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História Carpe Diem - Capítulo 7


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Notas do Autor


Oi netas da bruxa, tudo bem com vocês?

Trago um capítulo quentinho saído do forno, ele estava ficando enorme então decidi dividir ele em duas partes. Hoje apresento um pouco de como duas de nossas bruxinhas se conheceram e nesse arco alguns eventos da vida das meninas começam a se conectar. Sei o que o ritmo da fic pode parecer um pouco lento no momento, mas é necessário para introduzir as coisas com calma. Eu revisei o capítulo, mas erros podem ainda existir, então me avisem para eu poder corrigir depois, beijos lindinhxs

Espero que gostem :3

Capítulo 7 - VI - Demônios numa noite de eclipse


Fanfic / Fanfiction Carpe Diem - Capítulo 7 - VI - Demônios numa noite de eclipse

“Escondido nas sombras está o lugar onde nos encontramos cara a cara”
- Eclipse, Kim Lip/LOOΠΔ

 

Fazia bastante frio naquela noite, até mesmo ela que não era tão sensível às mudanças climáticas sentia a ponta dos dedos e o nariz formigarem com o ar gélido. Enfiou as mãos nos bolsos do casaco e encolheu o corpo o máximo que conseguia enquanto caminhava pelas ruas. Era tarde, muito tarde. Já devia ser madrugada aquele horário, mas ela não tinha medo já que conhecia aquela região como a palma de sua mão. E bom, se virava sozinha desde cedo, o que mais poderia assustá-la que ela já não tivesse enfrentando em sua adolescência?

Enfim chegou ao local desejado, a rua que nunca dormia. Várias pessoas caminhavam e conversavam em meio às luzes neon e a fumaça das churrasqueiras que faziam deliciosos espetinhos de frango. Nas mesas as pessoas bebiam e riam, riam como se não tivessem preocupações, como se nada no mundo pudesse atingi-las. Jungeun sentia saudade dessa sensação, quando se juntou à gangue esperava que pudesse ganhar um pouco de liberdade, fazer o que lhe desse na telha, viver despreocupada e ignorar a existência de um pai alcóolatra e uma mãe desconhecida. E ela teve isso, pelo menos no começo.

Agora vivia perguntando o que ela tinha se tornado.

Embriagar-se, bater carteiras, dormir em repúblicas de segurança questionável, fugir de policiais. Não era esse tipo de vida que ela esperava para si. As vezes se pegava lembrando de quando era criança, de quando a assistência social ia visita-la e ela mentia dizendo que estava tudo perfeitamente bem. Se arrependia amargamente de nunca ter contado a ninguém o quanto ela desejava sair daquela casa. Mas ao mesmo tempo culpava-os, como aqueles homens e mulheres que a visitavam toda semana não haviam percebido o quão negligenciada ela estava sendo? Como puderam ser tão cegos?

Não bastasse isso ainda tinha aquilo que a acompanhava desde que fizera quinze anos, aquelas “coisas” que ela fazia acontecer quando saía do controle. Será que não podia ter apenas nascido como uma garota normal do subúrbio? Como a grande maioria da população mundial? Não gostava da ideia de ter sido “escolhida” para portar qualquer diferença que fosse.

Voltou a concentrar-se em sua tarefa. Desviava das pessoas naquela pequena multidão enquanto buscava um ponto cego com seus olhos ágeis. Precisava de alguém vulnerável, desatento, com seus bens dando solta em cima de uma mesa ou numa bolsa desleixadamente aberta. Aquela rua era muito famosa no bairro, era onde se concentravam diversos bares e quiosques que abriam tarde da noite e perduravam até o amanhecer. O local perfeito para jovens adultos se divertirem enquanto ignoravam as obrigações do dia seguinte. Também para pessoas com insônia, de coração partido ou desocupados no geral.

Mas Jungeun o conhecia como seu ponto de abate favorito. Sempre que ia ali conseguia um bom dinheiro, as vezes até um anel ou uma joia mais cara. No início se sentia mal por ter que fazer aquilo, mas agora não se importava mais. Seu corpo agia quase que no automático e ela se gabava de ser boa naquilo. Continuou vistoriando seus possíveis alvos enquanto lembrava-se das vezes em que quase fora pega, mas conseguiu fugir com perfeição.

