1. Spirit Fanfics >
  2. Canvas >
  3. Nobody on the beach

História Canvas - Capítulo 3


Escrita por: monodraminha

Capítulo 3 - Nobody on the beach


 

O único jeito de se comunicar com a familia e amigos, na condição de trabalhadores do porto, era via carta. Para Kyungsoo era um tanto quanto corriqueiro receber mensagens dos pais, mas para Jongin era difícil porque seus familiares estavam em outro país. Era véspera de natal quando aconteceu pela primeira vez, e durante uma distribuição de cartas chamaram seu nome.

— Tá escrito em chinês, só pode ser pro Kai — o rapaz responsável pelas correspondências entregou o envelope para o Kim, que brincava e ria com os colegas a pouco, e o sorriso que ele tinha foi desaparecendo à medida que ele lia o nome do remetente.

— O que foi, Kai? — Kyungsoo perguntou, tocando em seu ombro.

— É uma carta da Xiao Wei — falou como se estivesse tentando acreditar naquilo. Enfiou o papel no bolso, amarrotando ele todinho, e começou a andar para longe da aglomeração.

— Quer que eu leia com você? — ofereceu, segurando seu braço com cuidado.

— Não, preciso fazer isso sozinho — sorriu fraco, se desvencilhando do menor. — Te vejo depois.

O dia seguiu normal, mas tinha um arzinho esquisito pairando em volta de Kyungsoo. Não viu mais Jongin, nem pelas docas, nem no refeitório quando chegou para jantar, então resolveu passar no dormitório para conferir se ele estava lá para que pudessem comer juntos.

Nem em um milhão de anos estaria preparado para aquela situação. Assim que abriu a porta, Jongin deu um pulo de susto, como se fosse uma criança daninha que acabou de ser pega fazendo o que não deveria. Sua mochila estava sobre a cama com os bolsos grandes escancarados, ao lado de suas roupas dobradas sem muito cuidado.

— Kai? O que você está fazendo? — Ele tinha um tom mais surpreso do que acusador. Os olhos grandes estavam aflitos, ainda mais quando percebeu que Jongin estava arrumando suas coisas escondido.

— Soo, eu posso explicar — fechou a sua gaveta, agora vazia, da cômoda que dividia com Kyungsoo, respirando fundo antes de sentar na cama. — Eu não ia embora, eu não estava escondendo de propósito, eu...

— Você estava indo embora? — ah, aquelas palavras saindo da boca de Do eram praticamente espinhos cutucando os ouvidos do Kim. Era uma conversa que eles teriam, de qualquer forma, mas Jongin ainda não estava preparado psicologicamente. — Não estou entendendo.

— A carta de Xiao Wei — suspirou, derrotado. — Meus pais querem que eu volte, ou vão colocar ela para fora — Kyungsoo estava paralisado, a perturbação congelada em suas feições. — Já se foram seis meses, Soo, estão começando a achar que eu fugi.

Kyungsoo queria perguntar o motivo de ameaçarem jogá-la para fora de casa, já que uma nora ajudava, certo? Imaginava que Xiao deveria ser encarregada de trabalhos domésticos, como era bem comum para esposas naquela época, principalmente quando moravam com a família do marido. Mas nada saía, e ele sentia-se vazio pelo pensamento de ver Jongin partir.

 

Ele viu aquilo vindo, não podia negar.

 

A bobagem estava feita quando se permitiu pensar em Jongin como algo mais do que um amigo. Ele sabia que Jongin já tinha alguém, ele não hesitou nem por um minuto a se aproximar, se deixar levar pela beleza dele, se envolver. Mas, porra, Jongin sabia que era casado (estava noivo, mas o Do não conseguia distinguir esses pensamentos), então ele era culpado também. Na verdade, a culpa era toda dele por ter se esfregado em Kyungsoo naquele dia de manhã, certo?

Não, tinha acontecido muito antes dos toques.

Um filme sobre Jongin atingiu a mente de Kyungsoo, repassando em flashes todos os momentos onde o Kim foi o personagem principal de tudo que protagonizaram juntos. Ele assistia enquanto Jongin falava, mas não conseguia entender o que saía da boca do sino-coreano à sua frente, só vasculhava suas memórias procurando exatamente o ponto chave onde tudo desandou. 

