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História Cápsula do Tempo - Capítulo 1


Escrita por: e projetoallhina


Notas do Autor


Olá, pessoal. Como sabem, estou num período um pouco difícil e reduzi minhas atividades aqui no spirit devido a isso. PORÉM, essa fanfic já estava pronta e pertence ao primeiro ciclo do @projetoallhina. Por isso, achei que não tinha mais justo do que já postá-la para respeitar o ciclo. Espero que se divirtam!
Agradeço antecipadamente ao projetoallhina pela oportunidade. A capa fofa foi feita pela @NanaNamikaze!

Capítulo 1 - Único


Teria sido uma noite como qualquer outra se tivesse fechado devidamente o portão de casa. Não havia lua, e em noite sem lua, Hinata não dormia bem. Era como se existisse uma inquietação dentro do seu ser, uma ansiedade que não cessava. Mesmo que a camisola de seda branca se esparramasse como leite sobre os lençóis de mesma cor, mesmo que os olhos perolados há muito já estivessem cerrados na tentativa de adormecer, não conseguia. Cada hora era uma coisa.

Quantas vezes já tinha descido as escadarias para verificar se as janelas estavam mesmo trancadas, evitando que o gato fugisse? Quantas vezes já tinha descido na intenção de buscar um novo copo d’água? Quantas vezes já tinha saído do quarto para ir ao banheiro, mesmo a bexiga mal estivesse funcionando àquelas horas?

Inúmeras. E mesmo dentre aquelas inúmeras manias que tinha na hora de dormir, era curioso pensar como uma coisa tão mais óbvia - tão mais ria - como o portão de casa tivesse sido deixado de lado. Tinha se esquecido de trancá-lo, ou então... Ou então, era o que dizia para si mesma.

Negava-se a acreditar que o subconsciente lhe pregava peças e que na verdade queria deixá-lo aberto. Negava-se a acreditar que havia dentro de si qualquer tipo de intuição. Era apenas uma mulher... Desatenta. Preocupada demais com o que não deveria, avoada demais para perceber coisas que estavam estampadas bem à sua cara.

A não ser, é claro, quando aquelas coisas reproduziam barulhos alarmantes.


Klunk!


O barulho da queda despertou-a em um pulo. Com o coração agora à boca, Hinata ergueu-se da cama na certeza de que alguém estava invadindo a sua casa. O barulho tinha vindo lá debaixo, da sala; o gato agora soltava sonoros miados, e Hinata não saberia dizer se eram de apenas surpresa, de pânico, de um apelo por ajuda...

Não importava. Nem sequer amarrou o roupão ao corpo. Saiu do quarto com aquela camisola esvoaçante, sem deixar de pegar em mãos o spray de pimenta que guardava no armário. Trêmula da cabeça aos pés, agarrou-se ao corrimão da escada e desceu quase completamente abaixada, tomando cuidado para não ser ouvida. Tinha deixado o celular carregando no meio da sala, e agora precisaria chegar nele silenciosamente para ligar para a polícia.

Droga! Se apenas fosse mais cautelosa com coisas tão óbvias!

Os miados estavam cada vez mais desesperados, mas de repente... Cessaram. Com os batimentos agora à garganta, Hinata levou uma mão aos lábios, tremendo. E se tivessem machucado o seu pequeno Chiyo?

Chegou ao andar inferior, os olhos cristalinos fixos no sofá da sala, como um soldado que avistava uma trincheira. Mas tão logo se preparou para correr e se esconder atrás dele, aproximando-se mais do celular que até então estava intacto, visível, tão próximo... Um novo barulho a despertou.

Chiyo estava... Ronronando.

- Ei... Ei... - uma voz masculina conhecida sussurrava para o gato, os pêlos dos braços de Hinata se arrepiando àquele som, porque... Porque não podia ser... - Está tudo bem, Chiyo-chan... Não se lembra de mim...?