Foi quando a avistou, a vítima perfeita. Prendeu os cabelos loiros enquanto a analisava melhor. A poucos metros de si estava uma garota, também loira, que esperava impaciente na entrada de um dos bares. Parecia estar nervosa pela forma como entrelaçava as mãos em frente ao corpo e mordia os lábios periodicamente. De vez em quando olhava para a porta do bar, definitivamente estava esperando alguém.

Caminhou apressadamente na direção da garota, encarando a bolsa que a mesma pendurada em um dos ombros: aberta, como o esperado. Deu um sorrisinho enquanto esgueirava-se entre mesas e pessoas, os olhos presos nos movimentos da desconhecida. Quando estava quase pronta para cometer o ato, a menina virou-se subitamente para trás encarando um rapaz que acabava de sair do bar com algumas sacolas numa garrafa. A menina deu um risinho tímido e agarrou-se no braço dele enquanto eles seguiam para algum lugar.

Jungeun praguejou baixinho por não ter sido rápida o suficiente, mas logo viu que a carteira no bolso do rapaz estava sobressaindo, presa apenas pela metade. Enfiou as mãos na jaqueta novamente e decidiu seguir o casal, não iria sair no prejuízo naquela noite. Apressou um pouco o passo para alcança-los, por sorte o barulho do local encobria o do seu sapato batendo contra o piso da calçada e os pombinhos estavam tão imersos no seu próprio mundinho que nem a notavam se aproximando.

Em pouco tempo estava praticamente colada nas costas do homem, seus dedos ágeis já se moviam encostando levemente no couro da carteira. Só precisava de um movimento rápido com a mão e depois sumir dali e misturar-se na multidão. Foi quando o casal mudou de direção subitamente entrando por um beco que havia ao lado. Seus dedos não agarram nada senão o ar.

Continuou andando para disfarçar a movimentação e observou-os com o canto dos olhos. Estava irritada agora, tudo o que queria era pegar os pertences daqueles dois idiotas, mesmo que eles nem tivessem nada de valor. Esgueirou-se pelo beco logo atrás deles. Percebeu que eles conversavam e diminuíam a velocidade dos passos pouco a pouco. Precisava mascarar sua presença ali. Puxou um cigarro e um isqueiro do bolso, fingiu que o acendia enquanto encostava-se numa parede: apenas uma fumante qualquer num beco mal iluminado. Ela nem fumava, tudo para passar despercebida.

O casal havia parado a poucos passos de si, não tinham mais o mesmo ar de apaixonados. Agora pareciam estar discutindo. Jungeun não era do tipo intrometida, odiava ouvir conversa alheia, aquilo não lhe dizia respeito. Mas o casal estava tão perto que era impossível não escutar o que diziam, e quando olhou a direção na qual eles iam não foi difícil de deduzir o motivo da discussão.

- Eu não sei se estou pronta para isso, amor – a loira murmurou mordendo os lábios, sua expressão gritava insegurança – ainda mais num lugar como... como esse.

O rapaz a olhava de cima abaixo, parecia um tanto desacreditado, mas ao mesmo tempo aparentava certo desdém. Jungeun torceu o nariz para aquela cena, sua vontade era de esmurra-lo ali mesmo. Sem ligar se a loira chamaria a polícia ou não.

- Está com medo, princesa? – ele respondeu forçando um sorriso enquanto levava as mãos as bochechas da garota- não precisa ter medo, não confia em mim?

- Eu confio, sabe que eu confio. Eu só não queria que tivesse que ser aqui – ela disse desviando o olhar.

- Você sabe que meus pais estão morando comigo agora, não sabe? E você também está morando com aquelas esquisitas agora – ela assentiu um tanto desgostosa- e você também não quer que seja no carro. Bom, é nossa única opção.

- Não podemos deixar para depois? Para outro dia? Realmente não quero ir para esse lugar – Jungeun notou que o rapaz batia o pé impaciente, continuou encarando a cena para ver no que ia dar.

- Eu não posso mais esperar, estou esperando há um ano – ele respondeu num tom impaciente, afastando-se da garota – um homem tem suas necessidades, Jinsoul.

