantar a auto-estima de Charles, mesmo que eu tenha mentido para fazer isso. Disse-me ainda que eu era um bom amigo, e eu fiquei feliz com isso.

Na cabana refeitório acabei ficando um pouco pensativo por causa de tudo que tinha acontecido. Como poderia um acampamento não está preparado para acidentes como esse e uma cidadezinha tão distante sim? Que ligação aquelas pessoas possuem com este lugar e por que tanto medo dos campistas? Eles falaram sobre uma maldição, mas será que isso era possível mesmo? Não faz sentido! Os monitores das fuinhas trabalham aqui há anos, e se isso fosse mesmo verdade eles já teriam ido embora, certo? Eu não sabia a resposta para essas perguntas, mas estava determinado a descobrir!

May veio até mim e sentou ao meu lado com um sorriso afável em seus lábios.

- Foi muito bonito o que você disse lá na cabana!- Comentou ela.- Os gêmeos realmente vêm ele como um herói!

- Sim, eu não podia estragar isso de forma alguma!

- Tenho certeza que o Charles será muito grato à você! É uma pena que eles tenham mesmo que ir embora. Fomos amigos por poucos dias, mas pensar que provavelmente nunca mais os veremos me entristece um pouco!

- Você tem razão.

Era algo inevitável, e praticamente óbvio. Nenhum de nós nos veríamos outra vez depois do acampamento, com exceção daqueles que já tinham uma ligação anterior. Pensar nisso realmente me causa uma angústia, afinal são mais de dois meses da nossa vida convivendo com pessoas as quais criaremos uma ligação afetiva de alguma forma. E depois a teremos que romper. Infelizmente as regras do acampamento são claras, e qualquer um que já participou dele em uma edição não pode voltar em mais nenhuma outra. Isso é tão frustrante! Principalmente porquê nem mesmo uma razão para isso eles dão! Fomos convidados, eu sei, e os membros dos suricatos como eu ainda tivemos que fazer uma prova para termos permissão de participar. Este é o acampamento mais estranho que já vi, especialmente nesse tal "processo de seleção" deles. Isso me faz acreditar que talvez não tenha sido tão coincidência assim o Austín e a Allya terem sido convidados para vir aqui no mesmo ano e em times diferentes. Querem jogar um contra o outro... E o fato da Charlotte e do Wally serem as únicas crianças aqui também me causa dúvidas e preocupações. Se realmente existe uma maldição, e se ela já começou a agir, então temos que tomar cuidado.

- Ahf. Acha que devemos falar logo para eles alguma coisa?- Perguntou-me May com aflição.

- Eu não sei.- Respondi, ainda pensativo.

- Enquanto vocês estavam fora, quatro campistas das Fuinhas morreram. Atacados pelos crocodilos que estavam no rio, não quiseram ouvir os avisos da monitora Mia e nem dos outros.

Eu fiquei um pouco chocado quando ouvi aquilo, e olhei para a garota ao meu lado ainda achando que era apenas uma brincadeira, mas May estava séria demais e não parecia o tipo de pessoa que brincaria com uma coisa dessas. Além do mais, o número na minha pulseira mudou assim que pisei novamente no camping do acampamento, então isso tudo só podia ser verdade.

- Os monitores de vocês não fizeram nada?!- Questionei.

- Isso que é o mais estranho. Eles não ligaram para o que a Mia estava alertando e quando tiveram que tirar os corpos do rio parecia que já estavam esperando por isso. Eles cavaram uma cova no bosque perto do rio, na parte do nosso camping, e ficou por isso mesmo. Nem uma carta aos pais tiveram a decência de escrever!

- Que bizarro!

- Sim. Mas eu até que não estou surpresa com isso!

- Por que não?

- Eu não sei explicar direito. É que eles dois são tão estranhos... Parecem que estão querendo esconder alguma coisa da gente a todo instante. Se quer saber, não temos nem permissão para nos aproximar da cabana deles.

- Que absurdo! Eles se acham demais!

- Nem me fale! Não sabe tudo o que temos que aturar de manhã e à noite com eles rondando pelas cabanas para fazer vistoria!