Os olhos de Hinata se umedeceram, mas as lágrimas não caíram; tornaram-se lagoas de água parada. Quando ela, ainda agachada, repousou as lagoas sobre o homem embebido na penumbra da sala, a água enfim transbordou.

- N-Na... ru... to? 

Olhos azuis como o céu amanhecido ergueram-se para ela, igualmente trêmulos. Naruto estava ajoelhado ao centro da sua sala, as mãos ainda envolvendo o gato que mal parecia ter percebido o que se passava ali. Tão logo as orbes celestes repousaram em Hinata, ele se colocou de pé em um pulo, endireitou a coluna, recuou alguns passos, como um animal acuado.

- H-Hinata... - sussurrou, mas a voz mal escapou aos lábios trêmulos. Olhos permaneciam fixos na mulher, mas o rosto dele estava baixo, um pouco de lado, como se a evitasse encarar de frente. A expressão era de quem via um anjo, ou talvez um fantasma.

Hinata era os dois. 

- Eu... Eu...

- O que você está... - ela balbuciou, meneando a cabeça negativamente, as mãos imediatamente secando o rosto dos olhos que transbordavam. - O que está fazendo aqui? Você estava... Você estava preso...

Agora que os olhos cristalinos desciam para o corpo do homem à sua frente, ela finalmente compreendia. Naruto ainda vestia um uniforme laranja típico de sua estadia na penitenciária. Os olhos apavorados em direção a ela, a maneira como estava acuado feito um animal selvagem, o corpo trêmulo... Mas ele abriu um sorriso fraco. Naquele sorriso fraco, Hinata leu tudo.

Era um fugitivo.

- Hinata... - ergueu as mãos lentamente em sua direção, como se pedisse para que ela se acalmasse. A verdade era que sua voz também tremia tanto, que não havia moral para pedir calma. - Não precisa... Se preocupar com isso, eu... Eu não vou ficar.

- Responda à pergunta, Naruto... - pediu em um sussurro magoado. - O que você está fazendo aqui?

As orbes celestes foram ao chão, o homem assumindo uma expressão de derrota. Soltou os braços ao lado do corpo.

- Houve uma... Explosão. Alguns fugitivos cavaram um buraco e... Tiveram ajuda de um grupo que já estava do lado de fora, então... - os pensamentos estavam embaralhados como o diabo. Era como se se sua mente fosse um emaranhado de informações desconexas, um novelo de lã sem começo ou fim. Tantas vezes tinha sonhado com o momento do reencontro, mas agora que ele acontecia... Agora que acontecia...

Cerrou os punhos ao lado do corpo, cada vez mais ansioso.

- Por favor... Por favor não chame a polícia.

- Eu nunca faria isso - foi o murmúrio magoado dela. Naruto ergueu os olhos ainda tristes, agora quase surpresos. - Eu nunca entregaria você, Naruto...

Desviou as esferas azuis em sequência, um pouco sem-jeito. Hinata não iria entregá-lo, certo? Seria gentil àquele ponto, mas ainda assim... Ainda assim, não necessariamente estava feliz por vê-lo. A verdade era que também ela parecia assustada; ainda estava agachada a um canto, os olhos cristalinos tentando se adaptar à imagem do fugitivo em meio à sua sala.

- Eu... Eu nem sequer ia te acordar. Não pensei que fosse te encontrar - admitiu finalmente. Chiyo-chan voltava a se enroscar nas pernas dele, o romrom audível a Hinata mesmo àquela distância. Naruto, por outro lado, nem parecia perceber o agrado; estava tão ansioso e atrapalhado com as palavras, era como se estivesse flutuando em um mar de incertezas. - Eu só queria te ver... Uma última vez. Tentei entrar em silêncio, mas... - abriu um sorriso derrotado e deu de ombros. - Você sabe que eu não levo jeito para isso.

- Última vez? 

- Preciso dar o fora daqui. Sou um fugitivo, Hinata...

