História Canned milk - Capítulo 24


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Categorias Em Família
Tags Clarina
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Palavras 4.108
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Orange, Romance e Novela, Yuri (Lésbica)
Avisos: Adultério, Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Intersexualidade (G!P), Nudez, Sadomasoquismo, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


HAVANA OH NA NA

Capítulo 24 - 24


CLARA FERNANDES POV

Assim que fechei a porta com força, sentei no chão da sala e chorei por muito tempo. Tenho até vergonha de dizer isso. Estava me sentindo traída pelas minhas amigas e por mim mesma. Parecia que nada era como eu achava que fosse. Só tive coragem de me levantar quando ouvi o telefone tocando. Era Cadu.

– Amor, você já chegou?

Ele estava ligando para o número fixo, então supus que a pergunta era retórica. Simplesmente não respondi.   

– Amor?

– Sim, estou em casa.

– Você está bem?

– Sim – menti.

– Como foi a despedida? Vou passar aí, quero te dar um beijo. Senti saudade o tempo todo.

Céus... Eu mal tinha me lembrado dele.

– Não, querido. Estou tão cansada! Vou tomar um banho e capotar. É sério, mal consigo ficar de pé. – Aquilo era verdade, porém, não estava sentindo sono. Era tristeza mesmo.

– Tudo bem. Amanhã a gente se vê então?

– Combinado.

– Daí você me conta cada detalhe do que aconteceu lá.

– Está bem. Tchau.

“Acredite, Cadu, você não vai querer saber dos detalhes”, pensei.

Desliguei o telefone antes mesmo de ele se despedir. Não estava com paciência e começava a encontrar sentido no que Vanessa havia me dito. Tinha pensado coisas tão diferentes... Já estava com todas as decisões tomadas! Por que tudo tinha que mudar tão depressa?

A noite foi longa e solitária. Não conseguia pregar o olho. Tentei dormir em todas as posições, até coloquei vários travesseiros e me apoiei neles, imaginando Marina. Nada funcionava. Minha última saída foi tomar um calmante.

Meus pensamentos estavam cada vez mais confusos, guiando-me para direções que pareciam opostas. Todos os caminhos eram certos e errados ao mesmo tempo. Não era uma solução matemática, em que um cálculo podia ser feito e sempre gerava um resultado fixo. A complexidade da minha vida e de todas as baboseiras que andei fazendo estava me deixando louca.

Acordei com fortes dores de cabeça, mas tive que ir trabalhar. Cheguei à minha loja mais cedo e fui dando uma limpada, mesmo sabendo que havia funcionárias para isso. Não me importei; o que é meu, limpo na hora que quiser. Quando Carla chegou, falei algumas coisas sobre a loja e me tranquei na minha sala. Não queria ouvir sermões sobre o que aconteceu na despedida de solteira. Estava com vergonha de todas as minhas amigas.

Liguei o computador e abri a minha bolsa, pegando o meu celular e a carteira. Havia saído de casa sem comer nada, estava faminta. Decidi tomar alguma coisa na cafeteria que tinha na galeria perto de onde a minha loja se encontrava. Assim que saí, deparei-me com a grande placa de “vende-se” na frente da sapataria ao lado. Lembrei-me imediatamente de Marina. Ela estava precisando de um bom espaço para o seu estúdio e, apesar de não a querer por perto, não podia ser tão egoísta a ponto de atrasar o seu sonho de parar de se prostituir.

Peguei um papelzinho e anotei o número do telefone de contato que tinha na mesma placa. Só então fui fazer o meu desjejum. Voltei à minha loja, e as primeiras clientes já haviam chegado. Não me pergunte como alguém pode acordar cedo para comprar cosméticos, mas tenha certeza de que isso é mais comum do que você imagina. Resolvi algumas coisinhas com a funcionária que ficava no caixa e voltei para minha sala. Ignorei Carla novamente.

