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História Capuz Escarlate - Legado do lobo - Capítulo 33


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Capítulo 33 - Capítulo 32


 

Se o clima da floresta que margeava a Muralha da Névoa já era caracterizado por ser sinistro, o que sentiam agora ao entrarem naquele território verde era muito mais aterrorizante. O silêncio era comum naquele ambiente, isso era verdade, mas tal silêncio era algo mais respeitoso, tal como se toda a natureza se calasse em reverência ao antigo mistério da Muralha ou mesmo das coisas que estão escondidas em meio as suas folhagens. O silêncio que agora presenciavam não era causado pela veneração e sim pelo pavor. Victor normalmente não se sentiria afetado, já estava acostumado a estar diante de situações que cidadãos comuns mijariam nas calças, mas tinha que admitir que andar pela trilha sob brumas fantasmagóricas em uma floresta maldita o estava deixando desconfortável.

— Isso é que mais me irrita. — Disse baixinho, mas sabia que Malcom e Klaus o ouviram com suas estúpidas habilidades sobrenaturais.

— O que? Existem muitas coisas que te irritam... — Analisou Malcom.

— Tipo, chá. — Citou o Lobo, na verdade, ele começou a listar — Crianças. Pessoas que falam demais. Pessoas que falam de menos. Homofóbicos. Seguir o protocolo. Ser educado.

— Mas isso me irrita ainda mais. Tipo, pode ser considerado o topo da lista de coisas que me irritam. — Enfatizou o caçador.

— Novamente eu pergunto: isso o que? — Insistiu Malcom.

— O suspense! Por que não atacam logo? Querem nos matar de tédio? Se esse é o plano...Estão quase conseguindo!

— Acho que preferia que eles permanecessem adiando esse confronto, tipo para sempre. — Opinou Klaus.

Victor discordava. Estava ansioso para encher os seguidores de Barba Azul de bala. Para conseguir esse objetivo necessitava que esses mesmos seguidores aparecessem!

Um grito arrepiante cortou o silêncio. Na verdade, não só cortou, como o som se propagou e ecoou pela a floresta, dando uma ilusão que várias pessoas gritavam em desespero nas sombras.

— Mas o que é isso? — Sir Alfredo inqueriu tentando permanecer firme diante da estranha manifestação — Um tipo de animal?

— Não sinto cheiro de nenhuma animal. — Sussurrou Malcom e Klaus assentiu em concordância.

— Eu sinto cheiro de podridão. — Adicionou o Lobo.

Aquela era informação suficiente para Victor ficar em alerta.

— Se preparem. Nossos inimigos não serão apenas Lobos...

Sir Alfredo iria perguntar sobre isso, mas um novo grito o interrompeu, entretanto diferente do anterior, tal grito fora produzido de um local muito mais próximo. De fato, sua origem advinha do próprio grupo dos guardas.

— O que houve? — Vicky praticamente rosnou irritado, afinal gritando feito criancinhas assustadas só causaria consequências táticas obvias: revelar a posição deles para os inimigos. Sim, queria que ocorresse o enfrentamento, mas nesse enfrentamento eles deveriam ter uma vantagem estratégica!

— A-ali... — Gaguejou um dos guardas apontando para algum ponto acima de suas cabeças, em meio a escuridão. Victor já iria tecer um repertório de palavrões e críticas, mas logo percebeu aonde de fato o guarda estava apontando. Algo se movia, ou melhor escalava e saltava entre as árvores, como um macaco. Victor sabia muito bem que não havia símios naquela região do reino, tão pouco naquela floresta destituída de seres vivos.

— Vicky... — Sussurrou Klaus ao seu lado, com urgência.

— Eu sei. — Victor levantou o seu braço, empunhando sua arma e mirando na figura que se aproximava do grupo em uma velocidade anormal.  

Suas mãos, antes talentosas no manuseio da agulha, cosendo lindos vestidos, agora estavam esfolados. Unhas arrancadas, os dedos estavam corroídas ao ponto que se podia ver a ponta das falanges perfurando a carne. Tais dedos encravavam nas cascas das árvores, impulsionando o corpo esguiou da jovem. Cabelos ruivos, antes vibrantes e agora opacos, ocultavam o rosto da criatura.