- Você ia me ver dormindo... E nem sequer ia se despedir? - o coração acelerou um pouco, mas Hinata tentou contê-lo. Estava com tantas saudades de Naruto, que mesmo que a situação fosse a pior possível, o simples fato de pensar que ele pisaria naquela casa e não lhe permitiria uma despedida...

- Desculpe, eu...

- Você faz tudo errado, Naruto.

Queria que sua voz tivesse soado apenas frustrada, mas havia nela uma melancolia inegável. Enquanto Hinata abaixava o rosto para o chão e sentia mais lágrimas se formando nos próprios olhos, sentia-se tão... Tão idiota. O pequeno Chiyo percebia as suas lágrimas e vinha agora ao seu encontro, dando pequenas cabeçadinhas na sua perna. Hinata resistia ao desejo de abraçá-lo, porque se o fizesse, quebraria completamente. Não podia se mostrar tão fragilizada em frente a Naruto.

- Você está chorando por minha causa, não está? - a voz rouca do homem era embebida em culpa, Hinata sabia. - Eu não deveria ter vindo... Eu não queria que você estivesse me vendo assim... - sussurrou, indicando o uniforme de presidiário.

- Não é... Não é isso.

De fato, não era. O choro de tristeza não era pelo fato de ter pena de Naruto ou de simplesmente estar desapontada com ele; o choro era porque não importava quanto tempo passasse, quantas pessoas entrassem ou saíssem de sua vida, era como se sempre estivesse atada àquele homem. Os anos passavam, Naruto se enfiava em problemas cada vez piores, mas ela permanecia esperando por ele. Esperando milagrosamente por uma redenção.

Lembrava-se dos tempos antigos, quando costumavam ser apenas melhores amigos. Lembrava-se de quando eram vizinhos e Naruto pulava o muro da sua casa para entregar os mangás que Hinata ansiava por ler, mas que estava proibida de ter devido à rígida educação de seu pai. Lembrava-se de quando ele arrumava briga por sua causa quando Hinata reclamava estar sendo incomodada por alguns garotos mais velhos - e muito maiores do que o próprio Naruto. Lembrava-se de quando passavam tanto tempo no telhado da casa dela, imaginando as formas que existiam nas nuvens, que o Sol se punha e passavam então a discutir sobre as estrelas.

Hinata não estava chorando por pena ou apenas por desapontamento. Estava chorando de saudades. Sabia que aquilo, mais do que um reencontro, era uma nova despedida.

- Estou sempre... Estou sempre me despedindo de você - sussurrou. - Quando nossos encontros vão ser encontros de verdade, Naruto? Quando vão parar... Quando vão parar de ser apenas despedidas?

A sua mente então se tornou uma tela em branco. O peito se contraiu como se tivesse sido baleado. Hinata não estava chorando pela pena ou frustração de vê-lo daquela forma, mas apenas pela tristeza de uma nova... Despedida. Era possível que tivesse tido saudades dele?

Os sentimentos falaram por si só. Pequenas lágrimas se formaram nas orbes celestes e as longas pernas de Naruto vieram em sua direção. Ajoelhou-se no chão ao lado dela. Esqueceu-se que estava com os trajes da cadeia, esqueceu-se que o plano original era apenas observá-la de longe. Quando se deu conta, já a estava abraçando.

A pele de Hinata era como o toque de um lençol muito fino. Os cabelos escuros cheiravam a uma essência inexistente; tão doce, mas ao mesmo tempo tão suave, que os olhos do homem se fechavam instintivamente ao senti-los. Ia sendo transportado para outro lugar... Outra dimensão.

Hinata agora tremia nos seus braços, mas ela não o afastava. Ao invés disso, o abraçava de volta com aqueles braços de uma porcelana viva, o calor do corpo envolvendo-o de tal maneira, que podia sentir os batimentos cardíacos dela contra seu peito.