No impulso, mexi na minha carteira e peguei o cartão de visitas de Marina. Precisava lhe dar o número da sapataria. Juro, passei meia hora olhando para o cartãozinho preto com detalhes prateados. Era bem elegante e tinha o nome “Marina Meirelles” escrito com letras cursivas bem charmosas. Logo abaixo, tinha o telefone e o seu e-mail:

 [email protected]

– É isso! – murmurei para mim mesma. – Vou mandar um e-mail. Será melhor do que ligar!

Peguei o computador, abri a minha caixa de entrada e cliquei em “escrever”. Sério, eu não sabia por onde começar. Queria falar tantas coisas para ela... Mas nada era útil o bastante. Decidi ser sucinta. Só queria dar uma informação, nada mais. Sendo assim, escrevi as seguintes palavras:

“Bom dia, Marina. Aqui está o número da loja de sapatos da qual te falei. Eles estão mesmo vendendo o espaço. Espero que consiga realizar o seu maior desejo. Clara Fernades.”

Depois coloquei o número e o endereço. Achei que tinha soado bem profissional e longe de intenções. Cliquei em “enviar”, e já era.

Confesso que deixei o meu e-mail aberto durante todo o dia. Esperava algum tipo de resposta, qualquer coisa, mas não veio nada. Talvez Marina não conferisse sua caixa de entrada diariamente. Ou talvez estivesse ocupada. Trabalhando.

Balancei a cabeça, tentando tirar aquele pensamento de mim. Não sei por que, mas pensar nisso me causava um mal horrendo. Tanto que fiquei de mau humor durante quase todo o dia. Resolvi mais alguns problemas relacionados à loja, coisas bobas. Estava tudo em ordem. À tarde, recebi uma ligação. Era da costureira.

– Clara? Aqui é Célia, querida.

– Oi, Célia! O que houve, algum problema?

– Você combinou comigo para pegar o seu vestido hoje, às quatro horas. Esqueceu?

Olhei para o relógio em cima da minha mesa. Eram quatro e trinta e seis. Céus... Outro atraso. Aliás, aquilo foi muito além de um atraso. Foi um esquecimento. Sendo que nunca me esqueço das minhas responsabilidades. E quando digo nunca, é nunquinha.

– Célia! – quase gritei. – Estou chegando aí, me desculpa!

Ela riu ao telefone.

– Não se preocupe, estou aqui até as seis.

– Vou agorinha mesmo, já estou saindo!

– Tudo bem, querida. Até mais!

Cheguei ao Celia’s Noivas às cinco e meia. O trânsito estava horrível, mais parado do que de costume. Quase não conseguia estacionar o meu carro. Enfim, entrei no estabelecimento. Peguei o embrulho enorme e pesado que continha o meu vestido de noiva.

Não ia precisar experimentar, pois já tinha feito à última prova. Estava perfeito. Pedi mil perdões à Célia, depois liguei para Carla. Não ia conseguir voltar ao trabalho, por isso pedi que organizasse as coisas e fechasse a loja. Quarenta minutos depois, estacionei o carro na garagem do meu apartamento. Foi quando meu celular tocou. Era o Cadu.

– Amor, estou chegando aí daqui a vinte minutos. Vou só colocar gasolina.

Meu coração congelou. Não sei por que, mas queria ficar sozinha. Precisava pensar um pouco, sei lá. Não estava a fim de encarar Cadu. Entretanto, eu me vi sem saídas.

– Tudo bem. Estou esperando – murmurei, e desliguei o telefone.

Suspirei profundamente. O que estava acontecendo comigo? Alguma coisa não estava normal. Não mesmo!

Tomei um banho rápido e fiquei esperando o meu noivo. Ele não demorou muito. Estava preparando uma salada e assando fatias de frango quando ouvi a campainha. Fui atender a porta.

– Oi, amor! – Cadu sorria e segurava um buquê de rosas brancas. Estava bonito, usando uma calça jeans e uma camisa com desenhos alternativos na frente. Ele mesmo havia criado os desenhos.