Se arrependeu amargamente porque a única conclusão que teve foi que sentiu aquela coisa por Jongin logo que o viu na porta do dormitório, com a carta de Chanyeol em mãos e, principalmente, quando o Kim confortou seu pranto.

— Soo? — Jongin chamou, puxando-o de volta para a superfície daquela pilha de pensamentos. — Não chora, conversa comigo, vamos dar um jeito.

Do não tinha ideia do que Jongin estava falando, nem ao menos havia percebido que estava chorando. Dar um jeito? Conversar? Ele só queria se esconder com o maior debaixo das cobertas e ficar lá para todo o sempre.

— Eu ainda não entendo, Kai — repetiu apático, ainda em estado de choque. — Você vai me deixar?

— Não, não, não — repetiu, indo até ele e o abraçando desesperado, cobrindo seu rosto com beijos que eram mais melancólicos do que carinhosos. — Não quero te deixar, não quero.

— E então, Nini? — segurou seu rosto com as palmas das mãos em sua bochecha, tendo uma cor na voz, dessa vez. — O que vamos fazer?

— Vamos fugir — teve o estalo, Kyungsoo quase deixou um pfft escapar pela ideia absurda, mas continuou olhando. — Vamos para a América, Soo. Como Chanyeol e Jongdae fizeram, vamos para onde é sempre quente. Podemos trabalhar de qualquer coisa, fazer qualquer coisa, estaremos juntos e longe de todos.

— Para a América? — Ele assentiu e um fantasma de sorriso pairou nos lábios de Kyungsoo. — Vamos morar no Kansas?

— Vamos morar onde você quiser — colocou as mãos sobre as mãos de Kyungsoo, sorrindo breve também. — Teremos uma coleção de discos, uma vitrola enorme, vamos dançar no nosso quintal repleto de girassóis.

Ele poderia viver sem aquela ilusão que Jongin acabou de lhe dar. Uma cabana no interior do Kansas, uma horta e muitas flores, a vida a dois com o Kim. Diferente da vez anterior, o que aconteceu foi um trailer de tudo que poderiam ter, caso ele aceitasse a oferta, mesmo sem nenhuma confirmação de que daria certo. Ora, eles se amavam naquelas condições porque só tinham vivido aquilo, até então. E se não desse certo quando mudasse? Esse pensamento aterrorizou Kyungsoo.

— Mas e sua família? E minha família? — perguntou, tirando o brilho do rosto de Jongin. O mais alto considerou a questão, preparando uma resposta plausível. — E Xiao Wei?

— Eu posso mandar o dinheiro que tenho para ela — foi a primeira coisa que pensou. — Assim, ela compra uma casa pequena e pode viver bem até…

— Até..?

Jongin sentiu o peso das palavras assim que elas deixaram sua boca. Comprar uma casa, viver bem? Ele definitivamente estava fantasiando com o que sabia que nunca seria realidade. As coisas não são simples assim, principalmente para uma mulher. Uma mulher abandonada pela família e, nesse cenário, pelo marido.

— Não pode — Kyungsoo murmurou. — Não pode abandonar a Xiao. Ela só tem você no mundo.

Kai aquiesceu e manteve o silêncio por um tempo. Sabia que o Do tinha razão, mas não queria concordar.

— Eu não quero te perder — murmurou entredentes, sem olhar para o mais velho. — Eu não vou abrir mão de você.

— Jongin, por Deus, o que você está dizendo, as coisas não são assim— foi interrompido por ele, que a esse ponto já tinha os olhos marejados.

— Tem um barco — bufou, tentando acalmar a respiração. — Um barco de passeio, grande o suficiente para uma viagem longa. Ele pode nos levar até a América, recebemos essa semana, podemos pagar a viagem.

Não conseguia reagir, só observava Jongin gesticular desesperado tentando arrumar uma solução para eles.

— Vamos, arrume suas coisas. Eu vou agora conversar com o capitão — Jongin tomou as mãos de Do nas suas, aproximando do rosto e as beijando. — Fique com a minha mochila, pegue suas coisas e me encontre lá. Ele está parado ao lado do navio que sai agora à noite.