Chiyo enroscava-se nos dois, o som do romrom sendo a única coisa audível na sala, mas agora, mal podiam percebê-lo.

Naruto passara dois anos e meio na cadeia e sonhara com ela quase todos os dias. Quanto mais tempo passava longe de Hinata, mais viva e dolorosa se tornava a lembrança dela. Um fantasma que o puxava para dentro de si mesmo, que esfregava a sua cara num espelho interno que lhe mostrava não o que era, mas tudo o que poderia ter sido.

- Eu senti tanto... Eu senti tanto a sua falta - sussurrou contra os cabelos azulados dela, os soluços da mulher sendo abafados pelo abraço.

A lembrança de Hinata era insuportavelmente dolorosa, mas os encontros com ela não doíam. Simplesmente... Não doíam. Até que Chiyo depositou uma pequena mordida no braço de Naruto, fosse por ciúmes ou por apenas também querer um pouco de atenção. Mesmo em meio às lágrimas, Hinata abafou uma risada delicada.

- Naruto, tem uma coisa... Uma coisa que quero te mostrar.

Aquela simples frase gerou em seu peito um solavanco. Hinata queria lhe mostrar alguma... Coisa?

Pigarreou, um pouco constrangido. Sabia que não era momento para pensar alguma indecência, mas com aquela mulher não havia momentos. As lágrimas transformavam-se em risadas e risadas transformavam-se em beijos em um piscar de olhos. Naruto sabia. Ele já tinha vivenciado. Mas pela maneira como agora desviava os olhos para um canto qualquer e evitava olhar de frente aquele beleza que o desnorteava, Hinata soltava uma nova risada.

- Seu tarado! Não é nada disso!

- N-Não é?

- Naruto!

Manteve a expressão surpresa enquanto ela agora apenas se levantava do chão e estendia uma mão para que se levantasse também. Naruto teve a verdadeira vontade de apenas puxá-la e abraçá-la de novo, mas não foi o que fez. Usou a mão para se levantar, naturalmente quase derrubando-a de novo sobre o chão, mas dessa vez, por acidente.

Tão logo teve o homem de pé à sua frente, ela colocou alguns cabelos desajeitadamente atrás das orelhas. Tinha visitado Naruto algumas vezes na cadeia, mas as visitas costumavam ser rápidas e monitoradas; sempre ficavam frente a frente, afastados por um grosso vidro, conversando ao telefone. Agora que o tinha a tão pouca distância, percebia quão mais alto ele era do que em suas lembranças. Suas pernas estremeciam um pouco, e Hinata já não sabia se era pela proximidade, pela emoção de tê-lo de novo ou se por algo a mais, que não se limitava às saudades.

- Uma coisa... Que eu também queria rever - ela sussurrou, olhando-o de lado. Naruto franziu o cenho, como se não entendesse; mas quando ela entrelaçou os dedos aos seus e o conduziu para os jardins aos fundos da casa, a sua mente se iluminou numa possibilidade.

- Não pode... Ser... - balbuciou, andando conforme ia sendo puxado por ela. - Você está falando... Daquilo?

Hinata continuou andando à frente, mas assentiu com a cabeça. Agora, estavam na noite aberta; não havia teto sobre suas cabeças, mas apenas um céu estrelado e sem lua. A escuridão no jardim seria absoluta se não fosse por alguns pequenos postes de luz que se dispunham em fila, iluminando o caminho para os fundos da casa.

Era um jardim pequeno, mas adorável. Naruto se lembrava de como, quando era criança, Hinata cuidava das flores ali como se fossem as coisas mais preciosas que possuía. Por algum tempo, tinham sido mesmo - Hiashi, quando vivo, era um pai severo e quase não permitia que ela saísse de casa. Portanto, ficava ali, horas e horas podando os galhos das árvores de frutos, regando e conversando com suas tulipas amarelas. Eventualmente, quando Naruto pulava o portão de sua casa, ganhava algumas frutas daquelas árvores, sempre sob o combinado de nunca - em nenhuma hipótese! - contar a Hiashi.