Meu noivo era um homem alto e magrinho, mas até que definido. Tinha os olhos castanho-claros e o cabelo preto, cujo usava sempre com um topete despenteado muito charmoso. Era um rapaz lindo. Pelo menos eu sempre achei. Cadu me deu um selinho e entrou. Peguei o buquê e fui buscar um vaso.

– E então, foi pegar o vestido hoje? – ele perguntou da sala, enquanto eu colocava água no vaso e o depositava em cima da bancada da cozinha.

– Fui. Está aí no sofá. Não abra!

– Ele parece ser grande.

– Você vai ver quando chegar a hora – falei, agora voltando a minha atenção para as fatias de frango, que tinham queimado um pouquinho de um lado.

– E o sábado que não chega! – Cadu disse, animado.

– Pois é – murmurei para mim mesma.

– Quer alguma ajuda?

– Pega o suco aqui na geladeira. Está com fome?

Cadu apareceu na cozinha e fez o que pedi.

– Estou.

Ele pegou dois copos, dois pratos e os talheres. Já sabia onde eu guardava tudo. Como sempre fiz questão de me sentar à mesa – embora Cadu prefira comer no sofá, assistindo à TV –, ele também pegou dois kits de jogo americano e os depositou lado a lado na minha mesa redonda de mármore branco. Em dez minutos, já estávamos comendo.

– Você não me falou como foi a despedida de solteira.

– Foi boa – me limitei a dizer.

– Não vale só dizer isso. Quero saber o que fizeram.

Suspirei. Eu não sabia mentir, mas tinha que tentar. Meu futuro dependia daquilo.

– A casa era linda, tinha piscina... O quarto que fiquei tinha vista para o mar. Fomos à praia, enfim, curtimos muito. Até bebi um pouco. Foi divertido.

– Você bebeu? – Cadu franziu o cenho, incrédulo.

– Bebi. Não queria dar uma de chata.

Ele riu um pouco.

– Vanessa me disse que ia contratar um serviço de buffet para vocês não se preocuparem com a cozinha.

Meu sangue congelou. Deus... Por que é tão ruim mentir? É difícil acreditar que muita gente o faça com tamanha facilidade.

– Sim, ela era ótima.. Digo, a equipe era muito boa.

“Se mata, Clara!”, pensei.

– Fico feliz que tenha se divertido. A minha despedida será na quinta-feira. Os garotos não querem me dizer aonde vão... Ficaram de me pegar em casa e disseram que só me devolveriam pela manhã.

– Ah. Legal.

Cadu fez uma careta.

– Você está tão esquisita, amor! Pensei que ia reclamar comigo por causa disso.

– Não estou esquisita, só acho que você tem o direito de se divertir. Deixa os meninos te levarem para onde quiserem, afinal, as meninas fizeram o mesmo comigo.

Ele riu e se inclinou para me beijar. Deu-me outro selinho casto. Depois do jantar, Cadu lavou os pratos e eu terminei de organizar a cozinha. Deixamos tudo limpo e nos sentamos no sofá.

– Nem acredito que nos casaremos – ele murmurou, puxando-me para perto dele. – É um sonho, sabia?

– Cadu... – Tentei me erguer. – Você... Preciso fazer uma pergunta.

– Pode fazer, amor.

– É que... Você é feliz comigo?

Ele riu de leve, mostrando seus dentes enfileirados. Seu sorriso era bonito. Ponto final. Não irei acrescentar esta frase com um “mas...”, pois não vou – e nem quero – compará-lo a ninguém.

– Claro que sou! Que ideia é essa?

– Não, é que... Você se satisfaz comigo? – perguntei meio inibida. Não sabia onde queria chegar, mas pelo menos eu podia chegar a qualquer canto com ele.

– Como assim, amor? – Cadu estava achando tudo muito esquisito. Pudera, jamais havia falado sobre aquilo.