— O que é aquilo? — Gritou Sir Jerome, alarmado, levantando sua espada, mas ela tremia em suas mãos— Um demônio?

Victor notou que ela ainda utilizava a capa vermelha, mesmo que essa estava suja e pendurada em seu pescoço magro.

— Não é um demônio. — Falou Vicky, sentindo um imenso pesar enquanto colocava o indicador sobre o gatilho.

A criatura gritou, aquele grito agonizante de um enfermo convalescente, se agarrando a vida mesmo que ela não mais lhe pertencia. Ela soltou para galhos próximos e avançou sobre a comitiva, boca aberta exibindo dentes afiados.

— Essa é Miriam Blossom, uma das garotas desaparecidas. — E atirou, acertando certeiramente a cabeça daquela que ele deveria ter encontrado e salvado.

Ela caiu no chão, as mãos deformadas estendidas em direção a eles, seu corpo não mais e movia.

— Uma distração. — Malcom rosnando, seus olhos brilharam na penumbra, jogando fora qualquer discrição em relação a preservar sua natureza mestiça diante de tantas testemunhas — Algo mais se aproxima.

— Lobos? — Quis saber Victor, já focando sua atenção para o espaço a sua volta.

— Não... Algo maior.

Klaus tentava farejar, mas nada conseguia detectar a não ser o fedor da magia necromante. Só então percebeu que o que Malcom estava rastreando não era através do olfato e sim pelo seu próprio corpo. O chão vibrava sobre os seus pés e o vibrar estava aumentando em intensidade.

— Mas...O que... — Tentou analisar racionalmente os fatos, mas sua mente estava prestes a entrar em um estado de pânico.

— Calma. — Victor deu um leve soco no peitoral de Gallego — Você não está sozinho. O que for que esteja vindo, iremos enfrentar... E não subestime as minhas habilidades, sou um caçador da Ordem Capuz Escarlate, estamos preparados para tudo!

Klaus forçou um sorriso, a autoconfiança de Victor meio que era reconfortante.

O solo tremeu, agora todos sentiram. As árvores tremularam e logo foram jogadas para os lados, sem muita resistência. Algo grande se aproximava.

— Agora sim, isso é um demônio. — Sir Jerome, concluiu.

— Pelo visto, vocês guardas não tiveram aulas sobre a diversidade da fauna não-humana. Existem muitos outros seres horrendos e malignos além dos demônios. — Explanou Vicky mirando para o novo oponente, fez questão de levantar o cano dos seus revólveres para cima — Por exemplo, um ...

— Ogro! — Gritou um dos guardas (pelo visto, nem todos eram totais ignorantes assim). Ele apontava para o ser que saiu das sombras das arvores e lançou um urro faminto que fez todos tremerem ou pelo medo ou pela onda de som propagada pelo poder daquele berro bestial.

— Pois é...Um ogro. — Concordou Vicky com um meio sorriso. A pequena cabeça humanoide do não-humano contrastava com o corpulento e deformado corpo. Com muitas dobras de pele, excesso de verrugas e não podia esquecer a obesidade, o ogro com certeza ganharia o primeiro lugar em um concurso de “feiura” sobrenatural.

Tiros. Os poucos guardas que possuíam armas atiraram no monstro, mas as balas ricochetearam sob a grossa pele.

— E agora? — Disse Klaus em meio a um rosnado, já estava se preparando para se transformar em sua forma feral — A Ordem está preparada para lidar com isso?

Victor não respondeu, tentou atirar na cabeça do ogro, mas esse tinha arrancado uma árvore e estava usando como uma mescla de escudo e porrete. As suas balas penetraram o tronco e não acertaram o seu alvo. Alias, o porrete balançava para os lados, acertando alguns guardas no processo, esmagando e estraçalhando os seus corpos, mesmo estando estes protegidos por suas armaduras.

— Preciso chegar perto. — Declarou Victor.

— Para quê? Ele parece ser imune a balas! — Exclamou Gallego, temendo pela a segurança do seu parceiro.

— Existem partes do seu corpo que podem sim ser penetradas por balas. — Explicou de forma sucinta, já se aproximando de Malcom, na verdade ele correu em direção ao ex-caçador.

