História Cartas de Clotilde - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Categorias Chaves
Tags Chaves, Dona Clotilde, Drama, Epistolar
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Palavras 1.668
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia)
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 1 - Cartas de Clotilde


 

15 de agosto de 1975

Como vai você, minha irmã? Faz tanto tempo que não nos falamos. Como vão as coisas aí em Paris? Na última carta você disse que havia conhecido alguém, me conte mais sobre ele. O nome dele, o que ele faz pra viver, essas coisas. E a minha sobrinha linda como está? O aniversário dela está chegando, queria poder visita-las… Me mande uma foto dela, por favor.

Bem, por aqui tudo está do mesmo jeito. Nenhuma novidade. Todos os dias são iguais aos anteriores. Eu acordo, cozinho, arrumo a casa, lavo a roupa, saio pra fazer compras e as crianças da vila me perturbam a paciência. Sempre com aquela história de ficar me chamando de bruxa. Ah, como eu odeio isso. Volto pra casa e no outro dia tudo igual de novo. Quando é dia de pegar minha aposentadoria eu aproveito pra dar um passeio pela cidade. Pego o ônibus que dá a maior volta e fico rodando, observando as ruas e as pessoas. Tirando a nossa vila que continua sempre igual, as coisas tem mudado muito aqui no México, minha irmã. Venha me visitar quando puder e você verá.

    Beijos e abraços de sua irmã Clotilde.

29 de outubro de 1975

    Nossa, como a minha sobrinha está grande! Obrigada pela foto. Vou guarda-la com carinho.

Então quer dizer que seu namorado é um pintor? Como como deve ser excitante namorar alguém interessante assim. Um pintor parisiense...

Ah, minha irmã, continuo sem nenhuma novidade para lhe contar. Mas trago uma angústia em meu peito que gostaria de compartilhar com você, a única pessoa com quem posso dividir essas coisas. Espero que você possa me entender e, se possível, me aconselhar.

Já lhe contei sobre os meus sentimentos a respeito do meu vizinho. Você deve lembrar dele pelo nome que todos o chamam: Seu Madruga. Mas seu verdadeiro nome é Ramon.

    Sinto um amor não correspondido por ele há anos, minha querida irmã, e a cada dia que passa me sinto cada vez mais sufocada. Não sei explicar o que sinto, mas é como se eu fosse encolhendo e encolhendo até ficar pequenininha. Você já imaginou o que é viver anos ao lado de alguém que você ama e não essa pessoa não ter olhos para você? Como dói cruzar com ele todos os dias no pátio da vila e não poder abraça-lo, beija-lo… Por que é tão difícil que ele me note? Será que se tivéssemos nos conhecido quando eu era mais nova ele teria olhos para mim? Estou velha, minha irmã. Essas coisas fazem a gente pensar nas tristezas que a idade traz.  

    Nós até que nos damos bem, Ramón e eu. Sempre que preciso de ajuda com algo aqui em casa eu o chamo e ele prontamente vem ao meu auxílio. E ele adora minha comida. De vez em quando eu asso um bolo ou um franguinho para ele. O último que fiz as malditas crianças dessa vila estragaram, mas não vem ao caso lhe contar isso… Esses moleques ainda vão me matar, minha irmã.

    O que você acha que devo fazer?  Você lembra da Florinda, a vizinha aqui da frente? Na última vez que você veio aqui na vila, antes de se mudar, o filho dela ainda era bem pequeno. Kiko. Era um bebezinho lindo com as bochechas bem gordinhas. Hoje em dia ele é uma das crianças mais antipáticas e odiosas que eu já conheci, mas não é sobre isso que quero falar. É sobre ela e o professor Girafales, o professor do colégio aqui do bairro. Os dois estão juntos há um bom tempo e eu acho tão bonito o que eles têm. Eu os invejo muito, sabe. Sei que a inveja é um sentimento ruim, mas o que posso fazer? Eu queria ter alguém para conversar, passear de mãos dadas e  fazer todas as outras coisas que os casais fazem.  

Pois bem, minha irmã, como você deve lembrar, nossas casas são coladas e a parede do meu quarto é a mesma do quarto da Florinda e em algumas noites eu posso ouvir os dois fazendo amor enquanto estou deitada. Enquanto os dois emitem sussuros, risadinhas e gemidos da minha boca só saem soluços de um choro contido, preso na garganta, que vai saindo pouco a pouco até encharcar o travesseiro de lágrimas.

 Perdoe o desabafo e o conteúdo pesado da carta, minha adorada irmã. São só os lamentos de uma velha solitária. Você é a única com quem posso falar. Espero que da próxima vez eu tenha boas notícias para lhe dar.

    Um beijo de sua irmã Clotilde.

01 de dezembro de 1975

Olá mais uma vez, minha irmã. É sempre bom receber notícias suas. Não precisa pedir desculpas pela demora em responder, eu entendo que você é muito ocupada aí em Paris. Adorei as fotos que me mandou de sua viagem.