– Deixa pra lá – murmurei.

– Não, linda... Conta.

– É sério, não é nada. – Forcei um sorriso.

– Tem certeza?

– Tenho – menti.

– Então vem cá, quero te beijar direito.

Cadu me tomou em seus braços, e eu me deixei levar. Seus lábios eram conhecidos, doces, singelos. O seu beijo era sempre calmo, sem pressa. Ele me alisava os cabelos com mãos leves. Senti o seu cheiro; era super reconhecível para mim. Estava mais do que acostumada e me senti em casa.

Não vou fazer comparações, esqueça. Só estou descrevendo e não comparando. Comparar a lua e o sol é crueldade. Ambos têm sua beleza, seus encantos. São capazes de afetar os meus sentidos. Porém não posso me enganar. Fiquei decepcionada.

Senti-me como uma cadela, no termo literal da palavra. Se bem que também me senti no não literal. Mas, imaginem só a seguinte historinha: eu era uma cadela acostumada a sempre comer a minha ração saudável e tranquila. Até que um belo dia alguém me serve um pedaço farto de carne, e me delicio. Então, do nada, a carne me é tirada e devo voltar a comer ração. Parece horrível dizer isso, e é. Até eu me choco, mas foi como me senti quando Cadu me empurrou no sofá e prendeu seu corpo em cima do meu. Sabia onde ele queria chegar. O problema era que eu não queria chegar lá. Não era o meu desejo.

– Cadu... – Suspirei, tentando me afastar. – Vamos... Vamos esperar o casamento.

– Clara, deixe de besteira. Já fizemos isso tantas vezes.

– Mas... Assim dará mais vontade. Nossa lua de mel será mais... Enfim, intensa – enrolei.

Estava um poço de falsidade. Coisa feia. Lamentável.

– Hum. Tudo bem, então. – Cadu se afastou, mas me puxou para cima dele. Sentei em seu colo, tendo os pés apoiados no sofá. Meu noivo me segurou como se eu fosse um bebê. Sorri um pouco.

Cadu era especial. Sim, sem dúvidas. Eu podia ser feliz com ele, facinho. Aliás, nós íamos ser felizes. Deus abençoaria nosso amor perante uma igreja lotada de convidados.

POV MARINA MEIRELLES

O que não tem solução, solucionado está, já dizia o ditado – e devo concordar com ele. Estar de mãos atadas não era tão ruim assim, pois podia deixar de me preocupar, curtindo o conforto que só a indiferença pode trazer. Tudo bem que não estava totalmente indiferente, mas foi bom sentar no meu sofá depois de um banho e passar horas jogando videogame. Lulu e Don Juan estavam dormindo no meu colo, ambos fazia bem o papel de companhia. Um pacote de pipoca de micro-ondas jazia na mesa de centro, junto com uma garrafa de Gatorade. Eu não precisava de mais nada.

Quando me senti sonolenta o bastante – não queria arriscar ficar pensando em besteira enquanto revirava na cama –, fui ao meu quarto e me aconcheguei entre os travesseiros, trazendo meus gatos comigo. Dormi em menos de um minuto, um sono incrivelmente pesado e relaxante. Sem sonhos ou pesadelos.

Acordei com o barulho frenético do meu celular. Pelo toque, sabia que tinha cliente marcada. Eram nove horas da manhã, muito cedo para um encontro sexual, portanto já sabia de quem se tratava: Isabelle.

Era uma mulher jovem e muito inteligente. Também tinha bastante dinheiro; era PhD e trabalhava na área científica, ganhando horrores com projetos que envolviam inteligência artificial. Só sei disso porque um dia assisti a uma entrevista no noticiário local, visto que ela é muito discreta e nunca fala sobre nada referente à sua vida pessoal.

