História Canções para essa tragédia - Capítulo 1


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Categorias Free!
Personagens Gou Matsuoka, Haruka Nanase, Rin Matsuoka
Tags Disney, Drama, Guerra, Haru, Musical, Rin
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Palavras 2.464
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Musical (Songfic), Romance e Novela, Shonen-Ai, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Mutilação, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Um dia, uma pessoa maravilhosa e autora que admiro me disse que gostaria de ler algo de Free! criado por mim. Agora que a ideia finalmente me veio e a tenho escrita, não poderia dedicar a outra pessoa senão a esse pequeno anjo. @Yurippe-Chan_, imagino que não era exatamente isso que estava esperando ler, mas espero que goste. É para você.


Alguns avisos:

A ideia desta fic é que se pareça com um musical da Disney (será que eu consegui?), portanto encontrarão ao longo da leitura trechos de músicas que aparecerão listadas sempre nas notas finais. Optei pelas versões em inglês, então peço desculpas para quem não tem muita afinidade com a língua.

E, importante, Gou, aqui, não é irmã de Rin.


Boa leitura!

Capítulo 1 - Despertar e conhecer


2028. 114 anos após o início da Primeira Guerra Mundial, 83 anos após o fim da Segunda. 38 anos contados do começo da Guerra Civil de Ruanda e 25 anos após a declaração da Guerra do Iraque. 11 anos do término da Guerra da Líbia e 15 após conflitos entre a Ucrânia e a Rússia. 0 ano para conflitos no Oriente Médio e na África. E o homem ainda não havia aprendido a viver em paz.

De setembro de 2027 a dezembro de 2028, o Japão experimentou sua mais novaa versão da guerra no quintal de casa – uma reinvenção de seus antigos conflitos, mas em nada parecida com a expansiva Segunda Guerra: um embate direto com a China. Dezenas de milhares de soldados foram enviados para cruzar o Pacífico, muitos mortos antes de desembarcarem no continente. Um mês depois do início da guerra, incontáveis corpos foram arrastados pela corrente marítima de águas quentes – a Kyüshü – e as ondas da orla.  Mulheres os coletavam nas praias, procurando os corpos de seus filhos; no processo algumas se agarravam a mãos e pés – as sobras das explosões –, fieis de que os pedaços bastavam para a cremação e para o altar em suas casas. Pelo ar, o Japão teve maior sorte à custa da desgraça de outro povo. A guerra terminou no inverno, mas, no meio de tantos mortos e feridos, quem diria ser o país vencedor?

 

Quando Nanase Haruka chegou à ala de cuidados médicos improvisada em uma escola, era ninado pela mistura sórdida do chacoalhar dos corpos que caminhavam com sua maca em mãos e pelo efeito anestésico dos remédios. As vozes de enfermeiras e médicos às vezes chegavam aos seus ouvidos como cantigas. Mas só às vezes, visto que em outros tantos momentos apagava por breves segundos e quase sempre na sequência, ao despertar, tinha um zumbido no ouvido.

 

“Ele ficará bem?”

“Sim, mas precisamos de anestesia.”

“Está acabando.”

“Precisamos agora!”

“Certo. Vou chamar o responsável.”

“A incisão terá que ser aqui...”

“Não. Dois dedos acima. Não podemos arriscar, precisamos de uma margem de segurança para evitar que a gangrena se espalhe.”

“Pronto, doutor. Vão mesmo ter que amputar a perna?”

“Onde estão os instrumentos de que vou precisar?”

“O senhor só pediu a anestesia e...”

“Francamente!”

 

Quando Haruka Nanase acordou naquele mesmo lugar na manhã seguinte, foi com um grito excruciante na garganta, o qual o corpo, abruptamente colocando-se sentado, impulsionou para fora para colidir com camas, cadeiras e enfermos e enfim se silenciar nas paredes descascadas.

— Alguém ajuda aqui! Ele está com dor! — alguém bradou tão pronta e agudamente diante do desespero do que urrava. A resposta veio dos resmungos de outros feridos: o doutor estava ocupado e a cabeça de todos ali doía para terem que ouvi-lo se excruciar em gemidos sem fim. Era melhor que calasse a boca.— Oe, alguém! — fora, no entanto, a reação insistente.