A garota desviou o olhar, voltando a cruzar as mãos na frente do corpo. Ela parecia assustada e um tanto triste. Jungeun não era idiota, sabia que o cara estava tentando coagir ela a fazer o que ele queria. Queria poder se intrometer, xingar ele de vários nomes e dar uma bofetada no seu rosto presunçoso. Droga, estava há minutos de roubar a bolsa daquela garota e agora tinha pena dela? Não lembrava de ter amolecido tanto assim.

- Você não vai vir, não é? – o rapaz perguntou num tom sério, a garota apenas acenou em negativo- ótimo. Não precisa me procurar mais, acabamos aqui!

- O que? M-mas- a garota tentou intervir enquanto o rapaz ia embora, mas este parecia não dar ouvidos.

- E você que arrume um jeito de voltar para casa- ele cortou finalmente, saindo do beco em passos apressados.

A garota ficou ali sem reação por algum tempo, parecia não acreditar que aquilo estava acontecendo. Jungeun guardou o isqueiro cruzando os braços, ainda queria ter ido atrás daquele idiota para dar uma lição que ele jamais esqueceria. Mas a menina ali parecia tão assustada, até mesmo um pouco perdida. Quando a loira ajeitou a alça da bolsa em seu ombro e fez menção de finalmente sair dali foi que ela decidiu se pronunciar:

- Você não está perdendo nada, ele era um babaca – a loira assustou-se, notando enfim a presença da outra ali – ele iria te levar para aquele hotel, foder com você e depois te largar igual te largou agora. Só que com alguma desculpa esfarrapada.

- E quem é você? – tentou responder com algum tom de arrogância, mas a voz tremida só demonstrava medo e tristeza.

- Alguém que não quer te arrastar para a cama de um hotel barato – ela disse dando um risinho soprado, a outra loira apenas encarou o chão entristecida- primeiro término?

- S-sim.

- Entendo – enfim desencostou-se da parede, fazendo um sinal para que a garota a seguisse – vem, eu te pago uma bebida.

Mesmo receosa a garota a acompanhou até um dos bares, sentando-se com Jungeun em uma mesa perto da porta. Ela parecia estar se segurando muito para não chorar, entendia um pouco sua situação. Não havia sensação pior no mundo do que se sentir traída ou usada. Ela sabia disso, já havia passado por várias situações semelhantes onde seus colegas de gangue a tratavam como mera ferramenta ou moeda de troca, mas ela estava decidida a mudar sua própria situação.

Então porque aquela loirinha ingênua também não podia mudar a sua?

Pediu duas cervejas enquanto permaneciam em silêncio, mesmo quando as bebidas chegaram ficaram um tempo sem dizer nada. Jungeun deixou que a garota refletisse sozinha um pouco, colocasse os pensamentos no lugar. Ela não parecia ser uma garota ruim, devia ser a típica estudante que havia se apaixonado perdidamente pelo seu namorado e sonhava com véus e grinaldas enquanto ele queria apenas levar uma garota bonita para a cama.

Sentiu o estômago revirar de nojo só com aquele pensamento.

- Qual seu nome? – para sua surpresa foi a outra menina quem quebrou o silêncio, levando a garrafa de cerveja aos lábios.

- Me chamo Jungeun. O seu é Jinsoul, não é? Eu ouvi quando ele falou.

- Sim.

A garota tornou a beber, Jungeun permitiu-se analisa-la melhor. Ela era realmente muito bonita, tinha um rosto bem marcante. O cabelo era claramente tingido, mas aquele tom platinado em seus cabelos ondulados lhe caía muito bem. Não parecia ser má pessoa, devia ser uma menina muito gentil. Pelo menos era a imagem que ela passava para além da garota desolada que havia descoberto que seu namorado era um babaca.

- Eu pareço estúpida, não é? – falou timidamente – vindo até aqui, nesse buraco. Eu sempre fiz tudo o que ele queria, sabe? Ele sempre me tratou tão bem. Mas desde que eu me mudei ele ficou assim, mais exigente. Acho que ele nunca me entendeu de fato. Ou nunca gostou de mim.