Nossos encontros são sempre em dias de segunda pela manhã, acho que é seu horário de folga. Não importa, eu gosto de transar com ela. Meio esquisito, afinal, Isabelle não possui muitos atributos físicos. É magra demais, seu rosto tem traços meio grosseiros e o cabelo assanhado é de uma cor ferrugem esquisita. Entretanto, por ser quietinha e tímida, quase não solta gemidos durante a relação, e isso só me desafia a fazê-la gritar. Quando acontece, sinto um prazer imenso. Acredito que é por causa da sua ausência de beleza que precisa dos meus serviços – se bem que as pessoas devem se sentir intimidadas com a sua inteligência exacerbada.

Levantei-me da cama e abri as cortinas que davam para a pequena varanda. O dia estava bonito. Meu corpo agradecia o descanso prolongado. Tomei um banho e vesti as roupas que Isabelle exigia: calça, sapatos e camisa brancos. Ela tinha um tipo de fetiche por médicos. Eu achava engraçado, ficava me sentindo importante com aqueles trajes.

O café da manhã foi na minha padaria preferida, bem em frente ao meu apartamento. Precisava fazer compras mais tarde, a despensa estava meio vazia. Podia ligar para Taylor e marcar algum jantar, tinha muitas saudades dela. Também precisava conversar com alguém confiável sobre o fim de semana. Ela certamente riria de mim, mas sei que faria eu me sentir melhor.

Estava sentada em uma das mesas da padaria, sendo paquerada descaradamente por três mulheres – uma delas acompanhada pelo namorado –, bebericando uma xícara de café e mordendo um sanduíche natural delicioso, quando meu celular deu outro alerta. Aquele era diferente. Puxei-o do bolso e vi que tinha um novo e-mail na minha caixa de entrada. Abri-o achando que era spam, mas o que li me surpreendeu bastante:

“Bom dia, Marina. Aqui está o número da loja de sapatos da qual te falei. Eles estão mesmo vendendo o espaço. Espero que consiga realizar o seu maior desejo. Clara Fernandes.”

Tive que me controlar para não cuspir o café. Consegui engolir o líquido quente, mas acabou entrando pelo lugar errado. Comecei a tossir feito uma louca, pegando um guardanapo para me ajudar. Reli o e-mail, ainda muito surpresa. Meus olhos estavam bem abertos, mas meu cérebro meio que tinha parado de funcionar. Li o e-mail de novo. E de novo. E de novo.  Não dava para acreditar naquilo.

Não sei dizer o que mais me deixou surpresa: o fato de ter recebido um e-mail de Clara logo pela manhã, o de que ela se preocupou o bastante comigo para se dar o trabalho de conseguir o telefone da sapataria ou a ideia de montar meu estúdio ao lado da loja dela.

Ah, não posso me esquecer do “espero que consiga realizar o seu maior desejo”. Se ela soubesse qual era o meu maior desejo naquele momento, talvez não tivesse me mandando aquele e-mail.

 

Tudo era esquisito e surreal demais, parecia ser possível apenas em um sonho muito bom. Não esperava que Clara chegasse a entrar em contato, apesar de ter pedido o meu cartão de visitas. Pensei que ela iria ignorá-lo, deixar aquela história toda para lá.

Estava enganada.

Li a mensagem mais uma vez, sorrindo amplamente. Era bom demais para ser verdade. Clara não somente tinha deixado o telefone, como também o endereço do estabelecimento. Isso significa que eu sabia exatamente onde encontrá-la, e apenas alguns minutos de tráfego me distanciavam dela.

Cliquei em “responder”. Pensei em trinta milhões de respostas para dar, mas simplesmente não saía nada. Terminei o desjejum ainda com o celular em mãos. Parecia uma idiota; meus dedos tremiam como se o dia não estivesse ensolarado.

Conferi o relógio mais uma vez. Tinha vinte minutos para chegar à casa da cliente. Acabei guardando o meu celular, prometendo que a responderia quando estivesse de volta. Tentei manter a calma e a concentração, mas meu coração insistia em bater acelerado. Estava nervosa, apreensiva, angustiada ao nível máximo.

