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História Canvas - Capítulo 5


Escrita por: monodraminha

Capítulo 5 - The flower of my heart


Presente

Se reuniram com o advogado para fazer a leitura do testamento antes de viajarem para a China. O homem era paciente, deixou Sugi reler várias e várias vezes os pedidos que Kyungsoo fez, que iam desde a venda da casa até a distribuição dos royalties de seu trabalho para fundos de caridade. Do também pediu que eles encontrassem Xiao Wei e garantissem que ela não passasse nenhuma dificuldade financeira.

Além disso, o pedido que envolvia a viagem dos dois para a China estava detalhado em um documento — o advogado entregou a papelada que garantia que eles não tivessem problemas por entrar em outro país com as cinzas de Kyungsoo. Junto disso, havia um conteúdo inédito a eles na caixa do testamento: uma carta endereçada a Sugi e Kyu e assinada com a letra bonita de Kyungsoo. Se olharam sorrindo, com o peito leve e acalentado por possibilitarem o encontro (finalmente!) dos dois, mesmo que póstumo.

Olhando para a mãe em busca de aprovação, que foi concedida, Kyu Young rompeu o lacre do envelope e começou a ler.

 

“Sugi, Kyu,

Se vocês estão lendo essa carta, provavelmente já encontraram as caixas com o nome de Jongin no sótão. Se não encontraram, sugiro que façam antes de continuar a leitura. Se sim, prossigam! É importante.

Me perdoem por nunca ter dividido isso com vocês em vida, mas foi fundamental para mim tê-lo como um segredo só meu. Agora, passo a vocês a responsabilidade de preservar a nossa memória, não como dois que viveram distantes, mas como um só, que viverão para sempre.

Era inverno quando Jongin partiu. Final do ano, pouco antes do natal. Grande parte de mim tinha orgulho do homem que ele era por honrar sua palavra. A outra odiava cada segundo daquele momento e queria pular no mar e nadar até a China atrás dele. Mas eu o amava e respeitar sua decisão fazia parte desse amor.

E doeu, assim como diziam que o amor doía. O natal e o ano novo passaram, assim como os próximos natais e anos novos. Eu escrevi e nunca enviei, um pouco por não saber para onde enviar, mas mais por não querer enviar. Eu queria que ele estivesse feliz, e eu me segurava nesse desejo porque não teria como eu saber, sendo confortado pelo benefício da dúvida.

Assim que comprei essa casa, comprei também uma vitrola — antes mesmo de comprar uma cama — e continuei ouvindo os mesmos discos e as mesmas músicas que ouvíamos quando estávamos juntos. Deitar a agulha no LP e sentir o peito rasgando de saudade foi a sensação que mais experimentei nessa casa. Depois, quando comprei um rádio, com um CD player tecnológico e descobri a bênção (ou maldição) do repeat, a dor dilacerante de viver longe de Jongin passou a me consumir, então voltei a escrever para fugir desse sentimento. Sei que o pensamento de me fazer sofrer iria o atormentar, mesmo que inconscientemente, por isso me concentrei em ser feliz.

O máximo possível sem ele, claro.

Mas a felicidade não é uma constante, ninguém é feliz o tempo todo. E eu nunca iria experimentar a felicidade que era viver ao lado dele. Mas eu ainda tinha lembranças.

Eu deveria ter ido atrás dele? Confesso que gastei muitos anos da minha vida ponderando isso. Porém seria diferente, não seria? Nosso amor era nosso amor porque era do jeito que era, qualquer coisa que fugisse desse curso, não seria mais nosso amor — e esse pensamento me afastou de procurá-lo. Ele sempre esteve comigo, de qualquer forma.

Quando recebi a primeira carta da China, escrita por Xiao Wei, e soube que ele tinha partido para sempre antes de mim, o pouco que me restava foi embora com a notícia. Mas eu já tinha vivido em luto todos esses anos, então precisava continuar para honrar a memória dele porque eu era tudo que resistia do que existiu entre nós.

Me senti mal por Xiao Wei. Não como havia me sentido em todos esses anos, por achar que Jongin estava com ela por causa da promessa ou por pena, e sim por perceber que ela o amava tanto quanto eu e era muito difícil viver em remorso por achar que tirou dele tudo que lhe era mais precioso. Só que a vida não é tão simples nem tão complexa assim.

Eles se amavam, isso é um fato. Talvez não com tanto calor quanto ele e eu, mas também existia amor, companheirismo, amizade, todas essas coisas. E ela era forte e compreensiva por considerar que ele também amava outra pessoa, mesmo que isso significasse encontrá-lo chorando próximo ao toca discos ouvindo Sunflower e chorando por horas.

Na carta ela contou que foi nesse dia que soube de tudo. Jongin, com os olhos inchados e vermelhos, soluçando de chorar, ouvindo aquela música que repetia sunflower, sunflower of my heart o tempo inteiro, que ele finalmente abriu o coração e contou tudo. Ele era assim, afinal de contas, o peito aberto como se fosse um cais, a história como se fosse um livro. E ela podia tê-lo rejeitado, mas não seria justo com quem a acolheu quando, bom… quando eles estiveram na situação inversa. Não que fosse uma troca ou equivalência, não era isso. Acolher é natural quando se ama.

Sei que não precisava ter me estendido tanto, vocês me levariam para a China de qualquer forma se eu pedisse, mas achei justo contar essa história. Afinal, vocês dois são quem mais amo e sou muito grato por tudo. E assim como dediquei minha vida a vocês, sei que aceitarão de bom grado dar o que resta de mim para ele.

