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História Campeãs de Ethéria: Novos tempos - Capítulo 2


Escrita por:


Notas do Autor


Hey pessoal, tudo bem com vocês? Como prometido aqui tá mais um capítulo, sem mais delongas boa leitura e até as notas finais!
>u<

Capítulo 2 - Dias de mudança, P.1


 

O sol se elevou no horizonte no tom mais sangrento e os ventos quentes, carregados de enxofre e poeira, cantaram por cada parede de metal um assovio lúgubre. A alvorada apavorante só durou até o sol se normalizar com sua luz dourada enfeitando o céu límpido e o vento se acalmar até não passar de uma brisa insistente.

Mesmo assim, a lanterna do caos já mirou aquele monte de fábricas altamente poluentes e soldados sem convicção própria. Era só questão de tempo para tudo desmoronar.

 

POV/Narrador

Na Zona do Medo

Catra acordou com uma contração abdominal que logo passou, levando embora também seu sono. A cadete tentou dormir mais um pouco, se contorcendo na cama de olhos fechados até sentir algo úmido sob si e perceber que era o resquício de suas lágrimas. Praguejou em voz baixa e abriu os olhos, tendo como a primeira visão do dia o desenho do rosto de Adora, partido por garras, na lateral do beliche.

Não era para ser assim. No ano passado, quando fizeram aquele desenho, as duas estavam saindo de uma aula sobre o enorme poder da Horda (aulas estas que a felina no fundo sempre soube não passarem de lavagem cerebral) quando Adora se questionou em voz alta o porquê da Horda sempre marcar com seu emblema os lugares que tomava. Catra sabia a resposta: era para que, não importasse o que acontecesse depois, todos soubessem que aquele lugar pertenceu ao grande lorde Hordak, para que suas conquistas não fossem apagadas.

E a loira teve a ideia então de marcar aquela única cama que dividiam, para que, não importasse quanto tempo passasse, sempre fosse delas. E meses depois Adora teve a ideia de abandonar a Horda para ser a espada e o escudo dos inocentes, mesmo que para isso tivesse que abandonar sua grande amiga, deixá-la apodrecer como uma soldada sem importância nas estranhas escaldantes daquela base idiota. Foi impossível para Catra não rosnar ao sentir a raiva esquentando seu sangue.

– Isso é culpa sua!

Ela se aproximou até ficar a milímetros do desenho, encarando seus olhos de giz e secretamente desejando estar com Adora para chutar suas costas com toda a força, mas acabou suspirando em pensar nisso. Lutar contra Adora é como lutar contra o próprio lar, mesmo que ele tenha te abandonado, no fundo ainda é seu único lar, o único lugar onde você poderia se sentir em segurança.

Chega, Catra. Foco. É só derrotar a Rebelião e a Adora volta para a Horda, por bem ou por mal.

Olhou para as cobertas com alguns furos, fios desfiados e várias marcas de lágrimas. Torceu o nariz para si mesma e saiu do beliche, espreguiçando ao sol que lançava sombras longas pelo dormitório. Pensar em sombras a fez estremecer, lembrando da famosa Sombria. Muitos cadetes ainda estavam dormindo, mas para a capitã honorária, como adoravam diminuí-la, já passava da hora de se aprontar para um novo dia entediante.

Se levantou e foi ao vestiário, fez sua higiene pessoal e se encaminhou para o dormitório dos oficiais, um sonho de consumo que parecia muito distante apesar de chegar até ele em dois minutos. Abriu a porta do quarto de Scórpia sem nem bater, entrando e trancando. A mulher giganta arrumava o cabelo com as pontas das garras e uma expressão de concentração em frente ao espelho, Catra já estava mais acostumada com as coisas estranhamente fofas e radiantes do quarto de Scórpia, como o boneco escorpião e os desenhos, mas ainda se sentia meio deslocada.

– Hey Scórpia. – pulou sobre a cama impecável, sabendo que não precisaria arrumar. – Quais as ordens para hoje?

– Até o momento nenhuma novidade, então vamos seguir o protocolo: monitorar as rondas, o tráfego da base, dar uma olhadinha em como os soldados estão trabalhando e pronto. – enquanto falava Scórpia caminhava sorrateiramente atrás de Catra e pulou sobre ele com um abraço. – Ohh, é tão divertido a gente poder trabalhar juntas!

– Nhia! Scórpia, me larga!

– A Super Dupla de Amigas vai arrassar de novo!

– Tá bom, tá bom ô do rabinho pontudo. – Catra se desprendeu do abraço com cara de poucos amigos. – Como você consegue ser tão positiva com um trabalho tão idiota?

– Fazer o que, positividade é meu dom de família! – disse a giganta, dando um sorriso confiante depois de arrumar a cama pela segunda vez. – Agora vamos logo que esse trabalho não vai se fazer sozinho! Aliás, eu e Entrapta estávamos conversando ontem sobre suas teorias malucas dos Primeiros e -...