- Não acho que você seja estúpida. Você só teve o azar de cruzar com pessoas escrotas.

- É, infelizmente eu tenho essa sina de cruzar com pessoas ruins – foi quando os seus olhares se cruzarem diretamente pela primeira vez- você também é?

- Bom – aquilo a pegou de surpresa, afinal ela quase havia furtado a menina diante de si- sou. Sou uma pessoa que faz coisas questionáveis. Mas não tenho intenção de te prejudicar, se é isso que quis saber.

- Entendo – ela pareceu conformar-se com a resposta enquanto voltava a beber- obrigado por não querer me prejudicar, Jungeun.

- De nada, Jinsoul- ficaram em silêncio até que ambas haviam finalizado suas garrafas – o que pretende fazer agora?

- Ir para casa. Dormir – ela respondeu simplesmente.

- E quanto ao mauricinho?

- Ele que se dane! – respondeu dando um sorrisinho ladino, deveria estar imaginando coisas terríveis acontecendo com o seu, agora, ex-namorado.

- É isso aí! – concordou prontamente, as duas rindo juntas.

Duas desconhecidas rindo juntas, como se não tivessem preocupações. Jungeun não sabia, mas aquele seria o momento onde ela teria seu destino mudado para sempre.

 

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Já fazia uma semana que Hyejoo havia ido morar com o clã. Por mais que ainda não estivesse completamente habituada à nova rotina já se sentia bem menos estranha ali dentro. Como ainda não tinha retornado às aulas – felizmente não havia perdido muito conteúdo já que a escola estava se empenhando nas consultorias e testes vocacionais-, passava o dia com as meninas, aprendendo sobre rituais, chás, encantamentos e treinando suas novas habilidades.

Seu treinamento era sempre supervisionado pelas outras meninas. Por mais que gerar fogo não fosse mais nenhuma dificuldade para si, ela ainda não era capaz de controla-lo e podia as vezes incendiar mais coisas do que o planejado. Era mais uma questão de segurança. Mas adorava conversar com Yeojin sobre as plantas da estufa ou aprender encantamentos simples com Heejin. Não conseguia fazer muita coisa além de levitar pedras pequenas ou fazer objetos mudarem de cor, mas Haseul sempre aplaudia empolgada quando ela fazia algo. Se seus professores fossem igual ela sua vida escolar teria sido bem menos maçante.

Ainda sentia muita saudade de casa, falava com sua mãe todos os dias pelo celular. Haseul havia lhe dito que não haveria problema se ela quisesse voltar a morar com a mãe, elas ainda saberiam onde ela estava de todo modo e ela não correria perigo. Mas a verdade é que ela estava em dúvida, algo dentro de si lhe dizia que ela deveria continuar ali. Mas jamais poderia deixar sua mãe sozinha, então voltaria para casa assim que possível.

- É sua vez, Hyejoo! – Jinsoul chamou sua atenção apontando para o tabuleiro diante de si.

- Desculpe, me distraí um pouco – voltou o olhar para as peças de xadrez diante de si, estava numa enrascada e sabia que iria perder de qualquer forma – já é a terceira vez que você me deixa num beco sem saída com essa torre.

- É minha estratégia especial – a loira exclamou sorridente, adorava vencer as novatas naquele jogo- e não é tão difícil assim sair dessa, Hye. É que você sempre foca nas mesmas peças, precisa se arriscar um pouco.

Analisou novamente o tabuleiro, tentando um movimento que ainda não havia feito. Algumas jogadas depois e Jinsoul já havia encurralado definitivamente o seu rei, mais um xeque-mate. Hyejoo bufou em descontentamento enquanto a loira apenas ria da sua expressão emburrada. A mais velha era muito boa naquele tipo de jogo.

- Você disse para eu arriscar e eu perdi do mesmo jeito.

- Você estava jogando na retaguarda e também perdeu, pelo menos você fez algo diferente – a mais velha ralhou, reorganizando as peças para uma nova partida- quer tentar de novo?

- Acho que já completei minha cota de derrotas diária – brincou encostando a cabeça na parede atrás de si.