O navio que sai agora à noite era o fatídico navio que iria para a China, atracaria no porto de Guangzhou e era onde Jongin deveria descer. Onde ele iria descer, Kyungsoo repetiu para si, sentindo os lábios molhados de lágrimas do Kim tocarem sua testa antes de ele sair afobado.

Kyungsoo deixou que seus olhos vasculhassem o perímetro do quarto e acessassem suas melhores memórias feitas naquele cubículo. As camas, que às vezes eles arrastavam uma para o lado da outra e preenchiam o espaço entre os colchões com um edredom para deixar mais confortável; a cômoda, que além das roupas acomodava alguns livros, cadernos e discos, assim como a vitrola que Jongin cuidava com tanto esmero.

Sentia como se seu coração estivesse apagando, sua força se esvaindo. Nunca poderia disputar com a ordem natural das coisas. A destino arrancava Jongin de seus braços à força e, mesmo que quisesse lutar, não gostava daquela sensação de ser cruel. Cruel com Jongin, cruel com Xiao Wei, com sua família e com a família alheia.

Pegando a camiseta branca surrada do Kim de cima do colchão, fungou o tecido limpinho fazendo que o cheiro de Jongin impregnasse suas narinas. Era péssimo com despedidas e aquilo mostrava. O adeus deles estava cada vez mais próximo.

Dobrou a roupa amarrotada com cuidado, mais como uma maneira de atrasar o inevitável do que outra coisa. Juntou os poucos LPs de Jongin e deu um jeito de enfiá-los na mochila — ficando um pouco surpreso que aquilo coube lá dentro sem quebrar. Suspirou várias vezes nesse processo e, antes de sair, lamentou que não tinha tempo de escrever uma carta ao invés de um bilhete.

— Boa noite, Soo — cumprimentou Choi, do quarto ao lado, quando Kyungsoo passou por ele. Devolveu a saudação acenando com a cabeça. — Onde vai?

— Me despedir de um amigo — sorriu fraco, a voz embargada. Choi estreitou os lábios, como se lamentasse.

— Ah, que pena! Despedidas são tristes — concluiu, numa tentativa de prestar algum conforto. — Que ele faça uma boa viagem, então.

— Assim seja — agradeceu e seguiu seu caminho, ajeitando a bagagem mínima nas costas.

Jongin o esperava na borda do deck, no espaço onde as pessoas que estavam chegando e partindo começavam a se amontoar. Sorriu de orelha a orelha quando o avistou, mas Kyungsoo não conseguiu retribuir na mesma intensidade, pois nessa altura já estava sentindo uma dor quase palpável pela separação.

Jongin sempre fora o mais puro da ternura. Carinhoso, prezava pelo máximo do contato físico na relação, então envolveu o mais velho em seus braços, respirando fundo e encostando a bochecha na testa de Kyungsoo. Era o abraço mais seguro que experimentou, achou justo que se beijassem também, uma vez que o tumulto de gente ali faria com que passassem despercebidos. 

A buzina do navio chinês quase os deixou surdos, além de fazer apertar o peito de Do. Eles seguiam para o barco de passeio, que deveria estar atracado depois da embarcação imensa.

— Não é grande coisa, mas aguenta o mar — Jongin pontuou, sinalizando na direção da que os esperava. — Alguns vão descer antes, depois vamos pegar a rota do Pacífico e em alguns dias estaremos na Califórnia. Não é incrível?

Estava uns dois passos na frente de Kyungsoo, o puxando pela mão, e parou assim que não obteve resposta.

— O que foi? — Jongin perguntou, o rosto de quem sabia a resposta e a ignorava. — Onde estão suas coisas?

Kyungsoo continuava impassível. A mesma expressão, o corpo rígido, o maxilar cerrado como se sentisse dor. Jongin repetiu a pergunta e chegou mais perto e, só então, Kyungsoo chorou.

Lá no fundo (bem fundo mesmo), o sino-coreano sabia que o Do não seria favorável ao plano. Ele mesmo, inclusive, não era, mas se permitiu pensar que havia futuro para eles juntos por alguns minutos. Repetindo as ações anteriores de Jongin, trouxe as mãos do rapaz para perto do rosto e as beijou. Foi aí que Jongin percebeu que eles estavam parados próximos da rampa de embarque do navio.