Não sei qual a conclusão que vocês poderão tirar disso, não podemos controlar os efeitos, não é? Só saibam que, sim, não há mais culpa. Não fui infeliz por todos esses anos, apesar da dor lancinante de não tê-lo comigo — e vejam que o amor nem sempre é propriedade, sobre reciprocidade ou presença. Às vezes é só uma coisa. Esperar Jongin me deu mais do que dores, me deu esperança e — acima de tudo — vontade de esperar. 

Vivam bem. Sejam felizes! Amo vocês para todo o sempre.

Até logo,

Kyungsoo.”

 

O ar fresco de Guangzhou era delicioso. Sorriu de olhos fechados, sendo beijado pela brisa que, até então, só conhecia pela narração do avô. Kyu Young deu a mão para a mãe, na tentativa de encorajá-la ao que estava prestes a acontecer.

Após estarem devidamente instalados no hotel, seguiram para o jardim de Puzhou — muito mais gelado do que onde estavam por culpa do mar. Uma hora de trem depois, desceram e foram caminhando e conversando como bons turistas que eram. Além da câmera que Sugi tinha pendendo do pescoço, as poucas coisas que levavam eram algumas flores e a pequena urna verde-escura decorada com arabescos que Kyu Young carregava consigo.

— Será que vamos achá-la? — perguntou com um tanto de preocupação. — Digo, não tem muitas pessoas que andam com urnas por aí, só que estamos num templo...

— Acho que isso responde sua pergunta, querido — e sutilmente apontou com os olhos para uma senhora parada ao lado de uma grande estátua. Ela segurava uma urna parecida, mas essa era vermelha e muito mais simples; tinha os cabelos grisalhos, que aparentavam ser compridos mesmo estando presos, e vestia roupas tradicionais. — Deveríamos ter nos vestido melhor, Kyu.

— Xiao! — o mais novo chamou, recebendo vários olhares, inclusive da mulher. A carranca da senhora se desfez na hora, transformando-se num sorriso terno.

— Sugi, Kyu Young — Ela reverenciou muito respeitosamente, se curvando mais do que sua coluna deveria permitir. — Kyungsoo — e ao último nome seu tom era mais leve.

— Xiao Wei, é um prazer. Agradeço muito por ter vindo — Sugi repetiu os cumprimentos, cortês, em um mandarim impecável.

— Não há o que agradecer. Faço isso pelo Zhongren, principalmente — sorriu fraquinho, o suficiente para esticar o rosto enrugado. — Eu… — Ela provavelmente iria pedir desculpas, considerando que os Do sabiam de toda história, mas encarou as urnas por alguns segundos e desistiu. — Faço pelo Jongin e pelo Kyungsoo.

Em 1972, Do Kyungsoo tinha vinte e dois anos. Agora, era um amontoado de cinzas que deveria ter setenta e um. Kyungsoo experimentou um tipo de amor com Kim Jongin e apenas com ele. Cinquenta anos passaram desde que se conheceram, e se amaram, e foram separados — e em todos esses anos, em suas vidas opostas, se martirizaram, sentiram saudade, pensaram “e se?”

Agora não havia mais espaço para isso. Estavam mortos e todo o esforço para imaginar como seriam coisas que nunca poderiam ser era em vão. O que era muito importante e que, sim, ocupava todos os pensamentos dos três presentes era que eles estavam juntos. Da maneira que lhes foi permitido, mas juntos, finalmente.

Andaram até o limite do parque, ao lado de uma ponte que dava para o mar. Lutando contra o vento que tentava atrapalhar a cinematografia daquela ocasião, Kyu Young ajudou a velha Xiao a abrir a urna de Jongin e virar todo o conteúdo dentro da urna de Kyungsoo. Só os dois agora, já que Sugi se esfarelava em lágrimas sentada na guia da calçada. O rapaz e a chinesa se entreolharam e riram com doçura da mulher.

Definitivamente só os dois agora, Kyu pensou. Quase começou a chorar como a mãe quando a senhora lhe entregou a caixa onde os restos mortais do avô descansavam — agora, junto aos de Jongin.

— Faça as honras, querido — Xiao pediu.

Suspirou pela responsabilidade que fora entregue a ele. Mentalizando o avô e Jongin, pelo que conhecia dele das fotos que viu, cogitou dizer algumas palavras bonitas, porém sentiu que Kyungsoo já tinha feito tudo aquilo em vida.

Então tudo que sabia o atingiu e circulou à sua volta. Os licores chineses do Kim, os discos, as danças, a desculpa do aquecedor para dormirem juntos, os toques sutis, a despedida dolorida. Kyu Young sentiu o peso de estar segurando a história mais bela que já presenciou.

Dando um passo para subir na cerca de concreto que os impedia de cair, olhou para cima antes de virar o que havia sobrado dos avós na água (e sim, no momento ele já considerava Jongin seu avô).

— Até logo, Soo — sorriu para o céu. — Até logo, Jongin-nim. Sejam felizes!

 

"Nós nos encontraremos novamente,
Não sei onde, não sei quando
Mas eu sei que nos encontraremos novamente em algum dia ensolarado
Continue sorrindo até o fim assim como você sempre faz,
Até que o céu azul afaste as nuvens escuras para longe."

(We'll meet again — The Ink Spots)


Notas Finais


Se você chegou até aqui MUITO OBRIGADA pela leitura!
Espero que tenha gostado de ler tanto quando eu gostei de escrever e que isso tudo tenha te despertado sentimentos bons. Siga para uma surpresinha e até a próxima~


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