Se foram os chamados ou o choro gritante e compulsivo que se espalhava pelo ambiente que surtiram efeito, todos ficaram sem saber, mas logo algumas pessoas trajando jalecos que um dia foram brancos apareceram para se saber o que ocorria. A perna, é claro. A perna doía. Era uma ardência constante, como se a carne – de tão pressionada – houvesse extravasado de toda a proteção da pele e se exposto para apodrecer ao ar livre. Somada a esta dor havia outra: uma ou outra fisgada, tal qual um conjunto de câimbras instaurado no que fosse lá que houvesse dos músculos ali, naquele bolo de carne que sentia repuxar e arder. A parte da perna que doía, todavia, não estava mais ali. E foi com algum pesar que o médico tentou explicar isso ao soldado ferido de olhos intensamente azuis, que só não eram mais deslumbrantes porque estavam espremidos de dor. Quando o grupo de pessoas com roupas claras deixou o que já fora uma sala de aula – agora adaptada para receber soldados feridos – ao som de novos resmungos dos demais – que voltaram a se sentir à vontade para deixar claro que haviam dito que aquele escândalo todo era por nada –, foi com a certeza de terem colocado a teoria da coisa na cabeça do jovem, sem, conquanto, aplacarem minimamente que fosse sua dor.

Sobrou apenas a Haru deitar-se com a mão à boca e os olhos arregalados, deixando que a dor física fosse sorvida lentamente pelos machucados da alma devido à dura constatação de que perdera toda a extensão da perna direita abaixo da coxa, sem atinar, no processo, que era acompanhado em cada movimento pelos olhos vivos do rapaz ao seu lado, aquele mesmo que havia clamado por ajuda meia hora atrás.

 

***

 

— Então você finalmente acordou!

Haru ouviu aquela voz estranhamente familiar, enquanto se remexia levemente na cama e encarava o branco do teto, analisando as manchas que o tornavam aqui e acolá um pouco acinzentados – torcia, intimamente, que o cinza fosse só na tintura e não também na sua vida, já que não tinha coragem de constatar com os próprios olhos se as informações que pulsavam em sua mente eram reais ou não passavam de um sonho. Sua perna ainda doía, afinal, do joelho ao dedinho mínimo. Teve, todavia, que abandonar suas dúvidas para se deter ao chamado: deixou a cabeça tombar à direita para tentar reconhecer o portador da voz que o inquietou.

Viu um ruivo aparentemente da sua idade no leito ao lado, estava sentado, com as madeixas pairando nos ombros e os olhos ofuscantes em cima de si. Eram de um acastanhado tão intenso que confundiam-se com o próprio vermelho. Olhos de Jaspe Vermelho. Se já os tivesse visto em sua curta vida, certamente se lembraria.  Não era o caso.

Haru voltou a contemplar o teto com toda a indiferença que cabia em si.

— Ainda está doendo? — a voz insistia, como uma martelada em sua cabeça.

Pensou ter visto um coelho desenhado em um dos borrões – quase a zombar de si por ser apenas uma marca no teto e não o roedor pintado pelos deuses na Lua – quando atinou para a realidade que ressoava somada à voz do ruivo: realidade esta que o fazia descobrir o mundo com a mesma empolgação das crianças que dão os primeiros passos. Passos, coelhos e o céu – quem dirá a Lua – estavam longe dele, mas não aquele ao seu lado: era ele quem havia feito um escândalo quando passara a vergonha de deixar as lágrimas verterem por causa dor e do desespero no momento em que acordara berrando de dor. Foi um segundo, mas Haruka odiou profundamente o rapaz e sua voz – que ainda se manifestava com algumas palavras que não lhe interessavam –, porque a existência deles, pura e simples, era o indicativo indesejado de que suas recordações mais recentes pertenciam ao campo das coisas reais. O que tinha em sua memória não eram recordações de um sonho, como ansiava.