- Que pena – Jinsoul fingiu uma expressão de decepção enquanto voltava sua atenção para a outra loira presente no ambiente- e você, Eun? Não quer testar suas jogadas novas?

- Ah, estou bem aqui – Jungeun respondeu sem dar muita importância, estava concentrada lendo alguma coisa – estou terminando de montar meu plano de estudos para os vestibulares.

- Você já não fez isso, tipo, oito vezes só essa semana? – a outra questionou enquanto guardava as peças dentro da caixa.

- Tenho que recuperar o tempo perdido, Soulie, nem todo mundo nasce gênio como você – disse num tom de sarcasmo e recebeu um tapa no braço junto a algumas risadas.

Durante aquela semana Hyejoo pode notar um pouco de como a relação entre as meninas era construída. No geral, todas elas se davam bem, afinal moravam juntas por muito tempo. Elas tinham intimidade o suficiente para fazer piadas umas com as outras e também abertura para dizer o que estava incomodando, eram como uma grande família. Elas também pareciam sempre tentar incluí-la em suas atividades cotidianas, talvez como uma forma de fazer com que ela se sentisse mais próxima. Ela apreciava isso, não era algo forçado.

Todas as garotas ali também pareciam muito curiosas sobre si, sobre como tinha sido sua vida antes de tudo acontecer, o que ela gostava de fazer e coisas do tipo. Ela respondia na medida do possível, havia coisas que não queria contar ainda, e também sua vida não era lá das mais emocionantes. Em contrapartida, ela também tinha muita curiosidade sobre as meninas, mas tinha vergonha de perguntar sobre suas vidas, no entanto as vezes as mesmas lhe davam algumas informações sem que ela pedisse.

Com exceção de Hyunjin, que não trocava muitas palavras consigo. No início achava que talvez a garota não tivesse ido muito com a sua cara, mas depois de observá-la um pouco percebeu que ela era muito calada no geral. Ela sempre falava pouco, as vezes ela se empolgava um pouco em algum assunto e então logo percebia que estavam todos prestando atenção em si e se calava novamente. A única pessoa com quem ela parecia ser mais aberta era sua colega de quarto, Heejin.

Por algum motivo ela queria saber mais sobre Hyunjin, mas não iria invadir o espaço pessoal da garota apenas para saciar sua curiosidade. Ao menos tinha o mínimo de bom senso. Logo percebeu que a mesma estava sentada na sacada, próxima do trio. Ela lia algum livro de capa grossa e as vezes se distraia com um passarinho que tomava banho no bebedouro do jardim. Enquanto pensava sobre isso se deu conta de que estava encarando a garota e ela aparentemente havia percebido já que a encarava de volta com as bochechas ruborizadas. Hyejoo desviou o olhar atônita.

- Hyejoo, você acha que devo priorizar as exatas ou tentar treinar mais as áreas de linguagem? – felizmente Jungeun a questionou ainda anotando coisas sobre seu plano de estudos, fazendo a garota retomar a atenção para as loiras diante de si.

- Ah... – ficou meio encabulada com a pergunta já que ela própria não havia sequer lembrado do vestibular nos últimos dias – ontem você foi muito bem nos exercícios de cálculo, acho que você pode variar e focar mais em linguagem para que não fiquei muito entediante.

- Tem razão. Vou focar em Linguagem e amanhã farei um intensivo de Química- ela respondeu focada enquanto parecia montar horários em sua agenda.

- Você é muito dedicada, Jungeun. Derrotaria qualquer um da minha turma, até os que madrugam estudando.

- Tenho que recuperar o tempo perdido, não é mesmo? E fica bem mais fácil de montar um plano de estudos com uma estudante real aqui!

- É o seu primeiro vestibular? – questionou, apoiando os cotovelos nos braços da cadeira.

- Bom, digamos que sim. Fiz a prova do supletivo ano passado, eu nem ia fazer – ela disse fechando sua agenda e encarando o nada, como se estivesse escolhendo as palavras – achava perda de tempo, para uma... pessoa como eu, entende? Mas a Jinsoul praticamente me obrigou a fazer.

