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História Cartas Ao Remetente - Capítulo 4


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Capítulo 4 - SETE ANOS NO FUTURO


Já era o sétimo início de inverno que nos encontrávamos aqui. O dia estava cinzento e o terreno estava encharcado de uma noite de chuva forte. A tempestade soprara uma confusão de folhas e galhos por todo o gramado onde agora Minhyuk chorava ajoelhado ao lado de uma sepultura, com a mão estendida para a lápide de granito. Seu corpo frágil tremia a cada soluço, enquanto os cabelos platinados pareciam mais desgrenhados do que na hora em que havíamos chegado. 

Eu o observava do meu lugar, sentindo a mesma dor que Minhyuk, porém não deixando transparecer meu sofrimento. 

O futuro agora estava no meu presente que me atormentava com passado. Uma nova etapa havia se iniciado a anos atrás, mas a dor parecia me perseguir para todos os anos a frente.

Longos anos haviam se passado desde que cheguei a Daegu pela primeira vez, vindo de Goyang e sete anos desde que os paramédicos haviam falhado na tentativa de ressuscitar Jooheon após o acidente do qual apenas nós dois sofremos.

Jooheon era um jovem bonito, com seus fios rebeldes por descolorir com tanta frequência. Aquelas covinhas nas bochechas que eu tanto amava, sempre apareciam quando ele sorria, e os olhos de um castanho bem escuro hora selvagens hora fofo derretiam o coração de todas as pessoas a quem ele era próximo.

Hoje, como todos os anos, eu observava Minhyuk chorar com um aperto no coração. Era sempre assim em todo o início de inverno. Minhyuk fez um esforço para se levantar e manter-se de pé, mas cambaleou e depois caiu, logo sendo amparado por Changkyun. 

Sete anos desde que Jooheon fora enterrado abaixo dessa lápide de granito. Sete inícios de invernos gelados, sofridos e solitários. Sete anos sem metade da minha alma. Sete anos desejando que fosse eu a ocupar o lugar de Jooheon. 

[•••]

Era um ritual nosso há 7 anos. Nos encontrávamos todos os anos para limpar a poeira do lugar, mas dessa vez seria diferente. Estávamos ali com o intuito de libertar algumas das lembranças de Jooheon.

— Vocês tem certeza de que estão prontos para fazer isso? - Hyunwoo perguntou assim que paramos de frente para o depósito do qual mantivemos alugado por anos para manter as coisas de Jooheon guardadas.

— Eu não tenho certeza de nada. - Minhyuk suspira pesadamente antes de se afundar ainda mais nos braços de Changkyun. — Na verdade eu acho que nunca estarei pronto, por isso é melhor fazê-lo de uma vez.

Hyunwoo faz um movimento para destrancar a porta, porém hesita, movendo seus olhos em minha direção como se buscasse por permissão. Nos encaramos por alguns segundos e em silêncio, nos comunicamos através do olhar. 

A porta de aço é alçada fazendo uma pequena nuvem de poeira. Hoseok se adianta para acender a luz, deixando visível para todos nós os lençóis brancos que cobriam alguns instrumentos e caixas que estavam dentro do depósito.

— Se vocês não se importarem, eu faço questão de ficar com essa. - Changkyun se pronunciou, abaixando-se para pegar a ponta de um dos lençóis e então expôr o cavalete com uma pintura inacabada por Jooheon. — Acho que se ele tivesse terminado ela, não teria ficado tão linda quanto ficou.

Enquanto Changkyun falava, nós observamos a pintura que metade estava colorida em tons de aquarela e a outra metade apenas no grafite escuro do lápis. A pintura se tratava do velho carvalho ainda em carvão, cercado pelos bordos. Essa pintura parecia refletir minha alma. 

Changkyun tinha toda razão em dizer que a pintura incompleta estava linda. Todos permaneceram em silêncio, dando apenas um aceno ao pedido do mais novo do grupo.

— Bom... vejam tudo e peguem o que acharem importante para vocês, pois o resto eu estarei doando. - Minhyuk disse, dando a todos a oportunidade de pegar um pouco de Jooheon para si. 

Nós separamos e arrumamos as coisas até estar quase escuro demais do lado de fora, sempre relembrando as histórias. O momento se fez repleto por um sentimento nostálgico e melancólico, mas ao mesmo tempo feliz, pois em todos eles havia Lee Jooheon.

[•••]

SETE ANOS NO FUTURO

Cinco meses depois...