- Hunf. Isso tudo está muito estranho!

Depois que terminamos de tomar o nosso café, seguimos de volta para a cabana. Wally ainda estava abraçado com o Charles, e as outras meninas das Fuinhas o rodeavam na cama tentando confortá-lo. Juro que quando a May se juntou à elas fiquei com um pouco de inveja dele.

Em um canto da cabana, numa parte mais reservada dela, Austín e Charlotte pareciam discutir em sussurros. E depois de algumas malcriações dela para ele, a gêmea se afastou batendo com os pés fortemente no chão e foi emburrada para o lado de Wally.

- Ei, o que está havendo? Algum problema?- Perguntei em tom baixo para o ruivo ao me aproximar dele.

- A Charlotte é o problema!- Respondeu ele irritado.- Acredita que ela levantou no meio da noite e foi ficar abraçadinha com aquele antipático do Peter lá no meio do camping?!

- O quê? Sério?! Por essa eu não esperava!

- Sim, ninguém esperava! E agora que o Charles está fragilizado, nós é que teremos que cuidar dela e do Wally! Pelo menos até eles voltarem para o Reino Unido!

- Não sei se o Charles iria gostar que a gente desse uma de babá dos irmãos dele...

- Certo, então está decidido!- Disse Austín rapidamente.- Você cuida do Wally, e eu vou tomar conta da Charlotte! Obrigado por ajudar, Yukki!

- E-Ei, não foi isso o que eu disse! Ei!- Tentei chamá-lo, mas ele já havia se afastado e voltado para perto da gêmea, que rosnou ao vê-lo parado do lado dela e virou a cara. Ela estava decidida de que não precisava de ninguém para protegê-la, e que poderia se cuidar sozinha.

Mas não sei se é ela que realmente precisa de alguém para tomar conta, afinal Austín também é muito explosivo e espontâneo. Só espero que ele não seja idiota o bastante para tentar brigar com alguém como o Peter!

***

Com o tempo, todos no acampamento já estavam sabendo do acidente com os crocodilos, e já não se via um campista qualquer se banhando nas águas daquele rio lamacento. Bom, nenhum menos os dois irmãos brasileiros que diziam não ter medo dos répteis. Joyce e Matthew Garcia eram fortes, de pulso firme e mentes perversas. Tinham experiência de vida muito maior do que qualquer um aqui, e não é de se estranhar! Afinal, sobreviver sozinhos pelas ruas da Lapa não deve ter sido fácil, principalmente para o Matthew que é o irmão mais velho. Órfãos aos cinco anos, e deixados para viver a própria sorte escondidos às espreitas dos becos e ruas, ignorados pela sociedade...

Às vezes me sinto ainda mais fraco do que já sei que sou por causa disso. Todos aqui possuem uma história de vida, seja de superação ou de lutas para sobreviver. Mas e quanto a mim? Durante toda a minha vida não tive problemas de com o que comer ou do que aconteceria no dia seguinte. Nunca perdi nenhum parente na guerra, e nem por nenhuma doença. Minha mãe sempre foi a única pessoa na minha vida e ela sempre fez de tudo para me ver feliz. Posso ter crescido mimado, e até um pouco esnobe por nunca ter sentido na pele a dor e a humilhação de uma vida miserável e triste, mas não quero continuar a viver dessa forma! Sinto que aqui, neste lugar tão estranho e misterioso, talvez eu consiga mudar quem eu sou e fazer algo realmente útil para os amigos que adquiri aqui. Sei que a May se sente da mesma forma, e que assim como eu, ela também está em busca de um reconhecimento pelas suas próprias conquistas. Acho que é por isso que nos damos tão bem. Não precisamos de palavras, nossos olhares já falam tudo o que precisamos um para o outro e conseguimos nos entender melhor do que ninguém. Sei que mesmo ela estando com as Fuinhas, ela é uma boa garota, e também será uma ótima companheira até o final do acampamento! Mas não tenho que pensar nisso agora, Charles é mais importante nesse momento.

***

Quando eu e a May saímos da cabana refeitório, já que tivemos que ir almoçar depois de todos, encontramos com o nosso grupo já saindo novamente da nossa cabana.