Catra soltou um suspiro desanimado, mas seguiu a companheira, que insistia em chamá-la de amiga, pelos corredores a ouvindo tagalerar sobre as paranóias da cientista maluca. Sim, Entrapta ficou para trás após a invasão das princesas à base, mas bastaram algumas palavras calculadas de Catra para convercer a cientista do abandono. No entanto, Entrapta continuava sendo uma prisioneira escondida, o que colocava as cabeças da dupla de capitãs na bandeja caso a captura não fosse reportada ao seu lorde logo, mesmo assim Catra estava disposta a esperar extrair todas as informações da princesa sobre a linha de frente da guerra, sobre Adora, antes de entregá-la à Hordak.

Pensar em guerra era uma boa distração para se esquecer dos próprios sentimentos confusos.

 

. . .

– ZUUUUUUUUUUUUMMM!!!

O alarme do refeitório na ala dos cadetes cortava a fumaça que subia das oficinas de guerra como uma motosserra estridente. Grupo a grupo, os alunos eram dispensados e marchavam para as mesas longas sob luzes verticais vermelhas. Enquanto o almoço àquele horário era obrigatório para os jovens, pode-se dizer que era facultativo para os oficiais, mesmo que muitos aproveitassem a hora para realizar ao menos um lanche. Assim, o espaço cheirando a frituras de alimentos congelados trazidos pelos trens de carga era dividido entre as duas classes. Catra, por capricho/grude de Scórpia, era poupada de ficar com seus companheiros de dormitório, embora as conversas do outro lado não fossem muito mais animadoras. Em geral, giravam entorno das necessidades da Horda e dos horários de suas tarefas.

Que tééédio, o pensamento estava estampado no rosto de Catra, que cutucava um purê de vários vegetais murchos misturados ao lado de uma carne empanada sabe-se-lá-do-que quando ouviu algo curioso.

– Alguém viu Sombria ou o Arauto hoje? – perguntou um ferreiro.

Todos na mesa negaram, estreitando os olhos uns para os outros como cúmplices da mesma pergunta.

– E o que isso muda? – soltou Catra, com seu jeito impaciente.

– Normalmente, – começou Scórpia, ainda comendo sua segunda porção extra de purê. – novas solicitações de equipamentos e transações de matérias-primas são expedidas diariamente pelo Arauto ou pela Sombria.

– Entendi. – Catra sente o medo se contorcer em sua barriga. – Mas, o que acontece quando não tem ordens?

Todos se entreolham apreensivos, procurando a coragem para encarar a realidade. Então Scórpia, com seu jeito inocente, para de comer, encara a bandeja por alguns segundos e levanta levemente a cabeça, os olhos vidrados:

– Nós nunca ficamos sem ordens.

 

. . .

O Arauto, como o conheciam, uma cruza de humano e inseto, com pele laranja, espinhos ante as mãos, cabelos ruivos de dreads, quatro narinas e dentes pontudos, além de olhos de ônix e uma túnica negra sobre as vestes vermelhas, andava de um lado para o outro no quarto de seu lorde, encontrado a menos de uma hora morto.

Arauto poderia até mesmo ter chegado àquele posição de porta-voz do lorde apenas para fugir do campo de batalha, mas isso não tornava menor sua apreensão, pois, como um ser muito consciente de sua posição ele sabia que o fim da hierarquia estava próximo e possivelmente o fim da Horda. Alguém bateu à porta e abriu-a, era um soldado totalmente vestido com um bastão elétrico alinhado na lateral do corpo.

– Como o senhor solicitou, senhor Arauto. – falou com a voz abafada e se retirou do aposento, deixando para trás um menino amordaçado pelas próprias lágrimas.

– Koldak... – falou o Arauto sem saber muito bem como continuar, então apenas abriu os braços e abraçou o menino, que começou a chorar contra sua barriga. Após alguns minutos o choro se reduziu a espasmos descontrolados, então o Arauto se abaixou, ficando cara a cara com o menino. – Olá, campeão. Pelo visto já sabe.

– Onde está o corpo dele? – os olhos piscavam diversas vezes, tentando limpar a visão, mas a voz não se mantinha tão forte.

– Está lá no complexo do necrotério. Estão preparando o corpo dele, limpando.

– Quando vamos vê-lo?

– Logo depois do anúncio. – Arauto faz uma pausa, pensando se o que está prestes a dizer é realmente certo. – Koldak, você sabe o que vai acontecer agora?

– Eu vou ser o novo lorde e liderar a Horda na guerra.

– Isso mesmo, menino esperto.