– Oi. – Ergui a cabeça e dei de cara com uma mulher loira. Estava saindo da padaria, mas pelo visto ela não havia notado a minha pressa.

– Oi – respondi por educação, sorrindo torto. Não estava a fim de flertes, precisava trabalhar.

– Acho que nos conhecemos – continuou, encarando-me como se fosse me comer com os olhos. – Você malha na mesma academia que eu, chega sempre às quatro da tarde.

Franzi o cenho. Ótimo. Outra louca que seguia os meus passos. Não era incomum, metade das mulheres daquele bairro sabia os meus horários mais do que eu mesma. Várias eram minhas clientes, e o restante não tinha dinheiro ou coragem para me “alugar”. A outra metade era composta por mulheres recalcadas que me olhavam torto, mas no fundo queriam ser fodidas tanto quanto as demais.

– Pois é, legal. Bom, estou com pressa. Prazer em conhecê-la – falei rápido, abrindo a porta de vidro da padaria.

– Meu nome é Annie – disse como se eu tivesse perguntado.

– Marina. Até mais – respondi e, com passos largos, atravessei a rua, voltando ao meu prédio.

Fui direito ao estacionamento. Precisava correr, Isabelle gostava de pontualidade. Quero dizer, nem sabia se ela gostava, mas eu gosto de ser pontual. Odeio me atrasar, detesto deixar alguém me esperando. Dei a mim mesma o direito de ir mais rápido com a Charlotte. Ela corria bem que era uma beleza, mas nunca gostei de exagerar no trânsito. Considero-me uma mulher prudente.

Parei na frente do condomínio fechado da Isabelle. Identifiquei-me na portaria, meu nome já estava na lista de visitantes, bem como a placa do meu carro. Entrei sem maiores problemas, estacionando na frente da casa de número doze. O local era amplo e arborizado, só o serviço de jardinagem devia custar uma fortuna. As casas enormes mantinham o mesmo padrão rústico; a organização era tanta que aquele lugar parecia pertencer a outro país.

Conferi o relógio mais uma vez. Dez horas em ponto, havia chegado na hora certa. Desci da Charlotte e, enquanto seguia pelo jardim até a porta de madeira da casa de Isabelle, fui me sentindo mal. Uma coisa ruim dominou o meu peito, deixando-me sufocada. Toquei a campainha e suspirei profundamente, buscando tranquilidade. A verdade era única: embora não quisesse aceitar, estava pensando em Clara, perguntando-me se eu seria capaz de tirar seu sabor dos meus lábios beijando outra mulher. Aquilo me perturbava. Era como se eu ganhasse um CD autografado da Lana del Rey, certamente não o escutaria com receio de que se tocasse na capa, o autógrafo saísse.

Clara havia me marcado, autografado o meu corpo com o seu, deixando rastros de paixão e um perfume enlouquecedor que se enraizara na minha pele, oferecendo a sensação contínua de que ela ainda estava por perto.

– Oi, Marina!

Acordei do transe. Isabelle me olhava de cima a baixo, trajando um vestidinho florido bem simples. Seu cabelo não estava tão assanhado devido a uma trança lateral que chegava até a altura de seus seios pequeninos. Estava sorridente e parecia animada, apesar de estar corada de vergonha. Bom, ela sempre corava quando nossos olhos se cruzavam. Eu gostava disso.

No impulso, entrei em sua casa e lhe puxei a trança, agarrando-a. Sabia que Isabelle não gostava de nenhuma agressividade, era uma romântica assumida, mas não pestanejou quando beijei sua boca com vontade forçada. Ela se desvencilhou depois de longos minutos, totalmente sem fôlego.

– Uau! O que deu em você hoje? – perguntou sorrindo, fechando a porta atrás de si.

– Não faço ideia – menti.