- Ei, aonde vocês estão indo?!- May perguntou rapidamente, e Allya se adiantou em respondê-la.

- Vamos dar uma volta pelo acampamento!

- Mas e quanto ao Charles?! Deveríamos ficar ao lado dele!- Disse.

- É, só que foi ele mesmo que pediu para a gente sair!- Relatou Charlotte em um tom triste.- Espero que o meu irmão fique bem!

- Não se preocupa, tá bem?! Tenho certeza de que ele só está cansado!- Insisti, e eles pareceram aceitar a resposta.

Nós seguimos o dia com conversas e algumas brincadeiras que os gêmeos sugeriam para passar o tempo. Algumas vezes, eu e a May íamos até a cabana para ver como Charles estava ou se precisava de alguma coisa, mas na maioria das vezes ele estava dormindo por causa dos soníferos ou simplesmente balançava a cabeça em negação sem nos dizer nenhuma palavra. Ele estava muito triste, e isso nos preocupava cada vez mais. Não queria comer, não queria beber água nem suco, apenas ficava deitado na cama, se entregando aqueles sentimentos de frustração e angústia.

No final do dia, enquanto estávamos sentados na mesa da cantina refeitório, comentamos sobre o estado em que o Charles se encontrava e os outros pareceram compartilhar dessa mesma preocupação.

- Charles não está nada bem!- Relatou Charlotte ao se aproximar de nós e colocar sobre a nossa mesa um prato com panquecas.- Ele nem quis comer o prato preferido dele! Não sei o que está havendo com o meu irmão.

- Ele deve estar cansado, só isso!- Respondeu Allya rapidamente e logo se adiantou em mudar o assunto da conversa.

Ao longe, vimos os irmãos brasileiros entrarem na cabana refeitório, enrolados em toalhas e com marcas fortes dos trajes de banho por terem ficado o dia inteiro na margem do rio. E aconteceu novamente o que eu e o Wally havíamos percebido mais cedo: Joyce, a representante do Brasil, e o Austín ficaram trocando olhares. E ela desviava o rosto um pouco corada, mas sempre tornava a olhar de novo para ele. Austín, por sua vez, a olhava de cima à baixo, cada parte do corpo dela era observada com atenção. E quando ele se virava novamente para nós estava sempre com um sorrisinho bobo no rosto, o qual tentava disfarçar. Os outros pareciam não perceber nada, apesar da Charlotte revirar os olhos algumas vezes e virar a cara para outra direção. Em um certo momento, Wally se aproximou de mim e sussurrou:

- Ela está vindo para cá!

Eu levantei o olhar para ver ao nosso redor, e os irmãos brasileiros realmente estavam vindo na nossa direção. Ouvi Allya resmungar e as outras pediram para que ela falasse baixo.

- Ei, desculpa atrapalharmos, mas...- Disse Joyce ao chegar.- As outras mesas estão cheias, e eu e o meu irmão queríamos comer alguma coisa antes de voltarmos para a cabana. Se importam se ficarmos aqui com vocês? Prometo que não vamos atrapalhar!

Trocamos olhares de reprovação, não estávamos gostando dessa ideia, mas seria errado se recusarmos, principalmente porque eles não fizeram nada para nenhum de nós. E antes mesmo de respondermos, Austín se adiantou em falar "Não seria incômodo nenhum, por favor!", e logo chegou para o lado para que Joyce pudesse se sentar. Ela sorriu de forma meiga, com as bochechas coradas novamente, e Matthew pediu para que ela ficasse ali enquanto ele trazia a refeição deles. Ela obedeceu, é claro, e se sentou ao lado de Austín que nem se importou em esconder o sorriso de satisfação.

- Está calor aqui, não está?!- Comentou a brasileira com um sorriso tímido, tirando de suas costas e da frente de seu corpo a toalha que lhe cobria, ficando apenas com um biquíni erótico e pequeno. Eu desviei o rosto corado na mesma hora, e vi May me olhando com incômodo e desconfiança. Mas eu não tinha culpa, ela sentou na minha frente, era quase impossível que eu não olhasse no primeiro momento...