— Malcom! Impulso! — Gritou e Malcom não precisou de uma explicação mais profunda sobre o comando, uniu as mãos em forma de concha e se agachou. Victor usou tais mãos como apoio para os pés enquanto foi empurrado para cima pelo o mestiço. A força sobre-humana de Malcom realmente era uma vantagem, pois a altura de seu salto foi além das expectativas de Jägered.

— Victor! Cuidado! — Agora era vez de Klaus gritar.

O ogro balançou seu tronco/porrete em direção de Vicky, tentando acertá-lo enquanto este estava em meio ao ar. Contudo, o caçador fez uma pirueta escapando por muito pouco de ser despedaçado pelo Ogro. Pelo visto, a pirueta não foi só uma manobra defensiva, Victor rodou no ar e impulsionou seu corpo em direção ao inimigo, pousando sobre o tronco de árvore que este utilizava como arma.

A destreza de Victor deixou Klaus impressionado e pelo visto ele não foi o único. O ogro, com os seus pequenos olhos negros, observou o caçador sobre o seu porrete, sem entender como aquele humano tinha parado ali. Esse momento de confusão e hesitação por parte do monstro foi aproveitado por Victor que avançou sobre o tronco de árvore, seguindo por sobre o longo braço do Ogro. Esse, por sua vez, contra-atacou, tentando esmagar Vicky com sua mão imensa (desproporcional a todo o corpo).

Um tiro foi lançado e acertou a mão antes que essa atingisse o alvo. Balas podiam não penetrar a pele da criatura, mas aquela bala em especial devia ter causado um efeito bem dolorido. O ogro voltou sua cabeça para aquele que tinha atirado.

Malcom segurava um revólver em suas mãos, o grosso calibre da arma era um obvio indicativo das tamanho e potencial mortal das balas lançadas por aquela arma. Só Malcom poderia empunhar uma arma como aquela, afinal o recuou ou coice resultante deveria ser o suficiente para deslocar um ombro humano e mesmo quebrar algum osso. Aquela arma só poderia ser empunhada por um não-humano.  

O ogro rosnou e com a mesma mão, tentou acertar Malcom, esquecendo momentaneamente de um inimigo que estava bem mais próximo de si. Victor aproveitou a distração para continuar escalando pelo braço do ogro, as verrugas era uma certa vantagem a serem usadas como apoio. O caçador rapidamente alcançou o seu objetivo, estava agora em um dos ombros do Ogro, próximo de sua mínima cabeça.

— Vamos! Atirem! Distraiam o monstro! — Comandou Malcom se desviando do golpe do monstrengo. Klaus rosnou, deixando que sua transformação ocorresse. Não iria ficar parado ali enquanto o seu namorado corria perigo.

O ogro era uma criatura lenta de raciocínio e era incapaz de focar em mais de uma coisa ao mesmo tempo. Se ele antes estivera focado em Malcom agora sua atenção se voltou para Victor, e mesmo sendo alvejado por balas, seus olhinhos estavam focalizados no caçador. Tentou sacudir o seu corpo, tentando desiquilibrar o inseto irritante. E como um inseto, tentou apartá-lo e matá-lo com suas grandes mãos. Victor, com fenomenal equilíbrio, escapou do ataque e se aproximou da cabeça, se agarrando no pescoço praticamente inexistente do ogro.

— Seu momento no show acabou. — Disse Jägered afundando o cano de sua arma no canal auditivo do ogro, este, como que prevendo o que iria ocorrer, freneticamente tentou arrancar Victor, mas os dedos do humano foram mais rápidos. O tiro foi dado, a bala penetrou a cabeça do monstro estourando seus miolos. O urro de agonia foi emitido.

— Victor, saia daí! — Falou urgente Malcom, vendo que o ogro cambaleava e pendia para uma grande queda. Sendo que essa queda iria ser do lado aonde Victor estava pendurado, ou seja, o caçador iria ser esmagado por quilos e mais quilos de banha e verrugas.