— O barco está partindo — avisou, choroso. Kyungsoo quase soluçava, mas tentava manter o sorriso na tentativa de confortar o outro.

— Agora está — e Do puxou o maior, alinhando seus pés com a rampa. Todos que precisavam embarcar já o tinham feito e agora acenavam do outro extremo do navio para a multidão que se despedia na plataforma. — Vá. É o certo a fazer.

O coração de Jongin ardia. Lembrou de momentos onde sentiu dor para tentar traçar um comparativo, mas não havia nada igual. Dores de dente, rejeições amorosas do ensino fundamental e outros tombos na escola; quando caiu da árvore e quebrou o pé ou quando cortou o braço numa cerca tentando fugir de cachorros e precisou levar seis pontos. Nada se comparava.

— Vamos, rapaz, vai subir ou não? — ralhou um velho chinês, avisando que queria recolher a escada do portaló.

Deu um passo à frente e olhou para Kyungsoo, esperando que ele o pedisse para ficar. Queria que Kyungsoo o puxasse para que não subisse, que o agarrasse e nunca mais soltasse, dizendo “eu nunca vou me separar de você”. Mas não. Ele só o olhou, e o comparativo de dor colossal que ele buscou em suas memórias estava em sua frente: os olhos de Do.

Os dedos, antes amparados pela mão do outro, sentiram o calor se dissipar. O Kim não sabia no momento, mas não lembraria daquilo com vividez pelas próximas semanas, porém aquilo lhe atormentaria nos anos que viriam. O choque foi tão grande que ele nem ao menos lembraria de como passou a viagem, quando se encolheu num canto gelado da embarcação e chorou abraçado em sua mochila até pegar no sono — e ele só bebeu água e se alimentou porque o mesmo chinês mal-humorado que o apressou para embarcar foi conferir seu estado no dia seguinte.

Kyungsoo assistia a maior parte de si ir embora junto ao navio e era como se o restante de sua alma se debatesse para deixá-lo e seguir procurando Jongin. Aquela sensação, mal sabia, persistiria pelos próximos cinquenta anos, sem nunca perecer ou diminuir, tal como era com o amor.

Não conseguiu encarar o dormitório quando voltou. Era como se o ambiente cobrasse satisfações, perguntassem por Jongin, quisesse saber o motivo de estar sozinho. Deixou o choro sair, alto e espalhafatoso, enquanto enfiava suas coisas na mochila — e pensava que deveria ter feito aquilo antes. Apressado, não fez nada além de fixar um papel na porta para avisar a administração que estava partindo, e correu para tentar pegar o último ônibus que ia na direção de Goyang.

Chorou mais o caminho todo, mesmo que contido, mas a ferida da partida foi ardendo até pisar em casa horas depois. E ardeu por mais um tempo, quando ele precisou dar uma desculpa qualquer para os pais, já velhos e não tão preocupados com a consistência das informações. Tudo que ele disse era que precisava de um bom tempo longe do mar.

 ̄ ̄ ̄ ̄ ̄ ̄ ̄

Kyungsoo retomou a maioria dos escritos que fez enquanto estava no porto. Por mais ressentido que seu coração estivesse, escrever sempre lhe deu a sensação de completude que buscava. Foi assim que ele decidiu se arriscar, preparando alguns roteiros e manuscritos para enviar para editoras.

Escrever profissionalmente ser ter cursado um ensino superior e sem prestígio ou contato prévio com editores era complicado. Foi rejeitado diversas vezes, porém nunca se deixou abalar. Tentou poesias, fábulas, críticas, crônicas. Seu ponto de virada foi um romance, aceito por uma editora na virada da década. A prosa bem recebida pela audiência era um drama romântico, onde o casal lutava para ficar junto e era impedido pelas reviravoltas do destino.

Tragicamente proporcional à realidade.

Mais um livro. Uma coletânea. Adaptação para a TV. Ia ficando famoso e a atenção e superficialidade daquilo começaram a lhe consumir. Com a morte de seus pais — por velhice, em intervalos bem próximos —, Kyungsoo amadurece a ideia de ser pai. Se envolveu com algumas pessoas, mas ninguém que lhe desse vontade de construir uma família. Nessas horas, pensava em Jongin.