Contudo, Austín não parecia se importar com a falta de modos da brasileira e continuava a olhá-la da mesma forma. E antes mesmo que nos déssemos conta, eles já estavam entrosados em uma conversa falando de seus países. Bom, acho que isso não é de se estranhar, afinal ambos pertencem à países da América Latina.

- Ei, e em qual cabana você está?- Ouvi Austín perguntar em um certo momento.

- Na cabana grande perto do bosque, estou com o pessoal da América do Sul. Você devia aparecer por lá um dia, tenho certeza que iria gostar!- Sugeriu Joyce com um sorriso.

- Me fazendo um convite assim não tenho como recusar!

- Legal! Então ficarei à sua espera!

Quando o irmão de Joyce voltou com o prato de comida deles dois e se sentou ao meu lado, percebi que ela tentou disfarçar o clima que havia acontecido entre eles e logo começou a evitar olhar para Austín enquanto Matthew a estivesse olhando. Quando eles se levantaram para ir embora, Joyce pediu para Matthew voltar para a cabana primeiro porquê ela ainda iria no banheiro, mas assim que ele seguiu para fora da cabana refeitório, Joyce sussurrou algo no ouvido de Austín e saiu tentando disfarçar um sorriso assim como o ruivo.

- Tá legal, Austín! Pode falar o que tá acontecendo entre você e aquela devassa?!- Perguntou Allya rapidamente e todos olhamos para ele.

- Do que você está falando?!- Falou o ruivo em uma risada forçada.- Não está acontecendo nada!

- Não mesmo, é?! Então o que foi que ela sussurrou para você?

- Ela não falou nada, Allya! Vê se não me enche! Ela só pediu para se apoiar em mim enquanto ajeitava a sandália. Caramba, como vocês são intrometidos!- Esbravejou ele, levantando-se da mesa de forma brusca e indo embora em seguida.

- Q-Qual é o problema dele?! Eu só fiz uma pergunta!- Disse Allya sem entender, e as outras a fizeram se acalmar.

Já estava anoitecendo quando voltamos para a nossa cabana. As garotas das Fuinhas se despediram de nós e foram correndo de volta para o camping delas antes que os outros monitores dessem falta delas. Os gêmeos pareciam entristecidos, e iam tornar a levar uma pequena refeição para Charles. Porém quando chegamos na nossa cabana, ele não estava na cama. Não, ele estava caído no chão perto da porta, já que havia se arrastado até ali. O curativo em sua perna já não conseguia conter todo o sangue que escorria e tivemos que gritar por Austín para ele vir nos ajudar a levantá-lo e o colocar de volta na cama em segurança. Ângelo refez os curativos, tornando a limpar o local da cirurgia, e deu uma grande bronca em Charles. E nós, ainda sem sabermos o porquê dele ter levantado da cama e tentado sair da cabana, o questionamos assim que Ângelo saiu.

- No que é que você estava pensando?! Não pode ficar fazendo esforço com essa perna! Quer piorar ainda mais a sua situação?!- Dizia Austín irritado, e eu tentava o acalmar, mas até os gêmeos estavam alterados.

- É! Quer nos matar de susto, por acaso?!- Complementava Charlotte.

- Não...- Pronunciou o loiro com um olhar triste e sem nos encarar.- Eu só queria... Só queria ir até onde vocês estavam e ficar lá um pouco. Vocês não sabem o que é ficar trancado sozinho aqui dentro sem nem poder sair da cama!

- Mas se você estava se sentindo sozinho, por que não falou nada para a gente antes?- Perguntei.

- Eu não queria que vocês se preocupassem... A dor na minha perna tinha sumido por um instante então pensei que desse para ir pelo menos até o refeitório, mas... Eu acabei não conseguindo.

- E piorou ainda mais as coisas!- Afirmou a gêmea, recebendo um beliscão de Wally em resposta para que ela ficasse quieta.

- Agora já aconteceu, vamos deixar isso pra lá, sim?!- Sugeri, e eles consentiram.