– Mas eu não quero liderar a Horda, tio. – os lábios do menino se contorceram em uma careta de dor, um tipo de dor que ataduras não poderiam ajudar. – A guerra tirou meu pai de mim, eu não quero mais essa guerra. E se eu não quiser liderar você vai fazer isso por mim e vai acabar morrendo por minha causa, no campo de batalha ou como meu pai. – ele abraçou o pescoço do homem com todas suas forças, mesmo que estas não fossem muitas no momento. – Por favor, levante as bandeiras brancas, se renda.

– Você sabe que seu pai nunca permitiu bandeiras brancas na Horda.

– Então pinte-as. Pinte as bandeiras, os lençóis, as cobertas e as roupas! – Koldak se afastou para encarar o Arauto. – Por favor, desista da guerra.

A mente do Arauto viajou pelas conversas iluminadas a velas nos bares das áreas relativamente urbanas mais à leste na Zona do Medo, para onde ele e Hordak viajaram em uma breve trégua. Naquela noite, o braço-direito que nunca pensou em dar continuidade àquele banho de sangue ouviu seu líder falar sobre algo que ele nunca imaginaria por conta própria e se perguntou se, no fim, as coisas não seriam melhores daquele jeito mesmo.

Mas isso apenas dificultaria tudo. Afinal, em uma guerra de duas ideologias fortes, de certa forma até corretas, qual a desculpa para uma rendição? Com a voz triste, ele encarou fundo os olhos da criança:

– Não podemos parar essa guerra até vencermos. Não se preocupe, falta pouco.

– Tio... – suas sobrancelhas caíram, a boca escancarada. – Tio. – ele puxou com os dedos finos a capa, se encolhendo sob ela. – Tio! Tio, tio, tio, tio tio tiotiotiotio...

E ali ficou repetindo aquelas palavras até seu choro chegar novamente, desafinando em gritos horrendos de desespero infantil, e tudo que o Arauto podia fazer era acariciar sua cabeça por cima do tecido.

 

. . .

– Irmãos e irmãs...! – Arauto se erguia frente ao trono no grande salão, onde cadetes, anciões e oficiais se atulhavam, sob a mira de câmeras que compartilhavam seu rosto com marcas de medo por telões ao redor de toda a Zona do Medo. Ao seu lado, um menino que poucos viram até então, mas todos suspeitavam a respeito de quem era, segurava sua mão, vestido como um príncipe da Horda. – É com extremo pesar que anuncio uma tragédia para nossa história. Na calada da noite, um assassino impiedoso, um traidor, invadiu o quarto de nosso lorde Hordak e matou-o enquanto dormia! – todos os queixos caíram ao mesmo tempo. – Eu sei! É inacreditável que isso possa ter acontecido, mas aconteceu. – ele fez uma pausa, permitindo que os murmúrios percorressem a multidão. – Revisamos as câmeras e vimos sombras estranhas se movimentando nos corredores da base. Não silhuetas ou figuras cobertas de preto, mas sombras, e sabemos muito bem quem era a única integrante que conseguia manipular a escuridão por aqui. – outra pausa, agora para os sons de descontentamento e raiva. – Sombria desapareceu. Não foi vista deixando a Zona do Medo, mas temos provas suficientes para apontá-la como a assassina. Agora mesmo, soldados estão saindo à sua busca, a caçaremos por todos os cantos da Zona do Medo e da Floresta do Sussurro!

– Temos ao menos uma pista, certo?! – Algum homem de voz grave gritou logo à frente do Arauto, mas sua voz podia ser ouvida até pelos cadetes no fundo do salão. – Digo, se ela foi vista nas câmeras em forma de sombra, ela tem que ter ido para algum lugar!

– Observação relevante, soldado! – o Arauto podia sentir suas mãos molhadas de suor quando juntou toda a raiva dentro de si, tornando sua voz dez oitavas mais sombria e seu olhar vinte vezes mais ácido quanto mirou, à distância, os cadetes. – Nosso último registro aponta que, antes de desaparecer, o último lugar pelo qual Sombria passou... – ele juntou uma última lufada de ar. – Foi a ala dos cadetes!

Como uma onda, de frente para trás, todos os olhares se voltaram para os cadetes, mas Catra podia sentí-los especialmente sobre si. É assustador como notícias correm rápidos pelos corredores de aço. Àquela altura todos sabiam da cadete desaparecida que deixou uma única amiga para trás, uma delinquente que sempre gostou de atormentar os oficiais e desafiar as regras. Catra era novamente a culpada pelos crimes de outra pessoa.

– Droga... – Isso é tudo culpa sua, Adora.


Notas Finais


Bem pessoal, por hoje era isso. Espero que tenham gostado!
Próximo capítulo segunda, dia 17 (sim estou tentando manter um padrão de segunda e sexta ksks)
Não se acanhem se quiserem comentar algo hein.
Tchau tchau e até a próxima!
>u<


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