Com meu retorno a cidade, minhas visitas ao túmulo de Jooheon aos domingos se tornaram tão frequentes quanto o encontro com meus amigos. Hoje, como todos os domingos, eu vinha até o cemitério e limpava as ervas daninhas que teimavam em crescer. 

Após terminar com a limpeza e depositar um buquê de peônias branca defronte a lápide, me levantei começando a sacudir as gramas presas em minhas vestimentas. Como se fosse um ímã, meus olhos se direcionaram até o homem esbelto que assim como eu, se fazia presente todos os domingos.

Seu andar passava um um ar elegante, mas sua imagem parecia carregada em tormenta. Eu nunca o via chegar, assim como também nunca via a hora em que ele se retirava. O homem não olhava em minha direção, mas estranhamente eu tinha total certeza de que ele estava ciente de todos os meus movimentos. Sua aparência me trazia a sensação de dejavu.

Após acender o incenso no túmulo de Jooheon, eu olhei para o relógio em meu pulso constando ser 18h30. Faltavam poucos minutos para o local ser fechado, por isso comecei a recolher algumas coisas que deveriam ser deixadas na caçamba de lixo. Quando me preparei para me retirar, não passou despercebido por mim o fato do homem não se encontrar mais presente. 

Após deixar as ervas e raízes na caçamba de lixo e antes que eu iniciasse minha descida pela colina, meus olhos novamente capturaram o homem de terno,  percebendo quando ele tomou o caminho para a floresta das sombras ao invés da saída do cemitério. Ousei gritar para ele no intuito de interceptar tal ato, mas o mesmo não me dera atenção, me fazendo cogitar a possibilidade de não ter escutado meu chamado. 

Como morador da cidade, eu sabia que se o homem que aparentava carregar consigo o luto não soubesse andar pela floresta, estaria fadado a cair em diversas armadilhas que se encontravam ocultas nas sombras da natureza. Antes que eu me desse conta, já estava a caminhar na mesma direção que o homem, adentrando a mata escura e densa.

A Floresta das Sombras era o último lugar que eu gostaria de estar, pois mesmo que entrasse e saísse sem problemas, ainda houveram muitos casos de pessoas que entraram e não conseguiram sair, mas no momento, a situação não me deixara outra escolha.

Eu andei seguindo a pequena trilha marcada, contando apenas com a claridade débil do lugar. Torci para que o homem tivesse tido a capacidade de perceber a trilha entre as árvores, pois assim só haveria um lugar que ele poderia chegar. O riacho.

Eu conhecia cada buraco, cada raiz que aflorava naquela trilha, poderia até mesmo correr por ali de olhos fechados se quisesse e tudo isso graças a Jooheon. Seguindo até o topo de uma pequena elevação, passando por uma concentração de bordos, descendo em seguida ao lado de uma cascata e passando alguns ciprestes na copa, eu finalmente consegui alcançar o riacho. 

Trinta metros a minha frente, avistei o homem de terno observando o correr da água. No momento em que estava prestes a anunciar minha presença para o homem, houve uma súbita rajada de vento que me fizera cair e rolar a pequena copa. 

O som alto do tic tac de um relógio soou a minha volta e logo uma voz suave porém um pouco estrondosa me alcançou junto ao vento.

— Eu sou o Tempo.

O homem a minha frente me encarava e seus olhos brilhavam em um azul néon. Seus lábios não se moviam, mas estranhamente eu tinha ciência de que a voz que ouvira a pouco junto ao vento, pertencia a ele.

— Vocês humanos acham que eu passo rápido, que eu não volto e que eu também não perdoo. O que muitas vezes pode ser considerado verdade, mas agora, eu estou aqui, disposto para que a gente converse com calma. - Tempo permaneceu parado em seu lugar. O vento forte parecia não atingí-lo. — Eu sou o senhor do passado, presente e futuro, também das horas e dos minutos. O mesmo desejo de seis pessoas de voltar ao antes desafiaram minhas leis e me trouxeram até aqui. Eu venho até àqueles que mesmo sem querer, me mandam mensagens em meio as lamentações do luto. Você sempre pediu mais tempo com ele ou até mesmo uma oportunidade de fazer diferente, mas pelo que eu vejo, desde que eu permiti que suas cartas chegassem até o seu eu passado, vieres a permanecer no mesmo lugar mesmo com novas lembranças. - Dessa vez ele se aproximou, seus olhos parecendo perfurar minha alma. — O ano já está acabando e tudo continua correndo contra o relógio, por isso, eu gostaria de lhe dar um conselho. Pense menos em mim e mais em você. É perdendo tempo que se ganha a vida. Nestes anos que se passaram, quanto tempo você passou com a sua família ou amigos? Você quer fazer diferente e pediu para o seu eu passado também fazer diferente, mas continua persistindo no mesmo erro. O meu maior segredo não está nas horas que passam, mas sim nos momentos que ficam, pois são eles que vão contar sua história.