***

Ângelo havia pedido para que ajudassemos Charles no que ele precisasse, inclusive no banho, mas o problema era ele aceitar a nossa ajuda sem que ficasse extremamente envergonhado.

- T-Tá bom, eu já estou indo! Mas não olhem, tá?!- Pedia o loiro, ainda receoso em entrar embaixo do chuveiro ligado enquanto eu e Austín o segurávamos com o rosto virado para o lado.

- Qual o motivo de estar tão preocupado com a gente não olhar, hein?! É para não vermos você pelado, é?!- Austín provocava rindo e Charles ficava ainda mais envergonhado.

- N-Não é nada disso! Eu só fico desconfortável estando na situação em que estou!

- Aham, sei!

- É sério!- Ele insistia, ficando cada vez mais corado.

Nós apenas ríamos das reações dele em resposta às provocações de Austín. E Charlotte permanecia indignada batendo à porta, e encostando o ouvido na mesma para tentar ouvir sobre o que falávamos.

- Desiste logo, Charlotte!- Pediu Wally, deitado na cama perto da porta e lendo o livro que havia trazido.

- Isso é tão injusto! Nós é que somos os irmãos dele, então éramos nós que deveríamos estar cuidando dele!

- Deixa eles cuidarem, Lotte! É melhor assim!

- Só se for para você, seu preguiçoso!

Quando saímos do banheiro, algum tempo depois já que decidimos tomar logo o nosso banho depois de Charles, encontramos Peter e Charlotte em uma conversa baixa na cama dele. Wally ainda estava deitado na cama de Austín, que logo o expulsou dali do jeito mais arrogante possível e alegando que estava "cansado".

A parte mais estranha, no entanto, começou na manhã do dia seguinte. Quando assim que acordamos tivemos uma surpresa um tanto sobrenatural, por assim dizer.

- Ei, acordem! Acordem!- Charles chamava-nos com empolgação, e assim que eu e Austín abrimos os olhos, vimos sua perna sem o curativo. E sem marcas. Era como se nada tivesse acontecido, não havia nenhuma cicatriz, nenhum vestígio de mordida nem nada do tipo.

- Isso é um milagre! Um milagre!- Repetia a gêmea com alegria e pulando do chão para o colo de Charles, o que acabou o derrubando sem querer no chão. Mas eles apenas riam, pareciam estar se divertindo.

- Não vamos mais precisar ir embora! Poderemos ficar aqui até o final do verão!- Diziam.

E com o alvoroço dos irmãos ingleses, ao fazerem o chão de madeira tremer, a mala de Charles que estava em um canto do quarto se virou e de dentro dela saiu uma carta com o logotipo do acampamento.

A animação deles foi contida por causa da correspondência misteriosa, e depois de muito insistirmos, Charles a pegou para ler. Mas a única coisa escrita, com sangue animal, era a palavra: Great, "ótimo". Não havia assinatura, data, e o nome do remetente estava apagado com o mesmo sangue usado como tinta na carta. Dentro do envelope havia ainda um cartão-postal da Inglaterra, com a imagem do relógio Big Bang, e um dente de crocodilo preso à um cordão como brinde.

- O-O que é isso?! É algum tipo de trote, por acaso?!- Questionou Charles, se desesperando aos poucos.

Mas nós também não sabíamos a resposta. Se alguém entrou na cabana e deixou aquilo ali no meio da noite, indo exatamente na bagagem do Charles, com certeza tinha outras intenções além de fazer essa brincadeira de puro mal gosto. E quem poderia ter feito isso? Ninguém ouviu barulhos durante a noite, e nada justificaria o machucado de Charles ter se curado misteriosamente. Sem falar que, naquela manhã, a enorme bandeira do acampamento que ficava em um mastro perto da cerca elétrica, balançava ferozmente na direção do nosso camping, mesmo que não estivesse ventando. A partir daí ficou assinada a sentença. Agora, tudo o que tínhamos que fazer, era tentar sobreviver até o último dia do acampamento!



---> 98 restantes.


Notas Finais


E é isso pessoas! Espero que tenham gostado, voltarei em breve com o próximo capítulo! Bye, bye!


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