- Ei! Não fale como se eu tivesse apontado uma arma para sua cabeça e tivesse te obrigado a estudar – a outra ralhou fingindo estar ofendida, mas logo abriu um sorriso – bom, eu meio que obriguei sim, mas não usei nenhuma arma.

- De qualquer forma, eu fui bem nas provas e consegui um certificado de conclusão do colégio. E como agora eu posso prestar um vestibular, bom... Queria tentar tudo de mim, tentar um novo começo.

- Isso é ótimo, de verdade – Hyejoo disse em tom de apoio – deveria ter tentado antes, tenho certeza de que já estaria numa universidade agora.

- É, eu deveria mesmo – seu tom agora parecia triste e Hyejoo xingou a si mesma por ter falado aquilo – mas o estilo de vida que eu levava não permitia isso.

Hyejoo fez uma expressão confusa, sem entender muito bem sobre o que ela estava falando. Mas achou que seria melhor não falar mais nada sobre aquilo, era claramente um assunto desconfortável e a última coisa que ela queria era que a garota ficasse triste. Seu intuito era apenas de demonstrar apoio para que ela continuasse estudando. Mas por algum motivo a loira continuou falando.

- Estou realmente muito feliz de você estar me ajudando com isso, as meninas tentaram só que nenhuma tem paciência comigo para me ajudar a estudar.

- Não tem problema, Jungeun – respondeu com um sorriso- estamos sob a mesma pressão, acho que isso ajuda. Somos tipo uma dupla de vestibulandas sofredoras.

- Você está ocultando a parte de que você é extremamente preguiçosa e só está animada por conta da Hyejoo – Jinsoul soltou fazendo um bico com uns lábios, recebendo leves socos no braço enquanto Hyejoo apenas ria observando a boa química que parecia haver entre as duas.

- Não tenho culpa se vocês não compreendem o meu modo de funcionamento- disse fazendo uma careta para a mais velha.

- Vocês duas parecem ser tão próximas – Hyejoo comentou – se conhecem a muito tempo?

- Mais ou menos – Jungeun respondeu parecendo um tanto envergonhada- nossa história é um pouco complicada.

Antes que Hyejoo pudesse questionar mais alguma coisa foi surpreendida por um vulto que saltou em seu colo. A menina encolheu-se em meio a um grito, fechando os olhos com o susto. Só se tranquilizou quando ouviu um pequeno miado seguido das risadas das garotas. Ali em seu colo havia um gato totalmente preto e com penetrantes olhos amarelos que a encarava de forma tranquila, tranquila demais para o gosto de Hyejoo.

Logo notou a aproximação de Hyunjin que fez um sinal para o pequeno animal, o gato pulou do colo de Hyejoo e saltou nos braços da outra menina onde aninhou-se confortavelmente. A menina sentou-se ali perto ainda com o gato no colo enquanto Hyejoo se recuperava do susto que tivera. Seu coração era fraco, não aguentava essas coisas.

- De onde surgiu esse gato? – perguntou, com os batimentos ainda sobressaltados.

- Ele é o gato da casa – Hyunjin explicou calmamente- ele vive saindo para dar uns passeios, mas sempre acaba voltando. Não é?

O gato lambia a pata despreocupado enquanto a menina o observava. Ela nunca tivera coisas como animais de estimação, lembrava de ter tentando criar uns peixes de aquário e nenhum deles sobreviveu muito tempo. Por isso sua mãe jamais lhe confiou a vida de nenhum bichinho. Ela também não era muito fã de animais, não que não gostasse deles, mas preferia manter certa distância. Mas aquele gato até que era fofinho.

- Qual o nome dele? – perguntou aproximando-se mais, se encorajando para dar um carinho em sua cabeça.

- Ele se chama Orbit! – a outra menina respondeu, fazendo um sinal de que ela podia acaricia-lo – ele é mansinho, não vai te morder nem nada.

Mesmo receosa permitiu-se alisar a cabeça do animalzinho, que logo aconchegou-se ao afago enquanto brincava no colo de Hyunjin. Seu pelo era bastante macio e ele até ronronava com o carinho que estava recebendo. Hyejoo deu um sorrisinho enquanto brincava com o animal, podia ver com o canto dos olhos que Hyunjin também sorria e por algum motivo aquilo a deixou mais tranquila.