As frutas mais carnudas e úmidas que já tinha provado na vida, comera sentado sobre aquela grama.

- Eu estive... Há muito tempo... Querendo rever isso - ela murmurou, agora que chegavam sob a maior das árvores do pequeno jardim. Encostada àquela árvore, estava uma pequena pá. Hinata parou de caminhar e lançou a ele um olhar esperançoso. - Acha que pode desenterrar para a gente?

As grandes orbes azuis de Naruto estavam sobre o tronco da árvore. Na base daquele tronco, próximo ao chão, estavam os inscritos que tinha entalhado há anos. Os inscritos eram os nomes “Naruto” e “Hinata” dentro de um pequeno coração. Oh, sim... Sob aquela árvore, tinham dado também o seu primeiro beijo.

Com os olhos úmidos naquele desenho, murmurou:

- Você está falando... Da Cápsula do Tempo?

- Hm... - Hinata assentiu com a cabeça, entrelaçando as mãos em frente ao corpo, um tanto ansiosa. - Você acha... Que ainda pode estar inteira? Nós enterramos ela bem aqui...

- Isso é... Isso é muito antigo - riu, um pouco sem-graça. A verdade era que estava com medo das sensações que teria quando encontrassem a Cápsula do Tempo. O seu plano, há muito, já tinha ido por água baixo; originalmente tinha pretendido apenas olhar à distância Hinata enquanto ela dormia, apenas para não fugir do país sem vê-la uma última vez, mas agora... Agora estava tendo a chance de rever algo tão profundo, tão antigo, tão verdadeiro... A despedida não seria ainda mais dolorosa?

- H-Hinata, eu...

- Por favor. Por favor, eu quero muito ver se ela ainda existe.

Naruto assentiu com a cabeça, mudo. Deu alguns passos e pegou a pá que repousava na árvore. Enfiou-a num pequeno pedaço de terra já conhecido; o mesmo pedaço sob o qual tinha enterrado o tesouro, décadas atrás. Assim, com esperança e ainda assim medo do que estava por vir, começou a cavar.

Hinata estava apreensiva. Com uma mão sobre os lábios, observava o homem que agora cavava, a visão alternando entre ele e o pedaço de terra que ia sendo revirado. Mesmo tendo passado aqueles dois anos e meio em isolamento, era inacreditável como Naruto ainda podia estar tão... Bonito. Enquanto trabalhava no simples processo de cavar, via como a camiseta delineava os músculos do braço, em uma clara evidência de que tinha se exercitado em todo aquele tempo à margem da sociedade. Estremecia de novo, sem saber o motivo.

A verdade era que tinha vontade de lhe perguntar muitas coisas. Tudo o que possivelmente tinha acontecido com ele lá dentro... Se estava bem, se estava ferido... Se tinha realmente para onde ir. Mas a verdade era que tinha medo da maioria das respostas. Era como se Naruto fosse um homem adulto à sua frente, e ela, mesmo com idade idêntica à dele, fosse apenas uma garota que tinha passado tempo demais em casa.


Clec!


A pá bateu em algo que fez um barulho diferente, e os dois se entreolharam, assustados. Em uma fração de segundos, se ajoelharam no chão e começaram a sujar as mãos de terra, finalmente puxando o pequeno objeto que tinham apelidado de Cápsula do Tempo.

A Cápsula do Tempo era uma... Caixa. Apenas uma pequena caixa marrom, sem entalhos. Mas tão logo os dois pares de olhos caíram sobre ela, se umedeceram.

- E-Eu... Eu não estou acreditando.

- Naruto... Abre... Abre logo...

Abriram.

Dentro da caixa, vários pequenos objetos. O primeiro deles, uma grande mensagem que dizia:


Naruto e Hinata, melhores amigos.

Obs: não abrir a Cápsula do Tempo antes do ano de 2200.