Optou, no entanto, por não chocar as sensações que seu cérebro recebia com outras mais. Não precisava que seus olhos desmentissem o que a dor indicava: estava tudo ali, seu corpo inteiro. Seria difícil olhar e não ver o que tão intensamente sentia. Seria como cair em uma peça pregada por seu próprio sistema nervoso, porém sem que ninguém risse no final. Muito menos ele. Que droga era mesmo aquela de membro fantasma que o médico havia mencionado? “Ah...”, pensou. Haruka era um rapaz inteligente. Então só lhe coube as lamúrias silenciosas por sua condição: se a perna não estava mais completa ali, que tivesse levado embora também as dores!

A voz, no entanto, persistia entoando frases. Aquilo o perturbava. “Esse cara está falado sozinho?”. Nanase foi se afastando aos poucos do seu mundo interior para permitir se achegar mais perto daqueles sons, embalar em seus altos, flutuar com as nuances para, então, cair por terra com seu significado:

— Você está me ouvindo?

Era uma fala áspera. Haruka olhou o rapaz e ele não ria.

— Eu não sou surdo. — disse apenas.

O outro bufou e resmungou. Falou mais um tanto sozinho, para variar. Depois soltou:

— Matsuoka Rin.

— O quê?

— Meu nome, diacho! Matsuoka Rin!

— Eu entendi. — Haru respondeu, desejando intimamente que aquele rubro todo do outro fosse um pouco mais azul, qual o mar de que tanto gostava. Talvez aquilo descongelasse as paredes frias e opressoras que o cercavam; talvez fizesse o coelho acima de si engolir o riso sádico; talvez o fizesse ter seu membro de volta; ou talvez simplesmente fizesse daquele ser ao seu lado mais agradável — Nanase Haruka — disse com um quase um sorriso nos lábios. No fim, teria que lidar com aquilo de qualquer forma, que fosse da melhor que conseguisse. Não sabia, no entanto, que seu melhor – em boa vontade e esforço – não duraria muito à prova da paciência.

O tempo passava.

E dia sim, dia não, o coelho fazia charme com seus bigodes. A risada, contudo, impreterivelmente estava lá.

E Haru, embalado no chiado som do escárnio, foi aprendendo a sobreviver naquele espaço apertado, permitindo aos dias correm desajustados naquele espaço limitado. As estreitas janelas na parede leste não eram o suficiente para dar vazão à necessidade de liberdade que pouco a pouco atingia – e quase corroía – as mais diversas pessoas que ali estavam, fosse qual fosse o grau de brutalidade de suas almas. Mesmo que tentasse se manter calmo, era sensível – a ponto de beirar o palpável – como o confinamento ia desgastando as personalidades, embrutecendo os espíritos e trazendo à tona agressividades outrora contidas. Aonde quer que olhasse naquela sala, sorvia pessoas sofrendo pela dor e pela monotonia, a segunda apenas agravando a primeira. Quanto mais tempo ali, mais afetadas as pessoas eram. Mas claro, sempre há sua exceção: Rin tinha a cama próxima à tão desejada parede leste, talvez por isso fosse o único feliz dentre todos ali.

Como raramente estavam acordados ao nascer do Sol, não tinham o prazer de contar os dias por eles e tampouco um calendário jazia em uma das paredes ou em uma das poucas mesinhas que sobraram por ali, resquícios da época em que o estudo preenchia as manhãs e tardes daquele ambiente. Assim, ao mesmo tempo em que a contagem mensal se perdia, iam descobrindo que a melhor referência – que não era exatamente dormir e acordar, posto que o faziam diversas vezes num mesmo dia –  era a hora dos remédios. Descobriram que quando era a enfermeira de formas grandes a aparecer por ali com os comprimidos significa que eram sete horas da manhã. Quando era a voluntária ruiva acompanhada de um loiro magricela, o relógio batia 15 horas. E quando mandavam um velho mal humorado, era a última hora para o dia se encerrar e o próximo começar. Também descobriram que quando a enfermeira corpulenta não aparecia era fim de semana. E, embora a ruiva fosse mais frequente do que o loiro, não havia bem dias certos para eles estarem ali. O velho, no entanto, nunca faltava. Só vieram a saber tardiamente que a ausência dos voluntários não significava descanso ou má vontade: simplesmente não conseguiam chegar à escola porque o trajeto estava bloqueado. Realidades da guerra.