- Qual a idade dele? Não parece ser muito velho.

- Uns cinquenta anos mais ou menos – Jinsoul respondeu num tom desinteressado.

- P-perdão? Mas os gatos não vivem tipo, uns quinze anos?

- Ele não é bem um gato. É um demônio do sono, os avós da Haseul aprisionaram ele nessa forma e ele ficou por aqui mesmo durante esse tempo. Ele é um amorzinho agora- Jungeun acrescentou.

A loira havia acabado de falar aquilo como se fosse a coisa mais natural do mundo, Hyejoo estava estatelada e engoliu em seco com aquela nova informação. Voltou seu olhar para o gato que agora lambia seus dedos e sentiu todo o corpo estremecer. Não era todo dia que se tinha um demônio lambendo seus dedos- e aquele pensamento lhe soou tão bizarro que ela só queria sair correndo para longe daquela criatura.

- Vocês estão brincando com a minha cara! – a menina exclamou afastando-se do gato e voltando para o assento onde estava antes.

- Dessa vez, não – foi Hyunjin quem confirmou – mas ele está nessa forma a tanto tempo que nem deve se lembrar mais do que era antes.

A menina piscou os olhos surpresa várias vezes, havia acabado de ter um demônio-gato em seu colo, estava literalmente brincando com o diabo a segundos atrás. O gato ainda a encarava, se fosse humano estaria rindo dela agora pois seu olhar soava um tanto irônico. “Mansinho uma ova”, foi o que a garota pensou consigo mesma.

- Pretende visitar sua mãe esse fim de semana, Hye? – Jinsoul perguntou.

- Sim. Mesmo a Yujin não largando do pé dela eu sei que ela deve se sentir um pouco sozinha. Nunca ficamos muito tempo longe uma da outra, não desde que meu pai e minha avó faleceram pelo menos.

- Você deve lembrar deles todos os dias, né? – a loira disse sentando ao seu lado, como uma forma silenciosa de prestar apoio.

- Bom, eles faleceram quando eu tinha uns seis anos. Lembro de muitos momentos pontuais, mas não são tantas memórias assim. Sei que eles eram ótimas pessoas.

- Você é rodeada de pessoas iluminadas, isso é bom, dá para ver isso refletido em você – Hyunjin disse num tom quase inaudível, ainda acariciando o torso do gato em seu colo.

- Sim, tive essa sorte- ela respondeu.

- Desculpe, sei que deve ser muito incômodo perguntar esse tipo de coisa e tudo bem se você não quiser responder, mas... – Jungeun falou um tanto sem jeito.

- Como eles morreram? – a menina questionou num tom natural ao qual a loira apenas assentiu- bom, minha avó faleceu de câncer. Ela se tratou por muito tempo, mas parou de reagir aos tratamentos. E meu pai foi um acidente de trabalho, ele operava máquinas numa fábrica e segundo a polícia haviam roubado algumas peças da máquina na noite anterior. Ele não percebeu a falta delas e quando ele ligou o motor... bem, a máquina explodiu.

- Nossa, Hye! – Jinsoul exclamou – eu sinto muito.

- Tudo bem, isso faz tanto tempo. Ele sempre vistoriava tudo antes de começar o trabalho, mas naquele dia ele esqueceu de fazer isso, por algum motivo.

- Você disse que as peças foram roubadas? – Jungeun perguntou- conseguiram pegar quem foi?

- Na época as fábricas estavam sofrendo roubos de alguma gangue da região, eram coisas pequenas. Coisas que podem ser revendidas ou derretidas, geralmente em desmanches ilegais e essas coisas. Eram sempre engrenagens, parafusos industriais, as vezes algum painel de controle. Mas naquele dia haviam levado justamente o bombeador do aquecedor, acho que nem sabiam para que serviam.

- E sua mãe te contou tudo isso? – a loira questionou um tanto surpresa.

- Então, eu meio que li “sem querer” no boletim de ocorrência que o gerente da fábrica repassou para minha mãe. Ela deixa guardado no quarto dela, eu não resisti e li tudo uns anos depois. Lá tinha até um grupo que a polícia suspeitava, mas nada confirmado.