Eu engoli em seco e tentei falar ou mesmo questionar suas palavras, mas meus lábios pareciam selados, impossibilitando tal ato. Como se lesse as dúvidas impregnadas em minha mente, Tempo respondeu.

— Você pagou bastante a sua dívida de sofrimento e martírio ao longo desses anos - O vento silenciou assim como a água do riacho parou de correr. Era como se tudo tivesse parado. Nem mesmo os pássaros estavam cantando. — por isso eu estou disposto a lhe oferecer uma nova chance, mas não sei se essa solução será do seu agrado. 

Quase que automaticamente um pensamento se passou em minha mente: Apesar da dor que carrego, nem tudo fora apenas sofrimento e dificuldade, mas a oportunidade de fazer diferente ainda é tentadora.

Tempo sorriu de modo curioso para mim. 

— Eu sei disso, pois eu conheço os anseios do seu coração e por isso quero deixar-lhe ciente de que toda e qualquer decisão que vier a tomar não carregará apenas o conhecimento que traz desde cedo, mas também o peso de sete anos de lições de vida em cada um dos estágios dos seres humanos envolvidos. 

Diferente da vez anterior, eu apenas acenei, mostrando estar ciente de tal responsabilidade.

— Ótimo. Naquelas cartas haviam mensagens capazes de ajudar a guiar o caminho do seu eu passado a fim de criar novos momentos que ficariam para as histórias no presente do seu futuro, mesmo que você estivesse ciente de que o final continuaria o mesmo. - Respondeu Tempo. —  Estou dando a você a oportunidade de fazer um novo futuro, mas entenda, existe um preço: O dia em que você veio desejando ter feito tudo diferente está prestes a ser mudado e a partir do momento em que ele ocorrer e a história mudar, esse presente nesse futuro deixará de existir e outro incerto será escrito em um mundo paralelo. Tem certeza de que é isso o que você quer? 

As palavras dançavam em minha mente fazendo-me lembrar das noites que passei em claro pensando no que aconteceria caso eu ainda tivesse Jooheon ao meu lado.

Eu tinha ciência de que meu desejo era egoísta, mas ali estava uma oportunidade de ter o meu amor vivendo novamente. Eu sentia que agora seria diferente.

— Pela sua expressão e pensamentos, eu já estou ciente de sua decisão. - Tempo ergueu-se, me olhando de cima.  

— M-meus amigos...

— Não há necessidade de despedida. O destino deles será o mesmo que o seu, pois suas almas compartilham do mesmo erro e desejo. - A voz de Tempo ribombou. — Assim como aquelas cartas que você escreveu ao longo dos anos encontraram seu destino, eu permito que você embarque e encontre aquele que tanto deseja. 

A expressão de Tempo era inescrutável ao que o vento começou a soprar forte, desvanecendo a imagem do homem e trazendo o negro para dentro de mim. 


O fim é apenas um novo um começo...


Notas Finais


Olá para você, querid☻ leitor☻ que chegou até aqui. Sou Malluma, muito prazer!

• Primeiro, eu quero agradecer por você ter me fornecido a honra de receber sua leitura em minha obra.

• Segundo, me desculpem qualquer coisa fora de contexto, isso se trata de uma ficção e por mais que seja um dos meus gêneros favoritos, não sou boa desenvolvendo histórias com ele. KKKK

Bom... Eu sinceramente espero que você tenha usufruido e que tenha conseguido entender todo o contexto passado, presente e futuro. Tentei deixar o mais claro possível.

Quero também fazer um comentário sobre essa frase → "É perdendo tempo que se ganha a vida." : Ela é uma das quais eu levo pra vida, pois foi lendo e relendo ela que eu entendi seu sentido, chegando a conclusão de que há muita razão nela. Muitas vezes consideramos alguns momentos como perda de tempo, e mais tarde, quando o tempo já passou, acabamos por nos dar conta de que aquele momento em que consideramos perda de tempo, seria o momento que traria ótimas lembranças. Então, PERCA TEMPO PARA GANHAR VIDA!

Beijos no coração brilhoso de vocês.

Você que leu até aqui, eu agradeço.

Gomawo.

Saranghaeyo. ♡


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