Foi assim que adotou Sugi, uma menininha muito tagarela para seus cinco anos. Os cabelos castanhos escorridos na testa, o rosto cheio de pintinhas e os olhos como de um gato assustado. Emburrada no primeiro contato, amoleceu a casca grossa quando Kyungsoo a confortou de um tombo.

Na época em que Sugi chegou ele já morava há um tempo na cabana — precisou se afastar daquela agitação da cidade, mesmo amando Goyang e toda a região de Seul. Anunciou uma pausa nas publicações para se dedicar totalmente à filha, apesar de continuar produzindo. Na maioria do tempo que passavam juntos, desde os cinco até os dez anos da pequena, estavam no sótão desenhando e cantando. Escrevendo também, assim que Sugi aprendeu o alfabeto.

Ela teve todas as fases que Kyungsoo esperava. A infância divertida e a difícil, a pré-adolescência legal e a revoltada, e principalmente a adolescência insuportável; mas ela era uma boa menina, sem dúvida, e eles se amavam e eram próximos o suficiente para resolver atritos rapidamente na base da conversa. Só que algumas coisas eram complicadas de conversar.

— Pai — começou enquanto cutucava a carne na brasa na hora do jantar. — Por que você não namora?

— E essa agora? — Kyungsoo riu da pergunta. Quando pequena, costumava questionar muito onde estava sua mãe (ou seu outro pai). Agora, Sugi já estava quase no colegial e esse assunto voltou a ser pauta recorrente. — Por que você quer saber?

— Não sei, te acho meio sozinho — suspirou. — Logo eu vou namorar e você não.

— E qual o problema?

— Não tem problema, pai, só quero entender — ajeitou a franja e sorriu. — Você escreve tanto sobre amor… e nenhum amor.

— Eu amo várias coisas — Ela revirou os olhos. — Tá, tá, eu sei do tipo de amor que você está falando. Mas eu não sei, filha. Só não tem ninguém.

— Ainda não conheceu a pessoa certa, entendo — disse com muita propriedade, como se fosse a entendida dos assuntos de amor. Inconscientemente, aquilo atingiu Kyungsoo de um jeito que ele não esperava. “Conheci”, ele queria responder, “mas deixei escapar”.

— Provavelmente — respondeu baixinho, observando ela enrolar a carne numa trouxinha de alface.

— Não fique aflito. Tudo tem seu tempo, pai — acenou com a cabeça, a expressão séria. Não conseguiu conter a risada, os dois gargalharam.

— Obrigado, doutora — zombou, esperando que aquilo fizesse algum sentido. Era errado esperar pelo tempo dos dois?

Ele provavelmente gastaria neurônios pensando nisso. Assim como fazia por culpa de outros aspectos de sua vida. Olhava para sua fama e se perguntava se Jongin já tinha visto seu nome numa livraria ou na TV. Imaginava se Jongin teria lido seus livros, se reconheceria as situações, se gostaria dos personagens. Se daria o mesmo sorriso largo daquela noite, quando leu umas estrofes recém escritas por Kyungsoo. “Você é muito bom nisso, Soo! Deveria investir em ser escritor”, ele dizia. E teve razão, foi uma grande motivação.

Kyungsoo imaginava como seria ter Kai ao seu lado a essa altura. Se ele reclamaria do piso rangendo perto da pia da cozinha, quantas vezes pediria para Sugi não correr de botas dentro de casa, se ainda posaria para retratos — e o Do não praticava nada de desenho além do rosto de Jongin.

Veja bem, ele não era desenhista, mas precisava manter a memória viva. Odiaria esquecer o rosto daquele que mais amou, ainda mais porque não poderia saber como ele se pareceria agora. Não vivia só de amor, obviamente. Teve seus períodos de ódio, onde só ressentia Jongin e Xiao Wei, amaldiçoando suas vidas e tudo que eles significavam.

Períodos bem menores, esses. Geralmente passavam depois de Kyungsoo se envolver com alguém que lembrava dele. Alguém que usava um perfume parecido, que também tinha o corpo marcado, o cabelo mais comprido do que o esperado para um operário. Mas era apenas um placebo, afinal. Não havia ninguém como ele e Kyungsoo odiava mais ainda os anos que passou vivendo de memórias tão breves.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...