- Então eles sabiam quem estava cometendo os roubos?

- Mais ou menos – Hyejoo disse pensativa- eles suspeitavam de uma gangue local, ela já tinha desavenças com as Indústrias Song, então foram os principais suspeitos.

- Indústrias Song? – Jungeun exclamou, uma expressão um tanto desconcertada- a sede daqui de Seul?

- Bom, sim. Eu não consigo lembrar bem o nome da gangue, tinha nome de alguma coisa astrônoma. Acho que era Nebulosa, ou Supernova...

- Eclipse? – a loira questionou, a voz saiu mais tremida do a mesma gostaria, mas Hyejoo parecia não ter notado isso.

- Essa mesma! Inclusive ela acabou ano passado, vi no jornal que foram todos presos. Eles praticavam furtos naquela região há anos – a menina disse por fim, respirando fundo- nossa, nunca tinha falado sobre isso com ninguém antes. É um tanto reconfortante.

- Obrigado por compartilhar isso conosco! – Hyunjin disse calmamente, segurando a mão de Hyejoo, sendo o primeiro contato que as duas haviam compartilhado desde que se conheceram.

Jinsoul também tocou seu ombro dando um leve sorriso, e até mesmo o gato-demônio parecia lhe lançar um olhar de cumplicidade. Jungeun estava um tanto estranha, parecia não querer encarar Hyejoo nos olhos. A menina estranhou aquele comportamento, mas pensou que talvez ela apenas estivesse preocupada com os planos de estudo que havia montado. Após um tempo a loira apenas disse que não estava se sentindo muito bem e entrou para dentro. Jinsoul pareceu perceber que tinha alguma coisa errada e a seguiu no mesmo instante.

Hyejoo ficou ali ainda alguns minutos, tomou coragem para segurar o gato no colo enquanto Hyunjin também havia entrado para buscar alguma coisa. “Até que ele é mansinho mesmo, não esperava que um demônio fosse assim” pensou enquanto ele parecia brincar com os seus dedos. Depois de um tempo o gato saltou do seu colo e correu para dentro do lar, queria continuar brincando com ele então o seguiu para dentro da casa.

- Orbit! Vem cá, neném! – chamou pelo gato, mas ele continuou correndo escada acima – não acredito que eu me tornei “mãe de pet” – praguejou consigo mesma enquanto subia as escadas.

Chegou no corredor dos quartos seguindo o animalzinho, quando passou em frente ao quarto que Jungeun dividia com Jinsoul. As duas conversavam sobre algum assunto e a loira mais nova parecia estar muito aflita com alguma coisa. Hyejoo não era do tipo que escutava conversas alheias então deu meia-volta para ir atrás de Hyunjin, queria muito perguntar algumas coisas a ela. Mas antes que pudesse sair dali ouviu uma frase que a deixou confusa:

- Lippie, você acha mesmo que ela vai te odiar por isso? Você sequer participava dessas coisas! Você devia ter uns dez anos quando eles te acolheram, e o incidente já tinha acontecido antes disso- Jinsoul parecia tentar acalmá-la.

- Eu não tenho certeza se aconteceu antes ou depois – a outra respondeu num tom entristecido – e ela só está com a gente há uma semana, uma semana Jinsoul e ela quase morreu. Como ela vai confiar na gente sabendo que...

- Eun, você não teve nada a ver com isso, já te disse!

- Mas eu era um membro da Eclipse, Jinsoul. Como acha que ela vai reagir quando souber que uma de suas colegas de clã era da gangue que pode ter matado o pai dela?


Notas Finais


E aí? Vocês acham que a gangue da Lippie foi responsável? Como será que a Hyejoo vai lidar com essa nova informação?
Primeiro de tudo queria agradecer a todo mundo que está lendo a fic, espero realmente que vocês estejam gostando de passar esse tempo explorando esse universo comigo. Sei que posso demorar um pouco para atualizá-la, mas agradeço que vocês não desistiram de mim- ainda kkkkk
Espero que tenham gostado, me digam o que estão achando da fic nos comentários, se acham que está lenta demais ou qual personagem vocês querem saber um pouco mais :)

Beijinhos e até logo!


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