Obs2: Ou no caso de um apocalipse zumbi. O que vier antes.


As mãos trêmulas de Naruto vieram até uma foto já amarelada, onde uma versão sua muito mais jovem posava ao lado da pequena Hinata. A garotinha segurava uma tulipa amarela em frente ao corpo, como se mostrasse que era seu feito; Naruto, muito constrangido, segurava a mão livre dela e ria para a câmera, enquanto que a garota tinha as bochechas rosadas em vergonha. Estavam de mãos dadas. Naquele dia, Naruto tinha fugido de casa; criado em um lar de família absolutamente desestruturada, ele tinha fugido para a casa vizinha após ouvir que a mãe tinha, novamente, recebido o pai violento de portas abertas.

Lembrava-se de ter chorado de raiva a tarde toda, mas não quando chegou na casa de Hinata. Quando chegou naquela casa e recebeu uma flor na intenção de ser animado, passou o resto do dia com ela. Todas as suas preocupações então foram embora, porque assim era Hinata. Ela fazia as pessoas ao redor se esquecerem de qualquer tristeza.

- Eu me lembro... Eu me lembro desse dia - ela balbuciou, passando os dedos lentamente pela imagem. Mas então, os olhos cristalinos repousaram sobre uma pequena boneca cujas roupas já estavam muito empoeiradas e sujas. - Olha só! Minha Princesa Samurai!

Naruto até então estava prestes a cair em lágrimas, mas tão logo ouviu aquilo, começou a rir. Olhou de soslaio enquanto Hinata pegava a pequena boneca guerreira em mão e passava as mãos pelo cabelos antes sedosos, agora deteriorados.

- Isso sim foi uma coisa que teve utilidade para o futuro! - brincou, vendo como Hinata fechava a cara em reprovação, exatamente como costumava fazer quando era criança e ficava emburrada.

- Não tem graça, Naruto! Eu estava pensando nas crianças! Em um caso de apocalipse zumbi, elas ficariam sem brinquedos... Ao menos, se encontrassem Minha Princesa Samurai, poderiam brincar de bonecas.

- Ah, sim, de bonecas assassinas - murmurou de canto, mas de propósito para que ela ouvisse. Levou um pequeno tapinha nos ombros, rindo ao ser repreendido.

- Olha só! Sua coleção de tampinhas - a mulher percebeu, pegando algumas tampinhas amassadas nas mãos. - Isso sim seria útil em caso de um apocalipse...

- Fica longe das minhas tampinhas! - brincou, apenas para ouvir aquela risada melódica uma vez mais. Hinata correspondeu; a melodia da sua voz irrompia o ar novamente, o sorriso de dentes tão alinhados vindo em conjunto às bochechas rosadas.

Puta que pariu, como tinha sentido falta dela...

- O que você está... O que está olhando? - percebeu-se sendo observada, substituindo o riso por um sorriso envergonhado. Colocou mais algumas mechas de cabelo atrás das orelhas.

- Eu sonhei com isso... Por anos.

Falou antes mesmo de se dar conta. As bochechas leitosas de Hinata ganharam a cor de um tomate. Constrangida, ela olhou para baixo, voltando a focar sua atenção na Princesa Samurai, apertando-a em mãos. Quando Naruto lhe dizia aquele tipo de coisa, ainda mais tendo ela o brinquedo à sua frente, era como se voltasse a ser apenas uma menina.

- N-Naruto, eu...

- Me desculpe - murmurou, também descendo os olhos para a caixa. - Me desculpe, Hinata.

- Por que você está... Por que está dizendo isso?

Naruto mordiscou os lábios, sentindo o coração subir à garganta. Poderia ter pensado que o simples fato de estar frente a uma mulher tão bonita, com uma camisola de seda esvoaçando ao vento da noite, as mãos de terra tão próximas às suas, o deixava desconcertado; mas não era verdade. Não era só isso.