Saiba que dessa vez  tenho uma notícia boa para contar. Arranjei um cachorrinho para me fazer companhia! Quer saber o nome dele? Eu sei que você vai rir. Dei a ele o nome de satanás! Não me pergunte o motivo pois eu não saberia dizer. Acho que de tanto de me chamarem de bruxa acabei ficando afeiçoada de certas coisas estranhas… Dia desses ele fugiu e eu saí para o procurar e queria que você tivesse visto o medo das crianças enquanto eu gritava pela vila “Satanás! Venha cá satanás! Apareça satanás!”        

É tão bom finalmente ter companhia. Eu sei que ele me entende e eu sei que ele me ama. Ele me segue pela casa toda e dorme comigo na cama.

Só que nem tudo são flores na vida dessa sua velha irmã. Uma tal de Glória se mudou aqui pra vila. Ela e uma garotinha antipática chamada Paty, sua sobrinha.

O que acontece é que o Ramón, o meu Ramón, está arrastando asas pra cima dela e ela corresponde! Pela janela eu vejo os dois conversando e dando risadas juntos. Ele conversa com ela de um jeito que nunca conversou comigo. Ela a toca no braço, sorri olhando nos olhos dela e ela retribui, apertando a bochecha dele e o chamando de “madruguinha”.

    Ando muito triste, minha irmã. Muito mesmo. A rejeição dói na alma e no coração.

Dia desses eles foram ao cinema juntos, acredita? Você não imagina o quanto eu chorei aquela noite. Chorei até meus olhos secarem e arderem. Enquanto eu chorava, satanás deitava ao meu lado na cama e eu ouvia Dona Florinda e o professor Girafales fazendo sexo no quarto deles. Eu me sentia a pessoa mais sozinha do mundo.

Mais uma vez, esse é o resumo dos meus dias sobre essa terra. Me pergunto quanto tempo mais essa solidão há de durar…

Conte uma boa notícia, por favor, irmã amada.

Sua irmã, Clotilde.

15 de janeiro de 1976

   Pensei que você fosse me escrever no natal e no ano novo, minha irmã. O que aconteceu? Fiquei preocupada com vocês. Preocupada e receosa. Será que o conteúdo das minha cartas lhe cansou? Enquanto você sempre me conta sobre seus passeios, suas viagens, sobre ver minha sobrinha crescendo, eu só conto lamúrias e desabafo a minha solidão. Mas eu te peço, minha irmã, por favor, não deixe de me escrever. Se eu perder você estarei totalmente sozinha.

    Dia desses me peguei pensando na nossa adolescência. No tempo em que morávamos no interior com nossos pais. Nós sempre íamos às quermesses e festividades na praça do centro da cidade. Lembrei de como os rapazes nos cercavam. Nós éramos tão bonitas, tão jovens. Você sempre foi a mais namoradeira, mas eu não ficava muito atrás. Tive alguns bons namoradinhos naquela época. Imagino por onde estariam eles hoje em dia… E por falar em namorado, você não vai acreditar, mas eu arranjei um! Sim, minha irmã, é verdade. Um namorado. O nome dele é Sr. Furtado. Ele se mudou para a vila há algumas semanas. Mas, como sempre, as coisas nunca são perfeitas para essa sua velha irmã e eu vou lhe contar o porque.

Há alguns dias aconteceu algo na vila. Uns roubos. Algumas roupas da dona florinda, o meu ferro de passar e outras coisas mais. Todos acusamos o pobre do Chaves. Foi horrível, minha irmã, mas na hora não estávamos pensando direito. O pobrezinho foi embora da vila e enquanto ele estava fora todos os objetos furtados apareceram, logo não podia ter sido ele. O que ninguém além de mim sabe, é que o ladrão foi o Sr. Furtado, o meu namorado. Ele me confessou numa noite em que estávamos deitados na cama. Me pediu perdão e disse que foi algo que precisou fazer, mas que não se repetiria. Foi um choque descobrir que meu namorado é um ladrão, mas mesmo assim eu o perdoei. Na mesma noite ele me pediu dinheiro emprestado e saiu antes do amanhecer. Voltou alguns dias depois e pediu mais dinheiro, só que nesse dia ele dormiu comigo e nós ficamos namorando até tarde.

Às vezes ele faz isso. Pede dinheiro e some por uns dias, mas depois aparece cheio de saudades. Não sei, minha irmã, de vez em quando penso se o que estou fazendo é certo se é com ele que eu realmente deveria ficar. Só que aí percebo que pensar de mais só estraga as coisas. E além do mais, se quem eu amo de verdade não me quer o que me resta? Eu gosto do Sr. Furtado e ele, aparentemente, também gosta de mim. Isso não devia ser o bastante? Ele até perguntou se podia morar aqui comigo, mas que só viria se eu me livrasse do cachorro. O que você acha que devo fazer, minha querida irmã? Talvez tenha chegado a hora de me livrar de satanás e deixar outra companhia entrar.

E o seu namoro como anda? Nem acredito que agora vamos poder conversar de igual pra igual sobre nossos relacionamentos. Quem sabe um dias possamos viajar nós quatro juntos? Seria um sonho.

Um beijo de sua irmã, Clotilde.






 



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