E como os dias passavam monocromáticos e sem graça, Haru foi tendo que se acostumar ao fogo que emanava dos cabelos do seu companheiro próximo de leito enquanto aprendia a lidar com as próprias dores. No fundo, invejava-o por estar mais próximo da janela do que ele. A cama – que pouco passava de uma maca – estava colada à parede e, sentado, facilmente ele podia espichar os olhos raros para o mundo exterior.

“O que há lá?”, era sua vontade de perguntar, mas sempre se continha. Talvez fosse uma questão de orgulho.

Sobrava-lhe, então, sua própria força de vontade para descobrir: decido a apreciar com seus próprios olhos o pouco que poderia da liberdade externa, forçou seu subconsciente a acordá-lo diariamente antes do nascer do Sol só para vislumbrar seus raios adentrarem mansamente através dos vidros e brincarem com a poeira que se mantinha escondida das vistas o restante do tempo. Inconcebível, no entanto, fora sua constatação de que sempre – não importava o dia – o ruivo estava sentado em sua cama fazendo o mesmo que ele, com a vantagem de apreciar a cena de camarote. A junção dos filetes de luz com o reflexo rubro dos fios longos acabava dando àquele momento místico matinal a semelhança fraterna com o pôr do Sol, o que desagradava Haru à medida que o começo se misturava ao fim, numa ironia estranha com sua própria vida.

Matsuoka, no entanto, parecia alheio a tudo aquilo e embebia-se nos lampejos do raiar que somente ele via em todo o esplendor. E cantarolava por isso. Só com a garganta, a boca fechada, o som quase inaudível. Todo dia uma música diferente.

Em uma daquelas manhãs, contudo, acabou for fazê-lo a plenos pulmões, acordado metade da sala – impossível fazê-lo por completo, já que a medicação forte da noite dopava umas tantas pessoas até que seu efeito se atenuasse (apenas para ter que repetir a dose, claro).

 

“Nants’ ingonyama, bakith, baba

Sithi hu ’ngonyama, ingonyama

Ngonyama nengwe bo!

Nant’s ingonyama, bakithi babo

Sizo nqo’

 

From the day we arrive on the planet

And, blinking, step into the sun

There’s more to see than can ever be seen

More to do than can ever be done

 

There’s far too much to take in here

More to find than can ever be found

But the sun rolling high through the sapphire sky

Keeps great and small on the endless round

It’s the circle of life

 

And it moves us all

Through faith and love

Till we find our place

On a path unwinding

In the circle”

 

Quando terminou, não houve aplausos. Silenciaram: cada um por seu motivo. A maioria sonolenta demais para reclamar ou reagir. Outros tantos embasbacados.

Nanase – talvez por ser o único que acompanhou as primeiras sílabas em sua formação inicial pela boca na outro – foi aquele que ousou dirigir-lhe a palavra, absorvendo-o no azul de seu olhar incompreensível e pasmo:

— O que foi isso?

— Disney. Você não teve infância?

Haru desviou os olhos.

— Acho que não dessa forma.

— Ora, todos tiveram! ... O Rei Leão, cara, todos conhecem essa música.

— Eu vi dublado.

Rin despejou uma gargalhada gostosa. As versões não eram tão diferentes assim, já que a melodia era a mesma e o sentido da letra se preservava – isso sem mencionar o começo idêntico em todas as versões –, mas optou por não insistir na discussão. Haruka voltou a fitá-lo, mas dessa vez intrigado: não sabia se deveria se sentir ofendido pelo riso fácil ou se ficava surpreso por alguém naquele espaço conseguir parecer tão feliz.

— É o tipo de criação que une todos os países. — Rin deixou escapar, enquanto a poeira ia se escondendo dos olhos nus conforme o Sol se posicionava mais acima do horizonte.


Notas Finais


Música:
"Circle of Life" [O Rei Leão]


Críticas e opiniões são sembre bem vindas.

Obrigada a quem leu!


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