- Eu tinha tantos outros planos para nós. Eu não queria sequer... Que você me visse desse jeito.

- Naruto...

- Eu não estou aqui... Pra você me consolar - meneou a cabeça negativamente, a voz se tornando trêmula. - Não importa o que eu diga, eu não posso consertar isso.

As mãos de terra se entrelaçaram às suas, Naruto enfim erguendo os olhos úmidos para ela em um sinal de surpresa. Mesmo que tivesse arruinado todas as expectativas de futuro que tinham juntos, Hinata ainda queria segurar nas suas mãos. 

- Você está aqui agora, não está? - sussurrou com um sorriso fraco. - Isso é o que importa, não é? - desviou o olhar por um segundo, pensativa. - Justamente no dia que você escapa daquele lugar horrível... Poderia ter pensado em sumir sem nem se despedir... Poderia ter ido a tantos lugares... Mas você resolveu vir até aqui.

O sorriso se reproduziu nos lábios dele também. Nada tinha mudado.

Não importava quanto tempo se passasse, Naruto voltava a se sentir apenas o garoto que fugia de casa quando seus pais brigavam, refugiando-se naquele jardim. Refugiando-se naqueles olhos tão puros, tão cristalinos.

- O q-que você está...?

Garotos podiam fazer coisas que homens não faziam, certo? Garotos podiam agir no calor da emoção. Garotos podiam ser um pouco, apenas um pouco inconsequentes...

Inclinou-se para frente, a mente branca pelo impulso, mas o corpo vivo na necessidade de senti-la uma última vez. Os lábios roçaram-se, e então juntaram-se. O seu coração bombeava o sangue agora tão depressa, que era como se estivesse prestes a explodir. 

Queria lhe dizer tantas coisas, queria lhe fazer tantas coisas... Mas por um breve instante, o tempo estava parado. Nem sequer pedia permissão com a língua, porque o simples fato de manter os lábios colados aos dela, véu sobre véu, sentindo a respiração quente contra a sua... 

Hinata em seus sonhos era boa, mas na vida real era muito melhor. Inclusive, boa demais para ele. Mas foi então a língua dela que quis se misturar à sua; os dedos delicados buscaram o rosto do homem que instintivamente a agarrou com os braços.

Mesclaram-se arfadas, salivas, palavras não pronunciadas. Palavras que existiam na mente, mas que antes de existirem na fala, sumiam. Derretiam assim como derretia Naruto por dentro, o seu sangue tornando-se quente, tão quente na necessidade de beijá-la mais... Mas era tarde.

A cada segundo que Hinata o mantinha ali dentro, era um risco para ela. Não demoraria até que as sirenes da polícia chegassem àquela casa, e quando chegassem... Quando chegassem...

- Naruto - ela sussurrou, as mãos trêmulas contra o pescoço do homem quando ele afastou os lábios, mantendo somente as testas coladas. Queria fazer tanto mais com ela, mas sabia que não teria a chance. Não teria... - M-Me leve... Me leve com você.

Foi como uma bala no peito. Naruto fechou os olhos, um suspiro trêmulo escapando aos lábios. De todas as coisas ruins que Hinata podia lhe pedir, aquela era a pior.

- E como vai ficar... Como vai ficar o pequeno Chiyo? - engoliu em seco, mantendo-se firme.

Hinata não respondeu. No seu âmago sabia, sabia que era uma ideia impossível. Maravilhosa, repleta de sonhos e fantasias, mas que quando se materializasse, se tornaria um chumbo para que ela carregasse. Naruto era um foragido; sairia do país ilegalmente; se esconderia até no quinto dos infernos até que pudesse provar sua inocência. E talvez nunca conseguisse prová-la.

- Tenho... Tenho uma ideia melhor - ele balbuciou. - Vamos fechar a Cápsula do Tempo.

- Mas... Mas ainda não vimos tudo.

- Eu não quero ver tudo.