— Merda... — Victor se preparava para saltar, mas o ogro começou a cair e nenhuma rota de fuga parecia clara para o Jägered. O caçador temeu o pior, porém sentiu a gola do seu casaco rubro da Ordem ser puxada e com isso seu corpo acompanhou o movimento. Foi arrancado do ogro, antes que esse o achatasse. Um Lobo em sua forma feral tinha escalado o monstro e conseguiu salvar Victor no último momento. Lógico que ambos foram jogados ao encontro ao chão da floresta, mas era melhor do que virar panqueca.

— Klaus? — Inqueriu, só para ter certeza. Ainda não estava acostumado com aquela forma mais animal de seu parceiro. O referido Lobo estava praticamente sobre si, o farejando como que procurando algum sinal de dano.

— Você ainda vai me matar, sério...Quase tive um ataque cardíaco! — Falou o Lobo ofegante.

Victor sorriu e deu um cafuné no não-humano, como se ele fosse um tipo de cachorro super-crescido.

— Melhor se acostumar, Gallego. Viver ao meu lado é cheia de contraindicação, estresse constante, adrenalina e outras coisas mais...

Klaus riu, o que era estranho ver sendo que agora estava em sua forma lupina.

— Os benefícios de viver ao seu lado superam qualquer efeito adverso.

— Droga... — Praguejou o caçador — Quero te beijar agora, mas não quero ficar todo melado de baba canina! Não sou fã do furry, sabe? Não tenho esses tipos de fetiche!

Gallego, só para provocá-lo deu uma longa lambida em seu rosto.

— Owt...Que lindo. — Disse Malcom, interrompendo o momento — Muito fofo, mas não adequado para o momento.

Se Victor tinha corado antes agora estava praticamente transmutado em um tomate maduro.

— Você tem razão. — Resmungou se levantando, seu corpo estava meio dolorido com a queda, galhos e folhas povoavam seus cabelos loiros. Klaus sacudiu o corpo, se livrando desses detritos, algo que Victor não podia fazer.

O corpo do ogro jazia a poucos centímetros dele. Parecia uma feia colina em meio a floresta.

— Vencemos! — Sir Jerome comemorou — Com o que mais eles podem nos atacar? Destruímos um morto-vivo e um ogro! Isso só prova o poder dos seguidores da Rainha Vermelha!

— Cala a boca, velhote. — Victor não se sentia no clima para festividade. Notou os corpos falecidos de alguns guardas e a expressão de horror daqueles que sobreviveram — Isso ainda não acabou...

Malcom assentiu com pesar. Outros urros foram ouvidos. Agora que já tinham enfrentado um ogro, já possuíam experiência o suficiente para inferir de que criaturas tais gritos advinham.

— M-mais? Eles têm mais? — Gaguejou o ex-chefe da guarda Real.

— Não devemos ficar aqui! — Gritou Sir Alfredo, o jovem guarda detinha um filete de sangue escorrendo de sua testa — Não seremos capazes de contê-los!

— Não diga, capitão obvio... — Resmungou Victor, mas logo em voz mais alta acrescenta — Vamos! Eles querem nos atrasar! Nossa verdadeira missão não é aqui e sim nas ruinas da antiga Alsfeld!

— Mas...Os corpos... — Um dos guardas falou — Devemos enterrá-los...Eles...

— Se não desejas ser enterrado junta a eles, melhor se mover! — Disse Vicky sem paciência, os urros estavam se tornando mais próximos.

— Eles lutaram bravamente. — Suplementou Klaus — Devemos ir para que o sacrifício deles não tenha sido em vão. Eles serão lembrados e condecorados post-mortem. Entretanto, não é o momento para verter lágrimas...É o momento de lutar e sobreviver.

Os guardas assentiram em concordância e logo se moveram, abandonando os corpos de seus companheiros.

O grupo começou a correr, penetrando ainda mais na floresta. Victor sentiu um calafrio percorrer o seu corpo. Não era o tipo de enfretamento que estava esperando. Pelo visto, não iria morrer de tédio, mas podia muito bem morrer por outros motivos.


Notas Finais


Desculpa a demora na escrita desses capítulos finais. Finalizar uma história é sempre difícil, por isso peço paciência.

Ainda mais, se querem mais informações (e uma forma de me cobrar atualização), me acompanhem no twitter e Instagram!

Twitter: NathyMaira1

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