Sabia bem o que tinha me dado; eu estava apenas passando um pano em cima do CD autografado pela Lana. Sem dó nem piedade, sem culpa ou ressentimentos.

Puxei Isabelle novamente, só que, desta vez, o beijo ganhou ainda mais intensidade. Sua boca era pequena, os lábios fininhos me fizeram estranhar bastante, mas não ousei parar. A cada investida o meu coração doía, martelava até me causar dor física. Ignorei. Simplesmente ignorei.

Empurrei a cliente para o sofá mais próximo; a sala era toda composta de móveis rústicos e muito luxuosos. Havia quadros espetaculares majestosamente pendurados nas paredes. Era um ambiente admirável, mas eu estava concentrada no meu trabalho. Só queria acabar logo com aquilo.

Isabelle arqueou as costas e abriu as pernas ao redor da minha cintura, deixando o vestido deslizar e fazendo sua calcinha ficar à mostra. Continuei a beijando, enquanto descia meus dedos e alisava o tecido fino de renda. Meus lábios formaram uma trilha de beijos até o seu pescoço. Inspirei profundamente, sentindo um cheiro bom, mas totalmente distinto daquele que eu queria sentir. Isso me fez parar.

Simplesmente parei.

Travei mesmo, de verdade.

Ergui o meu corpo e me sentei no sofá, enquanto ouvia Isabelle buscar o fôlego que eu havia lhe roubado. Encarei-a seriamente, engolindo em seco. Ela me devolveu o olhar, corando como sempre.

– Você está bem? – murmurou.

– Estou – respondi, mantendo uma firmeza que não possuía.

Isabelle se levantou e sentou em cima de mim de frente. Começou a me oferecer beijos cautelosos, que passavam pela minha bochecha, boca, olhos, nariz... Enfim, eu podia achar gostoso se não estivesse me sentindo tão desesperada. Tão perdida e infeliz. Não consegui conter um longo suspiro.

– Marina... Você não está bem. – Isabelle se afastou muito depressa, sentando-se ao lado.

– Aconteceu alguma coisa? Posso te ajudar, é sério.

– Não se preocupe, eu... Só estou... – Balancei a cabeça, tentando arranjar alguma boa desculpa. Não me passou nada pela cabeça além do rosto de Clara me encarando com ar de desprezo. Isabelle se aproximou, olhando-me de perto.

– Acho melhor desmarcarmos, Marina.

– Não! – falei rápido demais. – Não, é sério. Não precisa.

– Olha, posso não saber nada sobre a sua vida, mas te conheço o bastante para saber que não está normal. Aconteceu alguma coisa, e acho melhor você resolver.

Continuei balançando a cabeça, sem acreditar que aquilo estava acontecendo. Frustração era pouco para me definir; naquele momento, eu era um pedaço diminuto de decepção e raiva. Ódio de mim mesma por ser tão estúpida.

– Tudo bem – falei, sentindo-me vencida. – Tudo bem, mas nos vemos na próxima segunda, ok?

– Com certeza. – Isabelle riu de leve. Não parecia decepcionada. Sua preocupação era sincera, e isso me comoveu um pouco.

Dei-lhe um selinho casto e me levantei, caminhando até a sua porta. Ela me acompanhou. Antes de ir, abraçou-me fortemente.

– Fica bem, Marina. Qualquer problema, conte comigo. Farei o possível para ajudá-la.

– Obrigada, Isabelle. Não se preocupe, vou resolver os meus problemas depressa. – Era o que eu esperava, embora a solução estivesse cada vez mais distante.

Entrei na Charlotte e dei partida. Sinceramente, nem sei direito como cheguei à minha casa. Só me lembro de ter ligado o som no último volume, tentando espantar os fantasmas que me assombravam.

Bom, não eram tantos assim.

Era só um.

Um fantasma com lábios carnudos e olhos hipnotizantes. Tinha nome e – agora eu sabia – sobrenome: Clara Fernandes.

 


Notas Finais


E ai meninas !!


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