A mulher arregalou os olhos, apreensiva. Era possível que Naruto não quisesse relembrar os bons tempos que tinham vivido juntos? Mas foi então que ele explicou:

- Eu não quero ver tudo... Porque ainda não é a hora - pausou, um sorriso fraco se instalando nos seus lábios. - Quando eu vier te buscar, Hinata, aí então será a hora.

A Hyuuga se afastou apenas para olhá-lo se frente. Novas lágrimas estavam presas nos seus olhos, porque era como se conseguisse ler a mente de Naruto.

Quando ele veio visitá-la a princípio, pensou que iria morrer na fuga; pretendia vê-la uma última vez, evitando cumprimentá-la, apenas não morrer sem ter aquela doce imagem fresca na mente. Mas agora, Naruto estava falando em voltar para buscá-la. Aquilo significava...

- Eu vou provar a minha inocência e voltar para te buscar. A Cápsula do Tempo será o objeto da minha promessa.

- Naruto...

- Por isso, não podemos abrir o resto agora - pediu. As grandes orbes azuis já não estavam apagadas como quando haviam chegado; estavam esperançosas, úmidas não mais pela culpa, mas pela esperança do que poderia vir a ser.

Hinata esboçou um novo sorriso em sua direção, lembrando-se. Aquele era Naruto. Não o homem que se escondia atrás do medo de não merecê-la, não aquele que se vitimizava pelo rumo que sua vida tinha tomado... Mas aquele que se levantava, não importava a dificuldade, e assumia a sua melhor versão. Uma força avassaladora, por trás de um rosto sempre gentil.

- Abriremos... Abriremos quando você voltar - ela sussurrou, assentindo com a cabeça, as lágrimas presas aos olhos.

Devolveram o objeto ao seu lugar de pertencimento: embaixo da terra. O silêncio noturno era quebrado apenas pelo barulho distante das cigarras, mas o jardim falava por si só. Aquela cena falava por si só.

O vento sacudia sutilmente as folhas das árvores frutíferas ao redor. Sacudia a grama úmida pelo orvalho, as tulipas amarelas que soltavam aquele doce aroma noturno, os cabelos azuis e sedosos de Hinata. Contemplando-a, Naruto entendia: ela era parte integrante daquele jardim. Quando enfim terminou de cobrir a Cápsula do Tempo com um novo montante de terra, secou os olhos com as mangas do uniforme.

Sentia-se a um passo de quebrar ali, não pelo medo do que viria a acontecer - não, pois agora Naruto era inundado por uma nova fonte de coragem e otimismo - mas pelas saudades que sentiria. Pelo tempo que precisaria ficar sem vê-la antes de ter aqueles braços que envolviam o seu pescoço agora.

- Tudo bem... - ela sussurrou contra a sua pele. E Naruto, tão maior do que ela, supostamente tão mais vivido do que ela, sentiu-se tremer. - Tudo vai ficar bem.

E ficou.

Mesmo quando Naruto foi embora naquela noite, pulando o portão exatamente como fazia quando era apenas um garoto, tudo ficou bem. Mesmo quando voltou sozinha para dentro do grande casarão, com um Chiyo muito confuso e emocionado enroscando nas suas pernas, tudo ficou bem. E mesmo que Hinata soubesse que talvez anos a afastassem da experiência de tê-lo de volta, não se abalou.

Permaneceria deixando o portão aberto. Com as lágrimas compartilhadas apenas com o gato que ronronava ao seu colo, Hinata finalmente entendia. Também o amor deles era como uma Cápsula do Tempo.

Eterno... Inquebrável. Um amor que não podia se concretizar ou ser aberto na hora que bem entendessem, mas que tinha o seu próprio tempo. Um amor que esperaria pelo tempo que fosse, mas que quando finalmente fosse aberto - dessa vez, da forma certa - ressignificaria todas as lembranças do seu passado.


Notas Finais


Obrigado pela leitura! Agradeço novamente ao @projetoallhina
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